terça-feira, 4 de agosto de 2026

Como as cidades estão a transformar os seus rios poluídos em paraísos para banhos

No dia 5 de Julho de 2026, durante uma onda de calor opressiva, parisienses e turistas nadaram no Sena, um de muitos rios que foram limpos e estão a receber novamente banhistas urbanos.

Durante a maior parte da vida de Pauline Janbon, a ideia de tomar banho no rio Sena, em Paris, era inimaginável.

“Quando éramos crianças diziam-nos que havia cadáveres a flutuar na água”, disse Janbon, uma estudante de 20 anos da Universidade da Sorbonne, em Paris. “Tinha a reputação de ser extremamente sujo.”

Em Junho deste ano, porém, quando uma onda de calor inédita assolou o país, Janbon e milhares de parisienses mergulharam nas águas outrora temidas da cidade para se refrescarem. No dia em que a conheci, ela estava junto à margem do Canal Saint-Martin, rodeada por hordas de banhistas, que saltavam, nadavam e boiavam na água.

“Até hoje, nunca tinha dado um mergulho na minha própria cidade”, disse Janbon, enquanto espremia água do cabelo. “Parece que estou de férias.”

Paris é apenas uma de muitas cidades europeias que se têm esforçado para tornar as suas vias aquáticas novamente seguras para banhos. Copenhaga, Basileia, Zurique, Berna e Oslo passaram anos a melhorar os seus sistemas de gestão de águas residuais, criando uma infra-estrutura de águas pluviais e implementando políticas para controlar melhor a poluição aquática. Os seus esforços têm sido maioritariamente bem-sucedidos, com os residentes das cidades da Europa a regressarem às suas águas. E à medida que as alterações climáticas criam ondas de calor mais intensas e frequentes, os urbanistas e residentes também estão a virar-se para estas águas para lidar com os dias mais quentes.

“Estamos a ver pessoas a renegociar os seus contratos sociais com a água nestas cidades”, disse Matthew Sykes, co-fundador e director do programa Swimmable Cities, uma aliança de organizações que promove o direito ao usufruto das vias aquáticas urbanas. “As pessoas começam a perceber que é melhor ter uma cidade onde se possa nadar.”

Um regresso histórico às águas
Até ao início do século XX, tomar banho nos rios urbanos era uma actividade comum na Europa ocidental e em algumas zonas da América do Norte. Eram construídas casas de banhos directamente em cima dos rios e havia sítios que as pessoas visitavam a lazer, bem como para se lavarem. A falta de canalizações em casas particulares significava que estas casas de banho – populares em cidades como Nova Iorque, Londres, Boston, Filadélfia e Paris – eram frequentemente o único sítio onde as pessoas podiam lavar-se.

À medida que a industrialização foi avançando e as populações subiram a pique nas cidades, os rios urbanos da Europa tornaram-se inimaginavelmente sujos. Em Paris, águas residuais, partes do corpo de animais e escoamentos de lavandarias eram despejados directamente no Sena. Por esta razão, a cidade proibiu os banhos em 1923, declarando a água insegura para a saúde humana.

As autoridades municipais começaram a discutir a limpeza do rio em 1988, mas só em 2016 é que a presidente da câmara de Paris, Anne Hidalgo, renovou o empenho da cidade em limpar o Sena, transformando o rio num pilar essencial da candidatura de Paris aos Jogos Olímpicos de Verão de 2024.

“Paris fez muito do trabalho pesado pelas outras cidades”, disse Sykes, comentando que o gabinete do presidente da câmara sofreu muitas críticas da parte da imprensa e dos eleitores. “Tiveram de provar que uma iniciativa como esta, que já tinha sido testada em cidades mais pequenas, era possível em grandes metrópoles urbanas.”

