quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Que caminho escolhe a evolução? Por vezes, o que o próprio desenvolvimento do organismo apontar



Um novo estudo realizado por uma equipa internacional liderada pelo investigador CE3C João Picão Osório vem desvendar um pouco mais sobre o processo evolutivo dos organismos, o que o potencia e o que o pode condicionar. Ao analisarem o desenvolvimento de tecidos de dois grupos distintos de pequenos vermes (nemátodes), os investigadores descobriram que a forma como as células respondem a mutações desempenha um papel determinante no seu destino. Em cada grupo, certas células mostraram-se muito mais sensíveis a pequenas variações genéticas ou ambientais, abrindo espaço para mudanças rápidas. Noutras, essa sensibilidade era menor, tornando a evolução mais lenta ou mais estável. A descoberta, publicada na revista científica PNAS, veio mostrar que é preciso compreender como as alterações genéticas se manifestam no corpo para percebermos os diferentes caminhos que a evolução pode tomar.

Mas afinal, como evoluem as espécies? Dentro de cada espécie, há diferenças naturais entre os indivíduos, como a cor, o tamanho e até a resistência a doenças, umas mais simples, outras mais complexas. Algumas dessas diferenças são transmitidas pelos progenitores aos seus descendentes e, se os ajudarem a sobreviver ou a reproduzir-se, concede-lhes uma vantagem que acabam por torná-las mais comuns ao longo do tempo. Com o passar de muitas gerações, essas mudanças podem transformar a população e dar origem a novas espécies. Embora normalmente vejamos este processo como resultado da combinação do acaso (mutações aleatórias ao longo dos genes) e da seleção natural (onde o ambiente seleciona o mais apto), este estudo oferece uma nova perspetiva, olhando para a predisposição de certos tecidos e células adquirirem funções diferentes devido às mutações que vão acumulando. Assim, não são apenas as forças do acaso e da seleção natural que determinam a evolução de um organismo, mas também o modo como a sua biologia e desenvolvimento o pode enviesar.

Este estudo demonstra a importância de como a estrutura dos processos de desenvolvimento podem enviesar os caminhos evolutivos de grupos de animais que divergiram há cerca de 160 milhões de anos. Desta forma, se investigarmos as características dos seres vivos que têm maior probabilidade de mudar enquanto crescem e se desenvolvem, poderemos prever como esses organismos podem evoluir ao longo de períodos muito longos.

Imaginemos a relação entre a evolução e a biologia de um organismo como uma pessoa a explorar trilhos numa paisagem montanhosa e acidentada para alcançar os cumes com vistas deslumbrantes. Tipicamente, essa pessoa tenderia a escolher os caminhos mais acessíveis, seguros e com melhor vista. Mas, se o vento mudar ou se houver uma derrocada a bloquear a passagem, pode acabar empurrada para percursos mais íngremes e exigentes. Do mesmo modo, o desenvolvimento dos organismos pode atuar como uma força invisível: pode facilitar certos caminhos evolutivos, tornando-os mais prováveis, ou, pelo contrário, bloquear outros, impedindo que atinjam maior vantagem.

Neste estudo, a força invisível chama-se Wnt, uma família de proteínas que atuam como mensageiras entre as células, indicando-lhes como se devem comportar: quando se dividem, que função devem assumir e para onde têm de se mover dentro do organismo. Nos nemátodes investigados, dos géneros Caenorhabditis e Oscheius, a Wnt cria um gradiente de mensagens ao longo do corpo levando a que, de acordo com a posição de cada célula nesse gradiente, algumas se tornem mais sensíveis a pequenas alterações de origem genética ou ambiental, enquanto outras permanecem mais estáveis. Em Caenorhabditis, as células que estão na franja deste gradiente são mais vulneráveis a mudanças, a alterações rápidas e novas possibilidades evolutivas. Já em Oscheius, o gradiente de Wnt reduziu-se e alterou as células que são sensíveis a variação. Com base nestas observações, os cientistas propõem que a evolução não depende apenas das mutações que ocorrem, mas também da posição e da sensibilidade das células que as sofrem durante o desenvolvimento.

As conclusões da investigação, financiada pela União Europeia através das ações Marie Skłodowska-Curie, ajudam a perceber os diferentes caminhos evolutivos que organismos de linhagens próximas podem tomar, mesmo habitando em condições semelhantes. De forma mais ampla, permitem compreender melhor as interações entre dois fenómenos que intervêm na adaptação das diferentes formas de vida ao longo do tempo: a microevolução, que ocorre ao nível das espécies e das populações, e a macroevolução, que explica as grandes diferenças que surgem ao longo de milhões de anos.

domingo, 7 de setembro de 2025

Chega: Sociologia de um destino


1. Santa Eulália
Nas eleições legislativas de Maio de 2025, na freguesia do Bonfim, no Porto, o Chega teve 1760 votos (12%) e em Arroios teve 1752 (11%). Estas são duas das freguesias do país onde a imigração tem sido apresentada como um problema grave, desencadeando conflitos, insegurança e medo. A votação está longe de exprimir a tão famosa «percepção». Em Monte Gordo, o Chega teve 912 votos (50%) e na freguesia de Odemira a sua votação alcançou os 876 votos (32%). Em contrapartida, na freguesia de Caia, São Pedro e Alcáçova (Elvas) o Chega teve 1215 votos (49%) e na freguesia de Santa Eulália, também em Elvas, teve 286 votos (52%). Entre os vários testemunhos recolhidos, uma notícia da Lusa sobre Elvas refere que há um descontentamento geral da população com as políticas seguidas nos últimos anos: falta de médicos, de transportes, de segurança, isto, claro, no contexto de uma população envelhecida. Numa primeira análise aos resultados das legislativas parece ser mais claro que o fio que une o eleitorado do Chega está longe de se circunscrever, simplesmente, à imigração, tratando-se de uma combinação mais complexa de factores, que têm a crise do Estado e do Estado social em pano de fundo.

2. Portugal rural
De forma genérica, penso que é possível dizer que o Chega não tem uma expressão urbana acentuada, mas tem uma expressão rural forte, sobretudo (mas não só) em zonas do país com uma população substancialmente idosa, onde a presença do Estado (social) entrou em forte contracção nos últimos anos. O Alentejo é, aliás, disso um exemplo maior. Falamos de zonas de estagnação ou depressão económica fruto de um modelo económico hipercentralizado que destruiu a escala social que sustentou e construiu estes lugares durante séculos. A imigração é apenas uma expressão, nem sempre a mais forte ou preponderante, de um sentimento generalizado de perda: do Estado, da economia, da sociedade. Lugares despovoados que foram tornados obsoletos ou reduzidos à condição de simples paragens técnicas ou lugares de «exploração intensiva» (olival, eucalipto) na cadeia logística da grande agricultura industrializada que corre em grande velocidade para os centros urbanos, desfigurando ainda mais estes territórios.

O processo de desenvolvimento de Portugal a seguir ao 25 de Abril assentou numa mudança radical, antropológica, poder-se-ia dizer, que implicou o abandono de todo um modelo económico baseado na agricultura. Enquanto os novos núcleos urbanos e as grandes periferias foram associados à possibilidade de conquista de melhores condições de vida, uma grande parte do interior permaneceu vinculado a uma ideia de «atraso» e «subdesenvolvimento» ligado a uma percepção negativa da «vida rural». A agricultura tornou-se uma coisa do passado, anacrónica, entregue aos mais velhos. O resultado, como se observou, é um grande desequilíbrio demográfico, social e económico entre o «litoral» e o «interior». O interior rural é uma imensa acumulação de ruínas, casas abandonadas, campos por cultivar, extensas manchas de florestas ardidas. Um território vazio e destruído que parece ter sido objecto de uma guerra sem quartel. Uma guerra desencadeada pelo próprio capitalismo contra as populações, os seus lugares e a sua vida.

Ora, o grande fracasso dos 50 anos de democracia foi claramente a regionalização: isto é, a não implementação de políticas locais e regionais capazes de se opor a esse movimento de acumulação e concentração  inerente ao capitalismo. Pelo contrário, acentuou-se uma dependência generalizada, política e económica, do território nacional relativamente a Lisboa e, sobretudo, com a crise de 2007-2013, uma retirada constante e progressiva do Estado, pondo em causa a subsistência de serviços públicos essenciais (centros de saúde, postos de correio, escolas e, até, agências bancárias) e deixando para trás políticas estratégicas de planeamento. As juntas de freguesia, por exemplo, são uma caricatura do poder público. Há lugares em que estão abertas ao público apenas uma ou duas vezes por semana.

3. Uma economia asocial
Uma grande parte da população destes territórios é, de facto, filha do Estado social e das suas promessas: eles são os órfãos da social-democracia. A sua ideologia não é a da CDU ou a do Bloco ou do Livre, nem da Iniciativa Liberal, o seu discurso não lhes diz nada, porque é nos valores da social-democracia que foram formados. E foi a social-democracia quem os traiu. (Essa é a grande ironia política: a sua incapacidade em reconhecer que são esses partidos, o Bloco, o Livre, a CDU, os últimos representantes daquilo que resta da social-democracia e da salvaguarda do seu estatuto.) O Chega é a representação dos revoltados do sistema: aqueles que foram formados a partir das suas promessas irrealizadas e dos seus mitos. O Chega é o inconsciente reprimido da social-democracia, o grande reservatório das promessas que ficaram por cumprir ao longo destes últimos cinquenta anos.

