"Bem-vindo a 2030": por que razão não terá nada (e não será feliz)
“Bem-vindo a 2030. Eu sou dono de nada, não tenho privacidade e a vida nunca foi melhor”. Esta frase aparentemente contraditória é o título de um artigo publicado pelo Fórum Económico Mundial em 2016, da autoria de Ida Auken, uma parlamentar da Dinamarca.A ideia dela nunca foi fazer uma profecia, mas sim especular sobre um futuro dominado pela economia circular - e ali descreve uma realidade em que ficou tão fácil, rápido e barato simplesmente alugar e usar imediatamente qualquer coisa, que já nem faz sentido ser proprietário de algo. Na teoria detalhada no texto, este verdadeiro ecossistema de acesso contínuo permitiria a todos ter o que quisessem quando desejassem, tudo isso com energia limpa, zero desperdício e muito mais tempo livre.Ainda faltam alguns anos para chegarmos a 2030, mas na prática o que este caminho tem vindo a gerar é uma dependência crescente e escassez artificial.
Nos últimos 10 anos, pode dizer-se que a imaginação de Ida Auken conseguiu antecipar uma dinâmica real, mas errou redondamente no diagnóstico humano e económico. A nossa realidade está a caminhar na direção de não sermos donos de coisa nenhuma e não termos privacidade, mas tanto as causas como as consequências desta situação não têm o mesmo tom cor-de-rosa de otimismo da previsão.
O ciclo da "Merdificação": do encanto da Netflix à morte dos suportes físicosUm bom exemplo de como e por que razão as coisas descarrilaram é o mercado do entretenimento, especificamente o de filmes e séries. A plataforma de streaming da Netflix mostrava em 2016 quão bom poderia ser abdicar de querer ser dono das coisas. Em vez de gastar rios de dinheiro a construir coleções de DVDs e a subscrever canais e mais canais de TV por cabo, bastava pagar uma mensalidade mais barata do que uma pizza e tinha-se acesso imediato e irrestrito a um catálogo de filmes e séries que continha praticamente tudo o que se poderia querer ver.
Não é por acaso que a Netflix fez o sucesso que fez e cresceu ao ponto de, durante muitos anos, ter impacto até na pirataria. O problema é que a forma como o mercado internacional funciona impede que algo assim continue por muito tempo, uma vez que a situação da Netflix em 2016 só era possível por uma combinação de subsídio vindo de capital de risco, o que era viabilizado apenas por políticas de juros baixos, e por licenças baratas que só existiam porque os estúdios tradicionais ainda não sabiam fixar o preço da distribuição digital de conteúdos. Era uma questão de tempo até que alguns fatores mudassem a situação.
Por um lado, outras empresas percebem o potencial do novo mercado e passam a competir por um espaço próprio nele; como algumas dessas empresas são as produtoras dos conteúdos que estavam disponíveis na Netflix, faz-lhes mais sentido retirar as suas produções de lá e colocá-las nos seus próprios serviços, pulverizando o acesso. Por outro lado, a própria Netflix, até então inquestionavelmente dominante no espaço do streaming, passa a ter de investir cada vez mais na caríssima produção de conteúdos próprios enquanto, simultaneamente, vê o crescimento do número de utilizadores desacelerar com a chegada de concorrentes de peso.
Para os acionistas, não existe a opção de aceitar que o valor das suas ações não vá aumentar o máximo possível para manter a qualidade e a relação custo-benefício da plataforma para o público. Assim, com a aquisição de novos utilizadores em queda, a solução é espremer lucros daqueles que já existem. Por isso, os preços aumentam, surgem planos com anúncios e os novos conteúdos de qualidade são substituídos cada vez mais por produções pasteurizadas, com fórmulas repetitivas e uso de IA no que for possível para tornar o processo mais ágil e barato.
Este processo, popularmente conhecido como “enshittification” (ou “merdificação”, em tradução livre), não é exclusivo da Netflix e já foi observado numa quantidade enorme de mercados, plataformas e produtos.
Ilusão da licença digitalUm exemplo mais recente foi o anúncio da Sony sobre o seu plano para encerrar de vez a fabricação de suportes físicos para os seus jogos. Com o fim dos discos, agora vai ser tudo digital através da loja oficial da PlayStation – esqueça a possibilidade de revender jogos que já terminou ou emprestar jogos facilmente aos seus amigos. Se por algum motivo algum título que comprou for retirado da loja e não o tiver descarregado, adeus, sem hipótese de o recuperar.
Caso a sua conta seja pirateada e a Sony decida que não quer ajudar a recuperá-la por iniciativa própria, terá de ser você a lutar na Justiça para tentar forçar a gigante corporativa a fazer o mínimo. E antes que alguém me acuse de terrorismo psicológico, aconteceu exatamente isso a um utilizador brasileiro identificado pela gamertag Ordo_Liberal: a conta Xbox dele foi invadida mesmo com a autenticação de dois fatores ativada e a Microsoft recusou-se a recuperá-la, argumentando que, como ele apenas tinha acesso a uma licença dos jogos, teria de comprar tudo novamente numa conta nova. O jogador teve de derrotar uma verdadeira equipa de advogados da empresa para conseguir forçar a recuperação da conta original com a biblioteca completa.
Caberiam mais uma série de exemplos aqui, desde a Uber e Lyft até ao motor de busca do Google, às recomendações (e fabrico) de produtos da Amazon e até aos smartglasses da Meta, mas cada um destes casos tem contextos socioeconómicos ligeiramente diferentes por trás da merdificação. Ainda assim, já dá para ter uma ideia de quão universal é a presença desta regra informal quando falamos de produtos e serviços, não é?
Hoje, esta dinâmica de subscrição forçada já avança sobre os eletrónicos físicos: desde smartphones de última geração alugados até construtoras automóveis que exigem mensalidades para libertar funções de hardware que já estão instaladas no seu próprio carro. E isto vale também para setores de produtos fora da área que costumamos associar mais à tecnologia.
Crise das memórias: IA devora o hardware do consumidorAo mesmo tempo que esta triste realidade do mundo corporativo já nos empurrava para o modelo de subscrições infinitas, a chegada da IA generativa e dos robôs não só acelerou este comboio para a velocidade máxima, como também cortou todos os travões da locomotiva. Estes sistemas ameaçam de forma não muito velada o trabalho de absolutamente toda a gente, eliminando a fonte de rendimento de grande parte da população mundial e concentrando ainda mais a riqueza nas mãos de poucos.
A IA não está a libertar o ser humano do trabalho braçal para que este produza mais arte, cultura e entretenimento enquanto aproveita melhor a vida. Está a precarizar o trabalho intelectual, a roubar trabalho autoral sem permissão nem distribuição de receita, e a usar mão de obra sub-remunerada em países mais pobres para treinar os robôs que vão ocupar os seus postos de trabalho no futuro.
A falta de regulamentação e o comportamento das Big Techs de “agir primeiro, pedir desculpa depois” já se transformou em vários processos de direitos de autor movidos por consórcios de artistas e órgãos de comunicação social contra as gigantes da IA. Nos escritórios, a transição é imposta à força: profissionais de criação e programadores enfrentam metas de produtividade absurdas sob a justificativa de que a IA deve acelerar o processo - ignorando a perda de qualidade e o aumento de erros no produto final.
Ao mesmo tempo, os centros de dados que vão permitir que as capacidades das IAs aumentem cada vez mais exigem expansão e atualização constantes. Isto deu origem a uma competição desequilibrada por semicondutores, especialmente no que diz respeito à memória RAM, e os três grandes fornecedores de memória que basicamente dominam quase toda a produção global escolheram, logicamente, vender às Big Techs dispostas a pagar o preço que for preciso, em vez de venderem a quem produz dispositivos para o consumidor final. O ritmo é tão intenso que mais de 70% da produção de memória de alta velocidade é consumida hoje justamente pelo mercado da inteligência artificial, deixando o mercado de eletrónicos de consumo a disputar as migalhas a preços inflacionados.
Os componentes tornaram-se tão escassos que até gigantes dos dispositivos de consumo direto, como a Apple e a Samsung, estão a ter de aumentar os preços dos seus produtos para manter parte das suas margens de lucro.
