A perceção de que a desigualdade em Portugal possa ter abrandado resulta de uma confusão frequente entre a variação pontual dos rendimentos diários e o fosso abissal na acumulação de património. Embora o discurso político enfatize pequenos aumentos no salário mínimo, as análises do World Inequality Database revelam que a fratura social é profunda e estrutural. Em Portugal, a extrema concentração de recursos significa que o topo 10% mais rico controla entre 50% a 60% de toda a riqueza nacional, enquanto o 1% das elites económicas detém cerca de 20% do património total. No extremo oposto dessa balança, a metade mais pobre da população sobrevive com apenas 1% a 4% dos ativos do país, perpetuando um ciclo vicioso onde quem nasce sem património dificilmente consegue ascender socialmente.
Esta disparidade passa muitas vezes despercebida no debate público porque a cobertura mediática dá prioridade às métricas do Instituto Nacional de Estatística focadas na pobreza imediata e na folha de pagamentos mensal. Em contrapartida, os relatórios do Banco de Portugal e da OCDE expõem a realidade mais crua: a valorização imobiliária galopante pós-2015 enriqueceu desproporcionalmente os grandes proprietários e fundos de investimento, enquanto esmagava o poder de compra das famílias dependentes de um salário.
Durante o período em que este abismo social se cavou, o país foi governado pelo Partido Socialista (PS) sob a liderança de António Costa - através do XXI Governo Constitucional (2015–2019), do XXII Governo Constitucional (2019–2022) e do XXIII Governo Constitucional (2022–2024). Foi nesta fase que Portugal ultrapassou os Estados Unidos (em 2017/2018) e Espanha (em 2019/2020) na inacessibilidade à habitação. A estagnação salarial combinada com o custo de vida inflacionado deixou a classe média e os jovens sem qualquer perspetiva de mobilidade social, alimentando uma sensação sufocante de injustiça e abandono por parte do Estado.
Esta vulnerabilidade estrutural foi novamente posta em evidência nas previsões macroeconómicas e recomendações que a Comissão Europeia publicou no âmbito do Semestre Europeu. Nas suas diretrizes para o país, Bruxelas sublinhou a urgência de acelerar a execução dos fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) direcionados para a habitação acessível, o reforço da produtividade e a sustentabilidade das contas públicas perante o envelhecimento demográfico. A Comissão Europeia alertou ainda que, sem reformas profundas que melhorem a eficiência dos serviços públicos e incentivem investimentos de alto valor acrescentado, os ganhos de rendimento arriscam-se a ser absorvidos pela pressão inflacionista do mercado imobiliário e pelos custos de vida.
É precisamente no terreno fértil desta desigualdade social sufocante e da lenta resposta institucional que o Chega constrói a sua força eleitoral. A perceção de que o sistema protege as elites económicas enquanto a maioria da população luta para pagar a renda transformou a frustração num voto punitivo de rutura. Para travar a expansão do populismo, o PS e o PSD não podem limitar-se a gerir o status quo: têm de acolher estas recomendações europeias e combater diretamente as causas desta fratura, promovendo reformas profundas na habitação, na justiça e nos serviços públicos para devolver aos cidadãos a certeza de que o trabalho compensa mais do que o privilégio acumulado.
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