terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Nossa meta para 2022. Artigo de Bernie Sanders


"Pouco noticiado pela mídia, trabalhadores dos EUA estão enfrentando a ganância das grandes corporações, e eles estão vencendo", escreve Bernie Sanders, senador do Congresso norte-americano pelo estado de Vermont, em artigo originalmente no The Guardian e reproduzido por A Terra é Redonda, 10-01-22. A tradução é de Daniel Pavan.

Eis o artigo.

Enfrentamos uma pandemia arrasadora sem um fim no horizonte. Caminhamos a passos largos em direção a um regime oligárquico. Enquanto as desigualdades de renda e riqueza só aumentam, milhões de pessoas lutam para garantir as necessidades básicas de sua sobrevivência. Temos um sistema de saúde disfuncional, que não protege, ou protege de maneira insuficiente, mais de 84 milhões de pessoas, em que uma pessoa em cada quatro não consegue arcar com os custos de seus medicamentos prescritos. As mudanças climáticas estão arrasando o planeta enquanto o racismo sistêmico e outras formas de intolerância continuam a corroer o tecido de nossa sociedade. Temos um sistema político corrupto no qual o dinheiro das grandes corporações compra eleições e uma mídia mainstream que ignora em grande medida o sofrimento das pessoas comuns.

Em meio a tudo isso, existem partidários do Partido Republicano por todos os cantos do país trabalhando ininterruptamente para abalar a democracia, procurando dificultar o acesso de pessoas de cor, jovens e opositores ao voto nas próximas eleições.

Em outras palavras, os desafios que enfrentamos são enormes e é fácil entender por que tantos entram em depressão ou recorrem ao cinismo. São estados de espírito aos quais devemos, no entanto, resistir – não apenas para o nosso bem, mas para o bem de nossos filhos e das gerações futuras. Os riscos são grandes demais e o desespero não é uma opção. Devemos, portanto, nos levantar e contra-atacar.

Quanto a isso, tenho boas notícias. Por mais que não seja ativamente noticiado, trabalhadores de todo o país estão enfrentando com extraordinária coragem e determinação a ganância das grandes corporações, e eles estão vencendo.

Trabalhadores da John Deere entraram em greve pela primeira vez em mais de três décadas, garantiram os piquetes e, no fim, conquistaram um contrato com grandes aumentos salariais, um bônus de ratificação e maior cobertura de saúde. Enfermeiros grevistas, em Buffalo, conquistaram aumentos que elevaram o patamar salarial de todos os trabalhadores a ao menos 15 dólares por hora, além de conseguirem uma redução da escassez de funcionários. Eles não lutaram apenas por seus interesses, mas também por seus pacientes – e saíram vencedores.

Trabalhadores de saúde da Kaiser Permanente conquistaram uma grande vitória após rejeitarem um contrato que ofereceria menores salários e benefícios aos novos empregados. Trabalhadores da Nabisco, lutando contra horas extra forçadas, salários e pensões inadequados, um sistema de saúde de dois níveis e a externalização de cargos entraram em greve e venceram. Mais uma vez, assistimos a mais uma luta de trabalhadores que ia além dos próprios interesses defendendo também as próximas gerações.

Mais de 1400 trabalhadores da Kellogs, em Michigan, no Tennessee, na Pensilvânia e no Nebraska entraram em uma greve que durou meses e foi vencedora, lutando contra um plano que empurraria menores salários e benefícios aos novos trabalhadores. Empregados da Starbucks, no estado de Nova York montaram, pela primeira vez, uma loja do sindicato enquanto lutavam contra uma empresa gigante que fez praticamente tudo o que pôde para impedi-los.

Estes são apenas alguns dos esforços inspiradores que aconteceram no ano passado. Agora, deixe-me contar o que está acontecendo neste exato momento, enquanto trabalhadores continuam a confrontar alguns dos interesses empresariais mais poderosos do país.

Em Hutington, na Virgínia do Oeste, 450 trabalhadores metalúrgicos da empresa Special Metals engajaram-se em uma grandiosa greve por quase 100 dias. A Special Metals é uma empresa lucrativa que pertence à Berkshire Hathaway, de Warren Buffet. Buffet, é claro, é uma das pessoas mais ricas do mundo, com um patrimônio de mais de 109 bilhões de dólares.

