terça-feira, 5 de julho de 2022

Das pedras, agrofloresta!

Em Busca da Fertilidade Perdida


Para a compreensão dos desafios associados aos sistemas de cultivo ‘tradicionais’, importa assumir a dinâmica estabelecida entre a fertilidade e a restituição de nutrientes no solo ao longo do tempo histórico.

Na análise da paisagem rural portuguesa - num arco temporal que nos leva de final de século XIX até meados do século XX - fica claro que Portugal passará de um país com metade do seu território ainda inculto, para um país em plena expansão agrícola, onde a área cultivada atingiu um recorde histórico, nunca antes alcançado e nunca mais repetido (do Carmo, 2018). Num país pressionado pelo aumento da população e pela necessidade crescente de alimentos, esta expansão será assegurada pelo progressivo abandono de um modelo agro-silvo-pastoril, para um modelo assente na expansão exclusiva das culturas de cereal, daí resultando o agravamento dos processos erosivos e o esgotamento dos solos.

Contudo, muito antes do arco temporal descrito, esta realidade era já manifesta, como nos dá conta o excerto da exposição do magistrado territorial Gervásio de Almeida Pais à rainha D. Maria II (em 1789) sobre o estado da agricultura em Mértola:

" (...) o fundamento mais sólido para a geral felicidade consiste na agricultura, e esta no meu distrito se acha em total decadência (...). Persuadido este povo de que a agricultura só consiste na lavoura das terras e na criação dos gados, tem posto em total desprezo a dos arvoredos, sem advertir que estes ramos se ajudam um aos outros, conservando entre si uma mútua e recíproca dependência; de forma que desprezando um deles, será coisa impraticável conseguir o aumento e perfeição dos outros. Essa verdade vejo eu aqui verificada com prejuízo de todo este Povo, na grande mortandade dos seus gados, em cuja criação mais se interessa, ocasionada umas vezes por falta de pastagens, porque os campos despidos de arvoredos e expostos aos ardores do Sol se tornam mais áridos e secos, e na falta de humidade e frescura da terra não podem conservar-se as ervagens e fenos necessários para o sustento dos mesmos gados; os quais, outras vezes, morrem repassados já dos frios, e já dos calores, na falta de arvoredos em que possam abrigar-se. Mas, apesar de tão sensíveis e frequentes exemplos, tem continuado o mal sem se examinar a sua origem e causas de que procede (...)"(Sousa et al., 2016).

Daqui resulta que o frágil equilíbrio da transferência de nutrientes é secular, estando intimamente relacionada com a gestão de biomassa no sistema. Dito de outro modo,

“a floresta sempre ocultou “no lenho ou no solo algo que a agricultura sempre necessitou: nutrientes”(Aguiar & Azevedo, 2011). 

Podemos assim assumir que se a agricultura foi o principal motor da desarborização do território, foi também a causa fundamental da perda de fertilidade do mesmo.

A partir de meados do século XX, esta agricultura ‘tradicional’, assente num equilíbrio instável ao longo de séculos, verá ainda a sua sustentabilidade agravada pela alteração radical na gestão do uso do solo, na substituição do fornecimento de azoto orgânico pelo uso de fertilizantes químicos, e do trabalho humano e animal pela mecanização agrícola. 

Se o novo modelo permitiu uma ‘libertação de espaço’ pela progressiva concentração e intensificação da produção, contribuiu também para a desarticulação dos territórios com os modos de gestão orgânica de base local e regional, agravando a degradação dos solos, e pondo em causa a sua fertilidade permanente. 

No abandono de um metabolismo agroecológico ancestral, passar-se-á a um modelo químico-mecânico assente no consumo crescente de energia fóssil (Santos, 2013), com presença dominante até aos nossos dias.

É por isso fundamental promover uma agricultura capaz de coexistir com a regeneração do ecossistema em que se integra. Uma agricultura que seja diversa e perene, que promova a construção do solo em vez da sua exploração, que contribua para o incremento da biodiversidade, da regulação dos ciclos de água, da manutenção da massa florestal e da gestão do fogo.

Uma agricultura que construa comunidade, na promoção de um consumo sazonal e de proximidade, na celebração de vínculos entre produtores e consumidores, e que valorize a comida enquanto bem essencial.

Uma agroecologia, onde o Homem volte a ser chamado a participar na promoção dos ciclos de vida no planeta. 

Referências bibliográficas:

Aguiar, C., & Azevedo, J. (2011). A floresta e a restituição da fertilidade do solo nos sistemas de agricultura orgânicos tradicionais do NE de Portugal no inicio do século XX. In J. P. Tereso (Ed.), Florestas do Norte de Portugal: História, Ecologia e Desafios de Gestão. Porto: InBio.

do Carmo, M. C. (2018). Solo e agricultura no século XX Português: um problema ambiental, histórico e epistemológico. Universidade de Lisboa, Lisboa.

Santos, J. L. (2013). Agricultura e Ambiente: o papel da tecnologia e das políticas públicas. In J. L. Santos (Ed.), O Futuro da Alimentação: Ambiente, Saúde e Economia. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

Sousa, F. d., Cosme, J., Almeida, F. d., Lopes, J. d. C., Nazareth, M., & Rocha, R. (2016). Alentejo: população e economia em finais de Setecentos. CEPESE - Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade, 148-150. 

Fotografia de Artur Pastor . Série "Portugal Rural" . Alentejo, década de 1940

Fonte: Centro de Agroecologia de Mértola

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Construtoras do Futuro: Vandana Shiva


A Dra. Vandana Shiva, partindo do amor à vida e à liberdade, propõe o ecofeminismo como uma resposta ao capitalismo patriarcal que, depois de haver colonizado a natureza, as mulheres e o futuro, está nos levando a destruição e morte. Ela também indica aproveitar a janela de dez anos que ainda temos para salvar o planeta e, com isso, a humanidade e a vida.


