sábado, 21 de fevereiro de 2026
Dave Gahan feat. Soulsavers - Take Me Back Home
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
Agnes Obel - Camera's Rolling
The script is burning
On heavy fuel
No time to lose
What will you do?
The camera's rolling
What will you do?
What will you do
That you can't undo?
The gun is loaded
What will you do?
Cruel gifted fools
What will you do?
1. A Percepção da Realidade (Myopia)
O álbum chama-se Myopia (Miopia), e esta canção define o tom para isso. Agnes Obel descreveu o conceito como o estado de estar tão fechado no seu próprio mundo ou pensamento que a percepção do que é real fica distorcida. "The camera's rolling" (A câmara está a gravar) simboliza aquele momento em que nos tornamos autoconscientes, como se estivéssemos a ver a nossa vida de fora, como um filme.
2. Ansiedade e Controle
A repetição das frases sugere um estado de ansiedade. Quando a "câmara grava", há uma pressão para desempenhar um papel. Pode referir-se à sensação de que estamos sempre a ser vigiados (seja pela tecnologia, pela sociedade ou pela nossa própria mente crítica), o que nos impede de ser genuínos.
3. O Processo Criativo
Obel gravou este álbum em isolamento quase total. Ela mencionou em entrevistas que a canção lida com a dualidade de estar sozinho mas sentir que "alguém" (a própria consciência ou o público futuro) está a observar o processo. É a transição do pensamento privado para a performance pública.
Atmosfera Musical
A música utiliza técnicas de pitch-shifting (alteração do tom da voz), o que faz com que a voz de Agnes soe ora mais grave (masculina), ora mais aguda. Isso reforça a ideia de uma identidade fragmentada ou de alguém que está a ser "processado" por uma lente, tal como uma imagem de vídeo.
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Podemos ir além do modelo capitalista e salvar o clima – eis os três primeiros passos
Temos uma responsabilidade urgente. O nosso sistema económico actual é incapaz de lidar com as crises sociais e ecológicas que enfrentamos no século XXI. Quando olhamos em redor, vemos um paradoxo extraordinário. Por um lado, temos acesso a novas tecnologias notáveis e a uma capacidade coletiva de produzir mais alimentos, mais bens do que aqueles de que necessitamos ou do que o planeta pode suportar. No entanto, ao mesmo tempo, milhões de pessoas sofrem em condições de extrema privação.
O que explica este paradoxo? O capitalismo. Por capitalismo, não nos referimos aos mercados, ao comércio e ao empreendedorismo, que existem há milhares de anos, muito antes do aparecimento do capitalismo. Por capitalismo, referimo-nos a algo muito peculiar e específico: um sistema económico que se resume a uma ditadura controlada por uma ínfima minoria que detém o capital – os grandes bancos, as grandes corporações e o 1% que detém a maior parte dos ativos investíveis. Mesmo vivendo em democracia e tendo opções no nosso sistema político, as nossas escolhas nunca parecem alterar o sistema económico. São os capitalistas que determinam o que produzir, como utilizar a nossa força de trabalho e quem beneficia. O resto de nós – as pessoas que de facto produzem – não tem voz.
Para o capital, o objectivo primordial da produção não é satisfazer as necessidades humanas ou alcançar o progresso social, muito menos atingir metas ecológicas. O objetivo é maximizar e acumular lucro. Esse é o objetivo primordial. Esta é a lei capitalista do valor. E para maximizar os lucros, o capital exige um crescimento perpétuo – produção agregada sempre crescente, independentemente de ser necessária ou prejudicial.
Assim, acabamos com formas irracionais de produção como resultado: temos a produção em massa de coisas como SUVs , mansões e moda rápida, porque estas coisas são altamente lucrativas para o capital, mas uma subprodução crónica de coisas obviamente necessárias, como habitação pública e transportes públicos, porque estas são muito menos lucrativas para o capital, ou não lucrativas de todo.
O mesmo acontece com a energia. As energias renováveis já são muito mais baratas do que os combustíveis fósseis. Infelizmente, os combustíveis fósseis são até três vezes mais rentáveis . Assim, o capital obriga os governos a ligar os preços da electricidade ao preço do gás natural liquefeito mais caro, e não ao da energia solar barata. Da mesma forma, a construção e manutenção de autoestradas é muitas vezes mais rentável para os empreiteiros privados, fabricantes de automóveis e companhias petrolíferas do que uma moderna rede de caminhos-de-ferro públicos seguros e de alta velocidade. Por conseguinte, os capitalistas continuam a pressionar os nossos governos para subsidiar os combustíveis fósseis e a construção de estradas, mesmo enquanto o mundo arde.
Desde a eleição de Donald Trump, muitas grandes empresas de investimento abandonaram com entusiasmo os seus compromissos climáticos , que, em prol do bem comum, tinham limitado a sua rentabilidade. Este deveria ser um momento esclarecedor para todos nós: o capitalismo preocupa-se com as perspectivas da nossa espécie tanto quanto um lobo se preocupa com as de um cordeiro.
E aqui estamos nós: presos às prioridades do capitalismo, que são incompatíveis com as da humanidade. O engenho humano legou-nos tecnologias e capacidades esplêndidas. Mas, como divindade cruel, o capital não só nos impede de as utilizar para o nosso bem colectivo, como também nos obriga a empregá-las para a nossa ruína colectiva.
O sistema também nos prende em ciclos intermináveis de violência imperialista. A acumulação de capital nas economias avançadas depende de inputs maciços de mão-de-obra barata e de recursos naturais do Sul global. Para manter este arranjo, o capital utiliza todas as ferramentas ao seu dispor – dívida, sanções, golpes de Estado e até invasões militares directas – para manter as economias do Sul subordinadas.
A solução está mesmo à frente dos nossos olhos. Precisamos urgentemente de ultrapassar a lei capitalista do valor e democratizar a nossa economia, para que possamos organizar a produção em torno de prioridades sociais e ecológicas urgentes. Afinal, somos os produtores dos bens, dos serviços e das tecnologias. É o nosso trabalho e os recursos do nosso planeta que estão em causa. Por isso, devemos reivindicar o direito de decidir o que é produzido, como e com que finalidade.
Como pode ser feito? Existem três condições necessárias para a transformação da nossa economia, de uma ditadura sem futuro para uma economia democrática, funcional e ecologicamente sustentável.
A primeira condição é uma nova arquitectura financeira que penalize “investimentos” privados destrutivos e possibilite o financiamento público para fins públicos. No cerne desta arquitectura, precisamos de um novo banco público de investimento que, em associação com os bancos centrais, converta a liquidez disponível em tipos de investimento compatíveis com a prosperidade comum e sustentável.
A segunda condição é a utilização extensiva da democracia deliberativa para decidir metas sectoriais, regionais e nacionais (por exemplo, em relação ao crescimento ou mesmo à redução de diferentes produtos) para as quais as novas ferramentas de financiamento público serão dirigidas.
E a terceira condição é uma Grande Lei de Reforma Corporativa com o objetivo de democratizar as corporações, favorecendo e promovendo a formação de empresas geridas segundo o princípio de um funcionário, uma ação, um voto.
Vivemos à sombra do mundo que poderíamos criar. Um mundo no qual seríamos capazes de evitar um colapso ecológico quase certo, em vez de estarmos à espera que o capitalismo nos empurrasse para além do ponto de não retorno. Um mundo onde a abolição da insegurança económica, da precariedade, da pobreza, do desemprego e da indignidade seja possível, enquanto levamos vidas com sentido dentro dos limites planetários. Isto não é um sonho distante. É uma perspectiva tangível.
Jason Hickel é professor na Universidade Autónoma de Barcelona e investigador sénior visitante na LSE.
Yanis Varoufakis é o líder do MeRA25, antigo ministro das Finanças e autor de Tecnofeudalismo: O Que Matou o Capitalismo .
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Brad Kunkle
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| Brad Kunkle -"Apotheosis" (2023) |
Nascido em 1978 na Pensilvânia, Estados Unidos, Brad Kunkle é um dos nomes mais singulares da pintura contemporânea atual. Formado em Belas Artes pela Kutztown University em 2001, o artista consolidou uma carreira que equilibra o rigor técnico da tradição clássica com uma estética mística e surrealista, fortemente marcada pela fusão entre a figura humana e elementos da natureza.
Kunkle é profundamente influenciado pelos Pré-Rafaelitas e pelo artista Maxfield Parrish, além da estética das fotografias antigas (daguerreótipos).
O grande diferencial da sua obra reside na técnica magistral de aplicação de folhas de ouro e prata. Kunkle utiliza esses metais preciosos não apenas como ornamento, mas como um elemento dinâmico: as superfícies metálicas reagem à luz do ambiente e à posição do espectador, conferindo à pintura uma vida própria que se transforma conforme a iluminação. Esta abordagem foi inspirada tanto pelo seu passado como pintor decorativo quanto pela observação de ícones religiosos e obras clássicas no Museu do Louvre.
Estilisticamente, o seu trabalho é frequentemente associado ao Simbolismo, apresentando mulheres em estados de transe ou profunda conexão com o mundo natural — muitas vezes rodeadas por folhas secas, pássaros ou névoas densas. Para contrastar com o brilho opulento do ouro, Kunkle utiliza frequentemente a técnica de grisaille, pintando a pele e as vestes em tons de cinza ou paletas muito limitadas e suaves. O resultado é uma atmosfera onírica e atemporal, que convida o público a uma reflexão sobre a intuição e a beleza do invisível.
Curiosidade
O impacto da sua obra é tal que o seu trabalho foi incluído no Lunar Codex, uma cápsula do tempo digital enviada à Lua em parceria com a NASA, garantindo que a sua arte perdure para além da Terra.
Sloe Noon - Last One Home
intro musical
[verse 1]
Fucker is a freakshow
I don’t get it
Got other things on my mind
Don’t forget it
And I don’t like the way it goes
Last response two days ago
Something in the way he unsaid it
I’m so mad
[Chorus]
Get a drink, forget to let it go
Make it look unintentional
I stay with you until the last hour
That’s why I’m always the last one home
[verse 2]
Fucker’s always on my mind
Feel light-headed
In a different lifetime
I might have him
But I don’t like the way it goes
Something in the way it shows:
Eurydice and Orpheus in love
Always go, always go, always go home
Last one to leave, but I’m never alone
Want you to, want you to, want you to know
You make an hour feel like a lifetime
I go aaah, aaaaah, HA
[Chorus]
Get a drink, forget to let it go
Make it look unemotional
I stay with you after the zero hour
Wanna know, wanna know what you’re thinking
Wanna go, wanna go, but don’t know how
Good intentions, no discipline
Archille’s heel, no medicine
Guess I’ll always be the last one home
[verse 1]
Fucker is a freakshow
I don’t get it
Got other things on my mind
Don’t forget it
And I don’t like the way it goes
Last response two days ago
Something in the way he unsaid it
I’m so mad
[Chorus]
Get a drink, forget to let it go
Make it look unintentional
I stay with you until the last hour
That’s why I’m always the last one home
[verse 2]
Fucker’s always on my mind
Feel light-headed
In a different lifetime
I might have him
But I don’t like the way it goes
Something in the way it shows:
Eurydice and Orpheus in love
Always go, always go, always go home
Last one to leave, but I’m never alone
Want you to, want you to, want you to know
You make an hour feel like a lifetime
I go aaah, aaaaah, HA
[Chorus]
Get a drink, forget to let it go
Make it look unemotional
I stay with you after the zero hour
Wanna know, wanna know what you’re thinking
Wanna go, wanna go, but don’t know how
Good intentions, no discipline
Archille’s heel, no medicine
Guess I’ll always be the last one home
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The Smashing Pumpkins - There It Goes
O significado de "There It Goes" reside na melancolia da impotência e na aceitação dolorosa do fim. A letra descreve o momento exato em que percebemos que algo valioso — seja um amor de juventude ou uma etapa da vida — está a escapar por entre os dedos, e não há absolutamente nada que possamos fazer para o impedir. É uma canção sobre o inevitável.
Billy Corgan explora a frustração da falta de comunicação, onde as palavras falham precisamente quando são mais necessárias, criando um abismo entre duas pessoas que antes eram próximas. O refrão, com a repetição da frase "it's out of my hands" (está fora das minhas mãos), reforça este sentimento de perda de controlo e a resignação de assistir ao tempo a passar enquanto as promessas se desmoronam. No desfecho, a música sugere que, embora o adeus seja difícil, ele traz a libertação de todas as ilusões e mentiras que sustentavam aquela situação. É o retrato de um jovem compositor ainda despido de metáforas complexas, a lidar com a vulnerabilidade crua de ver o seu mundo mudar sem o seu consentimento.
