sábado, 5 de setembro de 2009

Eurico Carrapatoso - Ó meu Menino



Nesta 2ª história, exponho-vos uma obra contemporânea e excelente do ilustre compositor português, Eurico Carrapatoso.
Acho que esta interpretação brilhante. Podemos ver esta música numa focagem mais humana, como que dedicado a todos os meninos do mundo, e não apenas o Menino.A imagética do Painel, relembra-nos todo o património cultural que herdamos (crítico ou em absoluto) do cristianismo. Remete-nos para o Natal. Em Glosa de Natal, escreveu Marguerite Yourcenar (de forma sublime) : Trata-se de um nascimento, de um nascimento como todos deveriam ser, o de uma criança esperada com amor e respeito, trazendo em si a esperança do mundo. Trata-se dos pobres: uma velha balada francesa canta Maria e José procurando timidamente em Belém uma hospedaria para as suas posses, sempre desprezados em favor de clientes mais ricos e reluzentes e por fim insultados por um patrão que «detesta a pobralhada». É a festa dos homens de boa vontade, como dizia uma admirável fórmula que infelizmente já nem sempre se encontra nas versões modernas dos Evangelhos, desde a serva surda-muda dos cantos da Idade Média que ajudou Maria no parto até ao José aquecendo as fraldas do recém-nascido diante de um pequeno fogo, aos pastores cobertos de sebo mas julgados dignos da visita dos anjos. É a festa de uma raça tantas vezes desprezada e perseguida, porque é judeu o recém-nascido do grande mito cristão (falo de mito com respeito, e emprego a palavra no sentido dos etnólogos modernos, significando as grandes verdades que nos ultrapassam e de que precisamos para viver).
É a festa dos animais que participam no mistério sagrado desta noite, maravilhoso símbolo de que São Francisco e alguns outros santos sentiram a importância, mas que os cristãos comuns desprezam, não procurando neles inspiração. É a festa da comunidade humana, porque é, ou será dentro de dias, a dos três Reis cuja lenda quis que um fosse preto, alegoria viva de todas as raças da Terra levando ao menino a variedade dos seus dons. É a festa da alegria, mas também da dor, pois que a criança adorada será amanhã o Homem das Dores. É enfim a festa da própria Terra, que nos ícones da Europa de Leste vemos tantas vezes prosternada à entrada da gruta onde o Menino nasceu, a mesma Terra que na sua marcha atravessa neste momento o ponto do solstício de Inverno e nos arrasta a todos para a Primavera. Por esta razão, antes que a Igreja tivesse fixado o nascimento de cristo nesta data, ela era já, nos tempos antigos, a festa do Sol.
Parece que não é mau lembrar estas coisas que toda a gente sabe e que tantos esquecem.

Marguerite Yourcenar em: O tempo esse grande escultor. 1976

Ficha Técnica
Angélica Neto (Soprano); António José Carrilho e Sofia Norton (Flautas de Bisel); Jenny Silvestre (Cravo); Coro e Ensemble instrumental Olisipo; dir. Armando Pssante No 10º aniversário da estreia de Magnificat em talha dourada, Igreja de São Roque, 11.x.2008, Festival Música em São Roque

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