sábado, 20 de junho de 2026

O relógio climático está a acelerar

Durante anos, limitar o aquecimento global a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais foi o objetivo mais ambicioso do acordo de Paris e a principal referência da ação climática internacional. Hoje, esse objetivo está muito próximo de falhar. Um novo estudo internacional, publicado na revista Earth System Science Data, conclui que o aquecimento provocado pelas atividades humanas poderá atingir este limiar já no final da década, mais cedo do que se previa.
O estudo reuniu mais de setenta investigadores de vários países e analisou os principais indicadores do estado do sistema climático global. Em vez de se focar em projeções para o final do século, avaliou a evolução observada do aquecimento global, das emissões de gases com efeito de estufa, do desequilíbrio energético da Terra e da margem de emissões ainda disponível.
Os resultados são claros: o clima está a mudar a um ritmo alarmante. Em 2025, o aquecimento global causado pelas atividades humanas atingiu cerca de 1,37 °C acima dos níveis pré-industriais. Mantendo-se a trajetória atual de emissões, torna-se altamente provável ultrapassar o limite de 1,5 °C em poucos anos.
Um dos sinais mais preocupantes é a rápida redução do chamado “orçamento” de carbono, ou seja, a quantidade de dióxido de carbono que ainda pode ser emitida sem comprometer a meta dos 1,5 °C. Segundo os investigadores, restam apenas cerca de 130 mil milhões de toneladas de CO₂. Ao ritmo atual, essa margem poderá esgotar-se em apenas três anos.
As emissões globais de gases com efeito de estufa continuam próximas de máximos históricos. Em 2024 atingiram cerca de 56,8 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente. Apesar dos avanços registados em alguns países e setores, a redução global continua demasiado lenta para inverter a trajetória do aquecimento.
Ao mesmo tempo, a Terra continua a acumular energia. Grande parte desse excesso de calor é absorvido pelos oceanos, acelerando o aquecimento das águas, intensificando as ondas de calor marinhas e agravando a subida do nível médio do mar. Entre 2006 e 2025, o nível médio dos oceanos aumentou cerca de 3,7 milímetros por ano, um ritmo superior ao observado durante grande parte do século XX.
Os impactos já são evidentes em todo o mundo. Ondas de calor mais intensas, secas prolongadas, incêndios florestais de grande dimensão e episódios extremos de precipitação tornaram-se mais frequentes e destrutivos. Fenómenos outrora considerados excecionais começam a integrar a nova realidade climática.
Apesar da gravidade das conclusões, os autores sublinham que o futuro climático não está totalmente determinado. Cada décima de grau de aquecimento evitada reduz riscos para as populações, as economias e os ecossistemas. A diferença entre limitar o aquecimento a 1,6 °C, 1,8 °C ou 2 °C traduz-se em impactos muito distintos na frequência de fenómenos extremos, na subida do nível do mar e na capacidade de adaptação das sociedades.
O mundo aproxima-se rapidamente de um limite que durante anos procurou evitar. A margem para reduzir os danos continua a existir, mas está a diminuir a uma velocidade sem precedentes. As decisões tomadas nesta década, sobre energia, transportes, indústria e uso do território, terão influência direta no clima das próximas gerações. A diferença entre agir agora e adiar decisões não se mede apenas em décimas de grau: mede-se em vidas, em segurança, em estabilidade económica e na capacidade de preservar um planeta habitável.
Helena Freitas - Diário de Coimbra, 16.06.2026

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