domingo, 9 de março de 2025

O Humanismo Económico: Uma Exploração do Pensamento de Amartya Sen


O pensamento de Amartya Sen representa uma rutura com o utilitarismo clássico. Enquanto a economia tradicional muitas vezes se foca na acumulação de bens, Sen argumenta que o desenvolvimento deve ser medido pela expansão das liberdades substantivas dos indivíduos.
1. O Conceito de Capability (Abordagem das Capacidades)
Para Sen, a pobreza não é apenas a falta de dinheiro; é a privação da liberdade de viver uma vida que se tem razões para valorizar. Ele distingue entre:
  1. Meios: bens primários, rendimento e recursos (o que a economia tradicional foca).
  2. Capacidades (Capabilities): o conjunto de alternativas que uma pessoa tem à sua disposição (o que a pessoa pode realmente ser ou fazer).
  3. Funcionamentos (Functionings): a concretização dessas capacidades (ser saudável, estar educado, participar na vida política).
2. A Crítica ao Utilitarismo e ao PIB
Sen defende que o PIB é um indicador insuficiente porque não capta a desigualdade na distribuição de oportunidades. Se uma sociedade é rica, mas apenas uma pequena elite tem acesso a educação e saúde de qualidade, o desenvolvimento é falho. Ele argumenta que o desenvolvimento é um processo de alargamento das liberdades humanas, e não apenas um crescimento económico quantitativo.

3. A Liberdade como Agência
O conceito de "agência" é central. Sen vê o ser humano como um agente ativo, capaz de transformar a sua realidade, e não apenas um recetor passivo de políticas públicas. A liberdade, aqui, não é apenas a "liberdade negativa" (ausência de coerção), mas a "liberdade positiva" (a capacidade real de agir).
Links Recomendados para Aprofundamento

Para explorar estas ideias de forma mais detalhada, recomendo as seguintes fontes:
The Amartya Sen Lectures (Harvard University): O portal oficial onde poderá encontrar artigos, discursos e uma vasta base de dados sobre o pensamento do autor.
Human Development Reports (UNDP): O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento utiliza o Capability Approach de Sen como base para o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
Stanford Encyclopedia of Philosophy: Capabilities Approach: Uma análise técnica e filosófica rigorosa sobre como as ideias de Sen se inserem na ética contemporânea.

Referência Bibliográfica Principal
Para uma leitura fundamental que consolida estes conceitos, esta obra é incontornável:

SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. Lisboa: Gradiva, 2010. (Título original: Development as Freedom, 1999).

Neste livro, Sen demonstra como a liberdade política, as instalações económicas, as oportunidades sociais, as garantias de transparência e a segurança protetora trabalham em conjunto para permitir o desenvolvimento humano.

