quinta-feira, 21 de junho de 2018

Os 3 D da energia: Digitalizar, Descentralizar, Descarbonizar


Energia, energia, para que te queremos? Para muita coisa, obviamente, e de preferência barata, eficiente e amiga do ambiente. E é rumo a esse horizonte que as mudanças verificadas apontam ou, pelo menos, tentam apontar. Cada vez mais as grandes companhias energéticas dão atenção à inovação como forma de atingir estes objetivos, com um acréscimo de sinergias com as startups, que têm sido parte importante deste processo. Porta que o EDP Open Innovation quer contribuir para manter aberta.

O projeto de empreendedorismo que desde 2012 junta a EDP ao Expresso está de regresso para a sétima edição e, mais uma vez, volta a apostar em projetos (mais concretamente dez) que vão de encontro à inovação no campo da energia e às grandes tendências do sector. São os “três D”, como lhes chama o administrador da EDP Inovação, Luís Manuel, que estão a moldar um futuro bem presente, a saber: “descarbonização, descentralização e digitalização”.

Por descarbonização entenda-se a utilização “crescente de fontes de energia renovável na geração elétrica, em combinação com maior eficiência energética do consumo”, processo que já se verifica há algumas décadas mas que tem ganhado cada vez mais força com o desenvolvimento das renováveis e consequente diminuição de custos na sua utilização. Energias como a hídrica ou a eólica já são muito generalizadas em Portugal, ao contrário da solar, por exemplo, que não chega aos 2% de produção.

Por isso, “perspetiva-se um crescimento”, garante o presidente da Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN), António Sá Costa. Sobretudo se o objetivo ambicioso de em 2040 ter 100% da energia gerada num ano de origem renovável for para cumprir. O que não é de todo descabido, porque se no final do século XX pouco mais de 30% do consumo era deste tipo de fonte, hoje já anda na ordem dos “54%/55%, valor que ganha ainda mais significado quando se percebe que “a utilização elétrica mais do que duplicou.”

Disrupção

A crescente facilidade em obter painéis solares para uso doméstico ou as baterias e carregadores de carros elétricos são alguns dos exemplos da descentralização, isto é, do processo de dar mais ferramentas ao consumidor no sentido de este tornar-se mais um elemento produtivo da cadeia. “É uma transição gradual”, diz António Sá Costa, que implica uma “alteração de hábitos e costumes” de uma população que está “bem mais desperta”. Com reflexos “na forma como as empresas do sector e os clientes se relacionam”, atira Luís Manuel.


Por outro lado, vivemos uma digitalização crescente, num processo a que a energia não é de todo alheia. “A emergência de tecnologias como internet das coisas, inteligência artificial, machine learning, entre outras, combinada com a disseminação de aparelhos a que todos acedemos e com que todos comunicamos, está a provocar uma disrupção”, diz o administrador, sobretudo na forma como as empresas lidam com os clientes e no modo como estes querem cada vez mais uma experiência que os coloque no centro da indústria, o que nem sempre aconteceu, quando vemos que “estamos a falar de uma área onde o planeamento central executado pelos Estados era a norma por todo o mundo há 20 ou 25 anos”.Nuno Botelho Os 3 D da energia: Digitalizar, Descentralizar, Descarbonizar

Três D que funcionam como os pilares de um processo que os responsáveis não têm dúvidas que vai resultar em benefícios para a maioria das partes envolvidas. “Não é só um bocadinho melhor para todos, é muito melhor para todos”, acredita o presidente da APREN, que fala na “criação de emprego na economia” e numa contribuição para a “melhoria do ambiente” como bons sinais de futuro para “uma sociedade mais eficiente”.

Já Luís Manuel defende que “a esmagadora maioria destas tecnologias está a crescer porque são mais competitivas em custo ou porque proporcionam um serviço de maior qualidade”, com destaque para a mobilidade elétrica, em que a realidade de “uma cidade com três quartos de frota automóvel eletrificada e autónoma” pode encontrar-se mais próxima “do que todos pensamos”.

Sempre a evoluir

Inovações tecnológicas que já se fazem sentir, com casos que pode conhecer melhor na infografia da página ao lado e que o EDP Open Innovation quer continuar a atrair para o seu seio. “Não estaria no estágio de crescimento atual” sem o projeto, garante o CEO da Delfos, Guilherme Studart. A empresa brasileira, que desenvolveu um sistema que monitoriza, estabelece padrões de análise e antecipa problemas em tempo real nas turbinas eólicas, foi a vencedora em 2016, e o responsável fala de um ambiente onde se “evolui muito”. E que quer continuar a evoluir.

O responsável pela edição deste ano, organizada pela Beta-I, Gonçalo Negrão, fala de um programa cujo objetivo é que, em duas semanas, “as empresas tenham um pré-piloto” testado e validado, numa ligação “estreita” entre os responsáveis pelo projeto e as equipas. Será um período de trabalho intenso em que, mais do que ideias, “procuram-se soluções.” Para que mantenham sempre a energia.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Cooperativa Fruta Feia salva do lixo mais de mil toneladas de frutas e legumes

Fonte: Ambiente Magazine, 12.06.18

Mais do que uma ideia ou vontade, a cooperativa Fruta Feia foi uma resposta ao desperdício alimentar, salvando, em quatro anos e meio, mais de mil toneladas de hortícolas que teriam como destino o lixo pela sua aparência.

“Se no início era uma ideia, uma vontade, havia um risco associado, não sabíamos se a coisa ia resultar. Chegar às mil toneladas, aos 11 trabalhadores, aos 11 pontos de entrega e aos cinco mil associados, significa que não somos só uma ideia, é mesmo um modelo que funciona, uma proposta de consumo em que muita gente se revê e que tem provado a sua sustentabilidade tanto social, como financeira”, disse à agência Lusa Isabel Soares, uma das mentoras do projeto.

