sábado, 21 de fevereiro de 2026

Dave Gahan feat. Soulsavers - Take Me Back Home

[Verse 1: Dave Gahan]
The first time you gave me freedom
For the first time I felt free
As long as you were right with me here
There’s nothing else that I would need

[Chorus]
You take me back there
Take me back home, please
No, I can’t go in there
Just take me back home, home (Home, home)
Is where I wanna be

[Verse 2: Dave Gahan]
I was a fool before I met you
Only fools find it hard to believe
You just might be my only savior
If you are, then come and save me
If that’s true, come back and save me

[Chorus]

[Bridge: Dave Gahan]
Where all my stumbling misses
And all your wonderful kisses
That’s where I want to be
That’s just me

[Chorus]

[Outro]
Home, home (Home, home)
Is where I wanna be now

"Take Me Back Home" é uma colaboração profunda entre Dave Gahan (o icónico vocalista dos Depeche Mode) e o projeto britânico de produção eletrónica e blues-rock Soulsavers. A canção faz parte do álbum The Light the Dead See, lançado no ano de 2012.

A canção explora temas universais de redenção, cansaço existencial e a busca por paz interior. Através de uma sonoridade que mistura o blues, o gospel e o rock espiritual, a letra descreve a jornada de alguém que esteve "lá fora" (no mundo, nos excessos ou na escuridão) durante demasiado tempo e agora sente um desejo desesperado de regressar a um lugar de segurança e verdade.

Para Gahan, "Home" (Casa) não representa um espaço físico, mas sim um estado de espírito onde a luz e o amor são constantes, contrastando com as vozes e o "fogo" das experiências passadas que o assombram. É um pedido de auxílio e uma confissão de vulnerabilidade, onde o narrador admite estar cansado de lutar e de fugir, ansiando apenas por uma margem tranquila onde as águas não sejam agitadas. A música funciona como uma prece laica de quem procura encerrar um capítulo caótico da vida para encontrar, finalmente, a serenidade.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Agnes Obel - Camera's Rolling


Letra
The script is burning
On heavy fuel
No time to lose
What will you do?

The camera's rolling
What will you do?
What will you do
That you can't undo?

The gun is loaded
What will you do?
Cruel gifted fools
What will you do?

Esta faixa abre o álbum Myopia (2020). É uma música que lida com a percepção, a memória e a sensação de estar sendo observado ou de estar "atuando" na própria vida. Com melhor som aqui

1. A Percepção da Realidade (Myopia)
O álbum chama-se Myopia (Miopia), e esta canção define o tom para isso. Agnes Obel descreveu o conceito como o estado de estar tão fechado no seu próprio mundo ou pensamento que a percepção do que é real fica distorcida. "The camera's rolling" (A câmara está a gravar) simboliza aquele momento em que nos tornamos autoconscientes, como se estivéssemos a ver a nossa vida de fora, como um filme.

2. Ansiedade e Controle
A repetição das frases sugere um estado de ansiedade. Quando a "câmara grava", há uma pressão para desempenhar um papel. Pode referir-se à sensação de que estamos sempre a ser vigiados (seja pela tecnologia, pela sociedade ou pela nossa própria mente crítica), o que nos impede de ser genuínos.

3. O Processo Criativo
Obel gravou este álbum em isolamento quase total. Ela mencionou em entrevistas que a canção lida com a dualidade de estar sozinho mas sentir que "alguém" (a própria consciência ou o público futuro) está a observar o processo. É a transição do pensamento privado para a performance pública.

Atmosfera Musical
A música utiliza técnicas de pitch-shifting (alteração do tom da voz), o que faz com que a voz de Agnes soe ora mais grave (masculina), ora mais aguda. Isso reforça a ideia de uma identidade fragmentada ou de alguém que está a ser "processado" por uma lente, tal como uma imagem de vídeo.

Podemos ir além do modelo capitalista e salvar o clima – eis os três primeiros passos



Temos uma responsabilidade urgente. O nosso sistema económico actual é incapaz de lidar com as crises sociais e ecológicas que enfrentamos no século XXI. Quando olhamos em redor, vemos um paradoxo extraordinário. Por um lado, temos acesso a novas tecnologias notáveis ​​e a uma capacidade coletiva de produzir mais alimentos, mais bens do que aqueles de que necessitamos ou do que o planeta pode suportar. No entanto, ao mesmo tempo, milhões de pessoas sofrem em condições de extrema privação.

O que explica este paradoxo? O capitalismo. Por capitalismo, não nos referimos aos mercados, ao comércio e ao empreendedorismo, que existem há milhares de anos, muito antes do aparecimento do capitalismo. Por capitalismo, referimo-nos a algo muito peculiar e específico: um sistema económico que se resume a uma ditadura controlada por uma ínfima minoria que detém o capital – os grandes bancos, as grandes corporações e o 1% que detém a maior parte dos ativos investíveis. Mesmo vivendo em democracia e tendo opções no nosso sistema político, as nossas escolhas nunca parecem alterar o sistema económico. São os capitalistas que determinam o que produzir, como utilizar a nossa força de trabalho e quem beneficia. O resto de nós – as pessoas que de facto produzem – não tem voz.

Para o capital, o objectivo primordial da produção não é satisfazer as necessidades humanas ou alcançar o progresso social, muito menos atingir metas ecológicas. O objetivo é maximizar e acumular lucro. Esse é o objetivo primordial. Esta é a lei capitalista do valor. E para maximizar os lucros, o capital exige um crescimento perpétuo – produção agregada sempre crescente, independentemente de ser necessária ou prejudicial.

Assim, acabamos com formas irracionais de produção como resultado: temos a produção em massa de coisas como SUVs , mansões e moda rápida, porque estas coisas são altamente lucrativas para o capital, mas uma subprodução crónica de coisas obviamente necessárias, como habitação pública e transportes públicos, porque estas são muito menos lucrativas para o capital, ou não lucrativas de todo.

O mesmo acontece com a energia. As energias renováveis ​​já são muito mais baratas do que os combustíveis fósseis. Infelizmente, os combustíveis fósseis são até três vezes mais rentáveis ​​. Assim, o capital obriga os governos a ligar os preços da electricidade ao preço do gás natural liquefeito mais caro, e não ao da energia solar barata. Da mesma forma, a construção e manutenção de autoestradas é muitas vezes mais rentável para os empreiteiros privados, fabricantes de automóveis e companhias petrolíferas do que uma moderna rede de caminhos-de-ferro públicos seguros e de alta velocidade. Por conseguinte, os capitalistas continuam a pressionar os nossos governos para subsidiar os combustíveis fósseis e a construção de estradas, mesmo enquanto o mundo arde.

Desde a eleição de Donald Trump, muitas grandes empresas de investimento abandonaram com entusiasmo os seus compromissos climáticos , que, em prol do bem comum, tinham limitado a sua rentabilidade. Este deveria ser um momento esclarecedor para todos nós: o capitalismo preocupa-se com as perspectivas da nossa espécie tanto quanto um lobo se preocupa com as de um cordeiro.

E aqui estamos nós: presos às prioridades do capitalismo, que são incompatíveis com as da humanidade. O engenho humano legou-nos tecnologias e capacidades esplêndidas. Mas, como divindade cruel, o capital não só nos impede de as utilizar para o nosso bem colectivo, como também nos obriga a empregá-las para a nossa ruína colectiva.

O sistema também nos prende em ciclos intermináveis ​​de violência imperialista. A acumulação de capital nas economias avançadas depende de inputs maciços de mão-de-obra barata e de recursos naturais do Sul global. Para manter este arranjo, o capital utiliza todas as ferramentas ao seu dispor – dívida, sanções, golpes de Estado e até invasões militares directas – para manter as economias do Sul subordinadas.

