sábado, 17 de agosto de 2019

Fumos e Gases Tóxicos: O Encobrimento (Documentário que deu na RTP, 52min.)



O escândalo do encobrimento das consequências da queima de combustíveis fósseis.

Uma visão retrógrada das alterações climáticas tomou conta da Casa Branca. Documentos provam que desde 1957 as empresas petrolíferas sabiam que a queima de combustíveis fósseis altera o clima. Uma história sobre o maior encobrimento da história que durou 60 anos.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

True cost of cheap food is health and climate crises, says commission

Fonte: The Guardian

The true cost of cheap, unhealthy food is a spiralling public health crisis and environmental destruction, according to a high-level commission. It said the UK’s food and farming system must be radically transformed and become sustainable within 10 years.

The commission’s report, which was welcomed by the environment secretary, Michael Gove, concluded that farmers must be enabled to shift from intensive farming to more organic and wildlife friendly production, raising livestock on grass and growing more nuts and pulses. It also said a National Nature Service should be created to give opportunities for young people to work in the countryside and, for example, tackle the climate crisis by planting trees or restoring peatlands.

“Our own health and the health of the land are inextricably intertwined [but] in the last 70 years, this relationship has been broken,” said the report, which was produced by leaders from farming, supermarket and food supply businesses, as well as health and environment groups, and involved conversations with thousands of rural inhabitants.

“Time is now running out. The actions that we take in the next 10 years are critical: to recover and regenerate nature and to restore health and wellbeing to both people and planet,” said the commission, which was convened by the RSA, a group focused on pressing social challenges.

The commission said most farmers thought they could make big changes in five to 10 years if they got the right backing.

“Farmers are extraordinarily adaptable,” said Sue Pritchard, director of the RSA commission and an organic farmer in Wales. “We have to live with change every single day of our lives.

“We are really keen that farmers feel they are in the driving seat and that they can be a force of change. At the moment, a lot of farmers feel beleaguered and that they have become the bad guys. But without sustainable, secure and safe farming in the UK, we will not survive.”

The commission criticised decades of government policy aimed at making food cheaper, fuelling rising obesity and other health problems. “The true cost of that is simply passed off elsewhere in society – in a degraded environment, spiralling ill health and impoverished high streets,” said the report.

Pritchard said the UK had the third cheapest basket of food in the developed world, but also had the highest food poverty in Europe in terms of people being able to afford a healthy diet. Type 2 diabetes, a diet-related illness, costs the UK £27bn a year, she said.

The commission also said agriculture produced more than 10% of the UK’s climate-heating gases and was the biggest destroyer of wildlife; the abundance of key species has fallen 67% since 1970 and 13% of species are now close to extinction.

To solve these crises, the commission said “agroecology” practices must be supported – such as organic farming and agroforestry, where trees are combined with crops and livestock such as pigs or egg-laying hens.

The commission has also adapted for the UK a recently published scientific diet that is both nutritious and environmentally sustainable. While it and other studies recommend large reductions in meat-eating, Pritchard said: “There is a strong case to be made [in the UK] to support sustainable beef and lamb in the places where grass is the best thing to grow.”

The so-called planetary health diet calls for more nuts and pulses in diets and Pritchard said these and more vegetables could be grown in the UK. Hazelnuts and walnuts are native to the UK, she pointed out, and some farmers are now starting to grow crops like lentils and quinoa, as well as beans and peas.

The commission said the government must develop a plan to put the countryside and the communities living there at the centre of the green economy.

“[Brexit] creates a once-in-50-years opportunity to change our food and farming system, but we need to act now: the climate emergency makes urgent, radical action on the environment essential,” said Sir Ian Cheshire, chair of the RSA commission and also a senior government adviser.

Gove said: “This report raises issues that are hugely important. We know that it is in the interests of farmers and landowners to move to a more sustainable model.” He added that the government’s agriculture bill would reward farmers with public money for public goods and a new “farm to fork” food review would look to ensure everyone had access to healthy British food.

The report was backed by Labour and the Liberal Democrats. The Green MP Caroline Lucas said: “This monumental report is a powerful and profound account of the ecological transformation of our food and farming system that we urgently need – and where we can start.”

The commission said a new non-profit bank should be set up to provide finance to farmers investing in new practices.

With Brexit uncertainty worrying farmers, the commission urged minister to stop delays on policy and trade decisions and commit to a future-proof ambition by January 2020. It also said schools, hospitals and prisons should buy more sustainably produced British food.

Prof Joanna Price, the vice-chancellor of the Royal Agricultural University, said: “The report paints an honest picture of the challenges and sets out some bold ideas to address them. We strongly agree that farming can be a force for positive change and that rural communities can thrive as a powerhouse for a green economy.”

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Nunca o aquecimento foi tão global nos últimos 2000 anos — e a culpa é nossa

"O período mais quente e que afectou mais continentes, países e regiões dos últimos dois mil anos ocorreu durante o século XX. Estas são as principais conclusões de uma investigação que reconstruiu a evolução das temperaturas médias anuais desde o ano 1 (d.C.) até ao ano de 2000 e que foi divulgada pela revista científica Nature."


Fonte: aqui
Caso existissem termómetros há dois mil anos, dificilmente teriam registado temperaturas tão altas como as que se fizeram sentir nos últimos anos. De há dois milénios para cá que as temperaturas não atingiam picos tão altos em pelo menos 98% do planeta — e tudo por causa da mão humana. 

O período mais quente e que afectou mais continentes, países e regiões dos últimos dois mil anos ocorreu durante o século XX. Estas são as principais conclusões de uma investigação que reconstruiu a evolução das temperaturas médias anuais desde o ano 1 (d.C.) até ao ano de 2000 e que foi esta quinta-feira divulgada pela revista científica Nature.

Os cientistas responsáveis pela investigação fazem parte de vários institutos internacionais que se especializam no estudo das alterações climáticas, como o Centro de Pesquisa Climática de Bjerknes (Bjerknes Center for Climate Research), na Noruega, o Centro de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas de Oeschger (Oeschger Centre for Climate Change Research), em Berna, na Suíça, o Observatório Terrestre de Lamont-Doherty (Lamont-Doherty Earth Observatory) da Universidade Columbia, nos Estados Unidos ou o Departamento de Física da Universidade de Múrcia, em Espanha.