quarta-feira, 5 de março de 2025

Portugal à deriva na tempestade


Os EUA nunca acreditaram, ao contrário da ignara arrogância de Bruxelas, que a máquina de guerra russa poderia ser derrotada no plano convencional. Como o secretário da Defesa L. Austin afirmou, logo em maio de 2022, o objetivo dos EUA era o de fazer “sangrar a Rússia”, enquanto Kiev tivesse capacidade para o fazer.
As grandes crises revelam os grandes líderes. Contudo, apenas quando os povos têm a sorte e a capacidade de os produzirem. A guerra da Ucrânia, que já entrou no seu quarto ano é, sem dúvida, a maior crise existencial de toda a história portuguesa, pois é a primeira vez que Portugal tem um governo que se deixou, com entusiástica estultícia, enrolar num confronto com a Rússia, totalmente contrário ao interesse nacional mais elementar, o salus populi suprema lex esto (seja a salvação do povo a lei suprema), imortalizado no De Legibus, de Cícero. Nem os fanáticos que queriam declarar guerra ao império britânico, na sequência do Ultimato de 1890, nem o furioso Afonso Costa, colocando Lisboa a ferro e fogo em maio de 1915 para enviar, por decisão unilateral, milhares de soldados analfabetos para a Flandres, se comparam à façanha do mesquinho consenso nacional que vai de António Costa a Rui Tavares, numa contemporânea demonstração da veracidade da tese de Unamuno que considerava ser Portugal um país de suicidas. O que continua em causa é a possibilidade de Portugal ser destruído num conflito total com a Rússia, o país com o mais poderoso e moderno arsenal nuclear do planeta.
Estamos a falar de acontecimentos vertiginosos, desde a chegada de Trump à Casa Branca. Vejamos, apenas, alguns das dimensões mais permanentes, neste quadro de incerta mudança.
Primeira. As negociações de paz, iniciadas por Trump com a Rússia, são boas notícias para os povos da Europa e do mundo. Afastam, pelo menos provisoriamente, o pior cenário, para onde estaríamos a rumar caso a linha de escalada bélica seguida por Biden tivesse prosseguido. Essas negociações, onde nem Zelensky nem a UE contam, revelam a justeza dos analistas, entre os quais me encontro desde sempre, que consideraram esta guerra como uma guerra de procuração (proxy war) dos EUA contra a Rússia, usando o território e o sangue ucranianos como instrumentos. Bruxelas protesta, porque Trump deixou cair o véu de Maia, a cortina ilusória, que fazia do apoio da UE à Ucrânia um assunto de direito internacional. Na verdade, tratava-se da prova de que os nossos governantes europeus não hesitam em sacrificar a qualidade de vida e a segurança dos seus povos, para servirem o império americano, e o seu desígnio persistente de fragmentar a Rússia.
O caso mais aberrante de autoflagelação europeia é o da Alemanha, quando o governo de Scholz tudo fez para manter a lealdade canina com Washington, imolando para isso a qualidade de vida e a saúde económica do seu próprio país.
Segunda. As perspetivas de “paz imperfeita”, mil vezes melhor do que a continuação do conflito, só foram possíveis, para além das mudanças em Washington, pela clara superioridade militar das forças convencionais russas, apesar da valentia das tropas ucranianas e das correntes inesgotáveis de material bélico recebido dos países da NATO ao longo destes três anos. Os EUA nunca acreditaram, ao contrário da ignara arrogância de Bruxelas, que a máquina de guerra russa poderia ser derrotada no plano convencional. Como o secretário da Defesa L. Austin afirmou, logo em maio de 2022, o objetivo dos EUA era o de fazer “sangrar a Rússia”, enquanto Kiev tivesse capacidade para o fazer. No cenário, altamente improvável, de as tropas de Kiev com o apoio de “voluntários” ocidentais se aproximarem de uma derrota das forças convencionais russas, Moscovo não se renderia. Faria o que a sua doutrina há décadas promulga: escalaria ao uso limitado do nuclear, para obrigar o inimigo a pensar duas vezes antes de prosseguir até à guerra total. Por outras palavras, a vitória convencional e limitada da Rússia, parece ter salvo os povos da Europa de serem vítimas da irresponsabilidade estratégica dos seus dirigentes.
Terceira. A paz que está a ser negociada só poderá ser duradoura se se traduzir num tratado que defina as regras do jogo no sistema internacional europeu, pretensão que a Rússia sempre perseguiu, mesmo desde os tempos de Gorbachev. Há, contudo, dois obstáculos no caminho. Por um lado, aquilo que prevalece no discurso europeu (com apoio da administração Trump) é a ideia de a UE fazer da corrida armamentista o novo objetivo estratégico (rasgando e substituindo o famoso Pacto Ecológico, onde a minha derradeira credulidade se esgotou). A Rússia jamais permitirá que uma nova guerra seja preparada à sua vista, sem nada fazer. Por outro lado, Trump está a jogar perigosamente não só com os seus aliados, mas também com o próprio aparelho de Estado federal e com alguns dos poderosos interesses nele instalados. Considero bastante provável que um atentado contra Trump, desta vez bem-sucedido, possa desencadear uma segunda guerra civil americana, cujas consequências são totalmente imprevisíveis.
Quarta. Só um milagre poderia impedir as forças centrífugas dentro da UE de prevalecer. Não sei quanto tempo ainda teremos antes de este edifício, cheio de fissuras, nos tombar sobre a cabeça. A zona Euro, totalmente dependente de Wall Street e da Reserva Federal, irá contribuir para que governos e povos fiquem paralisados à espera do pior. Curiosamente, os furiosos governos anti-russos do Leste da Europa, darão, provavelmente, lugar a novos governos favoráveis à colaboração com Moscovo. A UE será a grande vítima da guerra da Ucrânia. Os insensatos que em Bruxelas abraçaram uma política totalmente oposta às realidades históricas e geopolíticas da Europa, serão, pelo menos, testemunhas do imperdoável caos em que nos fizeram mergulhar. 
(In Jornal de Letras, 5.3.2025)

domingo, 2 de março de 2025

Mikhail Gorbatchev



A marca avermelhada na testa acompanhou-o desde o nascimento até à morte e tornou-se um dos rostos mais reconhecíveis do século XX. Para alguns, um acaso biológico; para outros, um sinal quase mítico. Mikhail Gorbatchev (1931 – 2022) nasceu numa aldeia perdida do Cáucaso do Norte, Privolnoye, e morreria como o homem que presidiu ao fim da União Soviética. Entre o nascimento e a morte, viveu uma existência improvável, moldada pela miséria, pela violência do Estado estalinista e por uma rara combinação de tenacidade e prudência.
Filho de camponeses pobres, Gorbatchev cresceu num país assolado pela fome, pelas purgas e pela guerra. Dois dos seus avós seriam presos durante o terror dos anos 30; um deles chegou a ser condenado à morte, escapando por uma reclassificação administrativa que lhe salvou a vida. A infância foi feita de carências extremas, trabalho precoce e imagens que nunca o abandonariam: animais abatidos para sobreviver, sementes comidas antes de serem lançadas à terra, aldeias dizimadas pela fome.
A Segunda Guerra Mundial acelerou-lhe a maturidade. Com os homens mobilizados para a frente, as crianças tornaram-se mão-de-obra e guardiãs das famílias. A ocupação alemã da região deixou-lhe memórias de cadáveres abandonados e da fragilidade absoluta da vida humana. Quando chegou a notícia da suposta morte do pai, seguida dias depois pela confirmação de que afinal sobrevivera, gravemente ferido, o jovem Mikhail aprendeu cedo a desconfiar tanto da tragédia definitiva como do alívio absoluto.
O regresso à escola foi um ponto de viragem. Sem livros nem cadernos, estudando nas margens de manuais técnicos, destacou-se pelo esforço e pela disciplina. O trabalho extenuante nas ceifeiras-debulhadoras ao lado do pai valeu-lhe, aos 17 anos, uma condecoração estatal rara para alguém da sua idade: a Ordem da Bandeira Vermelha do Trabalho. Esse reconhecimento abriu-lhe as portas da Universidade Estatal de Moscovo, onde se formou em Direito e iniciou a ascensão política.
Em Moscovo encontrou também Raisa Titarenko, estudante de Filosofia, companheira inseparável e figura decisiva na sua formação cultural e intelectual. O casamento, pouco comum na elite soviética pela sua cumplicidade e visibilidade pública, tornou-se uma das marcas do futuro líder. Gorbatchev nunca escondeu a influência de Raisa, nem recuperou verdadeiramente da sua morte, em 1999.
A carreira no Partido Comunista foi constante e cautelosa. Proveniente da província, conhecedor da vida rural e das disfunções do sistema, Gorbatchov chegou ao topo em 1985, quando assumiu o cargo de secretário-geral do PCUS. O país que herdou estava exausto: economia estagnada, sociedade asfixiada, império sustentado mais pela inércia do que pela convicção. A resposta foi dupla e histórica: Perestroika (reestruturação) e Glasnost (transparência), conceitos que rapidamente ultrapassaram as fronteiras soviéticas.
Ao permitir maior liberdade de expressão e ao recusar o uso da força para manter o controlo sobre a Europa de Leste, Gorbatchov desencadeou um processo irreversível. O Muro de Berlim caiu, os regimes satélites ruíram e, em 1991, a própria União Soviética dissolveu-se. Para o Ocidente, tornou-se o estadista que evitou uma guerra nuclear e abriu caminho ao fim da Guerra Fria. Para muitos russos, ficou associado ao colapso de um império e à humilhação económica dos anos seguintes.
A sua vida posterior foi paradoxal: venerado internacionalmente, marginalizado no seu próprio país. Participou em campanhas publicitárias, criou fundações, foi homenageado em palcos internacionais como o Royal Albert Hall, mas nunca recuperou verdadeira influência política. Permaneceu, até ao fim, uma figura solitária, fiel à convicção de que a mudança pacífica era preferível à violência redentora.
Mais do que o líder que acelerou o fim da Guerra Fria, Gorbatchov foi o produto extremo do século soviético: um homem forjado na fome, educado na disciplina e disposto a aceitar que a história não se deixa comandar por decretos. O seu legado continua a dividir opiniões. Mas a trajetória que o levou de uma aldeia sem livros aos salões do poder mundial permanece como uma das mais improváveis e humanas do nosso tempo.


