sábado, 21 de abril de 2018

A verdadeira bondade humana, por Milan Kundera


“A verdadeira bondade humana, em toda a sua pureza e liberdade, mostra-se apenas quando o seu receptor não tem qualquer poder. O verdadeiro teste moral da humanidade, o seu fundamental teste [...], consiste na sua atitude em relação àqueles que estão à sua mercê: os animais. E, a este respeito, a humanidade sofreu um fundamental desastre, um desastre tão fundamental que todos os outros [desastres] decorrem dele.”


Milan Kundera in "A Insustentável Leveza do Ser"

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Eco Summit 2018 em Torres Vedras resultou numa carta de compromisso

Escuteiros organizaram evento sobre sustentabilidade ambiental


Organizado pelo agrupamento 496 da Freiria do Corpo Nacional de Escutas, em conjunto com a Câmara Municipal, o evento teve como tema “Problemas Globais exigem Ações Locais”. Durante a manhã houve intervenções sobre vários temas e à tarde os participantes constituíram-se em grupos de discussão sobre os cinco temas das intervenções. No final foi elaborada uma carta de compromisso, que as cerca de 90 pessoas presentes assinaram.

Eco Summit 2018

A sessão de abertura do Eco Summit 2018 contou com as intervenções do presidente da Câmara, Carlos Bernardes, e Diana Peralta, da organização. Seguiram-se as intervenções dos oradores convidados. José Machado, engenheiro electrotécnico, falou sobre fontes de energia alternativas. José Carlos Ferreira, também engenheiro mas agrónomo, especialista em agricultura biológica, falou sobre produção e hábitos alimentares sustentáveis.

Empresas como motor de sustentabilidade ambiental” foi o tema exposto por Simão Marçal, especialista em práticas sustentáveis enquanto sócio-gerente de várias empresas. José Henriques, médico oftalmologista e escuteiro há 40 anos, utilizador de veículos eléctricos, referiu-se à sua experiência na área da mobilidade sustentável. A psicóloga Margarida Fialho, também escuteira, focou a sua intervenção no indivíduo: “Eu” como motos de sustentabilidade ambiental.

No final saiu uma carta de compromisso subscrita pelos presentes, com cinco tópicos relacionados com os cinco temas apresentados no evento. No que se refere às fontes de energia alternativas, o documento sugere a redução o IVA para aquisição de sistemas fotovoltaicos, sensibilização da população para reduzir os resíduos sólidos e algumas sugestões à Câmara Municipal para tornar o concelho mais sustentável.

Mudança de hábitos

No capítulo dos hábitos alimentares sustentáveis, as propostas indicam sobretudo a educação e a formação dos cidadãos, para além da mudança de hábitos. As empresas têm também um papel importante na sustentabilidade ambiental e a carta de compromisso do Eco Summit enumera várias medidas a tomar. Nomeadamente, a criação de rankings de empresas e o ajuste da taxa da derrama municipal em função da classificação ambiental obtida anualmente pelas empresas.

Nos outros dois pontos da carta de compromisso é referida a necessidade de promover a mobilidade sustentável através de vários incentivos e, por outro lado, é indicada uma lista do que é que cada indivíduo pode fazer para ser actor da mudança. Designadamente diminuir a utilização de sacos de plástico nas compras, organizar acções de formação para ensinar as pessoas a produzirem desodorizantes e cosméticos caseiros, instalação de pontos de compostagem públicos e sensibilizar os alunos das escolas para hábitos alimentares mais sustentáveis, entre outras propostas.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Lisboa finalista a Capital Europeia Verde em 2020, Guimarães de fora

Largo do Carmo, Lisboa

Capital portuguesa vai concorrer com Gent (Bélgica) e Lahti (Finlândia).

Lisboa é novamente finalista na corrida ao título de Capital Europeia Verde de 2020, que vai disputar com as cidades de Gent (Bélgica) e Lahti (Finlândia), e ao qual também concorria Guimarães, anunciou hoje a Comissão Europeia.

As três cidades repetem a condição de finalista na categoria de cidades com mais de 100 mil habitantes, que no ano passado disputaram juntamente com Talin (Estónia) e Oslo (Noruega), que acabou por vencer.

Segundo a Comissão Europeia, este prémio é atribuído anualmente com o objetivo de reconhecer os esforços das cidades com um plano para se tornarem amigas do ambiente e que envolvam a sua população na sustentabilidade ambiental, social e económica.

O presidente da Câmara de Guimarães já lamentou que a cidade não seja finalista na corrida ao prémio , prometendo que voltará a ser candidata àquela distinção.

"Estamos orgulhosos do trabalho feito e dos resultados já conquistados, vamos intensificar o nosso esforço e o nosso trabalho para apresentar uma nova candidatura, convictos da forte esperança que temos para aspirar a ser Capital Europeia Verde", afirmou, em declarações à Lusa, Domingos Bragança, que felicitou ainda a cidade de Lisboa.

Domingos Bragança deixou ainda um apelo: "Convoco todos os vimaranenses para trilharem este caminho do desenvolvimento sustentável, na certeza que a força que emana da nossa comunidade será o garante do sucesso que desejamos conquistar", disse.

Até à data, dez cidades receberam o título de Capital Europeia Verde: Estocolmo (Suécia, 2010), Hamburgo (Alemanha, 2011), Vitoria-Gasteiz (Espanha, 2012), Nantes (França, 2013), Copenhaga (Dinamarca, 2014), Bristol (Reino Unido, 2015), Ljubljana (Eslovénia, 2016), Essen (Alemanha, 2017), Nijmegen (Holanda, 2018) e Oslo (Noruega, 2019).

Ao Prémio Europeu Folha Verde 2019 (cidades entre 20 mil e 100 mil habitantes) são finalistas Cornellà de Llobregat (Espanha), Gabrovo (Bulgária), Horst aan de Maas (Holanda), Joensuu (Finlândia) e Mechelen (Bélgica).

A cidade de Santarém era uma das candidatas a esta distinção.

Cinco cidades já foram distinguidas com o Prémio Europeu Folha Verde: Mollet del Vallès (Espanha 2015), Torres Vedras (Portugal 2016), Galway (Irlanda, 2017) e empatadas Leuven (Bélgica) e Växjö (Suécia), em 2018.

As cidades finalistas aos dois prémios terão agora de comprovar junto de um júri internacional o seu compromisso com o desenvolvimento urbano sustentável, a sua capacidade de servirem de exemplo junto de outras cidades e também de envolverem os seus cidadãos nestas temáticas.

Os vencedores serão anunciados a 21 de junho na cidade holandesa de Nijmegen.

Fonte:tvi24

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Estudo de caso: A lagarta exótica Helicoverpa armigera (monocultura vs agrofloresta)


O Brasil vai exportar megapragas? A lagarta exótica Helicoverpa armigera vem assombrando as lavouras de soja, milho e algodão do país há vários anos, pressionando inclusive para a liberação brasileira de sucessivos agrotóxicos antes proibidos pela Anvisa  e pelo Ibama. Ano após ano, a lagarta que causa perdas econômicas para produtores é, também, a mesma a que causa uma receita bilionária às fabricantes estrangeiras de pesticidas. Em janeiro deste ano, mais um novo agrotóxico foi liberado  no Brasil, outro veneno para tentar conter a tal lagarta. Estudos sobre estas superpragas realizado por pesquisadores ingleses, americanos e australianos, tanto do PNAS e CSIRO, demonstram que a tal lagarta híbrida já é uma megapraga, com muitas mudanças genéticas resistentes a todos os pesticidas do mercado. Os cientistas alertam para o risco mundial. 


Saiba mais:

Fonte: Árvore, Ser Tecnológico, 11.04.08

terça-feira, 17 de abril de 2018

Fracturação hidráulica- Portugal considerado um mau exemplo ambiental




Uma vitória amarga. Portugal encabeça o pódio na lista dos piores apoios à exploração de combustíveis fósseis. O prémio é uma iniciativa da CAN Europe (Rede Europeia para a Ação Climática).

