segunda-feira, 16 de março de 2026

Eastgate Center: uma história de bioinspiração não muito verdadeira


No campo da biomimética, existem certas críticas sobre projetos baseados em visões superficiais da natureza e numa economia pretensamente verde, como aqui já foi referido.

Um desses projetos é um dos exemplos arquitetónicos mais famosos da biomimética: o edifício Eastgate Centre, localizado em Harare, Zimbabué, inaugurado em 1996.

O arquiteto Mick Pearce e a empresa Arup ter-se-ão inspirado parcialmente na estrutura das termiteiras locais para construir um edifício adequado a um clima tropical. Na África tropical, as térmitas da subfamília Macrotermitinae constroem ninhos enormes (até 9 metros) onde cultivam fungos em câmaras dentro do ninho.

No entanto, o projeto do edifício não se baseou totalmente no funcionamento real das termiteiras, como veremos adiante.

Modelos de regulação térmica das termiteiras
Na época em que Pearce projetou o edifício, existiam dois modelos propostos e aceitos para explicar a regulação térmica dentro das termiteiras: o modelo de fluxo termossifão e o modelo de fluxo induzido.

Fluxo termossifão: A ventilação é acionada pelo calor; o ar quente gerado pelo ninho sobe até ao topo da térmiteira onde, ao arrefecer, fica mais denso e é forçado para a região abaixo do ninho, repetindo o ciclo.

Fluxo induzido: Aplica-se às termiteiras que têm uma chaminé no topo, exposta a velocidades de vento mais elevadas do que as entradas ao nível do solo. Assim, o fluxo unidirecional atrai ar fresco junto ao solo para o ninho, passando pela chaminé e saindo para o exterior.

Projeto do edifício Eastgate Centre
Os arquitetos que projetaram o Eastgate Centre tentaram incorporar os princípios destes dois modelos. O edifício possui um extenso sistema de condutas dentro das paredes e pisos que movem o ar através da estrutura.

O calor gerado dentro do edifício, juntamente com o calor armazenado na estrutura, cria um efeito de termossifão que atrai o ar para cima. No telhado, localizam-se grandes chaminés, essenciais para criar o fluxo induzido.

No entanto, as histórias populares sobre o Eastgate Centre ignoram um detalhe importante: o edifício utiliza ventiladores de baixa capacidade durante o dia e de alta capacidade durante a noite para evitar a estagnação do ar. Assim, o ar quente acumulado durante o dia é substituído pelo ar fresco da noite. Isto funciona bem e evita o uso de ar condicionado caro, mas, escusado será dizer, nenhuma termiteira utiliza ventiladores.

Críticas ao projeto
O sistema de refrigeração permitiu uma poupança de 10% nos custos iniciais (ao não comprar sistemas de ar condicionado) e uma redução de 20% no preço dos alugueres em comparação com edifícios vizinhos.

Embora o objetivo prático tenha sido atingido, em termos de biomimética o projeto falhou, pois as térmiteiras não ventilam da forma que Mick Pearce pensava. Como escreveu a entomologista Marianne Alleyne:

“Se a biomimética e a bioinspiração desejam ser reconhecidas como áreas de estudo legítimas, é essencial que a ciência em que o campo se baseia seja sólida.”

Como as termiteiras realmente funcionam
Desde 1996, as suposições de Pearce foram refutadas pelos investigadores J. Scott Turner e Rupert C. Soar. Eles verificaram que, embora a temperatura interna varie menos que a externa, ela segue de perto a temperatura do solo circundante ao longo do ano.

O solo tem uma grande capacidade térmica, atuando como um "amortecedor" contra as variações diárias. A arquitetura e a ventilação têm pouco a ver com a temperatura interna, mas sim com a troca de gases. Ao fazerem moldes de gesso dos túneis, os investigadores descobriram que há pouca mistura entre o ar da superfície e o do ninho subterrâneo, propondo que a termiteira é, na verdade, um análogo funcional de um pulmão.

Metamateriais inspirados nas térmitas
Em 2023, David Andréen e Rupert Soar demonstraram que a geometria dos túneis pode otimizar o fluxo de ar e o controlo de humidade. Com base em digitalizações e experiências, criaram estruturas que podem ser integradas nas paredes de futuros edifícios, permitindo: circulação de ar otimizada por sensores; controlo térmico sem componentes mecânicos e consumo mínimo de energia.

Conclusão
As térmitas constroem paredes que interagem com o ambiente, trocando gases e energia em vez de criarem barreiras impenetráveis. Estas descobertas abrem caminho para edifícios com paredes porosas e sistemas de revestimento vivos, que farão parte da nossa "fisiologia estendida", tal como o ninho faz parte da colónia.

Referências:
  1. Termite-inspired metamaterials for flow-active building envelopes.
  2. Beyond biomimicry: What termites can tell us about realizing the living building.
  3. The termite mound: A not-quite-true popular bioinspiration story.
  4. How is the Eastgate Building NOT like a Termite Mound?

Além do erro biológico o Eastgate Centre levanta problemas de transição justa
O Eastgate Centre, em Harare, no  Zimbabwe, apontado como ícone arquitectónico de "inspiração na natureza" serviu apenas como um verniz ecológico para um edifício construído com materiais de elevado impacto ambiental, como o betão e o aço, e destinado a escritórios de luxo e comércio de elite. Enquanto o marketing celebrava a "sabedoria das térmitas", o projeto ignorou a justiça social: a energia que o edifício ainda consome provém de centrais a carvão poluentes e a tecnologia biomimética não é aplicada para melhorar a vida das populações mais pobres na periferia de Harare. Assim, o Eastgate torna-se um caso de estudo sobre como a biomimética pode ser cooptada para validar modelos de negócio tradicionais, focando-se na eficiência técnica para o capital em vez de numa regeneração ecológica e social profunda.

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