segunda-feira, 31 de março de 2025

Peritos internacionais pedem moratória de 10 a 15 anos para mineração em mar profundo


Um grupo de especialistas mandatado pelo Presidente francês recomenda uma moratória de 10 a 15 anos para a exploração dos fundos marinhos, alertando que a incerteza sobre a mineração do mar profundo pode pôr em risco o planeta.

“Não é por ser um ecossistema remoto que [o fundo do oceano] não tem relação com o resto da Terra. Por isso concluímos por um princípio de precaução e recomendamos uma moratória de 10 a 15 anos como a única maneira de posteriormente tomar decisões informadas com base no conhecimento científico”, disse hoje o coordenador do grupo de trabalho.

Bruno David, ex-presidente do Museu Nacional de História Natural em França, apresentava as conclusões do trabalho que coordenou, a pedido do Presidente Emmanuel Macron, durante a iniciativa SOS Oceano, a decorrer em Paris até segunda-feira.

A comissão científica, co-coordenada pelo ex-ministro português Ricardo Serrão Santos, incluiu 18 membros de 15 países, de áreas científicas como história natural, geologia ou ciências naturais, mas também das ciências humanas.

Ao longo de oito meses, o grupo estudou o potencial da exploração dos fundos marinhos tendo em conta a necessidade de recorrer à extração mineral para promover a transição energética, como forma de combater as alterações climáticas.

“Estamos a tentar resolver um problema que conhecemos bem, as alterações climáticas, mas talvez estejamos a saltar para outro problema, que é a exploração do fundo do mar, (…) e talvez o segundo problema possa ser pior do que o primeiro”, disse Bruno David perante dezenas de personalidades ligadas ao oceano, incluindo cientistas, decisores políticos e ambientalistas.

A Comissão analisou questões económicas, relacionadas com a biodiversidade, com os equilíbrios bioquímicos do planeta, questões sociológicas, relacionadas com a lei internacional e com a redistribuição equitativa de benefícios.

“Todas essas questões têm de ser cuidadosamente consideradas no contexto da exploração dos recursos do mar profundo, porque até agora só temos exploração científica e não exploração económica”, afirmou.

A conclusão dos peritos é que “as incertezas sobre os potenciais efeitos colaterais da mineração em águas profundas podem levar-nos a territórios desconhecidos”, pelo que deve aplicar-se o princípio da precaução.

“Não é porque o mar profundo está longe de nós que não tem consequências sobre nós”, afirmou Bruno David, sublinhando que “a ciência é que deve guiar as escolhas, e não a pressa e a urgência”.

“O lucro imediato é sem dúvida importante, mas lançar ações sem considerar todas as consequências pode revelar-se desastroso”, acrescentou.

Bruno David apelou por isso à humildade de reconhecer que o ser humano não sabe tudo e a humanidade é muito pequena, quando comparada com o oceano, que evoluiu ao longo de centenas de milhões de anos.

“A humanidade deve proteger e preservar o oceano profundo pelo seu valor intrínseco, só isso”, concluiu.

Organizado pela França e pela Fundação Oceano Azul, com a colaboração da Bloomberg Philantropies, o SOS Ocean pretende lançar a Conferência dos Oceanos das Nações Unidas, prevista para junho em Nice, e responde a um apelo do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, que no verão passado, em Tonga, lançou um ‘SOS’ para os oceanos.

domingo, 30 de março de 2025

Grande Reportagem - Rewilding Portugal e Grande Vale do Côa


O rewilding apresentado como uma ferramenta poderosa para permitir que a natureza se regenere por si própria, com intervenções humanas mínimas e estratégicas, acelerando assim a recuperação de ecossistemas e trazer de volta espécies-chave que desempenham papéis vitais no equilíbrio ecológico.

Mais do que voltar ao passado, olhamos é sempre para um futuro de paisagens biodiversas e funcionais, reagindo finalmente de forma prática e efetiva à degradação que a inação nos tem levado. E estamos todos os dias a fazê-lo no terreno, em proximidade, junto das comunidades e trazendo-lhes também benefícios sociais e económicos deste trabalho conjunto.

sábado, 29 de março de 2025

Reportagem: "O paradoxo da energia verde"


Será que todas as fontes de produção de eletricidade assumida como renovável podem ser associadas a descarbonização e redução da poluição?

A queima de biomassa florestal para produzir electricidade cresceu devido ao facto de esta fonte ter sido tolerada como neutra em carbono pelas Nações Unidas.

Este enquadramento político permite às nações queimar biomassa florestal em vez de carvão e não contabilizar as emissões para as ajudar a cumprir as metas de carbono do Acordo Climático de Paris.

A ciência atual identifica a queima de biomassa florestal como mais prejudicial do que a queima de carvão, e que uma das melhores formas de travar as alterações climáticas e sequestrar carbono é permitir que as florestas continuem a crescer. As designações de neutralidade carbónica da União Europeia para a biomassa florestal estão erradas, afirmam os cientistas que defendem uma mudança na política global.

Documentário produzido pela Acréscimo, com o apoio da Biofuelwatch.

sexta-feira, 28 de março de 2025

Teilhard de Chardin, uma das figuras mais fascinantes do século XX

Por José Tolentino de Mendonça

Pierre Teilhard de Chardin é uma das figuras mais fascinantes e complexas do pensamento do século XX. Sua obra, que se encontra na intersecção entre ciência, teologia e filosofia, representa uma tentativa ousada de integrar a evolução cósmica com uma visão espiritual do universo. Em sua vida e em seus escritos, surge uma síntese original que desafia as dicotomias tradicionais entre fé e razão, natureza e espírito, tempo e eternidade. Este volume se propõe a explorar o pensamento de Teilhard em profundidade, oferecendo uma perspectiva penetrante sobre seu legado intelectual e espiritual.

