São tempos em que a tecnologia mais aprisiona do que emancipa. Baudrillard apontava o risco do “mapa que substitui o território”. Quando a performance exclui a experiência autêntica, o resultado é crise, nostalgia e fetichismo capitalista…
O avanço de tecnologias baseadas em “inteligência artificial” tem aumentado consideravelmente nos últimos anos e gerado uma série de debates éticos sobre o uso de propriedade intelectual, sobre o que é arte, sobre o que é de facto uma produção autêntica ou exclusivamente o produto de um algoritmo que, de forma bastante reducionista, é apenas um reprodutor e detetor de padrões. Somado a isso, temos a presença e atuação das big techs a interferir de forma óbvia e sem qualquer restrição regulamentar na nossa realidade, favorecendo unicamente o interesse de alguns em detrimento dos coletivos. Mas acredito que um dos pontos mais centrais deste furacão de capitalismo tardio é a nossa total desconexão da realidade. Não foi necessário que as máquinas nos dominassem e nos colocassem numa realidade simulada, como no filme Matrix, para que a sociedade contemporânea perdesse a total referência do real.
“Já tiveste um sonho, Neo, do qual tinhas tanta certeza que era real? E se não conseguisses acordar desse sonho? Como distinguirias o mundo dos sonhos do mundo real?”, diz Morfeu a Neo, ainda confuso sobre o que é a Matrix, quando os dois se encontram num quarto escuro, antigo, com cortinas pesadas e móveis gastos. A mesma pergunta pode ser replicada para nós, no entanto, fora do contexto dos sonhos: já se envolveu de forma tão íntima com o seu feed de ecrã infinito que, após horas ali, conseguiria distinguir o que é real ou não de tudo o que viu?
Apesar de uma das referências mais óbvias do filme Matrix ser o mito da caverna de Platão, apeguemo-nos a outra referência extremamente presente no filme, citada inclusive de forma direta quando o nosso protagonista Neo, numa das primeiras cenas, pega num livro de fundo falso intitulado Simulacros e Simulação, de Jean Baudrillard, que discute a relação entre realidade, símbolos e sociedade. O ensaio afirma de forma categórica que a sociedade atual substituiu a realidade por simulacros e descreve o processo gradual de como a realidade se torna algo sem qualquer referencial.
O coração da argumentação de Baudrillard são as três ordens do Simulacro:
De primeira Ordem – Natural, Utópico, Imitativo: tem um alto valor simbólico pois possui um referencial real, ou seja, está ligado diretamente ao original.
De segunda Ordem – Produtivo, Mecânico, Industrial: reprodução mecanizada em massa, cujo valor simbólico (ou seja, o original) já não importa tanto; o que importa é a sua reprodução em série.
De terceira Ordem – Cibernético, Virtual, Puro Signo: a realidade já não existe.
O exemplo usado por Baudrillard nas suas argumentações é o mapa de Borges: um mapa tão detalhado que cobre exatamente o território que representa. Com o tempo, o território deteriora-se, e só o mapa (o simulacro) resta. Assim, vivemos num mundo de mapas sem território. Voltemos à problemática inicial: quanto é que o nosso dia a dia se tem assemelhado, cada vez mais, ao mapa de Borges? Submetidos a tecnologias que, em tese, deveriam servir-nos, mas que agora são a nossa maior fonte de escravidão. O mesmo ocorre em Matrix: as máquinas que deveriam servir-nos tornam-se os nossos escravizadores. E o princípio de tal servidão, de certa forma, é o mesmo – colocou-nos num mundo de simulacro de terceira ordem.
Abrimos os telemóveis e ligamo-nos de forma tão inconsciente que já não é possível dizer que existe, de facto, uma separação entre um suposto mundo virtual e o nosso real. De modo que a nossa realidade se tornou tão esvaziada que, quando nos vemos obrigados a desconectar, nos deparamos com o desespero daquilo que Baudrillard vai chamar de deserto do real – que simboliza de forma direta um despojamento violento da realidade em detrimento do simulacro, ou seja, vivemos num mundo tão saturado de símbolos, imagens e signos que o real se perdeu. Não importa mais, de maneira nenhuma, o "eu", mas sim a performance que posso realizar diante dos outros; somos instigados todos os dias a desempenhar uma personagem que precisa constantemente de demonstrar uma série de caracteres para ser aceite – um simulacro de emoções.
Isto tem aberto de forma significativa alguns caminhos: aqueles que se apegam com nostalgia doentia a um mundo pré-simulacro, ainda que o seu saudosismo seja um retrato tão falso quanto a realidade. Outros, enganados pelos símbolos, dizem-se despertos e apegam-se a factos extremamente desconexos em relação a qualquer possível visão de essência ou simulacro para se dizerem diferentes dos outros. E, por último, aqueles que, por inanição, ignorância ou conformismo, aceitam ou não percebem que a nossa realidade já não existe.
Perceba as relações com as redes sociais: influenciadores de todo o tipo moldam de forma muito evidente os comportamentos, de maneira que passamos em massa a reproduzir bordões e padrões de ação quase diretamente após uma trend viral. Quantos pais e mães, com condições ou não, passaram a comemorar o “mêsversário” dos seus filhos, após esse fenómeno ser amplamente partilhado pelos ditos influencers?
Tecnologias que deveriam permitir-nos conectar e partilhar sobre nós tornaram-se, através dos algoritmos das redes, as nossas maiores correntes, tudo em nome do lucro de poucos. No início das redes, poderíamos perguntar-nos: o algoritmo influencia-nos ou nós influenciamo-lo a ele? Hoje essa resposta está mais do que clara. Empresas gastam milhões para moldar as nossas opiniões e costumes, e isso existe para todos os gostos, géneros, religiões e posicionamentos políticos. Se todos bebemos da mesma fonte, ainda que o meu parecer seja diametralmente oposto ao do outro, não somos nós escravos do mesmo senhor?
Como dito anteriormente, a nostalgia é uma das ferramentas que nos prende ao simulacro porque, quando o real já não é aquilo que foi, é a nostalgia que toma o centro do palco. Mitos de origem e sinais de realidade passam a ser sobrevalorizados — como relíquias de um tempo em que o real ainda parecia possível. Procura-se, então, uma verdade de segunda ordem: objetiva, autêntica, mas apenas no discurso, pois a substância original já se perdeu. É a escalada do vivido como espetáculo, da verdade como performance, da imagem como substituto da presença. O figurativo ressurge com força justamente onde o objeto real desapareceu. O que temos agora é uma produção desenfreada de realidade e referência — mais intensa e invasiva do que a própria produção material. É nesse ponto que se instala a simulação: como uma estratégia de hiper-realidade que imita o real com tanta perfeição que o anula, dobrando-se sobre ele como um véu que não esconde, mas dissuade.
E muitos, embriagados de nostalgia, perdem-se no suposto encontro da verdade através de uma caricatura grotesca do hiper-real e, por alegadamente fugirem de um senso comum, sentem que tomaram a pílula vermelha. Dizem-se despertos, mas, assim como Cypher em Matrix, desejam ansiosamente voltar à simulação, porque, mesmo que o seu simulacro seja um amontoado de pequenas realidades unido por uma teia de mentiras, ele pode atuar como outsider, como aquele que conhece, aquele que supostamente viu o deserto do real e sobreviveu para contar a história; no entanto, não se pode produzir significado que não seja da realidade. Tudo isto para, no mundo, instigar uma relação de consumo vazia.
Chegamos a um estágio do capitalismo que, diferentemente do seu início, não se preocupa mais em desenvolver as forças produtivas, gerar inovação ou produzir competição. Estamos no ponto dos grandes monopólios que se apropriam das grandes ideias do passado para usar o que deveria ser um meio de libertação da raça humana — a tecnologia — como o nosso maior cabresto. Consumimos hoje por um fetiche performativo, ou, como cunhado por Marx, o fetiche da mercadoria ou fetiche capitalista, que nada mais é do que a magia encenada pelo mercado: transforma objetos comuns em promessas de identidade, desejo e transcendência — ocultando as estruturas que os produzem.
