sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

ECB executive warns green energy push will drive inflation higher

Isabel Schnabel says low-carbon economy ‘poses measurable upside risks’ to inflation projections over medium term

Policies to tackle climate change are likely to keep energy prices higher for longer and may force the European Central Bank to withdraw its stimulus more quickly than planned, one of its senior executives has warned. 
Isabel Schnabel, the ECB executive responsible for market operations, said the planned transition away from fossil fuels to a greener low-carbon economy “poses measurable upside risks to our baseline projection of inflation over the medium term”. 

After the economy rebounded from the impact of the coronavirus pandemic, a sharp surge in energy prices drove inflation to 5 per cent in December, a record high for the eurozone. But the ECB has forecast energy prices will fade and has committed to maintain its ultra-loose monetary policy for at least another year. 

However, the inflationary impact of the green energy transition could force the central bank to reconsider this position, Schnabel said, speaking via video link to the annual meeting of the American Finance Association on Saturday. 

“There are instances in which central banks will need to break with the prevailing consensus that monetary policy should look through rising energy prices so as to secure price stability over the medium term,” Schnabel said. 

Energy prices in the 19 countries that share the euro rose 26 per cent in December from a year earlier, close to a record high set the previous month. Natural gas prices hit record highs in the region last year, driving wholesale electricity prices to €196 per megawatt hour in November — nearly quadruple average pre-pandemic levels — the ECB executive said. 

“While in the past energy prices often fell as quickly as they rose, the need to step up the fight against climate change may imply that fossil fuel prices will now not only have to stay elevated, but even have to keep rising if we are to meet the goals of the Paris climate agreement,” Schnabel said. 

The German economics professor, who joined the ECB board two years ago, has emerged as the most vocal critic among its top executives of its vast bond-buying programme, which has acquired a €4.7tn portfolio of assets since it started seven years ago. 

The ECB last month responded to concern about rapidly rising prices by announcing a “step-by-step” reduction in its asset purchases from €90bn a month last year to €20bn a month by October. But other central banks — including the US Federal Reserve and Bank of England — are tightening policy more quickly and critics say the ECB should do the same. 

Schnabel outlined “two scenarios where monetary policy would need to change course”. One is if persistently elevated energy prices caused consumers to expect continued high levels of inflation and created a 1970s style wage-price spiral. But she said “so far” wages and union demands “remain comparatively moderate”. 

The second scenario is if policies to tackle climate change, such as a carbon tax and measures to compensate poorer households for higher energy costs, turn out to increase inflationary pressures — as recent studies suggest is already happening — she said. 

Philip Lane, the ECB’s chief economist, seems to disagree. He told Irish broadcaster RTE on Friday that while rising energy prices were “a major concern”, there was “less upside this year” and he was confident “supply will shift, pressures should ease in the aggregate this year”.  

Like most central banks, the ECB has been surprised by the persistence of upward pressure on prices. Last month it sharply raised its eurozone inflation forecast for this year to 3.2 per, while predicting it would drop back below its 2 per cent target next year. 

But Schnabel said this assumption was “derived from futures curves” showing that energy prices would not contribute to overall inflation in the next two years, adding that “these estimates could be conservative”. If oil prices stayed at November 2021 levels, she said it would be enough for the ECB to hit its inflation target in 2024.  

Gráficos e fonte: FT

Mais de 100 milionários pedem impostos sobre a riqueza

Um grupo de mais de 100 milionários de nove países assinou uma carta aberta para que os Estados apliquem impostos sobre a riqueza de forma a reduzir a desigualdade e diminuir a pobreza.


Aumentar os impostos sobre a riqueza dos mais ricos para arrecadar receitas para reduzir a pobreza e diminuir as desigualdades. É esta a solução sugerida por mais de 100 milionários de nove países diferentes que publicaram esta quarta-feira uma carta aberta direcionada a Governos e líderes empresariais, de acordo com um comunicado da Oxfam. O objetivo é influenciar as discussões de Davos, cuja edição online decorre até 21 de janeiro.

