A estratégia está longe de ser de agora. Começou há duas décadas e está a dar cada vez mais frutos. Só no último mês, multiplicaram-se as notícias de que a China ocupa o lugar cimeiro numa série de setores de Investigação & Desenvolvimento, da produção de chips avançados ao registo de patentes, da exploração espacial à matemática.
O desenvolvimento científico e tecnológico tem sido de tal forma que, numa sondagem do Pew Research publicada no mês passado, um número recorde de norte-americanos considerou que o líder global em Inteligência Artificial (IA) é a China e não os EUA, com mais de um terço dos inquiridos a considerar isso mesmo, contra apenas 12% que consideram que são os Estados Unidos quem vai à frente nessa corrida. Esta perceção, contudo, não corresponde à realidade, ressalta Bernardo Forbes Costa, professor da Nova School of Business and Economics especializado em ciência de dados e IA.
“Temos de ser claros: ao dia de hoje, a dominância no que toca à Inteligência Artificial reside nos Estados Unidos, o líder mundial são os EUA, em particular os laboratórios da Anthropic e da OpenAI, isso é claro para toda a gente”, garante o especialista. “A questão é quanto tempo é que isto vai durar e se realmente essa liderança se vai manter ao longo do tempo ou se vai haver dispersão", contrapõe. "Acho que há dinâmicas nesse sentido e há, sem dúvida, uma corrida a acontecer.”
A corrida está a ser tão frenética e a liderança dos EUA está tão ameaçada que, no espaço de uma semana, o The Guardian dedicou dois longos artigos ao assunto, referindo num primeiro momento a “dor de cabeça para Silicon Valley” enquanto a China “reduz a vantagem em relação aos EUA na corrida à IA” e, dias depois, como o debate sobre o futuro da IA está a “dividir Silicon Valley à medida que a China ganha terreno”.
Trump mostra decreto a lançar a Iniciativa IA, integrada num plano de ação de 5 mil milhões de dólares focado na desregulação do setor e no investimento em infraestruturas; ao mesmo tempo, está em curso um debate interno na administração norte-americana sobre os riscos associados a essa desregulação.
“Se nós pensarmos no que gera valor para um país, temos três fatores – tecnologia, trabalho e capital - e quando falamos de IA, estamos a falar da primeira componente enquanto multiplicadora das outras duas”, explica Forbes Costa. “Quem tem maior acesso ao mesmo nível de capital e trabalho, e acesso a uma maior capacidade de tecnologia, tem um multiplicador maior e as suas economias irão crescer. É, sem dúvida, uma vantagem competitiva gigantesca - e o que a China fez foi dizer ‘OK, vamos competir, vamos tentar destronar os EUA e os laboratórios que estão na fronteira’, apostando no custo e na eficiência, fornecendo alternativas muito baratas ou praticamente gratuitas, modelos baratos e eficazes, para criar pressão competitiva nestes laboratórios e, por conseguinte, na economia americana, enquanto nos EUA a estratégia foi ‘vamos tentar ter o melhor modelo pelo preço mais caro’.”
Com ecos de estratégias passadas, em que a China conseguiu, em pouco tempo, tornar-se competitiva produzindo o mesmo que o Ocidente mas com custos mais baixos, a rota rumo à dominância em Inteligência Artificial está a começar a dar frutos. E os EUA estão preocupados. Há poucos dias, o Axios noticiou em exclusivo “a batalha secreta da administração Trump para combater a IA chinesa”, com base em “sinais” vindos do governo federal de que “poderá banir os modelos chineses de IA de ponta – uma medida de grande impacto que poderá consolidar o domínio da OpenAI e da Anthropic”.
Também esta intenção não é uma novidade, tendo em conta os esforços da administração Trump ao longo de 2025 para limitar ou proibir o acesso de laboratórios de IA chineses ao mercado norte-americano. De acordo com fontes ao Axios, no ano passado o Departamento do Comércio considerou incluir esses laboratórios na sua “Lista de Entidades”, uma medida que, na prática, bloquearia o acesso dos EUA aos mesmos sem uma licença, e a Agência de Segurança Nacional (NSA) e o gabinete do Diretor Nacional de Cibernética da Casa Branca também ponderaram emitir um alerta sobre as ameaças que estes laboratórios chineses representam, na prática desencorajando as empresas norte-americanas de utilizarem tecnologias norte-americanas.
Nada disso chegou a acontecer até dezembro, mas meio ano depois os esforços ganharam novo fôlego perante o lançamento do modelo Kimi 3 pela chinesa Moonshot IA há duas semanas. O modelo gerou uma tal procura que, em poucos dias, a empresa teve de suspender novos registos, fazendo deflagrar novas preocupações entre alguns funcionários do governo Trump e um choque destes com outros mais pró-competitividade.