A solução está mesmo à frente dos nossos olhos. Precisamos urgentemente de ultrapassar a lei capitalista do valor e democratizar a nossa economia, para que possamos organizar a produção em torno de prioridades sociais e ecológicas urgentes. Afinal, somos os produtores dos bens, dos serviços e das tecnologias. É o nosso trabalho e os recursos do nosso planeta que estão em causa. Por isso, devemos reivindicar o direito de decidir o que é produzido, como e com que finalidade.

Como pode ser feito? Existem três condições necessárias para a transformação da nossa economia, de uma ditadura sem futuro para uma economia democrática, funcional e ecologicamente sustentável.

A primeira condição é uma nova arquitectura financeira que penalize “investimentos” privados destrutivos e possibilite o financiamento público para fins públicos. No cerne desta arquitectura, precisamos de um novo banco público de investimento que, em associação com os bancos centrais, converta a liquidez disponível em tipos de investimento compatíveis com a prosperidade comum e sustentável.

A segunda condição é a utilização extensiva da democracia deliberativa para decidir metas sectoriais, regionais e nacionais (por exemplo, em relação ao crescimento ou mesmo à redução de diferentes produtos) para as quais as novas ferramentas de financiamento público serão dirigidas.

E a terceira condição é uma Grande Lei de Reforma Corporativa com o objetivo de democratizar as corporações, favorecendo e promovendo a formação de empresas geridas segundo o princípio de um funcionário, uma ação, um voto.

Vivemos à sombra do mundo que poderíamos criar. Um mundo no qual seríamos capazes de evitar um colapso ecológico quase certo, em vez de estarmos à espera que o capitalismo nos empurrasse para além do ponto de não retorno. Um mundo onde a abolição da insegurança económica, da precariedade, da pobreza, do desemprego e da indignidade seja possível, enquanto levamos vidas com sentido dentro dos limites planetários. Isto não é um sonho distante. É uma perspectiva tangível.

Jason Hickel é professor na Universidade Autónoma de Barcelona e investigador sénior visitante na LSE. 

Yanis Varoufakis é o líder do MeRA25, antigo ministro das Finanças e autor de Tecnofeudalismo: O Que Matou o Capitalismo .

Brad Kunkle

Brad Kunkle -"Apotheosis" (2023)

Nascido em 1978 na Pensilvânia, Estados Unidos, Brad Kunkle é um dos nomes mais singulares da pintura contemporânea atual. Formado em Belas Artes pela Kutztown University em 2001, o artista consolidou uma carreira que equilibra o rigor técnico da tradição clássica com uma estética mística e surrealista, fortemente marcada pela fusão entre a figura humana e elementos da natureza.

Kunkle é profundamente influenciado pelos Pré-Rafaelitas e pelo artista Maxfield Parrish, além da estética das fotografias antigas (daguerreótipos).

O grande diferencial da sua obra reside na técnica magistral de aplicação de folhas de ouro e prata. Kunkle utiliza esses metais preciosos não apenas como ornamento, mas como um elemento dinâmico: as superfícies metálicas reagem à luz do ambiente e à posição do espectador, conferindo à pintura uma vida própria que se transforma conforme a iluminação. Esta abordagem foi inspirada tanto pelo seu passado como pintor decorativo quanto pela observação de ícones religiosos e obras clássicas no Museu do Louvre.

Estilisticamente, o seu trabalho é frequentemente associado ao Simbolismo, apresentando mulheres em estados de transe ou profunda conexão com o mundo natural — muitas vezes rodeadas por folhas secas, pássaros ou névoas densas. Para contrastar com o brilho opulento do ouro, Kunkle utiliza frequentemente a técnica de grisaille, pintando a pele e as vestes em tons de cinza ou paletas muito limitadas e suaves. O resultado é uma atmosfera onírica e atemporal, que convida o público a uma reflexão sobre a intuição e a beleza do invisível.

Curiosidade
O impacto da sua obra é tal que o seu trabalho foi incluído no Lunar Codex, uma cápsula do tempo digital enviada à Lua em parceria com a NASA, garantindo que a sua arte perdure para além da Terra.

Sloe Noon - Last One Home

Sloe Noon – Last One Home

intro musical
[verse 1]
Fucker is a freakshow
I don’t get it
Got other things on my mind
Don’t forget it

And I don’t like the way it goes
Last response two days ago
Something in the way he unsaid it
I’m so mad

[Chorus]
Get a drink, forget to let it go
Make it look unintentional
I stay with you until the last hour
That’s why I’m always the last one home

[verse 2]
Fucker’s always on my mind
Feel light-headed
In a different lifetime
I might have him
But I don’t like the way it goes
Something in the way it shows:
Eurydice and Orpheus in love

Always go, always go, always go home
Last one to leave, but I’m never alone
Want you to, want you to, want you to know
You make an hour feel like a lifetime
I go aaah, aaaaah, HA

[Chorus]
Get a drink, forget to let it go
Make it look unemotional
I stay with you after the zero hour
Wanna know, wanna know what you’re thinking
Wanna go, wanna go, but don’t know how
Good intentions, no discipline
Archille’s heel, no medicine
Guess I’ll always be the last one home

A letra de "Last One Home" afasta-se do minimalismo contemplativo para mergulhar numa narrativa visceral sobre a obsessão, a frustração romântica e a erosão do auto-controlo. Através de uma linguagem crua e impulsiva, a canção explora o conflito interno de quem se sente ignorado — evidenciado pelo silêncio de dois dias sem resposta e pela frieza do outro — mas que, ainda assim, não consegue desligar-se da situação. O título ganha aqui um novo significado: ser a "última a chegar a casa" não é um ato de isolamento pacífico, mas sim o resultado de uma espera desesperada e deliberada, onde a protagonista tenta mascarar a sua carência como algo não planeado ("make it look unintentional").

A inclusão de referências à mitologia grega, como o amor trágico de Orfeu e Eurídice e a vulnerabilidade do Calcanhar de Aquiles, eleva esta dinâmica a uma dimensão de inevitabilidade fatalista, sugerindo que a relação está condenada ou que a pessoa amada é uma fraqueza para a qual não existe remédio. Em última análise, o texto descreve a "ressaca" emocional de quem reconhece a própria falta de disciplina e dignidade ao permanecer num lugar (ou numa relação) até à "hora zero", apenas para captar um vislumbre de atenção de alguém que já nem sequer precisa de falar para ferir, bastando aquilo que deixa por dizer ("something in the way he unsaid it").

Anna Olivia Böke é a força criativa que compõe, canta e toca guitarra, sendo a alma desta sonoridade que discutimos.

A trajetória dela é bastante interessante e ajuda a explicar o estilo dos Sloe Noon.

Raízes alemãs, influência britânica:embora seja alemã, Anna viveu e estudou em Brighton, no Reino Unido. Foi lá que ela absorveu grande parte da estética shoegaze e post-punk que define o som de Sloe Noon.

The Smashing Pumpkins - There It Goes




Letra
there It Goes
Something's wrong, I can see it in your eyes
You're not the same, it's no surprise
And I don't know what I'm supposed to do
When everything I have is because of you

[Chorus]
And there it goes, it's slipping away
And there it goes, another day
And there it goes, it's out of my hands
And there it goes, I don't understand

I try to speak, but the words don't come out right
I'm losing sleep, I'm losing the fight
And I don't know where we went wrong
But I've been waiting for so long

[Chorus]

Maybe I'm wrong, maybe I'm right
Maybe I'll see you in the light
But for now, I'll just close my eyes
And say goodbye to all the lies

[Chorus]


The Smashing Pumpkins - There It Goes (2012)

O significado de "There It Goes" reside na melancolia da impotência e na aceitação dolorosa do fim. A letra descreve o momento exato em que percebemos que algo valioso — seja um amor de juventude ou uma etapa da vida — está a escapar por entre os dedos, e não há absolutamente nada que possamos fazer para o impedir. É uma canção sobre o inevitável.