Obras destacadas "Staying Alive: Women, Ecology, and Development", "The Violence of the Green Revolution: Third World Agriculture, Ecology, and Politics" e "Earth Democracy: Justice, Sustainability, and Peace"

Site oficial:

Unesco Lançou Primeiro Relatório Sobre o Estado Atual do Oceano


Durante a Conferência das Nações Unidas para o Oceano 2022, que decorreu de 27 de junho a 1 de julho, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) lançou um novo relatório intitulado “State of the Ocean Report” (StOR), partilhando a visão do estado atual do oceano e, mobilizando a sociedade global para agir – e monitorar o progresso – em direção às metas globais.

Esta edição piloto foi proposta e desenvolvida para demonstrar a viabilidade de manter o mundo atualizado sobre o estado atual do oceano. Pretende ser um complemento a outras avaliações, como a “World Ocean Assessment” e os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e da Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos (IPBES).

Com base em exemplos iniciais de iniciativas conjuntas ou lideradas pelo COI, o StOR está estruturado em torno dos 10 desafios iniciais da Década das Nações Unidas da Ciência do Oceano para o Desenvolvimento Sustentável 2021–2030.

“O Relatório ajudará a monitorizar com eficiência o progresso da Década dos Oceanos da ONU e, com tempo, pode-se tornar uma publicação mundial ansiosamente esperada, que contribuirá significativamente para mobilizar a sociedade global a agir em direção ao oceano que precisamos para o futuro que queremos”, declara Vladimir Ryabinin, Secretário Executivo da Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO (COI-UNESCO), entidade que redigiu o relatório e que é o principal órgão das Nações Unidas para a promoção e coordenação internacional das ciências marinhas para melhoria da gestão do oceano, costas e recursos.

O StOR torna-se assim o primeiro relatório do género a compilar o conhecimento mais atual sobre o estado do oceano – da poluição à biodiversidade – de forma sucinta, trazendo todas as informações principais que os formuladores de políticas e os gestores do oceano precisam para tomar decisões informadas sobre a proteção e planeamento sustentável.

A edição piloto do StOR recebeu contribuições de mais de 100 especialistas, entre autores e revisores, em todas as principais áreas das ciências marinhas, como a acidificação dos oceanos, a poluição marinha, alertas precoces de tsunami, planeamento espacial marinho, gestão de dados ou infraestruturas de habilitação.

As próximas edições do Relatório vão também considerar contribuições de outras agências das Nações Unidas, seguindo o modelo do relatório do Estado do Clima regularmente publicado pela Organização Mundial de Meteorologia, sendo que os futuros lançamentos estão devem sempre coincidir com o Dia Mundial dos Oceanos das Nações Unidas, celebrado anualmente a 8 de junho.

domingo, 3 de julho de 2022

Nenhuma guerra tem a honestidade de confessar: eu mato para roubar.


As guerras sempre invocam motivos nobres, matam em nome da paz, em nome de Deus, em nome da civilização, em nome do progresso, em nome da democracia e se por via das dúvidas, se não bastassem tantas mentiras , existem os grandes meios de comunicação de massa dispostos a inventar inimigos imaginários para justificar a conversão do mundo em um grande hospício e um enorme matadouro.
Em Rei Lear, Shakespeare escreveu que neste mundo os loucos guiam os cegos e quatro séculos depois, os donos do mundo são loucos apaixonados pela morte que fizeram do mundo um lugar onde a cada minuto morrem de fome ou de doença curável 10 crianças e cada minuto são gastos 3 milhões de dólares, três milhões de dólares por minuto na indústria militar, que é uma fábrica de morte.
Armas requerem guerras e guerras requerem armas e os cinco países que administram as Nações Unidas, aqueles que têm direito de veto nas Nações Unidas também são os cinco principais produtores de armas.
Alguém se pergunta quanto tempo? Por quanto tempo a paz mundial estará nas mãos daqueles que se ocupam da guerra?
Por quanto tempo continuaremos acreditando que nascemos para o extermínio mútuo e que o extermínio mútuo é nosso destino?
Até quando?"

(Marcha pela paz e não-violência - outubro de 2009)

Ver site: Costs of War



Música do BioTerra: Eivør - Í Tokuni



In the mist

Walking in the mist
Alone in the deep silence
Can´t see any cairns
Gone are all the houses
I call out but no one answers

In between the gaps
In the mist-clad night
I sense shadows
Seems as though something is moving there
I call out but no one answers me

Friend, friend can you see me
Walking here in the mist
Have you wandered as i have
In the silence deep as death

Did you see the street lights
Shining in the village
Did you see what they did there
Do you remember what the state of things were
Was anyone looking for me

Have you as I have
Walked in the mist
Strayed from the beaten path
Near the mountain edge
Do you know this loneliness

Friend, friend do you understand me
Do you know any secret path
Have you wandered as I have
in the endless uncertainty

sábado, 2 de julho de 2022

Documentário - A Conspiração Global de Junk Food


Na Europa, os fabricantes de alimentos assinaram 'compromissos de responsabilidade', prometendo não adicionar açúcar, conservantes, corantes ou sabores artificiais e não atingir crianças. Então, por que eles estão usando táticas proibidas no Ocidente no mundo em desenvolvimento? Lá, eles criaram produtos de baixíssimo custo com níveis mais altos de sal, açúcar e gorduras saturadas. Filmado no Brasil, Índia e França, investigamos as novas táticas de marcas como Coca-Cola, McDonald's e Domino's Pizza.

Climate Emergency Truth- Way Worse


The world is being told we can still limit to 1.5 ºC, that there is still more time. We are beyond out of time, as atmospheric CO2e and radiative forcing prove.