Sem termómetros, tudo o que os cientistas têm à mão são indicadores climáticos indirectos ("proxies", na linguagem académico) tais como documentos históricos, registos escritos de colheitas, épocas de floração, de observação do tempo e catástrofes meteorológicas, ou seja, dados que ajudam a reconstituir o clima numa determinada época. No entanto, foi na própria Natureza que os investigadores encontraram as maiores fontes. As amostras de gelo das regiões polares guardam testemunhos milenares sobre a precipitação, sobre a fusão periódica da cobertura gelada e sobre a composição da atmosfera — dos corais do Pacífico também se extraem dados climáticos.

Usando precisamente estes registos paleoclimáticos, como anéis de árvores, análise do crescimento dos glaciares e da composição dos sedimentos de lagos, os cientistas estudaram mais de 700 destes registos e concluíram que o aquecimento actual “não tem paralelo em termos de temperaturas absolutas” nos últimos dois milénios, e é também o mais abrangente. Até mesmo no ponto mais alto da Anomalia Climática Medieval (950-1250), só 40% da superfície da Terra atingiu as temperaturas mais altas ao mesmo tempo.

Os anéis de árvores foram particularmente importantes, uma vez que a sua largura e densidade indicam, ano a ano, se o clima foi mais quente ou mais frio, mais húmido ou mais seco. Combinando-se amostras de diferentes idades, é possível reconstituir as condições climáticas ao longo de milhares de anos.

A influência do Homem

Os primeiros registos oficiais das temperaturas médias anuais não vão além dos meados do século XIX, nos primeiros anos da Revolução Industrial, altura em que as máquinas de vários países começaram a queimar carvão, um passo que acabaria por marcar o primeiro contributo do Homem para o aquecimento global. 

Mesmo assim, os períodos de aquecimento e arrefecimento antes da Revolução Industrial estavam dentro dos parâmetros das variações naturais do clima, dizem os cientistas. O sobreaquecimento actual está a acontecer em simultâneo em várias zonas do planeta, como na Europa central, no Árctico, no sudeste da Ásia e na bacia amazónica. De fora da equação tem ficado apenas a Antárctica – mas o continente gelado está a começar a sentir cada vez mais os efeitos do aquecimento do planeta. 

“O nosso estudo fornece fortes indícios de que o aquecimento global causado pelo homem não pode ser comparado com outras causas, como as erupções vulcânicas. Não há precedentes para estes acontecimentos nos últimos 2000 anos”, lê-se no estudo. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Em Idanha-a-Nova, as Nações Unidas pedem preservação dos meios rurais para garantir sustentabilidade

A dirigente da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) Mariana Dias Simpson defendeu no dia 17 de Julho a defesa dos meios rurais para garantir transição para sistemas alimentares sustentáveis.

Fonte: aqui

"Nos últimos 50 anos, o foco no aumento do rendimento das colheitas e na melhoria das práticas de produção contribuíram para a redução da fome, para o aumento da expectativa de vida, queda nas taxas de mortalidade infantil e redução da pobreza global", afirmou Mariana Dias Simpson.

A responsável, que falava em Idanha-a-Nova, no distrito de Castelo Branco, durante a sessão de abertura do V Fórum Mundial de Inovação Rural, adiantou que esses benefícios para a saúde, estão a ser compensados por dietas pouco saudáveis que são ricas em calorias vazias e em alimentos altamente processados e pouco sustentáveis, onde houve uma rutura muito grande na relação daquilo que se produz com o que se consome, traduzindo-se num alto custo para o planeta.

"A transição para sistemas alimentares sustentáveis passa pela proteção e melhoria dos meios de vida rurais, com a valorização da agricultura familiar, a equidade e bem-estar social das populações rurais e urbanas, proteção conservação e melhoria da eficiência dos recursos naturais", defendeu.

A responsável da FAO realçou que, atualmente, parte significativa da população está malnutrida e os limites da natureza estão a ser ultrapassados, em grande parte, devido ao modo como estamos a produzir os alimentos.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Está o “abominable mystery” de Darwin perto de ser desvendado?

Foto e notícia aqui


É um dos maiores mistérios na comunidade científica: como surgiram as plantas com flor? A resposta poderá estar numa nova descoberta com participação de um investigador português.
Corria o ano de 1879 quando Charles Darwin cunhou, numa carta ao seu amigo Joseph Hooker, uma expressão que os anais da História não apagaram: “abominable mystery”. Referia-se o pai da teoria da evolução àquele que é, ainda hoje, um dos maiores mistérios da botânica: qual a origem das plantas com flor? Graças a um investigador do MARE – Centro de Ciências do Mar e Ambiente da Universidade de Coimbra e à sua equipa, talvez estejamos mais perto da resposta. Mário Mendes, em colaboração com investigadores do Instituto Paul Scherrer, em Zurique (Suíça), descobriu estruturas femininas e masculinas de plantas fossilizadas até agora desconhecidas da comunidade científica que levaram à criação de um novo grupo de plantas, batizado BEG.

“Desde 2008 que começámos a encontrar estruturas de plantas que não compreendíamos muito bem o que eram”, recorda ao i Mário Mendes, que é também professor na Universidade de Coimbra. Para já, o investigador encontrou apenas estruturas femininas e estruturas masculinas, em locais diferentes. “Enquanto as estruturas femininas – sementes – foram encontradas na jazida de Catefica, as estruturas masculinas foram encontradas na jazida de Vale de Água. Infelizmente, ainda não tive a sorte de apanhar a planta, mas ainda espero apanhá-la”, afirma.

O estudo mais detalhado das estruturas permitiu perceber que as descobertas partilhavam características de várias ordens de plantas, o que explica o nome do grupo – BEG são as iniciais de Bennettitales, Erdtmanithecales e Gnetales. “As plantas do grupo BEG são contemporâneas das primeiras plantas com flor, que apareceram no Cretácico Inferior”, esclarece o investigador. As Bennettitales e as Erdtmanithecales estão extintas, mas as Gnetales ainda têm, atualmente, um representante – a Ephedra, um arbusto.