A cooperativa Fruta Feia, que tem hoje 158 agricultores como parceiros, resulta de uma ideia de quatro amigos para aproveitar cerca de um terço da fruta e vegetais que os supermercados desperdiçam, por considerarem que não têm o aspeto perfeito que os consumidores procuram ou o calibre necessário.

Isabel Soares explicou que com o dinheiro das receitas a Fruta Feia paga os custos de funcionamento, “um valor justo aos agricultores pelos seus produtos” e “um salário justo” aos trabalhadores, que possuem um contrato sem termo.

“É essa a prova de que o modelo funciona. É que mil toneladas já é muita fruta, não é salvamos uns quilinhos do lixo. Não é isso, já dá que pensar e há muita gente que se está a interessar pelo nosso modelo”, frisou.

É por isso que a Fruta Feia tem recebido muitos visitantes estrangeiros que querem replicar o modelo “inovador e que foi pensado do zero”, explicou Isabel Soares, avançando que já houve quem se inspirasse, apesar de ser uma empresa com fins lucrativos e não uma cooperativa, como o projeto português.

Todo o dinheiro que fazemos é para pagar os nossos custos, não há lucro para ser repartido pelos fundadores da cooperativa. Nos Estados Unidos foi criada uma empresa, estiveram connosco uma semana para ver como funcionávamos e levaram o modelo com eles”, contou.

Isabel Soares reconhece que no início teve medo que o projeto não funcionasse, até porque era para ajudar os agricultores e a sua primeira reação “não foi muito boa”, por não acreditarem na sua veracidade.

Comecei a pressentir que ia correr bem quando abrimos inscrições e em menos de uma semana já tínhamos mais de 100 inscrições. Tivemos de limitar o arranque a 120 pessoas quando o modelo estava pensado para 40”, contou.

Foi então que começou a sentir a adesão dos consumidores e a achar que iria correr bem, mas nunca ao nível do que acontece hoje, quando se chega às 1.080 toneladas de frutas e legumes salvos do lixo.
Neste momento, a Fruta Feia tem cinco mil associados e são salvas 15 toneladas por semana do desperdício. De acordo com Isabel Soares, há agricultores que só com o dinheiro da Fruta Feia conseguiram contratar mais um funcionário.

“Há muitos agricultores que através de nós, a maior parte mesmo, escoam tudo o que é ‘feios’. Isso é ótimo, sentir que há coisas que não estão a ir para o lixo por uma razão estética porque nós estamos lá e estamos a agir”, acrescentou.

Ainda existem agricultores interessados em participar no projeto, mas que, apesar de cumprirem o requisito de não terem práticas agressivas com o meio ambiente, têm de ficar de fora, já que a Fruta Feia segue uma política de consumo de proximidade e a cooperativa não se desloca mais de 70 quilómetros dos pontos de entrega para ir buscar os ‘feios’.

Nos últimos três anos, e devido a um projeto da União Europeia, foi possível abrir oito pontos de entrega, sendo Braga e Amadora os últimos dois e aqueles que vão agora necessitar de consolidação.
Para o futuro, Isabel Soares espera continuar a abrir delegações, embora a um ritmo “menos desenfreado”, lembrando que ainda há agricultores a precisar de ajuda e 14 mil pessoas em lista de espera.

Atualmente, as cestas de ‘fruta feia’ — pequenas (três/quatro quilos e cinco a sete variedades) e a grande (com seis/oito quilos e sete a nove variedades) — podem ser recolhidas em Lisboa (quatro pontos), Porto, Braga, Amadora, Parede, Matosinhos, Vila Nova de Gaia e Almada. Os cabazes são compostos por frutas e hortaliças, que variam semana a semana conforme a altura do ano.

Gente bonita come fruta feia” é o lema do projeto, que pretende associar “bons ideais às pessoas que estão dispostas a comer” esta fruta não normalizada, para evitar o desperdício alimentar, concluiu Isabel Soares.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Portugal: tara recuperável para garrafas de plástico a partir de 2022

Fonte: Uniplnanet

O Governo pretende que a partir de 2022 as garrafas de plástico de águas minerais e de refrigerantes tenham tara recuperável, ou seja, que o consumidor ao devolver estas embalagens receba o que pagou por elas, tal como já acontece com as garrafas de vidro de cerveja. 

A tara recuperável deverá ser testada já a partir do próximo ano, em parceria com o sector da distribuição, mas só deverá entrar em vigor a partir de janeiro de 2022, depois de terminarem as licenças das gestoras de embalagens, de acordo com o jornal Público.

Este sistema já é usado em países como a Alemanha, Finlândia, Dinamarca, Eslováquia, Noruega, Holanda e Suécia e permitiu que alguns países alcançassem uma taxa média de retoma destas embalagens de 94%, reduzindo assim as embalagens que seriam incineradas ou levadas para aterros. 

Carlos Martins, secretário de Estado Adjunto e do Ambiente, pretende também que as garrafas de plástico passem a ser constituídas apenas por um único composto, em vez de um plástico para a garrafa, outro para a tampa e outro para o rótulo, para assim simplificar a sua reciclagem através de ecodesign. Na restauração, o objetivo é trazer de volta o vidro para as mesas

A taxa sobre os sacos plásticos leves vigora há três anos e permitiu uma mudança de mentalidades e uma redução no número de sacos utilizados; no entanto, o uso de sacos leves foi substituído por outros de maior gramagem. Está a ser ponderado o alargamento da taxa dos sacos de plástico leves para os mais espessos (espessura superior a 50 microgramas) para aumentar assim a sua reutilização. Os sacos mais leves deverão ser todos biodegradáveis.

