quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A Senda da Altitude

Em tempos perigosos em que cobiça e desumanidade rimam com grosseira desmemória, os povos caminham para o abismo. A voracidade ultraliberal põe o nosso Mundo finito a ferro e fogo, ruína e saque. Nem as riquezas do fundo dos mares escapam agora aos novos ogres (os que chamam a essa rapina dos recursos vitais...«liberdade») ! Sempre a ânsia do lucro para poucos.
Nunca como hoje o sentido de leveza da vida residiu mais na busca da Altitude, individual e colectiva. A partilha, a fraternidade, o amor, a poesia, a arte, a busca de saberes, são o sal na estrada dos homens e mulheres sábios. 
Por isso de novo evoco a pintora Lourdes Castro (1930-2022), nome maior da arte portuguesa, a quem ouvi louvar a desprendida altitude que só se afirma no avançar do nosso caminhar na existência, sem egoísmo, acima de vãs vaidades, sempre na busca e partilhas de brisas essenciais: «Eu não gosto do nome 'velhice' e então inventei outra palavra, que é 'ALTitude' (do alemão 'alt', idade). Quando se entra em altitude é assim» ! 
Numa entrevista conduzida pelo jornalista João Pacheco (Expresso, 1-IX-2019), dizia a artista: «é bonito isto de as coisas na vida se irem transformando, irem gerando outras. Continua-se a respirar». Sim, é isso. Abraçar o Mundo de que fazemos parte ínfima, sentindo as suas misérias e os seus anseios. Com memória. Com utopia. Com altitude.

P.S. Um dos trabalhos da série Sombras Projectadas (Lourdes Castro com René Bértholo): os homens medem-se aos palmos na sua capacidade de solidariedade e leveza.

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