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Scientists just confirmed that Earth is slowly tilting toward its next ice age

A landmark study led by Cardiff University has finally confirmed the precise link between the Earth’s orbital geometry and its historical glaciation cycles.
By analyzing a million-year record of deep-sea fossils and Northern Hemisphere ice sheets, researchers discovered that while deglaciation (the ending of an ice age) is driven by a complex interaction between the planet’s axial tilt and its orbital wobble, the onset of a new ice age is triggered purely by the decline of Earth's axial tilt, known as obliquity.
This groundbreaking find explains why global ice ages have reliably recurred in 100,000-year intervals and indicates that under natural conditions, Earth's current orbit is positioning the planet for another major freeze within the next 11,000 years.
However, scientists emphasize that human activities are rapidly rewriting this cosmic timeline. The unprecedented volume of greenhouse gases emitted since the Industrial Revolution has pushed global temperatures and atmospheric composition far beyond their natural trajectories.
While understanding these orbital mechanics is crucial for modeling Earth's long-term climate behavior, researchers warn that today's anthropogenic emissions could completely override these millennial-scale cycles. The findings make it clear that the climate choices society makes today will play a primary role in deciding whether the planet continues on its ancient, orbitally-driven path or veers into a warmer, highly unstable future.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Dia Internacional do Guia de Turismo



A federação mundial de associações de guias turísticos (WFTGA) aponta para este ano o importante o papel do guia enquanto embaixador da paz. Este, é na realidade, um dos valores mais importantes que atualmente deveremos colocar como objetivo maior em qualquer visita a locais de património cultural o natural.

O recente conceito de interpretação baseada em valores desenvolvido conjuntamente pela UNESCO e pela Interpret Europe, salienta a paz e a sustentabilidade como valores fundamentais para a nossa sociedade.

A Interpret Europe realiza em Portugal uma formação certificada de interpretação do património para visitas guiadas que se apresenta como transformadora e disruptiva. São apresentadas as ferramentas e estratégias de interpretação do património para proporcionar experiências significativas aos visitantes, valorizar os locais visitados e permitir uma atividade mais agradável para os profissionais.

A diferença entre "guia de turismo" e "guia turístico" reside em suas definições: "guia de turismo" refere-se ao profissional que acompanha, orienta e informa turistas, enquanto "guia turístico" é um material, como um livro, folheto ou site, com informações sobre um destino turístico.

Guia de Turismo (profissional):
É um profissional habilitado e registrado no Ministério do Turismo, responsável por conduzir grupos de turistas ou viajantes individuais.
Fornece informações detalhadas sobre a história, cultura, pontos turísticos e outros aspectos relevantes do destino.
Garante a segurança e o bem-estar dos turistas durante a viagem.
Pode atuar em diversas áreas, como turismo ecológico, histórico, cultural, entre outros.
Para exercer a profissão, é necessário realizar um curso técnico e obter o registro no Ministério do Turismo.

Guia Turístico (material):
É um material informativo, como um livro, folheto, mapa ou site, que contém informações sobre um destino turístico.
É utilizado pelos turistas para obter informações sobre o local, como pontos turísticos, rotas, dicas de hospedagem e alimentação, etc.
Pode ser encontrado em formato impresso ou digital.
É um recurso complementar ao trabalho do guia de turismo, mas não o substitui.

Em resumo, o guia de turismo é a pessoa que acompanha e informa os turistas, enquanto o guia turístico é o material que fornece informações sobre o destino.

Dia Internacional da Língua Materna



A língua materna, também conhecida como idioma materno, língua nativa ou primeira língua, é a língua que cada pessoa começa a adquirir logo que nasce e cria o vínculo afetivo-linguístico.

Trata-se do primeiro idioma que uma pessoa aprende, aquele que se domina melhor. Sendo, também, a língua que se fala num determinado país ou região, é relativa a quem é natural desse espaço e que se adquire, portanto, de forma natural, através da interação com o meio envolvente e está relacionada com as primeiras lembranças que a pessoa possui da sua infância.