Carlos Martins afirmou que é preciso também controlar o uso de plástico nas vendas online, devido ao elevado uso deste material.

A meta europeia para Portugal é que ocorra uma recolha de 90% das garrafas de plástico descartáveis até 2025 e para o cumprir o Ministério do Ambiente afirmou que é preciso melhorar os sistemas de recolha de embalagens, levando a que mais autarquias façam a recolha da reciclagem porta a porta, principalmente nas cidades, tal como já acontece, nos concelhos de Lisboa, Maia, Valongo e Lajes das Flores

O grupo de trabalho de Carlos Martins, criado em fevereiro, vai propor também incentivos fiscais para reduzir o uso de utensílios descartáveis, como palhinhas, cotonetes, pratos, copos e talheres de plástico, que poderão posteriormente terminar na proibição destes artigos.

Segundo Carlos Martins, estas medidas não entrarão no próximo Orçamento do Estado. Em 2019, serão realizados projetos-piloto, como, por exemplo, dos sistemas em que os cidadãos pagam de acordo com a quantidade de lixo que produzem (Pay as you throw). A médio prazo serão disponibilizados novos apoios, do Fundo Ambiental, à inovação na área do ecodesign para que investigadores e empresas reduzam a complexidade das embalagens, de forma a serem mais facilmente recicladas. 

Importa lembrar que em Portugal cerca de um terço dos cidadãos (três milhões de portugueses) não recicla

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Roupa e calçado ecológico e vegan: onde comprar?


Lista feita por Pedro Costa para a página Um activismo por dia.

A revolução por uma moda mais etica e sustentável, tem feito com que surjam cada vez mais alternativas amigas do ambiente e dos animais. Em vez de usar roupa feita de petroleo ou roupa feita de peles e pelos de animais, porque não usar estas alternativas?

Onde comprar?

🇵🇹
Sapato verde: https://sapatoverde.pt/
Calçado Foot Zero: https://www.facebook.com/footzero.shoes/
NAE vegan shoes: https://www.nae-vegan.com/pt/
Roupa Oboho: http://oboho.tumblr.com/
Zouri Vegan shoes: https://www.facebook.com/zouriveganshoes/
Hempact: http://www.hempactorganic.com/pt/
Natura Pura: https://www.naturapura.com/
OHNO: https://www.facebook.com/ohno.clothing/
DOME: https://www.facebook.com/domeethicalstore/
4Nature: http://www.4nature.pt/
HarmonySeeds: https://www.facebook.com/harmonyseeds/
Atelier 1200 https://www.facebook.com/atelier1200/
Freethem: https://www.facebook.com/Freethem.Wear/
Näz: https://www.facebook.com/NAZ.clothes/
Rise Clan: https://www.facebook.com/riseclanworld
Montado: https://www.facebook.com/Montado.pt/
Capuchinhas: https://www.facebook.com/Capuchinhas
Sandra Delgado: https://www.sandra-delgado.com/
One of us : https://oneofus.pt/
Futah: https://www.futah.world/pt/

🌍
Insecta Shoes: https://www.insectashoes.com/
WAWWA: https://wawwaclothing.com/
Komodo: https://komodo.online/

E ainda... Activistas que lutam por uma eco revolução da moda em Portugal:

https://www.facebook.com/plataformaAlinhavo/
https://www.facebook.com/FashionRevolutionPT/

domingo, 17 de junho de 2018

A sinceridade é tudo, por Phiip Roth



"A sinceridade é tudo. Sincera e vazia, totalmente vazia. A sinceridade que dispara em todas as direcções. A sinceridade é pior que a falsidade e a inocência que é pior que a corrupção."
Philip Roth (A Mancha Humana)

Para saber mais sobre Philip Roth
The Philip Roth Society
Philip Roth looks back on a legendary career, and forward to his final act
American Master's Philip Roth: Unmasked.
Works by Philip Roth at Open Library
Library resources in your library and in other libraries by Philip Roth
Web of Stories online video archive: Roth talks about his life and work in great depth and detail. Recorded in NYC, March 2011
Appearances on C-SPAN
Philip Roth at the Internet Broadway Database
Philip Roth on IMDb

Interviews
Hermione Lee (Fall 1984). "Philip Roth, The Art of Fiction No. 84". The Paris Review.
Roth interview – from NPR's "Fresh Air", September 2005
Roth interview – from The Guardian, December 2005
Roth interview – from Open Source
Roth interview – from Der Spiegel, February 2008
Roth interview – from the London Times, October 17, 2009
Roth interview – from CBC's Writers and Company. Aired 2009-11-01
Roth interview – from New York Times. Printed 2018-01-16

sábado, 16 de junho de 2018

Precisamos de pessoas que não nos peçam que nos tornemos diferentes, por Hannah Brencher

Papua New Guinea

"Precisamos de pessoas que não nos peçam que nos tornemos diferentes para que nos aceitem e concedam a sua aprovação. Precisamos de pessoas, e temos de ser pessoas, que permitem aos outros sentar-se na sua própria pele e não ter medo. Esse é o melhor presente que alguma vez se poderá dar a alguém - a permissão para que se sinta seguro na sua própria pele. Para que se sinta digno. Para que sinta que é suficiente
Hannah Brencher

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Estudos mostram que 42% das espécies na Europa diminuíram na última década

Tendência registada na Europa deve-se ao aumento da intensidade da agricultura e da silvicultura, "com consequências directas no declínio da biodiversidade".
Fonte: Sábado, 29.05.2018
Um conjunto de estudos sobre a biodiversidade, realizados a nível mundial e no quais trabalhou também uma investigadora do Porto, indicam que 42% das espécies animais e vegetais na Europa diminuíram as suas populações na última década.