Muitos destes lugares vivem hoje uma espécie de economia asocial ou dessocializada: o dinheiro circula, reproduz-se, mas não constrói uma comunidade, aprofunda desigualdades, isola, desvincula. O modelo da «exploração intensiva», seja na agricultura ou no turismo compreende uma economia separada da realidade social em que existe. Os lucros da sua actividade estão mais pertos dos seus accionistas nas Ilhas Caimão do que da freguesia de Santa Eulália.

A  figura do imigrante é talvez aquela que melhor exprime e torna visível o paradigma desta economia asocial, e, por isso, ele é um bode expiatório. A animosidade relativamente a essa economia destrutiva, esse sentimento de despossessão e de perda que atravessa o Portugal Rural é transferido para o imigrante. Porque aquilo que essas pessoas vêem no imigrante (desenraizado, deslocalizado, empobrecido) é o seu próprio reflexo: também elas se tornaram imigrantes num lugar que se tornou, também para elas, irreconhecível e estranho. Claro que isto não significa desvalorizar a existência de um racismo estrutural, animado de preconceitos relativamente alguém que é identificado como «outro». Curiosamente, em Monte Gordo passa-se o contrário: o turista, maioritariamente branco, não incarna essa lógica, porque é ele quem, desde logo, detém uma posição de superioridade de capital, mas a economia revela-se da mesma forma, isto é, na sua total associalidade e separação.

O neoliberalismo ganhou a batalha da demonização da esquerda parlamentar, aquela que lançou as bases da social-democracia, que fez a constituição de Abril, e que, na verdade, foi sempre a única a saber o que é o capitalismo, como o gerir, como o reformar e como o administrar de forma a fazer dele um sistema social minimamente aceitável. Não é certamente ao liberalismo e aos mitos da «mão invisível» que devemos a consolidação do capitalismo enquanto tal, porque este, sim, nunca teve a capacidade de pensar o capitalismo para além da reprodução imediata e privada do lucro. É por isso que a social-democracia existiu nos termos em que existiu: porque foi a fórmula que tentou, pese embora todas as contradições, construir um equilibro entre a voracidade exploradora do capital e um mínimo de políticas redistribuidoras e sociais.

4. Covas do Barroso
Na freguesia de Covas do Barroso, a Aliança Democrática ganhou com 60% dos votos, o Chega teve apenas 6%. (Há um debate interessante a fazer sobre as diferenças entre norte e sul. Rapidamente, talvez se pudesse dizer que no norte a presença da direita é forte e continua a prevalecer, enquanto no Alentejo não havia um enraizamento forte de um partido de direita capaz de dar voz a esse descontentamento despolitizado das classes médias). No caso de Covas, a exploração das minas de lítio ameaça destruir o frágil, mas rico ecossistema desta freguesia. E a população tem-se mobilizado arduamente contra o gigantesco poder desta multinacional apoiada pelos dispositivos políticos e legais do Estado Português. Ao longo dos últimos anos PS e PSD têm desenvolvido políticas absolutamente contrárias aos interesses desta comunidade e, no entanto, esta acredita que o voto na AD é aquele que melhor defende os seus interesses e a sua existência.

É um caso de estudo, mas sintomático. Contra todas as evidências dos interesses reais do Estado e do governo neste processo, a população continua a depositar o seu voto na AD. A «propriedade», os «valores da cultura local», a «iniciativa individual», são princípios consagrados que caracterizam esta população. Valores construídos certamente nas últimas décadas, talvez com menos base histórica do que aquilo que se poderia imaginar, veja-se a longa história do comunitarismo rural desta zona.

São estes os valores de que a direita se reivindica, mas não são certamente os valores que pratica. Não é a esquerda que persegue valores abstractos universais, é a direita. A abstracção do princípio da propriedade privada, por exemplo, permite num mesmo conceito condensar a pequena propriedade e a grande propriedade, legitimando a concentração e o monopólio fundiário, legitimando políticas que a médio prazo pressupõe a destruição do pequeno proprietário e do seu território. Do mesmo modo, nada há de «conservador» culturalmente na direita: têm sido estes os mais dinâmicos a colocar em causa os valores e o património cultural. Até a ancestral troca de sementes foi proibida em nome do negócio milionário das patentes e das grandes multinacionais do agro-negócio. Assim, paralelamente, nada pode subsistir de iniciativa individual numa economia asocial, numa economia que deixou de ter qualquer vínculo com a comunidade em que se insere. O estado de abandono e degradação, o isolamento em que vive o interior, resulta do conjunto de políticas específicas que foram levadas a cabo, nas últimas décadas, pelo PSD e pelo PS. O Chega recolhe todos estes despojos para construir e levantar outros mitos. Mas o objectivo é sempre o mesmo, em nome dos grandes grupos económicos deixar que o capitalismo possa continuar a trilhar o seu caminho, continuar a isolar, individualizar e atomizar a sociedade, mobilizando o princípio da propriedade como «último bastião de segurança» num mundo cada vez mais inseguro, isto é, tornado cada vez mais inseguro por esses cujo objectivo é apenas a maximização do seu lucro e dos seus rendimentos, nem que seja à custa da destruição da própria sociedade.

5. Esquerda e neoliberalismo
Não há «lições» para dar à esquerda. Há uma prática que precisa de encontrar as suas instituições, os seus instrumentos, as formas de organização e de acção colectiva, capaz de produzir uma crítica partilhável do capitalismo e desencadear um verdadeiro antagonismo diante da auto-confiança ilimitada deste. A crença absoluta no «fim da história» e no triunfo da democracia liberal reduziu a política à sua dimensão puramente gestionária e tecnocrática, isto é: despolitizou e desideologizou a política. Para a classe média, a política reduz-se à gestão do orçamento de Estado. Ela não vê a política como ideologia, porque se situa a si mesmo fora da história e para lá da história. A classe média não tem uma consciência política de si, nem da sociedade, dos antagonismos e das contradições que a atravessam e a produzem no quadro do capitalismo.

A incapacidade de pensar um modo de vida e um modo de organização colectiva da sociedade para além do capitalismo é sintomático de um senso comum que interiorizou plenamente os valores e os princípios do mercado, e que, por isso mesmo, não está habilitado para pensar as crises e o processo de expropriação permanente que hoje tomou conta da sua vida. O domínio do discurso neoliberal e dos seus mitos é hoje total. O direito a ser rico é hoje um direito universal incontestável fruto do «trabalho» e do «mérito» que ninguém se atreve a contestar, quando, na verdade, ele assenta na exploração do trabalho, na extracção de renda e na distribuição de dividendos. Há toda uma visão idílica da política, produzida pela social-democracia para pacificar as massas, que foi aproveitada pelo neoliberalismo e que dissimula hoje a realidade de uma guerra civil em curso. Quantos mais ricos, mais pobres existem. A luta de classes, a luta entre aqueles que detém os meios de produção e os que vivem da venda da sua força de trabalho, não deixou de existir. Bem pelo contrário, as formas de extracção de mais-valia não estão, hoje, apenas no trabalho, tomaram conta de todos os aspectos da vida, da saúde à educação. A desigualdade é a fundação e o destino do capitalismo. É certo que o capitalismo «produz riqueza», mas aquilo que o caracteriza é o modo como ele dissimula, externaliza e adia os custos pesados dessa produção.

Este é talvez o facto mais relevante do presente: a vigência única e absoluta de um capitalismo que absorveu tudo e todos e que não parece precisar de legitimação ou de justificação, precisamente no momento histórico em que se torna evidente como os princípios da economia capitalista baseados no progresso infinito e na exploração infinita dos recursos naturais colocam em causa as condições vitais e básicas da nossa própria existência: do desaparecimento assustador da biodiversidade aos nano-plásticos que fazem já, hoje, parte da composição do nosso corpo. E, no entanto, é a própria catástrofe, sempre prestes a acontecer, que parece hoje animar um neoliberalismo encantado e inebriado com a rentabilidade económica da iminência do próprio fim. E é também enquanto catástrofe iminente que a extrema-direita contribui para a normalização do próprio sistema e das suas políticas neoliberais.

