domingo, 24 de outubro de 2021

“Um abraço mortal” à Amazónia: “A floresta já não se consegue regenerar”




Os cientistas receiam que a floresta tropical amazónica esteja perto do limite da capacidade de se sustentar, o chamado tipping point, o ponto de não retorno.

Algo que já é uma realidade para Gertrudes Freire, que há mais de 50 anos se mudou com a família para Ouro Preto do Oeste, procurando na Amazónia abundância de água. Mas hoje o cenário é bem diferente, constatado também no terreno por cientistas, ecologistas e engenheiros florestais que monitorizam as árvores, fruto da galopante desflorestação.

"A floresta já não se consegue regenerar. E esse efeito vai progredindo floresta dentro. Ano a ano. É um abraço mortal na floresta amazónica", alerta Ben Hur Marimon, ecologista e engenheiro florestal que lidera uma investigação para a universidade de Mato Grosso.

Também a ex-ministra brasileira do Meio Ambiente, Marina Silva, alertou ainda esta semana para a aproximação de uma catástrofe ambiental de proporções planetárias, durante um evento da Universidade Estadual da Califórnia, Santa Bárbara (UCSB). “A Amazónia já está próxima desse ponto de não retorno”, avisou a ex-ministra, que fez parte do governo de Lula da Silva, durante o evento organizado pelo Departamento de Estudos Latino-Americanos e Ibéricos da UCSB.

“Ela já começa a sequestrar menos carbono do que as emissões. Antes era uma consumidora de carbono, agora já não é – e é um stock de carbono”, frisou Marina da Silva, sublinhando que a floresta, apelidada de “pulmão do mundo”, já foi destruída em cerca de 20%.

Um estudo recente revela que a Amazónia brasileira emitiu quase 20% mais dióxido de carbono para a atmosfera, ao longo da última década, do que aquele que conseguiu absorver. O estudo, realizado por uma equipa internacional e divulgado na revista Nature Climate Change, mostra que a humanidade já não pode depender da maior floresta tropical do mundo para ajudar a absorver a poluição e as emissões de dióxido de carbono causadas pelo ser humano.

Um fenómeno alarmante, já que as florestas são um aliado vital para colmatar as emissões de dióxido de carbono e combater as alterações climáticas. Só em 2019 foram emitidas quase 40 mil milhões de toneladas de CO2, sendo que cerca de 25 a 30% dos gases com efeito de estufa são absorvidos pelas florestas.

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