Assim, a língua não é um mero veículo de comunicação. Encerra em si uma carga afetiva e é, para cada pessoa, estruturante da sua identidade e pertença. A língua, a par da bandeira, da constituição e de outros símbolos identifica, também, as nações e os povos.

Por outro lado, as palavras de uma língua, além de serem elementos centrais da nossa comunicação, são uma ferramenta de poder, capazes de moldar pensamentos, atitudes e comportamentos.

As palavras que escolhemos têm um impacto significativo na sociedade, podendo ser utilizadas para enaltecer, dignificar e valorizar, mas também para oprimir, acentuar injustiças e promover desigualdades.

Comunicar usando linguagem inclusiva permite combater estereótipos, contribuindo, desta forma, para afirmar o princípio constitucional da igualdade.

Esta forma de comunicação é um meio de reconhecimento de todos os membros da sociedade, legitimando, assim, a sua presença no meio linguístico.

O uso do masculino genérico, ou “falso neutro”, contribui para a perpetuação de estereótipos de género e para a invisibilizar pessoas e grupos de pessoas.

Usar uma linguagem inclusiva, que respeita o direito de todas as pessoas, é mais fácil do que pensa.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Critics say Trump’s executive orders to reshape the NIH ‘will kill’ Americans



Academics and scientists who work with the National Institutes of Health (NIH) said the Trump administration’s orders have severely disrupted work – delaying projects and casting the future of research funding and jobs into doubt as chaos in the agency reigns.

An array of orders seeks to fundamentally reshape the NIH, the world’s largest public funder of biomedical and behavioral research, in the Trump administration’s image. The agency’s work is the wellspring of scientific advancement in the US, and helped make the country a dominant force in health and science.

“They will have drastic effects on all of us – this is not hyperbole, this is fact,” said Todd Wolfson, the president of the American Association of University Professors and an anthropologist at Rutgers University in New Jersey.

The orders “will kill”, Wolfson said, as advances in the treatment of diseases as diverse as cancer, Alzheimer’s and diabetes are delayed.

Donald Trump and Elon Musk are taking a sledgehammer to the greatest biomedical infrastructure in the world to extend tax cuts,” Wolfson said.

NIH-funded basic or applied research has also contributed to 386 of the 387 drugs the Food and Drug Administration approved between 2000 and 2019, and more than 100 Nobel prizes have been awarded to scientists based on NIH-funded work. NIH grants often fund basic research conducted at universities and colleges across the country, touching every state and nearly every congressional district.

Since taking office, the Trump administration has issued a bevy of executive orders and administrative actions that seek to fundamentally alter American health and science agencies – from appointing the nation’s foremost vaccine critic to head the Department of Health and Human Services to scrubbing websites of information the administration finds objectionable.

Trump’s executive orders prohibit grant funding containing a long list of words associated with “diversity, equity and inclusion”; attempt to cut scientific research funding by $4bn; fired thousands of employees and stopped recruitment; imposed communications blackouts; and blocked committees from meeting to evaluate new scientific research, effectively freezing funds.

Together, those orders have sown a sense of chaos and fear throughout the agency and academia, even as many are tied up in court battles.

That has left the most severe proposal, a 15% cap on “indirect costs”, hanging like the sword of Damocles over scientific research – forcing institutions to impose sweeping spending freezes and casting the future of whole labs into doubt.

“I have to decide as a professor whether to take new students into my lab, and I don’t know if I can afford them,” said Rutgers University biochemist and professor Annika Barber.

Barber added that she was supposed to spend her Thursday afternoon reviewing grant proposals for the NIH at a legally mandated review committee. The meeting was canceled with less than 24 hours notice as the Trump administration has put a hold on submissions to the Federal Register, a legal requirement for upcoming meetings.

“As of today, there are no NIH study sections going forward, which means we are not funding the grants scored last fall and not funding the grants meant to be scored this spring,” she said. “That means there is a six-month funding gap … That is going to close small labs.”

Critics say Trump’s executive orders to reshape the NIH ‘will kill’ Americans

Academics and scientists who work with the National Institutes of Health (NIH) said the Trump administration’s orders have severely disrupted work – delaying projects and casting the future of research funding and jobs into doubt as chaos in the agency reigns.

An array of orders seeks to fundamentally reshape the NIH, the world’s largest public funder of biomedical and behavioral research, in the Trump administration’s image. The agency’s work is the wellspring of scientific advancement in the US, and helped make the country a dominant force in health and science.

“They will have drastic effects on all of us – this is not hyperbole, this is fact,” said Todd Wolfson, the president of the American Association of University Professors and an anthropologist at Rutgers University in New Jersey.

The orders “will kill”, Wolfson said, as advances in the treatment of diseases as diverse as cancer, Alzheimer’s and diabetes are delayed.

“Donald Trump and Elon Musk are taking a sledgehammer to the greatest biomedical infrastructure in the world to extend tax cuts,” Wolfson said.

NIH-funded basic or applied research has also contributed to 386 of the 387 drugs the Food and Drug Administration approved between 2000 and 2019, and more than 100 Nobel prizes have been awarded to scientists based on NIH-funded work. NIH grants often fund basic research conducted at universities and colleges across the country, touching every state and nearly every congressional district.

Since taking office, the Trump administration has issued a bevy of executive orders and administrative actions that seek to fundamentally alter American health and science agencies – from appointing the nation’s foremost vaccine critic to head the Department of Health and Human Services to scrubbing websites of information the administration finds objectionable.