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

O mundo ficou impressionado (deslumbrado) com o desfile militar da China. Porém vamos a factos


Embora as pessoas estejam impressionadas com o desfile militar chinês exibindo a mais recente tecnologia militar, convém lembrar que a China ainda apresenta um desempenho extremamente aquém do esperado.
A Suécia e a Noruega têm, em conjunto, uma população inferior à de Shenzhen, o Silicon Valley chinês. No entanto, possuem os seus próprios sistemas de defesa aérea de classe mundial desenvolvidos internamente, caças multifuncionais, os drones de reconhecimento mais pequenos do mundo utilizados pelas forças especiais em todo o mundo, sistemas AWACS, radares multifuncionais, sonar de abertura sintética, submarinos de última geração, corvetas furtivas, veículos submarinos autónomos de classe mundial, mísseis antinavio/ataque terrestre de longo alcance, destruidores de bunkers, torpedos pesados, obuses, artilharia Ramjet-155 e muito, muito mais.
A China é 88 vezes maior do que a Suécia e a Noruega juntas. No entanto, a Suécia e a Noruega são gigantes científicos e culturais. A escala Celsius, a dinamite, o Ikea, os ABBA, o Bluetooth, os Prémios Nobel, o primeiro pacemaker cardíaco implantado, o esqui... e a descoberta de 20 elementos químicos. São conhecidas pessoas destes países em todo o mundo, como Magnus Carlsen, Daniel Ek (fundador e CEO do Spotify), Nick Bostrom, Dolph Lundgren, Anders Jonas Ångström, Greta Thunberg e muitos outros.
E estes são apenas dois pequenos países europeus do tamanho de uma cidade chinesa que rivalizam com um país de 1,4 mil milhões de habitantes. E nem se esforçam tanto como a China.

Helsínquia cumpre um ano sem mortes na estrada: lições para Portugal



Helsínquia, capital da Finlândia, registou um feito histórico: entre julho de 2024 e julho de 2025 não houve mortes por atropelamento ou acidente rodoviário. A jornalista Adele Porters destacou, num artigo da revista Fast Company, o impacto das políticas de mobilidade urbana na prevenção de tragédias.

Este resultado deve-se sobretudo a um conjunto de medidas implementadas ao longo das últimas décadas. Entre elas destacam-se a exigência na formação de novos condutores, a adoção de métodos rigorosos de fiscalização e, sobretudo, a redução progressiva dos limites de velocidade dentro da cidade. Atualmente, cerca de 60% das vias de Helsínquia têm limite máximo de 30 km/h, um valor bastante inferior ao praticado em muitas capitais europeias.

Redução de velocidade: a chave para salvar vidas
A redução foi sendo feita de forma gradual: na década de 1970, a velocidade máxima era de 50 km/h na maioria das vias; já no início dos anos 2000, tinha baixado para 40 km/h. Esta mudança tem um impacto direto na sobrevivência das vítimas de acidentes. De acordo com o relatório Literature Review on Vehicle Travel Speeds and Pedestrian Injuries, do Departamento de Transportes dos Estados Unidos, uma pessoa atropelada por um veículo a 50 km/h tem oito vezes mais probabilidades de morrer do que alguém atingido por um automóvel a 30 km/h.

Outro fator determinante para a segurança rodoviária na Finlândia é a formação dos condutores. O processo inclui aulas teóricas e práticas, semelhantes às existentes em Portugal, mas com algumas diferenças de aplicação. Após a obtenção da carta, os condutores finlandeses entram num período probatório de dois anos, durante o qual não podem cometer mais de duas infrações graves. Caso contrário, perdem a licença e são obrigados a repetir os exames.

O regime probatório em Portugal: semelhanças mas resultados diferentes
Em Portugal, também existe um regime probatório, mas com duração de três anos. Durante esse tempo, os condutores estão sujeitos a regras mais restritivas: a taxa de álcool permitida é zero (0,0 g/l), o limite de velocidade nas autoestradas e vias reservadas é de 90 km/h (em vez dos habituais 120 km/h), e a acumulação de duas infrações graves ou de uma muito grave implica a revogação da carta, sendo necessário repetir todo o processo de obtenção do título de condução.

Apesar das semelhanças legislativas, os resultados práticos são bastante distintos. Em Portugal, as estatísticas continuam a revelar números preocupantes. Segundo o relatório da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), entre 1 de janeiro e 15 de dezembro de 2024 registaram-se 453 mortes em acidentes rodoviários a nível nacional. Lisboa e Porto foram os distritos mais afetados, com 54 vítimas mortais cada um. Só no distrito de Lisboa, em 2024, ocorreram quatro mortes por atropelamento, número superior ao registado nos anos anteriores (duas mortes em 2022 e duas em 2023).

Resumo dos dados relativos a Lisboa em 2024: 54 mortes em acidentes rodoviários entre 1 de janeiro e 15 de dezembro; 4 mortes por atropelamento durante o ano (em separado das anteriores).

O segredo para o trânsito mais seguro em Helsínquia
O segredo das medidas para um trânsito seguro em Helsínquia está, em grande parte, no planeamento urbano. As vias públicas estreitas — com uma largura média de apenas 3,3 metros — e a plantação de árvores junto aos passeios criam uma sensação de espaço mais limitado, incentivando os condutores a reduzir a velocidade.

Os engenheiros de tráfego da cidade analisam regularmente acidentes com vítimas mortais para compreender se a conceção das vias pode ter contribuído para os mesmos. Sempre que um cruzamento é considerado perigoso para condutores, peões ou ciclistas, as autoridades intervêm, ajustando o espaço para aumentar a segurança.

Alternativas ao carro e transporte público eficiente
Com passeios largos e várias ciclovias, muitos habitantes de Helsínquia conseguem deslocar-se diariamente para o trabalho sem recorrer ao automóvel. Ao contrário de outras grandes cidades que desmantelaram as frotas de elétricos e reduziram investimentos em ferrovias em favor das estradas, a capital finlandesa manteve e reforçou a sua rede de transporte público, tornando-a amplamente utilizada.

A fiscalização é rigorosa e inclui uma rede de câmaras que multam automaticamente os veículos que excedam os limites de velocidade. Quem circula mais de 20 km/h acima do permitido enfrenta uma multa proporcional ao rendimento. Em 2023, um milionário foi multado em 121 mil euros por esta razão, tornando-se num dos casos mais comentados do país.

A comparação entre Helsínquia e Lisboa mostra como a combinação de políticas públicas consistentes, fiscalização eficaz e limites de velocidade adequados pode ter um impacto direto na preservação de vidas humanas. Enquanto a capital finlandesa celebra um ano sem vítimas mortais no trânsito, Portugal enfrenta ainda o desafio de reduzir significativamente as suas estatísticas rodoviárias.

Saba, o segredo mais bem guardado das Caraíbas que Colombo desvalorizou



Situada a 45 quilómetros de St. Maarten, a ilha de Saba, com 13 quilómetros quadrados, não é o primeiro sítio que nos ocorre quando pensamos em turismo de aventura. Envolta em vegetação selvagem de todos os ângulos, esta ilha vulcânica quase parece vazia quando vista ao longe. Sem semáforos, nem arranha-céus, nem praias, nem multidões, permanece relativamente desconhecida, sendo uma das ilhas habitadas mais pequenas das Caraíbas.

No entanto, este isolamento é exactamente aquilo que torna Saba pouco convidativa e intrigante. Em 1493, a ilha chamou a atenção de Cristóvão Colombo, que preferiu não parar ali devido à sua costa escarpada. Ironicamente, aquilo que dissuadiu os exploradores atraiu, mais tarde, os bandidos: a ilha acabou por se tornar um dos esconderijos preferidos de piratas e contrabandistas, que se refugiavam nas suas falésias íngremes e enseadas isoladas.

Subir a Mount Scenery
Visível tanto a partir de terra como do mar, o vulcão adormecido de Mount Scenery é o pináculo de Saba e o ponto mais alto do Reino dos Países Baixos. Embora haja vários trilhos para percorrer, o mais extenuante é a escadaria de 1.064 degraus até ao cume– certamente não recomendado para principiantes.

Embora grande parte da terra tenha permanecido inutilizada até ao século XX, as encostas suaves foram cultivadas até à década de 1960, quando o Trilho de Mount Scenery começou a ser construído. “A minha tarefa era carregar cimento e água no burro do meu pai. Quatro homens e quatro burros. Comecei em 1969 e completei os degraus até ao último em 1970”, recorda o residente e guia, James ‘Crocodile’ Johnson.

Ao longo do trilho, verá flora e fauna selvagem de ambos os lados. O Giant Taro, ou ‘orelhas de elefante’, funciona como abrigo das chuvadas tropicais. Perto do cume, dois trilhos estreitos conduzem os caminhantes até ao centro da floresta nebulosa, densamente coberta de árvores de mogno e com uma neblina fresca bem-vinda.

Visite os melhores sítios para mergulhar
O pico de um vulcão extinto nas ilhas setentrionais das Pequenas Antilhas, Saba está rodeada por falésias e baías que conduzem a sítios de mergulho espectaculares. A ilha é particularmente famosa pelos seus pináculos e montes marinhos (vulcões subaquáticos) que se erguem até 26 metros acima da superfície. Existem mais de 30 sítios para mergulhar protegidos poucos minutos do porto e a ilha alberga o maior atol submerso do oceano Atlântico.

Os recifes em forma de anel são formados pela erupção de montes marinhos que expelem lava e criam ilhas oceânicas. Em seguida, corais minúsculos aderem a estas ilhas, criando o exosqueleto dos recifes. Com uma biodiversidade próspera, composta por baleias, tubarões, golfinhos, tartarugas e peixes, o Parque Nacional de Saba Bank foi criado em 2010.