Em causa está a licença ao consórcio Galp/Eni para exploração de petróleo em grande profundidade ao largo de Aljezur. O projeto na Costa Vicentina está em consulta pública até esta segunda-feira e é contestado por autarcas da Região de Turismo do Algarve e dezenas de associações ambientalistas locais e nacionais.

Este prémio vem dar visibilidade internacional ao processo de exploração de petróleo ao largo de Aljezur. O presidente da ZERO, associação que integra a Rede Europeia para a Ação Climática, considera que, ao permitir esta licença, o Governo português entra em contradição com o discurso da Neutralidade Carbónica. Francisco Ferreira fala mesmo numa "esquizofrenia" na área das alterações climáticas.

"Por um lado, somos campeões das renováveis, o mundo conhece-nos pelos recordes que estamos a conseguir alcançar, muito ambiciosos na eficiência energética, com o roteiro a caminho da neutralidade carbónica em 2050; por outro lado, não temos a capacidade de assumir que iniciar agora a prospeção e eventual exploração de petróleo não é o caminho", defende.

Para Francisco Ferreira, "é inaceitável que o Governo continue a favorecer o acesso das companhias petrolíferas, quer nacionais, quer estrangeiras, à área de exploração marítima e de conservação marítima que deve ser preservada".

Portugal leva o ouro nestes prémios que distinguem os piores desempenhos na exploração de combustíveis fósseis. É seguido pela Polónia, pelo incentivo a centrais de carvão obsoletas, e por Espanha, por subsidiar a utilização de carvão nas ilhas Baleares.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Aldo Leopold- A Estética da Terra


Resumo
A máxima leopoldiana, “Algo é bom quando preserva o equilíbrio, a integridade e a beleza da comunidade biótica”, constitui, em simultâneo, o corolário normativo da exposição do autor e a sua tese nuclear, guiando a escrita do ensaio, Sand County Almanac, no propósito demonstrativo de que a diversidade e a integridade ecológicas são inseparáveis da beleza natural, e, nesse sentido, afirmam-se como princípios da acção correcta, estruturadores da relação do humano com a terra

Palavras-chave: Leopold, ética da terra, estética da terra, valor estético, valor ecológico


1

Num ensaio crítico de 1966, o filósofo escocês Ronald Hepburn [2] apresenta as razões para o desprezo que a estética contemporânea dirige ao belo natural defendendo que tal desprezo é, ipsis verbis, algo muito mau. 

Se, de facto, a partir do século XIX, a vulgarização da beleza “pitoresca” do mundo natural o deixou de fora de uma teoria estética inteiramente devotada à reflexão sobre a arte, assinala-se, porém, que, em paralelo a esta tendência blasé e urbana da Estética, o tema do belo natural não deixou de ser declinado em conjunção com o bem numa linha de pensamento cujas raízes mergulham na antiguidade e que, ainda no século XIX, informou o pensamento dos pioneiros ambientalistas abrindo caminho para a compreensão da estética natural no contexto da acção preservacionista. Thoreau, Emerson e Muir exploraram no novo Mundo não só a riqueza incorrupta das suas múltiplas formas geológicas vegetais e faunísticas, como também as modalidades do pensamento que associa o belo natural ao agir, desbravando a via que viria em meados do século XX a impor um novo contexto à reflexão ética e estética - a natureza. 

Justamente neste contexto, a Estética Ambiental constitui um emergente campo reflexivo, recrudescente com a crise ecológica, que enfrenta, todavia, claras dificuldades em exprimir-se de forma coerente e eficaz na prática ambientalista. Com efeito, embora o belo natural se imponha em algumas abordagens de ética ambiental, nomeadamente na de Aldo Leopold, a argumentação que sustenta a acção de preservação de ecossistemas ou áreas naturais específicas, convoca, prioritariamente, os valores ecológicos (como o da biodiversidade, ou os da integridade e qualidade ecológicas), sendo, a maior parte das vezes, omissa em relação ao seu valor estético. Uma omissão que parece ignorar a história da acção ambientalista demonstrativa que a adesão, o sucesso e as decisões conservacionistas decorrem mais frequentemente pelo lado da estética natural do que pelo lado da ética, mais em função da beleza da natureza do que da obrigação moral dos agentes, como o filósofo ambiental Baird Callicott [3] testemunha: 
“No que toca à conservação e gestão de recursos, a estética natural tem sido historicamente, na verdade, muito mais relevante do que a ética ambiental. grande parte das decisões conservacionistas foram motivadas mais pela estética do que pelos valores éticos, mais pela beleza do que pelo dever.” Callicott, 2008:107. 

domingo, 15 de abril de 2018

Poema da Semana: Eco Lógico (autor desconhecido)


Eco lógico

Se aos pássaros perguntares.
Quem polui os nossos ares,
onde os pulmões se consomem,
o eco, lógico, responde:
... homem... homem... homem...

E o húmus de nosso chão,
que resta pro nosso pão
logo após uma queimada?
O eco, lógico, responde:
... quase nada... quase nada...

O que era o Saara?
A Amazônia o que será?
Um futuro muito incerto?
O eco, lógico, responde:
... só deserto... só deserto...

O que reta, desmatando,
o que sobra, devastando,
ao homem depredador?
O eco, lógico, responde:
... só a dor... a dor... a dor...

Que precisa a natureza
pra manter sua beleza
e amainar a sua dor?
O eco, lógico, responde:
... mais amor... amor... amor...

Autor Desconhecido

sábado, 14 de abril de 2018

Petição: Reconhecimento dos Direitos Intrínsecos da Natureza e de Todos os Seres Vivos


Há hoje um amplo consenso em torno da gravidade do processo das alterações climáticas, fruto da modificação da estrutura química da atmosfera pelo Homem, pelo incremento da produção de gases com efeito de estufa, conforme evidenciam as conclusões do Quinto Relatório do Grupo II do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, da Organização das Nações Unidas, realizado entre 2013 e 2014. A velocidade e magnitude das mudanças climáticas em curso excedem a capacidade de adaptação dos organismos vivos e ameaçam a nossa existência interdependente. Alguns cientistas falam de uma nova era geológica, o Antropoceno, caracterizada pelo poder da acção humana alterar o frágil equilíbrio da rede de sistemas da estrutura do Planeta [Crutzen, P.J. e Stoermer, E.F. (2000) “The Antropocene”, Global Change Newsletter. 41, pp 17-18, citado por Viriato Soromenho-Marques no artigo “Entre a Crise e o Colapso. O Desafio Ontológico das Alterações Climáticas”, Dezembro de 2009]. 

Estudos científicos recentes demonstram que o aquecimento global da atmosfera e dos oceanos aumenta a uma velocidade maior do que se supunha; crescem as concentrações de CO2 e de metano, os mais importantes gases com efeito de estufa; o degelo polar continua; o nível das águas dos mares subiu; a erosão das zonas costeiras, a perda de biodiversidade e da floresta tropical são factos indesmentíveis, bem como o extermínio da vida nos oceanos; a maioria das mudanças observadas desde os anos 50 não tem precedentes na História da humanidade, tendo as Nações Unidas declarado que enfrentamos a maior catástrofe planetária jamais vista (The World Economic and Social Survey 2011: The Great Green Technological Transformation); 

Na verdade, a demanda da satisfação das necessidades básicas de uma população em crescimento, dentro da finitude dos recursos da Terra, torna necessário criar um modelo de produção e de consumo mais sustentável, pois o actual coloca-nos em rota de colisão com a Natureza. 

Desde a Revolução Industrial, a Natureza tem sido sempre tratada apenas como uma mercadoria (commodity) existente para benefício das pessoas no interior de uma economia de mercado e os problemas ambientais têm sido considerados passíveis de ser solucionados fragmentadamente e mediante o recurso à tecnociência. Contudo, tais sustentações devem ser reavaliadas e alteradas. 