Peter Carter, M.D. is a retired family physician who practised medicine first in England and then on both coasts of Canada (in Newfoundland and British Columbia) for almost 40 years.

When his sons were born, Peter became actively involved in peace, environmental and sustainable development issues, especially as they relate to children's health. (Fatherhood created that urge to leave the world a better place as a legacy for his children.)

As a founding director of CAPE (Canadian Association of Physicians for the Environment) and, more recently, as founder of the Climate Emergency Institute, Peter has presented on sustainable development, environmental health policy, biodiversity, and climate change and ocean issues at international science and climate change conferences in Canada, the United States, Europe, Asia and South America. 

Peter has been following the global warming and climate change research since 1988. His approach to assessing climate change is based on environmental health and human rights protection. He provides climate science information to several websites and organizations, and synthesizes climate change research for laypeople.

Peter was an expert reviewer for the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) Fifth Climate Change Assessment (AR5, 2014) and the IPCC’s 2018 Special Report on 1.5ºC. Also in 2018, Peter published "Unprecedented Crime: Climate Science Denial and Game Changers for Survival", which he co-authored with Elizabeth Woodworth.

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Lei do Restauro da Natureza



A Comissão Europeia adoptou no dia 22 de Junho, propostas pioneiras que visam restaurar os ecossistemas danificados e trazer de novo a natureza em toda a Europa, desde os terrenos agrícolas e mares às florestas e aos ambientes urbanos.

A proposta de Lei do Restauro da Natureza é essencial para evitar o colapso dos ecossistemas e prevenir as consequências mais graves das alterações climáticas e da perda de biodiversidade.

Alguns dos objectivos propostos incluem:
  • Uma inversão do declínio das populações de polinizadores até 2030 e, posteriormente, o aumento das respectivas populações;
  • Nenhuma perda de espaços verdes urbanos até 2030, investindo no aumento de 5 % até 2050 com uma cobertura arbórea mínima de 10 % em cada cidade, vila ou subúrbio e um aumento real de espaços verdes integrados em edifícios e infraestruturas;
  • Um aumento da biodiversidade nos ecossistemas agrícolas e uma tendência positiva no que diz respeito às borboletas dos prados, às aves campestres, ao carvão orgânico nos solos minerais dos terrenos agrícolas e aos elementos paisagísticos de grande variedade nesses terrenos;
  • A recuperação e a reumidificação das turfeiras drenadas nos terrenos agrícolas e nos locais de extracção de turfa;
  • Um aumento geral da biodiversidade nos ecossistemas florestais e uma tendência positiva no que respeita à conectividade dos habitats florestais, à madeira morta, à percentagem de florestas compostas por árvores de idades e espécies diferentes, ao aumento de aves e às reservas de carbono do solo.
  • A restauração dos habitats marinhos, como as pradarias marinhas ou os fundos sedimentares, bem como dos habitats de espécies marinhas emblemáticas, como os golfinhos e as toninhas, os tubarões e as aves marinhas;
  • A eliminação das barreiras fluviais, de modo a que, até 2030, pelo menos 25 000 km de rios possam usufruir de caudais livres.
  • A redução da utilização de pesticidas químicos e os riscos a eles associados em 50 %até 2030.

Mais informações aqui

Chomsky e Barsamian – entrevista


Consegue sequer lembrar-se de quando começou? Não lhe parece uma eternidade? E o timing – se é que se pode mesmo dizer que há um timing- tem sido pouco milagroso (se, por milagroso, quer dizer catastrófico para além do que é pensável). Não, não estou a falar do ataque de 6 de Janeiro ao Capitólio e de tudo o que o precedeu e de tudo o que se lhe seguiu, incluindo as audições em curso transmitidas pela televisão. Não, estou a falar da guerra na Ucrânia. A história que durante semanas comeu os telejornais, que todas as grandes redes de televisão enviaram os seus melhores, mesmo âncoras, para cobrir as notícias da guerra, e que agora apenas se arrasta algures no extremo limite das nossas notícias e da nossa consciência.

E no entanto, uma guerra aparentemente sem fim e perto do coração da Europa está também a revelar-se um desastre desmedido a nível global, como Raajan Menon explicou, e este foi talvez o primeiro a notar isso mesmo aqui, em TomDisptach, ameaçando igualmente com uma crise de fome generalizada em muito do que costumava ser conhecido como “o terceiro mundo”. Entretanto, mal notadas mas mais desastrosas, são as últimas notícias sobre o carbono que uma humanidade em guerra está a verter na atmosfera e estas são tudo menos alegres. Sim, as emissões de CO2 diminuíram modestamente no pior ano da Covid, mas recuperaram de forma impressionante em 2021. De facto, tal como a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica anunciou recentemente, temos agora mais carbono na atmosfera do que em qualquer outro momento nos últimos quatro milhões de anos. Agora também atingiu oficialmente um nível 50% mais elevado do que o do mundo pré-industrial. E só para que saibam, caso não estejam a viver no oeste ou sudoeste americano a experimentar uma mega-seca de que não se vê há pelo menos 1.200 anos (com temperaturas recorde a aterrar no fim-de-semana passado), ou não tenham estado a viver em ondas de calor sem precedentes na Índia, Paquistão, Espanha, e noutros lugares, esta não é propriamente uma notícia animadora.

Considere todo este contexto na análise de Noam Chomsky de 93 anos, um colaborador de TomDispatch, a situar a Guerra da Ucrânia no maior e mais devastador contexto possível. Fê-lo recentemente numa entrevista intitulada “Chronicles of Dissent” com David Barsamian da Rádio Alternativa. Editada por extenso, aparece agora em TomDispatch.