Situado na extremidade oriental de um monte marinho em forma de ferradura, o Third Encounter atinge uma quantidade máxima de 33 metros e fica perto do misterioso Eye of the Needle. Estendendo-se 27 metros abaixo da superfície, o pináculo é o lar de tubarões-de-recife-caribenhos, tubarões-lixa, mantas, vários cardumes de peixes e uma garoupa de Nassau amigável chamada Charlie.

As famosas areias quentes e saliências dramáticas de Saba podem ser encontradas em Babylon, onde tartarugas-de-pente e tubarões-lixa deslizam graciosamente junto a fluxos de lava e rampas de areia. Um pouco mais a sul, as Hot Springs (Nascentes Quentes) realçam as origens vulcânicas da ilha com uma grande variedade de vida marinha e rochedos incrustados com corais.

Onde fazer caminhadas
É possível encontrar solitude em toda a ilha de Saba. Acordar com o suave coaxar de centenas de rãs arborícolas todos os dias. Existe natureza intocada em todos os cantos. Com as suas ruas serpenteantes e massas verdejantes, passear em Saba é como entrar e sair da ilha, mas também existem alguns trilhos de caminhada bem mantidos.

A vista do topo de Mount Scenery é deslumbrante, com fiapos de nuvens e vislumbres distantes da civilização, mas existem mais 20 trilhos de caminhada bem mantidos para caminhantes de todos os níveis. Partindo no mesmo ponto que o Trilho de Mount Scenery, em Windwardside, o Trilho Crispeenatravessa a floresta húmida secundária de Saba, onde poderá observar várias espécies de aves, insectos e flora vibrante.

Ponha o seu equilíbrio à prova no Ladder Trail (Trilho da Escada) – cerca de 800 degraus ao longo da costa. Este caminho foi outrora a principal rota para o transporte de mercadorias. Esculpida na rocha, a escadaria íngreme proporciona vistas panorâmicas do oceano e é uma lição de humildade.

Com poças tranquilas e ondas furiosas, o Tidepools Trail (Trilho das Poças de Maré) é um espectáculo para todos os sentidos. Este trilho fácil demora 25 minutos a percorrer (num só sentido) junto à costa e é uma maneira especial de observar rios de lava antigos e ecossistemas vibrantes.

Onde praticar snorkeling
A ilha é um destino mais indicado para mergulhadores e os praticantes de snorkeling costumam ser dirigidos para os recifes mais superficiais (Torrens Point, Tent Reef e Hole in the Corner), onde estarão mais seguros.

Os mares intocados e os vestígios vulcânicos atraem uma abundância de vida marinha para os recifes em redor de Saba. O Parque Marinho de Saba conta com mais de 30 sítios para mergulhar e alguns sítios para praticar snorkeling de fácil acesso. As águas pouco profundas de Wells Bay contêm uma variedade de espécies juvenis e estruturas subaquáticas interessantes. Também é um dos únicos locais de ilha onde pode entrar directamente no mar directamente a partir da costa, graças à sua praia que cresce e encolhe, dependendo das marés. Outro sítio de snorkeling popular fica na extremidade norte de Wells Bay. As águas protegidas e a transparência de Torrens Point proporcionam excelentes condições para um mergulho em águas rasas ou uma exploração de snorkeling mais experiente, com profundidades entre 1,5 e 9 metros. A opção mais comum para os visitantes é apanhar um barco para visitar alguns sítios para praticar snorkeling, com a ajuda de um guia

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Contributo sobre o Manifesto por um Pacto Nacional pela Floresta e pelo Território

A SPECO e 23 outras ONGA enviaram para o governo um contributo sobre o manifesto que ainda continua aberto à subscrição individual e de grupo sobre a necessidade de se estabelecer um Pacto Nacional sobre a Floresta e o Território.



São 23 as Organizações Não Governamentais e/ou Associações de Ambiente que se juntaram à Sociedade Portuguesa de Ecologia (SPECO) e assinaram este manifesto, que abaixo se junta, aberto à subscrição pública desde 25 de Agosto. Mais de 1500 cidadãos de diferentes quadrantes da sociedade, nomeadamente técnicos, professores, investigadores de laboratórios de Estado e de fundações, já o subscreveram.

Não podemos ficar parados. Cansámo-nos de esperar que as políticas estratégicas surtam efeito. Têm sido formadas comissões de estudo, disponibilizados financiamentos do PRR, do Fundo Ambiental, mas a acção continuada, a efectiva melhoria que se almeja para levar um pouco de dignidade e sustentabilidade ao Portugal interior tarda em concretizar.

Para além das povoações, também as Áreas Protegidas têm sido delapidadas e deixadas ao abandono. Depois de 1985 e 2017, 2025 foi já considerado o terceiro ano que afectou consideravelmente Áreas Protegidas, espaços que mereciam uma atenção redobrada pelo valor que representam, não só a nível nacional como europeu.

Precisamos de acção, já! Estamos dispostos a ajudar e a apoiar, a convocar a ciência, as empresas, os autarcas e as comunidades. Não podemos esperar por diagnósticos, novas comissões técnicas e independentes. As anteriores já diagnosticaram as causas e propuseram soluções, mas nada foi feito. Os erros perpetuam-se e o plano de ordenamento do território tarda em ser posto em prática.

É este apelo que as 22 ONGA transmitem ao Governo. Através deste Manifesto mostramo-nos disponíveis para apoiar um plano de acção que tenha efeitos directos no território. O ordenamento do território e a conservação da natureza nas suas Áreas Protegidas são as melhores ferramentas para o combate às alterações climáticas e para a sustentabilidade das populações do interior do país.

As organizações signatárias:



Leia o manifesto abaixo, e assine aqui.

Portugal violou direito de acesso à informação no caso da mina do Barroso


O Comité da Convenção de Aarhus concluiu que três instituições portuguesas retiveram de “maneira deliberada e infundada” informação durante a participação pública no processo de avaliação ambiental da mina do Barroso, em Boticas, após queixa apresentada em 2021.

A queixa foi apresentada em 2021 pela Fundação Montescola, uma organização não-governamental (ONG) espanhola, e a conclusão do Comité da Convenção Aarhus foi divulgada esta terça-feira, em comunicado.

A Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso (UDCB) e a MiningWatch Portugal foram observadoras no processo.

As três ONG consideram que o Comité “vem corroborar que o processo de avaliação de impacte ambiental não garantiu o direito à participação pública” e defendem a anulação da Declaração de Impacte Ambiental (DIA).

A mina de lítio a céu aberto obteve uma DIA condicionada em 2023 e a Savannah prevê iniciar a produção de lítio em 2027, no concelho de Boticas, no distrito de Vila Real.

A queixa remonta ao período da consulta pública da primeira versão do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) após terem sido negados vários pedidos de acesso a documentos ligados ao procedimento de Avaliação de Impacto Ambiental (AIA).

O Comité da Convenção de Aarhus concluiu que a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), a Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) e a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional Norte (CCDR-N) retiveram “de maneira deliberada e infundada informação”.

Entre outros, o comité considerou que a APA não respondeu ao pedido de informação ambiental no prazo estabelecido pela Convenção, que a APA e a CCDR-N retiveram informação ambiental alegando um critério de recusa infundado e que a DGEG incumpriu a Convenção ao remeter o pedido para outra entidade quando se encontrava na posse da informação solicitada.

Aponta ainda que a APA não garantiu um período razoável para a participação pública no âmbito do EIA reformulado (2023) e considera que a legislação portuguesa incumpre vários artigos da Convenção, como, por exemplo, manter um período de consulta de 10 dias úteis no caso do EIA reformulado que incumpre o artigo 6.º da Convenção, recomendando alterações que permitam um alinhamento com o tratado subscrito pelo Estado português.

A Convenção da Comissão Económica para a Europa das Nações Unidas (CEE/ONU) sobre acesso à informação, participação do público no processo de tomada de decisão e acesso à justiça em matéria de ambiente - conhecida habitualmente como Convenção de Aarhus - foi adotada em 25 de junho de 1998, na cidade dinamarquesa de Aarhus.

Em Portugal, a Convenção entrou em vigor em setembro de 2003.

“Esta deliberação é muito importante porque acaba com a ideia que as críticas que temos feito à condução do processo de avaliação são infundadas. A violação do direito ao acesso à informação e à participação pública é um motivo mais do que suficiente para anular a DIA e para começar o processo de avaliação do zero”, afirma, citada no comunicado, Carla Gomes, da UDCB.

Para Nik Völker, da MiningWatch Portugal, “as conclusões do Comité da Convenção têm consequências para além do projeto de lítio no Barroso”, questionando que garantias “oferecem aos territórios onde decorrem ou poderão vir a decorrer novos processos de avaliação ambiental”.

“Estas entidades saem descredibilizadas por via das suas ações e isto é mau para todos. Algo tem de mudar, e a anulação da DIA seria um sinal forte nessa direção”, salienta.

Em nome da Montescola, Joam Evans congratulou-se com a decisão e afirmou que esta ONG “trabalhará com a UDCB e a MiningWatch para garantir a proteção do Património Agrícola Mundial do Barroso", esperando que a "deliberação não seja atirada para debaixo do tapete".

