quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Encontros Improváveis:Antonio Machado e Aleksandr Scriabin- "Tres piezas, Op 2_nº 1. Estudio en Do sostenido menor"


Desde el umbral de un sueño me llamaron...
Era la buena voz, la voz querida.
-Dime: ¿vendrás conmigo a ver el alma?....
Llegó a mi corazón una caricia.
-Contigo siempre....Y avancé en mi sueño
por una larga, escueta galería,
sintiendo el roce de la veste pura
y el palpitar suave de la mano amiga.

Antonio Machado


Este poema de Antonio Machado, pertencente à obra Soledades, galerías y otros poemas, é uma das expressões mais puras da sua lírica intimista, onde o "sueño" (sonho) não é um estado de dormência, mas sim o único espaço onde a alma consegue aceder à verdade e à memória mais profunda. O texto descreve um encontro espiritual num cenário metafísico — a "galería" —, que no universo machadiano simboliza os corredores da memória e os recantos do mundo interior.

O significado central gira em torno da saudade e da busca pela transcendência. A "voz querida" que chama o poeta é frequentemente interpretada como a presença de Leonor Izquierdo, a sua falecida esposa, ou talvez como a personificação da própria infância ou da musa da sua alma. Ao ser questionado se deseja "ver a alma", o poeta responde com uma entrega total ("Contigo sempre"), aceitando abandonar a realidade exterior para caminhar numa dimensão onde o tempo não existe.

A riqueza do poema reside na forma como Machado torna o espiritual algo quase tangível. Através do "roce da veste pura" e do "palpitar suave da mão", o autor transforma a memória de uma ausência numa presença física reconfortante. É um texto sobre a fidelidade eterna ao amor e à própria essência, sugerindo que, embora a vida seja um caminho solitário, existe um refúgio interior onde o encontro com quem amamos e com o que somos permanece possível através da introspeção poética.

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