Estes milionários juntam-se assim a outros pedidos nos últimos anos por parte de algumas das pessoas mais ricas do mundo para que os Estados tributem mais a riqueza, principalmente na ressaca do impacto da crise pandémica, um período em que os dez homens mais ricos mais do que duplicaram as suas fortunas para um total de 1,5 biliões de dólares. Segundo a Oxfam, os 2.660 bilionários que existem no mundo têm um nível de riqueza equivalente ao PIB anual chinês.

De acordo com a análise feita pela Oxfam em conjunto com a Fight Inequality Alliance, o Institute for Policy Studies e os the Patriotic Millionaires, um imposto sobre a riqueza — à semelhança do que era proposto pela senadora Elizabeth Warren nas primárias do Partido Democrata em 2020 — de 2% para os milionários e de 5% para os bilionários iria gerar receitas de 2,52 biliões de euros por ano.

Tal receita poderia ser suficiente para tirar da pobreza 2,3 mil milhões de pessoas, produzir vacinas contra a Covid-19 suficientes para todo o mundo e prestar cuidados de saúde universais e proteção social para os cidadãos dos países de baixo e baixo/médio rendimento (cerca de 3,6 mil milhões de pessoas).

“Tributem-nos a nós, os ricos, e tributem-nos já“, escrevem os signatários desta carta onde se argumenta que o mundo passou por um período de grande sofrimento nos últimos dois anos e, ao mesmo tempo, os mais ricos viram a sua riqueza aumentar sem pagar a sua quota justa de impostos.

Se os políticos e os CEO continuarem a ignorar esta “solução simples e eficaz”, os cidadãos em todo o mundo “continuarão a ver a sua alegada dedicação à resolução dos problemas do mundo como pouco mais do que uma performance”, acrescentam. Entre os signatários estão milionários e bilionários dos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha.

“Como milionários, sabemos que o atual sistema fiscal não é justo“, argumentam na carta. “Apenas alguns de nós podem dizer honestamente que pagam a sua quota justa de impostos”, acrescentam. Para os signatários “a verdade é que Davos não merece a confiança do mundo neste momento”, apontando o dedo ao “pequeno valor tangível” que foi produzido pelo encontro. “A história pinta um quadro particularmente sombrio sobre o desfecho de sociedades extremamente desiguais“, alertam.

Ler mais:

Porque é que os salários têm subido tão pouco em Portugal?

É uma das perguntas mais repetidas nos debates. Embora a direita o atribua aos impostos e contribuições pagos pelas empresas, Portugal fica abaixo da média da UE nesse aspeto. Há outros fatores que o explicam.
O economista Vicente Ferreira descreve ao Esquerda.net alguns dos factores que explicam a relativa estagnação salarial do país desde o início do século. Apesar de a direita atribuir as causas desta estagnação à carga fiscal e contributiva, a realidade é que Portugal está abaixo da média da União Europeia neste aspeto. E há outros fatores que explicam o problema.

O primeiro fator é o declínio da organização coletiva no trabalho: a percentagem de trabalhadores sindicalizados caiu de 60,8% em 1978 para apenas 15,3% em 2016. O enfraquecimento dos sindicatos tem-se traduzido em menos poder negocial perante os patrões.


O segundo fator é a desregulação laboral e a precarização do trabalho. Portugal já é um dos países da UE com maior peso dos contratos precários e os efeitos têm-se feito sentir nos salários. Quem o reconhece é a própria Comissão Europeia, num estudo publicado em 2015.



Em Portugal, a fração do rendimento total que é recebida pelo trabalho tem vindo a cair desde a adesão ao Euro, com uma ligeira inversão durante o período da Geringonça. Como é que se explica a oposição do PS às propostas da esquerda para reverter a desregulação laboral?