Mercè Prats, professora e documentarista da Fondation Teilhard de Chardin, é conhecida pelos acadêmicos por ter conseguido reconstruir a circulação clandestina dos escritos do pensador jesuíta francês. Ela consultou arquivos até então inacessíveis, reconstruindo a transmissão em estilo cíclico de seus textos. Esses escritos, que frequentemente apresentavam perspectivas teológicas inovadoras e, às vezes, controversas, foram copiados e distribuídos de forma privada durante décadas, alimentando uma rede de leitores e apoiadores.

O que torna este volume particularmente original em comparação com outros estudos sobre Teilhard de Chardin é também a abordagem inovadora e interdisciplinar adotada pela autora. Prats não apenas examina as ideias de Teilhard em seu contexto histórico e filosófico, mas também as relê à luz dos desafios do mundo contemporâneo. Essa capacidade de dialogar com questões atuais, como a crise ecológica, a globalização e a busca de significado espiritual na era tecnológica, confere ao seu trabalho uma relevância e um frescor extraordinários.

Outra característica distintiva do texto de Prats é sua capacidade de tornar conceitos complexos do Teilhardi acessíveis a um público amplo. Por meio de um estilo claro e envolvente, a autora consegue traduzir as profundas intuições de Teilhard numa linguagem compreensível sem sacrificar a sua profundidade.

Teilhard de Chardin foi um jesuíta, um paleontólogo e um místico. Sua vida foi marcada por uma busca incessante de significado, alimentada tanto pela observação científica quanto pela contemplação espiritual. Nascido em 1881 na França, ele cresceu num ambiente rico em estímulos culturais e espirituais. Sua formação jesuíta lhe proporcionou uma sólida base teológica, enquanto seu trabalho como cientista o colocou frente a frente com as grandes questões da evolução e da natureza do homem. A fé e a ciência moldaram o seu pensamento, que se distingue por sua capacidade de integrar diferentes perspectivas em uma visão de mundo unificada.

O ponto central do pensamento de Teilhard é a ideia de que o universo está evoluindo constantemente em direção a uma maior complexidade e a uma consciência mais profunda. Essa “teologia da evolução”, como foi frequentemente chamada, é uma de suas percepções mais originais e provocativas. Para Teilhard, a evolução não é simplesmente um processo biológico, mas um movimento cósmico que envolve toda a criação. O universo, em sua visão, é animado por uma força interna que o conduz ao ponto ômega, um termo cunhado por Teilhard para denotar o ápice da evolução, onde a consciência humana e a divina se unem em harmonia.

O pensamento de Teilhard – como Mercè Prats ilustra muito bem – provocou muitos debates, tanto na comunidade científica quanto no âmbito teológico. Por um lado, sua visão da evolução como um processo intrinsecamente orientado para o transcendente levantou questões sobre a compatibilidade de suas ideias com a teoria darwiniana. Por outro lado, sua ousadia em reinterpretar a fé católica à luz das descobertas científicas provocou reações contrastantes dentro da Igreja. Apesar das controvérsias, ou talvez por causa delas, o seu pensamento continua exercendo uma profunda influência, inspirando novas gerações de pensadores e fiéis.

O Papa Francisco recordou a figura de Teilhard em setembro de 2023, durante sua viagem à Mongólia, no vizinho deserto de Ordos, exatamente onde, cem anos antes, o jesuíta rezou sua famosa “Missa sobre o mundo”. Francisco pronunciou as palavras dessa oração e depois disse: “Esse padre, muitas vezes incompreendido, intuiu que ‘a Eucaristia é sempre celebrada, em certo sentido, no altar do mundo’ e é ‘o centro vital do universo, o centro transbordante de amor e de vida inesgotável’, mesmo em uma época como a nossa, de tensões e de guerras”. Dessa forma, Francisco quis comemorar e enaltecer a figura desse pensador cristão a quem o então Santo Ofício impôs um Monitum em 1962, mas que também foi citado por vários Pontífices ao longo do tempo.

Um aspecto particularmente significativo do pensamento de Teilhard, que Prats explora com grande sensibilidade, é seu profundo otimismo. Numa época em que o progresso é frequentemente associado a riscos e perigos, Teilhard nos convida a ver a evolução não apenas como uma fonte de conflito, mas também como uma oportunidade de crescer como espécie e como indivíduos. Seu otimismo não é ingênuo, mas está radicado em uma profunda confiança na capacidade do homem de colaborar com as forças criativas do universo.

Outra contribuição significativa de Teilhard é sua reflexão sobre o amor como uma força cósmica. Para Teilhard, o amor não é apenas um sentimento ou uma virtude moral, mas uma força fundamental que guia a evolução em direção a uma maior união e complexidade. Esse aspecto de seu pensamento, que Prats desenvolve com grande profundidade, oferece uma nova perspectiva sobre a natureza do amor e seu papel em nossa vida pessoal e coletiva.