Com margens ainda menores, fabricantes de escala global, mas um pouco mais pequenas, sofrem agravamentos mais significativos – isto quando não são forçadas a adiar lançamentos e a revelar novidades com preços que há dois anos seriam considerados delirantes, como a nova Steam Machine a partir de 1050 $. As consolas de jogos, que tradicionalmente deveriam ir ficando mais baratas com o tempo, passam por aumentos grandes e consecutivos mesmo 6 anos após o lançamento.
Quando é que a crise acaba?A pior parte é que não dá para dizer que esta seja uma crise passageira. As empresas de memória estão a lucrar como nunca. Segundo analistas, a receita operacional da Micron só em 2026 deverá ficar entre os 90 e os 100 mil milhões de dólares, o que é mais do que a soma de todo o lucro acumulado pela empresa nos 35 anos anteriores.
A situação é muito parecida na Samsung e na SK Hynix, que compõem o resto do trio que domina 90% do mercado de DRAM e também a totalidade da produção de memórias HBM, as mais rápidas e desejadas. Por isso, é óbvio que não têm qualquer motivação para mudar a situação, ainda para mais considerando que, antes da explosão da IA, estas mesmas fabricantes sofriam para fechar o balanço financeiro no verde, já que tinham de ceder às pressões das grandes empresas de eletrónicos e vender a sua produção com descontos agressivos.
Ao ritmo atual, a previsão é que a parte mais dolorosa desta crise dure no mínimo até 2028, com escassez e subida de preços a continuarem pelo menos até meados de 2030; mesmo depois disso, é improvável que os preços voltem ao “normal” de antigamente – deverão apenas parar de aumentar tanto e tão rapidamente. E mesmo isto pode ser otimismo, com o CEO da SK Hynix, uma das três grandes fabricantes de memória, a avisar que 2027 vai ser o pior ano de todos nesta crise e que a procura deverá continuar maior do que a oferta mesmo depois de 2030.
Também não adianta torcer pelo “rebentamento da bolha da IA”, uma vez que o nível de investimento associado às gigantes do setor é hoje tão grande que isso provavelmente afundaria o mundo numa depressão económica de níveis catastróficos.
A escolha forçada: por que razão não terá nada?Com a combinação desta provável concentração de rendimento acelerada pela IA e pelos robôs, somada aos aumentos de preços de todo o tipo de produtos devido à crise das memórias, um futuro em que não seremos donos de nada parece-me cada vez mais inevitável. Não por causa de uma realidade utópica em que os produtos como serviço são melhores e mais baratos – a merdificação encarregar-se-á de eliminar o que surgir nesse sentido –, mas sim porque, em breve, a maioria de nós já não terá o poder de compra necessário para possuir algo próprio.
E aí, o que resta para todos nós, os 99% de não-milionários, é escolher entre três opções bastante difíceis: ou aceitamos a crescente realidade em que tudo é um serviço por subscrição e nos submetemos aos caprichos das Big Techs, ou desistimos de tudo e acabamos cada vez mais marginalizados e desatualizados, ou então apertamos os cintos para resistir por conta própria enquanto exigimos a políticos e entidades reguladoras legislações que, para ser sincero, provavelmente virão tarde demais.
Se, como eu, acha a terceira opção mais interessante, então a forma de resistir é estudar. Como utilizar sistemas abertos como as diferentes distribuições de Linux? Como fazer jailbreak em dispositivos como smartphones para estender o seu suporte de hardware por mais tempo? Como montar um servidor próprio (NAS) usando o que tiver de máquinas velhas em casa para armazenar os seus ficheiros e centralizar os seus conteúdos multimédia sem depender de nuvens pagas? Como reaproveitar tablets e portáteis antigos para dar uma nova vida a equipamentos que iriam para o lixo? Estes conhecimentos não vão mudar o contexto macroeconómico que nos trouxe até aqui, mas são o único escudo real para o ajudar a continuar no controlo da sua própria vida digital, na medida do possível.
Ler mais:Sophia Harris (2015) - Netflix helps reform hard-core movie pirates, but at a costMauritaz Wagner (2020) - The effect of Netflix on movie piracy and its impact on the movie industrySarah Frick, et al (2023) - Pirate and chill: The effect of netflix on illegal streaming
Sem comentários:
Enviar um comentário