Bem-vindo a um Planeta que mais parece de Ficção Científica
Como o Duplo Pensamento de George Orwell se tornou o Caminho do Mundo

David Barsamian: Vamos entrar no pesadelo mais óbvio deste momento, a guerra na Ucrânia e os seus efeitos a nível global. Mas primeiro um pequeno pano de fundo. Comecemos com a garantia do Presidente George H.W. Bush dada ao então líder soviético Mikhail Gorbachev de que a NATO não se moveria “um centímetro para leste” – e essa promessa foi verificada. A minha pergunta para si é: porque é que Gorbachev não recebeu isso por escrito?

Noam Chomsky: Ele aceitou o acordo de um cavalheiro, o que não é assim tão invulgar na diplomacia. Um aperto de mão. Além disso, tê-lo no papel não teria feito qualquer diferença. Os tratados que estão no papel estão sempre a ser rasgados. O que importa é a boa fé. E de facto, H. W. Bush, o primeiro Bush, honrou explicitamente o acordo. Chegou mesmo a avançar para a instituição de uma parceria em paz, que acomodaria os países da Eurásia. A NATO não seria dissolvida, mas marginalizada. Países como o Tajiquistão, por exemplo, poderiam aderir sem fazer formalmente parte da NATO. E Gorbachev aprovou isso. Teria sido um passo para a criação daquilo a que ele chamou uma casa europeia comum, sem alianças militares.

Clinton nos seus primeiros dois anos também aderiu a esta ideia.. O que os especialistas dizem é que por volta de 1994, Clinton começou a, como eles dizem, falar de ambos os lados da boca. Para os russos, ele dizia : Sim, vamos aderir ao Acordo. Para a comunidade polonesa nos Estados Unidos e outras minorias étnicas, ele dizia : Não se preocupe, vamos incorporá-la dentro da NATO. Por volta de 1996-97, Clinton disse isso muito explicitamente ao seu amigo presidente russo Boris Yeltsin, a quem ele ajudou a vencer a eleição de 1996. Ele disse a Yeltsin: não se esforce muito neste negócio da NATO. Vamos alargar a NATO mas preciso disso por causa do voto étnico nos Estados Unidos.

Em 1997, Clinton convidou os chamados países de Visegrad-Hungria, Tchecoslováquia, Roménia — para se juntarem à NATO. Os russos não gostaram, mas não fizeram muito barulho. Então com as nações bálticas fez-se exatamente a mesma coisa. Em 2008, o segundo Bush, que era bem diferente do primeiro, convidou a Geórgia e a Ucrânia para a NATO. Qualquer diplomata dos EUA entendia muito bem que a Geórgia e a Ucrânia eram linhas vermelhas para a Rússia. Eles iriam tolerar a expansão em outros lugares, mas estes estão no seu coração geoestratégico e eles não vão aí tolerar a expansão. Para continuar com a história, A Revolta de Maidan ocorreu em 2014, expulsando o presidente pró-russo e a Ucrânia virou-se para o Ocidente.

A partir de 2014, os EUA e a NATO começaram a encher a Ucrânia de armas — armas avançadas, treino militar, exercícios militares conjuntos, movimentos para integrar a Ucrânia ao comando militar da NATO. Não há segredo sobre isso. Foi bastante aberto. Recentemente, o Secretário-Geral da NATO Jens Stoltenberg, gabou-se disso mesmo. Ele disse: isso é o que temos estado a fazer desde 2014. Bem, é claro, isso é dito muito conscientemente e é altamente provocatório. Eles sabiam que estavam a invadir a zona leste, o que todo e qualquer líder russo considerava uma mudança intolerável. A França e Alemanha vetaram em 2008, mas sob a pressão dos Estados Unidos a questão foi mantida na agenda. E a NATO, ou seja, os Estados Unidos, movimentaram-se para acelerar a integração de facto da Ucrânia no comando militar da NATO.

Em 2019, Volodymyr Zelensky foi eleito com uma esmagadora maioria — penso em 70% dos votos- com uma plataforma de paz, um plano para implementar a paz com o leste da Ucrânia e a Rússia, para resolver o problema. Ele começou a avançar e, de facto, tentou ir ao Donbass, a região oriental virada para a Rússia, para implementar o que é chamado de acordo de Minsk II. Isso significaria uma espécie de federalização da Ucrânia com um grau de autonomia para o Donbass, que é o que eles queriam. Algo como a Suíça ou a Bélgica. Zelensky foi bloqueado por milícias de direita que ameaçaram assassiná-lo se ele persistisse com este seu esforço.

Bem, ele é um homem corajoso. Ele poderia ter avançado se tivesse algum apoio dos Estados Unidos. Os EUA recusaram. Sem apoio, nada, o que significava que ele foi nesta matéria abandonado e teve que fazer marcha atrás, ou seja, abandonar essa ideia. Os EUA estavam empenhados nesta política de integração da Ucrânia passo a passo no comando militar da NATO. Isso acelerou ainda mais quando o presidente Biden foi eleito. Em setembro de 2021, o leitor poderia ler isso no site da Casa Branca. Não foi relatado, mas, claro, os russos sabiam disso. Biden anunciou um programa, uma declaração conjunta para acelerar o processo de treino militar, exercícios militares, mais armas como parte do que seu governo chamou de “programa reforçado ” de preparação para a adesão da Ucrânia à NATO.

Este processo acelerou-se ainda mais em Novembro. Tudo isto foi antes da invasão. O Secretário de Estado Antony Blinken assinou aquilo a que se chamou uma carta, que essencialmente formalizou e alargou este acordo. Um porta-voz do Departamento de Estado admitiu que, antes da invasão, os EUA se recusaram a discutir quaisquer preocupações de segurança com os russas. Tudo isto faz parte dos antecedentes.