O volume de Mercè Prats é uma contribuição importante não apenas para os estudiosos de Teilhard de Chardin, mas também para qualquer pessoa interessada em refletir sobre as grandes questões da existência. A capacidade da autora de tornar conceitos complexos acessíveis e de entrelaçar o pensamento de Teilhard com os desafios de nosso tempo faz deste livro uma leitura desafiadora, porém importante.

quinta-feira, 27 de março de 2025

Apagando a História: Como o Fascismo Funciona , com Jason Stanley


Jason Stanley, autor, filósofo americano e professor de Yale, se junta ao apresentador Chris Hedges neste episódio do The Chris Hedges Report para dar o contexto adequado ao que o fascismo significa e como o segundo mandato do governo Trump pode realmente significar a conclusão do estado fascista americano.

Resenha do Livro "Como funciona o fascismos"

quinta-feira, 20 de março de 2025

Dia Internacional da Felicidade - Porque é que o riso fugiu da escola? Por Eduardo Sá e Carlos Vidal


Uma escola amiga da criança não tem de ser uma escola boazinha. Pode ser exigente naquilo que espera dos alunos. E exigente em relação ao que lhes dá. Pode avaliar com verdade. E ensinar com paixão. Pode acolher a brincadeira. E falar de coisas sérias de forma divertida. E também pode ser amiga do riso.

Uma conversa que resulta de um podcast da Escola Amiga da Criança, com o apoio da LeYa Educação

terça-feira, 18 de março de 2025

Gentrificação: o problema de saúde pública que afeta a cidade do Porto


Em 2021, uma equipa de investigadores do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) propôs-se a estudar o impacto da gentrificação e da insegurança habitacional na saúde dos habitantes da cidade do Porto. Quatro anos depois, os resultados obtidos mostram que estes fenómenos têm consequências negativas claras na saúde dos portuenses, estando associados ao aumento da solidão, da depressão e até mesmo à deterioração da saúde física.

O projeto HUG: Os efeitos na saúde da gentrificação, da relocalização e da insegurança residencial nas cidades – liderado pela investigadora Ana Isabel Ribeiro, coordenadora do Laboratório Saúde e Território, da Unidade de Investigação em Epidemiologia do ISPUP e financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) – surgiu com o objetivo de estudar de que forma a gentrificação urbana, a insegurança habitacional e o deslocamento forçado afetam a saúde física e mental da população.

Um dos primeiros estudos desenvolvidos no âmbito do HUG, liderado pelo investigador José Pedro Silva, procurou estudar a relação entre gentrificação e saúde, no Porto, a partir daquilo que as pessoas que vivem na cidade pensam, dizem e mostram sobre esta realidade. Para isso, os investigadores recorreram ao método Photovoice, que consiste em pedir a um grupo de pessoas que tire fotografias sobre um tema importante para a sua comunidade e que discuta em conjunto o que essas fotografias querem dizer.

Neste caso, foram selecionados 16 participantes da coorte EPIPorto, de contextos sociais e demográficos distintos. Estes participantes aceitaram fotografar a cidade, procurando mostrar, através das suas fotografias, como os processos de gentrificação estão a mudar o Porto e, consequentemente, a vida e a saúde de quem habita a cidade.

A informação que estas pessoas forneceram através das suas fotografias e dos seus testemunhos foi objeto de uma análise intensiva por parte dos investigadores, que procuraram identificar, relacionar e agrupar tematicamente as situações descritas. Estas foram enquadradas em seis grandes temas, cada um deles associado a várias consequências para a saúde dos portuenses – algumas positivas, mas a maior parte delas negativas.

Um Porto cidade mais desigual e com menos saúde
Verificou-se, assim, que o aumento da população flutuante (como turistas ou estudantes de outras cidades e países) revitalizou a cidade e estimulou a economia, mas trouxe também mais stress, ruído e poluição e gerou incerteza sobre a capacidade de resposta dos serviços de saúde face ao aumento de pessoas na cidade.

A dificuldade de acesso à habitação, traduzida sobretudo por preços mais elevados, mas também por processos de desalojamento, deslocou residentes para outras zonas da cidade e para a sua periferia, enfraquecendo laços sociais e gerando consequências graves para a saúde e a qualidade de vida, sobretudo dos mais velhos.

A construção e reabilitação urbana melhoraram infraestruturas, mas aumentaram o ruído, a poluição, as dificuldades de mobilidade e o stress. As mudanças no comércio local reduziram o acesso a bens essenciais, afetando idosos e pessoas com menor mobilidade.

A perda do sentido de lugar, enquanto espaço geográfico com significado afetivo para os seus habitantes, causou alienação, mal-estar psicológico e, em alguns casos, um ressentimento potenciador de violência.

Finalmente, estas mudanças socioeconómicas aumentaram as desigualdades, impactando negativamente a saúde pública e, particularmente, a saúde das populações mais vulneráveis.

Os mais velhos são os que mais sofrem com a gentrificação
A evidência científica internacional e os resultados do já mencionado estudo Photovoice demonstram que os adultos mais velhos são mais vulneráveis aos impactos da gentrificação. Assim, para melhor entender as suas perspetivas sobre o impacto da gentrificação na saúde, foi realizado um novo estudo qualitativo, liderado pelos investigadores Cláudia Jardim Santos e José Pedro Silva.

A partir da análise das entrevistas realizadas, concluiu-se que o ambiente urbano foi amplamente transformado, com a renovação de edifícios e o aumento do número de estabelecimentos comerciais voltados para turistas, elevando o custo de vida e tornando o espaço urbano menos acessível e atrativo para os mais velhos.

O aumento da população flutuante gerou benefícios económicos, mas também trouxe mais ruído, poluição, stress e sérias dificuldades de mobilidade pedonal para este grupo demográfico.

A falta de habitação a preços acessíveis gerou deslocamentos forçados e, com isso, a separação de famílias e o aumento do tempo perdido em deslocações pedonais, afetando a saúde mental e social dos idosos e agravando as desigualdades.

Muitos relataram também sentimentos de desenraizamento e perda de suporte social, com casos de depressão e até mesmo relatos de morte precoce entre a população deslocada.

Por fim, a perda da coesão social foi realçada como uma consequência central da gentrificação, com a perda de redes comunitárias e o maior isolamento.

Más condições habitacionais comprometem o envelhecimento saudável
A gentrificação caminha lado a lado com a insegurança habitacional, um conceito que reflete a dificuldade em garantir uma habitação estável, acessível e com condições adequadas. Assim, através de um outro estudo quantitativo, coordenado por Cláudia Jardim Santos e que envolveu 600 participantes da coorte EPIPorto, procurou-se estabelecer uma relação entre fatores como as condições de habitação, a acessibilidade económica, a habitabilidade e segurança e a estabilidade residencial e os seus impactos em marcadores chave da saúde das pessoas mais velhas, tais como a solidão, a qualidade de vida, a função cognitiva, a perceção do envelhecimento saudável e a qualidade do sono.

O estudo revelou que condições habitacionais precárias, como a falta de aquecimento, infiltrações, humidade e iluminação insuficiente, são muito prevalentes e estão associadas a maiores níveis de solidão e a uma pior qualidade de vida entre adultos mais velhos.

Viver em áreas com elevado nível de ruído, poluição e criminalidade também contribui para o aumento da solidão e reduz a perceção de um envelhecimento saudável. Além disso, a ausência de instalações sanitárias adequadas e o deslocamento forçado comprometem a função cognitiva.

A insegurança habitacional, caracterizada por dificuldades financeiras, despejos e mudanças frequentes de residência, também deteriora a qualidade de vida, intensifica a solidão e está associada a uma pior função cognitiva.

Desempenho cognitivo das crianças piora a cada mudança de residência
Um outro estudo, que incluiu mais de 6.000 crianças da coorte Geração XXI, desenvolvido no âmbito da tese de mestrado em Saúde Pública do estudante Obinna Ezedei, investigou de que forma as mudanças frequentes de residência até aos 10 anos de idade afetam a saúde e o bem-estar infantil.

Os resultados sugerem que a instabilidade residencial está associada a um maior risco de vitimização por bullying e a comportamentos agressivos. Além disso, cada mudança de residência corresponde a uma redução significativa no desempenho cognitivo, especialmente no Índice de Velocidade de Processamento e no Quociente de Inteligência Verbal.

No entanto, alguns destes efeitos variam de acordo com o destino da mudança: crianças que se mudam para áreas com pior qualidade ambiental tendem a apresentar desfechos de saúde mais negativos. Por outro lado, a mudança para regiões com melhor qualidade ambiental está associada a indicadores de saúde mais favoráveis.

É, por isso, fundamental promover a estabilidade residencial para famílias com crianças pequenas e garantir que os ambientes onde vivem sejam verdadeiramente salutogénicos, ou seja, propícios à saúde e ao bem-estar.
Moradores forçados a deixar as suas casas revelam ansiedade, dificuldade em dormir e dizem sentir-se deprimidos

Uma das consequências mais severas da gentrificação é o deslocamento forçado da população, muitas vezes causado pelo aumento das rendas ou pela não renovação dos contratos de arrendamento. Neste contexto, foi levado a cabo um estudo sobre deslocamento direto – a remoção de um agregado familiar da sua casa, por motivos não controlados por ele e preenchendo as anteriores condições necessárias para ocupar o alojamento – no contexto da crise habitacional do Porto, recorrendo a uma amostra de 12 voluntários que, tendo vivido em casas arrendadas, se viram “obrigados” a sair.

O estudo, liderado por José Pedro Silva, revelou que a relocalização forçada tem impactos significativos na saúde física e mental, além de contribuir para a modificação de comportamentos de saúde.

A angústia e a incerteza causadas pela iminência do deslocamento afetam os indivíduos antes mesmo da relocalização, com sintomas de ansiedade e depressão a poderem manifestar-se desde o momento em que surge a ameaça de despejo, e mantêm-se ao longo de todo o processo.

Numa fase posterior, em que já se verificou a deslocação para um novo alojamento, são frequentes os sentimentos de tristeza, impotência e ressentimento, por vezes também associados a sintomas como ansiedade, dificuldade em dormir e sentir-se deprimido. Além disso, a mudança de residência, geralmente para áreas menos centrais ou até para outras localidades, leva a uma reconfiguração do espaço onde se desenrola o quotidiano, implicando deslocações maiores e mais frequentes e mudança de hábitos relevantes para a saúde, por exemplo, a prática de atividade física.

A mudança de residência tem também implicações no que diz respeito aos laços sociais e interações, porque provoca mudanças na vida social das pessoas deslocadas: as interações com algumas pessoas tornam-se menos espontâneas e mais raras, ou deixam mesmo de existir, levando à retração de redes sociais e de suporte. Além disso, as novas relações de vizinhança podem revelar-se mais conflituosas do que as anteriores.

Finalmente, o ambiente residencial também muda frequentemente, podendo, por vezes, prejudicar a saúde, em casos em que a mudança é feita para uma casa sem conforto térmico, com problemas de humidade ou exposta ao ruído.

Tudo isto acontece num contexto habitacional de elevada pressão – marcado pela falta de habitações disponíveis e pelos preços elevados – que diminui as opções para as pessoas que precisam de encontrar um novo sítio para morar.

Refletir soluções para uma cidade mais saudável
Os resultados do projeto HUG vão ser apresentados esta terça-feira, 18 de março, no ISPUP, e mostram claramente que a gentrificação e a insegurança habitacional têm um impacto negativo na saúde dos portuenses, especialmente nos grupos mais vulneráveis.

A equipa do projeto reforça que estas são questões de saúde pública e devem ser abordadas como tal. Os investigadores sublinham ainda a necessidade de adotar políticas eficazes que conciliem a transformação urbana com a justiça social, garantindo que o Porto permaneça uma cidade acessível e saudável para todos os seus habitantes.

A sessão de apresentação dos resultados do projeto HUG contará com a participação de cidadãos, jornalistas, ativistas, investigadores e outros agentes locais. O objetivo não é apenas partilhar as conclusões do estudo com a comunidade, mas sobretudo refletir e discutir soluções que possam promover a saúde e o bem-estar de toda a população.

segunda-feira, 17 de março de 2025

O vínculo amargo




Esta curta-metragem de animação, chamada "The Bitter Bond, foi lançada pela Born Free Foundation e denuncia a criação de leões em cativeiro na África do Sul. Porque existem reservas privadas onde são criados para que quem quiser e puder pagar possa ir e disparar.
Não há maior hipocrisia do que a do ser humano.

domingo, 16 de março de 2025

Cidadania


"Liberdade, igualdade, fraternidade, mutualismo, solidariedade: tudo isso é uma coisa linda. Mas quando nos impingem a cidadania, a coisa complica-se… O que é o cidadão? Para mim, não é só ter direitos e deveres: é ter que servir".
Gonçalo Ribeiro Telles

terça-feira, 11 de março de 2025

How tackling green corruption can help us get ahead in the race to net zero


What is “green” corruption and why does it matter?
Green corruption refers to corruption and other financial crimes and governance failures that harm the environment and hinder global efforts to combat climate change.

It’s the reason crimes such as illicit deforestation, mining and wildlife trade continue to be multimillion-dollar illegal industries making organised criminals rich at the expense of our planet and the livelihoods of local communities. Green corruption also diverts crucial investments intended for renewable energy and other climate-related projects.

Adapting to humanity’s changing energy needs in a just and sustainable manner are challenging enough. We cannot afford to let corruption undermine these generational challenges.
What are some key achievements of the programme so far?

We are proud that since its launch in 2018, the Green Corruption programme has contributed to significant strides in tackling corruption affecting the environment.

Our programme started with an enforcement focus: applying “follow the money” approaches to environmental crimes like illegal wildlife trade and illegal logging. In practice, that means mentoring and training law enforcement officers of national partner agencies to investigate financial transactions that fuel environmental crimes, including between criminal groups and corrupt facilitators. And ideally, to seize and confiscate illicit profits or assets used in the crimes.

That’s the only way to get beyond the low-level perpetrators – such as poachers – to the high-level facilitators and organised crime networks. And the only way to take the profit out of the crime, reducing the incentives to engage in it.

At the end of 2024, assets worth around CHF 29.6 million were being targeted in 56 cases directly supported by our advisors. We had quite a few “firsts” – like Uganda’s first ever indictment for tax evasion and money laundering against a wildlife trafficking syndicate, Malawi’s first ever corruption cases related to natural resource crimes, Peru’s confiscation of over CHF 3 million in assets related to forestry and gold trafficking, and Indonesia’s first ever conviction on money laundering in relation to an illegal logging case.

Behind the headlines lie many more positive steps towards changing mindsets and the priorities of law enforcement agencies to go after the finances of environmental criminals.

Our prevention work rapidly grew as we and our partners realised the chronic under-investment in building systems that strengthen resilience to corruption in the environmental sector.

Government agencies and state-owned enterprises in countries as diverse as Indonesia, Malawi, Ukraine and Bolivia have now begun to systematically assess and address corruption risks that are affecting their ability to carry out their important functions of protecting the environment and natural resources. Our prevention specialists supported these in applying our bespoke methodology of assessing and prioritising corruption risks and implementing targeted mitigation measures. We developed a customised internal controls maturity assessment tool to reflect the historic lack of investment in this space, which meant that mainstream assessment tools were insufficiently granular at the first stage of maturity to reflect nuances and chart paths to growth.

As result of our partnerships, mitigation measures have been institutionalised in many agencies – for example:
  1. in Malawi through the creation of Internal Integrity Committees in environmental agencies;
  2. in Ukraine through the empowerment of anti-corruption officers to participate in key decision-making processes;
  3. in Ecuador by reducing unsupervised discretion in environmental inspections;
  4. in Indonesia in the adoption of conflict of interest regulations in the management of timber sales; and
  5. in Peru through the automation and digitalisation of numerous permitting and licensing processes related to the wood value chain.
Also pleasing to see are the many collaborations and partnerships that have sprung from our work. In Latin America, for example, forestry officials in Peru, Bolivia and Ecuador are now collaborating on protecting the Amazon rainforest through corruption prevention.

Still, targeting and preventing corruption tends to be a lonely effort. So, we have established the Countering Environmental Corruption Practitioners Forum together with WWF, TRAFFIC and Transparency International as a support network, and it has now grown to over 800 members and four working groups. There are frequent meetings and collaborations between practitioners dedicated to tackling corruption and improving governance, and those specialised in environmental conservation or climate initiatives.