Billy Corgan explora a frustração da falta de comunicação, onde as palavras falham precisamente quando são mais necessárias, criando um abismo entre duas pessoas que antes eram próximas. O refrão, com a repetição da frase "it's out of my hands" (está fora das minhas mãos), reforça este sentimento de perda de controlo e a resignação de assistir ao tempo a passar enquanto as promessas se desmoronam. No desfecho, a música sugere que, embora o adeus seja difícil, ele traz a libertação de todas as ilusões e mentiras que sustentavam aquela situação. É o retrato de um jovem compositor ainda despido de metáforas complexas, a lidar com a vulnerabilidade crua de ver o seu mundo mudar sem o seu consentimento.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

The Human Superorganism: 9 out of 10 cells on or in us are not really “us”



Here’s a great chart from a terrific 2008 manuscript that gives a hint of our complex ecosystem. I think we’ll look back on this time with some nostalgia– much as we did in the pre-antibiotic era or perhaps the pre-bloodletting era. As our tools move from Pasteur to CSI, so does our understanding of the microbiome.

This figure depicts different microbes and other organisms that have been intimately associated with humans as commensals or potential pathogens. The numbers correspond to images of organisms and approximate anatomic locations where these organisms may reside on the human body. 
1. Trichophyton and Epidermophyton are filamentous, parasitic microbes that cause athlete’s foot. 
2. Vaginal microbiota, mostly Lactobacillus species secrete lactic acid and other antimicrobial compounds that prevent pathogen overgrowth. 
3. More than 500 species of bacteria, weighing approximately 3.3 pounds in the average human adult, live inside the gastrointestinal tract. 
4. More than 100 strains of human papillomavirus (HPV) can infect humans, causing a variety of warts from the common wart to plantar and flat warts. 
5. Pediculus humanus capitis, the head louse, may have co-evolved with recent H. sapiens. 
6. Oral Streptococcus species form biofilms that may be 300–500 cells in thickness on the surfaces of unbrushed teeth. 
7. Demodex mites inhabit the follicles of the eyelashes and infest about 20 percent of people under the age of 20. 
8. After initial infection with the varicella-zoster virus (chickenpox), the virus remains dormant in nerve ganglia and may cause disease due to re-activation later in life. 
9. Approximately 1/12 of the human genome consists of DNA from fossil viruses that infected human ancestors millions of years ago. 10. Prevalent bacterial genera on the human skin include Streptococcus, Staphylococcus, and Corynebacterium.

Slow Meadow - Borderland Sorrows


Slow Meadow é o nome artístico do músico Matt Kidd, um artista de nacionalidade americana que vive em Houston, no Texas. Em "Borderland Sorrows", 3ª música do álbum Costero (2017), Kidd utiliza uma instrumentação delicada que combina pianos suaves, arranjos de cordas profundos e camadas eletrônicas atmosféricas. O estilo musical é marcado por uma sonoridade introspectiva e contemplativa, feita para evocar estados de melancolia e paz, resultando em composições que funcionam como paisagens sonoras para momentos de reflexão ou foco.

O projeto foi apadrinhado por Marc Byrd, da icónica banda de post-rock Hammock, o que explica a alta qualidade da produção atmosférica.

Capitalismo e Esquizofrenia - dossier Anti-Édipo

Edição Antiga. A mais recente é da Assírio Alvim 

Em 1972 saía em França "O Anti-Édipo", imediatamente transformado em livro de referência. O "Anti-Édipo" foi o volume inaugural de "Capitalismo e Esquizofrenia", concluído com "Mil Planaltos", também publicado em Portugal.

Anos volvidos, depois da morte trágica de Deleuze e do triunfo do liberalismo capitalista, "O Anti-Édipo" readquire uma renovada importância com reedições em vários países.

E-Livro completo aqui

A. Introdução

A Ecologia do Desejo: Porque precisamos de ler Deleuze e Guattari para salvar a Terra
No BioTerra, falo frequentemente de sustentabilidade como um conjunto de práticas: reciclar, plantar, conservar. Mas e se a crise ambiental que enfrentamos não for apenas uma crise de recursos, mas uma crise do nosso desejo? Para mudar a forma como tratamos o planeta, precisamos primeiro de entender como o sistema capturou a nossa vontade e a transformou em consumo passivo.

É aqui que entra uma das obras mais radicais do século XX: O Anti-Édipo, de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Este "dossier" sobre o capitalismo e a esquizofrenia oferece-nos as ferramentas para uma Ecologia Profunda, que não separa o Homem da Natureza, mas vê ambos como parte de um fluxo contínuo de vida.

O Desejo como Revolução: Mergulhando no "Anti-Édipo"
Se alguma vez sentiu que a vida moderna tenta encaixar-nos em caixas cada vez mais pequenas, o livro "O Anti-Édipo", primeiro volume da série Capitalismo e Esquizofrenia, de Gilles Deleuze e Félix Guattari, é o grito de libertação que precisa de conhecer. Publicada em 1972, no rasto dos movimentos de maio de 68, esta obra não é apenas um tratado filosófico; é uma "máquina de guerra" contra as formas de controlo da subjetividade.

No cerne do livro está uma crítica feroz à psicanálise tradicional. Para os autores, Freud cometeu um erro estratégico ao confinar o desejo humano ao "teatro familiar" do Complexo de Édipo. Ao reduzir as nossas angústias e sonhos à relação com o "papá e a mamã", a psicanálise teria domesticado a força vital do ser humano. Deleuze e Guattari propõem o oposto: o inconsciente não é um palco de representações familiares, mas sim uma fábrica. O desejo é uma força produtiva, biológica e social que eles designam como "máquinas desejantes". O desejo não quer "possuir" um objeto por falta, quer sim ligar-se, fluir e criar realidades.

A obra lança também um olhar radical sobre o sistema em que vivemos. Argumentam que o Capitalismo possui uma natureza paradoxal: ele "desterritorializa", ou seja, destrói tradições e códigos antigos para libertar fluxos de dinheiro e mercadoria, mas, ao mesmo tempo, cria novas prisões — como o consumo desenfreado e a burocracia estatal — para impedir que o desejo se torne verdadeiramente revolucionário.

É aqui que entra a figura do esquizofrénico, não como uma patologia clínica a ser lamentada, mas como um "processo" de fuga. Para os autores, o "esquizo" é aquele que consegue escapar às codificações do sistema, rompendo as fronteiras do que a sociedade considera normal ou produtivo.

Para substituir a análise tradicional, o livro propõe a Esquizoanálise. Em vez de perguntar "o que é que isto significa?" em relação ao passado, o objetivo é perguntar "como é que isto funciona?" no presente. Como é que o seu desejo se liga à política, à arte, à terra e ao outro? É um convite para abandonarmos as identidades rígidas e abraçarmos o que eles chamam de Corpo sem Órgãos — um estado de pura experimentação onde a vida flui sem as amarras das hierarquias impostas.

Ler "O Anti-Édipo" é um desafio, pois o texto é denso e propositadamente caótico, espelhando a própria multiplicidade que defende. No entanto, a sua mensagem permanece urgente: a verdadeira ecologia e a verdadeira liberdade começam quando libertamos o nosso desejo das fábricas de conformismo do sistema.

Conclusão

Ligar-se à Terra, Desligar-se da Máquina
Ao transmutarmos a visão do desejo de "consumo" para "produção", a ecologia deixa de ser um dever moral e passa a ser uma forma de libertação. Ser "Bio", nesta perspetiva, é permitir que o nosso desejo se conecte novamente com os ciclos da terra, com o crescimento das plantas e com a regeneração dos ecossistemas, em vez de ser canalizado para a acumulação de objetos obsoletos.

A verdadeira sustentabilidade exige que sejamos um pouco "esquizofrénicos" aos olhos do sistema: que saibamos fugir das rotas traçadas pelo hipercapitalismo para traçarmos os nossos próprios mapas de vida. Afinal, cuidar da Terra é, antes de mais, cuidar da liberdade do nosso próprio inconsciente.