É que a evidência empírica aponta para a existência de uma relação entre a desregulação laboral e a redução da fatia do bolo que cabe aos trabalhadores nas economias avançadas. Foi isso que foi identificado por três investigadores do FMI, que não é propriamente progressista.



É verdade que Portugal tem baixa produtividade, porque depende de setores de baixo valor acrescentado (turismo, restauração ou imobiliário). Esse problema resulta de o Estado ter abdicado da política industrial e deixado o desenvolvimento nas mãos do mercado.

Mas isso não chega para explicar a estagnação dos salários, que não têm sequer acompanhado a produtividade, o que beneficia empresas que vivem de salários baixos em vez de investir e inovar. Sobretudo porque o Governo tem poder de intervir nos fatores que têm travado os aumentos salariais.

Apagão não impediu debate entre partidos sem assento no Parlamento. Discussão marcada pela gestão da pandemia — e por teses negacionistas

Um problema com a energia interrompeu hoje durante minutos o debate dos 11 partidos sem assento parlamentar que decorre na RTP, quando cerca de metade dos participantes tinha apresentado os seus argumentos para chegarem à Assembleia da República. O momento ocorreu justamente quando se discutia a crise energética. A gestão pelo Governo da pandemia da covid-19 e as restrições foi um dos temas a dominar a noite, assunto que foi apelidado por um dos candidatos de “elefante na sala”.



Élvio Sousa, do Juntos Pelo Povo (JPP), falava do quanto é fundamental estar presente na Assembleia da República, alegando que “os preços estão naturalmente a subir, não só a inflação, mas do também imposto sombra que caiu sobre os portugueses, e sobre as famílias, e sobretudo sobre os que menos ganham”, quando a quebra de energia interrompeu o debate, entretanto retomado.

“As empresas deparam-se com os preços da energia, mas estamos em janeiro e tivemos os preços acrescidos, não só da energia, mas dos combustíveis, na alimentação e no acesso à saúde”, disse.

Antes do “corte”, neste que é o último debate televisivo que opõe os candidatos às eleições legislativas de 30 de janeiro, desta vez com os 11 partidos sem assento parlamentar, Jorge Nuno Sá (Aliança, ex-PSD e antigo líder da JSD), assumiu-se como o “coração da direita” e garantiu que o seu partido “veio para ficar”.

Para Maria Cidália Guerreiro, do PCTP/MRPP, que obteve 35 mil votos nas legislativas de 2019, o Parlamento “eclodiu-se” e “precisa de se reconfigurar”.

Sobre novas alianças, lembrou os partidos que “criaram a ilusão de que podiam resolver o problema”, numa referência ao PCP e ao BE, que “apoiaram o Governo, votaram os orçamentos e, ao fim de seis anos, perceberam que a geringonça se desfez”.

Vitorino Silva (Reagir Incluir Reciclar – RIR), que obteve 35 mil votos em 2019, começou por afirmar que, em Portugal, “não há partidos grandes”, pois caso contrário não existiria uma abstenção de 50%.

E sobre as sondagens menos simpáticas para o RIR, afirmou que no dia 30, dia das eleições, estas “vão ter de pedir desculpas”.

José Pinto Coelho, do partido Ergue-te, que em 2019 obteve 17.000 votos, referiu que o seu é “o único partido contra a fraude do sistema”.

Por seu lado, Pedro Soares Pimenta (Partido da Terra – MPT), assumiu-se como o único com uma “agenda política verdadeiramente ecologista para Portugal”.

“Não somos apêndices de ninguém. Não somos radicalistas”, disse, alegando que “a ecologia não pode ser de modas”.

Da parte do Nós, Cidadãos!, Joaquim Rocha Afonso afirmou que “há quatro blocos à volta dos quais giram os 18,2 mil milhões que fogem por ano - cerca de sete vezes mais que o orçamento da saúde”.

“Temos o governo, os chefes das empresas oligárquicas que mandam no nosso país, as grandes sociedades de advogados e os senhores deputados”, disse.