“Autoridades governamentais ansiosas por evitar que as regulamentações sufoquem a inovação puseram a fim a todos estes esforços [mas] vozes importantes como a do ex-conselheiro da Casa Branca Siriam Krishnan abandonaram entretanto os seus cargos, e os defensores de uma postura mais conservadora em relação à segurança nacional tornaram-se mais incisivos”, escreve o portal de notícias. “Com esta mudança de pessoal – juntamente com a ascensão de empresas tecnológicas chinesas mais poderosas e novos receios em relação à cibersegurança – o movimento de proibição está novamente a ganhar força.”
Fonte aberta: benefícios vs. riscos
Estes esforços serviram de pano de fundo à carta aberta que uma série de tecnológicas norte-americanas, com a Microsoft à cabeça, publicaram no final de julho a defender a necessidade de ter uma IA de código aberto. Apenas a Anthropic não subscreveu a missiva. E mesmo dentro dos laboratórios há quem não concorde com a posição . caso de Dean W. Ball, diretor de futuros estratégicos na OpenAI, que recorreu à X para argumentar que abraçar a chamada IA de open-weights só iria beneficiar a China e conduzir ao “comunismo pleno da IA”.
“É interessante ver empresas, nomeadamente americanas, a apoiar esta posição”, refere Bernardo Forbes Costa. “Esta discussão sobre open-weight não é nova nem exclusiva da IA, sendo a premissa a de que, se a ciência, por exemplo, for aberta, e estiver disponível para todos, isso promove o desenvolvimento científico e gera valor para a sociedade como um todo”, adianta, dando como exemplo as vacinas contra a Covid-19, que envolveu um “esforço aberto a nível mundial para colaborar e partilhar patentes”, tornando mais rápido o acesso à inoculação.
Enquanto especialista em IA e ciência de dados, Forbes Costa ressalta que esta aposta “não iria beneficiar só a China, mas também as empresas privadas, como a NVIDIA, a IBM, a Microsoft, em primeiro lugar porque vendem infraestrutura, ou seja, o modelo existe e é acessível, mas é preciso computação – havendo mais necessidade de modelos de IA, há mais necessidade de infraestrutura e de computação, o que faz com que estas empresas ganhem com isso”.
O laboratório norte-americano da Anthropic, que lidera a corrida da IA juntamente com a OpenAI, foi a única que não subscreveu a carta aberta divulgada em julho, na qual as tecnológicas pedem que se evite a "sobrerregulação" do setor e se aposte em modelos de fonte aberta.
Mas isso, assume o especialista, acarreta os seus riscos, o que, em parte, explica a posição da equipa de Trump. “Se tivermos uma administração que é agressiva, se calhar mais nacionalista, que é mais protecionista daquilo que são os interesse americanos, e sendo este um fator determinante para o mercado económico global, vai ser uma prioridade e vamos ter uma abordagem mais protecionista destes fatores tecnológicos, pelo que não me surpreende que seja essa a postura.”
«Ainda assim, Forbes Costa contrapõe que existem formas de proteger os interesses fomentando a IA open-weight, porque “não temos necessariamente de disponibilizar tudo, nem de pôr de lado a vantagem competitiva das empresas americanas, podemos simplesmente ter quase como se fossem vários níveis de abertura com suficiente capacidade mas cientes dos riscos que pode ter para a sociedade”, argumenta. “É tal qual como termos uma fórmula química altamente aberta, com certeza haverá malfeitores que irão usar essa fórmula para criar armas químicas, neste caso cometer crimes com os modelos em particular. E portanto o que é preciso é regular.”
Aqui entra na equação a União Europeia que, sendo “uma região francamente muito pobre em termos de progresso tecnológico no que toca à IA”, não só teria a ganhar com tecnologia de fonte aberta, como já tem regulação implementada para acautelar potenciais riscos. Este domingo entrou em funcionamento uma unidade da Comissão Europeia criada há dois anos para reforçar ainda mais a regulação do setor, com um arsenal de poderes regulatórios destinados a supervisionar as ações de gigantes da IA, como as norte-americanas OpenAI e Anthropic, mas também das suas concorrentes chinesas, como a Moonshot e a Deepseek.
As frentes de batalha da administração Trump
A partir de agora, se os reguladores da UE não aprovarem determinadas ações das tecnológicas, terão o poder de aplicar multas e até mesmo bani-las do mercado comum, no âmbito do chamado AI Act, que Forbes Costa considera como “um conjunto de regulamentações muito exigente e sem cooperação total com o que se pratica nos EUA” – mas que tem levado a crescentes pressões da administração Trump sobre a UE para desregulamentar o setor.