A 24 de Fevereiro, Putin invadiu, e isto é uma invasão criminosa. Estas sérias provocações não fornecem qualquer justificação para a invasão. Se Putin tivesse sido um estadista, o que ele teria feito teria sido algo bastante diferente. Teria voltado para o Presidente francês Emmanuel Macron, agarrado as suas propostas provisórias, e mudou-se para tentar chegar a um apoio com a Europa, para tomar medidas em direção a uma casa comum europeia.

Os Estados Unidos, claro, sempre se opuseram a isso. Isto remonta à história da Guerra Fria, às iniciativas do Presidente francês De Gaulle para estabelecer uma Europa independente. Na sua frase “do Atlântico aos Urais”, integrando a Rússia com o Ocidente, esta ideia representava uma acomodação muito natural por razões comerciais e, obviamente, também por razões de segurança. Assim, se houvesse algum estadista dentro do círculo estreito de Putin, eles teriam compreendido as iniciativas de Macron e teriam experimentado para ver se, de facto, poderiam integrar-se com a Europa e evitar a crise. Em vez disso, o que ele escolheu foi uma política que, do ponto de vista russo, foi uma imbecilidade total. Para além da criminalidade da invasão, ele escolheu uma política que levou a Europa até ao fundo do bolso dos Estados Unidos. De facto, está mesmo a induzir a Suécia e a Finlândia a aderir à NATO – o pior resultado possível do ponto de vista russo, independentemente da criminalidade da invasão, e das perdas muito graves que a Rússia está a sofrer por causa disso.

Portanto, criminalidade e estupidez do lado do Kremlin, provocação severa do lado dos EUA. Foi esse o pano de fundo que levou a isto. Será que podemos tentar pôr fim a este horror? Ou devemos tentar perpetuá-lo? Essas são as escolhas.

Só há uma maneira de acabar com isto. Isso é a diplomacia. Agora, a diplomacia, por definição, significa que ambas as partes a aceitam. Não gostam dela, mas aceitam-na como a opção menos má. Ofereceria a Putin algum tipo de escapatória para a situação criada. Essa é uma possibilidade. A outra é apenas arrastar a situação presente e ver quanto todos irão sofrer, quantos ucranianos irão morrer, quanto a Rússia irá sofrer, quantos milhões de pessoas irão morrer à fome na Ásia e em África, quanto iremos continuar a fazer para aquecer o ambiente ao ponto de não haver possibilidade de uma existência humana habitável. Estas são as opções. Bem, com quase 100% de unanimidade, os Estados Unidos e a maior parte da Europa querem escolher a opção de não-diplomática. É explícita. Temos de continuar a prejudicar a Rússia.

Pode ler as páginas no New York Times, no Financial Times de Londres, em toda a Europa. Um refrão comum é: temos de nos certificar que a Rússia sofre. Não importa o que acontece à Ucrânia ou a qualquer outra pessoa. Claro que esta aposta pressupõe que se Putin for levado ao limite, sem fuga, se for forçado a admitir a derrota, ele aceitará isso e não utilizará as armas que tem para devastar a Ucrânia.

Há muitas coisas que a Rússia não tem feito. Os analistas ocidentais estão bastante surpreendidos com isso. Nomeadamente, eles não atacaram as linhas de abastecimento da Polónia que estão a deitar armas na Ucrânia. Certamente que o poderiam fazer. Isso levá-los-ia muito em breve a um confronto direto com a NATO, ou seja, os EUA e para onde vai a situação a partir daí, isso pode adivinhar. Qualquer pessoa que já tenha olhado para jogos de guerra sabe para onde se irá – subir a escada de escalada em direção a uma guerra nuclear terminal.

Portanto, esses são os jogos que estamos a jogar com as vidas dos ucranianos, asiáticos e africanos, o futuro da civilização, a fim de enfraquecer a Rússia, para garantir que eles sofram o suficiente. Bem, se queres jogar esse jogo, sê honesto acerca dele. Não há base moral para isso. Na verdade, é moralmente horroroso. E as pessoas que estão a montar em cavalos de guerra dizendo que estamos a defender princípios são imbecis morais quando se pensa no que está a ser colocado em jogo.

Barsamian: Nos meios de comunicação social, e entre a classe política dos Estados Unidos, e provavelmente na Europa, há muita indignação moral sobre a barbaridade russa, crimes de guerra, e atrocidades. Sem dúvida que estão a ocorrer como ocorrem em todas as guerras. No entanto, não acha esse escândalo moral um pouco seletivo?

Chomsky: O escândalo moral está no seu devido lugar. Deveria haver uma indignação moral. Mas se vai para o Sul Global, eles simplesmente não conseguem acreditar no que estão a ver. Eles condenam a guerra, claro. É um crime de agressão deplorável. Depois olham para o Ocidente e dizem: De que é que estão a falar? Isto é o que nos fazem a toda a hora.

É um pouco espantoso ver a diferença nos comentários. E é assim, se lerem o New York Times e o seu grande pensador, Thomas Friedman. Ele escreveu uma coluna há umas semanas atrás na qual levantou as mãos em desespero. Disse ele: O que podemos nós fazer? Como podemos viver num mundo que tem um tal criminoso de guerra? Desde os tempos de Hitler que não tivemos nada de semelhante. Há um criminoso de guerra na Rússia. Não sabemos como agir. Nunca imaginámos a ideia de que possa haver um tal criminoso de guerra em qualquer sítio do mundo..