Cientistas resolvem mistério sobre origem da vida complexa na Terra



Cientistas descobriram que os nossos antepassados microbianos usavam ambos oxigénio, resolvendo o mistério presente na teoria de que a vida complexa na Terra surgiu após a união de dois micróbios muito diferentes, foi esta quarta-feira divulgado.

O problema da teoria "mais amplamente aceite" para a evolução das "plantas, animais e fungos, conhecidos coletivamente como eucariotas" era não conseguir explicar como é que os dois micróbios estavam tão próximos para se unirem, quando um precisa de oxigénio para sobreviver e o outro era conhecido por viver em espaços sem este gás.

Estudo revela que antepassados "usam, ou pelo menos toleram, o oxigénio"
Segundo um estudo publicado na revista científica Nature, algumas arqueias Asgard, grupo de organismos do qual fazia parte um daqueles antepassados e que hoje em dia vivem sobretudo nas profundezas do mar e noutros espaços sem oxigénio, "usam, ou pelo menos toleram, o oxigénio".

"A maioria dos Asgards vivos de hoje foram encontrados em ambientes sem oxigénio", diz um dos autores do estudo, Brett Baker, professor associado de Ciências Marinhas e Biologia Integrativa na Universidade do Texas, nos Estados Unidos, citado num comunicado de divulgação do estudo desta instituição.

"Mas aqueles que estão mais relacionados com os eucariotas vivem em locais com oxigénio, como sedimentos costeiros pouco profundos, flutuando na coluna de água, e têm muitas vias metabólicas que utilizam oxigénio. Isto sugere que o nosso antepassado eucariótico provavelmente também possuía estes processos", acrescenta.

Teoria de Baker diz que a vida evoluiu num ambiente rico em oxigénio
A mais recente descoberta da equipa de Baker, que investiga genomas de arqueias Asgard, descobrindo novas linhagens, expandindo a diversidade enzimática e explorando as suas vias metabólicas, dá mais credibilidade à ideia de que a vida complexa evoluiu como a teoria previa e aparentemente num ambiente rico em oxigénio.

De acordo com a ciência, até há cerca de 1,7 mil milhões de anos a atmosfera terrestre tinha muito pouco oxigénio, mas os níveis do gás aumentaram drasticamente durante o período conhecido como o Grande Evento de Oxidação e "algumas centenas de milhares de anos" depois "surgiram os primeiros microfósseis de eucariotas conhecidos", o que indica que a presença de oxigénio pode ter sido importante para a origem da vida complexa.

"O facto de alguns dos Asgardianos, que são os nossos antepassados, serem capazes de usar oxigénio encaixa muito bem nisso", adianta Baker.

"O oxigénio apareceu no ambiente e os Asgardianos adaptaram-se a ele. Descobriram uma vantagem energética na utilização de oxigénio e, então, evoluíram para eucariotas".

Para os cientistas, os eucariotas surgiram quando uma arqueia Asgardiana desenvolveu uma relação simbiótica com uma alfaproteobactéria e esta terá evoluído, tornando-se "uma organela produtora de energia dentro dos eucariotas, chamada mitocôndria".

A coautora Kathryn Appler, investigadora de pós-doutoramento no Instituto Pasteur, em Paris, França, destaca "o enorme esforço de sequenciação e a sobreposição de métodos de sequenciação e estruturais" realizados pelos cientistas e que permitiram" ver padrões que não eram visíveis antes desta expansão genómica."

Investigação começou com a extração de ADN de sedimentos marinhos em 2019
Segundo o comunicado, esta investigação resulta do trabalho de doutoramento de Appler no Instituto de Ciências Marinhas da Universidade do Texas, que começou com a extração de ADN de sedimentos marinhos em 2019.

A equipa da UT e os seus colaboradores reuniram mais de 13 mil novos genomas microbianos, tendo conseguido "centenas de novos genomas de Asgard" e "quase duplicando a diversidade genética" do grupo que era conhecida.

Com base em semelhanças e diferenças genéticas, os cientistas construíram uma árvore da vida alargada das arqueias de Asgard, tendo os novos genomas permitido também descobrir novos grupos de proteínas, "duplicando o número de classes enzimáticas conhecidas".

De seguida, analisaram a Heimdallarchaeia e compararam as proteínas que produz com proteínas eucarióticas envolvidas no metabolismo energético e do oxigénio. Usando um modelo de inteligência artificial chamado AlphaFold2, previram como estas proteínas se dobram em formas tridimensionais. As formas, ou estruturas, das proteínas determinam o seu funcionamento. Os resultados mostraram que várias proteínas produzidas pela Heimdallarchaeia se assemelham muito às utilizadas pelos eucariotas para o metabolismo energético eficiente baseado no oxigénio.

Os ex-investigadores da UT Xianzhe Gong (atualmente na Universidade de Shandong, na China), Pedro Leão (agora na Universidade Radboud, Países Baixos), Marguerite Langwig (agora na Universidade de Wisconsin-Madison, Estados Unidos) e Valerie De Anda (atualmente na Universidade de Viena, Áustria) são outros autores do estudo.

Noire - He's My Baby


Letra
He's my baby, ain't it something
I'm a mess all for you
Walking home just to hear you say
Hey, baby, how's your day?

Don't go changing, I will believe in you
Don't know if you'd stay, it's all good if you do

He's my baby, it's what I get romance is a nonsense bid
Pull me to the couch, put on ry cooder so we could sing the blues
I've been thinking there's a lot of lonely people in this town, yeah

Don't go changing, I will believe in you
Don't know if you'd stay, it's all good you do

He's my baby, June is fadin', September's fadin' too
What's the price you pay, an hour wasted on you

Don't go changing, I will believe in you
Don't know if you'd stay, it's all good if you do

He's my baby, ain't it something


A banda, formada em Sydney em 2014, criou este álbum após um período de isolamento rural, resultando num som "reverb-heavy" comparado a Mazzy Star e à estética de David Lynch.

'He's My Baby' é a segunda faixa do álbum de estreia de NOIRE, Some Kind of Blue, lançado em 29 de setembro de 2017.

O teledisco foi filmado no Avalon Restaurant, em Katoomba (nas Blue Mountains, Austrália), o que explica a vibe de "cidade pequena isolada" que a música transmite.

A estética visual é fortemente inspirada no cinema, especificamente no filme Coffee and Cigarettes de Jim Jarmusch.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

William Elliott Whitmore - Civilizations


Letra
Don’t mind me I’m just livin here
Don’t mind me I’m just livin’ here
Tear down the mountains, cut the forest clear
Don’t mind me I’m just livin here

Pay no attention I’m just trying to exist
Pay no attention I’m just trying to exist
I’ve said too much now my name’s on a list
pay no attention to me

I know, I know, I know
Civilizations they come and they go
Sooner or later they crumble and fall
We’re just here in the middle of it all

Don’t mind me I’m bleeding now
Don’t mind me I’m just bleeding now
A hand from above cut out my heart somehow
Don’t mind me I’m just bleeding now

Under the radar hopefully
Under the radar hopefully
I’ll live live live ‘til they bury me
Under the radar hopefully


"Civilizations" é uma das faixas mais poderosas do álbum Radium Death (2015), de William Elliott Whitmore. É uma música que resume bem a filosofia do artista: uma mistura de folk visceral, activismo rural e uma pitada de estoicismo.

A canção é acompanhada por um evocativo videoclipe animado em tons sépia, co-realizado por Joel Anderson e Matt Scharenbroich. Utiliza imagens de paisagens em transformação e decadência histórica para reflectir o tema de "ascensão e queda" da música.

O Significado e a Inspiração
A canção é uma reflexão sobre a natureza cíclica da história humana e a resiliência do "homem comum".
O Ciclo da História: o tema central é que impérios e governos — as "civilizações" do título — eventualmente desmoronam sob o próprio peso, enquanto as pessoas comuns e a terra permanecem.