Mas como é que as estruturas encontradas podem ajudar a desvendar o “mistério abominável”? É que, a partir da análise às várias amostras recolhidas no campo, os investigadores suspeitam que o grupo talvez possa tratar-se de um grupo de transição, o que pode explicar como surgiram as angiospérmicas (plantas com flor). “Ao analisarmos com detalhe aquelas estruturas reprodutoras, começámos a perceber que talvez este grupo, além de novo, poderia até ser um grupo de transição entre as gimnospérmicas e as angiospérmicas. Na verdade, as plantas do grupo BEG até estão mais associadas às gimnospérmicas – nós, aliás, catalogamo-las como sendo gimnospérmicas –, mas as suas estruturas reprodutoras apresentam algumas analogias com as estruturas reprodutoras das plantas com flor, as angiospérmicas”, o que leva a equipa de Mário Mendes a suspeitar que possa ter havido “uma transição gradual” de um tipo de plantas para as outras.

Como elucida o investigador do MARE da Universidade de Coimbra, o aparecimento de uma nova espécie ocorre em circunstâncias normais de forma gradual, mas no caso das plantas com flor não se sabe exatamente o que aconteceu e persistem muitas dúvidas relativamente à sua origem, que é descrita como repentina. “O grande mistério que há na comunidade científica desta área é perceber como é que as angiospérmicas aparecem tão rapidamente no Cretácico Inferior e outros grupos de plantas se extinguem. Como é que estas plantas aparecem tão subitamente? Bem, se calhar não foi assim tão subitamente quanto isso. E esta nossa investigação levanta a hipótese de, afinal, ter havido ali uma fase de transição”, explica Mário Mendes.

As descobertas, de resto, já foram dadas a conhecer à comunidade científica, em artigos publicados nas revistas Review of Palaeobotany and Palynology e Grana.

Passo a passo até à grande descoberta A confirmar-se que se trata, de facto, de um grupo de transição, a descoberta pode abrir horizontes para o nosso conhecimento botânico.

Mas não foi fácil chegar aqui e a investigação envolveu vários passos pelos quais tanto as estruturas femininas recolhidas na jazida de Catefica como as estruturas masculinas encontradas na jazida de Vale de Água passaram. “Os restos encontram-se conservados naqueles níveis argilosos mais escuros da jazida. Recolhemos alguns blocos e levámo-los para o laboratório”, explica ao i Mário Mendes. A seguir, o primeiro passo foi secar completamente a argila. Já seca, a equipa colocou-a dentro de um recipiente com água, para conseguir desintegrá-la. Como se consegue essa desintegração? “Forma-se uma espécie de uma papa e tudo o que é material incarbonizado [processo de fossilização] dispersa”, esclarece o docente da Universidade de Coimbra.

Depois, usando um chuveiro e um crivo com uma malha de 250 micra, “despejámos o recipiente com a argila, que é filtrada pela malha, onde fica retido o material fossilífero que houver”, explica o investigador. Esse material foi depois seco ao ar – não pode secar na estufa para evitar fragmentar o carvão, uma vez que as partículas incarbonizadas são particularmente sensíveis. Já seco, foi observado à lupa binocular. De seguida, o material foi então bem lavado com ácido florídrico, “para eliminar todos os restos de material mineral que pudessem estar agarrados e ficar completamente limpo”. Só aí foi possível aplicar a técnica de microscopia eletrónica de varrimento, que permite ver praticamente tudo. “É possível, por exemplo, ver a estrutura das sementes, se há pólenes, de que tipo são, entre outras características”.

Este método, contudo, não deixa ver o interior, mas o avanço da tecnologia possibilitou a criação de uma outra técnica que o permite: a microcenografia de raio-X por radiação de sincrotrão. O nome é difícil, mas Mário Mendes descodifica o mecanismo: “É como se fosse uma TAC, é uma técnica não destrutiva. O melhor aparelho que existe na Europa – só existem dois – está na Suíça, no Instituto Paul Scherrer. O aluguer é muito caro, na ordem dos milhares de euros, mas é um passo muito importante na análise”, conta ao i. E como funciona? A amostra recolhida é colocada na máquina, que acelera as partículas e vai transmitir energia aos eletrões e aos protões, possibilitando a visualização de toda a estrutura no seu interior sem que o espécime seja destruído.

Estudadas estas estruturas, o investigador anseia agora, numa primeira fase, por encontrar estruturas masculinas e femininas no mesmo local – depois, encontrar a planta fossilizada, idealmente com as estruturas femininas e masculinas in situ.Um grupo de plantas quase exclusivo do país Os espécimes que se enquadram neste novo grupo agora descrito só têm vindo a ser encontrados, em grande quantidade, em Portugal e nos Estados Unidos (EUA), no Grupo Potomac. Além disso, poucos mais registos existem: “Já foi descoberta uma semente na Dinamarca e, na zona da Europa central, julgo que já apareceu qualquer coisa também, mas não com esta intensidade”, destaca Mário Mendes. E como explicá-lo? “Pode ter que ver com as condições ambientais mas, na verdade, ainda não percebemos exatamente o porquê de se encontrarem com maior intensidade nestes dois locais”, responde o investigador.

O facto pode impressionar quem não esteja por dentro da matéria mas, como Mário Mendes assinala, o país tem uma grande vantagem em relação a outros: é que, em Portugal, o Cretácico “está muito bem representado”.

“Temos toda a sequência, desde a idade Berriasiana até à Maastrichiana, todo [o Cretácico] está representado. Nos outros países há hiatos, há andares que não estão lá. Não é por acaso que os estrangeiros vêm cá, levam o nosso material e, depois, nós ficamos prejudicados e ninguém quer saber”, lamenta.

No ano passado, Mário Mendes já tinha denunciado o problema ao i: em Portugal, ao contrário do que acontece com os vestígios arqueológicos, não há legislação que proteja as descobertas feitas no âmbito da paleontologia [ciência que estuda os fósseis de animais e plantas]. Por isso, nada impede que os investigadores estrangeiros transportem para os seus países fósseis que são património português.Além de um novo grupo, uma nova espécie Este ano, o investigador português já fez mais do que uma descoberta: além de um novo grupo, Mário Mendes descobriu também uma nova espécie. “Foi descoberta por mim, recolhida em janeiro deste ano. Quando olhei para ela parecia-me uma flor, parece que tem três carpelos [folha floral feminina que produz os gâmetas femininos – óvulos], mas não são, são conjuntos de três sementes. E não só é nova espécie como também é novo género”, explica.