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
The Human Superorganism: 9 out of 10 cells on or in us are not really “us”
Here’s a great chart from a terrific 2008 manuscript that gives a hint of our complex ecosystem. I think we’ll look back on this time with some nostalgia– much as we did in the pre-antibiotic era or perhaps the pre-bloodletting era. As our tools move from Pasteur to CSI, so does our understanding of the microbiome.
This figure depicts different microbes and other organisms that have been intimately associated with humans as commensals or potential pathogens. The numbers correspond to images of organisms and approximate anatomic locations where these organisms may reside on the human body.
1. Trichophyton and Epidermophyton are filamentous, parasitic microbes that cause athlete’s foot.
2. Vaginal microbiota, mostly Lactobacillus species secrete lactic acid and other antimicrobial compounds that prevent pathogen overgrowth.
3. More than 500 species of bacteria, weighing approximately 3.3 pounds in the average human adult, live inside the gastrointestinal tract.
4. More than 100 strains of human papillomavirus (HPV) can infect humans, causing a variety of warts from the common wart to plantar and flat warts.
5. Pediculus humanus capitis, the head louse, may have co-evolved with recent H. sapiens.
6. Oral Streptococcus species form biofilms that may be 300–500 cells in thickness on the surfaces of unbrushed teeth.
7. Demodex mites inhabit the follicles of the eyelashes and infest about 20 percent of people under the age of 20.
8. After initial infection with the varicella-zoster virus (chickenpox), the virus remains dormant in nerve ganglia and may cause disease due to re-activation later in life.
9. Approximately 1/12 of the human genome consists of DNA from fossil viruses that infected human ancestors millions of years ago. 10. Prevalent bacterial genera on the human skin include Streptococcus, Staphylococcus, and Corynebacterium.
Slow Meadow - Borderland Sorrows
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Capitalismo e Esquizofrenia - dossier Anti-Édipo
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| Edição Antiga. A mais recente é da Assírio Alvim |
Em 1972 saía em França "O Anti-Édipo", imediatamente transformado em livro de referência. O "Anti-Édipo" foi o volume inaugural de "Capitalismo e Esquizofrenia", concluído com "Mil Planaltos", também publicado em Portugal.
Anos volvidos, depois da morte trágica de Deleuze e do triunfo do liberalismo capitalista, "O Anti-Édipo" readquire uma renovada importância com reedições em vários países.
E-Livro completo aqui
A. Introdução
A Ecologia do Desejo: Porque precisamos de ler Deleuze e Guattari para salvar a Terra
No BioTerra, falo frequentemente de sustentabilidade como um conjunto de práticas: reciclar, plantar, conservar. Mas e se a crise ambiental que enfrentamos não for apenas uma crise de recursos, mas uma crise do nosso desejo? Para mudar a forma como tratamos o planeta, precisamos primeiro de entender como o sistema capturou a nossa vontade e a transformou em consumo passivo.
É aqui que entra uma das obras mais radicais do século XX: O Anti-Édipo, de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Este "dossier" sobre o capitalismo e a esquizofrenia oferece-nos as ferramentas para uma Ecologia Profunda, que não separa o Homem da Natureza, mas vê ambos como parte de um fluxo contínuo de vida.
O Desejo como Revolução: Mergulhando no "Anti-Édipo"
Se alguma vez sentiu que a vida moderna tenta encaixar-nos em caixas cada vez mais pequenas, o livro "O Anti-Édipo", primeiro volume da série Capitalismo e Esquizofrenia, de Gilles Deleuze e Félix Guattari, é o grito de libertação que precisa de conhecer. Publicada em 1972, no rasto dos movimentos de maio de 68, esta obra não é apenas um tratado filosófico; é uma "máquina de guerra" contra as formas de controlo da subjetividade.
No cerne do livro está uma crítica feroz à psicanálise tradicional. Para os autores, Freud cometeu um erro estratégico ao confinar o desejo humano ao "teatro familiar" do Complexo de Édipo. Ao reduzir as nossas angústias e sonhos à relação com o "papá e a mamã", a psicanálise teria domesticado a força vital do ser humano. Deleuze e Guattari propõem o oposto: o inconsciente não é um palco de representações familiares, mas sim uma fábrica. O desejo é uma força produtiva, biológica e social que eles designam como "máquinas desejantes". O desejo não quer "possuir" um objeto por falta, quer sim ligar-se, fluir e criar realidades.
A obra lança também um olhar radical sobre o sistema em que vivemos. Argumentam que o Capitalismo possui uma natureza paradoxal: ele "desterritorializa", ou seja, destrói tradições e códigos antigos para libertar fluxos de dinheiro e mercadoria, mas, ao mesmo tempo, cria novas prisões — como o consumo desenfreado e a burocracia estatal — para impedir que o desejo se torne verdadeiramente revolucionário.
É aqui que entra a figura do esquizofrénico, não como uma patologia clínica a ser lamentada, mas como um "processo" de fuga. Para os autores, o "esquizo" é aquele que consegue escapar às codificações do sistema, rompendo as fronteiras do que a sociedade considera normal ou produtivo.
Para substituir a análise tradicional, o livro propõe a Esquizoanálise. Em vez de perguntar "o que é que isto significa?" em relação ao passado, o objetivo é perguntar "como é que isto funciona?" no presente. Como é que o seu desejo se liga à política, à arte, à terra e ao outro? É um convite para abandonarmos as identidades rígidas e abraçarmos o que eles chamam de Corpo sem Órgãos — um estado de pura experimentação onde a vida flui sem as amarras das hierarquias impostas.
Ler "O Anti-Édipo" é um desafio, pois o texto é denso e propositadamente caótico, espelhando a própria multiplicidade que defende. No entanto, a sua mensagem permanece urgente: a verdadeira ecologia e a verdadeira liberdade começam quando libertamos o nosso desejo das fábricas de conformismo do sistema.
Conclusão
Ligar-se à Terra, Desligar-se da Máquina
Ao transmutarmos a visão do desejo de "consumo" para "produção", a ecologia deixa de ser um dever moral e passa a ser uma forma de libertação. Ser "Bio", nesta perspetiva, é permitir que o nosso desejo se conecte novamente com os ciclos da terra, com o crescimento das plantas e com a regeneração dos ecossistemas, em vez de ser canalizado para a acumulação de objetos obsoletos.
