domingo, 30 de agosto de 2026

60 anos - graças à família, amigos, activismo concretizado e à Vida

Fazer 60 anos é um marco, mas, sinceramente, não o sinto - no fundo, ainda tenho 15 anos: cheio de amor para dar e de coragem para enfrentar o que quer que venha a seguir. Agarro-me firmemente aos valores que sempre me definiram - o ecopacifismo, a ecologia e a força do coletivo. Levo comigo os nobres ensinamentos daqueles que já não estão cá nas minhas ações diárias, mantendo viva a sua memória enquanto enfrento os desafios da vida com determinação pragmática. Acima de tudo, estou profundamente grato por ainda estar aqui.

Neste poema autobiográfico exploro o activismo entretanto já realizado. Tudo começou ainda no antigo Liceu de Gaia (Escola Secundária Almeida Garrett) era então presidente da Associação de Estudantes, que mantive entre os meus 15 anos até aos 17, plantamos uma horta comunitária. Pioneira em 1981. Mal entrei no curso de Biologia inscrevi-me como sócio nº 29 da Quercus. Aí fui combativo contra a feira dos pássaros do Porto. E conseguimos. E tantas, tantas actividades pró-ambientais.

A minha leitura do mundo é moldada pelo rigor científico da Biologia e pela visão holística que desenvolvi ao concluir o meu Mestrado em Ecologia. Foi na academia que aprendi a descodificar a dinâmica dos ecossistemas, mas foi na práxis do trabalho de campo e na divulgação científica contínua que essa teoria se transformou numa vocação viva e orientada para a ação.  A minha bússola intelectual assenta na Ecologia Profunda de Arne Næss. Na esteira de autoras como Rachel Carson e Robin Wall Kimmerer, recusei a perspectiva utilitarista e antropocêntrica que reduz a Natureza a um mero stock de recursos económicos. Para mim, as espécies, os habitats e os processos ecológicos possuem um valor intrínseco fundamental. Como biólogo, sei que a teia da vida não existe para servir o crescimento humano; nós é que somos uma parte dependente e interligada dessa matriz. 

Na linha da frente da conservação e do combate à crise acelerada da biodiversidade, inspiro-me na visão de E.O. Wilson e nas propostas de rewilding de George Monbiot. Compreendi cedo que a criação de pequenas reservas isoladas já não basta. Para travar o declínio de espécies, precisamos de restaurar corredores ecológicos, devolver espaço a processos selvagens e permitir que a dinâmica dos ecossistemas recupere a sua capacidade intrínseca de autorregulação.

A minha ética de intervenção cruza-se com o Ecopacifismo, fortemente alinhado com o pensamento de Vandana Shiva e Wangari Maathai, integrando os contributos fundamentais da ecologia política e da ação direta não-violenta. Apoio-me na visão de Petra Kelly, cofundadora do movimento ecologista alemão, que uniu de forma indissociável a luta pelo desarmamento global à proteção do ambiente, defendendo uma revolução ecológica profundamente pacífica. Cruzo o meu pensamento com a Ecologia Social de Murray Bookchin, que demonstra como o domínio humano sobre a natureza deriva diretamente das estruturas de dominação entre os próprios seres humanos, exigindo uma transição comunitária e descentralizada. Incorporo ainda a herança de Aldous Huxley e da tradição pacifista, pioneiros no alerta para as ligações destrutivas entre a expansão industrial militarizada e a degradação da biosfera.

Compreender esta teia de pensamento reforça em mim a convicção de que não haverá paz duradoura nem justiça ambiental enquanto continuarmos a tratar o planeta e as comunidades através de lógicas de exploração. Travar o colapso ecológico não é apenas um desafio técnico ou científico, mas uma transformação ética e política profunda: só libertando a sociedade da obsessão pelo rendimento, do militarismo e do extrativismo será possível devolver espaço à vida selvagem e garantir um futuro verdadeiramente justo, pacífico e sustentável.

No plano da sustentabilidade e da economia, recuso o paradigma do crescimento ilimitado. Apoio-me na Economia Ecológica de Herman Daly e nos modelos da Economia do Donut de Kate Raworth para defender caminhos de pós-crescimento e transição justa:
  1. Conservação baseada na Ciência: Aplicação do conhecimento ecológico rigoroso no desenho de redes de áreas protegidas, restauração de solos e monitorização da biodiversidade.
  2. Literacia e consciência ambiental: Tradução do conhecimento científico em reflexão crítica acessível ao público, incentivando o debate sobre a transição ecológica.
  3. Modelos de pós-crescimento: promoção de dinâmicas de economia circular, soberania alimentar e sistemas produtivos que operem estritamente dentro dos limites ecológicos do planeta.
Escrevo esta trajetória não como uma conclusão, mas como um compromisso contínuo. Entre a investigação, a ecologia aplicada e o debate público, sigo empenhado em construir uma relação sustentável, justa e ecocêntrica entre a humanidade e a Terra.

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