“Queremos ações concretas por parte do Estado Português (...) A DIA tem de ser anulada e não descansaremos até o conseguirmos”, frisa.

A Junta de Freguesia de Covas do Barroso iniciou em 2023 uma ação legal para anular a DIA.

“Humanity is missing the bigger picture”: Sandra Díaz explains



Sandra Díaz mais conhecida no campo da ciência é a Sandra Myrna Díaz, ecóloga argentina, nascida em 1961.

🔹 Quem é:
É considerada uma das cientistas mais influentes do mundo na área da ecologia funcional das plantas, biodiversidade e serviços dos ecossistemas.

🔹 Contribuições principais:

  • Desenvolveu o conceito de “síndromes funcionais das plantas”, que ajuda a compreender como diferentes espécies vegetais contribuem para o funcionamento dos ecossistemas.

  • Foi uma das principais autoras do Relatório Global da Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos (IPBES, 2019), um documento fundamental que alertou para a perda acelerada da biodiversidade global.

  • Criou a base de dados global TRY, a maior compilação de características funcionais de plantas do mundo.

🔹 Reconhecimentos:

  • Recebeu o Prémio Princesa das Astúrias de Investigação Científica e Técnica (2019).

  • Eleita entre as cientistas mais citadas em ecologia e meio ambiente.

  • Considerada referência mundial em debates sobre natureza, sustentabilidade e futuro do planeta.

Escape With Romeo - Rattle in Our Cages



It cuts like a razor blade 
thoughts that made us feel so great 
we left dreams hidden in our eyes 
and excuses that sound like cheap alibis 

Sanity is your new assistant 
cruel like the gun in your hand 
we look at every new sensation 
that's made up by a tv station 

We thought rebellion 
could last for ages 
all we can do now 
is rattle in our cages 

here comes rebellion 

here comes rebellion 
is this rebellion ? 
here comes rebellion 
rattle in our cages

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Reinterpretar o fogo num tempo que extraiu dele um novo Adamastor


Este país, que durante séculos se pensou pelo mar, hoje vê-se encerrado pelo fogo, e com a extensão crescente da área ardida, se tantos vulgarizam o apelo da indignação, fica claro como esta apenas serve para ocultar um ajuste de contas, uma consciência da realidade que emerge pelo fogo, lavrando a cada verão como o grito de um território e de uma população abandonados

Dantes era o mar, esse elemento de expansão e ligação com o mundo, espelho convulso que nos abismava diante do desconhecido, um horizonte líquido e que prometia passagem, mas se este limite aberto recuou para a margem da memória, hoje é a orla flamejante que devora pinhais e eucaliptais a cada verão e nos convoca para um espectáculo de impotência e despossessão, é o fogo o elemento que mais nos acossa, capturando-nos, dançando ao nosso redor e pintando um inferno em cerco. Se o mar foi, outrora, uma promessa e um sustento, se nos treinou para a distância, para o conhecimento dos ventos, do risco e da deriva, desse antigo mar da História o que resta? Eduardo Lourenço notou como este banhava já «sem paixão o promontório sacro, donde outrora investimos o Desconhecido para hoje ainda, por esse gesto, termos no silêncio expectante de uma memória que nos julga na sua luz imperecível um rosto e um nome que são os nossos por nós sermos deles». Outro elemento reemerge agora para nos entregar a esse resíduo final dos tempos, e conseguimos ouvir-lhe o murmúrio sobre a terra, os picos desses fogos, o ar que de súbito nos enclausura. Se antes nos pensávamos pelo mar, hoje parece ser o fogo que pensa em nós, pensa por nós, nos força a imaginar um mundo em que já não controlamos nada, mas somos o alvo constante da predação de elementos sobre-excitados, que avançam sobre nós como titãs, arrasando tudo à sua passagem. O fogo deixa, assim, de ser uma arma, a nossa primeira técnica ou indústria, e liberta-se dessa chama que se deixava contemplar, tornando-se uma muralha móvel, inferno imediato, que atravessa aldeias e compromete tudo. Parece, assim, romper com esse delírio empobrecido, essa lúgubre fantasia do quotidiano, e instala um excesso de realidade que consome a própria imaginação. O fogo deixa de ser símbolo e torna-se destino.

O historiador do ambiente Stephen J. Pyne diz que, num clima que era já propício a incêndios, as alterações climáticas e as mudanças no uso da terra, nomeadamente através da agricultura intensiva e de outras formas de exploração que apenas acumulam combustível, entrámos na era do Piroceno. Pela leitura do livro com este mesmo título, publicado entre nós pela Livros Zigurate, com tradução de Sara I. Veiga, fica claro que não se trata de um termo ostentoso ou de uma metáfora escandalosa, mas serve antes como um diagnóstico civilizacional: a história humana pode ser lida como uma história do fogo, e o tempo presente como a sua culminação mais ambígua. Desde o início, o Homo sapiens é um animal pirotécnico, distinguindo-se de todas as outras espécies pela capacidade de dominar a combustão e de a usar como extensão do corpo e da comunidade. O fogo alimentou as cozinhas e os mitos, abriu clareiras nas florestas, forjou ferramentas e territórios, e, sobretudo, instaurou uma ecologia artificial, uma ecologia do fogo, onde natureza e cultura se confundem. Assim, ao invés de propor algum rótulo geológico, o que Pyne nos oferece é uma cronologia que nos permite actualizar algumas noções decisivas. Se o Holoceno foi a idade da estabilidade climática e o Antropoceno a era em que o humano se tornou força geológica, o Piroceno é a idade em que o fogo industrial, liberto dos limites ecológicos, passou a governar. Ao queimar os combustíveis fósseis para alimentar esse estado de crisálida constante das sociedades modernas, absorvidas na mitologia do progresso, e cada vez mais alheadas da ecologia planetária, é o fogo, esse elemento que parecia condenado a tornar-se apenas metáfora ou resíduo, que regressa para nos sacudir deste estupor. Como se Prometeu tivesse finalmente partido os grilhões e viesse cobrar a dívida acumulada de séculos.

Pyne propõe, assim, uma tripla articulação: primeiro, o fogo natural, produto da fulguração terrestre, dos raios, das erupções, do acaso atmosférico; depois, o fogo cultivado, domesticado pelos humanos, agente de agricultura, de expansão, de conquista de espaços; por fim, o fogo fóssil, aquele que, desde a Revolução Industrial, escava os subterrâneos do planeta e liberta, de modo concentrado e inédito, a energia acumulada em eras geológicas. Essa última combustão – carvão, petróleo, gás natural – é a que funda o Piroceno: um tempo em que a humanidade queimou o passado fossilizado para inflamar o presente, convertendo o planeta num imenso campo de cinzas.

Sacrifício total
Deste ponto de vista, o Piroceno é simultaneamente técnico, climático e político. Não se trata apenas de incêndios florestais devastadores, cada vez mais frequentes, mas de uma mudança estrutural na relação entre as sociedades e fogo. O regime energético fóssil multiplicou a potência do fogo para lá de qualquer contenção cultural ou ecológica: onde antes havia ciclos, práticas de manejo, rituais de controlo, agora há uma combustão que não pode ser detida senão pelo esgotamento da própria matéria-prima ou pelo colapso climático. As chamas que ardem na Califórnia, na Amazónia, no Mediterrâneo ou na Austrália, são apenas sintomas localizados de uma pirotecnia global que revela o parasitismo na atitude que temos para com o planeta.

Assim, aquele fogo vivo que os povos indígenas sabiam cultivar, de tal modo que mesmo os campos de cevada pareciam inspirados nele, aproveitando-lhe o eco, deu lugar a esta irrupção descontrolada e que denuncia a lógica de supressão, fazendo nascer esse fogo que parece tomado de um ânimo vingativo, vindo reclamar com juros tudo o que lhe é devido. Neste quadro, já sem colónias nem extensões além-mar, Portugal parece recair uma vez mais nos seus vícios seculares, na tendência para a ruína que sempre nos acompanhou, vendo-se comprometido face à intriga cobiçosa que Camões já denunciara através do Velho do Restelo, cultivando as espécies mais rendosas e que mais o fragilizam. Se antes tínhamos uma agricultura que criava mosaicos, hoje deixamos apenas combustível acumulado à espera de uma faísca. Assim, não há ano em que o verão não seja atravessado pela expectativa do desastre, pelas imagens das chamas colossais, das colunas de fumo, aldeias evacuadas, cinzas a cair como uma neve sinistra. Aos poucos, o mar já não é a imagem central, mas é o fogo que molda a percepção contemporânea de um país ciclicamente em chamas, laboratório de uma era em que a paisagem se torna pira.