A verdadeira sustentabilidade exige que sejamos um pouco "esquizofrénicos" aos olhos do sistema: que saibamos fugir das rotas traçadas pelo hipercapitalismo para traçarmos os nossos próprios mapas de vida. Afinal, cuidar da Terra é, antes de mais, cuidar da liberdade do nosso próprio inconsciente.
Cientistas resolvem mistério sobre origem da vida complexa na Terra
Cientistas descobriram que os nossos antepassados microbianos usavam ambos oxigénio, resolvendo o mistério presente na teoria de que a vida complexa na Terra surgiu após a união de dois micróbios muito diferentes, foi esta quarta-feira divulgado.
O problema da teoria "mais amplamente aceite" para a evolução das "plantas, animais e fungos, conhecidos coletivamente como eucariotas" era não conseguir explicar como é que os dois micróbios estavam tão próximos para se unirem, quando um precisa de oxigénio para sobreviver e o outro era conhecido por viver em espaços sem este gás.
Estudo revela que antepassados "usam, ou pelo menos toleram, o oxigénio"
Segundo um estudo publicado na revista científica Nature, algumas arqueias Asgard, grupo de organismos do qual fazia parte um daqueles antepassados e que hoje em dia vivem sobretudo nas profundezas do mar e noutros espaços sem oxigénio, "usam, ou pelo menos toleram, o oxigénio".
"A maioria dos Asgards vivos de hoje foram encontrados em ambientes sem oxigénio", diz um dos autores do estudo, Brett Baker, professor associado de Ciências Marinhas e Biologia Integrativa na Universidade do Texas, nos Estados Unidos, citado num comunicado de divulgação do estudo desta instituição.
"Mas aqueles que estão mais relacionados com os eucariotas vivem em locais com oxigénio, como sedimentos costeiros pouco profundos, flutuando na coluna de água, e têm muitas vias metabólicas que utilizam oxigénio. Isto sugere que o nosso antepassado eucariótico provavelmente também possuía estes processos", acrescenta.
Teoria de Baker diz que a vida evoluiu num ambiente rico em oxigénio
A mais recente descoberta da equipa de Baker, que investiga genomas de arqueias Asgard, descobrindo novas linhagens, expandindo a diversidade enzimática e explorando as suas vias metabólicas, dá mais credibilidade à ideia de que a vida complexa evoluiu como a teoria previa e aparentemente num ambiente rico em oxigénio.
De acordo com a ciência, até há cerca de 1,7 mil milhões de anos a atmosfera terrestre tinha muito pouco oxigénio, mas os níveis do gás aumentaram drasticamente durante o período conhecido como o Grande Evento de Oxidação e "algumas centenas de milhares de anos" depois "surgiram os primeiros microfósseis de eucariotas conhecidos", o que indica que a presença de oxigénio pode ter sido importante para a origem da vida complexa.
"O facto de alguns dos Asgardianos, que são os nossos antepassados, serem capazes de usar oxigénio encaixa muito bem nisso", adianta Baker.
"O oxigénio apareceu no ambiente e os Asgardianos adaptaram-se a ele. Descobriram uma vantagem energética na utilização de oxigénio e, então, evoluíram para eucariotas".
Para os cientistas, os eucariotas surgiram quando uma arqueia Asgardiana desenvolveu uma relação simbiótica com uma alfaproteobactéria e esta terá evoluído, tornando-se "uma organela produtora de energia dentro dos eucariotas, chamada mitocôndria".
A coautora Kathryn Appler, investigadora de pós-doutoramento no Instituto Pasteur, em Paris, França, destaca "o enorme esforço de sequenciação e a sobreposição de métodos de sequenciação e estruturais" realizados pelos cientistas e que permitiram" ver padrões que não eram visíveis antes desta expansão genómica."
Investigação começou com a extração de ADN de sedimentos marinhos em 2019
Segundo o comunicado, esta investigação resulta do trabalho de doutoramento de Appler no Instituto de Ciências Marinhas da Universidade do Texas, que começou com a extração de ADN de sedimentos marinhos em 2019.
A equipa da UT e os seus colaboradores reuniram mais de 13 mil novos genomas microbianos, tendo conseguido "centenas de novos genomas de Asgard" e "quase duplicando a diversidade genética" do grupo que era conhecida.
Com base em semelhanças e diferenças genéticas, os cientistas construíram uma árvore da vida alargada das arqueias de Asgard, tendo os novos genomas permitido também descobrir novos grupos de proteínas, "duplicando o número de classes enzimáticas conhecidas".
De seguida, analisaram a Heimdallarchaeia e compararam as proteínas que produz com proteínas eucarióticas envolvidas no metabolismo energético e do oxigénio. Usando um modelo de inteligência artificial chamado AlphaFold2, previram como estas proteínas se dobram em formas tridimensionais. As formas, ou estruturas, das proteínas determinam o seu funcionamento. Os resultados mostraram que várias proteínas produzidas pela Heimdallarchaeia se assemelham muito às utilizadas pelos eucariotas para o metabolismo energético eficiente baseado no oxigénio.
Os ex-investigadores da UT Xianzhe Gong (atualmente na Universidade de Shandong, na China), Pedro Leão (agora na Universidade Radboud, Países Baixos), Marguerite Langwig (agora na Universidade de Wisconsin-Madison, Estados Unidos) e Valerie De Anda (atualmente na Universidade de Viena, Áustria) são outros autores do estudo.
Noire - He's My Baby
A banda, formada em Sydney em 2014, criou este álbum após um período de isolamento rural, resultando num som "reverb-heavy" comparado a Mazzy Star e à estética de David Lynch.
'He's My Baby' é a segunda faixa do álbum de estreia de NOIRE, Some Kind of Blue, lançado em 29 de setembro de 2017.
O teledisco foi filmado no Avalon Restaurant, em Katoomba (nas Blue Mountains, Austrália), o que explica a vibe de "cidade pequena isolada" que a música transmite.
A estética visual é fortemente inspirada no cinema, especificamente no filme Coffee and Cigarettes de Jim Jarmusch.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
William Elliott Whitmore - Civilizations
"Civilizations" é uma das faixas mais poderosas do álbum Radium Death (2015), de William Elliott Whitmore. É uma música que resume bem a filosofia do artista: uma mistura de folk visceral, activismo rural e uma pitada de estoicismo.
