sexta-feira, 11 de setembro de 2009

1969 - Luís Cília - O menino de sua mãe



Maravilhoso poema de Fernando Pessoa profundamente cantado e musicado pelo Luís Cília. (sei que também está musicado por Mafalda Veiga e por Secos e Molhados). Porquê este clássico? Porque como todas as canções de embalar, demonstram a transitoriedade da vida ou o regresso à infância ou porque não a pergunta (mais a propósito deste poema): Mãe/Pai onde estiveste? Ou ainda a tristeza da guerra, da destruição de laços, de afectos?


Poema
No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
Duas, de lado a lado,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe.
Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, a lá da
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
Que volte cedo, e bem!
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe
(3ª história)

Sem comentários: