A história do naturismo em Portugal é um reflexo das tensões sociais, políticas e culturais que moldaram o país ao longo do século XX e XXI. Mais do que a simples prática da nudez social, o naturismo português evoluiu de um movimento higienista e filosófico para uma expressão de liberdade individual e de consciência ecológica.
As Origens e o Higienismo (Início do Século XX)
O naturismo em Portugal não nasceu nas praias, mas sim nos consultórios e círculos intelectuais. No início do século XX, influenciado pelo movimento alemão Lebensreform (Reforma da Vida), o naturismo surgiu associado ao higienismo. Figuras como o Dr. Amílcar de Sousa foram fundamentais. Para estes pioneiros, a exposição ao sol (helioterapia) e ao ar livre era vista como a cura para os males da industrialização e da vida urbana insalubre. Em 1912, a fundação da Sociedade Naturista Portuguesa marcou o início institucional do movimento, focando-se na alimentação vegetariana e na saúde física.
A Longa Noite do Estado Novo
Com a ascensão do Estado Novo, o naturismo enfrentou o seu período mais difícil. A ideologia conservadora do regime de Salazar, fortemente assente na moral cristã e no pudor público, via a nudez como uma afronta aos bons costumes. Durante décadas, qualquer prática de nudismo era clandestina, limitada a praias desertas e de difícil acesso, sob o risco constante de intervenção policial e estigma social. O naturismo foi remetido para a invisibilidade, sobrevivendo apenas como um ato de resistência silenciosa de pequenos grupos.
A Revolução e a Legalização (1974 - 1994)
O 25 de Abril de 1974 trouxe a "Primavera" também para o corpo. A queda da ditadura permitiu que os portugueses explorassem novas liberdades. Na década de 80, o movimento reorganizou-se com a fundação da Federação Portuguesa de Naturismo (FPN) em 1977.
O grande marco jurídico ocorreu em 1994, com a aprovação da Lei n.º 92/94, que regulamentou a prática do naturismo em Portugal. Esta legislação permitiu a criação de praias oficiais e estabelecimentos de hospedagem naturista, transformando Portugal num dos destinos europeus mais progressistas nesta área. A Praia do Meco (Alfarim) e a Praia da Adiça tornaram-se símbolos desta conquista.
O Naturismo Contemporâneo e a Ecologia
Hoje, o naturismo em Portugal transcende a questão da nudez. Está intrinsecamente ligado à preservação ambiental e ao turismo sustentável. Portugal possui atualmente diversas praias oficiais (como a Ilha de Tavira ou a Bela Vista) e dezenas de praias de uso costumeiro. O perfil do naturista moderno é o de alguém que procura a desconexão tecnológica e o respeito absoluto pela biodiversidade, integrando o corpo no ecossistema sem as barreiras artificiais do vestuário.
Referências Bibliográficas
Correia, Gonçalves - Comuna da Luz e a Comuna Clarão
Federação Portuguesa de Naturismo (FPN). Arquivos históricos e documentação sobre a Lei 92/94.
Ferreira, V. M. (2002). O Corpo no Espaço Público: Sociologia da Nudez. Lisboa: Edições Colibri.
Neto, Margarida. (2010). História do Naturismo em Portugal: Da Filosofia à Prática. Revista de História das Ideias.
Sousa, Amílcar de (1912). O Naturismo. Porto: Edição do Autor. (Obra fundacional do movimento em Portugal).

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