A canção é acompanhada por um evocativo videoclipe animado em tons sépia, co-realizado por Joel Anderson e Matt Scharenbroich. Utiliza imagens de paisagens em transformação e decadência histórica para reflectir o tema de "ascensão e queda" da música.
O Significado e a Inspiração
A canção é uma reflexão sobre a natureza cíclica da história humana e a resiliência do "homem comum".
O Ciclo da História: o tema central é que impérios e governos — as "civilizações" do título — eventualmente desmoronam sob o próprio peso, enquanto as pessoas comuns e a terra permanecem.
Comentário político: Whitmore escreveu a música como uma crítica à arrogância das potências modernas. Ele frequentemente traça paralelos com a queda de Roma, sugerindo que sociedades que priorizam o progresso industrial desenfreado em detrimento da terra estão destinadas ao fracasso.
Raízes Pessoais: a inspiração veio de uma luta real na defesa da sua quinta familiar no Iowa. Na época, havia um projeto de instalação de um oleoduto que passaria pelas terras de sua avó, o que deu origem aos versos sobre montanhas sendo derrubadas e florestas devastadas.[Fonte]. Ler mais detalhadamente abaixo
Estilo Musical
Diferente de outras faixas de Radium Death, que trazem guitarras elétricas e uma sonoridade mais rock, "Civilizations" é minimalista e acústica.
O Banjo: a música é guiada por um dedilhado de banjo lento e deliberado.
A Voz: a voz grave e "rasgada" de Whitmore (que soa muito mais velha do que ele realmente é) dá à canção um peso ancestral, como se estivesse sendo cantada por alguém que já viu séculos passarem.
O Contexto Político (Obama e o Iowa)
Obama estava no seu segundo mandato e, curiosamente, o contexto político da época cria um contraste interessante com a mensagem da canção:
A Contradição da energia: embora a administração Obama tenha promovido energias renováveis, também presenciou um boom na produção de petróleo e gás natural nos EUA. Foi precisamente durante este período que o projeto da Dakota Access Pipeline (que Whitmore contestava ativamente no Iowa) avançou a nível federal.
O "Home State" Político: o Iowa foi o estado que catapultou a carreira de Obama em 2008. Ver um artista do Iowa como Whitmore a cantar sobre a queda de "civilizações" e a ganância das corporações em 2015 mostrava um certo desencanto de parte da população rural que sentia que as promessas de proteção ambiental e económica não estavam a chegar ao terreno.
A Canção como Protesto
Quando Whitmore canta "Civilizations, they come and they go" (As civilizações vêm e vão), ele está a adoptar uma perspetiva histórica longa, sugerindo que nenhum governo ou império — mesmo o de um presidente popular como Obama — é permanente face à força da natureza e da terra.
Whitmore chegou a participar em protestos físicos no Iowa contra a construção da conduta de petróleo durante esse governo
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Mariana Mortágua, o ISCTE e a pós-verdade
Primeiro ponto: a frase "o ISCTE é um nicho de esquerditas" é tão firme e mentirosa, que se transforma em pós-verdade.
Precisamente é na área de Gestão e Economia do ISCTE onde a Direita e os Liberais têm mais peso e presença que investigadores "socialistas". O ISCTE mantem a pluralidade.
O ISCTE é muitas vezes associado a uma matriz de pensamento mais próxima da esquerda ou do centro-esquerda, em parte devido à forte tradição nas Ciências Sociais e à ligação de vários dos seus fundadores e docentes ao Partido Socialista. Contudo, na faculdade de gestão (IBS - Iscte Business School) e no departamento de Economia, encontram-se vozes que defendem o liberalismo económico, a eficiência de mercado e críticas à intervenção estatal excessiva. Figuras da área jurídica no ISCTE tendem a apresentar visões mais próximas do constitucionalismo clássico, muitas vezes associado ao centro-direita.
Investigadores do ISCTE nitidamente de Direita e Liberiais .
Segue lista:
João Duque: Embora seja mais conhecido pela sua ligação ao ISEG, tem colaborações e é uma voz influente na análise económica com uma perspetiva liberal e de mercado.
Paulo de Andrade: Professor e economista que frequentemente apresenta análises críticas à despesa pública e à carga fiscal, alinhadas com o pensamento económico de direita.
Pedro Lomba: Jurista e professor que, embora com um perfil académico vasto, é uma figura pública claramente identificada com o PSD, tendo ocupado cargos em governos deste partido.
Nuno Garoupa: Embora com uma carreira internacional muito forte, as suas passagens e colaborações académicas em Portugal (incluindo o ISCTE em certas fases) trazem uma visão da Análise Económica do Direito que é fortemente influenciada por escolas de pensamento liberais.
Riccardo Marchi: Investigador no Centro de Estudos Internacionais (CEI-Iscte), é um dos maiores especialistas em Portugal sobre a "nova direita" e movimentos de direita radical. Embora o seu trabalho seja académico, a sua presença mediática é constante na análise e explicação do crescimento da direita e extrema-direita na Europa.
João Pedro Vidal Nunes: Professor da Iscte Business School (IBS), é uma voz ativa em órgãos internos e tem um perfil mais focado na gestão e economia, áreas onde o pensamento liberal e de eficiência de mercado é mais prevalente.
Filipe Nunes: Professor Associado, tem um currículo que inclui assessoria em governos e instituições internacionais. Embora com um perfil técnico, a sua área de atuação em Políticas Públicas e Relações Internacionais cruza-se frequentemente com quadros de pensamento mais institucionais e de centro-direita.
Sandro Mendonça: Professor Associado na IBS e antigo administrador da ANACOM. Embora o seu foco seja Economia da Inovação, as suas análises sobre regulação e mercado tendem a ser pragmáticas e menos ideologizadas à esquerda do que as de colegas de outros departamentos.
João José Trocado da Mata: Professor Auxiliar Convidado, é também advogado e tem intervenção na área do Direito das Políticas Públicas.
Por fim é interessante notar que o ISCTE é frequentemente o palco de "duelos" intelectuais. Por exemplo, enquanto o departamento de Economia tem nomes como Ricardo Paes Mamede (identificado com o pensamento desenvolvimentista e de esquerda), a Business School funciona como um contraponto natural, com docentes acima listados que defendem a iniciativa privada, a redução da carga fiscal e a competitividade.