“É preciso dar o devido valor à UE por ser organizada, por ter tido esta iniciativa de garantir que, sim, o processo existe, mas há gestão do seu impacto na sociedade, isso é excecional e realmente mostra que os valores europeus são fortes e benéficos para todos”, ressalta o especialista português. “Mas há aqui esta outra questão da competitividade que é preciso ter em conta, porque a cautela tem um custo – se realmente vivemos num mercado global em que todos temos acesso a uma ferramenta que existe, e que no caso foi feita nos EUA, o facto de irmos devagar ou com mais cautela prejudica-nos”.
Da mesma forma, também tem havido pressões vindas do outro lado do Atlântico para negociar com os EUA em detrimento da China, apesar de os chineses fornecerem alternativas igualmente boas mas mais baratas numa série de setores, como o dos carros elétricos – só em Portugal há seis marcas chinesas a circular, como ressalta Forbes Costa.
Há um ano, quando o governo português e a chinesa CALB anunciaram um enorme investimento em Sines para construir uma fábrica de baterias de lítio, Daniel S. Hamilton, do Diálogo Transatlântico sobre Comércio, Tecnologia e Segurança, já tinha ressaltado à CNN Portugal que “cada lado [EUA e UE] aborda a China a partir de uma posição estratégica diferente, com instrumentos e prioridades diferentes”. E isso também se aplica à IA.
Fontes dizem à Reuters que EUA e China vão discutir Inteligência Artificial antes da cimeira entre Donald Trump e Xi Jinping, marcada para 24 de setembro na Casa Branca; os detalhes desse encontro técnico ainda não são conhecidos.
Há duas semanas, cinco fontes com conhecimento das políticas da administração disseram à Reuters que os EUA e a China vão realizar conversações sobre IA em setembro, antes de uma antecipada cimeira entre Donald Trump e Xi Jinping na Casa Branca marcada para o dia 24 do mesmo mês. “À medida que as superpotências procuram formas de mitigar os riscos representados pelos modelos de fronteira – cada vez mais poderosos – desenvolvidos por ambos os lados”, refere a agência, “Pequim e Washington estão a avaliar como regular modelos avançados de IA que poderiam fortalecer as capacidades militares, viabilizar ataques cibernéticos a infraestruturas críticas e perturbar os mercados de trabalho”.
Quatro das cinco fontes dizem que este encontro vai ser liderado por Scott Bessent, o secretário norte-americano do Tesouro, com outras três a referirem que nada está ainda decidido - nem as identidades dos restantes participantes de ambos os lados, nem a agenda ou o local onde as conversas terão lugar. Questionado sobre o que Trump pretende debater com Xi na cimeira de finais de setembro após um encontro com o seu homólogo chinês na semana passada, o secretário de Estado de Trump escusou-se a adiantar informações, dizendo apenas que o objetivo é definir potenciais áreas de cooperação.
“O trabalho que precisamos de fazer agora, em setembro, é identificar quais são essas áreas, para que possamos lançar as bases para uma visita muito positiva, falámos muito sobre isso”, disse Marco Rubio aos jornalistas à saída da reunião com Wang Yi. “Há áreas de grandes divergências. Ambos os lados reconhecerão isso. Teremos de trabalhar nestas questões, e penso que essas diferenças existirão num futuro próximo. Obviamente defenderemos sempre os nossos interesse nacionais, e antecipo que eles façam o mesmo, da forma que os definem, mas penso que existem algumas áreas de potencial cooperação.”
Os media estatais chineses e os comentadores têm pintado a cimeira Trump-Xi de setembro como fruto dos receios dos EUA de que a China venha a ganhar vantagem na corrida global da IA. E com Pequim a morder-lhe os calcanhares, Washington está empenhado em fazer de tudo para manter a pole position na corrida mais importante e frenética desta era. A questão é que nada garante que vá continuar ao leme.
“Havendo esta iniciativa de openweight, de disseminação da tecnologia, mais depressa esta vantagem competitiva dos laboratórios norte-americanos se pode espremer e ficar cada vez mais reduzida, porque havendo mais modelos abertos e esse conhecimento gratuito acessível a todos, mais depressa a China pode convergir”, ressalta Bernardo Forbes Costa. “É por isso que a carta aberta, subscrita por algumas empresas, como a OpenAI, quase que de forma silenciosa, é tão interessante - e as medidas que a administração Trump está a ponderar surgem quase como uma contramedida face à disponibilização destes modelos de fonte aberta”.
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