Ainda não foi publicada – de acordo com Mário Mateus, “sairá em breve na revista Cretaceous Research” –, mas já tem nome: Battenispermum hirsutum. Porquê? “O nome do género, Battenispermum, é dedicado a David Batten, professor emérito da Universidade de Manchester que morreu vítima de cancro, em fevereiro”. Quanto ao nome da espécie, hirsutum (hirsuto, em português, que se diz sobre o que tem pelos longos), justifica dizendo que “tem uns pelos muito bonitos cuja função ainda não se percebeu bem qual é, mas parecem envolvê-la”.

O problema do financiamento Apesar de ter um português envolvido, esta investigação foi financiada pelo Swedish Research Council. É que, se lá fora a investigação fundamental, a dita clássica, é considerada tão prioritária quanto a investigação aplicada – que tem retorno financeiro direto, como a medicina ou a indústria farmacêutica –, por cá, a visão existente é ligeiramente diferente. “Desde que foram criadas áreas prioritárias, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior financia essencialmente investigação aplicada, porque tem retorno financeiro direto, quantificável e tangível, e deixa à margem a investigação fundamental, que é extremamente importante. Isto não acontece em países como Espanha, França ou EUA, que investem seriamente neste tipo de investigação. Eu sei que a investigação é cara, mas acredito que a ignorância é muito mais cara”, avisa Mário Mendes.

O investigador destaca, no entanto, “a sensibilidade” de algumas entidades que se têm disponibilizado a financiar alguns dos seus trabalhos em paleobotânica – como é o caso, por exemplo, da Fundação Millennium BCP e da Fundação Amadeu Dias. “Se continuarmos a caminhar neste sentido, o que vai acontecer é que determinadas áreas do saber, daqui a uns anos, vão desaparecer e vamos ficar prejudicados em relação a outros países”, alerta o docente da Universidade de Coimbra.



segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Neve derrete e forma lago nos Alpes Franceses

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A meteorologia está cada vez irregular, o aquecimento global está a aumentar de dia para dia e atinge já as zonas mais frias do mundo.

No alto dos Alpes Franceses, um alpinista fotografou a formação de um lago no cume do Dent du Géant e do Aiguilles Marbrées, depois da intensa onda de calor que atingiu a Europa central no final de junho. Bryan Mestre ficou chocado quando percebeu que a neve derretida deu origem a uma piscina natural que se está a formar a uma altitude de 11.100 pés (3.400 m) na cordilheira do Monte Branco.

De acordo com o Copernicus Climate Change Service, o mês de junho deste ano foi o mais quente alguma vez registado na Terra. Segundo dados divulgados pela agência de satélites, durante os últimos dias do mês as temperaturas médias da Europa estavam 2ºC acima do normal, e as temperaturas estavam entre os 6ºC e os 10ºC acima do normal na maior parte da França, Alemanha e norte da Espanha.

Foi com uma publicação no Instagram que o alpinista francês demonstrou a preocupação e alertou para estas mudanças climáticas.+

A foto foi tirada no dia 28 de junho – 10 dias depois de Paul Todhunter, o companheiro de alpinismo, ter fotografado o mesmo lugar, mas coberto de neve. Bryan alertou que “isto é verdadeiramente preocupante… os glaciares estão a derreter pelo mundo inteiro a uma velocidade exponencial”.

“Está localizado na área de 3.400 a 3.500 metros. Supostamente devias encontrar gelo e neve nessa altitude, não água líquida. Na maioria das vezes, quando ficamos um dia inteiro nesta altitude, a água das nossas garrafas de água começa a congelar.”

“Eu já lá estive muitas vezes, em junho, julho e até agosto, e nunca vi água líquida lá em cima”, acrescentou.

domingo, 11 de agosto de 2019

Aquametragem: animação para a poupança de água




A curta-metragem animada Aquametragem, da portuguesa Marina Lobo, foi a vencedora da categoria “Proteger o nosso planeta” no Festival de Filmes ODSs em Acção, organizado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Esta é a maior competição de trabalhos cinematográficos dedicados aos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

A curta, de pouco mais de cinco minutos, tem o objectivo de sensibilizar o público, “tanto crianças como adultos”, a utilizar os recursos hídricos de uma forma mais responsável e eficiente, explicou por telefone ao P3 Marina Lobo. No vídeo, Hidro, o protagonista da animação, ganha acesso a uma fonte potável de água, mas comete muitos erros na sua utilização: lava o carro de mangueira, demora demasiado tempo no banho e contribui para a poluição através da emissão de gases poluentes ao tratar a água utilizada. Hidro aprende com os erros e passa a valorizar a importância de utilizar um "recurso finito e escasso" de uma forma sustentável.

A ideia para a Aquametragem partiu da Lisboa E-Nova (Agência de Energia e Ambiente de Lisboa). Marina Lobo — que, além de animadora, também é engenheira ambiental — teve conhecimento do desafio e acabou por ser a escolhida para desenvolver uma animação sobre a água, em 2018. Além de chamar à atenção para o desperdício deste recurso, o vídeo também sugere uma abordagem sustentável ao problema, “baseada nos 5Rs do uso da água”: reduzir o consumo, reduzir o desperdício, reutilizar, reciclar e recorrer a origens alternativas.

sábado, 10 de agosto de 2019

Cartaz

Estudo revela como elefantes ajudam a combater o aquecimento global

Foto e notícia aqui

Um estudo publicado na revista Nature Geoscience
revela como os elefantes africanos da floresta (Loxodonta cyclotis) têm ajudado as árvores a estocarem mais carbono e, dessa forma, a combater o aquecimento global.

De acordo com o pesquisador Fabio Berzaghi, do Laboratório de Ciências Climáticas e Ambientais e do Clima (CEA), da França, eles descobriram que a redução da densidade do tronco florestal devido à presença de elefantes, que desbastam naturalmente as árvores, leva a mudanças na competição por luz, água e espaço entre as árvores – mudança que favorece o surgimento de maiores árvores com maior densidade de madeira.

“Essa mudança na estrutura da floresta tropical africana e na composição de espécies aumenta o equilíbrio a longo prazo da biomassa acima do solo”, informa o pesquisador. Eles concluíram que os distúrbios provocados pelos elefantes nas florestas africanas geram incremento na biomassa de 26 a 70 toneladas por hectare.