O paradigma mecanicista e antropocêntrico, que regula o modo de fruição da Natureza - concebida como objecto de direitos - , provou ser inadequado para a protecção efectiva do ambiente e dos recursos naturais e para alcançar a sustentabilidade, permitindo, ao invés, a sua continuada degradação, antevendo-se sérias repercussões se nada for feito. 

Viver em harmonia com a Natureza é essencial à vida. A crise global do ambiente é o resultado da total desconsideração dos custos ambientais na tomada de decisões políticas e económicas. 

Assim: 

1) Considerando que todos têm direito a um ambiente de vida humano, sadio e ecologicamente equilibrado e o dever de o defender; que é tarefa fundamental do Estado defender a natureza e o ambiente e preservar os recursos naturais, bem como promover a efectivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais, mediante a transformação das estruturas económicas e sociais (arts. 66.º e 9.º als. d) e e) da Constituição da República Portuguesa, doravante CRP); 


2) Considerando que a integração das exigências de protecção ambiental na definição e execução das demais políticas globais e sectoriais é essencial para a redução da pressão sobre o ambiente, sendo expressão do princípio da transversalidade e da integração, com acolhimento na al. a) do art. 4.º da Lei de Bases do Ambiente, aprovada pela Lei n.º 19/2014, de 14 de Abril (doravante, LBA), constituindo também uma incumbência do Estado com consagração constitucional, na al. f) do art. 66.º da CRP; 

3) Considerando que o princípio do conhecimento e da ciência, acolhido também no mesmo preceito da LBA, obriga a que o diagnóstico e as soluções dos problemas ambientais resultem da convergência dos saberes sociais com os conhecimentos científicos e tecnológicos provenientes de fontes fidedignas e isentas (al. c) do art. 4.º); 

4) Considerando a manifesta inadequação do acervo normativo ambiental vigente para fazer face à crise global do ambiente que reclama uma nova abordagem holística, sistémica e inclusiva, promotora da protecção efectiva da Natureza, da qual são parte integrante todos os seres, humanos e não humanos, assente na visão da Terra como um organismo vivo (Gaia), e não como um “conglomerado de matéria inerte (os continentes) e água (os oceanos, lagos e rios)”, “um todo relacional, inter-retro-conectado com tudo e maior que a soma das suas partes” nas expressões significativas de Leonardo Boff; 

5) Considerando que a actuação pública em matéria de ambiente se encontra subordinada aos princípios do desenvolvimento sustentável e da responsabilidade intra e inter-geracional, visando a garantia da preservação dos recursos naturais para a presente e futuras gerações (art. 3.º, als. a) e b) da LBA); 

6) Considerando que a degradação em curso dos componentes ambientais naturais que são objecto da política de ambiente (o ar, a água e o mar, a biodiversidade, o solo, o sub-solo, e a paisagem, de acordo com o estabelecido no art. 10.º da LBA) reclama dos poderes públicos novas soluções protectoras da sua integridade, de que dependem todos os seres para viver; 

7) Considerando que o ordenamento jurídico ambiental vigente assenta numa concepção da natureza como objecto de direitos de propriedade (pública ou privada), regulando prima facie o seu uso ou fruição, ainda que lesivo da sua integridade, e que as alterações climáticas revelam o fracasso desta abordagem; 

8) Considerando, ainda, que a União Europeia concordou em estimular a transição para uma economia verde, num contexto de desenvolvimento sustentável (Conclusões do Conselho de 11 de Junho de 2012); 

Almejando instituir uma verdadeira Ética Ecológica ou Ética da Terra [expressão cunhada por Aldo Leopold], que torne possível a efectivação dos direitos ambientais, torna-se necessário que o ordenamento jurídico reconheça o valor intrínseco da Natureza e dos componentes ambientais naturais e que actue em conformidade, dando corpo a um novo paradigma assente no reconhecimento da Natureza como fonte de vida e da vida e, como tal, sujeito de direitos intrínsecos próprios merecedores de uma tutela jurídica robusta, garante da observância de um acervo de deveres legais de cuidado e respeito cuja imperatividade se imponha a todos os demais sujeitos de direitos; 

Considerando também que esta visão já foi traduzida normativamente em diversos países, como o Equador, a Bolívia, o México e a Índia, apenas para citar alguns; 

Considerando que existe uma convergência entre aqueles que defendem a necessidade do reconhecimento da Natureza como sujeito de direitos e aqueles que sustentam a urgência de dar expressão legal mais estrita e positiva aos nossos deveres para com ela, pois em ambos os casos a Natureza é compreendida como conditio sine qua non para que seja alcançada a sustentabilidade a longo prazo do ambiente e dos ecossistemas que constituem o suporte das actividades humanas, incluindo as actividades económicas, e a harmonia entre a humanidade, presente e futura, e o mundo natural, de que somos parte intrínseca; 

Considerando que a consagração dos direitos da Natureza, ou dos nossos inadiáveis deveres para com ela, na ordem jurídica interna, mais não é do que a concretização dos princípios da Carta da Terra, fundada nos mais recentes e consolidados conhecimentos da ciência contemporânea, nos ensinamentos dos povos indígenas, na sabedoria perene das grandes tradições religiosas e filosóficas do mundo e nas declarações e relatórios das conferências Mundiais das Nações Unidas realizadas em 1972, 1992, 2002 e 2012, bases do movimento ético mundial dirigido à construção de um mundo sustentável baseado no respeito pela Natureza e pelos direitos humanos universais, fundamentos de uma cultura da fraternidade e da paz. [www.EarthCharter.org]; 

E na senda do exemplo pioneiro do Equador, que acolheu, no seu texto constitucional, em 2008, o denominado direito da Natureza, reconhecendo a Natureza como sujeito de direitos; 

As cidadãs e os cidadãos abaixo assinados vêm peticionar à Assembleia da República o seguinte: 

Que adopte medidas legislativas no sentido de reconhecer que a cabal defesa dos direitos humanos fundamentais, em especial o pilar do direito à vida, não só não é incompatível como, pelo contrário, exige o reconhecimento de direitos subjectivos à Natureza e aos componentes ambientais naturais, assente no seu valor intrínseco e não meramente utilitário, consagrando, nomeadamente, o direito ao respeito pela sua vida e integridade, que inclui o direito à manutenção e regeneração dos seus ciclos vitais ou ecossistemas, estrutura, funções e processos evolutivos; que legisle no sentido de investir o Estado e todos os cidadãos do dever de promover o respeito por todos os elementos integrantes de qualquer ecossistema, onde se incluem todos os seres vivos, dotados igualmente de valor intrínseco; que estabeleça o direito a que qualquer pessoa ou entidade exija de qualquer autoridade pública, nomeadamente dos Tribunais, a defesa dos direitos subjectivos da Natureza e de todos os seus componentes, tal como previstos na LBA, convocando todos à adopção de um código de conduta universal que não comprometa a integridade dos ecossistemas e das espécies com que coexistimos.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Marcha "Enterrar de vez o furo"




A ameaça de furos de petróleo paira sobre nós. Adiamentos, prorrogações, avaliações de impacto ambiental, renegociações… É hora de acabar de vez com as ameaças de furo de petróleo em Portugal. A força das populações, movimentos e autarcas, unidos a uma só voz para dizer não, para dizer que um furo de petróleo é uma guerra, será ouvida.

Porque precisamos de deixar de consumir combustíveis fósseis, de parar de investir numa indústria obsoleta que nos empurra a todos para o abismo, dizemos não. Porque precisamos de preservar o nosso litoral e o nosso interior, salvaguardar a sua biodiversidade da poluição catastrófica que significa o petróleo e o gás, dizemos não. Porque respeitamos as populações, actuais e futuras, dizemos não. Porque temos de travar as alterações climáticas e só o faremos se pararmos definitivamente de explorar e queimar hidrocarbonetos, dizemos não! Vamos enterrar de vez este furo, acabar com todos estes contratos e correr de vez para as energias limpas, rumo ao futuro.

Dia 14 de abril marchamos, desde o Largo de Camões até à Assembleia da República. Marchamos, vindos do Norte e do Sul, do Algarve, do Alentejo, de Peniche, do Porto, da Batalha e de Pombal. Marchamos pelo futuro. Vamos enterrar de vez este furo.

Subscritores (em atualização):
Academia Cidadã, Alentejo Litoral pelo Ambiente, ASMAA – Algarve Surf and Maritime Activities Association, Bloco de Esquerda, Climate Reality Project Portugal, Climáximo, Coletivo Clima, Coopérnico, Famalicão em Transição, Futuro Limpo, GAIA – Grupo de Acção e Intervenção Ambiental, Linha Vermelha, Livre, Movimento Alternativa Socialista, Movimento Ibérico Antinuclear, Núcleo Académico para a Protecção Ambiental do ISCSP, Núcleo do Ambiente da FLUL, Peniche Livre de Petróleo, PAN – Pessoas Animais, Natureza, Partido Ecologista “Os Verdes”, Plataforma Algarve Livre de Petróleo, Preservar Aljezur, Stop Petróleo Vila do Bispo, Sciaena, SOS – Salvem o Surf, Tamera, Tavira em Transição, TROCA – Plataforma por um Comércio Internacional Justo, Um Ativismo por dia, Zero.
As organizações que gostariam de subscrever a convocatória, podem enviar email a enterrardevezofuro@ salvaroclima.pt 

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Alterações climáticas podem tornar Portugal mais seco, sem praias e sem turismo, alerta Rajendra Pachauri



Nobel da Paz Rajendra Pachauri alertou, nesta segunda-feira, para as alterações climáticas que afectarão as praias, a agricultura, a pesca e até o vinho.

Portugal pode mudar drasticamente em meio século, com as alterações climáticas a tornarem o país mais desértico, a afectarem as praias, a agricultura, a pesca e até o vinho, alertou nesta segunda-feira o Nobel da Paz Rajendra Pachauri.

Pachauri, que foi Nobel da Paz em 2007, foi nesta segunda-feira um dos oradores numa conferência sobre alterações climáticas no âmbito do ciclo Conferências do Estoril.

O responsável foi presidente do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, e é o fundador e mentor do movimento Protect Our Planet (POP).

Nesta segunda-feira, perante uma sala cheia de jovens na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, falou do projecto POP e começou por salientar que a melhor forma de lidar com as alterações climáticas é envolver os jovens, exortando-os depois a consumir menos e comer melhor (“Comam menos carne, serão mais saudáveis e é bom para o planeta”) e a plantarem árvores, para que a Península Ibérica não tenha no futuro o clima que hoje tem o Norte de África.

O especialista lembrou aos presentes que as temperaturas e o nível do mar (com tsunamis mais devastadores) têm vindo a subir desde meados do século passado, à medida que as emissões de gases com efeito de estufa também aumentaram, e salientou que situações climáticas extremas observadas desde 1950 estão relacionadas “com a interferência humana”.

“O Árctico deixará de ter gelo”

E depois, acrescentou, se nada for feito em relação a essas emissões, no futuro os fenómenos extremos serão mais frequentes e intensos e, por exemplo, o Árctico deixará de ter gelo. “Já imaginaram isso? Vai ser no vosso tempo”, disse.

E o Sul da Europa, onde Portugal se inclui, vai ver o avanço do mar, mudanças no turismo e na agricultura, o mar terá peixes diferentes dos que se costumam consumir agora, a vinha vai mudar e haverá mais mortes e doenças.

“O que é que estamos a fazer ao nosso planeta? Não temos outro sítio para onde ir”, disse Rajendra Pachauri, que se afirmou, ainda assim, um optimista e que salientou três acções que terão de ser tidas em conta desde já para mitigar os efeitos das alterações climáticas: o uso mais eficiente da energia, usar energias limpas e reduzir a desflorestação.

As alterações climáticas são reais, estão a afectar-nos, são más, são comprovadas cientificamente e ainda há esperança, disse, centrando o seu optimismo no combate às alterações que está a ser feito um pouco por toda a parte.

“Gostaria que o meu país, a Índia, fizesse mais”, disse, concluindo que sem mudanças para reduzir as emissões de gases, a vida no planeta vai tornar-se “muito mais difícil”.

Na mesma linha, o secretário de Estado adjunto e do Ambiente, José Mendes, lembrou que Portugal está a sentir os efeitos das alterações climáticas, como as altas temperaturas, os grandes incêndios ou a erosão costeira, mas salientou que “ninguém no planeta” deixa de ser afectado.
“O tempo de agir é agora”

“Este é o momento para a acção. Já temos o diagnóstico, o tempo de agir é agora. E a acção é a adaptação (às alterações) e a mitigação”, disse, salientando a necessidade de se viajar de forma mais sustentável e de se aumentar a eficiência energética dos veículos. E depois, concluiu, é preciso proteger o planeta, mas proteger também as pessoas mais vulneráveis.

Carlos Carreiras, presidente da Câmara de Cascais, que encerrou a conferência, alertou para o facto de as alterações climáticas não serem algo que vai apenas afectar as pessoas do futuro. “Já são os meus netos que serão prejudicados, se não fizermos nada, não é ninguém desconhecido”, disse.

Rajendra Pachauri já tinha também chamado a atenção para a proximidade temporal dos efeitos maiores das alterações. E sempre focado nos jovens deixou um último recado: “Os jovens têm se ser parte da solução, não do problema.”

quarta-feira, 11 de abril de 2018

SOS Florestas

@roberta_clubedabiologia
Conservar as florestas não é apenas conservar espécies, o que já é fundamental por si só, mas é também manter as relações ecológicas, a integração com os fatores abióticos e serviços ecossistémicos como remoção de dióxido de carbono da atmosfera, fornecimento de água, purificação do ar, produção de frutos e fármacos, dentre outros. Para garantirmos a sobrevivência das novas gerações é fundamental a manutenção das florestas. Pense nisso e aja sobre isso!

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Exposição ao glifosato na gestação e período gestacional encurtado


Um novo estudo sobre a presença de glifosato em mulheres grávidas de Indiana Central confirma que este herbicida amplamente utilizado foi detectado no organismo das grávidas. Os resultados também sugerem que a exposição pré-natal ao glifosato pode estar ligada a parto pré-termo.
Durante este trabalho de investigação foram colhidas amostras de urina das 71 mulheres grávidas, bem como: amostras de alimentos e água consumidos por estas mulheres. Os níveis de glifosato na urina foi então correlacionado com os indicadores de crescimento fetal e duração da gravidez.
O estudo revelou que, em geral, a exposição ao glifosato durante a gravidez foi associada a gestações mais curtas, que por sua vez, foram correlacionados com consequências adversas para a saúde destas crianças ao longo da vida.

Artigo científico da Environmental Health aqui
E também publicado na Pesticide Action Network

Apelo para uma Aliança pela Floresta Autóctone



Lançado ciclo de debates públicos em torno da Floresta Autóctone


São já mais de 1000 os cidadãos que subscreveram um Apelo, lançado no final de setembro de 2017, no qual se exprime a recusa firme da passividade perante o estado em que se encontra o nosso território e o seu coberto vegetal.

Inconformado com as medidas adotadas para fazer frente aos contínuos ciclos de incêndios, um grupo de quatro pessoas tomou a iniciativa de apelar aos seus concidadãos no sentido de assumirem em conjunto uma posição interventiva nesse domínio. Embora a ideia já viesse de trás, e tivesse tido uma primeira formulação em outubro de 2016, a tragédia de Pedrógão Grande em junho de 2017 fez ecoar com maior urgência um sentido de responsabilidade social, moral e ambiental no seio desta iniciativa, que tomou a forma de Apelo para uma Aliança pela Floresta Autóctone.