Em Julho de 2025, quando o Sena abriu oficialmente ao público, mais de 100.000 pessoas nadaram nas áreas de banho designadas, levando a cidade a prolongar a época balnear até ao início de Setembro. Agora, com o rio a entrar na sua segunda temporada de banhos, Paris está a provar que limpar os rios não só é possível, como é essencial na época das alterações climáticas.

Em Junho, Paris sofreu a sua onda de calor mais grave de que há registo. França tem poucos equipamentos de ar-condicionado: apenas um quarto das casas e menos de 7 por cento das escolas estão equipadas com sistemas de refrigeração. Em Paris, os edifícios haussamannianos que dão à cidade o seu visual emblemático, são notoriamente mal isolados contra o calor, deixando os parisienses com poucas opções para se refrescarem. Quando as temperaturas aumentaram no final de Junho, os parisienses suados procuraram refúgio nos corredores refrigerados dos supermercados e aguardaram em longas filas para entrar nas piscinas municipais da cidade. No entanto, as opções mais populares para muitos foram os rios e canais recentemente limpos de Paris, aos quais hordas de pessoas desceram para dar o seu primeiro mergulho na cidade.

Cientificamente falando, os parisienses têm poucas razões para se preocuparem com a higiene da sua água. Todos os dias, a cidade monitoriza o Sena em busca de E. Coli e enterococci, que podem causar febre, infecções do tracto urinário e diarreia. Estes testes têm concluído de forma consistente que a água é segura para banhos, de acordo com os regulamentos da União Europeia.

Mesmo assim, um bloqueio mental impede muitos parisienses de nadar no Sena. Em 2021, quando a agência de sondagens IFOP pediu a mil pessoas francesas a sua opinião sobre o Sena, 70 por cento dos inquiridos descreveram-no como sujo, poluído e malcheiroso. Poucos disseram que seriam capazes de mergulhar no rio. E embora essa perspectiva tenha começado a mudar, a longa reputação do Sena como um rio sujo é difícil de limpar.

“Estou feliz por os meus filhos poderem desfrutar da água, mas eu não meto os pés lá dentro”, disse Soizic Prado, de 52 anos, sentada num banco, toda vestida, a ver os filhos brincar. “Tenho a certeza que é segura, mas passei a minha vida inteira a ouvir dizer que a água é suja”, explicou. “Ça donne pas envie” [“Não dá vontade”].

O modelo suíço
No fim de uma tarde de sábado em Basileia, na Suíça, meti o meu telefone, carteira e câmara num saco impermeável e entrei no rio Reno, juntando-me a centenas de residentes enquanto boiavam rio abaixo pelo centro da cidade.

Embora Basileia se localize a apenas 400 quilómetros de Paris, a relação dos residentes da cidade com os seus rios não poderia ser mais diferente.

“Nunca me preocupo com a qualidade da água”, disse-me Sophie Mauckenthaler, uma estudante de 23 anos enquanto boiava junto à catedral da cidade. “Ninguém se preocupa.”

A Suíça tem alguns dos rios urbanos mais limpos do mundo. O país é o líder internacional em tratamento de águas residuais, gastando todos os anos, em média, cerca de 200 euros por pessoa em manutenção, ultrapassando significativamente outros países europeus.

Por esta razão, Basileia tem uma das melhores cidades para banhos da Europa. Em qualquer dia de Verão há pessoas a saltar para o rio e a beber nos chafarizes que se encontram nas praças e nas esquinas da cidade. No entanto, a actividade mais popular é, de longe, nadar no Reno e alguns residentes até se deslocam para o trabalho boiando rio abaixo. “Não conseguimos entender o conceito de termos um rio na nossa cidade e não nadarmos nele”, disse Ruedi Bösiger, um especialista suíço em água doce que trabalha com o World Wildlife Fund. “Faz parte da nossa cultura.”

Os habitantes de Basileia tomam banho no Reno pelo menos desde o século XV, quando as freiras da abadia da cidade se refrescavam no rio. A primeira casa de banhos oficial do Reno abriu, supostamente, em 1831, embora documentos de arquivo sugiram que já poderiam existir antes. Nas últimas quatro décadas, boiar Reno abaixo com sacos impermeáveis flutuantes conhecidos localmente como Wickelfisch foi um elemento essencial da vida urbana durante o Verão.