Quando o fogo devorar a terra inteira, se algo lhe sobreviver, talvez se diga que começou por aqui. Mas, por agora, o colapso é também da narração, pois sempre que essa coreografia macabra dos nossos verões se instala, com ela surgem os chavões e o tom enfático daqueles que preenchem os directos televisivos e que simulam o escândalo, uma má-consciência em pó para misturar em qualquer beberagem, e, para além disso, também os relatórios ministeriais e as sucessivas promessas de maiores investimentos, da afectação de mais recursos para o combate aos fogos, a criminalização, a prevenção. Por detrás de toda esta coreografia lateja uma falha de imaginação, enquanto o mais fácil continua a ser figurar o fogo como inimigo absoluto, sonhando-se a utopia de uma paisagem sem combustão. Quer-se negar os ciclos, a transitoriedade, e esse elemento de alquimia natural que o fogo providencia. Ao expulsá-lo, apenas se consegue alimentá-lo. Ao querer extinguir inteiramente as chamas, prepara-se o sacrifício total. Eis-nos, assim, diante desse Adamastor de brasas, que faz de nós mirrados argonautas de um século que nos atemoriza, sem bússola nem um verdadeiro anseio de qualquer espécie. Vemos emergir esse colosso no modo como as chamas serram ao vento, as brasas empalidecem e logo se adensam ainda mais, uma e outra vez, como o pulsar do sangue de um ser vivo eviscerado, e que se reergue, vingativo. «Assim, contemplamos o fogo que contém em si algo dos próprios homens, que são menos sem ele, estão apartados das suas origens e são exilados. Porque cada fogo é todos os fogos, e é o primeiro fogo e o último» (Cormac McCarthy). São estas as representações que emergem a partir do momento em que se quer fazer do fogo esse inimigo terrível, não nos deixando senão a hipótese de encarar o próprio futuro como um fogo devorador, que nos deixará reduzidos ao próprio fóssil da civilização que erguemos. «A imagem mais viva do inferno./ Eis o fogo em todos seus vícios:/ eis a ópera, o ódio, o energúmeno,/ a voz rouca de fera em cio», escreve João Cabral de Melo Neto.

E poderíamos levar bem mais longe este vitral em combustão, esta catedral consumida pelas chamas, como um imaginário que subitamente se propagasse também ele, sujeito ao mesmo clarão, sentindo o impulso de um deus convocado a partir das entranhas da terra. Ver-nos-emos assim cercados por «monstros sem ordem génios galopando na respiração estrelada dos meus pulmões», para trazer aqui uns versos de Ernesto Sampaio. «Olhar suculento mestre do horror e da audácia gelada em cada canto em cada flor de fumo colada aos ossos dum horizonte inocente e inesgotável/ Poeira dum astro pré-existente ao nosso espiral dos dias que estreitamos puros tripas da raiva vegetal que embrulhamos em cada palavra/ Fogo perpétuo fruto espantoso de bandeiras negras e vermelhas comboio que esmaga e canta e ninguém deterá».

Íntimo e universal
De qualquer modo, o ponto central e a advertência que colhemos nas páginas do livro de Pyne é de que esta ideologia da supressão do fogo está fadada ao fracasso. Enquanto isso, e para não comprometer os lucros, continua a acumular-se combustível, e o interior do país vê-se transformado num barril de pólvora. Ao suprimir as queimadas, esses fogos quase rituais que controlam a dispersão do mato, incubámos o tal monstro que depois só é travado quando toda a matéria que tinha à sua disposição para se alimentar foi consumida. O resultado é o que vemos verão após verão: esses incêndios imensos, tragédias como as de Pedrógão Grande, um país incinerado e que se tornou uma espécie de entretenimento televisivo para os que, nas cidades, se sentem defendidos. E o país aceita esta condição de epicentro do Piroceno, um país-vitrine do que acontece quando uma cultura deixa de integrar o fogo no seu regime ecológico e o relega apenas para o desastre.

Há aqui uma lição mais profunda, e que nos puxa para essa relação tão próxima com o fogo, sendo este, segundo Gaston Bachelard o elemento ultra-vivo. «É íntimo e é universal. Vive no nosso coração. Vive no céu. Ergue-se das profundezas da substância e oferece-se com o calor do amor. Ou pode descer de novo à substância e ocultar-se aí, latente e represado, como o ódio e a vingança. Entre todos os fenómenos, é de facto o único a que se podem atribuir com tanta nitidez os valores opostos do bem e do mal. Brilha no Paraíso. Arde no Inferno. É brandura e é tormento. É cozinha e é apocalipse.» Mesmo essa imagem de um cigarro aceso junto ao rosto, iluminando-o, admite esse ígneo impulso, esse anseio contemplativo, tão bem cultivado por estes versos da poeta russa Marina Tsvetáieva: «O cigarro arde e apaga-se,/ na sua ponta treme,/ como um poste consumido – a cinza./ Dá-te preguiça sacudi-la –/ o cigarro inteiro atravessado pelo fogo.»

Num tempo em que, diante dos avanços científicos, tudo, e até a religião, merece o seu sarcasmo, o fogo parece atravessar-se como um elemento ancestral, que vem escarnecer da prepotência que nos entregou a um estado de fragilidade absurda, colocando-nos à mercê dos elementos, e, desde logo, ao lado insano e impiedoso do fogo, que em mitologias antigas aparecia como dádiva divina, e agora surge como um Prometeu invertido. Atrás das noites, o incêndio corta pelo meio, como flor terrível que se abre no escuro. As ondas de calor mortíferas, os incêndios que acabarão por cercas as cidades, lembram teatros de guerra, e deixam claro como a criatura pirotécnica perdeu o seu pacto com a chama. Já não a domina. O Antropoceno, dito de outro modo, não é senão a face geológica do Piroceno: o homem imprime na Terra a assinatura do fogo que libertou.

Contudo, isto marca também uma cisão dentro da espécie, uma vez que, para boa parte dela, a humanidade se foi tornando em qualquer coisa de odioso. Podemos pressentir como já trazíamos o incêndio na cabeça, como um ensejo secreto de devastação de uma realidade absurdamente profana, e este já não seria justamente um país de marinheiros ou navegantes, mas de incendiários, uma vez que quem se sente queimado, devastado interiormente, toca tudo com essa ferida que anseia por degradar a envolvência, participando do horror que o consome. Nesta orla vã desfeita em que o país se transformou, condenando todos a sentirem-se estranhos à sua própria terra, é realmente de espantar que venha alguém lançar fogo à paisagem? Não é a absoluta impotência e o desvario dos sentidos que sopra intimamente uma fúria elementar, «como se um fogo celestial tornasse/ seu, de um instante para outro, os mais estranhos objectos,/ assim consagrando um intervalo/ de outro modo inconsequente// por nos dar grandeza e glória,/ ou até amor.» (Sylvia Plath).

Entre nós, quem levou mais longe esta denúncia foi certamente Manuel Bivar, que este ano assinou, com Sofia da Pala Rodrigues, a reportagem ‘País de Incendiários’, um podcast de investigação da revista Divergente, e que, no país com mais área ardida da União Europeia, vem por fim preencher uma lacuna estarrecedora, esforçando-se por nos dar a conhecer o contexto e as motivações daqueles que fazem arder Portugal. Antes desta investigação, Bivar tinha já publicado, em 2021, A Charca, livro que, apesar das suas quatro edições, continua a não ter qualquer eco nos nossos órgãos de imprensa. Assim, talvez seja desculpável que seja o seu editor a fazer esta chamada de atenção, reproduzindo aqui um excerto: «Dizem os psicanalistas que os ascetas, os pastores, os puritanos, não eliminando o esperma, se tornam possessos e puxam fogo. Mas ele não concordava com estas teorias da psicanálise. Ele odiava psicanálise. Puxam fogo porque são desgraçados, porque se sentem revoltados e porque o incendiário é, nestes matos, o revolucionário possível. Também dizem que os incendiários são alcoólicos, mas isso não explica nada. O álcool apenas dá coragem à vontade de fazer. O alcoolismo é de certa forma o oposto do puxar fogo, é um puxar fogo ao interno para esquecer o externo, enquanto no foguear o mato tudo é externo, tudo é glória. A combustão final, a salga da terra, a morte nas chamas como a menos solitária das mortes, porque se morre em conjunto com o que está em volta. Quem vê um fogo não o esquece, como quem vê a revolução não a esquece. Mas o fogo está sempre ao alcance, em acto individual e grande, e a revolução não. O fogo é a arma dos solitários e, convenhamos, não tem nada que ver com ejaculação.

O fogo, a arma dos desvalidos, dos oprimidos, daqueles a quem querem controlar e a quem tudo é negado. Basta riscar o fósforo em Julho ou Agosto e tudo vai pelos ares. Nem ricos nem pobres, nem poderosos nem indigentes, o fogo está ao alcance de todos, torna a todos iguais, dá sentido à existência, e não nega o gesto a ninguém. De­sesperado, perseguido pela burocracia da natureza, num estado mental que não lhe permitia enfrentá-los, entendia pela primeira vez o porquê de metade dos que ali subsistiam serem incendiários em potência.»