Enquanto a Special Metals lucrava 1,5 bilhões de dólares, no ano passado, e o Sr. Buffet ficava 40 bilhões de dólares mais rico durante a pandemia, os executivos desta empresa ofereciam aos trabalhadores um contrato ultrajante que incluía um aumento salarial nulo para este ano e um aumento inaceitável de 1% para o próximo. Ao mesmo tempo, eles aumentavam os custos dos planos de saúde e diminuam o período de férias.

Infelizmente, a ganância empresarial que assistimos na Virgínia do Oeste não é uma aberração. Em Santa Fe Springs, na Califórnia, cerca de 100 trabalhadores da indústria de panificação, que fazem bolos para a Baskin Robbins, a Safeway e a Cold Stone Creamery, estão em greve contra a – apropriadamente nomeada – Rich Products Corporation, na fábrica da John Donaire Desserts. Cerca de 75% destes empregados são mulheres latinas frequentemente forçadas a trabalhar para além do expediente com pouco, ou nenhum, aviso prévio e, às vezes, com jornadas de quase 16 horas por dia.

Trata-se de uma empresa que teve um faturamento de 4 bilhões de dólares no ano passado. Durante a pandemia, Bob Rich, o dono majoritário da Rich Products, aumentou o seu patrimônio em mais de 2 bilhões de dólares. Enquanto os trabalhadores que ele emprega mal recebem acima do salário mínimo da Califórnia, o Sr. Rich acumula uma riqueza de mais de 7,5 bilhões de dólares. Entretanto, apesar de sua riqueza bilionária, a “melhor e última proposta” que o Sr. Rich pôs à mesa para seus trabalhadores foi um ofensivo aumento salarial de 1 dólar a hora. Isso é patético.

Entretanto, isso não é raro no mundo da ganância empresarial. Em Brookwood, no Alabama, cerca de 1.110 trabalhadores da Warrior Met Coal estão em greve desde abril. Assim como os panificadores na Califórnia e os metalúrgicos da Virgínia do Oeste, são pessoas que trabalharam até sete dias por semana, com jornadas diárias de quase 16 horas.

Em 2016, sob alta pressão para manter a empresa em funcionamento e garantir os empregos em sua comunidade, estes mineradores aceitaram um corte salarial de 6 dólares a hora – mais de 20% de sua média salarial – e uma redução substancial de seus planos de saúde e suas aposentadorias como parte de um acordo de reestruturação feito por fundos oportunistas como o Blackstone e o Apollo.

Enquanto isso, os executivos da Warrior Met e seus investidores de Wall Street escaparam como bandidos. Desde 2017, Warrior Met recompensou seus ricos acionistas em 1,4 bilhões de dólares enquanto distribuía bônus de quase 35.000 dólares para seus executivos. Contudo, assim que voltou a ser lucrativa, a Warrior Met ofereceu a seus funcionários um miserável aumento de 1,50 dólares a hora, distribuído por um período de 5 anos, e recusou-se a restaurar os benefícios de saúde e as aposentadorias que tinham sido retirados.

As lutas destes trabalhadores não são as únicas. Existem outros milhões de americanos exatamente na mesma posição – pessoas que têm de lutar com unhas e dentes contra os interesses das ricas e poderosas empresas para garantir salários decentes, planos de saúde, pensões e condições seguras de trabalho. E, sejamos claros, a luta de classes neste país está se intensificando. A ganância está em alta.

O que a história sempre nos ensina é que mudanças reais nunca acontecem de cima para baixo. Elas ocorrem sempre de baixo para cima. Essa é a história do movimento dos trabalhadores, do movimento em defesa dos direitos civis, do movimento das mulheres, do movimento em defesa do meio ambiente e do movimento em defesa dos direitos LGBT. Essa é a história de todos os esforços que transformaram nossa sociedade.

E essa é a luta que devemos intensificar hoje. Num tempo em que os demagogos querem nos dividir pela cor de nossa pele, por onde nascemos, por nossa religião ou orientação sexual, devemos fazer exatamente o oposto. Devemos unir as pessoas em torno de uma agenda progressista. Devemos educar, organizar e construir um movimento popular que ajude a criar o tipo de nação que sabemos que podemos ser. Uma nação baseada nos princípios da justiça e da compaixão, não da ganância e da oligarquia.

A maior arma de nossos oponentes não é apenas a sua riqueza e seu poder ilimitado. É a sua capacidade de criar uma cultura que nos faz sentir fracos e desesperançosos, e que reduz a força da solidariedade humana. E aqui está nossa meta de ano novo. Como milhares de trabalhadores que se levantaram e lutaram corajosamente em 2021, nós faremos o mesmo. Nenhum indivíduo nos salvará. Devemos nos levantar juntos.

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