![]() |
| Garça-caranguejeira (Ardeola ralloides) |
Há uma inteligência sem nome
na curvatura destas asas ocres e luminosas,
uma física precisa onde o ar não é vazio,
mas corpo, suporte e abraço.
Irmão Vento, que sopras sem pedir licença,
carregas a poética do espaço em cada pena.
A matéria acorda do seu longo sono:
a pedra que um dia sonhou ser planta,
a planta que ansiou pela vertigem do movimento,
até que a luz, semente da Noosfera,
revelou a consciência suspensa no azul.
Pequena Garça, não voas sobre a Terra -
és a própria Terra que ganha céus e olhares.
Não há rutura entre a tua garra amarela
e a humidade dos juncos lá em baixo:
o ecossistema é uma só teia,
uma teia profunda onde tudo o que existe,
respira o mesmo sopro.
O teu peito avança, alento puro e luz,
na metamorfose contínua da forma.
Sem artifício, sem esforço,
apenas o ser na sua mais pura,
simples e indivisível presença.
𝐽𝑜𝑎̃𝑜 𝑆𝑜𝑎𝑟𝑒𝑠, 13.08.2026

Sem comentários:
Enviar um comentário