“Se nós conseguirmos eleger deputados que sejam independentes, que não estejam com qualquer ligação partidária, vamos conseguir quebrar este elo”, defendeu.

Bruno Fialho, da Alternativa Democrática Nacional (ADN), apresentou-se no debate por via online, por se ter recusado a fazer o teste à covid-19.

“Não preciso de fazer testes para entrar nos transportes públicos, mas para ir ao estúdio da RTP”, disse.
Gestão da pandemia foi o “elefante na sala” alvo de críticas de partidos sem assento

Foi justamente o candidato da Alternativa Democrática Nacional a apontar que “durante dois anos apenas se falou” deste tema no país e que chegadas as eleições “ninguém fala do elefante na sala” — servindo-se de um elefante de peluche que prometeu manter a seu lado.

Bruno Fialho criticou os critérios utilizados para se realizar testes à covid-19 de forma a ter acesso a determinados locais, entre outras restrições ainda impostas e anunciou que se fosse Governo a sua primeira medida seria “declarar o fim da pandemia”. A sua intervenção foi marcada pela citação de vários valores já desmentidos — como o de que a covid-19 só terá causado oficialmente 152 mortes entre janeiro de 2020 e abril de 2021, o que só remete para um número reduzido de certificados de óbito —, valendo isso o repúdio do moderador, o jornalista Carlos Daniel.

Para Maria Cidália Guerreiro, do PCTP/MRPP, a pandemia da covid-19 foi “utilizada para introduzir medida repressivas, intimidatórias, e ao mesmo tempo de confinamento do país inteiro”, considerando que a pandemia “foi mal gerida, não houve rigor, organização, planeamento, não houve o mínimo de disciplina”.

Já Vitorino Silva, presidente do partido Reagir Incluir Reciclar (RIR), questionou se houve restrições a mais ou não, respondeu apenas que “as pessoas decidiram em função do tempo”, acreditando que “não quiseram prejudicar Portugal e decidiram naquele tempo, só que o tempo vai mudando”.

Por seu turno, o presidente do 'Ergue-te', José Pinto Coelho, reconheceu a existência do vírus da covid-19 mas foi bastante crítico das restrições impostas, que na sua opinião são “loucas e insanas” e "destroem relações pessoais" ou o “crescimento natural das crianças”, negando também o impacto na saúde pública da pandemia, o que considerou ser uma fraude.

Pedro Soares Pimenta, do Partido da Terra (MPT), criticou a gestão da pandemia, defendeu que “teve que vir um militar meter ordem na casa” – numa referência ao almirante Gouveia e Melo na coordenação da ‘task force’ da vacinação – e apelou a uma “gestão séria do SNS” e também ao “respeito” pelos milhares de portugueses que morreram devido à covid-19 e suas famílias.

Élvio Sousa, do Juntos Pelo Povo (JPP), considerou que “a saúde deve ser a causa de todas as causas” e que “nenhum Governo tinha um manual de sobrevivência, de funcionamento para uma pandemia deste género”, aditando que o partido não tem nenhuma “muralha ideológica com a contratualização com o privado desde que seja auditado e fiscalizado”.

O presidente do Partido Trabalhista Português (PTP), Amândio Madaleno, considerou que “em determinados casos só os organismos do Estado conseguem garantir a saúde e em boa qualidade mas o problema se deve ser estatal ou privado é uma falsa questão” porque “o que interessa” é saber se estão a ser dados meios aos profissionais de saúde, apontando para uma “falta de investimento”.

Pelo ‘Nós, Cidadãos!’, Joaquim Rocha Afonso apontou que no início da gestão da pandemia “toda a gente ficou de cabeça perdida e foi navegação à vista”, também elogiou Gouveia e Melo mas considerou que “não houve planeamento, qualquer tipo de estruturação ou o mínimo de organização quer política, quer operacional, quer técnica”.

Renata Cambra, porta-voz do Movimento Alternativa Socialista (MAS), defendeu que “é preciso mais investimento na saúde” e que esse dinheiro está “nos roubos que são feitos pelos grandes empresários e pelas administrações de bancos”, considerando também que a gestão da pandemia foi “confusa” e andou “atrás do prejuízo”.

Tiago Matos Gomes, presidente do Volt Portugal (VP), rejeitou fazer “politiquice” ou “política baixa” com a saúde, considerando que o Governo português deu a resposta “possível” e que todo o mundo foi apanhado de surpresa com a pandemia.

O partido federalista europeu salientou ainda o papel da União Europeia na compra de vacinas “em larga escala”.

Também na área da saúde, o presidente do Aliança, Jorge Nuno Sá, defendeu que “evidentemente há um pilar fundamental da garantia da saúde por parte do Estado”, mas criticou o “capricho ideológico de manter apenas o público”, advogando que “o setor privado e social” na saúde “não têm de ser supletivos, podem ser um complemento”.

Mais à frente no debate, o dirigente do Aliança manifestou-se contra mais “aventuras românticas do Estado como a TAP” e entre as medidas prioritárias dos partidos foi defendida a "recuperação da soberania económica e financeira do país" pelo PCTP/MRPP, "aliviar os portugueses da carga de impostos" pelo RIR ou ainda "mais atenção à diáspora" pelo MPT.

Entrevista Prof. Paulo de Morais

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Cientistas dizem não existir “desastres naturais”



Num artigo publicado na Nature, um grupo de cientistas alega que não existem “desastres naturais”, mas sim desastres que resultam do papel do homem na sociedade e nos ecossistemas.

Perigos como as cheias, as ondas de calor e as secas, são mencionados como um desastre e como um acontecimento natural, que resulta da natureza e do clima, no entanto, para os especialistas Emmanuel Raju, Emily Boyd e Friederike Otto, essa não é a realidade. Em primeiro lugar, está o facto da sua intensidade e probabilidade terem aumentado devido à ação humana, com as alterações climáticas. Em segundo lugar, são vistos como desastres devido à vulnerabilidade humana, que muitas vezes é construída pelas estruturas sociais e políticas. É exemplo disso a má gestão de urbanização, infraestruturas inadequadas ou a questão da marginalização. Fatores como estes têm um impacto direto na exposição ao risco de desastres.

“Culpar a natureza ou o clima pelos desastres desvia a responsabilidade. É em grande parte a influência humana que produz vulnerabilidade. Apontar o dedo para causas naturais cria uma narrativa de crise politicamente conveniente que é usada para justificar leis e políticas reativas de desastres. Por exemplo, é mais fácil para os governos municipais culpar a natureza em vez de abordar a vulnerabilidade social e física causada pelo homem”, explicam os autores na publicação.

Para que haja uma mudança, é necessário mudar esta perspetiva, sugerem. A avaliação dos perigos a uma escala temporal e espacial, e de locais que estejam a ser impactados pelas alterações climáticas, são soluções úteis para a resolução do problema. “Devemos reconhecer os componentes humanos de vulnerabilidade e perigo e enfatizar a ação humana para reduzir proativamente os impactos dos desastres.”

Esta Economia Mata


A crítica e a denúncia do Papa Francisco contra o capitalismo e a favor dos agricultores e do mundo rural

«Vejo que estão aqui dezenas de camponeses e camponesas e quero felicitar-me com eles porque guardam a terra, cultivam-na e fazem-na em comunidade. Preocupa-me o desenraizamento de tantos irmãos camponeses que sofrem por este motivo e não por guerras ou desastres naturais. A monopolização de terras, a desflorestação, a apropriação da água, os pesticidas inadequados são alguns dos males que arrancam o homem da sua terra natal. Esta dolorosa separação não é só física, mas também existencial e espiritual, porque existe uma relação com a terra que está pôr a comunidade rural e o seu peculiar estilo de vida em decadência evidente até em risco de extinção»
Papa Francisco, in «Esta Economia Mata» ( página 130)

Legislativas 2022: PAN afirma-se como “único” partido a defender mundo rural e critica CAP


A porta-voz do PAN considerou hoje que o seu partido é o “único” a defender a “agricultura e o mundo rural” e acusou a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) de estar ao lado dos “grandes grupos económicos”.

“A CAP ataca o único partido que tem defendido verdadeiramente a agricultura e o mundo rural”, afirmou Inês Sousa Real, junto à Base Aérea n.º 6, no Montijo, distrito de Setúbal.

A dirigente do Pessoas-Animais-Natureza (PAN) foi questionada à margem de uma ação de campanha contra a construção do Aeroporto do Montijo, sobre o apelo da CAP para a rejeição ao voto no PS e noutros partidos que admitam coligar-se com o PAN para formar governo, na sequência das eleições legislativas de 30 de janeiro.

“A CAP, mais uma vez, vem defender os grandes interesses económicos, seja o ‘lobby’ da tauromaquia, seja as empresas que estão a explorar de forma intensiva e superintensiva o nosso território”, acusou.

Para a porta-voz do PAN, a confederação está “ao lado de tudo, menos dos pequenos e médios agricultores”, pois estes “têm atravessado por tantas dificuldades e têm sido sistematicamente esquecidos” pelo Ministério da Agricultura.

Os pequenos e médios agricultores “sabem que contam com o PAN para defender uma nova era na agricultura, uma era responsável e sustentável”, sustentou, defendendo que “é preciso apoiar” os homens da terra “na gestão dos ‘habitats’ e dos ecossistemas”.

A dirigente do PAN argumentou que “reduzir o mundo rural” aos setores da tauromaquia e da caça “é insultuoso para todos” os pequenos agricultores e para os que “têm boas práticas agrícolas”.

Sublinhando que o seu partido continua a ser alvo deste “tipo de ataques”, por “afrontar interesses” dos grandes grupos económicos, Inês Sousa Real realçou que o apelo da CAP “só demonstra que o PAN está no caminho certo”.

“Estas acusações só nos dão mais destaque”, insistiu, sustentando que a CAP “não tem capacidade para representar os pequenos agricultores”, uma vez que quem os representa “tem que ter a consciência do que é o maior desafio” do planeta.

A líder do PAN avisou que o partido que estiver em condições de formar Governo, após as legislativas, terá que “estar alinhado com os valores do século XXI” para ganhar o seu apoio.

Instada a comentar declarações de Manuel Alegre, que recusou um governo PS com apoio parlamentar do PAN, Sousa Real considerou que o histórico socialista “tem que se atualizar”.

A líder do Pessoas-Animais-Natureza aconselhou ainda Manuel Alegre a “conformar-se com o salto geracional que existe em termos de sensibilidade para com todas as formas de vida e para com o planeta”.

Sobre as críticas ao PAN vindos de outros partidos, Inês Sousa Real frisou que “estes ataques só revelam” que os seus autores se sentem “ameaçados com uma força política emergente e uma força política que dá voz às gerações presentes e futuras”.

Os políticos preocupam-se com as questões ambientais? A análise aos programas dos principais partidos no Ecosofia X

Qual o peso do ambiente e da emergência climática nos programas dos principais partidos políticos? Será que o paradigma mudou e a sustentabilidade é uma das preocupações chave?