It’s a sign there’s much appetite and energy for action against green corruption!

Why is now the time to focus on the energy transition?
Whatever happens in these volatile times, one thing is certain: we’ll continue to see growing demands for energy transition and climate mitigation and adaptation.

The urgency of tackling the energy transition, and the rapid increase in investments from both the public and private sectors, leaves the door wide open to criminals and the corrupt seeking to profit at the expense of investors and donors – as well as the planet.

A clear example in this space is the growing geopolitical centrality of critical minerals and rare earths. The rapid rise in demand has been accompanied by particularly fragile governance structures, intense political and economic subsidies, and even warfare. Our experience shows that these are all breeding grounds for corruption. We are therefore prioritising efforts to analyse and mitigate corruption risks in this space in Bolivia, Indonesia and Ukraine.

Ensuring that the energy transition is safeguarded from corruption is essential for achieving net-zero goals. As outlined in our Working Paper on good governance and the just transition, corrupt practices can jeopardise renewable energy investments and hinder the development of clean energy infrastructure.

Rapidly emerging market-based solutions to stimulate responsible behaviour, such as carbon offsets, are also affected by weak governance systems and opportunities for corruption. The fast-evolving and highly technical nature of these activities only increases this risk.

Corruption risks similarly threaten the effectiveness of climate mitigation and adaptation efforts. If funds are embezzled, used fraudulently or diverted to benefit powerful elites, that’s bad for donors and investors. And it’s bad for local communities, many of which are also directly affected by climate change.

On the other hand, there are opportunities. Using corruption risk management tools and enhancing enforcement capabilities can help companies and governments to create thriving, profitable supply chains of critical minerals needed for renewable energy facilities, electric vehicles and the like.
What does this shift in priorities mean in practice?

Through our Green Corruption programme, we are adapting to this evolving landscape by sharpening our focus on transition minerals and the renewable energy sector.

We will continue our dual approach of prevention and enforcement, working closely with long-standing partners in Ukraine, Indonesia, Madagascar, Malawi, Uganda, Peru, Bolivia and Ecuador.

Some things you might see us doing in the next years:
  1. Strengthening transparency and anti-corruption measures in the extraction and trade of lithium, nickel, germanium and other minerals and rare earths essential for the energy transition.
  2. Customising financial investigation and asset recovery tools to the specifics of the energy transition.
  3. Working with governments, financial institutions and civil society to safeguard energy transition and climate mitigation funds from corruption, fraud and related crimes.

We will continue full force our ongoing engagement related to metals (gold in particular) and the forestry sector, which remain highly strategic.

In other areas, such as illegal wildlife trade, fisheries and waste, we will be more discerning, carefully assessing the potential of engagements prior to pursuing them.
What impact do we hope to achieve?

By applying our expertise to emerging climate and energy challenges, we want to contribute to measurable improvements in the energy transition, environmental conservation, climate change mitigation and equitable economic development.

Through these efforts, our Green Corruption programme will continue to play a vital role in ensuring that the green transition is not only sustainable but also just, transparent and a win-win for all: businesses, local communities and society at large – as well as our planet.

domingo, 9 de março de 2025

O Humanismo Económico: Uma Exploração do Pensamento de Amartya Sen


O pensamento de Amartya Sen representa uma rutura com o utilitarismo clássico. Enquanto a economia tradicional muitas vezes se foca na acumulação de bens, Sen argumenta que o desenvolvimento deve ser medido pela expansão das liberdades substantivas dos indivíduos.
1. O Conceito de Capability (Abordagem das Capacidades)
Para Sen, a pobreza não é apenas a falta de dinheiro; é a privação da liberdade de viver uma vida que se tem razões para valorizar. Ele distingue entre:
  1. Meios: bens primários, rendimento e recursos (o que a economia tradicional foca).
  2. Capacidades (Capabilities): o conjunto de alternativas que uma pessoa tem à sua disposição (o que a pessoa pode realmente ser ou fazer).
  3. Funcionamentos (Functionings): a concretização dessas capacidades (ser saudável, estar educado, participar na vida política).
2. A Crítica ao Utilitarismo e ao PIB
Sen defende que o PIB é um indicador insuficiente porque não capta a desigualdade na distribuição de oportunidades. Se uma sociedade é rica, mas apenas uma pequena elite tem acesso a educação e saúde de qualidade, o desenvolvimento é falho. Ele argumenta que o desenvolvimento é um processo de alargamento das liberdades humanas, e não apenas um crescimento económico quantitativo.

3. A Liberdade como Agência
O conceito de "agência" é central. Sen vê o ser humano como um agente ativo, capaz de transformar a sua realidade, e não apenas um recetor passivo de políticas públicas. A liberdade, aqui, não é apenas a "liberdade negativa" (ausência de coerção), mas a "liberdade positiva" (a capacidade real de agir).
Links Recomendados para Aprofundamento

Para explorar estas ideias de forma mais detalhada, recomendo as seguintes fontes:
The Amartya Sen Lectures (Harvard University): O portal oficial onde poderá encontrar artigos, discursos e uma vasta base de dados sobre o pensamento do autor.
Human Development Reports (UNDP): O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento utiliza o Capability Approach de Sen como base para o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
Stanford Encyclopedia of Philosophy: Capabilities Approach: Uma análise técnica e filosófica rigorosa sobre como as ideias de Sen se inserem na ética contemporânea.