Trump’s executive orders prohibit grant funding containing a long list of words associated with “diversity, equity and inclusion”; attempt to cut scientific research funding by $4bn; fired thousands of employees and stopped recruitment; imposed communications blackouts; and blocked committees from meeting to evaluate new scientific research, effectively freezing funds.

Together, those orders have sown a sense of chaos and fear throughout the agency and academia, even as many are tied up in court battles.

That has left the most severe proposal, a 15% cap on “indirect costs”, hanging like the sword of Damocles over scientific research – forcing institutions to impose sweeping spending freezes and casting the future of whole labs into doubt.

“I have to decide as a professor whether to take new students into my lab, and I don’t know if I can afford them,” said Rutgers University biochemist and professor Annika Barber.

Barber added that she was supposed to spend her Thursday afternoon reviewing grant proposals for the NIH at a legally mandated review committee. The meeting was canceled with less than 24 hours notice as the Trump administration has put a hold on submissions to the Federal Register, a legal requirement for upcoming meetings.

“As of today, there are no NIH study sections going forward, which means we are not funding the grants scored last fall and not funding the grants meant to be scored this spring,” she said. “That means there is a six-month funding gap … That is going to close small labs.”

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Historian Timothy Snyder on the future of American Democracy & the Rule of Law


O historiador Timothy Snyder e autor dos livros "Sobre a Tirania" e "Sobre a Liberdade" é um dos principais especialistas em fascismo e na ameaça que os autoritários representam para o futuro da democracia americana e do Estado de Direito. Neste vídeo, discute o futuro da democracia americana e a ascensão alarmante do autoritarismo.

O que precede a política, fundamenta a nossa constituição e nos dá a hipótese de sermos prósperos e livres? O Estado de Direito. Podemos compreender melhor as ameaças contemporâneas a esta liberdade e prosperidade ao recordarmos os fundamentos morais e intelectuais da nossa ordem política.

Timothy Snyder é historiador na Universidade de Yale, especializado em Europa de Leste, totalitarismo e Holocausto. Os seus livros receberam ampla aclamação. O seu mais recente livro, "The Road to Unfreedom: Russia, Europe, America" ​​​​(O Caminho para a Não-Liberdade: Rússia, Europa, América), conta toda a história da Rússia, do início ao fim, de uma forma coerente e que revela o panorama geral. É também autor de "On Tyranny: Twenty Lessons from the Twentieth Century" (Sobre a Tirania: Vinte Lições do Século XX), que explora as formas quotidianas como um cidadão pode resistir ao autoritarismo atual. As suas outras obras incluem "Black Earth: The Holocaust as History and Warning" (Terra Negra: O Holocausto como História e Advertência) e "Bloodlands: Europe Between Hitler and Stalin" (Terras de Sangue: A Europa entre Hitler e Estaline)

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Da Filosofia Quaker e Aldous Huxley ao PNUMA: As Raízes Ecopacifistas da Construção da Paz Ambiental

Relatório Anual do PNUMA 2024 aqui

A Construção da Paz Ambiental (Environmental Peacebuilding) assenta na premissa de que a gestão sustentável e cooperativa dos recursos naturais é uma das ferramentas mais eficazes para prevenir conflitos, promover a reconciliação e consolidar a estabilidade em regiões vulneráveis. Longe de ser um conceito burocrático recente, este paradigma representa a institucionalização prática da tradição ecopacifista, unindo a salvaguarda ecológica à resolução não violenta de conflitos.

As fundações éticas desta abordagem remontam, em grande medida, à tradição dos Quakers (Religious Society of Friends) e ao seu histórico Testemunho de Paz. Ao expandir a rejeição da violência física para o conceito de custódia da Criação (stewardship), a ética Quaker defende que a pilhagem ambiental é, em si mesma, uma forma de violência estrutural. Para os Quakers, a paz autêntica constrói-se eliminando as causas profundas da discórdia - através do diálogo, do consenso e do respeito pela integridade de todos os seres vivos.

No plano intelectual, Aldous Huxley deu corpo teórico a esta visão. Em obras como Ends and Means (1937), no ensaio The Politics of Ecology (1963) e no romance Island (1962), Huxley diagnosticou que a degradação ambiental, o autoritarismo e a guerra derivam da mesma patologia: a recusa humana em reconhecer a interdependência dos sistemas biológicos. O autor alertou antecipadamente que a destruição dos solos e a competição desregulada por recursos escassos gerariam inevitavelmente novas formas de tirania e conflito armado, propondo uma "política da ecologia" como o único antídoto duradouro contra a violência.