Estamos em tempo de campanha eleitoral e Sofia Guedes Vaz e Cristina Gouveia leram os programas eleitorais de cada partido à procura da resposta a esta questão: qual o peso do ambiente e da emergência climática nos programas? Será que o paradigma mudou e a sustentabilidade é uma das preocupações chave? Carla Castelo, vereadora da Câmara Municipal de Oeiras pela coligação Evoluir Oeiras, esteve em estúdio para debater esta questão. Ouça aqui mais um episódio do Ecosofia X, o podcast de sustentabilidade e ética:                                                 

Ecosofia X é um podcast de sustentabilidade e ética guiado por Cristina Gouveia – engenheira do ambiente com a mania que sabe muito de inovação – e Sofia Guedes Vaz – engenheira do ambiente com a mania que é filósofa. Episódios quinzenais que partem do conceito de ‘Ecosofia’, desenvolvido pelo filósofo norueguês Arne Naess, para falar de harmonia ecológica. Este podcast é uma parceria do Expresso com a Sociedade Ponto Verde. Aqui encontra outros episódios:                                               

Olhar o futuro, por Helena Freitas

Dentro de dias teremos um ato eleitoral importante, mas ainda muito condicionado pela pandemia. Esperemos que sejam, entretanto, garantidas as condições de segurança e de confiança indispensáveis para que todos possam votar. Mas este é também um momento em que, no país e no mundo, se começa a antecipar a alteração do rumo da pandemia e se percebe a urgência de uma intervenção da comunidade internacional em prol de uma maior equidade. Uma maior equidade em saúde, em particular, significará cumprir o objetivo de vacinar 70% do mundo até meados de 2022, através da doação de vacinas a países com menos recursos, e do aumento da produção por via da transferência de tecnologia e da renúncia às disposições relativas à propriedade intelectual sobre as patentes. A par da vacinação, continuaremos a aplicar medidas de saúde e medidas sociais, incluindo o uso de máscaras e o distanciamento social.

Ao nível global, teremos que ser capazes de trabalhar em conjunto no sentido da construção de um acordo global vinculativo, capaz de garantir a governação, o financiamento e os meios para prevenir e responder às próximas pandemias e assim proteger as futuras gerações. Acima de tudo, teremos que assegurar a saúde para todos, investindo numa cobertura universal, e nos cuidados de saúde primários. Esta tendência universal contagiará desejavelmente as políticas públicas em geral, no sentido de responder de forma mais célere, mais colaborativa e mais justa aos grandes problemas que ameaçam o mundo.

A pandemia reforçou a confiança nos serviços públicos e na importância de uma esfera de decisão pública para a definição e promoção de uma agenda impulsionadora das mudanças essenciais para o bem comum. Temos que repensar e preparar melhor as instituições públicas; um setor público capaz e diligente fomentará as políticas necessárias ao enquadramento e orientação dos nichos prioritários de atuação dos mercados, definindo objetivos e metas claras para as novas indústrias e tecnologias, mas também melhores parcerias com as empresas. As políticas públicas são importantes para garantir a
responsabilidade democrática, o respeito pelos direitos humanos e a salvaguarda dos interesses dos grupos vulneráveis na sociedade.

O tempo que vivemos é muito conturbado e inseguro, apelando à maturidade e ao compromisso político. Portugal precisa de aproveitar as atuais oportunidades de investimento público e privado para reativar a economia e conseguir afirmar uma agenda política de combate às desigualdades e à assimetria territorial, de forma decisiva e consistente.

O país tem uma grande diversidade de territórios e cada território tem as suas dinâmicas de desenvolvimento, todas ameaçadas pela difícil condição demográfica, e sempre associadas à qualificação dos portugueses. Ao estado compete assegurar um acesso justo a infraestruturas e serviços, e num mundo global, na sociedade do conhecimento, o acesso à educação é decisivo para as oportunidades de desenvolvimento das regiões e dos municípios. São várias as teorias de crescimento e desenvolvimento endógeno, sendo que quase todas entendem o capital humano, o conhecimento e o progresso tecnológico como suas alavancas. Combater a assimetria territorial passa necessariamente pela inversão possível das tendências demográficas e pelo investimento inteligente e criterioso, articulado com a fixação e bem-estar das comunidades, a formação do capital humano, e um desenvolvimento harmonioso, inclusivo e sustentável.