Maria José Roxo, um dos nomes mais relevantes da Geografia portuguesa e especialista em catástrofes e riscos ambientais considera que o país não podia evitar as recentes tempestades, mas poderia minimizar os efeitos dos fenómenos meteorológicos extremos com outra forma de ocupar e “usar o território”.
“Não podíamos evitar porque aquilo que está a acontecer em Portugal, e em muitas outras áreas do planeta, como estamos a ver nos últimos dias, com a tempestade de neve nos Estados Unidos muitíssimo forte e com as chuvas muito intensas no Brasil, são fenómenos que têm a ver com algo que nós andamos há muitíssimo tempo a falar, que é o efeito do aquecimento global”, afirmou Maria José Roxo.
Em declarações à Lusa, a professora do departamento de Geografia e Planeamento Regional da Universidade Nova de Lisboa, analisou os efeitos das recentes depressões Kristin, Leonardo e Marta, que desde a madrugada de 28 de janeiro provocou pelo menos 18 mortos, centenas de feridos e desalojados, principalmente nas regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo.
A também investigadora do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais (CICS), da Nova, salientou que Portugal possui a particularidade de ter um clima de grande variabilidade, de características mediterrânicas e atlânticas, que “tem sido perturbada por este aquecimento global”, tornando as tempestades e as superfícies frontais cada vez mais intensas.
“Não podíamos evitar, mas podíamos minimizar. E aqui é que temos que nos concentrar. Este minimizar implicava o que há muito tempo se vem falando sobre a forma como se está a ocupar e a usar o território, e esse é que é o grave problema”, apontou.
O problema, sublinhou, está na maneira como se utilizam os recursos naturais, perturbando a dinâmica dos sistemas naturais, com a canalização dos cursos de água nas áreas urbanas e o uso do “recurso solo”, com a impermeabilização das áreas urbanas.
“Pensar cidade é pensar cidade com a natureza. As cidades têm que ser cidades esponjas, que absorvam água, viu-se o exemplo de Setúbal, com a bacia de retenção, e todos esses aspetos de mais verde nas cidades, mais espaços de absorção, menos impermeabilização”, defendeu, aludindo ao exemplo do parque urbano da cidade junto ao Sado que amorteceu as recentes cheias.
A especialista em desertificação, catástrofes e riscos ambientais, recursos naturais e geomorfologia, exemplificando com as caleiras nas cidades para colocar árvores, constatou que em muitos sítios “são mínimas, muitas vezes até impermeabilizadas”, tornando difícil compreender até como é que as “árvores sobrevivem”.
“Esta questão de como fazemos planeamento tem que ser equacionada devidamente, porque é necessário pensar de uma forma diferente” e de uma forma integrada, defendeu Maria José Roxo, acrescentando que não se pode só pensar nos solos, mas também nos cobertos vegetais e na água, três elementos que “têm que estar sempre associados”.
Na zona Centro, as secas, os incêndios, as temperaturas elevadas e, de repente, uma “bátega brutal de água que teve consequências brutais por incúria, por descuido, por não se ter pensado”, dá ideia de que as pessoas se “habituam a um território” e ocupa-se leitos de cheia e áreas de declive acentuado em geologias plásticas que vão dar deslizamentos de terras, notou.
“Portanto, há um utilizar o território de uma maneira e depois, de repente, vêm estas tempestades, vem esta água toda, que tem obviamente que utilizar os seus caminhos naturais e, óbvio, que as infraestruturas feitas pelos seres humanos são destruídas”, frisou.
Por isso, para o futuro, Maria José Roxo destacou que a legislação existente “está bem feita”, ao determinar para não construir em leitos de cheia, arribas e áreas declivosas, mas depois veem-se “tantas construções que não cumprem com a legislação”.
Por outro lado, prosseguiu, estas “tempestades têm uma parte positiva”, que é dar “o recurso água”, e devem-se construir bacias de retenção, limpar-se os sedimentos para as barragens acumularem mais água, tendo “cuidado acrescido sobre práticas e técnicas de conservação do solo na agricultura”.
“Isso é algo que os agricultores sabem, muitos deles já fazem, mas precisamos que se faça muito mais, porque é preciso conservar solo, porque se conservar solo, conservo água, conservo biodiversidade”, acrescentou.
A investigadora do CICS preconizou ainda que, para “todas as medidas de conservação das linhas de água, conservação e reflorestação das terras ardidas”, não houvesse “tanta burocracia que impedisse que as coisas se fizessem mais rápido”.
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