Também é comum que figuras públicas como Helena Garrido (jornalista económica com visão liberal) ou José Gomes Ferreira tenham ligações académicas ao ISCTE (como ex-alunos ou convidados), o que reforça a ideia de que a instituição, apesar da sua fama, é um espaço de debate plural.
Também enquanto o departamento de Economia tem nomes como Ricardo Paes Mamede (identificado com o pensamento desenvolvimentista e de esquerda), a Business School funciona como um contraponto natural, com docentes que defendem a iniciativa privada, a redução da carga fiscal e a competitividade.
Segundo ponto: outra mentira partilhada intensamente nas redes sociais é que Mariana Mortágua só começou a dar aulas no ISCTE depois de deixar o Parlamento. Falso. Mais uma pós-verdade.
A Mariana Mortágua é doutorada desde 2019, foi sujeita a um concurso em 2023 e foi seleccionada para o ISCTE.
Ainda bem que temos a Mariana Mortágua que defende uma intervenção estatal forte no mercado imobiliário e limitação de alojamentos locais/rendas e uma maior taxação sobre grandes fortunas (o que levou à criação do Adicional ao IMI, popularmente chamado de "Imposto Mortágua").
Do mar à terra, passando pelos céus: Como as tempestades afetam a vida selvagem
O “comboio de tempestades” que durante semanas atingiu Portugal deixou no seu encalço um rasto de devastação. Casas destruídas, estradas e outras vias arruinadas e já 16 pessoas morreram desde que a 28 de janeiro a tempestade Kristin se abateu sobre o território nacional.
No entanto, as intempéries, mais inclementes e frequentes à medida que o planeta se torna mais quente, afetam não só os mundos humanos, mas também os dos animais selvagens.
Desde 25 de janeiro, e com maior intensidade no mês de fevereiro, centenas de aves marinhas têm dado à costa portuguesa, de norte a sul do país. À Green Savers, Hany Alonso, técnico sénior de Ciência da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), diz que desde que a tempestade Kristin entrou em Portugal foram já registados mais de 400 papagaios-do-mar arrojados, a maior parte dos quais no litoral norte e na região de Peniche.
Segundo dados de parceiros internacionais, também na Galiza foram registados mais de 500 papagaios-do-mar arrojados e mais de 200 ao longo da costa francesa.
No que toca a Portugal, “os números de aves afetadas poderão ser muitíssimo mais altos, pois estamos a monitorizar uma parte muito pequena da nossa costa”, acautela o ornitólogo, acrescentando que mais arrojamentos são de esperar, pois “as condições continuam difíceis no mar”.
Já no inverno de 2022 para 2023, também fruto de tempestades, em duas semanas registaram-se mais de 1.700 arrojamentos de papagaios-do-mar na costa continental portuguesa, “que já foi um grande impacto nas populações desta espécie”, explica Alonso. Apesar de pequenas, essas aves estão habituadas a lidar com mares revoltosos e são “bastante resistentes”, podendo deslocar-se para áreas mais afastadas da costa até o temporal passar.
“O problema surge quando há muitas tempestades consecutivas, que dificultam a sua alimentação e deterioram a condição física das aves”, explica o ornitólogo da SPEA.
“Muitos dias com um mar difícil pode acabar por levar à mortalidade massiva de muitos indivíduos”, salienta, acrescentando que “começam a ficar mais fracos e vão-se aproximando mais de terra e acabam por arrojar nas praias, alguns vivos, mas uma grande parte já mortos”.
Além dos papagaios-do-mar, foram também registados arrojamentos de aves marinhas de outras espécies, como as tordas-miúdas, as gaivotas-tridáctilas, as gaivotas-de-patas-amarelas, os corvos-marinhos, as gaivotas-de-asa-escura e as galhetas. Ainda que essas aves estejam habituadas a lidar com mares tempestuosos, procurando abrigos mais perto da costa ou mesmo em terra, a sua resistência tem limites e, se as más condições se mantiverem durante muito tempo, acabam por sucumbir por não se conseguirem alimentar devidamente.
Embora a maior parte dos animais tenha dado à costa já sem vida, alguns ainda resistiam, tendo sido encaminhados prontamente para centros de recuperação de fauna selvagem. A esperança é que possam recuperar e regressar ao seu habitat natural.
Os impactos das tempestades, como as que temos tido, nas aves marinhas variam consoante a espécie e a idade dos indivíduos, sendo que os mais jovens e os mais fracos são, regra geral, os mais vulneráveis às intempéries. No entanto, eventos de mortalidade massiva podem abranger muitos outros indivíduos, com impactos severos para as populações da sua espécie.
As aves marinhas são um dos grupos de aves mais ameaçados em todo o mundo e estão cada vez mais pressionadas por uma miríade de fatores, como a captura acidental em redes de pesca, a poluição, a perda de habitat e de presas e as espécies invasoras. Assim, num contexto de crise climática e em linha com o que é dito pela Ciência, as tempestades, como as das últimas semanas, tornar-se-ão mais frequentes e mais intensas, e, por isso, “o impacto nas aves marinhas será grande”.
Como avisa Maria Dias, professora na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e investigadora do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C), “períodos longos de tempestades geralmente afetam as aves marinhas por dificultarem a obtenção de alimento, levando, por isso, à emaciação e, por vezes, à morte”.
Como tal, Hany Alonso, da SPEA, realça a importância de monitorizar estes eventos de arrojamento em massa e tentar perceber os seus impactos, especialmente nas espécies mais afetadas, como os papagaios-do-mar, “uma espécie que as pessoas geralmente desconhecem que ocorre nos mares portugueses”.
Quando se encontra uma ave arrojada ainda viva, os especialistas dizem que o mais importante é contactar o serviço ambiental da GNR, o SEPNA, ou o ICNF, para que o animal seja encaminhado para um centro de recuperação.
“Caso seja a própria pessoa a transportar a ave para um centro de recuperação, deve evitar o contacto direto com a ave, usando luvas ou uma peça de roupa, colocar a ave numa caixa de cartão e transportar a ave o mais rapidamente para o centro mais próximo. Não tentem alimentar ou dar água à ave, pois o ideal será que seja avaliada no centro onde lhe poderão prestar os cuidados adequados”, explica o técnico da SPEA.
Sob as ondas
Os impactos das tempestades vão além das aves. Também os animais que vivem sob a superfície das águas marinhas podem sentir os seus efeitos.
