sábado, 8 de outubro de 2022

Green Dune - fotobiorreactores


Do meu amigo Nuno Gomes
Hoje é um dia feliz para mim: foi submetida a minha primeira patente mundial e também foi aceite o artigo sobre o projecto GREEN TREAT, coordenado pelo CCMAR (Universidade do Algarve), no qual participámos com os nossos fotobiorreactores GREEN DUNE, numa revista de referência do universo Elsevier.
Mas a saga começou há 22 anos e na altura o motivo era o de reciclar água em aquários para manter o circuito o mais fechado possível.
O princípio é simples: quando há nutrientes na água as microalgas proliferam. Por vezes, crescem tanto que abafam tudo e ao morrerem consomem oxigénio que pode matar peixes e outra fauna aquática. É o fenómeno de eutrofização. Assim, o que os fotobiorreactores fazem é uma eutrofização controlada em nosso proveito, removendo nutrientes da água. Se a biomassa algal for regularmente removida não teremos o efeito pernicioso do seu apodrecimento.
Consegui com isso ter um recife de coral saudável e em pleno crescimento durante mais de um ano sem mudar água.
Na altura não se falava de escassez de água e hoje parece ser a ordem do dia. Em 2006 fazíamos a nossa primeira experiência em águas residuais, na ETAR de Rio Tinto, Gondomar. Conseguimos baixar alguns nutrientes, como o azoto e o fósforo, mas nada por aí além. Depois veio a aplicação do conceito aos lixiviados de aterros sanitários, com uma experiência na LIPOR, onde os fotobiorreactores iluminados nos trouxeram notícias de macumbas e de assentamentos extraterrestres, propagadas por vizinhos assustados. E outras experiências falhadas com reactores de leito fixo. E a maior experiência até hoje, no Hospital Pedro Hispano, onde removemos mais de 99% dos fármacos na água, incluindo antibióticos.
Todas essas experiências com reactores tubulares e leitos fixos nos ajudaram a perceber que o conceito era aplicável na reciclagem das águas residuais, mas deparámo-nos com os elevados custos e baixa produtividade do sistema. Resumindo, se quiséssemos aplicar este sistema numa ETAR ficaria incomportavelmente caro e ocuparia muita área. Daí a razão dos sistemas de microalgas ainda não passarem de pequenas produções de biomassa e nunca terem atingido o Santo Graal da captura de CO2, produção de biocombustíveis ou tratamento de águas.
Por isso, mudámos de rumo e inventámos o Green Dune. É basicamente uma caixa transparente mas os segredos não os direi aqui. Importa saber que é o Ikea dos fotobiorreactores, passe a publicidade, e virá com instruções de faça você mesmo. Uma primeira experiência na Quinta do Lago, a tal que deu origem ao artigo, permitiu concluir que é possível tratar águas residuais e reciclá-las. Agora, há novos projectos em andamento, alguns deles internacionais. Isto na BLUEMATER, a empresa que me acompanha desde há 15 anos e que foi fundada para esta e outras invenções.
De resto, sinto que subi uma montanha muito íngreme e preciso de descansar, que este país não é para inventores!

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