Mesmo assim, a relação dos suíços com os seus rios enfrentou alguns obstáculos. Em 1986, um incêndio num armazém agroquímico da Sandoz despejou substâncias tóxicas no Reno, pondo o rio vermelho. O derrame químico dizimou a vida selvagem a jusante e foi considerado um dos piores desastres ambientais da história do rio.

Antes do derrame químico, os rios das cidades suíças já eram altamente poluídos. Como em muitos países europeus em meados do século XX, as cidades suíças despejavam resíduos industriais, esgotos e escoamentos fabris nos rios, tornando-os impróprios para banhos.

Os derrames químicos em Basileia desencadearam grandes alterações legislativas em todo o país. Foram criadas infra-estruturas para assegurar que as águas residuais dos incêndios não chegassem ao rio. As estações de tratamento foram actualizadas para limpar resíduos industriais e domésticos. E foi implementado um sistema abrangente de monitorização da água no rio.

“Esta crise uniu as pessoas e deu-lhes consciência de que tinham de cuidar do Reno”, disse Patricia Holm, investigadora de ecossistemas aquáticos da Universidade de Basileia. “Por causa disso, o rio é mais saudável agora do que era antes do derrame.”

Embora a Suíça seja frequentemente realçada como história de sucesso, os especialistas crêem que ainda há trabalho por fazer. “Lá porque se pode tomar banho num rio, isso não significa que esteja intacto em termos ecológicos”, disse Bösiger.

A qualidade da água, que é avaliada principalmente através dos níveis de E. Coli do rio, não têm em consideração a saúde ecológica do corpo de água. Embora os rios suíços já não façam as pessoas adoecer, foram canalizados e fragmentados por estações hidroeléctricas, o que levou à perda de habitat e limitou o fluxo dos sedimentos a jusante, afectando a vida selvagem e os ecossistemas aquáticos.

Os especialistas também dizem que as medições de qualidade da água devem procurar micropoluentes, como vestígios de fármacos, pesticidas e parabenos, que podem ter efeitos negativos na saúde humana e animal.

Em 2016, a Suíça tornou se o primeiro grande país do mundo a aprovar legislação exigindo a remoção dos químicos da água. Todos os anos as cidades suíças acrescentam instalações de tratamento de micropoluentes às estações de tratamento de águas residuais já existentes. Os especialistas atribuem este sucesso ao sistema de democracia directa da Suíça, que permite que os seus cidadãos apliquem directamente regulamentos hídricos através de referendos.

Na opinião de Yixin Cao, antiga investigadora do Urban Bathing Studio da Universidade de Lyon, este singular sistema político ajudou a implementar os esforços de limpeza da água e permitiu ao povo suíço participar no restauro dos seus rios.

“Na Suíça, as pessoas consideram o rio um espaço comum e confiam nele, que é uma perspectiva que falta actualmente na cultura parisiense e noutras cidades industrializadas da Europa”, disse ela. “Os suíços têm uma relação profunda com os seus rios.”

Quando saí do Reno, alguns quilómetros depois ao início da noite, encontrei-me com Danny Wehrmueller, director de um teatro local com 66 anos que passara o dia a boiar na água com a sua esposa. Ele disse-me que nadar nos rios urbanos era “quintessencialmente suíço”, mas com uma ressalva. “Quando eu era mais novo, o rio não era suficientemente limpo para o fazermos”, disse, acrescentando que, durante os primeiros 30 anos da sua vida ninguém se atrevia a entrar na água. “Agora, nunca pensamos duas vezes na poluição.”

Para Wehrmueller, tomar banho no Reno não deveria ser considerado algo excepcional. “Mostra que limpar um rio é possível em qualquer sítio.”

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