A fixação e sobrevivência do adufe na Beira Interior de Portugal — com particular expressão na Beira Baixa, em concelhos como Idanha-a-Nova e Castelo Branco — constituem um dos fenómenos mais singulares do património etnomusicológico português. Enquanto noutras regiões do país este bimembranofone quadrangular caiu em desuso ou desapareceu por completo ao longo dos séculos, o adufe encontrou no território beirão as condições ideais para se perpetuar como o principal símbolo da identidade local. A sua introdução na Península Ibérica remonta ao período de ocupação muçulmana, entre os séculos VIII e XII, derivando o seu nome do termo árabe ad-duff. Com o avanço da Reconquista Cristã, o instrumento foi assimilado pelas populações locais, integrando-se tanto nas festividades profanas como nas celebrações sagradas. A manutenção deste legado na Beira Interior deveu-se, em grande medida, ao isolamento geográfico e socioeconómico a que a região esteve votada durante séculos, protegida pelas barreiras naturais da Serra da Estrela e pela proximidade da raia espanhola. Este contexto de interioridade cultural permitiu a preservação de tradições orais que o litoral urbanizado acabou por descartar em favor de modas musicais europeias. Contudo, o fator mais determinante para a sua longevidade reside na forte ligação do instrumento ao universo feminino. Na Beira Interior, o adufe tornou-se uma prerrogativa quase exclusiva das mulheres — as adufeiras —, que assumiram o papel de guardiãs da memória coletiva. Cabia-lhes a responsabilidade de acompanhar com o adufe os cantares de trabalho, os ciclos agrários e, sobretudo, as romarias em honra dos santos padroeiros e da Virgem Maria. Esta transmissão intergeracional, feita de mães para filhas através da oralidade, garantiu que o instrumento não apenas sobrevivesse ao êxodo rural do século XX, mas que transitasse para o século XXI como um património vivo, hoje reconhecido internacionalmente, Idanha-a-Nova foi considerada Cidade da Música pela UNESCO muito por culpa deste património vivíssimo O que antes era um hábito de subsistência cultural e religiosa, hoje é orgulho regional e nacional. O instrumento saiu do isolamento das aldeias e hoje é integrado em projetos de música moderna, folk e fusão, mantendo a Beira Interior no mapa da world music.
Referências Bibliográficas
Castelo-Branco, Salwa El-Shawan (coord.) (2010). Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX. Lisboa: Círculo de Leitores / Temas e Debates.
Oliveira, Ernesto Veiga de (2000). Instrumentos Musicais Populares Portugueses. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian / Museu Nacional de Etnologia.
Ribeiro, Maria do Rosário (1993). O Adufe. Castelo Branco: Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico.
Vasconcelos, J. Leite de (1980). Etnografia Portuguesa: ensaio de sistematização. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
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