Os resultados destes estudos mostram "a continuação do declínio da biodiversidade e dos serviços dos ecossistemas a nível mundial, nas várias regiões analisadas, causando a degradação das condições de vida de muitas pessoas", disse à Lusa a investigadora do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Porto (CIIMAR), Isabel Sousa Pinto.

Estes estudos foram realizados pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços dos Ecossistemas (IPBES), uma entidade científica da Organização das Nações Unidas (ONU) para a área da biodiversidade, equivalente ao Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC).

As conclusões, apresentadas na 6.ª Assembleia Geral do IPBES, em Medellin (Colômbia), indicam que a tendência registada na Europa deve-se ao aumento da intensidade da agricultura e da silvicultura, "com consequências directas no declínio da biodiversidade", referiu a investigadora.

"O mar mostrou-se uma das áreas com menos conhecimento mas com situação mais preocupante, com 27% das espécies e 66% dos habitats marinhos avaliados com estado de conservação desfavorável", indicou a professora da Universidade do Porto, que co-liderou um dos seis capítulos desta avaliação, orientado para as regiões da Europa e Ásia Central.

Segundo Isabel Sousa Pinto, embora a maioria da exploração pesqueira nesta região mostre ainda uma "tendência insustentável", existem "alguns casos de recuperação de stocks, resultantes da aplicação de medidas adequadas de gestão, que indicam o caminho a seguir no futuro".

Entre essas medidas, destacou, encontram-se a redução das pescas, da desflorestação e da poluição, o aumento da promoção de áreas protegidas, a redução da caça e do tráfico de animais e a conservação de aves.

"A Europa não é das zonas com menos problemas. Apesar de termos políticas avançadas em termos de controlo da poluição e de conservação, comparativamente a outras regiões do mundo, também temos uma utilização intensiva dos recursos, que levam a que a biodiversidade seja bastante ameaçada", salientou.

Na sua opinião, a biodiversidade não pode ser uma preocupação só do Ministério do Ambiente, devendo envolver outras esferas políticas, como é o caso "das pescas, da agricultura, da floresta, dos transportes, do planeamento urbanístico, da zona costeira e da zona marítima e do planeamento energético".

A professora apontou a agricultura biológica, uma melhor gestão de áreas protegidas, a criação de passagens subterrâneas ou aéreas para a fauna (evitando o seu atropelamento) e a verificação dos locais onde se instalam as torres de energia eólica (para reduzir a mortalidade de aves), como algumas das medidas que podem ser tomadas para controlar o declínio da biodiversidade.

Encomendados pelos governos de diferentes países, estes estudos tiveram a duração de três anos e contaram com a participação de mais de 550 especialistas - entre os quais cinco portugueses -, de cerca de 100 países.

Os investigadores recorreram a trabalhos já publicados sobre a relação entre a biodiversidade com o bem-estar das pessoas e a tendência dos serviços de ecossistema, ao conhecimento indígena e aos depoimentos de pessoas que trabalham nas áreas protegidas e de trabalhadores locais, como agricultores, pescadores e pastores.

Durante a assembleia, Isabel Sousa Pinto foi eleita para integrar o MEP (Multidisciplinary Expert Panel), órgão responsável por assegurar a qualidade científica dos trabalhos desenvolvidos pela IPBES, seleccionar os autores para os novos estudos, bem como formular o novo programa de trabalhos a partir das sugestões e pedidos dos governos. 

A IPBES está a elaborar uma avaliação global da biodiversidade e serviços dos ecossistemas, incluindo a avaliação dos oceanos e do uso sustentável de espécies selvagens, os efeitos das espécies invasoras e os métodos de avaliação e de valorização da biodiversidade e dos serviços dos ecossistemas. 

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Poema da Semana - A Verdadeira Liberdade, por Fernando Pessoa

Igor Morski 1960 - Polish Surrealist Illustrator

A liberdade, sim, a liberdade! 
A verdadeira liberdade! 

Pensar sem desejos nem convicções. 
Ser dono de si mesmo sem influência de romances! 
Existir sem Freud nem aeroplanos, 
Sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço! 

A liberdade do vagar, do pensamento são, do amor às coisas naturais 
A liberdade de amar a moral que é preciso dar à vida! 
Como o luar quando as nuvens abrem 
A grande liberdade cristã da minha infância que rezava 
Estende de repente sobre a terra inteira o seu manto de prata para mim... 
A liberdade, a lucidez, o raciocínio coerente, 
A noção jurídica da alma dos outros como humana, 
A alegria de ter estas coisas, e poder outra vez 
Gozar os campos sem referência a coisa nenhuma 
E beber água como se fosse todos os vinhos do mundo! 

Passos todos passinhos de criança... 
Sorriso da velha bondosa... 
Apertar da mão do amigo [sério?]... 
Que vida que tem sido a minha! 
Quanto tempo de espera no apeadeiro! 
Quanto viver pintado em impresso da vida! 

Ah, tenho uma sede sã. Dêem-me a liberdade, 
Dêem-ma no púcaro velho de ao pé do pote 
Da casa do campo da minha velha infância... 
Eu bebia e ele chiava, 
Eu era fresco e ele era fresco, 
E como eu não tinha nada que me ralasse, era livre. 
Que é do púcaro e da inocência? 
Que é de quem eu deveria ter sido? 
E salvo este desejo de liberdade e de bem e de ar, que é de mim? 