Com a evolução da governança global, o paradigma ecopacifista transitou da filosofia ética para a diplomacia pragmática. Esta transição — impulsionada por pensadores como Johan Galtung e John Paul Lederach  cujas reflexões sobre as devastações ambientais causadas pelas guerras -, defende a premissa de que a violência contra a natureza e a violência entre os seres humanos são dimensões indissociáveis do mesmo problema. Sob esta visão histórica, o esgotamento dos ecossistemas e a pilhagem de recursos não são meras consequências colaterais da guerra, mas sim impulsionadores diretos da instabilidade social. A Construção da Paz Ambiental resgata essa intuição moral e filosófica, convertendo-a num instrumento analítico e normativo aplicável à diplomacia moderna e ao direito internacional. Superou-se a visão tradicional de segurança que encarava o meio ambiente apenas como um catalisador de crises, demonstrando-se que a dependência mútua de ecossistemas partilhados - como bacias hidrográficas ou florestas transfronteiriças - força antigas partes beligerantes a colaborar. A cooperação técnica em torno da água ou da biodiversidade transforma-se, assim, numa plataforma essencial para restabelecer a confiança interpessoal e política.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) tornou-se o principal motor de operacionalização desta herança ética e teórica, aplicando-a no terreno através de iniciativas concretas:
  1. Mediação nos Balcãs Ocidentais e Rio Danúbio: as avaliações de impacto ambiental pós-conflito conduzidas pelo PNUMA criaram uma base técnica neutra sobre a poluição industrial e os recursos hídricos. Este diagnóstico imparcial permitiu reatar o diálogo técnico entre nações rivais, espelhando a metodologia Quaker de criar espaços neutros para o diálogo.
  2. Avaliações Ambientais Pós-Conflito no Afeganistão e Sudão: ao identificar a degradação do solo e a escassez de água como motores de violência comunitária, o PNUMA fundamentou acordos locais de gestão de pastagens no Darfur. A intervenção mitigou tensões entre comunidades agropastoris, confirmando a tese de Huxley sobre a relação direta entre escassez ecológica e conflito.
  3. Iniciativa Meio Ambiente e Segurança (ENVSEC): parceria estratégica coliderada pelo PNUMA no Sudeste da Europa, Ásia Central e Cáucaso Sul. Focada no mapeamento de riscos transfronteiriços - como resíduos mineiros e recursos hídricos partilhados -, a iniciativa converte potenciais pontos de rutura geopolítica em projetos conjuntos de preservação.
  4. Governança de Recursos no Sudão do Sul: programas direcionados para a transparência na gestão dos setores florestal e extrativo no período pós-guerra civil, assegurando que as receitas dos recursos naturais sejam distribuídas de forma justa e não alimentem novas milícias armadas.

Ao transformar os princípios morais dos Quakers e a clarividência socioecológica de Huxley numa metodologia diplomática, o PNUMA demonstra que a integridade biológica do planeta e a paz humana não são agendas paralelas, mas sim duas faces da mesma equação.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Legado de James Harrisson


James Harrison, foi um doador de sangue australiano cuja contribuição salvou mais de 2 milhões de bebés. Ele faleceu aos 88 anos em 17 de fevereiro de 2025, enquanto dormia em uma casa de repouso em Umina Beach, Nova Gales do Sul, Austrália. 
Aos 14 anos, Harrison passou por uma cirurgia torácica que exigiu múltiplas transfusões de sangue. Grato por ter sobrevivido, ele prometeu começar a doar sangue ao atingir a maioridade. 
Aos 18 anos, iniciou suas doações e, pouco depois, os médicos descobriram que seu sangue continha um anticorpo raro, o Anti-D. Este anticorpo é essencial para prevenir a doença hemolítica do recém-nascido (DHRN), uma condição grave que pode ser fatal para os bebés. Durante seis décadas, Harrison doou sangue mais de 1.100 vezes, ajudando a desenvolver uma injeção que combate a DHRN. Sua dedicação permitiu que milhões de mães e bebés recebessem tratamento adequado, salvando aproximadamente 2,4 milhões de vidas.
Em reconhecimento ao seu altruísmo, Harrison recebeu a Medalha da Ordem da Austrália em 1999. Ele continuou a doar sangue regularmente até os 81 anos, quando atingiu o limite de idade para doações no país. Sua filha, Tracey Mellowship, expressou orgulho pela jornada do pai e pelo impacto positivo que ele teve na vida de tantas famílias. 
James Harrison será lembrado como um herói cuja generosidade e compromisso salvaram milhões de vidas.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Nancy Fraser - Os trabalhadores são canibalizados pela classe capitalista


O mundo enfrenta múltiplas crises em simultâneo: alterações climáticas, ascensão de movimentos autoritários e exploração da mão-de-obra do Sul Global, entre outras. Nancy Fraser, professora de filosofia e política na New School, afirma que "não pode ser coincidência" – na génese de tudo está o capitalismo.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Cioran: entre o pessimismo e o fanatismo na política

A atmosfera de idolatria mostra um sintoma que revela nos sujeitos um desejo insaciável de dominação, transfigurado na política através da tirania, dos abusos de poder e do autoritarismo, características de grupos autoritários e radicais extremistas.

Em Portugal pouco ainda se fala sobre o filósofo romeno, Emil Cioran, nascido em 1911, em Rasinari, comuna romena localizada no distrito de Sibiu. O escritor e filósofo foi radicado posteriormente na França, onde ganhou fama nos círculos intelectuais, além de ser conhecido como “rei do pessimismo”, chamado assim por um jornal britânico da época. O seu pai, Emilian Cioran, era um padre ortodoxo romeno, enquanto a mãe, Elvira Cioran, era de Veneţia de Jos. Da linhagem materna pertencia a uma pequena família de nobres na Transilvânia, pois o seu avô materno era tabelião e ganhou o título de barão pelas autoridades imperiais.

Nos tempos de juventude apoiou o nazismo, após ter sido condecorado com uma bolsa de estudos em Berlim, assim como nutriu simpatia pelo fascismo italiano. Não muito tempo depois renega tal admiração da sua juventude, criticando os movimentos de ultradireita e os fascistas, além de tecer, durante toda a sua vida um mea culpa por seu envolvimento, denominando-os como “seitas doentias”, e referia a essa parte triste de sua vida como “doença da juventude”. Por esse motivo, supomos, a política nunca foi objeto direto de seus escritos, porém mesmo tratando de inúmeros temas, não deixou de alertar sobre as problemáticas que englobam os sujeitos como um todo.

Agregando o pessimismo de Schopenhauer, com o ceticismo de Montaigne e o niilismo de Nietzsche, não teve medo da represália académica ao discorrer sobre os temas da morte, da obsessão, da alienação e do fanatismo.