Uma vez mais, as consequências das tempestades e da agitação marítima associada dependem da espécie. Como nos explicam Alicia Quirin e Patrícia Nogueira, da Associação para a Investigação do Meio Marinho (AIMM), aquelas que dependem mais de habitats costeiros, em particular de zonas de águas pouco profundas, podem ter mais dificuldades em encontrar alimento por causa da agitação do mar.
“A ação das ondas pode também causar perturbações físicas nos fundos marinhos, causando danos em habitats mais frágeis ou a ressuspensão de sedimentos, que podem afetar algas e invertebrados e, consequentemente, toda a rede alimentar associada”, detalham, em resposta enviada por e-mail.
Devido aos ventos fortes e a mares revoltosos, algumas aves e mamíferos marinhos podem ter de gastar mais energia para se deslocarem de um lado para o outro, o que pode pôr em risco a sua sobrevivência. No caso dos golfinhos, por exemplo, “podem ocorrer dificuldades na navegação, sobretudo em animais mais jovens ou fragilizados”, mas, de forma geral, “estão bem-adaptados para sobreviver num ambiente dinâmico e com condições por vezes adversas”, dizem Alicia Quirin e Patrícia Nogueira.
Como tal, é expectável que os golfinhos e outros mamíferos marinhos sejam capazes de lidar com os efeitos nos mares lançados por tempestades como as que temos enfrentado nos últimos tempos.
Para já não há registo, além das aves marinhas, de mortalidade de animais marinhos associada diretamente às tempestades das últimas semanas. As especialistas da AIMM dizem-nos também que, nestas circunstâncias, é provável que animais já mortos possam acabar por chegar à costa, “mas isso não significa obrigatoriamente que a causa de morte esteja relacionada com as condições meteorológicas”.
“Este tipo de eventos acaba por reforçar a importância de existirem redes de monitorização e de resposta a arrojamentos bem estabelecidas para que se possa perceber melhor os efeitos destes fenómenos na vida marinha. Isto é particularmente importante num contexto de alterações climáticas, em que se prevê que fenómenos extremos se tornem mais frequentes”, salientam.
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Anna von Hausswolff - The Mysterious Vanishing of Electra
- A limitação humana: A repetição de frases como "My feet are not enough" (Os meus pés não são suficientes) e "My love is not enough" sublinha que nem o esforço físico nem a devoção emocional conseguem resgatar quem se partiu.
- Cenários míticos: Ao evocar buscas por "florestas e mares sem fundo", a artista transporta o desespero do plano terreno para um cenário quase lendário, onde a "desaparição" de Electra parece definitiva.
- A incompreensão: A pergunta "Who is she to say goodbye?" (Quem é ela para dizer adeus?) revela a perplexidade e a revolta de quem fica para trás, incapaz de aceitar o destino.
- O local: o instrumento foi registado na Marmorkirken (Igreja de Mármore), em Copenhaga. Anna escolheu este local pela acústica única do enorme domo, afirmando que o som do órgão parecia "cristalizar" e disparar notas como ondas hipnotizantes.
- O instrumento: trata-se de um órgão Marcussen & Søn de 1963, que incorpora tubos originais de 1894, conferindo uma textura histórica e imponente à faixa.
- Produção: gravado ao vivo em estéreo com o produtor Randall Dunn, o órgão cria o drone cavernoso que serve de fundação à música.
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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
Francis - Turning A Hand
O fascínio das corujas
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| Fotografia do meu Amigo Luís Aguiar |
O Fascínio das Corujas: As Guardiãs Silenciosas da Noite
As corujas sempre ocuparam um lugar ambíguo no imaginário humano. De símbolos da sabedoria na Grécia Antiga a presságios de mistério em outras culturas, essas aves de rapina noturnas dominam a escuridão com uma eficiência biológica que beira a perfeição. Mas o que, exatamente, alimenta esse fascínio das corujas? A resposta está na sua anatomia altamente especializada.
Engenharia Biológica: Feitas para a Invisibilidade
A biologia das corujas é um testemunho da evolução adaptativa. Enquanto outros predadores confiam na velocidade ou na força bruta, a coruja domina através da furtividade.
1. O Voo Fantasmagórico
Ao contrário de um pombo ou de uma águia, cujo bater de asas produz um som característico, o voo da coruja é praticamente inaudível. Isso se deve às fímbrias: serrilhas nas bordas das penas que quebram a turbulência do ar, permitindo que a ave se aproxime da presa sem ser detectada.
2. Visão de Túnel (literalmente)
Os olhos de uma coruja não são globos oculares, mas sim estruturas tubulares alongadas. Essa forma permite uma retina maior e, consequentemente, uma capacidade de absorção de luz extraordinária. No entanto, por serem tubulares, elas não conseguem mover os olhos. Para compensar, a natureza as dotou de 14 vértebras cervicais (o dobro dos humanos), permitindo uma rotação de cabeça de até 270°.
3. Audição em 3D
Muitas espécies possuem aberturas auditivas assimétricas. Essa diferença de altura entre os ouvidos permite que o cérebro processe o som com um "atraso" milimétrico, criando um mapa mental tridimensional da localização da presa, mesmo que ela esteja escondida sob folhas ou neve.
O Fascínio sob a Óptica Científica
O fascínio pelas corujas não é apenas estético; é ecológico. Como predadores de topo, elas são indicadores fundamentais da saúde de um ecossistema.
As corujas são sentinelas do ecossistema. O estudo de suas egagropilas (pelotas de restos não digeridos) é uma das ferramentas mais ricas para entendermos a biodiversidade local.
Onde há corujas saudáveis, há um controle eficiente de populações de roedores e um ambiente equilibrado.
Referências para Estudo
1. Para quem deseja aprofundar-se na biologia dessas aves, recomendamos as seguintes fontes:
- BACKHOUSE, Frances. Owls: Our Most Charming Bird. Firefly Books, 2021.
- CATRY, Paulo; COSTA, Helder; ELIAS, Gonçalo; MATIAS, Rafael. Aves de Portugal: Ornitologia do Território Continental. Assírio & Alvim, 2010.
- ELIAS, Gonçalo; et al. Aves de Portugal
- KÖNIG, Claus; WEICK, Friedhelm. Owls of the World. Yale University Press, 2008.
- MULLARNEY, Killian; SVENSSON, Lars. Guia de Aves (Edição portuguesa da Assírio & Alvim).
2. Estudos Académicos e Conservação
- ROQUE, Inês. Ecologia e Conservação de Rapinas Noturnas em Portugal. (Pesquisadora da Universidade de Évora e do ICAAM, com vasto trabalho sobre a Coruja-do-mato e o Mocho-galego).
- TOMÉ, Ricardo. Estudos sobre a dieta e habitat da Asio otus (Bufo-pequeno) e Tyto alba (Coruja-das-torres) em zonas agrícolas portuguesas.
Carnaval - Sobre o Riso, o Ridículo e o Sagrado
Os Evangelhos referem mais de uma vez que Jesus chorou: nomeadamente, pela morte do seu amigo Lázaro e sobre Jerusalém e a sua ruína. Nunca se diz explicitamente que sorriu ou riu. Mas está escrito que se alegrou e exultou.
Comover-se, chorar, é próprio do ser humano. Como é próprio do ser humano sorrir e rir. Por isso, lá está Santo Tomás de Aquino a argumentar que, se era humano, é claro que também riu e sorriu. O animal não chora, nem ri. O rosto de um ser humano que ri às gargalhadas pode ser do mais bonito que há. Sorrir e rir é sinal da transcendência humana: o ser humano está para lá do dado e do facto e, por isso, sempre também para lá de si mesmo. Ai do homem incapaz de rir-se de si próprio.
Evidentemente, há muitas formas de sorriso e riso, e as suas causas são múltiplas. O riso exultante não se identifica com o riso do desdém. O sorriso saltitante do acolhimento e da ternura nada tem a ver com o sorriso da ironia sardónica, e, muito menos, com o sorriso sobranceiro do desprezo. Em situações-limite, o riso estoira em lágrimas e a dor explode em riso. Tive uma vez uma jovem estudante que me pediu para escrever um “trabalho” precisamente sobre o riso, pois aconteceu-lhe que a mãe ao entrar na igreja e ao ver o cadáver da sua própria mãe (avó da jovem) começou a rir. Cá está: foi tal a dor, a angústia pela morte da mãe, que começou a rir-se - é isso: rimos até às lágrimas, choramos até ao riso.
Sintomaticamente, parte substancial das nossas piadas e anedotas não versam propriamente sobre o jocoso, em si mesmo, mas sobre realidades tremendamente sérias: o sexo, a morte, o Além. Talvez por isso mesmo: por serem terrivelmente sérias. Talvez também por isso, o poder, em princípio, não tem boas relações com o humor e o riso e as ditaduras não o toleram. É que o humor e o riso podem transportar consigo doses maciças de subversão corrosiva do poder no seu exercício, sobretudo no seu ridículo - não provém ridículo de ridere, precisamente rir?
Estas más relações são notórias concretamente quando consideramos o poder eclesiástico. Ainda não há muitos, muitos anos que os seminaristas nos seminários e as freiras nos conventos passavam os dias e as noites de Carnaval em adoração ao Santíssimo Sacramento, desagravando-o pelos pecados cometidos nesses dias e nessas noites. Não sei se alguém sabia ou saberá exactamente onde é que estava ou está a diferença entre os pecados do Carnaval e os pecados das outras épocas do ano.
Foi tardiamente que os cristãos aceitaram os festejos carnavalescos às portas dos rigores da Quaresma. Apesar das tentativas da Igreja oficial para travá-los, eles continuaram e impuseram-se. Seja como for, havia na Idade Média uma festa, que era a Festa dos Loucos. Nessa festa, chegava-se ao cúmulo de paramentar um burro, que entrava, portanto, na igreja com as vestes litúrgicas.
Realizava-se a Festa dos Loucos, uma crítica brutal ao poder eclesiástico. Arranjava-se um subdiácono, o grau mais baixo da hierarquia, era vestido de “bispo”, colocado em cima de um burro, entrava na igreja com a face voltada para a cauda, de costas para o altar. Em momentos fundamentais da liturgia, o celebrante e o povo zurravam. Na transmissão simbólica do báculo episcopal, rezava-se o Magnificat naquele passo: “E Deus derrubou os poderosos e exaltou os humildes.”
Há um texto da Faculdade de Teologia de Paris, que, em 1444, assim quer justificar a Festa dos Loucos: “Os nossos eminentes antepassados permitiram esta festa. Porque haveria ela de ser-nos interdita? Os tonéis do vinho rebentariam, se de vez em quando não se abrisse o batoque para arejá-los. Ora, nós somos velhos tonéis mal ajustados, que o vinho da sabedoria rebentaria se o deixássemos ferver numa devoção contínua ao serviço divino. É por isso que dedicamos alguns dias aos jogos e à palhaçada, a fim de voltarmos em seguida com mais alegria e fervor ao estudo e aos exercícios da religião.” Pelo menos, nessa altura, era permitido pôr a ridículo o poder clerical.
No meio de todo aquele aparato do Vaticano, não há uma contradição entre a pompa e a cruz? E há aquele texto do filósofo Sören Kierkegaard, que diz mais ou menos assim: vai Sua Excelência Reverendíssima o Bispo de Copenhaga, revestido de paramentos com filamentos de ouro e um báculo e uma mitra debruados de pedras preciosas, com todo o seu séquito em esplendor, senta-se num cadeirão de prata e dá início à sua homilia sobre a pobreza. E ninguém se ri!
A alguém que se sentisse irritado com estas perguntas lembro um texto de Joseph Ratzinger, mais tarde Bento XVI, no qual escreveu que, se hoje se critica menos a Igreja do que na Idade Média, não é porque se tem mais amor à Igreja, mas a si e à carreira.
É, para mim, evidente que não deve, não pode ser permitido ridicularizar de modo boçal o Sagrado, o Divino. Se isso fosse permitido, era a hecatombe. Mas a questão é outra: pôr a nu, pelo riso, a diferença entre o Sagrado e aquilo que nós, seres humanos finitos, fazemos dele é saudável. Porque o Divino e o Sagrado não se identificam com o que fazemos deles. Quem pode imaginar e admitir o ridículo de certas imagens de Deus na inteligência e no coração de alguns crentes? Assim, rir-se do modo como nós falamos do Mistério e do modo como o tratamos pode ser uma maneira sã de nos darmos conta da Transcendência do Mistério e do Divino. Que ao mesmo tempo se revelam e se ocultam.
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