Álvaro de Campos, in "Poemas (Inéditos)" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Byung-Chul Han: “Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização”

O filósofo sul-coreano, um destacado dissecador da sociedade do hiperconsumismo, fala sobre suas críticas ao “inferno do igual”
Berthe Morisot- The bowl of milk, 1892
As Torres Gémeas, edifícios idênticos que se refletem mutuamente, um sistema fechado em si mesmo, impondo o igual e excluindo o diferente e que foram alvo de um ataque que abriu um buraco no sistema global do igual. Ou as pessoas praticando binge watching (maratonas de séries), visualizando continuamente só aquilo de que gostam: mais uma vez, multiplicando o igual, nunca o diferente ou o outro... São duas das poderosas imagens utilizadas pelo filósofo sul coreano Byung-Chul Han (Seul, 1959), um dos mais reconhecidos dissecadores dos males que acometem a sociedade hiperconsumista e neoliberal depois da queda do Muro de Berlim. Livros como A Sociedade do Cansaço, Psicopolítica e A Expulsão do Diferente reúnem seu denso discurso intelectual, que ele desenvolve sempre em rede: conecta tudo, como faz com suas mãos muito abertas, de dedos longos que se juntam enquanto ajeita um curto rabo de cavalo.

“No 1984 orwelliano a sociedade era consciente de que estava sendo dominada; hoje não temos nem essa consciência de dominação”, alertou em sua palestra no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB), na Espanha, onde o professor formado e radicado na Alemanha falou sobre a expulsão da diferença. E expôs sua particular visão de mundo, construída a partir da tese de que os indivíduos hoje se autoexploram e têm pavor do outro, do diferente. Vivendo, assim, “no deserto, ou no inferno, do igual”.

Autenticidade. Para Han, as pessoas se vendem como autênticas porque “todos querem ser diferentes uns dos outros”, o que força a “produzir a si mesmo”. E é impossível ser verdadeiramente diferente hoje porque “nessa vontade de ser diferente prossegue o igual”. Resultado: o sistema só permite que existam “diferenças comercializáveis”.

Autoexploração. Na opinião do filósofo, passou-se do “dever fazer” para o “poder fazer”. “Vive-se com a angústia de não estar fazendo tudo o que poderia ser feito”, e se você não é um vencedor, a culpa é sua. “Hoje a pessoa explora a si mesma achando que está se realizando; é a lógica traiçoeira do neoliberalismo que culmina na síndrome de burnout”. E a consequência: “Não há mais contra quem direcionar a revolução, a repressão não vem mais dos outros”. É “a alienação de si mesmo”, que no físico se traduz em anorexias ou em compulsão alimentar ou no consumo exagerado de produtos ou entretenimento.

‘Big data’.”Os macrodados tornam supérfluo o pensamento porque se tudo é quantificável, tudo é igual... Estamos em pleno dataísmo: o homem não é mais soberano de si mesmo, mas resultado de uma operação algorítmica que o domina sem que ele perceba; vemos isso na China com a concessão de vistos segundo os dados geridos pelo Estado ou na técnica do reconhecimento facial”. A revolta implicaria em deixar de compartilhar dados ou sair das redes sociais? “Não podemos nos recusar a fornecê-los: uma serra também pode cortar cabeças... É preciso ajustar o sistema: o ebook foi feito para que eu o leia, não para que eu seja lido através de algoritmos... Ou será que o algoritmo agora fará o homem? Nos Estados Unidos vimos a influência do Facebook nas eleições... Precisamos de uma carta digital que recupere a dignidade humana e pensar em uma renda básica para as profissões que serão devoradas pelas novas tecnologias”.

Comunicação. “Sem a presença do outro, a comunicação degenera em um intercâmbio de informação: as relações são substituídas pelas conexões, e assim só se conecta com o igual; a comunicação digital é somente visual, perdemos todos os sentidos; vivemos uma fase em que a comunicação está debilitada como nunca: a comunicação global e dos likes só tolera os mais iguais; o igual não dói!”.

Jardim. “Eu sou diferente; estou cercado de aparelhos analógicos: tive dois pianos de 400 quilos e por três anos cultivei um jardim secreto que me deu contato com a realidade: cores, aromas, sensações... Permitiu-me perceber a alteridade da terra: a terra tinha peso, fazia tudo com as mãos; o digital não pesa, não tem cheiro, não opõe resistência, você passa um dedo e pronto... É a abolição da realidade; meu próximo livro será esse: Elogio da Terra. O Jardim Secreto. A terra é mais do que dígitos e números.

Narcisismo. Han afirma que “ser observado hoje é um aspecto central do ser no mundo”. O problema reside no fato de que “o narcisista é cego na hora de ver o outro” e, sem esse outro, “não se pode produzir o sentimento de autoestima”. O narcisismo teria chegado também àquela que deveria ser uma panaceia, a arte: “Degenerou em narcisismo, está ao serviço do consumo, pagam-se quantias injustificadas por ela, já é vítima do sistema; se fosse alheia ao sistema, seria uma narrativa nova, mas não é”.

Os outros. Esta é a chave para suas reflexões mais recentes. “Quanto mais iguais são as pessoas, mais aumenta a produção; essa é a lógica atual; o capital precisa que todos sejamos iguais, até mesmo os turistas; o neoliberalismo não funcionaria se as pessoas fossem diferentes”. Por isso propõe “retornar ao animal original, que não consome nem se comunica de forma desenfreada; não tenho soluções concretas, mas talvez o sistema acabe desmoronando por si mesmo... Em todo caso, vivemos uma época de conformismo radical: a universidade tem clientes e só cria trabalhadores, não forma espiritualmente; o mundo está no limite de sua capacidade; talvez assim chegue a um curto-circuito e recuperemos aquele animal original”.

Refugiados. Han é muito claro: com o atual sistema neoliberal “não se sente preocupação, medo ou aversão pelos refugiados, na verdade são vistos como um peso, com ressentimento ou inveja”; a prova é que logo o mundo ocidental vai veranear em seus países.

Tempo. É preciso revolucionar o uso do tempo, afirma o filósofo, professor em Berlim. “A aceleração atual diminui a capacidade de permanecer: precisamos de um tempo próprio que o sistema produtivo não nos deixa ter; necessitamos de um tempo livre, que significa ficar parado, sem nada produtivo a fazer, mas que não deve ser confundido com um tempo de recuperação para continuar trabalhando; o tempo trabalhado é tempo perdido, não é um tempo para nós”.