Mais à frente, Bivar ainda ensaia uma réplica àqueles que, a cada ano, com uma espécie de fulgor patriótico, encenam o seu repúdio ou incompreensão diante desses pequenos monstros no íntimo dos quais eclode essa pulsão de largar um fósforo a tudo isto, estes seres que se passeiam por ali nessa deserção etílica, como espectros que atravessam o fumo, fantasmas de tudo o que ardeu e ainda vai arder, assombrados pelo tumulto dos lugares esquecidos. «Quando os via discutir o porquê de tanto fogo posto, de tantos incendiários, dava-lhe vontade de rir de tão óbvia que era a resposta numa terra onde todos tinham sido re­duzidos ao papel de passar os dias em frente da televisão a ver programas da manhã ou agarrados a telemóveis, e que simplesmente queriam voltar a fazer parte deste mundo. Como não respeitar o velho que fechado no lar a ver tele­visão de dia e de noite, que escuta os arrotos dos dez com quem partilha o quarto e que de vez em quando morrem ao fim da tarde e só são tirados de manhã porque há falta de pessoal de noite, e que sai discreto e puxa fogo à serra numa derradeira e última acção cujo resultado assiste ser transmitido em directo na televisão? Como não respeitar o rendeiro que, expulso do terreno de que sempre tratou porque vão plantar olival intensivo, corta os carvalhos centenários, faz explodir a mina de água com dinamite e por fim puxa fogo aos matos de giestas?»

Um novo pacto
Como resulta claro da leitura do livro de Pyne, nenhuma política de fogo é neutra. Toda a técnica carrega uma imaginação, e acaba por gerar as suas catástrofes e assombrações. O século XX cultivou a fantasia prometeica da supressão total do fogo, deixando para o século XXI a obrigação de ter de aprender, à força, que a supressão alimenta o monstro, enquanto acumula combustível, alonga épocas de risco, permitindo que o menor impulso sirva de ignição a esse efeito concatenado. Começa também a ficar claro como, do lado dos homens, o fogo responde a uma ânsia de intensidade pura, prometendo vir, com a sua força, lavrar um tempo que nos esgota na sua condição intervalar, indecisa, enquanto tudo já arde, mas sem se ver. Afinal, o próprio coração é tido como um fogo encoberto que se consome e canta… Ora, sendo o país já em si uma catástrofe para aqueles que se sentem entregues a essa periferia urbana, perante estes, o fogo, esse elemento incapaz da imobilidade, mostra-se um agente de revelação, um monstro propriamente dito, no sentido em que mostra aquilo que foi escondido. E se o fio da história humana pode ler-se como uma sucessão de fogos – o fogo que aquece a gruta, a chama que cozinha e purifica os alimentos, encurtando os intestinos, e que, assim, assume uma co-autoria biológica do humano, permitindo a expansão do cérebro… e o fogo que, mais tarde, arde sob caldeiras e asfaltos –, isto diz-nos que, qualquer que venha a ser o sobressalto do capítulo seguinte, o fogo desempenhará um outro papel, e é possível que esteja uma vez mais ao lado daqueles que se sentem impotentes.

De algum modo, desde cedo o fogo nos convoca, por meio daquela sua soberba ondulação nas formas… Como diz Herberto Helder, «o fogo é que dá ao mundo os fundamentos da forma». Perante uma cultura ensurdecida, é a própria natureza que resgata a dimensão épica, e vem reelaborar os caracteres desastrosos que foram despertados por uma civilização que tende claramente para a mitificação do progresso, desertando o real, provocando a degradação dos ecossistemas e a extinção em massa da vida no planeta. O próprio fogo nuclear persiste e vê agravar-se a sua ameaça existencial a cada dia que passa. E, nisto, aqueles homens que ficaram para trás, podem não saber explicar-se melhor, e podem encontrar nessas grandes arcadas de fogo toda a eloquência que falta à sua expressão. Surge neles, assim, esse ânimo de passar fogo à criação inteira, iluminando por dentro as coisas até as carbonizar num espectáculo que sacia o lado demoníaco das naturezas inquietas que nos restam. E uma vez mais vemos como o fogo responde, nos pensa, elabora sobre o que somos. Entre os símbolos nocturnos, emerge essa escrita cheia de prenúncios quanto ao que nos espera. Por isso mesmo, Stephen J. Pyne recusa qualquer fatalismo, e vinca como esta análise da civilização humana na relação com o fogo permite entender como aquilo que se nos impõe é estabelecer uma nova política do fogo, um novo pacto, para que possamos reaprender a gerir combustões, reatar laços com práticas tradicionais de queimada controlada, reconhecer que o fogo não pode ser abolido, apenas administrado. Num planeta saturado de carbono, pensar o futuro é pensar regimes de chama. Assim, o Piroceno não é um conceito que deva apenas situar-nos numa cronologia geológica, mas aparece como uma alegoria do destino humano: o século XXI será julgado pelo modo como lidou com o fogo – se continua a queimar o passado fossilizado até ao último sopro, ou se inventa uma pirotecnia diferente, renovável, reconciliada com o ritmo da Terra.

Governo israelita considera “vergonhosa” acusação de genocídio, Hamas diz que vergonha é inação internacional


Israel considerou hoje “vergonhoso” o relatório da Associação Internacional de Académicos do Genocídio acusando-o de “um genocídio” em Gaza, enquanto para o movimento islamita palestiniano Hamas uma “mancha de vergonha” é a inação da comunidade internacional.

“[O documento] assenta inteiramente na campanha de mentiras do Hamas e no branqueamento dessas mentiras por parte de terceiros”, declarou o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) israelita na sua conta da rede social X.

Reagiu assim à declaração da Associação Internacional de Académicos do Genocídio (IAGS, na sigla em inglês), a maior associação de especialistas nesse crime contra a humanidade, que classificou as ações de Israel na Faixa de Gaza como “um genocídio” e instou o Governo israelita a cessar os ataques contra civis e a “deslocação forçada” da população.

“As políticas e ações de Israel em Gaza correspondem à definição legal de genocídio prevista no artigo II da Convenção das Nações Unidas para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio de 1948”, sustentou a associação num comunicado, recordando que o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) considerou plausível que Israel estivesse a cometer genocídio e instou o Estado a cumprir as ordens do tribunal.

O MNE israelita disse que o relatório dos especialistas é “vergonhoso” e que a IAGS não “verificou a informação”, a tarefa “mais elementar” numa investigação, conseguindo “até distorcer” o que foi dito pelo TIJ.

Mas, “acima de tudo”, acrescentou o MNE israelita na rede social X, a IAGS “criou um precedente histórico”: “Pela primeira vez, os ‘especialistas em genocídio’ acusam a própria vítima de genocídio”.

Isto apesar da “tentativa de genocídio do Hamas contra o povo judeu, assassinando 1.200 pessoas, violando mulheres, queimando vivas famílias e declarando o seu objetivo de matar todos os judeus”, acrescentou o MNE de Israel na mensagem.

O Exército israelita matou mais de 63 mil palestinianos desde o ataque do grupo islâmico Hamas a Israel, a 07 de outubro de 2023.

Por seu lado, o Hamas afirmou que o relatório da IAGS que classifica a guerra israelita na Faixa de Gaza como um genocídio representa uma nova prova legal sobre a situação no enclave, constituindo uma “mancha de vergonha” para a comunidade internacional.

A definição de genocídio estabelecida no artigo II da Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio indica que “é cometido um genocídio quando um grupo nacional, étnico, racial ou religioso é sujeito a massacre, alvo de lesões graves à sua integridade física ou mental, intencionalmente submetido a condições destinadas a causar a sua destruição física ou transferência à força de crianças desse grupo para outro” – tudo isto feito com o intuito de exterminar, total ou parcialmente, essa comunidade.

Para o Hamas, a resolução do IAGS “constitui uma nova documentação legal que se soma aos relatórios e testemunhos internacionais que documentaram o genocídio” de que os palestinianos estão a “ser vítimas à vista de todo o mundo”.

O grupo palestiniano defendeu que “a inação” da comunidade internacional “é uma mancha de vergonha, uma falha injustificável na proteção da humanidade e uma ameaça direta à paz e à segurança internacionais”.

“Exigimos que a comunidade internacional, as Nações Unidas e todas as partes relevantes tomem medidas urgentes para pôr fim aos crimes de genocídio, deslocação e limpeza étnica que o Exército de ocupação está a cometer implacavelmente contra o nosso oprimido povo palestiniano”, sublinhou o movimento num comunicado.

O Hamas exigiu ainda que sejam punidos “os líderes fascistas e terroristas da ocupação pelos seus crimes, garantindo-se que não escaparão impunes”.

Várias organizações de defesa dos direitos humanos importantes, incluindo duas organizações israelitas, declararam também acreditar que Israel está a cometer genocídio.

A denúncia do maior grupo de peritos em genocídio junta-se às de dezenas de associações, organizações não-governamentais (ONG) e organizações internacionais, como a ONU, que têm classificado as ações de Israel na Faixa de Gaza como genocídio ou possível genocídio.

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Indústria de defesa de Israel aumentou exportações pelo quarto ano consecutivo. E Europa é o principal comprador. Ajuda um bom argumento de marketing: são armas testadas no campo de batalha.


Escritor Amin Maalouf diz que “humanidade vive momentos mais perigosos”

O escritor libanês Amin Maalouf disse esta segunda-feira, no México, que a humanidade vive um dos seus momentos mais perigosos, mas está confiante de que as sociedades encontrarão “uma onda de humanidade” para resistir.

