sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Fonte: Publico


Falo de uma questão que emergiu recentemente com alguma intensidade no espaço público: trata-se dos ciganos, uma vexata quaestio sobre a qual se guarda demasiado silêncio, certamente porque, ao contrário de outros grupos afectados pela exclusão racial, não são vistos no centro das grandes cidades, um território estranho aos seus modos de vida.
Falo dos ciganos a partir de um saber meramente empírico e recente, que certamente é demasiado superficial e imediato quando confrontado com o trabalho de investigadores. Falo a partir de um observatório que é uma aldeia alentejana, nos arredores de Évora, onde habito parcialmente há cerca de três anos. O tempo suficiente para ser confrontado com os ciganos e as formas de vida a que, em muitos aspectos, a história os obrigou, mas que lhes cabem não como história mas como destino. Poucos dias depois de chegar à aldeia, falei com um adolescente cigano que deambulava pelas ruas, com um cão. Entusiasmado com a minha hospitalidade (coisa para ele nunca vista), começou a querer negociar comigo tudo o que tinha para vender, até um cavalo. Este breve encontro daria para confirmar um lugar-comum das representações negativas dos ciganos: que eles só têm vocação de traficantes, para a qual desenvolveram as malas-artes da astúcia e da fraude. Disso mesmo me avisou um vizinho que assistiu de longe à cena. Com alguma indulgência, por eu ser ali um novato, disse-me depois que eu devia evitar as conversas com “essa gente que é a pior coisa que por aí apareceu”.
Não me chegou a dizer que eu devia escorraçá-los (embora não negligenciasse essa solução que comporta os seus perigos, dada a violência congénita desta “gente do pior”), mas chegou-me aos ouvidos, mais de um ano depois, que circulou pela população um abaixo-assinado que reclamava a expulsão dos ciganos daquele pequeno território. Fiquei assim a par da justa medida da rejeição: os ciganos não têm condição civil. Esta oposição entre os civis e os selvagens, de longa memória, emerge por estes lados constantemente e ambas as partes confirmam diariamente o papel que lhes está reservado, a não ser raramente, quando os civis também são um pouco selvagens e os selvagens são um pouco civis. É bem conhecida esta lei da sobrevivência, que faz com que os ciganos não possam senão encarnar o papel que lhes foi reservado ao longo de mais de cinco séculos (em Portugal) de rejeição total e falta de reconhecimento, confirmando assim diariamente os piores lugares-comuns com que são identificados. É assim com todas as minorias que sofrem uma dura exclusão: conformam-se aos estereótipos em que foram encerrados e deixam de poder sair deles. Não trabalham? Pois não, pelo menos de acordo com uma certa definição de trabalho. Mas nem ousem procurar porque ninguém lhes dá emprego. O melhor, então, é deixar de querer. Orgulhosamente. A contingência torna-se um destino e a perseguição engendra uma cultura que se vai essencializando e acaba por constituir uma auto-reclusão. Não se pense que o problema se resolve com boas intenções e muito proselitismo. Do alto do seu saber, as instituições governamentais ostentam uma palavra mágica, “integração”, sem fazerem a mínima ideia de que essa palavra já não serve para nada. Quanto aos poderes mais próximos do problema, as autarquias, preferem ficar calados ou ser cúmplices de práticas que fazem lembrar as leis raciais para solucionar de vez o “instinto obscuro da estirpe”, como se disse noutro contexto histórico para uma outra classe de Untermenschen, de sub-pessoas. Perante os vícios maléficos dos selvagens, as virtudes do homem civil são reclamadas com uma tão grande evidência que o racismo mais extremo tornou-se uma prática naturalizada. Não dói a quem o pratica, não é censurado e, pior que tudo, nem chega a ser percebido como tal. É uma persistência que não existe e que ninguém por estas bandas contribui para que ele comece a ser representável. É bastante significativo que mesmo quando havia uma hegemonia do Partido Comunista no Alentejo os ciganos nunca tiveram direito a nenhuma forma de subjectivação política. Nem na vanguarda do povo nem na retaguarda.
E assim temos, diante dos olhos que querem ver, uma situação que só tem um equivalente nos momentos extremos do racismo anti-semita, muito embora neste caso não se trate de um racismo transformado em lei da nação e a aguardar uma solução final.»

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