Por outro lado, Berzaghi explica que a extinção dos elefantes resultaria em redução de 7% da biomassa acima do solo nas florestas tropicais da África Central: “Esses resultados são confirmados por dados de inventário de campo. Nós especulamos que a presença de elefantes pode ter moldado a estrutura das florestas tropicais da África, o que provavelmente desempenha um papel importante em comparação com a floresta tropical da Amazônia.”

A interferência dos elefantes-da-floresta nas árvores de pequeno porte, que costumam ser desbastadas por eles, reduz o número de pequenas árvores e estimula o crescimento das grandes que armazenam mais carbono. Isso também modifica as condições da floresta, de acordo com o pesquisador.

“Esses resultados mostram que os grandes herbívoros desempenham papel importante na dinâmica das florestas tropicais a longo prazo. Na África Central, o ‘efeito elefante’ aumenta os estoques de carbono acima do solo em três bilhões de toneladas. Indiretamente, os elefantes contribuem para reduzir o CO2 atmosférico e nos ajudam a combater o aquecimento global”, acrescenta.

Porém, a caça de elefantes visando a comercialização do marfim tem impedido esses animais de desempenharem um papel que Berzaghi qualifica como de um “formidável engenheiro do ecossistema”. Até porque os elefantes também são conhecidos por transitarem pela floresta espalhando sementes que darão origem às novas gerações de árvores. “Nossos resultados trazem mais evidências do papel importante e único dos elefantes da floresta nas florestas tropicais da África Central”, reforça.

Referência

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Erosão da costa portuguesa é grave e efeitos vão piorar, dizem especialistas

Foto e reportagem aqui


As zonas da costa com ocupação humana são as mais atingidas pelos efeitos da erosão costeira em Portugal, uma situação que vai agravar-se, apesar das medidas que têm sido tomadas e que custam anualmente milhões ao Estado, realçam especialistas.

A situação não é exclusiva de Portugal e deve-se a vários factores, dos quais se destaca a intervenção humana nos leitos dos rios, nomeadamente barragens que impedem os sedimentos de se deslocarem para a zona costeira, os erros do ordenamento da faixa costeira cometidos ao longo de décadas e a retirada de areia dos rios para a construção.

Filipe Duarte Santos, da Universidade de Lisboa, destacou que a costa portuguesa “é das costas, à latitude a que se encontra, mais energéticas do mundo”, com ventos persistentes predominantemente de quadrante norte-oeste que orientam nesta direcção as ondas.

Quando o mar atinge a costa, “não a atinge de frente, mas um bocadinho de lado”, e este movimento é permanente, desgastando a costa e “transportando areais de praias de norte para sul, com um valor médio de um milhão de toneladas de sedimentos por ano”.

Se os sedimentos dos rios que antes chegavam às praias não chegam, a costa está em constante desgaste, acrescentou.

Uma protecção artificial? 

“Este problema agudiza-se em áreas ocupadas. As áreas ocupadas não são compatíveis em termos evolutivos com aquela evolução da linha de costa e, a determinada altura, temos um conflito entre a progressão do mar, o recuo da linha de costa e a manutenção dos espaços ocupados na zona costeira”, salientou, pelo seu lado, Óscar Ferreira, da Universidade do Algarve.

De acordo com os especialistas, “não há uma resolução definitiva para o problema” e o que pode ser feito para minimizar a erosão costeira está a ser feito, sobretudo através do reforço sedimentar, alimentando artificialmente as praias com areia.

“Temos limitações do ponto de vista de investimento, limitações financeiras que todos os países têm, mais ou menos, o nosso problema é um problema que é caro de resolver, mas penso que dentro das possibilidades que temos eu diria que estamos a fazer o melhor que é possível”, disse Filipe Duarte Santos.

Além da alimentação das praias, “em certos casos, não existe outra alternativa se não fazer protecções rígidas, enrocamentos, esporões, intervenções pesadas”, realçou.

“Nas zonas onde não há ocupação, (...) onde não há um risco iminente para as populações, continua a deixar-se existir o recuo da linha de costa. Onde temos populações em risco, normalmente, tem havido um esforço de colocação de areia com os custos associados”, disse Óscar Ferreira, salientando que este é “um esforço continuado e economicamente elevado”.

Óscar Ferreira destacou que as áreas mais preocupantes em termos de erosão costeira são também zonas de ocupação humana, como as zonas de “Espinho até Cortegaça, a zona do Sul de Aveiro, a zona Sul da Figueira da Foz, a área da Caparica, a zona da Quarteira e de Vale de Lobo até Faro”.

O investigador defendeu que, “em algumas áreas”, deveria ser ponderado “um passo à frente para as próximas décadas”, através da reorganização e do reordenamento da faixa costeira onde for possível. Ou seja, retirar as pessoas que vivem na zona costeira para outros locais, o que não é fácil, sobretudo por questões sociais e culturais.

“As pessoas estão, obviamente, muito apegadas à área que ocupam e querem manter-se nessa mesma área, o que é perfeitamente compreensível. No entanto, também tem que haver cada vez mais uma percepção de que isso tem custos directos para o Estado muito elevados. (...) Todos pagam esses custos e, se por acaso tivessem que ser os directos beneficiários a pagar esses custos, eles não teriam capacidade para o fazer. E, muito provavelmente, acabariam eles próprios por retirar-se”, salientou.

Segundo os investigadores, o mar “subiu”, mas na costa portuguesas “ainda não se identifica um fenómeno” de erosão que seja apenas devido às alterações climáticas.

“A subida do nível médio do mar, em resultado das alterações climáticas, virá agravar ainda mais essa situação. Mas nós, neste momento, não precisamos sequer das alterações climáticas para ter já um problema grave”, concluiu Óscar Ferreira.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Ecologia vs. ‘greenwashing’


Cláudia Madeira, Membro da Comissão Executiva do PEV 15 Julho 2019

É preciso mudar o sistema e a forma como funciona a economia, não o clima. O ambiente não pode ser uma preocupação apenas quando dá lucro.


As alterações climáticas estão aí e o que está em causa é a qualidade de vida e até a sobrevivência de todas as formas de vida no planeta.

Actualmente, quase todos se mostram preocupados com este fenómeno, mas as respostas para lidar com o problema são díspares. As opções de cada um são muito importantes e a consciência ambiental deve ser fomentada. Se o clima está a mudar, nós também devemos mudar e adoptar estilos de vida mais sustentáveis.

