Já tinha lido dois livros dele antes: "O Princípio de Karenina" e "Jesus Cristo bebia cerveja". Adorei os dois livros.
𝑶 𝑸𝒖𝒆 𝑨 𝑪𝒉𝒂𝒎𝒂 𝒊𝒍𝒖𝒎𝒊𝒏𝒐𝒖 é um livro que nasce de uma experiência-limite vivida por Afonso Cruz no Chile aquando dos protestos de 2019. Durante uma perseguição em Santiago, o autor escreve: “É desse lugar, em que a morte nos espreitava através do vidro escuro de um blindado, que quero escrever este livro. Dali, onde estava com R., suspenso entre a vida e a morte (…). Este livro nasce de um beco.” (p. 28). É a partir desse quase fim que o livro se abre para uma reflexão mais vasta sobre todos os fins que atravessam a existência.
A experiência pessoal funciona como detonador, mas Cruz não se encerra nela. Pelo contrário: amplia-a, desdobra-a, coloca-a em diálogo com outras formas de desaparecimento. O livro convoca o fim do amor, quando se perde o amado, o marido, o filho; o fim das palavras, quando a linguagem se gasta e já não nomeia; o fim dos povos indígenas, cuja cultura se esbate como poeira ao vento; o fim dos filhos e dos maridos desaparecidos, que as mulheres de Calama procuram com uma persistência que é, ao mesmo tempo, luto e resistência. Cada uma destas formas de fim é iluminada pela mesma chama: a consciência de que tudo é transitório, mas nada se perde totalmente. Até porque como o autor lembra “o fim pode também ser um princípio ou um recomeço (…). (p. 44)
Afonso Cruz cita vários autores que alimentam a ideia de que o fim de algo está na origem da beleza, da poesia, da arte em geral. Segundo Vicente Verdú “ O vazio é o principal luxo da arte (…) A negação, a dor, o mal, o vazio são eminentes criadores. Altamente ativos.” Estas referências surgem como parte de uma reflexão que se quer ampla e dialogante.
Em vários textos, Cruz recupera a ideia primordial de que somos feitos de pó e ao pó regressaremos, não como ruína, mas como continuidade. É aquilo que permanece quando a forma desaparece. O pó revela que o fim não é interrupção, mas transformação. Esta visão, profundamente serena, afasta o livro de qualquer sombra de medo. A morte não surge como ameaça, mas como claridade.
Outro elemento decisivo e que muito me agradou é a erudição do autor, que se manifesta nas citações, nos exemplos convocados, nas vozes que entram no texto como companheiras de pensamento. As referências funcionam como velas que iluminam diferentes ângulos da mesma questão seja ela filosófica, histórica, científica, poética e ampliam a experiência vivida.
O resultado é uma obra de não ficção que se lê avidamente. A escrita, depurada e aforística, agarra o leitor. Há silêncio entre as frases, entre os textos; há contenção; há uma serenidade que surpreende. Mesmo quando fala da morte, Cruz escreve com lucidez. A chama ilumina o fim, sim, mas ilumina também o que fica, o que continua: a memória, o gesto, o amor, a matéria que se transforma... “(…) todos morremos, mas de que lado da morte queremos estar?” (p. 130)
𝑶 𝑸𝒖𝒆 𝑨 𝑪𝒉𝒂𝒎𝒂 𝒊𝒍𝒖𝒎𝒊𝒏𝒐𝒖 é, por isso, um livro sobre o fim, mas também sobre a esperança. É um livro que nasce de um beco, mas abre-se para uma luz maior. Afonso Cruz oferece-nos uma reflexão íntima e universal, pessoal e ética, que transforma o susto em claridade e o desaparecimento em luz.
Saber mais:
Fernando Alvim conversa com Afonso Cruz sobre a eminência do fim, pessoal e colectivo, daí resultando esta novela-ensaio, reflexão terna e desapiedada sobre o fim das coisas.

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