sábado, 23 de agosto de 2014

Música do Bioterra: Fausto e Zeca - Não Canto Porque Sonho



Esta Música foi gravada em 1973 em Madrid, para o disco "P'ró Que Der e Vier" , letra de Eugénio de Andrade, acompanhamento em voz de Zeca Afonso. Disco com produção de Adriano Correia de Oliveira.


Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
teu sorriso puro,
a tua graça animal.

Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
mesmo bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinho.

Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
ao vê-los nus e suados.


A canção "Não Canto Porque Sonho", interpretada por Fausto Bordalo Dias com a participação de José (Zeca) Afonso, é uma das peças mais emblemáticas da música popular portuguesa (MPP). Ela faz parte do álbum P'ró Que Der e Vier (1974), um disco marcante lançado no ano da Revolução dos Cravos.

Este foi o segundo álbum de originais de Fausto Bordalo Dias e é considerado um marco histórico, pois o seu processo de gravação atravessou o período da Revolução de Abril. Curiosamente, o disco começou a ser gravado em Madrid (devido às limitações e à censura em Portugal), mas foi concluído em Lisboa já após o 25 de Abril, o que lhe conferiu uma energia e um significado de liberdade muito particulares. Além de Zeca Afonso, o álbum contou com participações de outros nomes grandes da música portuguesa, como Adriano Correia de Oliveira e Vitorino.

A canção "Não Canto Porque Sonho", interpretada por Fausto Bordalo Dias com a participação de Zeca Afonso, é uma das obras mais profundas da música popular portuguesa, unindo a poesia solar de Eugénio de Andrade à urgência cultural de 1974. No seu âmago, a música é uma rejeição do escapismo e uma afirmação absoluta do real. Ao abrir com a afirmação de que não canta porque sonha, mas sim porque o "outro" é real, o autor estabelece que a sua arte não nasce de ilusões ou de um mundo idealizado, mas sim da experiência concreta, do corpo, do olhar e da presença física. Existe aqui uma valorização da condição humana e do instinto; o canto é apresentado como aquilo que distingue o homem de um "bicho sadio", transformando a necessidade biológica em expressão espiritual e artística.

A colaboração entre Fausto e Zeca Afonso eleva este significado a uma dimensão de fraternidade e resistência. Num Portugal que despertava de décadas de obscurantismo e censura, onde a realidade era muitas vezes camuflada por uma moralidade rígida ou por propaganda, cantar a beleza do corpo, o "feno que amadurece" e o "sorriso real" era, em si mesmo, um ato revolucionário. A canção celebra a vida tal como ela é — tangível, suada e autêntica — sugerindo que a verdadeira liberdade não se encontra em sonhos distantes, mas na capacidade de abraçar e cantar o mundo que temos à nossa frente. É, em última análise, um manifesto de honestidade intelectual e emocional que coloca o pé no chão e o coração na verdade dos sentidos.

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