quarta-feira, 7 de junho de 2017

Música do BioTerra: In The Nursery - Corruption


Oh do not die, for I shall hate
All women so , when thou art gone
That thee I shall not celebrate
When I remember, thou wast one

But yet thou canst not die, I know
To leave this world behind, is death
But when thou from this world wilt go
The whole world vapours with thy breath

Or iff, when thou, the world's soul go'st
It stay, tis but thy carcase then
The fairest woman, but thy ghost
But corrupt worms, the worthiest men

Oh wrangling schools that search what fire
Shall burn this world, had none the wit
Unto this knowledge to aspire
That this her fever might be it?

And yet she cannot waste by this
Nor long bear this torturing wrong
For much corruption needful is
To fuel such a fever long

These burning fits but meteors be
Whose matter in thee is soon spent
Thy beauty, and all parts, which are theee
Are unchangeable firmament

Yet 'twas of my mind, seizing thee
Though it in thee cannot persever
For I had rather owner be
Of thee one hour, than all else ever

Febre, Carne e Sacralidade: A Estética do Decaimento e a Poesia Metafísica em Corruption do In The Nursery
Em "Corruption", da banda In The Nursery (do álbum Duality, de 1992), a febre transcende o caráter de simples enfermidade biológica para se converter em uma metáfora vertiginosa sobre a decomposição da matéria, a impermanência e a dissolução da própria alma. Ao resgatar o poema "A Fever" do poeta metafísico barroco John Donne (escrito por volta de 1612), o duo britânico formado pelos irmãos Klive e Nigel Humberstone explora o conceito clássico e arcaico da "corrupção" - isto é, o processo inevitável de deterioração da carne e de retorno da forma humana ao pó. O eu lírico contempla o sofrimento da mulher amada e percebe que a perda do corpo físico ameaça consumir a própria essência do cosmos, estabelecendo uma tensão constante entre a adoração profana e o terror da finitude.

Musicalmente, a faixa se insere no horizonte do neoclássico e do martial darkwave, estética caracterizada por uma fusão refinada entre arranjos orquestrais solenes e dinâmicas industriais. Cordas melancólicas e sintetizadores atmosféricos desenham uma moldura fúnebre sobre a qual assentam percussões militares cadenciadas e tímpanos profundos, elementos marciais que são a assinatura registrada do grupo e que imprimem à canção a sensação de uma marcha inexorável rumo ao destino. A inclusão da voz em formato de declamação (spoken word) aproxima a música da liturgia e do ritual, conferindo à mensagem um tom hipnótico, meditativo e soturno.

As influências que alimentam essa obra articulam literatura, filosofia e espiritualidade de maneira indissociável. No plano literário, a poesia metafísica de Donne oferece o uso de metáforas hiperbólicas (conceits) que entrelaçam o amor mundano e a ruína transcendental, diálogo que ressoa também com a melancolia gótica e romântica do século XIX. Do ponto de vista filosófico, a canção encarna o preceito do memento mori e investiga os dualismos que batizam o próprio álbum - corpo e espírito, permanência e ruína, devoção e degradação. Por fim, a dimensão "religiosa" deriva tanto do contexto biográfico do próprio Donne (que viria a se tornar Deão da Catedral de São Paulo) quanto da apropriação de uma estética sacra por parte do In The Nursery. A música simula a estrutura de um requiem ou de uma prece litúrgica, elevando a dor física da febre e a angústia da perda à condição de martírio e adoração sagrada.

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In The Nursery
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