Ensaio - O mundo com IA e As Mãos
"Ouvi umas quantas conferências do Y. Harari e, pese embora o brilho, comecei a vê-lo como um comerciante de ideias, como alguns dos seus antepassados terão sido de peles, de dinheiro ou de prata. A obsessão com a Inteligência Artificial parecia-me mais uma oportunidade de negócio no grande mercado da fitness do intelecto do que uma preocupação genuína de um académico.Mudei de opinião.A penetração da IA é cada vez mais profunda e omnipresente; vejo-a por todo o lado. Não me sinto competente para analisar e antecipar, ao detalhe, o impacto deste tandem “IA + dependência de dopamina via redes sociais” no funcionamento das sociedades atuais. Porém, uma conversa noturna, ontem, deixou-me a pensar. Dizia-me a minha interlocutora que, na empresa X, os informáticos já não escrevem código; esse trabalho ficou para o Claude.Posso estar errado, mas suspeito que estes senhores que agora observo pela janela da pastelaria, de aparafusadora em punho, têm mais futuro nas sociedades pós-IA do que os jovens que penam nos gabinetes de contabilidade, no largo mais adiante.Identifico uma gigantesca dissonância entre aquilo que o sistema de ensino ensina e aquilo de que esta sociedade estruturalmente complexa e em radical mudança necessita: manutenção permanente (porque a 2.ª lei não perdoa). As famílias, com o beneplácito dos governos e da classe dos professores, apostam em formações liberais e de colarinho branco, no papel e no lápis, hoje evoluídos para Word, Excel e Photoshop, áreas que serão em breve devastadas pela IA.Assim como um pianista com futuro tem de exercitar, desde tenra idade, a conexão mão-cérebro — esse poderoso instrumento de ação sobre a matéria herdado dos ancestrais caçadores-recolectores —, o mesmo exigem os trabalhos com futuro. As sociedades vão remanualizar-se e ninguém, nem pessoas nem instituições, está preparado para isso.Em resumo: prometeram-nos que as máquinas fariam o trabalho sujo para para nos dedicarmos ao lazer. Ironicamente, o Claude e o ChatGPT escrevem música, poesia e o código informático, desenham a publicidade e as artes gráficas, e, no final, fazem a contabilidade e responsabilizam-se pelas interações com a máquina do estado —, mas continuamos a precisar desesperadamente de quem nos desentupa os canos, conserte a máquina de lavar e cuide dos mais velhos.Talvez as escolas do futuro devessem trocar metade das aulas de literacia digital e mais teorias por oficinas de carpintaria, mecânica, eletricidade e agricultura. Ensinar as nossas crianças a reaprender o peso e a textura da matéria, o desconforto e a cor do sangue, antes que se tornem obsoletas num mundo de ecrãs e memórias virtuais.P.S. Fosse eu novo e com jeito para o negócio e investiria numa empresa de tempos livres que se poderia chamar, sei lá, “Academia do Eletricista e do Canalizador”, ou algo do género. Mais proveitoso do que o futebol, a natação, o ballet, o teatro …, parece-me." - Carlos Aguiar
Nota PessoalPaul Krugman no início dos anos 90 escreveu por diversão uma especulação sobre o que seria a economia daí a 100 anos. A IA ainda não era a palavra de ordem, mas a automação em geral já constava das suas projeções. Ele afirmava que tal como a era industrial tinha tornado menos valiosos os produtos da indústria, a era da informação que se desenhava iria tornar menos valioso tudo o que tivesse que ver com informação, desde jornalismo a ciência, ou a informática. Assim, no futuro deste modo projetado as fontes de riqueza seriam a posse de recursos naturais, para as nações, e a capacidade de trabalhar com as mãos, para as pessoas.Embora não seja líquido que tudo isto esteja a salvo da IA, coisas como cuidar de idosos, fabricar móveis em madeira, ou instalar/reparar canalizações seriam o tipo de atividades ainda valorizadas depois de automatizarmos tudo o que pode ser automatizado.O problema é que hoje em dia há pessoas em posição de ditar o que deve ser automatizado, mesmo que com prejuízo para a humanidade em geral. A IA está a transformar-se rapidamente num sistema endogâmico, em que se alimenta de si mesma, já que uma cada vez maior proporção da informação disponível é gerada por IA.
Por outro lado nunca antes o biorregionalismo está ser posto em causa como agora, bem como aceleramos cegamente no Business to Business em que há muitas reticências, como bem referes Back to Basics. O impacto ambiental da IA é, atualmente, muito superior e mais preocupante do que o das práticas artesanais e biológicas. O Back to Basics não é apenas uma escolha estética; é, talvez, a única estratégia de sobrevivência ecológica a longo prazo.
A questão agora é: a sociedade estará disposta a "pagar o preço" (em tempo e esforço) para manter essas práticas manuais vivas, ou a conveniência da IA acabará por atropelar até mesmo esses redutos artesanais?
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