Quando as pessoas no Sul Global ouvem isto, não sabem se devem rir ou ridicularizar. Temos criminosos de guerra a andar por toda a cidade de Washington. Na verdade, sabemos como lidar com os nossos criminosos de guerra. De facto, isto aconteceu no vigésimo aniversário da invasão do Afeganistão. Lembrem-se, esta foi uma invasão totalmente não provocada, a que a opinião mundial se opôs fortemente. Houve uma entrevista com o perpetrador, George W. Bush, que depois invadiu o Iraque, um grande criminoso de guerra, ao estilo da secção de Washington Post – uma entrevista com, como o descreveram, este adorável avô pateta que brincava com os seus netos, dizendo piadas, exibindo os retratos que pintou de pessoas famosas que tinha conhecido. Apenas um ambiente bonito e amigável.

Portanto, sabemos como lidar com os criminosos de guerra. Thomas Friedman está errado. Nós sabemos muito bem como lidar com eles.

Ou tome-se como exemplo aquele que provavelmente é o maior criminoso de guerra do período moderno, Henry Kissinger. Lidamos com ele não só educadamente, mas também com grande admiração. Este é afinal o homem que transmitiu a ordem à Força Aérea, dizendo que deveria haver um bombardeamento em massa no Camboja – “qualquer coisa que voe sobre qualquer coisa que se mova” foi a sua frase. Não conheço um exemplo comparável no registo de arquivo de um apelo a um genocídio em massa. E foi implementado com um bombardeamento muito intenso do Camboja. Não sabemos muito sobre o assunto porque não investigamos os nossos próprios crimes. Mas Taylor Owen e Ben Kiernan, historiadores sérios do Camboja, descreveram-no. Depois, há o nosso papel no derrube do governo de Salvador Allende no Chile e na instauração de uma ditadura viciosa no país, e assim por diante. Por isso, sabemos como lidar com os nossos criminosos de guerra.

Ainda assim, Thomas Friedman não pode imaginar que haja algo como a Ucrânia. Nem houve qualquer comentário sobre o que ele escreveu, o que significa que foi considerado bastante razoável. Dificilmente se pode usar a palavra seletividade. Está para além do que se possa chamar espantoso.. Portanto, sim, o escândalo moral está perfeitamente no seu devido lugar. É bom que os americanos estejam finalmente a começar a mostrar algum sentimento de indignação a propósito de grandes crimes de guerra cometidos por outras pessoas.

Barsamian: Tenho um pequeno puzzle para si. Está em duas partes. O exército russo é inepto e incompetente. Os seus soldados têm um moral muito baixo e são mal dirigidos. A sua economia está ao nível da de Itália e Espanha. Essa é uma parte. A outra parte é a Rússia é um colosso militar que ameaça dominar-nos. Por isso, precisamos de mais armas. Vamos expandir a NATO. Como se conciliam estes dois pensamentos contraditórios?

Chomsky: Esses dois pensamentos são o normal em todo o Ocidente. Acabei de ter uma longa entrevista na Suécia sobre os seus planos de aderir à NATO. Salientei que os líderes suecos têm duas ideias contraditórias, as duas que mencionou. Uma, regozijando-se com o facto de a Rússia ter provado ser um tigre de papel que não consegue conquistar cidades a alguns quilómetros da sua fronteira defendida por um exército maioritariamente de cidadãos. Portanto, são completamente incompetentes do ponto de vista militar. O outro pensamento é: eles estão prontos para conquistar o Ocidente e destruir-nos.

George Orwell tinha um nome para isso. Chamou-lhe duplo pensamento, a capacidade de ter duas ideias contraditórias na sua mente e acreditar em ambas. Orwell pensou erroneamente que isso era algo que só se podia ter no estado ultra-totalitário que ele satirizava em 1984. Ele estava errado. Pode tê-lo em sociedades democráticas livres. Estamos a ver um exemplo dramático disso neste momento. A propósito, esta não é a primeira vez que tal acontece.

Este duplo pensamento é, por exemplo, característico do pensamento da Guerra Fria. Regressemos ao grande documento da Guerra Fria desses anos, NSC-68 em 1950. Leia-o com atenção e vê-se que só a Europa, à parte dos Estados Unidos, estava militarmente em pé de igualdade com a Rússia. Mas, claro, ainda tínhamos de ter um enorme programa de rearmamento para contrariar o projeto do Kremlin para a conquista mundial.

Este é um documento e foi uma abordagem consciente. Dean Acheson, um dos autores, disse mais tarde que é necessário ser “mais claro do que a verdade”, a sua frase, tinha a finalidade de matraquear a mente pesada do governo. Queremos que seja aprovado este enorme orçamento militar, por isso temos de ser “mais claros do que a verdade”, concebendo um estado escravo que está prestes a conquistar o mundo. Tal pensamento percorre a Guerra Fria. Poderia dar muitos outros exemplos, mas agora estamos a vê-lo de novo de forma bastante dramática. E a forma como o coloca é exatamente correta: estas duas ideias estão a consumir o Ocidente.

Barsamian: Também é interessante que o diplomata George Kennan previu o perigo de a NATO deslocar as suas fronteiras para leste, num artigo de opinião muito presciente que escreveu e que foi publicado no The New York Times em 1997.

Chomsky: Kennan também se tinha oposto ao NSC-68. De facto, ele tinha sido o diretor do State Department Policy Planning Staff.. Foi expulso e substituído por Paul Nitze. Era considerado demasiado brando para um mundo tão duro. Ele próprio era um falcão, radicalmente anticomunista, bastante brutal em relação às posições dos EUA, mas percebeu que o confronto militar com a Rússia não fazia sentido.

A Rússia, pensou ele, acabaria por cair de contradições internas, o que acabou por se revelar correto. Mas ele foi considerado uma pomba durante todo o processo. Em 1952, era a favor da unificação da Alemanha fora da aliança militar da NATO. Na realidade, essa foi também a proposta do governante soviético Joseph Stalin. Kennan era embaixador na União Soviética e um especialista sobre a Rússia..