O assunto da alienação, recorrente em diferentes pensadores e perspectivas como Karl Marx, Jean-Paul Sartre e Albert Camus, retratam um ambiente de tortura e tormento, segundo Cioran, incitado pelas narrativas religiosas do pecado original e da obsessão pelo absoluto, como também pelo pragmatismo político observado no autoritarismo presente em diversos cantos da Europa. O filósofo viveu de perto o surgimento e a consolidação dos totalitarismos e as catástrofes causadas pelas crenças ideológicas do século passado, evidentemente, herdou a experiência sombria de tais eventos. Com efeito, sua filosofia é profundamente marcada por uma escrita trágico-poética, o que traduz bem seu pessimismo e desencantamento quase mórbidos, de quem assistiu aos horrores nefastos provocados pelos mais belos devaneios.

Pessimismo político e fanatismo
O pessimismo no que diz respeito à política, parte da compreensão de que as ideias, por si, deveriam estimular uma posição de tolerância entre as pessoas, de harmonia e bem-estar. Entretanto, movido pela animosidade e paixão, o ser humano projeta a si mesmo, transformando a ideia em crença, revelando um fundo bestial de entusiasmo através do proselitismo, da intransigência ideológica e da intolerância. Na prática, esse movimento é traduzido numa busca contínua pela hegemonia política, religiosa e ideológica, por parte do intolerante, descartando qualquer manifestação oposta ou contrária, não admitindo ideias que sejam contrárias às suas crenças subjetivas. Os radicais, em sua maioria, assumem uma postura excludente e fundamentalista, ligados ou não à religiosidade, mas estimuladas por grupos elitistas e burgueses da sociedade, que enxergam no caos da desordem a oportunidade de pôr em prática seus desejos de dominação.

A construção do fanatismo depende de enredos e alegorias apocalípticas que só teriam resolução a partir do surgimento de um mito ou herói. Ou seja, para se construir um “salvador da pátria” é necessário que se crie o caos, a instabilidade, o terror e o medo. Dentro desse contexto criado pela classe dominante surge o “messias”, que na verdade é o fanático por excelência ou aquele que dissemina o fanatismo por intermédio do controle e do autoritarismo. Através disso, não é difícil observar e apontar a semelhança dos movimentos autoritários e fascistas que de ontem e de hoje, além de criarem um cenário de extrema vulnerabilidade se colocam como a única alternativa cabível e válida.

Emil Cioran, em seus Syllogismes de l’amerture (em português, Silogismos da Amargura), afirma que “quando a ralé adota um mito, conte com um massacre ou, pior ainda, com uma nova religião”. Essa atmosfera de idolatria mostra um sintoma que revela nos sujeitos um desejo insaciável de dominação, transfigurado na política através da tirania, dos abusos de poder e do autoritarismo, características de grupos autoritários e radicais extremistas. A grande vitória da burguesia, segundo o autor, provém do fracasso do outro, um espetáculo de uma grande ideia desfigurada. O pessimismo inerente ao pensamento do autor não é um pedido de discipulado, ou um clamor por seguidores e arautos, mas um alerta para as sociedades não caírem nas amarras do obscurantismo e da tirania. Se por um lado, para muitos a utopia de um mundo harmonioso e feliz é posto como referência e ideal, pelo outro, Cioran, observa as tendências de estagnação prefiguradas pelas mesmas utopias, que caem em um idealismo abstrato e se acomodam, não contestam e nem buscam transformar a realidade.

Intolerância e fanatismo
Emil Cioran foi suscitado como teórico que fundamenta a discussão sobre o fanatismo, relacionando o modus operandi dos regimes autoritários com o desvio da racionalidade, que seria superado através da prática cética – ação que evitaria os apegos emotivos e irracionais sobre ideologias destrutivas. A postura racional, segundo o autor, não suscita o apelo por uma falsa alternativa política, mas reforça a necessidade de tolerância entre os indivíduos para que o fanatismo político e religioso não ganhe força na sociedade.

Na prática política contemporânea notamos o discurso de segmentos reacionários da nossa sociedade, dirigidos em especial às minorias e opositores, carregado de intransigência e proselitismo. Esses grupos ultrarradicais edificam as suas crenças no terreno dogmático, similar à religiosidade fanática, se fecham em círculos ou panelas com pessoas similar e com as mesmas tendências de pensamento, para que sejam validados seus preconceitos e visões deturpadas sobre o mundo.

A intolerância que vemos no mundo atual, pode ser definida como a ação que o fanatismo estimula e pratica em todas as suas declinações, tendo como alvo quem não se enquadra em seus devaneios e alucinações autoritárias. Por isso, segundo o autor franco-romeno, qualquer sujeito que abraça o proselitismo e desenvolve um fanatismo ideológico naturalmente se transforma num intolerante – e também num idólatra.

Um dos conselhos retirados das suas obras atravessa gerações: sempre que um fanatismo declina, outro surge em seu lugar. Observamos atentamente que o retorno de tendências fascistas nos principais postos governamentais, em grandes países no mundo, é a prova da existência do perigo constante que vivemos. Por conta disso, a humanidade pode caminhar para sua própria destruição, tornando-se mercadoria de si mesma, ou seja, vendendo a sua liberdade e os seus direitos, através da simpatia e do apoio por grupos extremistas. Numa leitura contemporânea, notamos o capitalismo, como um “fanatismo económico” ou “personificação material e valorativo do fanatismo”, onde todos são expostos a todo instante, sofrendo as consequências da disparidade social e da desigualdade. Entretanto, não esqueçamos que os ideais que flertam com o fascismo já encabeçam diversos países ao redor do mundo, através de seus chefes de Estado, possuindo em comum a servidão irrestrita ao neoliberalismo e ao imperialismo. O neoliberalismo, dessa forma, é a evolução do fanatismo e da subserviência dos intolerantes, personificada num modelo econômico excludente, desigual e injusto.

