quinta-feira, 19 de junho de 2014

An Elegy for Allen Ginsberg


O vídeo é um documentário biográfico intitulado "An Elegy for Allen Ginsberg" (Uma Elegia para Allen Ginsberg). O filme reconta a trajetória pessoal, a obra literária, o ativismo político e a busca espiritual de um dos poetas mais influentes da Geração Beat americana, Allen Ginsberg.

Ginsberg nasceu e cresceu em Patterson, na Nova Jérsia, no seio de uma família com uma forte vertente política: o pai era professor do ensino secundário e poeta socialista, e a mãe, Naomi, era uma imigrante russa e comunista convicta. Desde a infância e adolescência, Allen já demonstrava interesse pela poesia, escrevendo os seus primeiros versos por volta dos nove anos de idade, enquanto vivia uma juventude tímida e guardava em segredo a sua homossexualidade no ambiente escolar. Mais tarde, ao ingressar na Universidade de Columbia, teve encontros fundamentais que moldaram a sua visão artística. Um deles foi com o já consagrado poeta William Carlos Williams, que o incentivou a extrair poesia das suas anotações diretas e quotidianas. Outro marco decisivo foi conhecer Jack Kerouac, que o introduziu ao método da associação espontânea e da escrita sem autocensura, sintetizado no famoso lema de que o primeiro pensamento é sempre o melhor pensamento. Além disso, em 1948, Ginsberg vivenciou uma experiência mística em Harlem, na qual teve uma alucinação auditiva com a voz do poeta William Blake, o que determinou o trabalho da sua vida como a missão de transmitir essa consciência espontânea à humanidade.

Em meados dos anos 1950, Ginsberg mudou-se para São Francisco, onde conheceu Peter Orlovsky, que se tornaria o grande amor da sua vida e o seu companheiro inseparável. Naquela época, sob a influência do ambiente boémio da Costa Oeste, uniu-se a poetas como Gary Snyder, Philip Whalen e Kenneth Rexroth, iniciando o chamado Renascimento da Poesia de São Francisco e o movimento Beat num sentido mais amplo. O termo "Beat", conforme explicado no documentário, carregava múltiplos significados: desde o sentimento de estar socialmente derrotado ou reduzido ao nível mais baixo, passando pelo ritmo do jazz, até à definição de "beatífico", que representava uma iluminação espiritual alcançada por quem já não tinha mais nada a perder. Foi nesse cenário que Ginsberg escreveu e leu publicamente pela primeira vez o seu poema mais célebre, "Howl" (Uivo), numa noite histórica e caótica na Six Gallery. A obra provocou um enorme impacto e acabou por ser apreendida pela alfândega e pela polícia em 1957 por obscenidade. O julgamento por censura que se seguiu centrou-se no uso de termos considerados vulgares e na abordagem aberta que o autor fazia da homossexualidade e do consumo de drogas. O veredicto do juiz acabou por absolver o livro, determinando que, para ser considerada obscena, uma obra deveria ser totalmente desprovida de importância social redentora, o que impulsionou a fama internacional do poeta.

Outro ponto central na vida e na obra de Ginsberg foi a relação com a mãe, Naomi. Ela sofria de graves e intermitentes esgotamentos nervosos desde a década de 1930, alternando períodos de aparente normalidade com descidas profundas na paranoia e na loucura, o que a levou a frequentar diversos hospitais psiquiátricos e a passar por procedimentos médicos severos, como a lobotomia. Após o falecimento de Naomi, Allen canalizou a sua dor e o luto na criação de "Kaddish", um longo e doloroso poema elegíaco. Este texto não apenas expunha o sofrimento e a decadência mental da mãe, mas também simbolizava o idealismo político frustrado de uma geração de imigrantes que chegou à América em busca de uma utopia democrática, terminando em desilusão.

Ao longo dos anos 1960 e seguintes, Ginsberg consolidou o seu papel como uma figura central do ativismo e da contracultura. Viajou pelo mundo, experimentou substâncias como o LSD e anfetaminas como ferramentas de expansão mental e participou ativamente em protestos políticos, como as manifestações contra a Guerra do Vietname e os tumultos durante a Convenção Democrata de Chicago em 1968. Nesses episódios de confronto, utilizava mantras e cânticos budistas para tentar pacificar a multidão e acalmar as tensões diante da forte repressão policial. A sua constante busca espiritual levou-o a aprofundar-se no budismo tibetano após conhecer o mestre Chögyam Trungpa Rinpoche em Nova Iorque. Dessa forte ligação nasceu a Jack Kerouac School of Disembodied Poetics, um departamento de escrita fundado no Naropa Institute, em Boulder, no Colorado, onde Allen passou a ensinar poesia e meditação.

Mesmo na velhice, enfrentando diagnósticos de diabetes, paralisia de Bell e insuficiência cardíaca congestiva, Ginsberg manteve um ritmo de trabalho exaustivo. Era um arquivista obsessivo da sua própria existência, guardando diários de sonhos, registos telefónicos, recortes de jornais e anotações em guardanapos que documentavam a sua passagem pelo mundo. Perto do fim da vida, refletia frequentemente sobre a morte e sobre o desapego material e emocional, questionando como conseguiria deixar o próprio corpo estando cercado por tantas memórias, livros e amores. Allen Ginsberg faleceu pacificamente na madrugada de uma sexta-feira, aos 70 anos, no seu apartamento, rodeado por amigos próximos, poetas e monges budistas fiéis que recitavam preces tradicionais para guiar a sua consciência em direção à iluminação ou a um renascimento favorável. O documentário conclui ressaltando que a grande tarefa da poesia de Ginsberg foi a de revelar abertamente o mundo interior e os desejos humanos mais profundos que a sociedade costuma reprimir ou ignorar, unindo as dores de indivíduos de realidades completamente distintas numa única identidade coletiva.

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