A iniciativa de Estaline. A proposta de Kennan. Alguns europeus apoiaram-na. Teria acabado com a Guerra Fria. Teria significado uma Alemanha neutralizada, não militarizada e não pertencente a qualquer bloco militar. Foi quase totalmente ignorada em Washington.

Havia um especialista em política externa, um respeitado, James Warburg, que escreveu um livro sobre o assunto. Vale a pena ler. Chama-se "Germany: Key to Peace". Neste livro, ele insistia que esta ideia fosse levada a sério. Ele foi desconsiderado, ignorado, ridicularizado. Eu mencionei-a algumas vezes e também fui ridicularizado como um lunático. Como pôde acreditar em Estaline? Bem, os arquivos foram abertos. Acontece que ele estava aparentemente a falar a sério. Lê agora os principais historiadores da Guerra Fria, pessoas como Melvin Leffler, e reconhecem que havia uma verdadeira oportunidade para um acordo pacífico na altura, que foi rejeitado a favor da militarização, de uma enorme expansão do orçamento militar.

Agora, passemos à administração Kennedy. Quando John Kennedy tomou posse, Nikita Khrushchev, na altura líder da Rússia, fez uma oferta muito importante para levar a cabo reduções mútuas em larga escala de armas militares ofensivas, o que teria significado um forte relaxamento das tensões. Os Estados Unidos estavam então muito à frente militarmente. Khrushchev queria avançar para o desenvolvimento económico na Rússia e compreendeu que isto era impossível no contexto de um confronto militar com um adversário muito mais rico. Assim, fez pela primeira vez essa oferta ao Presidente Dwight Eisenhower, que não lhe prestou atenção. Foi então oferecida a Kennedy e a sua administração respondeu com a maior acumulação de força militar em tempo de paz da história – apesar de saberem que os Estados Unidos já estavam muito à frente.

Os EUA inventam um “défice de mísseis”. A Rússia estava prestes a dominar-nos com a sua vantagem em mísseis. Bem, quando o défice de mísseis foi exposto, acabou por ser a favor dos EUA. A Rússia tinha talvez quatro mísseis expostos numa base aérea algures.

Pode-se continuar e continuar desta forma. A segurança da população não é simplesmente uma preocupação para os decisores políticos. Segurança para os privilegiados, os ricos, o sector empresarial, os fabricantes de armas, sim, mas não para o resto da população. Este pensamento duplo é constante, por vezes consciente, outras vezes não. É exatamente o que Orwell descreveu, um hiper-totalitarismo numa sociedade livre.

Barsamian: Num artigo em Truthout, cita o discurso “Cross of Iron ” de Eisenhower de 1953. O que encontrou aí de interesse?

Chomsky: Deve lê-lo e verá porque é que é interessante. É o melhor discurso que ele fez . Isto foi em 1953, quando ele estava a tomar posse. Basicamente, o que ele assinalou foi que a militarização era um ataque tremendo à nossa própria sociedade. Ele – ou quem quer que tenha escrito o discurso – colocou-o de forma bastante eloquente. Um avião a jato significa isto: muito menos escolas e hospitais. Cada vez que estamos a construir o nosso orçamento militar, estamos a atacar-nos a nós próprios.

Ele explicou-o com algum detalhe, apelando a uma redução no orçamento militar. Ele próprio tinha um balanço bastante mau, mas a este respeito estava mesmo a acertar no alvo. E essas palavras deveriam ser gravadas na memória de todos. Recentemente, de facto, Biden propôs um enorme orçamento militar. O Congresso expandiu-o mesmo para além dos seus desejos, o que representa um grande ataque à nossa sociedade, exatamente como Eisenhower explicou há tantos anos atrás.

A desculpa: a afirmação de que temos de nos defender deste tigre de papel, tão incompetente militarmente que não se pode mover um par de quilómetros para além da sua fronteira sem entrar em colapso. Portanto, com um orçamento militar monstruoso, temos de nos prejudicar gravemente e pôr em perigo o mundo, desperdiçando enormes recursos que serão necessários se quisermos lidar com as graves crises existenciais que enfrentamos.

Entretanto, deitamos fundos dos contribuintes para os bolsos dos produtores de combustíveis fósseis, para que possam continuar a destruir o mundo o mais rapidamente possível. É o que estamos a testemunhar com a vasta expansão tanto da produção de combustíveis fósseis como das despesas militares. Há pessoas que estão contentes com isto. Vá aos escritórios executivos da Lockheed Martin, ExxonMobil, eles estão extasiados.

É uma bonança para eles. Até lhes é dado crédito por isso. Agora, estão a ser elogiados por salvar a civilização, destruindo a possibilidade de vida na Terra. Esqueçam o Sul Global. Se imaginarmos alguns extraterrestres, se eles existissem, pensariam que éramos todos totalmente loucos. E eles estariam certos.

David Barsamian is the founder and host of the radio program Alternative Radio and has published books with Noam Chomsky, Arundhati Roy, Edward Said, and Howard Zinn, among others. His latest book with Noam Chomsky is Chronicles of Dissent (Haymarket Books, 2021) Alternative Radio, established in 1986, is a weekly one-hour public-affairs program offered free to all public radio stations in the United States, Canada, and Europe.


Noam Chomsky is institute professor (emeritus) in the Department of Linguistics and Philosophy at the Massachusetts Institute of Technology and laureate professor of linguistics and Agnese Nelms Haury chair in the program in environment and social justice at the University of Arizona. He is the author of numerous best-selling political books, which have been translated into scores of languages, including most recently Optimism Over Despair, The Precipice and, with Marv Waterstone, Consequences of Capitalism.

quinta-feira, 30 de junho de 2022

O lóbi dos pesticidas é um polvo em Bruxelas


O lóbi dos pesticidas em Bruxelas não é frugal com os seus gastos. De acordo com dados da UE, a Bayer é o produtor de pesticidas com o orçamento mais elevado, mais de 4,25 milhões de euros por ano. Apenas a Google, Facebook, e Microsoft têm despesas anuais mais elevadas a fazer lóbi.