Comentário político: Whitmore escreveu a música como uma crítica à arrogância das potências modernas. Ele frequentemente traça paralelos com a queda de Roma, sugerindo que sociedades que priorizam o progresso industrial desenfreado em detrimento da terra estão destinadas ao fracasso.

Raízes Pessoais: a inspiração veio de uma luta real na defesa da sua quinta familiar no Iowa. Na época, havia um projeto de instalação de um oleoduto que passaria pelas terras de sua avó, o que deu origem aos versos sobre montanhas sendo derrubadas e florestas devastadas.[Fonte]. Ler mais detalhadamente abaixo

Estilo Musical
Diferente de outras faixas de Radium Death, que trazem guitarras elétricas e uma sonoridade mais rock, "Civilizations" é minimalista e acústica.
O Banjo: a música é guiada por um dedilhado de banjo lento e deliberado.
A Voz: a voz grave e "rasgada" de Whitmore (que soa muito mais velha do que ele realmente é) dá à canção um peso ancestral, como se estivesse sendo cantada por alguém que já viu séculos passarem.


O Contexto Político (Obama e o Iowa)
Obama estava no seu segundo mandato e, curiosamente, o contexto político da época cria um contraste interessante com a mensagem da canção:

A Contradição da energia: embora a administração Obama tenha promovido energias renováveis, também presenciou um boom na produção de petróleo e gás natural nos EUA. Foi precisamente durante este período que o projeto da Dakota Access Pipeline (que Whitmore contestava ativamente no Iowa) avançou a nível federal.

O "Home State" Político: o Iowa foi o estado que catapultou a carreira de Obama em 2008. Ver um artista do Iowa como Whitmore a cantar sobre a queda de "civilizações" e a ganância das corporações em 2015 mostrava um certo desencanto de parte da população rural que sentia que as promessas de proteção ambiental e económica não estavam a chegar ao terreno.

A Canção como Protesto
Quando Whitmore canta "Civilizations, they come and they go" (As civilizações vêm e vão), ele está a adoptar uma perspetiva histórica longa, sugerindo que nenhum governo ou império — mesmo o de um presidente popular como Obama — é permanente face à força da natureza e da terra.

Whitmore chegou a participar em protestos físicos no Iowa contra a construção da conduta de petróleo durante esse governo

Mariana Mortágua, o ISCTE e a pós-verdade



Primeiro ponto: a frase "o ISCTE é um nicho de esquerditas" é tão firme e mentirosa, que se transforma em pós-verdade.
Precisamente é na área de Gestão e Economia do ISCTE onde a Direita e os Liberais têm mais peso e presença que investigadores "socialistas". O ISCTE mantem a pluralidade

O ISCTE é muitas vezes associado a uma matriz de pensamento mais próxima da esquerda ou do centro-esquerda, em parte devido à forte tradição nas Ciências Sociais e à ligação de vários dos seus fundadores e docentes ao Partido Socialista. Contudo, na faculdade de gestão (IBS - Iscte Business School) e no departamento de Economia, encontram-se vozes que defendem o liberalismo económico, a eficiência de mercado e críticas à intervenção estatal excessiva. Figuras da área jurídica no ISCTE tendem a apresentar visões mais próximas do constitucionalismo clássico, muitas vezes associado ao centro-direita.

Investigadores do ISCTE nitidamente de Direita e Liberiais .

Segue lista: 
João Duque: Embora seja mais conhecido pela sua ligação ao ISEG, tem colaborações e é uma voz influente na análise económica com uma perspetiva liberal e de mercado.
Paulo de Andrade: Professor e economista que frequentemente apresenta análises críticas à despesa pública e à carga fiscal, alinhadas com o pensamento económico de direita.
Pedro Lomba: Jurista e professor que, embora com um perfil académico vasto, é uma figura pública claramente identificada com o PSD, tendo ocupado cargos em governos deste partido.
Nuno Garoupa: Embora com uma carreira internacional muito forte, as suas passagens e colaborações académicas em Portugal (incluindo o ISCTE em certas fases) trazem uma visão da Análise Económica do Direito que é fortemente influenciada por escolas de pensamento liberais.
Riccardo Marchi: Investigador no Centro de Estudos Internacionais (CEI-Iscte), é um dos maiores especialistas em Portugal sobre a "nova direita" e movimentos de direita radical. Embora o seu trabalho seja académico, a sua presença mediática é constante na análise e explicação do crescimento da direita e extrema-direita na Europa.
João Pedro Vidal Nunes: Professor da Iscte Business School (IBS), é uma voz ativa em órgãos internos e tem um perfil mais focado na gestão e economia, áreas onde o pensamento liberal e de eficiência de mercado é mais prevalente.
Filipe Nunes: Professor Associado, tem um currículo que inclui assessoria em governos e instituições internacionais. Embora com um perfil técnico, a sua área de atuação em Políticas Públicas e Relações Internacionais cruza-se frequentemente com quadros de pensamento mais institucionais e de centro-direita.
Sandro Mendonça: Professor Associado na IBS e antigo administrador da ANACOM. Embora o seu foco seja Economia da Inovação, as suas análises sobre regulação e mercado tendem a ser pragmáticas e menos ideologizadas à esquerda do que as de colegas de outros departamentos.
João José Trocado da Mata: Professor Auxiliar Convidado, é também advogado e tem intervenção na área do Direito das Políticas Públicas. 

Por fim é interessante notar que o ISCTE é frequentemente o palco de "duelos" intelectuais. Por exemplo, enquanto o departamento de Economia tem nomes como Ricardo Paes Mamede (identificado com o pensamento desenvolvimentista e de esquerda), a Business School funciona como um contraponto natural, com docentes acima listados que defendem a iniciativa privada, a redução da carga fiscal e a competitividade.
Também é comum que figuras públicas como Helena Garrido (jornalista económica com visão liberal) ou José Gomes Ferreira tenham ligações académicas ao ISCTE (como ex-alunos ou convidados), o que reforça a ideia de que a instituição, apesar da sua fama, é um espaço de debate plural.

Também enquanto o departamento de Economia tem nomes como Ricardo Paes Mamede (identificado com o pensamento desenvolvimentista e de esquerda), a Business School funciona como um contraponto natural, com docentes que defendem a iniciativa privada, a redução da carga fiscal e a competitividade.

Segundo ponto: outra mentira partilhada intensamente nas redes sociais é que Mariana Mortágua só começou a dar aulas no ISCTE depois de deixar o Parlamento. Falso. Mais uma pós-verdade.

A Mariana Mortágua é doutorada desde 2019, foi sujeita a um concurso em 2023 e foi seleccionada para o ISCTE.
Ainda bem que temos a Mariana Mortágua que defende uma intervenção estatal forte no mercado imobiliário e limitação de alojamentos locais/rendas e uma maior taxação sobre grandes fortunas (o que levou à criação do Adicional ao IMI, popularmente chamado de "Imposto Mortágua").

Do mar à terra, passando pelos céus: Como as tempestades afetam a vida selvagem


O “comboio de tempestades” que durante semanas atingiu Portugal deixou no seu encalço um rasto de devastação. Casas destruídas, estradas e outras vias arruinadas e já 16 pessoas morreram desde que a 28 de janeiro a tempestade Kristin se abateu sobre o território nacional.

No entanto, as intempéries, mais inclementes e frequentes à medida que o planeta se torna mais quente, afetam não só os mundos humanos, mas também os dos animais selvagens.

Desde 25 de janeiro, e com maior intensidade no mês de fevereiro, centenas de aves marinhas têm dado à costa portuguesa, de norte a sul do país. À Green Savers, Hany Alonso, técnico sénior de Ciência da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), diz que desde que a tempestade Kristin entrou em Portugal foram já registados mais de 400 papagaios-do-mar arrojados, a maior parte dos quais no litoral norte e na região de Peniche.

Segundo dados de parceiros internacionais, também na Galiza foram registados mais de 500 papagaios-do-mar arrojados e mais de 200 ao longo da costa francesa.

No que toca a Portugal, “os números de aves afetadas poderão ser muitíssimo mais altos, pois estamos a monitorizar uma parte muito pequena da nossa costa”, acautela o ornitólogo, acrescentando que mais arrojamentos são de esperar, pois “as condições continuam difíceis no mar”.

Já no inverno de 2022 para 2023, também fruto de tempestades, em duas semanas registaram-se mais de 1.700 arrojamentos de papagaios-do-mar na costa continental portuguesa, “que já foi um grande impacto nas populações desta espécie”, explica Alonso. Apesar de pequenas, essas aves estão habituadas a lidar com mares revoltosos e são “bastante resistentes”, podendo deslocar-se para áreas mais afastadas da costa até o temporal passar.

“O problema surge quando há muitas tempestades consecutivas, que dificultam a sua alimentação e deterioram a condição física das aves”, explica o ornitólogo da SPEA.

“Muitos dias com um mar difícil pode acabar por levar à mortalidade massiva de muitos indivíduos”, salienta, acrescentando que “começam a ficar mais fracos e vão-se aproximando mais de terra e acabam por arrojar nas praias, alguns vivos, mas uma grande parte já mortos”.

Além dos papagaios-do-mar, foram também registados arrojamentos de aves marinhas de outras espécies, como as tordas-miúdas, as gaivotas-tridáctilas, as gaivotas-de-patas-amarelas, os corvos-marinhos, as gaivotas-de-asa-escura e as galhetas. Ainda que essas aves estejam habituadas a lidar com mares tempestuosos, procurando abrigos mais perto da costa ou mesmo em terra, a sua resistência tem limites e, se as más condições se mantiverem durante muito tempo, acabam por sucumbir por não se conseguirem alimentar devidamente.

Embora a maior parte dos animais tenha dado à costa já sem vida, alguns ainda resistiam, tendo sido encaminhados prontamente para centros de recuperação de fauna selvagem. A esperança é que possam recuperar e regressar ao seu habitat natural.

Os impactos das tempestades, como as que temos tido, nas aves marinhas variam consoante a espécie e a idade dos indivíduos, sendo que os mais jovens e os mais fracos são, regra geral, os mais vulneráveis às intempéries. No entanto, eventos de mortalidade massiva podem abranger muitos outros indivíduos, com impactos severos para as populações da sua espécie.

As aves marinhas são um dos grupos de aves mais ameaçados em todo o mundo e estão cada vez mais pressionadas por uma miríade de fatores, como a captura acidental em redes de pesca, a poluição, a perda de habitat e de presas e as espécies invasoras. Assim, num contexto de crise climática e em linha com o que é dito pela Ciência, as tempestades, como as das últimas semanas, tornar-se-ão mais frequentes e mais intensas, e, por isso, “o impacto nas aves marinhas será grande”.

Como avisa Maria Dias, professora na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e investigadora do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C), “períodos longos de tempestades geralmente afetam as aves marinhas por dificultarem a obtenção de alimento, levando, por isso, à emaciação e, por vezes, à morte”.

Como tal, Hany Alonso, da SPEA, realça a importância de monitorizar estes eventos de arrojamento em massa e tentar perceber os seus impactos, especialmente nas espécies mais afetadas, como os papagaios-do-mar, “uma espécie que as pessoas geralmente desconhecem que ocorre nos mares portugueses”.

Quando se encontra uma ave arrojada ainda viva, os especialistas dizem que o mais importante é contactar o serviço ambiental da GNR, o SEPNA, ou o ICNF, para que o animal seja encaminhado para um centro de recuperação.

“Caso seja a própria pessoa a transportar a ave para um centro de recuperação, deve evitar o contacto direto com a ave, usando luvas ou uma peça de roupa, colocar a ave numa caixa de cartão e transportar a ave o mais rapidamente para o centro mais próximo. Não tentem alimentar ou dar água à ave, pois o ideal será que seja avaliada no centro onde lhe poderão prestar os cuidados adequados”, explica o técnico da SPEA.

Sob as ondas
Os impactos das tempestades vão além das aves. Também os animais que vivem sob a superfície das águas marinhas podem sentir os seus efeitos.

Uma vez mais, as consequências das tempestades e da agitação marítima associada dependem da espécie. Como nos explicam Alicia Quirin e Patrícia Nogueira, da Associação para a Investigação do Meio Marinho (AIMM), aquelas que dependem mais de habitats costeiros, em particular de zonas de águas pouco profundas, podem ter mais dificuldades em encontrar alimento por causa da agitação do mar.

“A ação das ondas pode também causar perturbações físicas nos fundos marinhos, causando danos em habitats mais frágeis ou a ressuspensão de sedimentos, que podem afetar algas e invertebrados e, consequentemente, toda a rede alimentar associada”, detalham, em resposta enviada por e-mail.

Devido aos ventos fortes e a mares revoltosos, algumas aves e mamíferos marinhos podem ter de gastar mais energia para se deslocarem de um lado para o outro, o que pode pôr em risco a sua sobrevivência. No caso dos golfinhos, por exemplo, “podem ocorrer dificuldades na navegação, sobretudo em animais mais jovens ou fragilizados”, mas, de forma geral, “estão bem-adaptados para sobreviver num ambiente dinâmico e com condições por vezes adversas”, dizem Alicia Quirin e Patrícia Nogueira.

Como tal, é expectável que os golfinhos e outros mamíferos marinhos sejam capazes de lidar com os efeitos nos mares lançados por tempestades como as que temos enfrentado nos últimos tempos.

Para já não há registo, além das aves marinhas, de mortalidade de animais marinhos associada diretamente às tempestades das últimas semanas. As especialistas da AIMM dizem-nos também que, nestas circunstâncias, é provável que animais já mortos possam acabar por chegar à costa, “mas isso não significa obrigatoriamente que a causa de morte esteja relacionada com as condições meteorológicas”.

“Este tipo de eventos acaba por reforçar a importância de existirem redes de monitorização e de resposta a arrojamentos bem estabelecidas para que se possa perceber melhor os efeitos destes fenómenos na vida marinha. Isto é particularmente importante num contexto de alterações climáticas, em que se prevê que fenómenos extremos se tornem mais frequentes”, salientam.

Anna von Hausswolff - The Mysterious Vanishing of Electra


My feet are not enough
My feet are not enough
My feet are not enough
My feet are not enough
Oh, to save me

Oh, to save me

His search is not enough
His search is not enough
Oh, to find me

Oh, to find me

My love is not enough
Oh, my love is not enough-ough
To save me
Oh, to save me

You search through the forest and the bottomless sea
And you cry
Push the trees, push the sky, push the air aside
You look at their faces and their meaningless loss
And you cry
Who is she, who is she, who is she who is she to say goodbye?


A Impotência perante a erda
Em "The Mysterious Vanishing Of Electra", o tema central do álbum Dead Magic (2018) ganha uma forma visceral. Anna von Hausswolff não se limita a cantar sobre o luto; ela constrói um exorcismo sonoro que explora a paralisia e a frustração humana perante o que é irreversível.

O Simbolismo da busca e o peso do Mito
O título remete imediatamente para Electra, um nome com fortes raízes na tragédia grega (o complexo de Electra) No entanto, a letra expande este arquétipo para uma narrativa de perda universal e desesperada.

A composição assenta na ideia de insuficiência:
  1. A limitação humana: A repetição de frases como "My feet are not enough" (Os meus pés não são suficientes) e "My love is not enough" sublinha que nem o esforço físico nem a devoção emocional conseguem resgatar quem se partiu.
  2. Cenários míticos: Ao evocar buscas por "florestas e mares sem fundo", a artista transporta o desespero do plano terreno para um cenário quase lendário, onde a "desaparição" de Electra parece definitiva.
  3. A incompreensão: A pergunta "Who is she to say goodbye?" (Quem é ela para dizer adeus?) revela a perplexidade e a revolta de quem fica para trás, incapaz de aceitar o destino.
Uma Performance de Pura Urgência
A estrutura da canção reflete uma urgência que é tanto física como espiritual. A repetição exaustiva dos versos, aliada aos vocais de Anna — que evoluem de melodias introspectivas para gritos guturais —, simboliza uma dor que já não cabe em palavras comuns. É o som de uma alma a tentar conter o inconformável.

A catedral de som: o Órgão de Tubos
O peso emocional da obra é sustentado por uma base sonora monumental, fruto de uma escolha artística rigorosa:
  1. O local: o instrumento foi registado na Marmorkirken (Igreja de Mármore), em Copenhaga. Anna escolheu este local pela acústica única do enorme domo, afirmando que o som do órgão parecia "cristalizar" e disparar notas como ondas hipnotizantes.
  2. O instrumento: trata-se de um órgão Marcussen & Søn de 1963, que incorpora tubos originais de 1894, conferindo uma textura histórica e imponente à faixa.
  3. Produção: gravado ao vivo em estéreo com o produtor Randall Dunn, o órgão cria o drone cavernoso que serve de fundação à música.
Embora o videoclipe oficial, realizado por Maria von Hausswolff, apresente uma estética visual sombria em cenários exteriores, é a reverberação das paredes desta igreja dinamarquesa que ancora a sensação de isolamento e transcendência da canção.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Francis - Turning A Hand


The passing of time
I can't fade it out
My body on you
My body on you

[Refrão]
Who will learn when I won't
Who will fall when I won't
Who will learn when I won't
Who will fall when I won't

Remember the year
The wind in your hair
Turn into me
You
Like turning a hand for you

[Refrão]
So this is the end
The closer I get
Never to hold you
Never to feel you

[Refrão]

O fascínio das corujas

Fotografia do meu Amigo Luís Aguiar

O Fascínio das Corujas: As Guardiãs Silenciosas da Noite
As corujas sempre ocuparam um lugar ambíguo no imaginário humano. De símbolos da sabedoria na Grécia Antiga a presságios de mistério em outras culturas, essas aves de rapina noturnas dominam a escuridão com uma eficiência biológica que beira a perfeição. Mas o que, exatamente, alimenta esse fascínio das corujas? A resposta está na sua anatomia altamente especializada.

Engenharia Biológica: Feitas para a Invisibilidade
A biologia das corujas é um testemunho da evolução adaptativa. Enquanto outros predadores confiam na velocidade ou na força bruta, a coruja domina através da furtividade.

1. O Voo Fantasmagórico
Ao contrário de um pombo ou de uma águia, cujo bater de asas produz um som característico, o voo da coruja é praticamente inaudível. Isso se deve às fímbrias: serrilhas nas bordas das penas que quebram a turbulência do ar, permitindo que a ave se aproxime da presa sem ser detectada.

2. Visão de Túnel (literalmente)
Os olhos de uma coruja não são globos oculares, mas sim estruturas tubulares alongadas. Essa forma permite uma retina maior e, consequentemente, uma capacidade de absorção de luz extraordinária. No entanto, por serem tubulares, elas não conseguem mover os olhos. Para compensar, a natureza as dotou de 14 vértebras cervicais (o dobro dos humanos), permitindo uma rotação de cabeça de até 270°.

3. Audição em 3D
Muitas espécies possuem aberturas auditivas assimétricas. Essa diferença de altura entre os ouvidos permite que o cérebro processe o som com um "atraso" milimétrico, criando um mapa mental tridimensional da localização da presa, mesmo que ela esteja escondida sob folhas ou neve.

O Fascínio sob a Óptica Científica
O fascínio pelas corujas não é apenas estético; é ecológico. Como predadores de topo, elas são indicadores fundamentais da saúde de um ecossistema. 
As corujas são sentinelas do ecossistema. O estudo de suas egagropilas (pelotas de restos não digeridos) é uma das ferramentas mais ricas para entendermos a biodiversidade local.
Onde há corujas saudáveis, há um controle eficiente de populações de roedores e um ambiente equilibrado.

Referências para Estudo

1. Para quem deseja aprofundar-se na biologia dessas aves, recomendamos as seguintes fontes:
  1. BACKHOUSE, Frances. Owls: Our Most Charming Bird. Firefly Books, 2021.
  2. CATRY, Paulo; COSTA, Helder; ELIAS, Gonçalo; MATIAS, Rafael. Aves de Portugal: Ornitologia do Território Continental. Assírio & Alvim, 2010.
  3. ELIAS, Gonçalo; et al. Aves de Portugal
  4. KÖNIG, Claus; WEICK, Friedhelm. Owls of the World. Yale University Press, 2008.
  5. MULLARNEY, Killian; SVENSSON, Lars. Guia de Aves (Edição portuguesa da Assírio & Alvim).
2. Estudos Académicos e Conservação
  1. ROQUE, Inês. Ecologia e Conservação de Rapinas Noturnas em Portugal. (Pesquisadora da Universidade de Évora e do ICAAM, com vasto trabalho sobre a Coruja-do-mato e o Mocho-galego).
  2. TOMÉ, Ricardo. Estudos sobre a dieta e habitat da Asio otus (Bufo-pequeno) e Tyto alba (Coruja-das-torres) em zonas agrícolas portuguesas.


Carnaval - Sobre o Riso, o Ridículo e o Sagrado


Os Evangelhos referem mais de uma vez que Jesus chorou: nomeadamente, pela morte do seu amigo Lázaro e sobre Jerusalém e a sua ruína. Nunca se diz explicitamente que sorriu ou riu. Mas está escrito que se alegrou e exultou.

Comover-se, chorar, é próprio do ser humano. Como é próprio do ser humano sorrir e rir. Por isso, lá está Santo Tomás de Aquino a argumentar que, se era humano, é claro que também riu e sorriu. O animal não chora, nem ri. O rosto de um ser humano que ri às gargalhadas pode ser do mais bonito que há. Sorrir e rir é sinal da transcendência humana: o ser humano está para lá do dado e do facto e, por isso, sempre também para lá de si mesmo. Ai do homem incapaz de rir-se de si próprio.

Evidentemente, há muitas formas de sorriso e riso, e as suas causas são múltiplas. O riso exultante não se identifica com o riso do desdém. O sorriso saltitante do acolhimento e da ternura nada tem a ver com o sorriso da ironia sardónica, e, muito menos, com o sorriso sobranceiro do desprezo. Em situações-limite, o riso estoira em lágrimas e a dor explode em riso. Tive uma vez uma jovem estudante que me pediu para escrever um “trabalho” precisamente sobre o riso, pois aconteceu-lhe que a mãe ao entrar na igreja e ao ver o cadáver da sua própria mãe (avó da jovem) começou a rir. Cá está: foi tal a dor, a angústia pela morte da mãe, que começou a rir-se - é isso: rimos até às lágrimas, choramos até ao riso.

Sintomaticamente, parte substancial das nossas piadas e anedotas não versam propriamente sobre o jocoso, em si mesmo, mas sobre realidades tremendamente sérias: o sexo, a morte, o Além. Talvez por isso mesmo: por serem terrivelmente sérias. Talvez também por isso, o poder, em princípio, não tem boas relações com o humor e o riso e as ditaduras não o toleram. É que o humor e o riso podem transportar consigo doses maciças de subversão corrosiva do poder no seu exercício, sobretudo no seu ridículo - não provém ridículo de ridere, precisamente rir?

Estas más relações são notórias concretamente quando consideramos o poder eclesiástico. Ainda não há muitos, muitos anos que os seminaristas nos seminários e as freiras nos conventos passavam os dias e as noites de Carnaval em adoração ao Santíssimo Sacramento, desagravando-o pelos pecados cometidos nesses dias e nessas noites. Não sei se alguém sabia ou saberá exactamente onde é que estava ou está a diferença entre os pecados do Carnaval e os pecados das outras épocas do ano.