Os promotores dessa Aliança deram início no Porto, no passado sábado 17 de março, a um ciclo de debates públicos em que diferentes palestrantes, sucessivamente e em diferentes lugares do País, apresentarão a sua visão para o renascimento da Floresta Autóctone em Portugal e a debaterão em seguida com os cidadãos presentes. No primeiro debate foi interveniente inicial Jorge Paiva, professor e investigador da Universidade de Coimbra, botânico, ecólogo e ecologista de reputação nacional e internacional. O segundo deverá decorrer em Aveiro em maio, sábado, sendo interveniente inicial Helena Freitas, Professora e Investigadora da Universidade de Coimbra, que coordena a Unidade de Investigação e Desenvolvimento «Centre for Functional Ecology – Science for People and the Planet» [Centro de Ecologia Funcional] e a Cátedra Unesco em Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável, tendo sido presidente da Sociedade Portuguesa de Ecologia e da Liga para a Proteção da Natureza e, mais recentemente, coordenadora da Unidade de Missão para a Valorização do Interior. Outros intervenientes e outros locais serão anunciados a seu tempo.

O apelo, que tem em vista provocar uma mudança de mentalidade na forma como a Floresta é gerida em Portugal, continua a recolher assinaturas em https://florestautoctone.webnode.pt/ 
Dirige-se aos cidadãos e às entidades que partilhem a vontade de se comprometerem numa profunda mudança do atual paradigma florestal em Portugal.

Primado da Floresta Autóctone

No texto lê-se que os quatro subscritores iniciais do Apelo defendem valores que assentam no primado da Floresta Autóctone e apelam à necessidade de se reabilitarem estruturas humanas e materiais como os Guardas e Viveiros Florestais. Questionam ainda o atual modelo das extensas monoculturas de eucalipto e pinheiro-bravo em território nacional. É com base nestas premissas que os subscritores do Apelo incentivam a que se constituam, nomeadamente a nível concelhio, círculos de entreajuda e de intervenção para salvaguarda do património natural com vista a uma efetiva prevenção contra os incêndios.

Os subscritores esperam que esta iniciativa favoreça uma tomada de consciência capaz de conduzir a uma maior observância da legislação de proteção em vigor e que as instituições públicas assumam o compromisso de agir diligentemente de forma a impedir que a ocorrência de incêndios e o plantio de monoculturas continuem a predominar.

Os autores do apelo acreditam que o restauro da floresta depende de um futuro liberto do flagelo sistemático dos incêndios sendo para isso necessária a recuperação da floresta autóctone em Portugal.



Para mais informações: Email: florestautoctone@gmail.com | 918527653
Fonte: email da Campo Aberto, 17/3/2018 (adaptado)

domingo, 8 de abril de 2018

Peixes incubadores bucais



Entre os peixe-cabeça-amarela (Opistognathus aurifrons) o macho é um incubador bucal. Ou seja, após o acasalamento com a fêmea, ele recolhe os ovos e os carrega com a boca, protegendo-os até que os filhotes estejam desenvolvidos. Durante esse período, o macho não come e fica subnutrido, voltando a se alimentar após a eclosão dos ovos.
Foto de Steve Kovacs

Também vemos este exemplo nos Melanochromis auratus (vulgo Auratus) que é um ciclídeo africano. Porém, é a fêmea que faz esse afago aos futuros alevins.

sábado, 7 de abril de 2018

Arte e Ciência (biológica) neste caso


Estas "colónias" são bordados maravilhosos produzidos pela artista Elin Thomas. Estes não são fungos. Na verdade são bordados!!! A artista mimetiza as colónias na sua obra. Tem mais trabalhos, nomeadamente com corais.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Palhinhas de plástico- Um activismo por dia


Não é só uma palhinha... São milhões!
Feitas de petróleo, libertam gases de efeito de estufa na sua produção (Metano, CO2..), Mil milhões usadas por ano só em Portugal, Não são recicladas, Vão parar a aterros ou ao mar, demoram centenas de anos a degradar.

💡 Curiosidade: A Straw Patrol, numa das suas ações de limpeza de praia apanhou 450 palhinhas, em 1h!

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Encontros Improváveis- Gerald D. Waxman e Van Gogh

Vincent van Gogh, Starry Night Over the Rhône, 1888

PT
A verdade espectacular é - e isso é algo que o seu DNA sempre soube - os próprios átomos do seu corpo - o ferro, cálcio, fósforo, carbono, azoto, oxigénio e assim por diante - foram inicialmente forjados em estrelas mortas . É por isso que, quando está do lado de fora, sob um céu rural sem lua, você se sente um pouco inefável puxando suas entranhas. Nós somos coisas de estrela. Continue olhando para cima. ~ Gerald D. Waxman in Astronomical Tidbits

EN
The spectacular truth is — and this is something that your DNA has known all along— the very atoms of your body — the iron, calcium, phosphorus, carbon, nitrogen, oxygen, and on and on — were initially forged in long-dead stars. This is why, when you stand outside under a moonless, country sky, you feel some ineffable tugging at your innards. We are star stuff. Keep looking up. ~Gerald D. Waxman in Astronomical Tidbits

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Documentário "Life in Syntropy" - Agricultura Regenerativa, Agricultura Sintrópica (assista o video- legends in English)



PT
"Vida em Sintropia" é o novo curta do Agenda Gotsch. Uma edição feita especialmente para ser apresentada em eventos na COP21 em Paris, com um compilado de experiências expressivas em Agricultura Sintrópica. Imagens e entrevistas inéditas.

EN
"Life in Syntropy" is the new short film from Agenda Gotsch made specially to be presented at COP21 - Paris. This film put together some of the most remarkable experiences in Syntropic Agriculture, with brand new images and interviews. 


terça-feira, 3 de abril de 2018

Agricultura Sintrópica em Portugal- Desenhos de plantio para o Mediterrâneo! Projeto de enriquecimento de olival, por Ernst Götsch.

Trabalho realizado no workshop de Agricultura Sintrópica na Herdade do Freixo do Meio, na região do Alentejo, em Portugal, em março de 2018.

Modelo 1:


Exemplificação para a transformação de um olival de aproximadamente 50 anos de idade para um sistema complexo, multiestrato, que se assemelhará ao ecossistema natural e original do local tanto em sua dinâmica, quanto em seu funcionamento e estratificação.
Uso atual:




Vista superior do sistema em seu estado atual, considerando o atual diâmetro da copa:





Passos para o enriquecimento do sistema

1- nas filas das oliveiras existentes:

a) Modelo ilustrativo - estado atual:





a') Modelo esquemático - estado atual:





b) modelo ilustrativo – intervenção passo 1: enriquecimento de mais 1 estrato agregando, a cada intervalo de oliveiras, 3 pessegueiros ou pistaches.





c) modelo ilustrativo – intervenção passo 2: agregando mais 1 estrato composto por nogueira e choupo





Trabalho realizado durante o workshop:


A fila das árvores foi transformada em um canteiro contínuo em que agora estão plantadas verduras, aromáticas, flores e figo da índia, de modo adensado e considerando espaço, estrato e tempo de vida de cada um desses integrantes.


Considerando os recursos (ainda escassos no momento da implantação), decidimos por fazer os canteiros estreitos (aproximadamente 40cm de largura) proporcionais em sua largura à quantidade de matéria orgânica que tivemos - visto a capacidade produtiva da vegetação rasteira existente atualmente neste olival. Na medida em que tivermos trocado esta vegetação rasteira por uma outra mais funcional para o sistema, composta por gramíneas mais produtivas e herbáceas conhecidas por seu sistema radical bastante eficiente (como por exemplo Verbascum, funcho, cardos, cenoura brava, etc) nossos recursos aumentarão.


Mais tarde, com todas as árvores agregadas - sobretudo aquelas plantadas com o intuito de produzir matéria orgânica, tais como choupo, sabugueiro, Quercus, etc - poderemos aumentar a largura daqueles canteiros e usá-los para o cultivo de anuais de inverno e da primavera, sem a necessidade de capinar, afofar o solo, irrigar, e também sem precisar do aporte de fertilizantes (adubos) externos.


