sábado, 28 de fevereiro de 2026

Rússia, Ucrânia e a Europa

Putin tem de compreender que não é a reencarnação de Alexandre Nevsky, nem o guardião mítico de uma fortaleza sitiada por inimigos medievais. A história não se repete sob a forma de epopeia defensiva permanente, e o século XXI não é um campo de batalha contra mongóis, suecos ou hordas napoleónicas. O terror nazi pertence ao passado histórico europeu, por mais traumático que tenha sido, e a Pátria russa não está hoje sob ameaça existencial.
Os russos têm de reconhecer que existe algo chamado direito internacional, construído precisamente para impedir que os traumas históricos se transformem em guerras preventivas. As fronteiras reconhecidas dos Estados não são sugestões geográficas: são garantias jurídicas da estabilidade global. A sua violação não é acto defensivo; é ruptura da ordem internacional.
Mas também os europeus têm responsabilidades. Devem compreender que os povos da grande mãe Rússia carregam traumas históricos profundos — invasões, cercos, devastação — que moldaram uma cultura estratégica de suspeita e defesa. Ignorar essa memória colectiva é um erro político. A estabilidade exige não apenas firmeza jurídica, mas também inteligência estratégica e capacidade de reduzir percepções de ameaça.
Nesse sentido, a Europa deve agir com prudência, evitando transformar a segurança do continente numa escalada permanente de blocos militares. Segurança não se constrói apenas com expansão de alianças, mas com arquitectura de confiança e previsibilidade.
Por fim, importa sublinhar que eventuais problemas internos da Ucrânia — incluindo fenómenos políticos extremistas — pertencem à esfera soberana dos ucranianos. Nenhum país pode invocar fragilidades internas de outro como pretexto para intervenção armada. A autodeterminação não é selectiva.
Seria tão simples — se a história não fosse permanentemente instrumentalizada, e se o medo deixasse de ser argumento.

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