Mas não pode ser só o cidadão a ser responsabilizado e chamado a pagar os custos da mudança, tal como não deve ser promovido o policiamento dos comportamentos individuais.

Enquanto os cidadãos se penitenciam porque muitas vezes não conseguem fazer opções mais sustentáveis, devido à falta de alternativas acessíveis, os verdadeiros responsáveis pela crise ambiental continuam ilesos e a acumular lucros, arredados de um objectivo que deve ser de toda a sociedade. Até porque, por esta ordem de ideias, às populações com menos recursos é-lhes negado o acesso a alternativas mais sustentáveis.

Mas então e o sistema?

Hoje até vemos grandes empresas a fazer campanhas em defesa do ambiente, procurando disfarçar o impacto ambiental das suas actividades. Mas onde está afinal a responsabilidade das multinacionais no que toca às emissões de carbono? Não será por acaso que o secretário-geral da Organização dos Países Exportadores de Petróleo afirmou recentemente que os activistas do clima serão, “talvez, a maior ameaça à nossa indústria daqui para a frente”.

É preciso mudar o sistema e os interesses instalados. Não há qualquer sustentabilidade nem justiça num mercado de carbono ineficaz e perverso, que permite que países mais ricos possam comprar certificados de emissão de gases com efeito de estufa a países em desenvolvimento para poderem continuar a poluir, promovendo a transferência de emissões e não a sua redução.

Ou seja, quem quiser poluir mais compra créditos a quem polui menos, o que pode levar a resultados contrários ao que este sistema pretende alcançar. Logo, pode servir para muita coisa, mas não para proteger a natureza.

Há uma grande diferença entre os conceitos de ecologia e de greenwashing: um é amigo do ambiente, o outro finge sê-lo. É preciso mudar o sistema e a forma como funciona a economia, não o clima. O ambiente não pode ser uma preocupação apenas quando dá lucro, pois já se percebeu que o capitalismo não é nem nunca será ecologista.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

E se Portugal fosse a Amazónia que precisamos salvar?

Daniel Deusdado, DN, 12 Julho 2019


Não por acaso um dos títulos mais belos e estranhos - Que farei quando tudo arde? - é de um escritor português, Lobo Antunes, e se o livro não é sobre a floresta, o contexto psicológico em que o título aparece tem muito do Portugal de final do século XX e anos seguintes, em que tudo começou literalmente a arder, de forma galopante, chegando-se ao ano de 2003 em que uma onda de calor impiedosa alastrou a morte pelas pessoas e natureza. Nesse ano arderam 225 mil hectares de floresta e dois anos depois um novo pico estatístico: 170 mil. Desde aí nada ficou igual. Ficamos ainda mais subjugados a esta realidade de um abandono da terra, da sua entrega à exploração mais fácil e selvagem, e à rendição coletiva de conforto em que "o país" representasse algo mais do que uma ideia, uma língua e um discurso social emanado a partir das cidades. Proveta e ruído. Critério editorial e opinião. Muito disto tem lideranças que vogam entre garagens e garagens, carros de ar condicionados e pisos alcatifados, a uma distância face ao mundo que só ligeiros sobressaltos de tragédias geram precários espantos. Exemplo: 2017, o novo recorde em todas as frentes - 250 mil hectares de floresta ardida e todas as vítimas civis que conhecemos, não apenas bombeiros (porque esses já eram apenas danos colaterais frutos do erro humano e falta de formação...).

A rendição às necessidades da economia/emprego é a maior falácia do nosso pequeno mundo. O que perdemos do ponto de vista agrícola, turístico e de vida em todo este território é incomensuravelmente maior do que uma fileira predadora da civilização portuguesa (as palavras têm de ser estas).

Portugal gasta valores próximos dos 240 milhões de euros do Orçamento de Estado para o combate a incêndios, mas este valor não reflete os milhões autárquicos mais os milhões da sociedade civil e não mensura o alvoroço inusitado num país "desenvolvido", alvoroço esse consequência dessa rendição a um território abandonado, predado por meia dúzia de grupos económicos da celulose que fizeram deste país a sua mina de ouro.

Não está em causa que existam plantações de eucaliptos em Portugal. Mas está tudo em causa quando a ganância fez de uma espécie não autóctone a maior colonizadora do território português, com consequências dramáticas, nos fogos, na diminuição da biodiversidade e no despovoamento a que estas duas coisas conjugadas com fogos e pobreza tornaram inexorável.

É por causa disto que se percebe que ninguém acredita na "terra", esse Portugal feito de terra, a fronteira mais antiga da Europa.

A fronteira é terra, rios, montanhas, e depois precariamente "nós", geração após geração, quase sempre sem memória. A fronteira não são estes portugueses que se esquecem do lugar que fez a nossa virtude, História e identidade ao longo de quase 900 anos. É de Afonso Henriques e dos seguintes que temos de falar porque conquistaram estes quinhões de terra para que os portugueses existissem e usufruíssem deles por gerações e gerações. E, no entanto, na ganância e no onirismo financeiro, destruímos rios e água potável com excesso de barragens, algumas em pleno século XXI, e em sequência ciclópica, erodimos cada vez mais o litoral sem as areias transportadas pelos rios. Lamentamos a seguir a "Caparica" ou o "Furadouro", como se o mar avançasse em fúria, esquecendo que fomos nós que deixamos de alimentar de areia aquelas zonas de embate.

E se destruímos os rios, esquecemos que comemos paisagem. Entramos no processo de osmose com os produtos que compramos em prateleiras iguais, produtos normalizados a baixo custo, baixo teor de quase tudo, embalagens diferentes para as mesmas coisas.

Restam-nos paisagens simplificadas de monoculturas e abandono de terras e consumidores simplificados.

Envergonhamo-nos então por gradualmente ser difícil reconhecer paisagens próprias de cada região, como se, por exemplo, a região Centro tivesse sido toda a vida aquela vergonha de milhares e milhares de hectares de eucaliptos contínuos, sempre em risco de arder.