Biografia
Byung-Chul Han

terça-feira, 12 de junho de 2018

Encontramo-nos agora, onde duas estradas divergem, por Rachel Carson

 Clica na imagem para ampliar
"Encontramo-nos agora, onde duas estradas divergem. Mas, ao contrário das estradas no poema familiar de Robert Frost, elas não são igualmente equiparáveis. A estrada que há muito viajamos é enganosamente fácil, uma super-autoestrada suave sobre a qual progredimos com grande velocidade, mas no final disso jaz um desastre. A outra bifurcação da estrada - a menos explorada - oferece a nossa última, a nossa única chance de alcançar um destino que assegure a preservação da terra ".- Rachel Carson,  em "Primavera Silenciosa"

Fonte e tradução Green Anonymous Portugal

sábado, 9 de junho de 2018

“O ambiente é muito importante para a paz", por Wangari Maathai



O ambiente é muito importante para a paz, uma vez que quando destruímos os nossos recursos e estes se escasseiam fazemos guerras para os conseguir.
Wangari Maathai, Prémio Nobel da Paz de 2004

Quem foi Wangari Maathai

sexta-feira, 8 de junho de 2018

A Europa não se entende, por Agostinho da Silva

Ela Yeşildoğan- Detail shot of an Upper West Side cathedral

"... A Europa não presta para nada, a Europa não se entende, porque está a querer fazer uma coisa nova com uma trapalhada velha... [...] O que se deve é chegar a outra coisa muito importante: à liberdade cultural de cada homem! 
Já não se trata de esta região ou aquela ser desta ou daquela maneira: trata-se de ser à sua maneira cada pessoa! Temos de levar o mundo a um tal tipo de organização que permita a identidade cultural de cada homem, sem sofrer nenhuma espécie de atropelo. 
A liberdade cultural do Minho, ou da Catalunha, ou da Andaluzia, ou de qualquer coisa dessas, é apenas um degrau para passarmos ao último andar da casa, que é cada homem ter a sua plena liberdade cultural! 
Como se costuma dizer, fazer aquilo que lhe der na cabeça, ou no coração, ou nos pés, se preferir andar. Rumar exactamente como quiser rumar; e o mundo estar organizado de tal maneira que daí não resulte o caos, mas uma nova espécie de cosmos, isto é uma espécie de nova ordem. 
Que resulte um mundo que continue a ser mundo. As pessoas não se lembram que "mundo" é a palavra contrária de "imundo". [...] Mundo é um adjectivo, é o contrário de imundo. 
Nós não queremos um mundo imundo, queremos conservar o mundo cada vez mais mundo, cada vez mais puro... É preciso que cada pessoa seja cada vez mais pura. E o que é ser cada vez mais puro? É ser cada vez mais ele." 

- Agostinho da Silva, "Ir à Índia sem abandonar Portugal" in "Ir à Índia sem Abandonar Portugal, Considerações e Outros Textos", Assírio & Alvim, 1994, p. 44

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Entrevista a André Barata: "A maior transformação que podemos produzir é começar a desacelerar"

Como se entrevista um filósofo? Divaga-se sobre questões existenciais? Discute-se o sentido da vida? Percorrem-se os conceitos filosóficos? Talvez isto tudo e o seu contrário, partindo de uma palavra que toda gente percebe, mas que temos dificuldade em definir: o tempo.

“Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo pergunta, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei…”. Santo Agostinho, “Confissões, Livro XI”.


A radicalidade expressa nesta nova publicação bebe doutros teóricos, mas submete-se sempre à ideia de que tudo se organiza pela velocidade do tiquetaque que dá ritmo à nossa existência. Essa "ditadura" tem, segundo o autor, efeitos sobre tudo:
O sistema económico
“A aceleração do tempo social serve um propósito muito objectivo de industrialização do acontecimento, tornando-o estruturalmente rentável, comercializável, unidade de troca e, uma vez isso, já assimilado ao sistema produtivo, tornando-o uma necessidade produtiva, a que os mecanismos de pressão social através dos media e da cultura hão-de atender. Não como quem diz tempo é dinheiro, com um sentido de urgência, mas com um sentido extractivista de exploração de todo o capital de medida e troca de acontecimentos existente numa porção de tempo.”
O trabalho
“O que vivemos hoje é realmente uma esquizofrenia. De um lado, a necessidade de trabalhar, compulsória; do outro, a inacessibilidade crescente a oportunidades de trabalho. O que seria razoável e justo era o trabalho ser mais livremente escolhido, por um lado, e mais acessível, por outro. Paradoxalmente, passa-se exatamente o oposto. Tornado tão inacessível e tão necessário ao mesmo tempo, as pessoas são pressionadas a aceitar qualquer trabalho e a não fazerem caso da diferença estimável entre trabalho desejável e trabalho indesejável, comprando uma competição absurda, e depressa perdida, com máquinas.”
A propriedade

"São, cada vez mais, bens cujo estatuto de realidade é mais resultado de uma delimitação jurídica do que de uma existência material. São bens com tempo de existência mas sem espaço, ou com informação mas sem corpo. Compramos experiências, uma estadia num airbnb por exemplo, compramos licenças de leitura de um livro ou de audição de uma música. Mas à conta de minuciosas interdições urdidas nas licenças de utilização, deixamos de poder dá-los, emprestá-los, ou largá-los num café para quem os quiser ler. Não somos proprietários dos livros que trazemos no Kindle como somos dos livros que guardamos na estante de casa."

“Enquanto proprietários, deixamos de ter o direito — e a possibilidade — de mobilizar a nossa propriedade contra a lógica de mercado desenhada. Os quadros jurídicos não o autorizam, as plataformas não o permitem.”
O Planeta
“Não será altura de nos perguntarmos o que nos empurra colectivamente para uma crescimento imparável e, assumindo que o sistema capitalista não se sustenta de outra forma, de nos perguntarmos sobre mexer nele alguma coisa?
Não é só estarmos a levar ao limite a capacidade do planeta, sentados nele com um peso muito acima do que recomendaria o Ikea que o tivesse construído. É a necessidade permanente de crescimento ser em si mesma fortemente anti-ecológica.”
As redes sociais
“Há uma aceleração da relação social com o tempo que se verifica de duas maneiras — por um lado, as durações encurtam, desde logo com bens e artefactos consumíveis submetidos à obsolescência programada; por outro, as mudanças multiplicam-se, desde logo com uma intensificação de estímulos que, no limite, procura preencher todos os momentos da existência, dando uma nova actualidade à velha ideia aristotélica de que a natureza tem horror ao vazio. Só não será tanto a natureza, mas uma natureza humana fabricada, de pessoas condicionadas a abominar o vazio quando a todo o instante têm de dar notícia de si numa rede social.”
Serão estas ideias anarquistas, comunistas, revolucionárias, marxistas, socialistas, libertárias, liberais? Haja tempo para as questionar e discutir. Foi o que fizemos.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Cartas de Agostinho da Silva para António Telmo

Arthur Pinjian

"Fui a Krishnamurti mais para o ver do que para o ouvir, e uma vez; acho que ele representa o melhor do pensamento indiano, ou oriental, se quiser, o princípio de que a reforma que vale é a reforma do indivíduo; os ocidentais vão pela reforma do exterior; a terceira posição é a dos ibéricos: as duas coisas ao mesmo tempo; os místicos eram conquistadores e os conquistadores místicos. 
Acresce ainda que ocidentais – indo-europeus – e orientais indo-europeus também (estou falando das fontes indianas) têm ambos a ideia de acção, interior ou exterior; aqui entra português, como o mais refinado dos ibéricos: temos a acção – dupla, ocidental e oriental – e o para além da acção (teologia do Espírito Santo); agir e em cada momento da acção estar inteiramente fora dela, olhá-la apenas como um dos fenómenos do universo, eis o que é português; ter fidelidade a uma coisa que é ao mesmo tempo destino e liberdade; recusar o que não seja tudo; não aceitar isto contra aquilo. 
Os portugueses hoje, coitados, acho que nem sabem que existem como portugueses; esperemos que ainda acordem no nosso tempo; dependerá de acordarmos nós plenamente primeiro, e de lhes dar depois uns bons gritos para os acordar a eles"


- Carta IX (12.10.68), in Cartas de Agostinho da Silva para António Telmo, p.53.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Documentário da Semana - Sobrevivendo ao Progresso / Surviving Progress (2011) Legenda PT


 

A ascensão da Humanidade é geralmente medida pela velocidade do progresso. Mas e se o atual progresso estiver-nos prejudicando, em direção ao colapso? Ronald Wright, autor do best-seller "A Short History Of Progress" (A Breve História do Progresso), que inspirou este documentário, mostra como as civilizações do passado foram destruídas pelas "armadilhas do progresso" - tecnologias fascinantes e sistemas de crença que atendem a necessidades imediatas, mas comprometem o futuro.
Com a pressão sobre os recursos mundiais aumentando e as elites financeiras levando nações ao fundo do poço, poderá nossa civilização globalizada escapar da catástrofe - a "armadilha do progresso" final?
Através de imagens marcantes e insights iluminadores, de pensadores que investigaram nossos genes, cérebros e comportamento social, este réquiem do modelo de progresso usual também propõe um desafio: provar que tornar macacos mais inteligentes não é um beco sem saída evolucionário.

Ler ainda a crónica de Maria Luísa Monteiro Franco, 10 Dezembro, 2014

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Our laws make slaves of nature. It’s not just humans who need rights, by Mari Margil

For decades our laws have been a death sentence for the environment. Now, from the Amazon to Australia, the tide is turning
Fonte: The Guardian
The Amazon rainforest is often called the earth’s lungs, and generates 20% of the world’s oxygen. Yet in the past half-century nearly a fifth of it has been cut down. The felling and burning of millions of trees is releasing massive amounts of carbon, in turn depleting the Amazon’s capacity to be one of the world’s largest carbon sinks – the natural systems that suck up and store carbon dioxide from the atmosphere.

Recently, 25 children brought a lawsuit to end the deforestation and its devastating impacts on the environment and their own wellbeing. The case made its way to Colombia’s supreme court, which issued its decision last month. While deforestation is hardly a new issue in this region, the court’s response to the lawsuit certainly was. Commenting that environmental degradation – not only in the Amazon but worldwide – is so significant that it threatens “human existence”, the court declared the Colombian Amazon a “subject of rights”.

In 1972 the law professor Christopher Stone published a seminal article, Should Trees Have Standing?, that explored the possibility of recognising the legal rights of nature. He described how women and slaves had long been treated as rightless in law, and suggested that just as they had eventually attained rights, so trees and other nonhuman living things should also do so.

Today, environmental laws regulate the human use and destruction of nature. They legalise fracking, drilling, and even dynamiting the tops off mountains to mine coal. The consequences are proving catastrophic: the die-off crisis of the world’s coral reefs, accelerating species extinction, climate change. Finally, though, this is changing. In 2006 the first law recognising the legal rights of nature was enacted in the borough of Tamaqua, Pennsylvania, in the United States. The community sought to prevent dredging sludge laden with PCBs (polychlorinated biphenyl) being dumped in an abandoned coalmine. The organisation I work for, the Community Environmental Legal Defense Fund, helped the council draft the law, transforming nature from being rightless to possessing rights to exist and flourish. It was the first such law in the world. Communities across more than 10 US states have now followed suit, including New Hampshire, Colorado and Pittsburgh.