2 - Canteiros do meio:


(idênticos com relação à posição entre as oliveiras, com os canteiros para as hortaliças do “modelo b”)


Espécies usadas além das verduras:

a) Fruteiras ou noz arbórea, citrinos (limão, tangerina, laranja) ou pêssego ou pistache.

Espaçamento: a cada 3 metros 1 árvore (estrato baixo médio)

b) Videiras junto com os seus futuros tutores vivos - figo, Morus nigra, Schinus molle, Sausa chorão, Tipoana tipo

Plante juntas todas as 5 espécies em uma área linear de 30 cm (vide figura). Planta-se uma videira em ambos os lados do plantio dos tutores.

Em todos os canteiros, idênticos àqueles feitos nas filas das oliveiras, ocupar plenamente com verduras, aromáticas, figo da índia e flores.


c) Organização dos canteiros com as videiras e espaçamento:





d) desenho dos mesmos canteiros com as árvores e as videiras adultas:





O sistema é composto, em sua maioria, por espécies caducifólias a serem podadas (todas elas) anualmente no inverno. Com isso adquirimos matéria orgânica abundante para poder criar canteiros largos, com uma rica camada de material ramial. E, adicionalmente, com luz suficiente e proteção de geadas para poder cultivar um amplo conjunto de verduras – como, por exemplo, tomate, pimentão, repolho etc, sem necessidade de aporte de fertilizantes e sem irrigação.


3 - Secção transversal da mesma plantação (atual olival) em 8 ou 10 anos, com árvores e as videiras agregadas adultas.




segunda-feira, 2 de abril de 2018

160.000 beatas recolhidas em praias de Almada (com video)

Consegues imaginar um cordão de 1.200 metros composto por 160 mil beatas, exposto ao longo da marginal do Seixal?





O vídeo arrepiante captado por Nativa Project, mostra as mais de 160 mil beatas recolhidas em várias ações de limpeza pela Associação 10 Milhões na Berma da Estrada, na zona ribeirinha do Seixal, Fonte da Telha, Costa de Caparica e ao longo de "10 Milhões de Passadas em Prol da Floresta".

"P'ró Chão Não! Ela chega ao mar, ao prato, ao copo" é uma iniciativa que quer alertar para o gesto automático de se atirar uma ponta de cigarro para o chão ao invés de se olhar para ela como lixo, que deve ser colocado no lugar adequado.
Uma única beata polui 500 litros de água... os lençóis freáticos... os oceano... a fauna e flora marítimas... a cadeia alimentar...

Esta associação tem a intenção de criar o maior cordão de pontas de cigarro do Mundo e candidatarem-se ao Guiness World Records em 2018. Será feito um cordão de pontas de cigarro de 5km à volta da baía do Seixal e um cordão humano, formado por pessoas que querem fazer a diferença.


Neste momento o cordão existente que esteve em exposição contém mais de 160 mil beatas e mais de 1,2 km de comprimento (já elegível para um recorde Mundial).
Fiquem atentos às próximas iniciativas da Associação 10 Milhões na Berma da Estrada!

Obrigado pelo vosso excelente trabalho em prol da preservação do meio ambiente.

Para acompanhar e confirmar live, os dados sobre o estado do mar, pode usufruir da nossa rede de livecams e reports preparada para essa finalidade.

domingo, 1 de abril de 2018

Uma Voz na Pedra, por António Ramos Rosa


"Não sei
se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.

Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra."

António Ramos Rosa in Gravitações(1984) - 

quinta-feira, 29 de março de 2018

Descobertas contestam hegemonia de Darwin e recuperam Lamarck

Características adquiridas em vida afetam genética e evolução das espécies, escreve professor escocês
por Kevin Laland


Resumo

Autor afirma que pesquisas recentes indicam que a evolução das espécies é um fenômeno mais complexo do que se imaginava e não pode ser explicado apenas pela seleção natural. Defensor de uma teoria alternativa (a síntese evolutiva estendida), ele argumenta que a ciência tem dificuldade para incorporar novas ideias.

Quando pesquisadores da Universidade Emory, em Atlanta, treinaram camundongos para sentir medo do cheiro de amêndoas (aplicando choques elétricos acompanhados pelo odor), eles descobriram, consternados, que os filhos e netos desses camundongos temiam espontaneamente o mesmo cheiro. Isso não deveria acontecer.

Gerações de estudantes sempre souberam que é impossível herdar características adquiridas. Um camundongo não deveria nascer com algo que seus pais aprenderam durante a vida, assim como aquele que perde a cauda em um acidente não dá à luz filhotes sem cauda.

Se você não é biólogo, pode ser perdoado por estar confuso com o estado da ciência evolutiva. A biologia evolutiva moderna data de uma síntese que emergiu nas décadas de 1940 a 1960, casando o mecanismo da seleção natural de Charles Darwin com as descobertas de Gregor Mendel sobre como os genes são herdados.

A visão tradicional e ainda dominante reza que as adaptações — desde o cérebro humano até a cauda do pavão— são integral e satisfatoriamente explicadas pela seleção natural (e a subsequente transmissão de características aos descendentes).

Porém, com a chegada de ideias novas vindas da genômica, epigenética e biologia do desenvolvimento, a maioria dos especialistas em evolução concorda que seu campo se encontra em transformação. Boa parte dos novos dados indica que a evolução é algo mais complexo do que presumíamos.

Alguns biólogos evolutivos, entre os quais me incluo, têm pedido uma caracterização mais ampla da teoria evolutiva, conhecida como síntese evolutiva estendida (SEE). Uma questão central é saber se o que ocorre com organismos durante sua vida —seu desenvolvimento— pode exercer papel importante e até agora imprevisto na evolução. (nota: para saber mais sobre consulte Extended evolutionary synthesis)

A visão ortodoxa estabelece que processos do desenvolvimento são em grande medida irrelevantes para a evolução, mas a SEE os considera cruciais. Protagonistas com credenciais respeitadas surgem de ambos os lados do debate; professores de universidades tradicionais e membros de academias nacionais discordam completamente quanto aos mecanismos da evolução. Algumas pessoas até se perguntam se há possibilidade de uma revolução.

Em seu livro "Da Natureza Humana" (1978), o biólogo evolutivo Edward O. Wilson afirmou que a cultura humana está presa a uma coleira genética. Foi uma metáfora controversa por duas razões. Primeiro, como veremos, porque também é verdade que a cultura segura os genes em uma coleira. Em segundo lugar, embora deva haver uma propensão genética ao aprendizado cultural, poucas diferenças culturais podem ser explicadas por diferenças genéticas subjacentes.

Mesmo assim, a frase tem potencial explicativo. Imagine uma pessoa (os genes) caminhando enquanto controla um cão forte (a cultura humana). A trajetória (o caminho da evolução) reflete o resultado da disputa entre a pessoa e o cão.

Agora imagine essa pessoa tentando controlar vários cães, presos por coleiras de comprimentos diferentes e puxando em direções distintas. Todos esses puxões representam a influência de fatores do desenvolvimento, incluindo epigenética, anticorpos e hormônios transmitidos pelos pais, além do legado ecológico e da cultura que eles deixam a seus descendentes.

Uma pessoa lutando para passear com os cães é uma boa metáfora para ilustrar como a SEE visualiza o processo adaptativo. Isso requer uma revolução na evolução?

Revolução Cinetífica

Antes de podermos oferecer uma resposta, precisamos examinar como funciona a ciência. As melhores autoridades aqui não são biólogos, mas filósofos e historiadores da ciência. O livro "A Estrutura das Revoluções Científicas" (1962), de Thomas Kuhn, popularizou a ideia de que as ciências mudam por meio de revoluções no entendimento. Essas mudanças de paradigma ocorreriam depois de uma crise de confiança na velha teoria, que aconteceria pelo acúmulo de dados conflitantes.