Para a indústria da celulose e do papel esta dimensão colossal de horror natural e feiura ao olhar não conta. Não chega nem nunca chegará. Não lhes interessa, são danos colaterais. O negócio deles é outro. Gerirem muito melhor o que já têm e estragaram. Porém, precisam sempre mais, em quantidade e em barato, ignorando a miséria das terras depois dos despojos, a côdea aos proprietários e a barbárie de um país esvaziado de vida humana e natural, à exceção da área ocupada e silenciosa - o deserto de árvores.

Sim, temos de atacar o plástico nos oceanos, mas a solução não é substituí-lo por sacos de papel ou cartão, por mais que pareça bonito e ecológico e novo nos jornais de fim-de-semana. Aumentar o consumo de papel é, no caso português, legitimar e perpetuar o nosso fogo quotidiano, dia quente após dia quente, ceifando tudo, incluindo vidas humanas e milhões de unidades vegetais, pássaros, ruminantes, insetos, anfíbios e tudo mais.

Olhem para os topos das serras portuguesas. O que vêm senão nada? Já houve árvores. Arderam uma vez, duas, três. As árvores caem ou são cortadas depois dos fogos, a terra (o solo fértil) vai-se perdendo serra abaixo e só restam pedras. Pedras onde não nasce nada. Onde vai demorar séculos a que se crie de novo terra que segure árvores.

Tudo isto está a acontecer em 50 anos. A minha geração - a nossa geração de portugueses que decide hoje (pelo exercício do Poder ou pelo voto) - não sabe, não quer saber, ou ganha com isto e faz de conta. Nem a nossa tábua de salvação atual, o turismo, subsistirá se não encontrarmos uma vontade transcendente para mudar. Um país que mata pelo fogo não continuará a ser destino mundialmente eleito. É tão fácil cair em desgraça.

Mudar a nossa terra significa investir para alterar radicalmente este caminho. Como? A União Europeia tem de olhar para Portugal como um caso extremo de pobreza natural e dar-nos dinheiro e um programa estrutural para mudarmos a nossa natureza, para reencontrarmos o caminho da nossa história natural porque este pedaço de terra também faz parte da Europa. E os Governos - este e os seguintes - assumirem que o Ministério da Agricultura tem de sair da rotina canhestra da PAC-CEE, como se nada tivesse evoluído, e deixar de fazer de conta que não percebe o que está a acontecer. Mudar o território é preciso - é navegarmos em nós próprios, 500 anos depois.

"Mosaico". Palavra mágica. Um país com agricultura, pastoreio e espécies autóctones a compô-lo. Isto necessita de um investimento massivo para que substituamos os eucaliptos e as espécies invasoras por sobreiros, azinheiras, carvalhos, castanheiros, pinheiro manso e também muito subcoberto vegetal e prado, além de agricultura, pomares, vinha e silvicultura (a floresta pode promover a diversidade alimentar com frutos silvestres, frutos secos, cogumelos e espargos e muito, muito mais). Há que pagar aos novos guardadores de biodiversidade um rendimento justo que dê tempo para que os 30 anos de um sobreiro adulto sejam, então sim, um abono de família e não apenas dinheiro para se limpar as matas de forma a que arda menos uma natureza artificializada pelo esmagamento da monocultura.

É extraordinário ir descobrindo, quinhão após quinhão, como este Portugal se pode reinventar e resgatar terras férteis a este ciclo de pobreza. Há alguns dias fiz de bicicleta a ecovia da antiga linha de comboio Amarante-Celorico de Basto-Arco do Baúlhe. No meio de lugar nenhum, geometricamente definidos, apareciam enormes hectares de vinha onde antes só havia eucaliptos ou mato (vê-se isso pelos terrenos que fazem fronteiras com as novas culturas). Uma beleza colossal nas margens altas do Tâmega.

Tanto que se pode fazer nas nossas terras férteis: vinho, fruta, cortiça, bolota, castanhas ou nozes, enfim, aquilo de que se faz o nosso sabor, a nossa História, o nosso prazer. Trocado hoje realmente pelo quê?

Sim, os senhores das celuloses podem continuar os seus negócios até os terrenos morrerem de exaustão. Mas até lá, obriguem-nos ao cadastro público do arrendamento de terras, a geri-las como deve ser, a limpá-las e ao que está em redor, a pagarem por cobertos vegetais que "criem" solo quando abandonarem as terras não produtivas. E principalmente a pagar pelos incêndios onde eles acontecem: indemnizações às vítimas, e aos danos nas suas casas, além dos prejuízos gigantescos na imagem de um país sempre em chamas. Verão como o el Dorado em que vivem se atenua.

É inadmissível que este Portugal que arde seja um problema dos cidadãos ou dos contribuintes. É inadmissível que estas indústrias pretendam sempre, através do lobby, continuar a crescer, como fizeram através da "Legislação Cristas", em 2013, que potenciou uma maior liberalização destas plantações, com os resultados de crescimento de área que ainda estamos a verificar.

Um Governo corajoso faria um plano nacional para a floresta não baseado no combate ao fogo mas na reestruturação da floresta: paisagens complexas com variedade de espécies e culturas (mosaico) para que os incêndios não sejam a nossa fatalidade.

É preciso dinheiro? Claro, os pequenos proprietários têm de ser compensados por deixarem de viver dos fast-food arvícola e passarem para espécies de crescimento lento mas a prazo mais rentável e gerador de riqueza para todo o ecossistema.

Há que salvar Portugal como pensamos em salvar a Amazónia. Queremos muito salvar a Amazónia. Não sabemos, no entanto, que precisamos de salvar a nossa própria terra. Achamos que nada podemos, individualmente. Mas podemos. Só todos podemos. Tivesse o poder político vergonha da submissão a que se sujeitou durante décadas e, um dia, um Governo daria o primeiro passo, em nome de D. Afonso Henriques, e em nome dos nossos netos para reflorestar Portugal como deve ser, com bolsas de apoios aos novos agricultores, pastores, silvicultores que refundariam o nosso território até Espanha. Não é para a nossa vida, mas essa herança será bem recebida por quem chegar a Portugal-2143, mil anos de perseverança, e constatar que recebeu como património o mais maravilhoso dos países. Portugal é esta terra, não somos apenas nós.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Extinção de plantas atinge nível "assustador", alertam cientistas

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Um estudo divulgado  pela revista científica "Nature" e pela "BBC" alerta para o ritmo assustador da extinção de espécies de plantas no planeta.