Os pessimistas costumam ser bons profetas. Emil Cioran previa um pequeno declínio dos ideais políticos, de modo geral, através da epidemia do fanatismo que já se vivia naqueles anos, o retorno das ideais autoritárias é a prova de que o fanatismo e a intolerância não são vencidos somente com a ajuda do tempo. É preciso muito mais que notas de repúdio e camisas antifascistas.

Emissões poluentes dos jatos privados portugueses equivalem às de 141 mil pessoas



A campanha ATERRA divulgou esta segunda-feira que o número de jatos privados registados em Portugal aumentou de 145, em 2023, para 153 em 2024. As emissões destes jatos aumentaram de 277 mil toneladas de CO2 em 2023 para 283 mil toneladas em 2024, valores que correspondem às emissões anuais de 141 mil portugueses.

Os números estão incluídos na atualização dos dados de emissões de jatos privados em Private Aircrafts, operado pelo investigador Jorge Leitão, co-autor do estudo “Private aviation is making a growing contribution to climate change”, publicado em 2024 na prestigiada Nature Communications, Earth & Environment.

Portugal está na lista dos dez países com maiores emissões por jatos privados, muito graças à sede portuguesa da maior empresa de jatos privados do mundo, a NetJets Europe, que detém a maioria da frota portuguesa. Acima de Portugal no número de emissões de jatos privados estão os Estados Unidos, Canadá, Malta, Alemanha, Reino Unido, México e Brasil.

Para a ATERRA, que reúne mais de vinte organizações portuguesas que defendem o decrescimento da aviação e uma mobilidade justa e ecológica, “os jatos privados constituem o exemplo mais escandaloso de um setor cujas emissões não param de crescer, e qualquer compromisso climático credível implica o fim dos projetos de expansão de infraestrutura aeroportuária e uma redução drástica do tráfego aéreo permitido em Portugal”. E defende medidas “simples e sensatas” para travar estas emissões, como o fim da isenção de impostos sobre os bilhetes e o combustível dos aviões, ou a implementação de uma taxa sobre voos frequentes.

Este movimento questiona “se podemos aceitar que uns poucos multimilionários, apenas para manter hábitos de viagem supérfluos, luxuosos e ultra poluentes, possam ter um impacto tão devastador para o nosso clima como dezenas de milhares de pessoas”.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

As três profissões que sobreviverão à IA, segundo Bill Gates

A visão de Bill Gates para o futuro da IA: o bilionário alerta que a inteligência artificial irá substituir muitos empregos, mas identifica três profissões que continuarão a ser essenciais, pelo menos por enquanto.

A ascensão da inteligência artificial já não é uma possibilidade distante. Está a redefinir indústrias de forma mais rápida do que alguma vez se imaginou. Embora a IA prometa eficiência e inovação, também desperta preocupações sobre a deslocação generalizada de postos de trabalho.

O bilionário da tecnologia Bill Gates alertou que a IA irá automatizar muitas funções, deixando inúmeros trabalhadores em risco. No entanto, nem todas as profissões irão sucumbir ao domínio da IA. Numa entrevista a Jimmy Fallon no programa The Tonight Show da NBC, Gates identificou três áreas fundamentais que, pelo menos por agora, permanecem fora do alcance da IA.

Programadores: os arquitetos da IA
Ironicamente, as pessoas responsáveis pelo desenvolvimento dos sistemas de IA estão entre aquelas cujos empregos permanecem seguros. Embora a IA consiga gerar código, carece da precisão, da adaptabilidade e das capacidades de resolução de problemas necessárias para o desenvolvimento de software complexo. Gates acredita que os programadores humanos continuarão a desempenhar um papel crítico no refinamento, na depuração (debugging) e no avanço da própria IA. Por outras palavras, a IA pode ajudar na programação, mas continua a precisar de profissionais qualificados para guiar a sua evolução.

Especialistas em energia
O setor energético é complexo demais para que a IA o gira de forma independente. Desde o petróleo e a energia nuclear até às soluções de energia renovável, os especialistas do setor têm de navegar por desafios regulamentares, desenvolver estratégias sustentáveis e responder a exigências globais imprevisíveis. Embora a IA possa aumentar a eficiência e fornecer dados analíticos, Gates afirmou que a tomada de decisões humana continua a ser insubstituível — especialmente na gestão de crises e no planeamento energético a longo prazo. Por enquanto, os profissionais da energia continuam a ser indispensáveis.

Assistência a biólogos
Na investigação médica e na descoberta científica, os biólogos dependem da intuição, da criatividade e do pensamento crítico — competências que a IA ainda não domina. Embora a IA consiga processar vastos conjuntos de dados e ajudar no diagnóstico de doenças, não consegue formular hipóteses inovadoras nem dar os saltos intuitivos que impulsionam os avanços científicos. Gates previu que os biólogos continuarão a ser essenciais para expandir as fronteiras da medicina e compreender as complexidades da vida, funcionando a IA como uma ferramenta poderosa e não como um substituto.


O futuro do trabalho: Adaptar ou ser substituído
Embora estas profissões pareçam seguras por agora, Gates reconheceu que o impacto da IA no mercado de trabalho continuará a evoluir de formas que ainda não conseguimos prever. Tal como as revoluções tecnológicas do passado redefiniram indústrias, a IA irá redefinir as competências que mantêm o seu valor.

Aqueles que trabalham em programação, energia e biologia poderão usufruir de alguma segurança no emprego, mas para todos os outros a mensagem é clara: “Adaptem-se, inovem e preparem-se para um futuro onde a IA não é apenas uma ferramenta, mas sim um concorrente”.