“Acredito que há uma onda de humanidade que nos permitirá ultrapassar este período, mas é verdade que este é provavelmente o período mais perigoso da história”, destacou Amin Maalouf, após ter sido anunciado como o vencedor do Prémio FIL de Literatura em Línguas Românicas de 2025.

“Acredito que nos espera muita devastação, mas penso que nos devemos convencer de que eventualmente encontraremos a força interior para sobreviver”, indicou Amin Maalouf, numa conferência de imprensa realizada na cidade de Guadalajara, no oeste do México.

Maalouf ganhou o prémio pela obra “As Cruzadas Vistas pelos Árabes”, “que ocupa um lugar essencial na literatura contemporânea por explorar com grande lucidez as fraturas e fusões do mundo moderno”, anunciou a porta-voz do júri, Carmen Alemany.

“Os seus romances e ensaios exploram a memória e o exílio, rejeitando a estreiteza de espírito nacionalista ou religiosa”, e o seu “pensamento humanista, crítico e generoso (…) recorda-nos que a esperança reside no reconhecimento das nossas heranças partilhadas”, sublinhou a porta-voz.

O autor de ‘Lion, o Africano’ e ‘Samarkand’ observou que o fortalecimento da identidade é uma das formas de lidar com um mundo onde existe pouca solidariedade.

O autor criticou ainda os países desenvolvidos que beneficiaram do talento de milhares de pessoas que chegaram aos seus territórios para construir as suas economias e o seu legado cultural, e que agora “se questionam se devem ou não acolher os migrantes”.

O escritor, radicado em Paris desde 1976, nasceu em Beirute em 1949 e vai receber o prémio no dia 29 de novembro, na cerimónia de abertura da Feira Internacional do Livro de Guadalajara, a decorrer de 29 de novembro a 08 de dezembro, este ano dedicada a Barcelona.

O Prémio FIL de Literatura em Línguas Românicas tem o valor de 150 mil dólares (perto de 128 mil euros) e reconhece o conjunto de uma obra de qualquer género literário.

A edição deste ano, segundo a organização da FIL de Guadalajara, recebeu 63 nomeações, num total de 48 escritores de seis línguas e 18 países: Espanha, El Salvador, Colômbia, México, Argentina, Nicarágua, Cuba, Chile, Japão, Líbano, França, Senegal, Marrocos, Guiné, Itália, Cabo Verde, Brasil e Portugal.

Steven Cook, advogado com uma longa carreira na indústria química, mudou de posição em relação às regulamentações sobre PFAS

Steven Cook à direita

No início deste ano, Steven Cook era um advogado que representava as empresas químicas que estavam a processar para bloquear uma nova regra que as obrigaria a limpar a poluição causada pelos "químicos para sempre", que estão ligados a baixas taxas de natalidade e ao cancro. Agora, Cook ocupa um cargo de chefia na Agência de Proteção Ambiental, onde propôs a eliminação da mesma regra que os seus antigos clientes contestavam em tribunal. O seu papel será transferir os custos de limpeza dos poluidores para os contribuintes. Fonte

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Esta espécie de caranguejo pode ser um aliado de peso na sobrevivência dos corais


Um caranguejo Cyclodius ungulatus escondido entre os braços de um coral, na Grande Barreira de Coral, na Austrália.

O branqueamento dos recifes de coral é uma das evidências mais marcantes e visualmente impactantes dos efeitos das alterações climáticas. À medida que a temperatura do planeta aumenta, os mares e oceanos também se tornam mais quentes.

Os recifes de coral, habitats de uma enorme diversidade de vida que rivaliza quase com a que é encontrada nas florestas tropicais em terra, são formados por relações íntimas e interdependentes entre os pólipos coralinos e microalgas que dão cor às estruturas calcárias que formam os recifes. Quando a temperatura é demasiado alta, os corais expulsam as algas e tornam-se brancos, dando-se o branqueamento. Se as condições voltarem rapidamente ao normal, os corais podem voltar a aceitar as algas e sobreviver. Caso contrário, acabarão por morrer.

“As espécies basilares, como os corais, criam a base de um ecossistema”, aponta, em comunicado, Julianna Renzi, da Duke University. “Eles criam estruturas que outras espécies usam como abrigo, modificam o ambiente local e fornecem alimento para outros organismos”, explica.

Num planeta em drásticas mudanças, com os corais a serem só uma de um sem-número de espécies não-humanas que estão a sofrer duramente com os impactos de séculos de poluição e destruição ambiental e ecológica pelas mãos dos humanos, a investigadora e colegas publicaram um artigo na revista ‘Proceedings of the Royal Society B’ no qual revelam que uma espécie de caranguejo, o australiano Cyclodius ungulatus, pode ajudar a atenuar a pressão sentida pelos corais.

Através de experiências em tanques realizadas em plena Grande Barreira de Coral, na Austrália, os investigadores analisaram as respostas de corais da espécie Acropora aspera a vários fatores de stress. Em alguns tanques, amostras de coral foram sujeitas a ferimentos físicos, outras à presença de algas nocivas ou a temperaturas mais elevadas da água, e noutros colocaram os caranguejos C. ungulatus para perceber que efeitos teriam na saúde dos corais.

Ao longo de um mês, os investigadores foram registando a evolução dos corais, especialmente a perda de tecido, uma resposta típica quando as condições ambientais não são as ideais. E perceberam que a presença das algas e águas mais quentes resultavam em grandes perdas de tecido. No entanto, notaram que nos tanques com caranguejos as perdas de tecido eram muito menores, especialmente em corais com ferimentos.

Em contexto natural, os corais são predados por peixes que se alimentam das suas algas e dos pólipos, criando feridas, que, por sua vez, podem fragilizar o coral e reduzir a sua capacidade para lidar com outros fatores de stress, como o aumento da temperatura.

Nos recifes, os caranguejos C.ungulatus foram observados a evitar o tecido vivo dos corais e alimentar-se, ao invés, de algas que vão colonizando os corais e prejudicando a sua saúde. Um coral ferido terá mais dificuldade em resistir às algas que se vão fixando na sua casa calcária e torna-se, por isso, mais vulnerável.

Os investigadores acreditam que as feridas nos corais libertam um muco que atrai esses crustáceos, que acabam por ajudá-los a livrar-se das algas que lhes drenam a energia.

“Este trabalho mostra que uma parceria biológica intricada [entre coral e caranguejo] aumenta grandemente a capacidade dos corais para resistirem ao stress térmico”, aponta, em nota, Brian Silliman, outros dos autores do artigo.

“Os caranguejos não afetam diretamente a tolerância [dos corais] ao calor”, mas, sustenta o investigador, “parecem remover o stress causado pelas lesões ao limparem as feridas dos corais”.

É uma relação do tipo mutualista, em que ambas as espécies saem a ganhar: os caranguejos alimentam-se das algas que prejudicam os corais e esses últimos veem-se livres de mais uma preocupação e podem direcionar as suas energias para lidar com outras ameaças. Como tal, os investigadores acreditam que projetos de restauro de recifes que incorporem organismos mutualistas, como este caranguejo, poderão ser maiores hipóteses de sucesso.

“Numa era definida pela intensificação de alterações ambientais de dimensão global, é crucial não apenas compreender os impactos de múltiplos fatores de stress em organismos-chave [como os corais], mas também perceber o que poderá ser feito para alivá-los”, escrevem o investigadores no artigo.

Pedro Sánchez propõe pacto climático conjunto com Portugal e França


O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, anunciou esta segunda-feira que vai sugerir a Portugal e França um trabalho conjunto para criar um pacto de Estado contra a emergência climática, na sequência dos incêndios que atingiram a Península Ibérica durante o verão, noticiou a agência Lusa.

“O Governo de Espanha não se vai deter apenas nas nossas fronteiras para desenhar este pacto de Estado face à emergência climática”, disse Sánchez, citado pela Lusa, acrescentando que Portugal também sofreu com os fogos este ano. O líder espanhol explicou que a proposta pretende reforçar a cooperação entre países vizinhos frente às alterações climáticas.

Sánchez atribuiu a gravidade dos incêndios não só às alterações climáticas – “as alterações climáticas matam” – mas também a problemas na gestão do território, como florestas com excesso de biomassa, ausência de corta-fogos e falta de espécies resistentes ao fogo. Criticou ainda a prevenção insuficiente, apontando carências de planos, bombeiros e sapadores florestais, cuja responsabilidade compete às regiões autónomas.

Os incêndios de 2025 causaram quatro mortos e destruíram cerca de 400 mil hectares, segundo dados provisórios do Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS), um recorde anual em Espanha. O Governo declarou recentemente zonas de catástrofe em 113 áreas afetadas e enfrentou uma onda de calor intensa e prolongada entre 2 e 18 de agosto, considerada das mais severas desde 1975, de acordo com a agência meteorológica espanhola Aemet.

Para responder aos riscos climáticos, o Conselho de Ministros aprovou um plano de ação com dez medidas, incluindo reforço dos meios de combate a incêndios durante todo o ano, criação de um fundo permanente para recuperação das áreas afetadas, constituição de uma agência estatal de proteção civil, desenvolvimento de uma estratégia de resiliência hidráulica, construção de refúgios climáticos e adaptação da legislação às altas temperaturas.