domingo, 23 de agosto de 2020

O Ouro dos Tolos e o Odor de Alho: A Peculiar História Química do Telúrio


E-livro


Identificado no século XVIII na Transilvânia, o elemento batizado em homenagem à Terra é tão fascinante quanto invulgar.

A descoberta do telúrio remonta ao ano de 1782, nas regiões de mineração da Transilvânia (atual Roménia). O mineralogista austríaco Franz-Joseph Müller von Reichenstein analisava um minério de ouro local atípico - apelidado por mineiros de aurum album (ouro branco) ou "ouro dos tolos" -, que continha menos ouro do que o esperado e um elemento desconhecido que interferia no processo de extração do metal precioso.

Müller von Reichenstein suspeitou ter encontrado um novo elemento, mas foram precisos mais de 15 anos para que a descoberta fosse formalmente confirmada. Em 1798, o influente químico alemão Martin Heinrich Klaproth isolou o elemento e deu-lhe o nome de telúrio, derivado de Tellus, a deusa romana e personificação da Terra (fazendo um par conceptual com o elemento selénio, descoberto mais tarde e batizado em honra à Lua, Selene), como regista a Royal Society of Chemistry.

Na tabela periódica, o telúrio pertence ao grupo dos calcogénios (a mesma família do oxigénio e do enxofre). Na sua forma pura, é um elemento de aspeto prateado, brilhante e quebradiço. Quando queimado em presença de ar, produz uma chama azul brilhante e forma dióxido de telúrio.

Apesar das suas propriedades químicas e semicondutoras úteis, o telúrio carrega uma das características biológicas mais invulgares da química organometálica: o chamado "hálito de telúrio".

Quando humanos ou animais são expostos a pequenas quantidades de compostos de telúrio (mesmo através do contacto cutâneo ou inalação), o organismo metaboliza o elemento convertendo-o em dimetil telureto. Esta substância volátil é eliminada através dos pulmões e dos poros da pele, conferindo ao indivíduo um odor extremamente penetrante, semelhante ao do alho estragado. O efeito é notável por duas razões:
  1. O odor manifesta-se mesmo com doses de exposição microscopicamente pequenas (frações de miligrama).
  2. A duração do efeito é notavelmente persistente, podendo durar semanas ou meses após uma única exposição acidental, de acordo com relatórios de segurança da CDC / NIOSH.
Hoje em dia, com protocolos estritos de higiene e segurança industrial nas fábricas de semicondutores e metalurgia, os riscos de exposição grave foram drasticamente reduzidos. No entanto, o "efeito alho" permanece na história da ciência como uma lembrança pitoresca das peculiaridades biológicas do elemento que veio das entranhas da Transilvânia para moldar a tecnologia moderna.

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