Bayer, BASF, Corteva e Syngenta são as maiores empresas mundiais de pesticidas. Embora concorrentes, as empresas colaboram para intensificar os seus esforços de lóbi. São elas que apoiam e financiam a atividade do grupo de lóbi Crop Life. Esta organização financiou um estudo académico da Universidade de Wageningen, publicado em 2022, que concluiu que as políticas de redução de pesticidas na Europa "resultarão numa diminuição dos volumes produzidos por cultura em toda a UE numa média de 10 a 20%".

Todas estas empresas estão a fazer lóbi em Bruxelas de uma forma unida, segundo Nina Holland, uma investigadora do Corporate Europe Observatory. "Todas elas estão a exercer pressão em prol das mesmas regras pró-empresa para avaliação de risco ou adiamento de certas medidas. Bayer, BASF, Corteva e Syngenta lideram o processo”.

A associação de agricultores já se reuniu 26 vezes desde 2019 com comissários europeus ou com o seu pessoal para discutir estas questões. A Crop Life Europe já teve 12 reuniões. Bayer, BASF, Syngenta e Corteva tiveram 69 reuniões, uma média de duas por mês. A UE não mantém registos de reuniões com funcionários de nível inferior.

A nível nacional, onde os governos terão a última palavra sobre a lei dos pesticidas no Conselho da UE, os interesses das associações de agricultores e da indústria dos pesticidas também são notórios. Em França, o ministro da agricultura do primeiro governo Macron estava tão próximo da federação nacional de agricultores, que o chefe desta federação o elogiou publicamente no Twitter como um "bom porta-voz da causa". O antigo chefe de gabinete do ministro da agricultura, Marc Fresneau, passou a integrar recentemente o lóbi nacional dos fabricantes de pesticidas como chefe de relações públicas.

Em 2019, o mercado dos pesticidas foi avaliado em 52 mil milhões de euros, dos quais as vendas europeias representaram 12 mil milhões de euros. As quatro maiores empresas dominam dois terços do mercado mundial. A maior é a Bayer, cujo negócio de "proteção de culturas" registou receitas de mais de 20 mil milhões de euros no ano passado. Depois vem a Syngenta, com sede na Suíça, mas comprada pela ChemChina, e a Corteva, fundada pela DuPont e Dow nos EUA, e outro gigante químico alemão, a BASF.

Bayer, BASF e Corteva são parcialmente detidas pelos mesmos cinco fundos de investimento norte-americanos - Blackrock, Vanguard, State Street, Capital Group e Fidelity. Estes também detêm participações entre 10% e 30% nas principais empresas alimentares mundiais, tais como Unilever, Nestlé, Mondelez, Kellogg, Coca-Cola e PepsiCo.

Estas empresas responderam à perda de quota de mercado, em parte concentrando-se no comércio de sementes que são geneticamente modificadas para serem imunes aos pesticidas.

O problema é que mesmo que um pesticida químico seja proibido na UE, ele pode ser produzido e exportado. Assim, os venenos proibidos na UE, e as sementes tratadas com eles, podem ser vendidos a países onde ainda são permitidos. Estes países também exportam produtos agrícolas para a UE. E esta é uma queixa de quase todos os agricultores: a UE deveria aplicar as mesmas regras europeias aos produtos agrícolas importados do Brasil, Chile, Marrocos ou de qualquer outro lugar.

Não admira que a mudança agrícola seja tão disputada em Bruxelas: a Política Agrícola Comum é a maior parcela do orçamento da UE, representando 31% do orçamento total em 2022, ou seja, 53,1 mil milhões de euros. Mas todos os principais estados membros da UE assistiram a um declínio significativo do rendimento agrícola bruto médio sem subsídios, variando entre -6% na Alemanha e - 33% na Bélgica. A única exceção é a Espanha, onde o rendimento bruto por hectare aumentou ligeiramente em 3%.

A estratégia Farm to Fork (F2F) pretende que todos os países aumentem a agricultura biológica para um quarto das terras cultivadas, até 2030. Hoje em dia, a agricultura sem pesticidas químicos ocupa apenas uma parcela muito pequena da terra que produz os nossos alimentos. É responsável por 8,5% em média na UE. Apenas na Áustria se aproxima de um quarto (24%) da produção agrícola total.

Nos próximos meses, o objetivo de redução de pesticidas vai ser combatido. O lóbi que critica a F2F aponta em particular para os riscos que uma política restritiva acarreta para a segurança do abastecimento alimentar na Europa. Os críticos da lei da redução dos pesticidas falam de uma possível crise alimentar argumentando que a invasão russa da Ucrânia criou um problema de abastecimento de cereais. Este argumento tem chegado a vários gabinetes de deputados europeus e funcionários de Bruxelas, apesar do facto de a UE ser um exportador líquido de alimentos. Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, nenhum Estado da UE se encontra entre os 50 países mais dependentes das importações russas e ucranianas.

Os interesses instalados estão a assustar os agricultores, levando-os a acreditar que as políticas F2F lhes custarão o seu sustento, afirma Frans Timmermans, comissário do Green Deal. "Estou profundamente convencido de que se não fizermos o que propomos, então daqui a 10, 15 anos, a questão da biodiversidade será tão horrível que a agricultura não será sustentável na Europa. E então teremos realmente uma crise alimentar na Europa", prevê ele.

Tradução: Octávio Lima