Há também Karl Popper e sua conjectura de que teorias científicas não podem ser comprovadas, mas podem ser falsificadas.

Considere a hipótese "todas as ovelhas são brancas". Popper afirma que nenhuma quantidade de constatações condizentes com a hipótese poderia atestar sua correção, pois nunca estaria descartada a possibilidade de dados conflitantes surgirem no futuro. Inversamente, a observação de uma única ovelha negra desmentiria a hipótese de uma vez por todas. Segundo Popper, cientistas deveriam realizar experimentos críticos com potencial de desmentir suas teorias.

Embora muito difundidas, as ideias de Kuhn e Popper não estão a salvo de controvérsia entre filósofos e historiadores da ciência. O pensamento contemporâneo nesses campos é mais bem captado por Imre Lakatos em "The Methodology of Scientific Research Programmes" (a metodologia de programas de pesquisa científica, 1978): "A história da ciência refuta tanto Popper quanto Kuhn. Examinados de perto, tanto os experimentos cruciais popperianos quanto as revoluções kuhnianas se revelam mitos".

Os argumentos de Popper podem fazer sentido, mas não mostram como a ciência funciona no mundo real. Observações científicas são suscetíveis a erros de medição; pesquisadores são humanos e se apegam às suas teorias; ideias científicas podem ser muito complexas. Tudo isso torna a avaliação de hipóteses científicas uma tarefa confusa.

Em vez de aceitar que nossas hipóteses podem estar erradas, contestamos a metodologia ("a ovelha não é negra —o problema está nos instrumentos") ou a interpretação ("a ovelha só está suja"), ou então adaptamos nossa hipótese ("eu estava falando de raças domesticadas, não de carneiros selvagens"). Lakatos descreve essas modificações ou ressalvas como hipóteses auxiliares; cientistas as propõem para proteger suas ideias principais, evitando que sejam rejeitadas.

Esse tipo de comportamento se manifesta claramente em discussões científicas sobre a evolução.

Considere a ideia de que características adquiridas ao longo da vida podem ser transmitidas para a próxima geração. Ela ganhou força no início do século 19 graças ao biólogo Jean-Baptiste Lamarck, que a usou para explicar a evolução das espécies.

Há muito tempo, porém, entende-se que a hipótese foi desmentida por experimentos —a ponto de, nos círculos evolutivos, o termo "lamarckiano" carregar conotação depreciativa. A ideia mais largamente aceita é a de que as experiências dos pais não afetam as características de sua prole.

Epigenética

Só que elas afetam, sim. O modo como os genes se expressam para produzir o fenótipo de um organismo —as características reais que o organismo acaba tendo— é afetado por substâncias químicas que se ligam a eles. Tudo, desde a dieta até a poluição do ar ou o comportamento dos pais, pode influir sobre o acréscimo ou a retirada dessas marcas químicas, que ligam ou desligam genes.

Geralmente, esses acréscimos ditos epigenéticos são removidos durante a produção de espermatozoides e óvulos, mas alguns são transmitidos à próxima geração, junto com os genes. Isso é conhecido como herança epigenética, e mais e mais estudos vêm confirmando que ela de fato ocorre.

Voltemos aos camundongos que têm medo de amêndoas. Foi a herança de uma marca epigenética transmitida nos espermatozoides que levou a nova geração a adquirir um medo herdado.

Em 2011, outro estudo extraordinário relatou que, expostos a um vírus nocivo, alguns vermes reagiram produzindo substâncias químicas que desativaram o vírus. Surpreendentemente, gerações posteriores herdaram epigeneticamente essas substâncias, através de moléculas reguladoras (conhecidas como pequenos RNAs).

Hoje existem centenas de estudos semelhantes, muitos publicados nos periódicos científicos mais prestigiosos. Biólogos debatem se a herança epigenética é lamarckiana ou apenas se assemelha superficialmente a isso, mas não há como fugir do fato de que a herança de características adquiridas ocorre.

Pelo raciocínio de Popper, uma única demonstração experimental de herança epigenética - como uma única ovelha negra- deveria bastar para convencer os biólogos evolutivos de que ela é possível. A maioria dos biólogos evolutivos, contudo, não correu para mudar suas teorias.

Em vez disso, como Lakatos previu, estamos propondo hipóteses auxiliares que nos permitem conservar as ideias que defendemos há muito tempo. Essas ideias incluem a de que herança epigenética é rara, não afeta características importantes, está sob controle genético e é instável demais para explicar a disseminação de características por meio da seleção.

Infelizmente para os tradicionalistas, nenhuma dessas tentativas de minimizar ou relativizar a importância da herança epigenética parece ser digna de crédito. Hoje é sabido que a herança epigenética está amplamente presente na natureza; mais e mais exemplos aparecem a todo momento.

Ela afeta características funcionalmente importantes como o tamanho de frutos, a época do florescimento e o crescimento de raízes de plantas --e, embora apenas uma pequena parte das variantes epigenéticas seja de natureza adaptativa, isso também é verdade em relação à variação genética, de modo que não chega a ser um argumento para desacreditar a herança epigenética.

Não há mais dúvida de que a herança epigenética nos obriga a enxergar a evolução de outra forma.

Cultura

A epigenética é apenas parte da história. Através da cultura e da sociedade, todos herdamos conhecimentos e habilidades adquiridos por nossos pais. Os biólogos evolutivos aceitam essa ideia há pelo menos um século, mas até recentemente considerava-se que isso fosse restrito aos humanos.

Essa posição, entretanto, deixou de ser defensável: criaturas de todo o reino animal aprendem socialmente sobre alimentação, predadores, comunicação, migração, escolhas de parceiros e de locais de reprodução. Centenas de estudos experimentais já demonstraram a aprendizagem social em mamíferos, aves, peixes e insetos.

Entre os dados mais convincentes estão estudos em que filhotes de chapim-real foram adotados por chapins-azuis, e vice-versa. Quando foram criadas por outras espécies, essas aves modificaram vários aspectos de seu comportamento para assemelhar-se a seus pais adotivos (incluindo a altura das árvores em que se alimentavam, as presas que buscavam, seus cantos e até sua escolha de parceiro).

Presumia-se que as diferenças comportamentais entre as duas espécies eram genéticas, mas ficou claro que muitas delas constituíam tradições culturais.

As culturas animais podem se conservar por períodos surpreendentemente longos. Resquícios arqueológicos mostram que chimpanzés usam ferramentas de pedra para abrir castanhas há pelo menos 4.300 anos.

No que diz respeito à herança epigenética, porém, seria um equívoco supor que a cultura animal precisa exibir estabilidade como a genética para ter significado evolutivo. Ao longo de uma única temporada de acasalamento podem se desenvolver modismos nas características que os indivíduos acham atraentes em seus parceiros.

Isso já foi demonstrado experimentalmente em moscas de frutas, peixes, aves e mamíferos, e modelos matemáticos mostram que esse "processo de cópia da escolha de parceiros" pode afetar fortemente a seleção sexual. Nessa linha, acredita-se que as variadas e culturalmente aprendidas tradições das orcas na busca de alimentos --em que grupos diferentes se especializam em certos tipos de peixes, focas ou golfinhos-- estejam levando-as a se dividir em várias espécies.

É claro que a cultura chega ao auge em nossa própria espécie, tendo sido fartamente comprovado que os hábitos culturais são fonte importante de seleção natural de nossos genes.

A criação de gado e o consumo de leite geraram a seleção de uma variante genética que aumentou a lactase (enzima que metaboliza leite e derivados), enquanto dietas agrícolas à base de amido favoreceram o aumento da amilase (enzima que decompõe o amido).

Toda essa complexidade não se concilia com uma visão estritamente genética da evolução adaptativa, fato que muitos biólogos reconhecem. Em vez disso, aponta para um processo evolutivo em que genomas (ao longo de centenas de milhares de gerações), modificações epigenéticas e fatores culturais herdados (ao longo de várias, possivelmente dezenas ou centenas de gerações) e efeitos parentais (ao longo de uma só geração) coletivamente influem sobre a adaptação dos organismos.