A abordagem, além de Baudrillard, que mais me salta aos olhos diante desta performance consumista são os escritos de Slavoj Žižek, mais especificamente as suas obras O Mais Sublime dos Histéricos: Hegel e Lacan (1989) e Bem-Vindos ao Deserto do Real (2002). Para Žižek, o fetiche é “Aquilo que finges não saber, para continuares a desejar”, ou seja, permite-te ignorar a realidade desconfortável por trás do objeto, desde que possas manter o prazer do consumo. Um mecanismo puramente ideológico: sabes que o objeto é falso, vazio, mas continuas a agir como se ele fosse tudo aquilo que promete. Temos plena consciência de que a vida dos influenciadores é uma mentira, que tudo ali existe única e exclusivamente para encenar sucesso e te convencer a comprar algo, mas, ainda assim, é tão bom saber o que a Maria Flor vai aprontar hoje nos stories da Virgínia.
Diante dos avanços desta suposta disrupção tecnológica que vivemos, embora de facto nada com poder transformador aconteça desde o surgimento dos smartphones, até o direito de possuir nos foi negado. Tudo vem no formato “as a service” (como um serviço); já nada é teu para guardar, mas tudo ali está colocado para ser desejado. Já não se compram filmes, assinamos um serviço que te permite ver o filme. O mesmo se aplica a livros em suporte digital: adquires apenas o direito de ler aquela obra. Mas vai além disso: a nossa existência foi embalada, monetizada e entregue por assinatura. Já não temos casas, temos co-livings. Não escolhemos móveis, alugamos a decoração do mês. Até cães, em alguns lugares, vêm por assinatura — amor com prazo de validade. Cozinhar virou capricho: marmitas fitness, dark kitchens, chefes por aplicação. Precisou de impressionar alguém? Comida gourmet em 30 minutos, com amor embalado em vácuo.
A própria identidade virou um serviço: alugamos roupas de luxo, contratamos curadores de feed, terceirizamos o estilo. Trabalhamos em coworkings, somos freelancers à la carte, vendemos o nosso tempo e saúde mental à hora em plataformas. E quando o coração aperta? Os relacionamentos também se tornaram on demand. Swipe, conversa, encontro. Amor algorítmico. Em alguns lugares, até um abraço é pago - cuddle as a service. Porque carinho sim, mas sem drama. Até a saúde mental entrou no jogo. Meditação por aplicação, terapia em caixinhas, emoções tratadas com notificações: “Lembra-te de respirar”. Vivemos uma existência fragmentada em pacotes mensais. A vida deixou de ser vivida e passou a ser organizada (curated). Ser virou parecer. Parecer virou monetizar. E, apropriando-nos novamente da obra de Baudrillard, podemos observar que já não se trata de dissimular, mas sim de simular. Porque dissimular é fingir não ter o que se tem. Simular é fingir ter o que não se tem. Um influenciador dissimula tristeza; o outro simula felicidade; para o algoritmo não importa o que é real, apenas o que gera envolvimento (engajamento).
No entanto, a cereja no topo do bolo é colocada nos anos após 2020, com as IAs generativas a serem abertas ao público. Ferramentas extremamente poderosas que deveriam permitir-nos realizar tarefas mecanizadas de forma brutalmente eficiente passam a ser usadas para emular ainda mais aquilo que não se é. Um copiloto para as nossas atividades diárias substitui o pensamento crítico por um prompt. E a partir daqui começa o fetiche visual, quando estes modelos baseados em textos nos permitem roubar – isso mesmo, roubar – a propriedade intelectual de artistas para que possamos ver como seríamos se fôssemos desenhados naquele estilo. Ou seja, permitimos que uma empresa lucre milhares de milhões com o trabalho de artistas, simplesmente para encenar identidade na internet.
O real torna-se cada vez mais deserto e a nossa existência cada vez mais vazia; a tecnologia que deveria libertar-nos das tarefas mecânicas, repetitivas e braçais para nos permitir ter mais tempo para viver, tem sido a principal fonte de precarização e escravidão. Deixo aqui uma provocação de Joana Maciejewska:
“Eu quero que a Inteligência Artificial lave a minha roupa e a minha loiça, para que eu possa escrever e criar a minha arte, e não o contrário; não desejo que a IA crie arte e escreva, enquanto eu lavo a loiça e ponho a roupa a lavar.”
Celebremos então, convocados por Georg Wilhelm Friedrich Hegel, o fim da história.
Ensaio de César Teixeira

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