Foi tardiamente que os cristãos aceitaram os festejos carnavalescos às portas dos rigores da Quaresma. Apesar das tentativas da Igreja oficial para travá-los, eles continuaram e impuseram-se. Seja como for, havia na Idade Média uma festa, que era a Festa dos Loucos. Nessa festa, chegava-se ao cúmulo de paramentar um burro, que entrava, portanto, na igreja com as vestes litúrgicas.

Realizava-se a Festa dos Loucos, uma crítica brutal ao poder eclesiástico. Arranjava-se um subdiácono, o grau mais baixo da hierarquia, era vestido de “bispo”, colocado em cima de um burro, entrava na igreja com a face voltada para a cauda, de costas para o altar. Em momentos fundamentais da liturgia, o celebrante e o povo zurravam. Na transmissão simbólica do báculo episcopal, rezava-se o Magnificat naquele passo: “E Deus derrubou os poderosos e exaltou os humildes.”

Há um texto da Faculdade de Teologia de Paris, que, em 1444, assim quer justificar a Festa dos Loucos: “Os nossos eminentes antepassados permitiram esta festa. Porque haveria ela de ser-nos interdita? Os tonéis do vinho rebentariam, se de vez em quando não se abrisse o batoque para arejá-los. Ora, nós somos velhos tonéis mal ajustados, que o vinho da sabedoria rebentaria se o deixássemos ferver numa devoção contínua ao serviço divino. É por isso que dedicamos alguns dias aos jogos e à palhaçada, a fim de voltarmos em seguida com mais alegria e fervor ao estudo e aos exercícios da religião.” Pelo menos, nessa altura, era permitido pôr a ridículo o poder clerical.

No meio de todo aquele aparato do Vaticano, não há uma contradição entre a pompa e a cruz? E há aquele texto do filósofo Sören Kierkegaard, que diz mais ou menos assim: vai Sua Excelência Reverendíssima o Bispo de Copenhaga, revestido de paramentos com filamentos de ouro e um báculo e uma mitra debruados de pedras preciosas, com todo o seu séquito em esplendor, senta-se num cadeirão de prata e dá início à sua homilia sobre a pobreza. E ninguém se ri!

A alguém que se sentisse irritado com estas perguntas lembro um texto de Joseph Ratzinger, mais tarde Bento XVI, no qual escreveu que, se hoje se critica menos a Igreja do que na Idade Média, não é porque se tem mais amor à Igreja, mas a si e à carreira.

É, para mim, evidente que não deve, não pode ser permitido ridicularizar de modo boçal o Sagrado, o Divino. Se isso fosse permitido, era a hecatombe. Mas a questão é outra: pôr a nu, pelo riso, a diferença entre o Sagrado e aquilo que nós, seres humanos finitos, fazemos dele é saudável. Porque o Divino e o Sagrado não se identificam com o que fazemos deles. Quem pode imaginar e admitir o ridículo de certas imagens de Deus na inteligência e no coração de alguns crentes? Assim, rir-se do modo como nós falamos do Mistério e do modo como o tratamos pode ser uma maneira sã de nos darmos conta da Transcendência do Mistério e do Divino. Que ao mesmo tempo se revelam e se ocultam.

The Smashing Pumpkins - Try, Try, Try


Uma canção que é um hino à capacidade sobre-humana de resistência da vida face ao infortúnio

Letra
Pop Tart, what’s our mission?
Do we know but never listen?
For too long they held me under
But I hear it’s almost over
In Detroit on a Memphis train
Like you said, it’s down in the heat and the summer rain
The automatic gauze of your memories
Down in the sleep at the airplane races

[Chorus]
Try to hold on
To this heart a little bit longer
Try to hold on
To this love aloud
Try to hold on
For this heart’s a little bit colder
Try to hold on
To this love

[Post-Chorus 1]
Paperback scrawl your hidden poems
Written around the dried out flowers
Here we are, still trading places
To try to hold on

[Verse 2]
Pop Tart, can you envision
A free world of clear division?
For too long they held us under
But I know we’re getting over
In Detroit with the Nashville tears
Like you said, it’s down in the heat with the broken numbers
Down in the gaze of solemnity
Down in the way you’ve held together

[Chorus]
Try to hold on
To this heart a little bit closer
Try to hold on
To this love aloud
Try to hold on
For this heart’s a little bit older
Try to hold on
To this love aloud

[Bridge]
And we are still alive
Try to hold on
And we have survived
Try to hold on
And no one should deny
[Post-Chorus 2]
We tried to hold onto the pulse of the feedback current
Into the flow of encrypted movement
Slapback kills the ancient remnants
That try to hold on

[Chorus]
Try to hold on
To this heart alive
Try to hold on
To this love aloud
Try to hold on
And we are still alive
Try to hold on
And we have survived
Try to hold on

[Outro]
Pop Tart, you never listen
Skinned knees, try to hold on
Stop start, what’s our mission?
Skinned knees, try to hold on

Esta é uma das músicas mais emocionantes do álbum Machina/The Machines of God. É aquele tipo de canção que equilibra perfeitamente a melancolia com uma ponta de esperança, típica do Billy Corgan.

Se é a primeira vez que escutas esta faixa agora, vale a pena notar alguns pontos:

1. A atmosfera sonora
Diferente do som pesado de guitarras de álbuns anteriores, "Try, Try, Try" é mais atmosférica e eletrónica.

O Ritmo: Tem uma batida constante, quase hipnótica, que dá uma sensação de movimento (ou de cansaço repetitivo).

Os vocais: O Corgan canta de uma forma mais suave e vulnerável, o que combina com a letra sobre "tentar aguentar firme".

2. O Vídeo (Curta-Metragem)
O videoclipe é, na verdade, um curta~metragem de 15 minutos dirigido por Jonas Åkerlund. É uma experiência bem forte:

A História: mostra a vida crua de um casal sem-teto em Estocolmo, lidando com vício e pobreza extrema.

O impacto: O vídeo muda completamente a percepção da música. O que parece ser um conselho genérico de "tente mais uma vez" se torna um grito desesperado de sobrevivência. Na época, foi amplamente censurado pela MTV por ser pesado demais.

Por que ela é especial?
Em "Try, Try, Try", do The Smashing Pumpkins, a repetição do verso “Try to hold on” (“Tente aguentar firme”) destaca a luta constante para manter a esperança e o afeto em meio ao desgaste emocional e à dor. A música aborda a perseverança como um ato de resistência e sobrevivência, especialmente diante de situações difíceis. Imagens como “skinned knees” (“joelhos ralados”) e menções a cidades como Detroit e Memphis conectam a letra à realidade dura mostrada no videoclipe, onde jovens enfrentam marginalização, vício e perda. Essa ligação entre a letra e o vídeo reforça o retrato de um cotidiano marcado por desafios sociais e emocionais.

A melancolia da canção é intensificada por versos como “the automatic gauze of your memories” (“a gaze automática das suas memórias”) e “paperback scrawl your hidden poems / written around the dried out flowers” (“rabisco de bolso seus poemas escondidos / escritos ao redor das flores secas”). Esses trechos evocam lembranças de tempos melhores e a tentativa de preservar sentimentos em meio ao caos. O single também traz símbolos alquímicos e referências místicas, sugerindo que a busca por sentido e redenção é complexa e quase espiritual. Mesmo com o coração “a little bit colder” ou “older” (“um pouco mais frio” ou “mais velho”), a insistência em tentar seguir adiante transforma a música em um hino à resiliência, reconhecendo tanto a dor quanto a força de quem não desiste.

Em termos de banda e destino 
Try,Try,Try marcou o fim da "era clássica" do Smashing Pumpkins, já que a banda se separou pouco tempo depois, no final de 2000. Ela carrega aquele peso de despedida, de quem já deu tudo de si e está tentando encontrar um motivo para continuar.