Esses tipos de herança extragenética conferem aos organismos a flexibilidade de se ajustarem rapidamente aos desafios ambientais, arrastando as mudanças genéticas em sua esteira --um pouco como um bando de cães agitados.

Resistência

Apesar do interesse suscitado por todos os novos dados, é improvável que eles desencadeiem uma revolução na evolução, pela simples razão de que a ciência não funciona assim --ao menos não a ciência evolutiva. Como os experimentos críticos de Popper, as mudanças de paradigma kuhnianas são mais próximas de mitos que da realidade.

Olhando para a história da biologia evolutiva, não se vê nada assemelhado a uma revolução. Mesmo a teoria de Charles Darwin levou cerca de 70 anos para ser amplamente aceita; na virada do século 20, ainda era vista com grande ceticismo. Nas décadas seguintes, novas ideias surgiram, foram avaliadas pela comunidade científica e pouco a pouco integradas ao conhecimento preexistente. A biologia evolutiva se atualizou sem passar por grandes períodos de crise.

A mesma coisa se aplica ao presente. A herança epigenética não desmente a herança genética, mas mostra que esta é apenas um entre vários mecanismos pelos quais características são herdadas.

Não conheço nenhum biólogo que queira rasgar os livros didáticos ou jogar fora a seleção natural. A questão é saber se queremos ampliar nosso entendimento sobre as causas da evolução e se isso modifica nossa visão do processo como um todo. Nesse ponto, o que está acontecendo é ciência normal.

Por que, então, biólogos evolutivos tradicionais se queixam dos radicais evolutivos equivocados que defendem uma mudança de paradigma? Por que jornalistas escrevem artigos sobre cientistas que estariam pedindo uma revolução na biologia evolutiva? Se ninguém de fato quer uma revolução, e se revoluções científicas raramente ocorrem, a que se deve a polêmica?

A resposta a essas perguntas traz um insight fascinante sobre a sociologia da biologia evolutiva.

Revolução na evolução é uma descrição equivocada do que está acontecendo - um mito propagado por uma aliança improvável de evolucionistas conservadores, criacionistas e imprensa. Não duvido que existam alguns radicais evolutivos revolucionários, mas a imensa maioria dos pesquisadores que buscam uma síntese evolutiva estendida é formada por biólogos evolutivos que trabalham duro.

Todos sabemos que o sensacionalismo vende jornais, e artigos anunciando uma grande reviravolta vendem bem. Criacionistas e defensores do design inteligente também alimentam essa impressão exagerando as diferenças de opinião entre evolucionistas e criando a falsa impressão de turbulência no campo da biologia evolutiva.

O que é mais surpreendente é como biólogos conservadores jogam a carta "estamos sendo atacados!" contra seus colegas evolucionistas. Retratar adversários intelectuais como extremistas ou dizer às pessoas que se está sendo atacado são truques retóricos usados desde sempre para ganhar discussões ou conquistar lealdades.

Sempre associei esse tipo de prática à política, não à ciência, mas hoje percebo que fui ingênuo. Os cientistas também têm carreiras e legados em jogo; também lutam por recursos, poder e influência.

Receio que o discurso dos tradicionalistas esteja produzindo efeitos negativos, criando confusão e, sem querer, alimentando o criacionismo pelo fato de fomentar divergências exageradas. Muitos cientistas respeitados sentem a necessidade de uma mudança na biologia evolutiva. Não é possível descartar todos eles como elementos à margem da visão científica majoritária.

Síntese Evolutiva estendida (SEE)

Se a síntese evolutiva estendida não é um chamado por uma revolução na evolução, então o que ela é e por que precisamos dela? Para responder a essas perguntas, precisamos reconhecer um acerto de Kuhn: cada campo científico possui maneiras compartilhadas de pensar, ou quadros conceituais.

A biologia evolutiva não é diferente. Nossos valores e premissas compartilhadas influenciam quais dados coletamos, como os interpretamos e quais fatores são embutidos nas explicações sobre o funcionamento da evolução.

Por isso o pluralismo científico é saudável. Lakatos destacou que quadros conceituais alternativos (diferentes programas de pesquisa) podem ser valiosos pois incentivam o teste de novas hipóteses ou levam a novos insights. Essa é a primeira função da SEE: alimentar ou mesmo abrir novas linhas de pesquisa e maneiras produtivas de pensar.

Um bom exemplo é o viés de desenvolvimento. Considere os peixes ciclídeos da África oriental. Para dezenas ou até centenas de espécies de ciclídeos existentes no lago Maláui existe uma espécie "duplicada", que evoluiu independentemente, no lago Tanganica, com grandes semelhanças no formato corporal e no modo de se alimentar.

Tais semelhanças costumam ser explicadas pela evolução convergente: houve variação genética aleatória, mas condições ambientais semelhantes selecionaram os genes com resultados equivalentes.

Entretanto, o nível extraordinário de evolução paralela visto nesses dois lagos sugere que algo mais pode estar em jogo. E se algumas maneiras de "construir" um peixe forem mais prováveis que outras? E se a variação de características é enviesada em favor de certas soluções? A seleção ainda faria parte da explicação, mas a evolução paralela seria muito mais provável.

Estudos mostram que é possível usar um modelo matemático, baseado em camundongos de laboratório, para prever tamanho e número de dentes em uma amostra de 29 espécies de roedores.

Esses estudos são intrigantes pois ajudam a converter a biologia evolutiva em uma ciência mais previsora. Por que, então, essas ideias receberam, comparativamente, pouca atenção até pouco tempo atrás?

Alternativas

Voltamos aos quadros conceituais. Historicamente falando, biólogos evolutivos tratam o viés na variação fenotípica apenas como uma limitação --o modo como os organismos crescem restringe o tipo de características que eles poderão ter.

Foi preciso uma perspectiva diferente (neste caso, a da biologia evolutiva do desenvolvimento, chamada evo devo) para motivar novos experimentos. De um ponto de vista evo devo, os dentes de roedores e os corpos de peixes são como são porque o modo como esses animais crescem aumenta a probabilidade de essas características surgirem. Assim, o viés torna-se um conceito muito mais importante na explicação da evolução.

A síntese evolutiva estendida, ao menos como eu e meus colaboradores a enxergamos, é mais bem vista como um programa de pesquisas alternativo da biologia evolutiva.

Inspirada por descobertas recentes, a SEE parte da premissa de que os processos do desenvolvimento exercem papéis importantes como causas de variações fenotípicas novas (e potencialmente benéficas), como causas de diferenças de adequação dessas variantes e causas de transmissão para descendentes.

Em contraste com a concepção tradicional, na SEE a criatividade na evolução não é atribuída apenas à seleção natural. Esse modo alternativo de pensar está sendo usado para gerar novas hipóteses e traçar novas agendas de pesquisa. Ainda estamos nos primórdios da SEE, mas já há sinais frutíferos.

Se a evolução não se explica só por mudanças nas frequências de genes; se mecanismos antes rejeitados, como a herança de características adquiridas, revelarem ter importância; e se for reconhecido que os organismos enviesam a evolução por meio de desenvolvimento, aprendizagem e outras formas de plasticidade, tudo isso significa que está emergindo um relato radicalmente diferente e profundamente mais rico da evolução?

Ninguém sabe. Mas, do ponto de vista daquela pessoa que leva os cães para caminhar, a evolução está ficando menos parecida com um passeio genético aprazível e mais com uma luta frenética dos genes para acompanhar agitados processos de desenvolvimento.

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Kevin Laland é professor de biologia evolutiva e comportamental na Universidade de St. Andrews, na Escócia.


Este texto foi publicado originalmente no site Aeon
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Outro artigo científico nesta matéria ver postagem no BioTerra: 
Essay - Unified theory of evolution