Um escaravelho minúsculo, mas voraz, está a preocupar o setor florestal português. A traquimela - uma praga que se alimenta das folhas de eucalipto — ameaça um dos pilares das exportações nacionais: a fileira da pasta e do papel vale mais de 3.000 milhões de euros por ano.
A resposta está a milhares de quilómetros. Na Austrália, origem do eucalipto e também das suas pragas, investigadores portugueses procuraram aliados naturais: insetos que se alimentam da traquimela. No final do ano passado, cerca de 200 exemplares foram trazidos para Portugal e estão agora em quarentena, sob vigilância apertada.
O objetivo é simples, mas o processo é tudo menos trivial: garantir que estes “insetos bons” atacam exclusivamente a praga e não colocam em risco outras espécies ou culturas. “Como estamos a introduzir uma espécie nova, temos que ter a certeza que esse bicho só vai atacar a praga que nós queremos destruir”, explica Catarina Gonçalves, investigadora do RAIZ – Instituto de Investigação da Floresta e Papel.
Em laboratório, a estratégia passa por simular o que acontece na natureza. Os investigadores criam a traquimela e expõem os potenciais predadores a diferentes espécies, incluindo insetos autóctones, para testar o seu comportamento alimentar.
A lógica segue um princípio conhecido como controlo biológico: combater uma praga com os seus inimigos naturais, evitando o recurso a químicos e tentando reequilibrar o ecossistema. “Vamos buscar à Austrália porque o eucalipto é de lá. As pragas são de lá e os insetos benéficos também”, resume a especialista em proteção de plantas e florestas.
O instituto RAIZ, criado pela Navigator, tem duas décadas de experiência neste tipo de intervenção — e já ajudou a resolver outras pragas em Portugal. Mas cada nova introdução exige testes demorados e rigorosos.
Só depois de meses - por vezes anos - de validação é que estes aliados improváveis podem ser libertados no terreno.
“Um inseto importado evitou que a cultura de eucalipto fosse completamente destruída”
Para compreender melhor a importação de armas biológicas da Austrália, a CNN Portugal entrevistou Catarina Gonçalves, investigadora do RAIZ - Instituto de Investigação da Floresta e Papel.
Há quanto tempo vamos buscar bichos à Austrália?
Os primeiros trabalhos na Austrália aconteceram em 2008. Os primeiros insetos foram importados em 2009. Desde então temos ido regularmente à Austrália, tendo a última vez sido em final de 2025, para procurar insetos contra uma praga que está a ser muito destrutiva, chamada traquimela, e para uma planta invasora, a acácia mimosa.
Esses imigrantes já foram espalhados pela floresta?
Sim. Já libertámos na natureza três espécies. Todas passaram por vários anos em quarentena, para testes. Só depois foram libertadas, com as autorizações das entidades competentes. Atualmente, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).
Com que resultados?
Os resultados têm oscilado entre o sucesso total, em que a praga que queremos controlar deixou de ser um problema, e um caso em que o inseto benéfico não conseguiu competir com outro que já estava estabelecido. Ou seja, não causou danos, mas também não teve uma contribuição significativa. Há um caso extremo de sucesso de um inseto, o ‘Anaphes nitens’, contra o gorgulho-do-eucalipto, que é um verdadeiro caso de estudo a nível mundial. Em Portugal, há um estudo científico que coloca o benefício deste inseto em, pelo menos, 1,8 mil milhões de euros. Na prática, este inseto foi a diferença entre ser possível produzir eucalipto em Portugal ou ter a cultura completamente destruída pela praga. Importa ainda referir que os insetos podem ser eficazes sozinhos ou complementarmente com outras técnicas de controlo das pragas, como o uso de plantas resistentes (o chamado melhoramento genético) ou boas práticas de silvicultura.
Colaboram com universidades?
Felizmente, temos uma rede de parcerias de luxo. Começámos por trabalhar com a Navigator Forest Portugal, a Altri Florestal e com o Instituto Superior de Agronomia. Com o tempo fomos alargando as parcerias, que incluem hoje também a Universidade de Coimbra, a Escola Superior Agrária de Coimbra, o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, a ENCE (Espanha), a University of the Sunshine Coast (Austrália), a CSIRO (Austrália), Servicio Agrícola y Ganadero (Chile), o Instituto Nacional de Investigación Agropecuaria (Uruguai), o Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (Brasil), entre outros.
Como articulam a vossa atividade com o Estado?
Trabalhamos sempre com acompanhamento e supervisão do ICNF.
Oferecem ou vendem as espécies importadas a terceiros?
Não vendemos insetos, mas doamos a quem nos contacte através das equipas de apoio aos produtores. A estratégia é sempre libertar o máximo viável dentro das possibilidades de criação e ter como objetivo o benefício da floresta em geral. É normal que boa parte das áreas beneficiadas com o controlo biológico sejam de terceiros, frequentemente de pequenos produtores, que muitas vezes não têm acesso a outras formas de controlo, como as plantas resistentes.
Sem comentários:
Enviar um comentário