Por ANA CARNEIRO, leitora do Porto
Quinta-feira, 13 de Maio de 2004
Depois do homicídio qualificado de que foram alvo o Jardim da Cordoaria e os jardins da Avenida Montevideu, no Porto, a sanha assassina virou-se agora para a Rotunda da Boavista. Que fique desde já esclarecido que não professo nenhum amor particular por aquele espaço. Isto não quer dizer, no
entanto, que me agrade que o espezinhem como estão a fazer.
Tenho acompanhado vagamente nos jornais o processo de intervenção naquela zona da cidade, intervenção esta que, se não estou em erro, implica uma passagem subterrânea que ligue aquela zona ao metro da Avenida de França e também umas intervenções dos arquitectos Siza Vieira e Souto de Moura no próprio jardim. Estas, segundo li, seriam pontuais e não interfeririam com as áreas plantadas.
Tudo mentira. Ainda lá passei umas vezes de autocarro pelo meio da rotunda, e os espaços ajardinados lá estavam, como pequenas ilhotas verdes e coloridas no meio do trânsito. Até eram engraçadas. Eram, digo bem. Ao passar lá hoje fiquei estarrecida: onde antes havia verde existe agora terra remexida e uma espécie de caleiros de pedra e betão. Da relva nem sombra, flores nem vê-las.
Como não acredito nas boas intenções de ninguém, quer se trate de indivíduos ou instituições, depois de ver o que aconteceu nos dois exemplos citados no início deste texto, receio que venhamos a herdar mais uma paisagem lunar, semeada aqui e ali por uns edifícios rodeados de calhaus - a não ser que, a exemplo do arquitecto Solà-Morales, espalhem cascas de mexilhão nos canteiros.
Gostos não se discutem, é verdade. Aquando da minha descoberta das cascas de mexilhão nos canteiros do Homem do Leme, um jovem arquitecto paisagista recém-licenciado argumentou que o modelo de jardim até então presente naquela zona era antiquado, já não se usava. Pode ser que sim, mas sempre
era mais agradável conviver com os goivos e com as zínias do que com as cascas de mexilhão do arquitecto catalão, ou com os becos sem saída existentes no Jardim da Cordoaria que me obrigam a percursos irracionais para chegar de uma ponta à outra daquele espaço. Portanto, depois destes
belos exemplos, não tenho qualquer fé no resultado da intervenção na Rotunda. Vamos mais uma vez perder espaços verdes e respirar poeira em prol do progresso.
De acordo com uma informação "online" da Câmara Municipal do Porto, que acabo de ler, "Tanto Ricardo Figueiredo como Siza Vieira e Rui Sá salientaram como propósito dominante o não desvirtuamento de um jardim emblemático da cidade, bem pelo contrário. Será, pois, mantida toda a sua
estrutura, bem como o seu traçado." Belas intenções. No entanto, umas frases mais abaixo pode ler-se: "Quanto à arborização do jardim, Rui Sá revelou que serão mantidas 195 árvores e abatidas nove, enquanto 24 de pequeno porte serão transplantadas para dar lugar a outras de maior dimensão. A situação de 17 árvores ainda não se encontra definida, estando neste momento a ser tecnicamente avaliadas quanto ao seu estado. A zona de relvados será também aumentada."
Na minha opinião, estão lançados os dados para fazerem daquilo o que muito bem entenderem e, quando dermos pela pancada, já será tarde e a Inês estará mais que morta.

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