Referência Bibliográfica Principal
Para uma leitura fundamental que consolida estes conceitos, esta obra é incontornável:

SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. Lisboa: Gradiva, 2010. (Título original: Development as Freedom, 1999).

Neste livro, Sen demonstra como a liberdade política, as instalações económicas, as oportunidades sociais, as garantias de transparência e a segurança protetora trabalham em conjunto para permitir o desenvolvimento humano.

quarta-feira, 5 de março de 2025

Portugal à deriva na tempestade


Os EUA nunca acreditaram, ao contrário da ignara arrogância de Bruxelas, que a máquina de guerra russa poderia ser derrotada no plano convencional. Como o secretário da Defesa L. Austin afirmou, logo em maio de 2022, o objetivo dos EUA era o de fazer “sangrar a Rússia”, enquanto Kiev tivesse capacidade para o fazer.
As grandes crises revelam os grandes líderes. Contudo, apenas quando os povos têm a sorte e a capacidade de os produzirem. A guerra da Ucrânia, que já entrou no seu quarto ano é, sem dúvida, a maior crise existencial de toda a história portuguesa, pois é a primeira vez que Portugal tem um governo que se deixou, com entusiástica estultícia, enrolar num confronto com a Rússia, totalmente contrário ao interesse nacional mais elementar, o salus populi suprema lex esto (seja a salvação do povo a lei suprema), imortalizado no De Legibus, de Cícero. Nem os fanáticos que queriam declarar guerra ao império britânico, na sequência do Ultimato de 1890, nem o furioso Afonso Costa, colocando Lisboa a ferro e fogo em maio de 1915 para enviar, por decisão unilateral, milhares de soldados analfabetos para a Flandres, se comparam à façanha do mesquinho consenso nacional que vai de António Costa a Rui Tavares, numa contemporânea demonstração da veracidade da tese de Unamuno que considerava ser Portugal um país de suicidas. O que continua em causa é a possibilidade de Portugal ser destruído num conflito total com a Rússia, o país com o mais poderoso e moderno arsenal nuclear do planeta.
Estamos a falar de acontecimentos vertiginosos, desde a chegada de Trump à Casa Branca. Vejamos, apenas, alguns das dimensões mais permanentes, neste quadro de incerta mudança.
Primeira. As negociações de paz, iniciadas por Trump com a Rússia, são boas notícias para os povos da Europa e do mundo. Afastam, pelo menos provisoriamente, o pior cenário, para onde estaríamos a rumar caso a linha de escalada bélica seguida por Biden tivesse prosseguido. Essas negociações, onde nem Zelensky nem a UE contam, revelam a justeza dos analistas, entre os quais me encontro desde sempre, que consideraram esta guerra como uma guerra de procuração (proxy war) dos EUA contra a Rússia, usando o território e o sangue ucranianos como instrumentos. Bruxelas protesta, porque Trump deixou cair o véu de Maia, a cortina ilusória, que fazia do apoio da UE à Ucrânia um assunto de direito internacional. Na verdade, tratava-se da prova de que os nossos governantes europeus não hesitam em sacrificar a qualidade de vida e a segurança dos seus povos, para servirem o império americano, e o seu desígnio persistente de fragmentar a Rússia.
O caso mais aberrante de autoflagelação europeia é o da Alemanha, quando o governo de Scholz tudo fez para manter a lealdade canina com Washington, imolando para isso a qualidade de vida e a saúde económica do seu próprio país.
Segunda. As perspetivas de “paz imperfeita”, mil vezes melhor do que a continuação do conflito, só foram possíveis, para além das mudanças em Washington, pela clara superioridade militar das forças convencionais russas, apesar da valentia das tropas ucranianas e das correntes inesgotáveis de material bélico recebido dos países da NATO ao longo destes três anos. Os EUA nunca acreditaram, ao contrário da ignara arrogância de Bruxelas, que a máquina de guerra russa poderia ser derrotada no plano convencional. Como o secretário da Defesa L. Austin afirmou, logo em maio de 2022, o objetivo dos EUA era o de fazer “sangrar a Rússia”, enquanto Kiev tivesse capacidade para o fazer. No cenário, altamente improvável, de as tropas de Kiev com o apoio de “voluntários” ocidentais se aproximarem de uma derrota das forças convencionais russas, Moscovo não se renderia. Faria o que a sua doutrina há décadas promulga: escalaria ao uso limitado do nuclear, para obrigar o inimigo a pensar duas vezes antes de prosseguir até à guerra total. Por outras palavras, a vitória convencional e limitada da Rússia, parece ter salvo os povos da Europa de serem vítimas da irresponsabilidade estratégica dos seus dirigentes.
Terceira. A paz que está a ser negociada só poderá ser duradoura se se traduzir num tratado que defina as regras do jogo no sistema internacional europeu, pretensão que a Rússia sempre perseguiu, mesmo desde os tempos de Gorbachev. Há, contudo, dois obstáculos no caminho. Por um lado, aquilo que prevalece no discurso europeu (com apoio da administração Trump) é a ideia de a UE fazer da corrida armamentista o novo objetivo estratégico (rasgando e substituindo o famoso Pacto Ecológico, onde a minha derradeira credulidade se esgotou). A Rússia jamais permitirá que uma nova guerra seja preparada à sua vista, sem nada fazer. Por outro lado, Trump está a jogar perigosamente não só com os seus aliados, mas também com o próprio aparelho de Estado federal e com alguns dos poderosos interesses nele instalados. Considero bastante provável que um atentado contra Trump, desta vez bem-sucedido, possa desencadear uma segunda guerra civil americana, cujas consequências são totalmente imprevisíveis.
Quarta. Só um milagre poderia impedir as forças centrífugas dentro da UE de prevalecer. Não sei quanto tempo ainda teremos antes de este edifício, cheio de fissuras, nos tombar sobre a cabeça. A zona Euro, totalmente dependente de Wall Street e da Reserva Federal, irá contribuir para que governos e povos fiquem paralisados à espera do pior. Curiosamente, os furiosos governos anti-russos do Leste da Europa, darão, provavelmente, lugar a novos governos favoráveis à colaboração com Moscovo. A UE será a grande vítima da guerra da Ucrânia. Os insensatos que em Bruxelas abraçaram uma política totalmente oposta às realidades históricas e geopolíticas da Europa, serão, pelo menos, testemunhas do imperdoável caos em que nos fizeram mergulhar. 
(In Jornal de Letras, 5.3.2025)

domingo, 2 de março de 2025

Mikhail Gorbatchev



A marca avermelhada na testa acompanhou-o desde o nascimento até à morte e tornou-se um dos rostos mais reconhecíveis do século XX. Para alguns, um acaso biológico; para outros, um sinal quase mítico. Mikhail Gorbatchev (1931 – 2022) nasceu numa aldeia perdida do Cáucaso do Norte, Privolnoye, e morreria como o homem que presidiu ao fim da União Soviética. Entre o nascimento e a morte, viveu uma existência improvável, moldada pela miséria, pela violência do Estado estalinista e por uma rara combinação de tenacidade e prudência.
Filho de camponeses pobres, Gorbatchev cresceu num país assolado pela fome, pelas purgas e pela guerra. Dois dos seus avós seriam presos durante o terror dos anos 30; um deles chegou a ser condenado à morte, escapando por uma reclassificação administrativa que lhe salvou a vida. A infância foi feita de carências extremas, trabalho precoce e imagens que nunca o abandonariam: animais abatidos para sobreviver, sementes comidas antes de serem lançadas à terra, aldeias dizimadas pela fome.
A Segunda Guerra Mundial acelerou-lhe a maturidade. Com os homens mobilizados para a frente, as crianças tornaram-se mão-de-obra e guardiãs das famílias. A ocupação alemã da região deixou-lhe memórias de cadáveres abandonados e da fragilidade absoluta da vida humana. Quando chegou a notícia da suposta morte do pai, seguida dias depois pela confirmação de que afinal sobrevivera, gravemente ferido, o jovem Mikhail aprendeu cedo a desconfiar tanto da tragédia definitiva como do alívio absoluto.
O regresso à escola foi um ponto de viragem. Sem livros nem cadernos, estudando nas margens de manuais técnicos, destacou-se pelo esforço e pela disciplina. O trabalho extenuante nas ceifeiras-debulhadoras ao lado do pai valeu-lhe, aos 17 anos, uma condecoração estatal rara para alguém da sua idade: a Ordem da Bandeira Vermelha do Trabalho. Esse reconhecimento abriu-lhe as portas da Universidade Estatal de Moscovo, onde se formou em Direito e iniciou a ascensão política.
Em Moscovo encontrou também Raisa Titarenko, estudante de Filosofia, companheira inseparável e figura decisiva na sua formação cultural e intelectual. O casamento, pouco comum na elite soviética pela sua cumplicidade e visibilidade pública, tornou-se uma das marcas do futuro líder. Gorbatchev nunca escondeu a influência de Raisa, nem recuperou verdadeiramente da sua morte, em 1999.
A carreira no Partido Comunista foi constante e cautelosa. Proveniente da província, conhecedor da vida rural e das disfunções do sistema, Gorbatchov chegou ao topo em 1985, quando assumiu o cargo de secretário-geral do PCUS. O país que herdou estava exausto: economia estagnada, sociedade asfixiada, império sustentado mais pela inércia do que pela convicção. A resposta foi dupla e histórica: Perestroika (reestruturação) e Glasnost (transparência), conceitos que rapidamente ultrapassaram as fronteiras soviéticas.
Ao permitir maior liberdade de expressão e ao recusar o uso da força para manter o controlo sobre a Europa de Leste, Gorbatchov desencadeou um processo irreversível. O Muro de Berlim caiu, os regimes satélites ruíram e, em 1991, a própria União Soviética dissolveu-se. Para o Ocidente, tornou-se o estadista que evitou uma guerra nuclear e abriu caminho ao fim da Guerra Fria. Para muitos russos, ficou associado ao colapso de um império e à humilhação económica dos anos seguintes.
A sua vida posterior foi paradoxal: venerado internacionalmente, marginalizado no seu próprio país. Participou em campanhas publicitárias, criou fundações, foi homenageado em palcos internacionais como o Royal Albert Hall, mas nunca recuperou verdadeira influência política. Permaneceu, até ao fim, uma figura solitária, fiel à convicção de que a mudança pacífica era preferível à violência redentora.
Mais do que o líder que acelerou o fim da Guerra Fria, Gorbatchov foi o produto extremo do século soviético: um homem forjado na fome, educado na disciplina e disposto a aceitar que a história não se deixa comandar por decretos. O seu legado continua a dividir opiniões. Mas a trajetória que o levou de uma aldeia sem livros aos salões do poder mundial permanece como uma das mais improváveis e humanas do nosso tempo.