Se em "The Everlasting Gaze" assistimos a um Billy Corgan focado no gnosticismo e no despertar espiritual, foi anos antes, em "Zero", que o músico atingiu o ponto mais alto do niilismo dos anos 90.
Lançada em outubro de 1995 como uma das faixas mais emblemáticas do lendário álbum duplo Mellon Collie and the Infinite Sadness, "Zero" marcou um ponto de viragem definitivo na carreira dos The Smashing Pumpkins. Antes de Billy Corgan mergulhar no gnosticismo e na busca espiritual de "The Everlasting Gaze", foi em "Zero" que o músico atingiu o ponto mais alto da apatia e da dor existencial. A canção destaca-se de imediato pelo seu riff pesado e cortante em afinação drop D, pontuado por um uso brilhante de harmónicos de guitarra modulados com efeitos de flanger e whammy, conferindo ao tema uma sonoridade mecânica, agressiva e quase industrial.
Apesar de já terem passado mais de três décadas desde o seu lançamento, o impacto de "Zero" e da era Mellon Collie continua a ecoar na cultura pop e na história da música. O álbum, que vendeu mais de 10 milhões de cópias só nos Estados Unidos e alcançou a certificação de Diamante, provou que a banda conseguia rivalizar com o fenómeno do grunge mantendo uma visão estética grandiosa. A fusão única de heavy metal, rock industrial e shoegaze pesado abriu caminho e influenciou diretamente a sonoridade de bandas como Deftones, Marilyn Manson, Garbage e grande parte do movimento nu metal do final da década de 90.
O videoclipe oficial do tema foi assinado pela aclamada artista visual e fotógrafa tcheca Yelena Yemchuk, na altura namorada de Corgan e responsável por toda a identidade gráfica de Mellon Collie. O clipe abdica de uma narrativa linear para apostar numa atmosfera barroca, soturna e claustrofóbica. Filmado numa sala decadente com iluminação fria e sombras profundas, o vídeo coloca a banda a atuar enquanto é observada em silêncio por espetadores voyeuristas e enigmáticos. O objetivo do vídeo foi tecer uma crítica crua à objetificação dos artistas pela indústria cultural, capturando a sensação de isolamento, a paranóia trazida pela fama e a desconexão da banda com o mundo exterior.
Durante este período, Billy Corgan encarnou a estética da canção através do seu primeiro alter-ego, "Zero": cabeça completamente rapada, calças prateadas e a icónica t-shirt preta com a palavra ZERO e o logótipo do coração na manga. Esta persona funcionava como a personificação do niilismo, da dormência emocional e da alienação da "Geração X". É precisamente esta figura que, anos mais tarde, na narrativa do álbum Machina/The Machines of God, "morre" para renascer como a personagem Glass.
Tanto a letra como o conceito por trás de "Zero" estão fortemente impregnados de referências filosóficas e literárias. A constante alusão ao vazio em versos marcantes como "God is empty just like me / Emptiness is loneliness, and loneliness is cleanliness / And cleanliness is godliness, and god is empty just like me" reflete a marca do niilismo de Friedrich Nietzsche e do existencialismo europeu, abordando a perda de absolutos e o absurdo da existência. A par do pensamento nietzschiano, a canção e o álbum duplo absorveram a melancolia trágica e o tom dramático dos poetas do Romantismo (como William Blake e Lord Byron), enquanto a estrutura conceptual da obra evocava uma perda da inocência infantil próxima da literatura de transição do século XIX e do universo de Alice no País das Maravilhas.
No entanto, a verdadeira dimensão e a tragédia da era Mellon Collie acabariam por ser severamente marcadas em julho de 1996, em Nova Iorque, no auge da digressão mundial. O teclista contratado Jonathan Melvoin morreu num quarto de hotel vítima de uma overdose de heroína. O baterista Jimmy Chamberlin, que estava presente na mesma noite e também sofreu uma overdose, sobreviveu, mas o incidente levou a banda a tomar a decisão drástica de o demitir devido ao seu historial crónico de toxicodependência.
O choque emocional causou um trauma profundo no grupo e a ausência forçada da bateria orgânica e virtuosa de Chamberlin mudou radicalmente a orientação artística dos The Smashing Pumpkins. Este trágico acontecimento forçou-os a abandonar as guitarras pesadas e a enveredar por uma sonoridade eletrónica, acústica e profundamente soturna no álbum seguinte, Adore (1998). É precisamente esta transição entre o peso de "Zero", a dor de Adore e a busca espiritual de Machina que faz do percurso da banda uma das jornadas artísticas mais fascinantes e complexas do rock moderno.
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