quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A verdadeira história da canção "Heroes" de Bowie e a interpretação de KinGeorg and Apoptygma Berzerk - Helter (David Bowie cover)


Helter significa Heróis em Norueguês 

Para escutar os 3 temas do álbum aqui

A canção Heroes foi escrita a dois, David Bowie e Brian Eno e originalmente cantada por David Bowie.

"Heroes": O Triunfo do efémero e a resistência do instante
A canção  foi escrita em 1977, durante o período em que Bowie vivia em Berlim Ocidental, imerso no que viria a ser conhecido como a sua “trilogia de Berlim” — Low, Heroes e Lodger — ao lado de Brian Eno e do produtor Tony Visconti. A cidade não era apenas o cenário: era o conceito. Dividida por um muro, carregada de tensão política, ideológica e emocional, Berlim oferecia a Bowie algo que ele procurava naquele momento da vida: distância do caos de Los Angeles, onde o vício em cocaína e o isolamento criativo quase o destruíram, e uma paisagem urbana que refletia a sua própria fragmentação interna.

O beijo sob o olhar da Stasi
A história por trás da canção é conhecida, mas nunca banal. Bowie escreveu “Heroes” inspirado num episódio real: ao observar pela janela do estúdio Hansa, localizado a poucos metros do Muro de Berlim, viu Tony Visconti a beijar uma mulher junto à barreira que separava o Leste do Oeste. A mulher era Antonia Maass, corista do álbum e, à época, envolvida com Visconti, apesar de ambos terem outros relacionamentos. O gesto, simples e arriscado, transformou-se no núcleo emocional da música. Não se tratava de amantes a desafiar apenas uma circunstância pessoal, mas de um ato de intimidade num dos espaços mais vigiados e simbólicos do planeta.

Engenharia de som como dramaturgia
Musicalmente, “Heroes” também nasce de uma experiência. Brian Eno construiu a paisagem sonora com sintetizadores e tratamentos electrónicos que expandiam a ambição do rock para além da sua forma tradicional. Visconti criou um sistema de microfones posicionados a diferentes distâncias da voz de Bowie, que se abriam progressivamente à medida que ele cantava mais alto, captando não apenas a performance, mas a própria arquitetura do estúdio.

O resultado é uma interpretação que cresce em intensidade, como se a canção literalmente ganhasse espaço físico à medida que Bowie se aproxima do clímax. É a técnica ao serviço da emoção.

A recusa do heroísmo grandioso
A letra, por sua vez, é deliberadamente simples. “We can be heroes, just for one day.” Não há promessa de eternidade, glória ou redenção total. Há apenas um instante. Um dia. Um gesto. Bowie nunca romantiza a vitória definitiva; ele oferece resistência temporária. E é exatamente essa recusa do heroísmo grandioso que torna a música tão poderosa. Num mundo de muros — físicos, políticos, afetivos —, ser herói por um dia já é um ato de coragem.

Do insucesso ao estatuto de Hino
Quando lançada, “Heroes” não foi um sucesso imediato nas tabelas de vendas. Alcançou posições modestas no Reino Unido e passou quase despercebida nos Estados Unidos. A crítica, entretanto, reconheceu desde cedo a sua singularidade, e a música começou a construir a sua reputação não pelo consumo rápido, mas pela sedimentação cultural. Com o tempo, tornou-se uma das faixas mais emblemáticas da carreira de Bowie, ao lado de “Space Oddity”, “Life on Mars?”, “Let’s Dance” e “Changes” — o quinteto que hoje define o coração do seu legado. 

Em 6 de junho de 1987, Bowie tocou "Heroes" no Reichstag, em Berlim Ocidental, o que foi considerado um catalisador para a queda do Muro.
 
Porquê agora?
Nada disto, porém, explica sozinho por que motivo “Heroes” ressoa tanto agora. Talvez porque vivamos novamente num mundo de muros, não apenas geopolíticos, mas simbólicos: polarização, guerras culturais, ansiedade coletiva, isolamento tecnológico. . Talvez porque, em tempos de exaustão moral, a ideia de um heroísmo possível, ainda que breve, soe mais honesta do que qualquer promessa de redenção total. “Heroes” não diz que o amor vence tudo. Diz que ele pode, por um instante, desafiar o impossível. E isso, para quem vive em 2026, não é pouco.

Um legado em datas
Após a morte de Bowie, em janeiro de 2016, o governo alemão agradeceu o músico por "ajudar a derrubar o Muro", acrescentando que "você está entre os Heróis"

Em 8 de janeiro de 2026, “Heroes” completou 49 anos desde o seu lançamento. Dois dias depois, a 10 de janeiro, assinalaram-se dez anos da morte de David Bowie. A coincidência de datas não é apenas cronológica; é simbólica. Bowie construiu uma carreira inteira baseada na transformação e na coragem de se reinventar.

Hoje, a canção é mais do que um clássico; é a prova de que, num tempo em que ser herói parece exigir façanhas impossíveis, às vezes tudo o que temos é um dia. Um gesto. Um beijo à beira de um muro. E, ainda assim, isso basta para mudar tudo.

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