After the decision to grant legal rights to nature in Pennsylvania, representatives of my organisation met Ecuador’s constituent assembly in 2008, which was elected to draft a new constitution. We discussed the rights of nature, and why communities all over the world find themselves unable to protect nature under laws that authorise its exploitation. The assembly’s president, Alberto Acosta, told us: “Nature is a slave.”

However, that year Ecuador enshrined the rights of nature – or Pachamama (Mother Earth) – in its constitution, the first country to do so. Since then Bolivia has put in place a Law of Mother Earth. Courts in India and Colombia have similarly ruled that ecosystems possess rights. In Mexico, Pakistan, Australia and other countries, rights-of-nature frameworks are being proposed and enacted.

Colombia’s supreme court was asked to consider the climate-change impacts of Amazon deforestation in the lawsuit that led to its groundbreaking ruling. Similarly, in Nepal the Center for Economic and Social Development is working to advance rights to protect against climate change. The Himalayas – known as the world’s third pole – are experiencing warming faster than any other mountain range on earth. With the melting of ice and snow, a Sherpa told us, “the mountains are turning black”. But now a constitutional amendment has been developed that would, if adopted, recognise the rights of the Himalayas to a climate system free from global-warming pollution. It would for the first time provide a platform for Nepal to hold major climate polluters accountable for violating the rights of the mountains.

Law today divides the world into two categories: persons, capable of having rights; and property, unable to possess rights. While there is no universally agreed upon definition of “legal person”, it is generally understood to mean an entity capable of bearing rights and duties. The problem that the rights-of-nature movement is now encountering is that this definition is predictably problematic when it comes to rivers, forests or nature more broadly.

In 2017, for example, the state high court in Uttarakhand, India, ruled that in order to protect the Ganges and Yamuna rivers, they should be considered legal persons with “all corresponding rights, duties and liabilities of a living person”. In a subsequent appeal to India’s supreme court, the state government asked whether, if the rivers flood, leading to the death of a human being, a lawsuit could be filed for damages. Could the Uttarakhand chief secretary of state, named by the court as one of several officials in loco parentis, be held liable on the river’s behalf? In this case, the supreme court decided not.

Can we hold a river accountable for flooding, or a forest for burning? Of course not. Yet existing legal systems force us to think of nature in terms of human concerns rather than what concerns nature. With the past three years the warmest in recorded history, and as we face what has been called the sixth great extinction, lawmakers and judges appear increasingly to agree that it is time to secure the highest form of legal protection for nature, through the recognition of rights.

To make progress in this area, we must break away from legal strictures that were never intended to apply to nature, such as legal personhood, and establish a new structure that addresses what nature needs. Perhaps we can call this framework legal naturehood. A recent symposium at Tulane Law School, in New Orleans, brought together academics, lawyers and activists to develop a set of guidelines for recognising and enforcing legal rights of nature, known as the rights-of-nature principles.

These define the basic rights that nature needs, including rights to existence, regeneration and restoration. Further, they call for monetary damages derived from violations of these rights to be used solely to protect and restore nature to its pre-damaged state. In addition, they outline a means for nature to defend its own rights – like children unable to speak for themselves in court – by being the named “real party in interest” in administrative and court proceedings. The principles build on laws and judicial decisions that have begun to accumulate in this new area of law, laying the groundwork for what legal naturehood could look like.

As daily headlines tell us how we are tearing holes in the very fabric of life on earth, it is time to make a fundamental shift in how we govern ourselves towards nature – before, as Colombia’s constitutional court wrote, it’s too late.

domingo, 3 de junho de 2018

É demasiado Tarde? Por Anthony Weston


É demasiado Tarde?

«Talvez esta Terra não precise da nossa salvação, de qualquer modo pode ser que mais uma vez, os seres humanos sejam resgatados no derradeiro acto , usando o seu distintivo cérebro para endireitar as coisas. Porém, nós nem sequer possuímos o maior cérebro das redondezas: essa honra vai para as baleias, algumas das quais têm cérebros seis vezes maiores do que o nosso, com regiões inteiras de cortex que ainda nem sequer começámos a entender. Por isso, pode ser, que se nós, de facto , estamos a viver alguma espécie de drama global, não sejamos os heróis, apesar de todas as odisseias espaciais e as nossas trepidantes cidades e tudo o mais. Talvez apenas sejamos extras.
O papel mais adequado e circunspecto seria o de olhar para nós mesmos. Quem precisamos, REALMENTE, de salvar somos NÓS PRÓPRIOS. Eu não quero dizer com isto que precisamos simplesmente de cuidar da nossa salvação, embora isso não fosse má ideia. A nossa tarefa agora, com alguma consciência ecológica, é a de APRENDER A VIVER COMO CO-HABITANTES NESTE PLANETA.(...) 
Precisamos de acabar com a destruição que pudermos - certamente. Reciclar e tudo o mais - certamente. Mas o trabalho a fazer, e que é mais difícil de reconhecer, consiste nas mudanças necessárias que dizem respeito aos padrões diários de atenção. Olhar as aranhas. Olhar os céus. Passear. Fazer jardinagem. Alimentar os pássaros. Escutar os pássaros. Falar com os animais.. (...) Esta é a espécie de “etiqueta” de que eu falo: não reivindicar todo o espaço para nós mesmos, aprender a ouvir, aprender a acolher um maior mundo, outras presenças, re-equacionar as nossas vidas. 
É demasiado tarde? »
Anthony Weston , Is it too late?, “An Invitation to Environmental Philosophy