Estamos a viver um período de rutura ambiental sem precedentes que é cada vez mais designado por "Antropoceno". À medida que o termo se torna mais omnipresente, quero explicar por que razão, enquanto psicólogo e ambientalista empenhado, penso que esta é uma forma altamente problemática de enquadrar a nossa situação.
Originalmente proposto por cientistas atmosféricos e depois por geólogos, o Antropoceno passou para o primeiro plano como uma forma poderosa, embora complexa, de falar sobre a nossa era atual. Este é um período em que, pela primeira vez na sua história, a Terra está a ser profundamente transformada por uma única espécie: os humanos. A palavra Antropoceno refere-se à ideia de que o registo geológico da Terra foi transformado pela humanidade: Anthropos é o termo grego para humano e -ceno indica um período de tempo geológico substancial dentro da atual era Cenozoica, que tem 65 milhões de anos.
É notável a rapidez com que esta ideia se tornou unânime. Atualmente, é tema não apenas de textos académicos e conferências, mas também de arte, ficção, revistas, diários de viagem, poesia e até de uma ópera.
Embora concorde que se trata de uma provocação importante e oportuna, quero fazer uma pausa e considerar se a narrativa do Antropoceno capta realmente o nosso dilema e as nossas perspetivas futuras.
Já existem muitas críticas à ideia do Antropoceno. Termos alternativos como "Capitaloceno" (que tenta destacar as forças prejudiciais do capitalismo) e "Plantacionoceno" (que enfatiza o papel do colonialismo, do sistema de plantações e do trabalho escravo) têm sido propostos como uma forma de focar a atenção nos elementos da história humana responsáveis pelas crises ambientais, em vez de aglomerar todos os seres humanos, e a sua responsabilidade, no mesmo saco. Mas eu quero concentrar-me na própria ideia de tempo.
O tempo profundo
O "tempo profundo" é o conceito de tempo geológico que é utilizado "para descrever a cronologia e as relações entre eventos que ocorreram ao longo da história da Terra". Trata-se de uma história de 4,54 mil milhões de anos. Temos dificuldade em compreender a escala colossal de uma noção de tempo que é tão... profunda. Existem inúmeras analogias para nos ajudar a compreender esta enormidade, como o relógio de 24 horas — em que os humanos só estão no planeta há 19 segundos desse dia. Pessoalmente, gosto da analogia abaixo, pois basta esticar o braço para a visualizar facilmente.
Se a Terra se formou há cerca de 4,54 mil milhões de anos ao nível do ombro, os animais (de qualquer tipo) surgem na palma da mão e as formas de vida mais familiares (para nós) têm origem na primeira articulação dos dedos. O movimento ao longo dos dedos representa os períodos seguintes, incorporando, por exemplo, o Jurássico. E os humanos? O Holoceno, com 11 700 anos, marca o início da dispersão global do Homo sapiens — "uma lasca microscópica na ponta de uma unha". O início do proposto Antropoceno, quer se adote um ponto de partida sugerido de 400 anos, 70 anos ou algures no meio, é um pontinho minúsculo dentro desta lasca.
Portanto, terá o Homo sapiens criado uma nova era geológica? Em termos simples, há argumentos a favor - existem muitas evidências do impacto humano no registo geológico, desde marcas das alterações climáticas provocadas pelo homem, testes atómicos e muito mais. No entanto, uma apreciação mais completa do tempo profundo deveria, na verdade, deixar-nos cautelosos em relação ao rótulo "Antropoceno", podendo até mudar a imagem que temos de nós próprios e do que significa habitar a Terra nesta altura. Eis o porquê.
Extinção em massa
Há cerca de 66 milhões de anos, ocorreu um evento de extinção em massa que eliminou cerca de três quartos de todas as espécies. Este foi, muito provavelmente, o resultado do impacto de um enorme asteroide - uma conclusão a que se chegou após a descoberta de uma camada fina mas distinta de sedimento no registo geológico dessa época, contendo elementos abundantes em asteroides.
A extinção em massa ofereceu uma oportunidade para a ascensão dos mamíferos como formas de vida dominantes, inaugurando a era Cenozoica ("nova vida"). Esta fina camada de poeira de cometa no registo rochoso representa uma transição breve mas vital entre camadas precedentes e subsequentes muito mais espessas. Mas ninguém se refere ao que se seguiu ao evento de extinção em massa como o "Cometoceno". Isso simplesmente não faria sentido — o impacto foi um evento único, significativo no contexto do tempo profundo apenas porque inaugurou novas fundações para a vida que depois se estenderam por milhões de anos no futuro distante.
E se o mesmo puder ser dito da nossa influência? E se, mesmo com os efeitos bem documentados de um Antropoceno que continua a acumular-se, estivermos a falar dos impactos humanos como um mero piscar de olhos no contexto do tempo profundo? É provável que assim seja. A expansão do industrialismo extraiu e esgotou de forma agressiva e rápida uma quantidade finita de recursos. O facto de haver um limite, aliado a uma rutura ambiental sem precedentes, circunscreve fundamentalmente a viabilidade a longo prazo de qualquer era possível de domínio humano.
É isto que o escritor americano John Michael Greer afirma quando diz que todas as formas de civilização industrial combinadas, no contexto do tempo geológico, são extraordinariamente efémeras e "auto-terminantes" — simplesmente uma transição entre eras. É por isso que ele considera a "transição Holoceno-Neoceno" (transição H-N, para abreviar) como um termo mais preciso, sendo o Neoceno um nome temporário para o que quer que surja a seguir.
O nosso legado geológico será provavelmente como a poeira do cometa — " uma camada de transição ligeiramente estranha com pouco mais de meio centímetro de espessura". Sendo uma espécie incrivelmente adaptável, os humanos poderão encontrar nichos ecológicos para sobreviver e prosperar neste futuro distante, mas não seremos dominantes.
Uma nova psicologia
Isto não significa que estejamos a caminhar para uma espécie de cataclismo único - outro evento de extinção. Significa que já estamos a viver um. Mas, em vez de sermos lembrados como algo grandiloquente e portentoso — como o Antropoceno —, é mais provável que alguma espécie do futuro distante pense em nós como aquilo a que o historiador Stephen Kern chama "um parêntese de brevidade infinitesimal". No contexto do tempo profundo, a Terra continuará o seu caminho sinuoso sem nós e mal notará a nossa ausência, da mesma forma que mal soube que aqui estivemos.
Esta viagem ao tempo profundo não pretende ser deprimente ou derrotista, nem visa de modo algum excluir a esperança ou evitar o reconhecimento do dano que os humanos podem causar. Creio que a sua relevância psicológica é oferecer um lembrete da própria vida como algo que deve ser abordado com reverência e admiração; a nossa espécie como interdependente e interligada, e não de alguma forma à parte; e esbater qualquer arrogância residual na ideia do Antropoceno.
Situar a humanidade numa história ainda mais profunda pode parecer assustador. Mas também pode ser libertador. Para inúmeras culturas por todo o mundo, como é óbvio, isto não é novidade - muitas cosmovisões indígenas abraçam a natureza, têm reverência por ela e possuem um sentido profundo de tempo e lugar. Apesar de terem sido historicamente desalojadas desses locais pelas forças do colonialismo e do industrialismo, estas vozes são frequentemente negligenciadas.
A história do nosso futuro distante, se tivermos um, será aquela em que aprendemos a reconhecer a interdependência com a natureza e com outras espécies. No fundo, trata-se do que significa ser humano. Como alertou a falecida filósofa ambiental Val Plumwood: "Seguiremos em frente num modo diferente de humanidade, ou não seguiremos de todo."

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