As plantas produtoras de sementes têm desaparecido a um ritmo de quase três espécies por ano desde 1900, o que é até 500 vezes maior do que o esperado como resultado apenas das forças naturais.

Trata-se do primeiro relatório, realizado à escala global. Os resultados são assustadores: 571 espécies desapareceram desde 1750.

Ainda assim, os investigadores estimam que o número possa estar abaixo da realidade já que alguns países não foram estudados minuciosamente.

O trabalho é resultado de um conjunto de dados recolhidos e compilados pelo botânico belga Rafaël Govaerts do Royal Botanic Gardens Kew, em Londres.

QUAIS AS CAUSAS

O desaparecimento das florestas e o uso de grandes áreas de terreno para os negócios da agricultura são apontados como as principais causas da extinção de algumas espécies.

Também o desaparecimento de alguns animais, cujo papel é ajudar a espalhar sementes, tem contribuído para a extinção de plantas.

O estado americano do Havai lidera a lista mundial com 79 espécies extintas, enquanto a África do Sul soma 37.

Em maio, um relatório da ONU estimou que um milhão de espécies de animais e plantas estavam ameaçadas de extinção.

O número é baseado em extinções reais, em vez de estimativas, e é o dobro de todas as extinções de aves, mamíferos e anfíbios combinadas.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Como Funcionava Portugal na Era Pré-plástico?

Há quem chame “apocalipse do plástico” ou “Idade do Plástico” à era em que vivemos atualmente. Mas como era Portugal antes do plástico?

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Plástico: a realidade portuguesa
São mais de 8,8 milhões de toneladas de plástico que acabam por parar nos oceanos.

Só na União Europeia, são consumidos mais de 46 mil milhões de garrafas de plástico, 16 mil milhões de copos, 2,5 mil milhões de embalagens descartáveis e 36,4 mil milhões de palhinhas, representando cerca de 51% do lixo encontrado nas praias dos países europeus.

Portugal estará num bom caminho? O nosso país contribui anualmente, no seu quotidiano, com 721 milhões de garrafas, 259 milhões de copos de café descartáveis e 1000 milhões de palhinhas de plástico. Isto representa números astronómicos de consumo de plástico e de produção de resíduos por pessoa: cada português produz uma média diária de 1,32kg de resíduos.

Como era Portugal antes do plástico?
O plástico foi inventado no final do século XIX e a sua produção começou por volta da década de ‘50. Vamos recuar 70 anos no tempo, onde de plástico pouco se falava.

Começando pelo comércio, uma das indústrias que mais contribui para a propagação de plástico pelos oceanos, imagina ir às compras sem recorrer ao uso de plástico? Em 1950 não necessitava de sacos de plástico para comprar o que quer que fosse.

Nas mercearias antigas, o sal, a farinha, o arroz, o feijão, o café, pão e tantos outros tipos de alimentos e condimentos eram entregues aos “fregueses” em cartuxos de papel ou em sacos de pano ou algodão levados pelos próprios. Chamavam-se compras a granel e, para além de utilizarem zero plástico, evitavam a compra excessiva e a acumulação de produtos alimentares durante longos períodos de tempo em casa. Assim, conseguiam ter sempre alimentos frescos!

E os enlatados? Os enlatados, como sardinhas, atum ou salsichas, eram levados em caixas de fósforos grandes! Já o bacalhau, era embrulhado em papel de jornal, e o fiambre e o queijo em papel manteigueiro, mais conhecido por papel vegetal.

No que dizia respeito aos líquidos, como o azeite, o óleo e o vinho, que normalmente estavam em bidões dispostos pelas lojas, os merceeiros passavam os mesmos para garrafas ou garrafões de vidro que os clientes levavam de casa. O mesmo acontecia com os doces – compotas, mel – e até detergentes!

Para levar todas as compras para casa, os clientes recorriam a sacos reutilizáveis, de pano ou de serapilheira. Mais uma vez, sem recorrer ao plástico!

O setor da restauração também não utilizava a quantidade de plástico de que hoje é responsável. Foi em 1888 que surgiram as primeiras palhinhas, criadas e patenteadas por Marvin Stone. Contudo, estas palhinhas eram feitas de papel, não de plástico.

Em 1960, as palhinhas de plástico, assim como muitos outros produtos descartáveis – copos, pratos e talheres –, invadem o mercado. Os custos eram mais reduzidos e a duração era maior, quando comparados com os produtos de papel. Nesse tempo, ninguém imaginava o impacto que hoje o planeta viria a sentir.

No campo da higiene pessoal, o plástico também não era necessário. Até 1895, ou seja, até ao aparecimento das primeiras lâminas de barbear descartáveis, os homens faziam a barba com navalha e com tratamentos de toalhas quentes.

Se é possível vivermos sem plástico? A resposta é sim. Nesta época foi possível viver desta forma, porque não seria agora, que temos mais e melhorados recursos e tecnologia de ponta? Acima de tudo, a mudança começa com pequenos gestos, que por mais exíguos que sejam, vão sempre ter um impacto positivo no ambiente.

domingo, 4 de agosto de 2019

Fotógrafo retrata a desigualdade de riqueza no mundo com um drone (com video)

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O projeto fotográfico de Johnny Miller, “Cenas Desiguais”, retrata a desigualdade na distribuição de riqueza ao redor do mundo.

Quando estava a tirar um mestrado em Antropologia na Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, o fotógrafo americano ficou desconcertado com a desigualdade com que aí se deparou. 
“A partir do minuto em que pomos os pés na Cidade do Cabo, ficamos rodeados de barracas”, contou ao site Mother Nature Network. “As barracas de lata rodeiam o aeroporto e são precisos 10 minutos para as deixarmos para trás e chegarmos aos bairros mais prósperos, onde as pessoas mais privilegiadas (incluindo eu) vivem. Este é o statu quo na Cidade do Cabo, na África do Sul, e em muitas partes do mundo – mas esse é um statu quo com o qual não concordo.” 

Com a ajuda de um drone, Johnny Miller decidiu mostrar esta realidade ao mundo e foi assim que nasceu o projeto “Unequal Scenes” (Cenas Desiguais). Depois da África do Sul, o fotógrafo continuou a explorar os contrastes e as linhas que separam os ricos dos pobres em muitos outros países, incluindo o México, a Tanzânia, a Índia e o Quénia. 

“As imagens que eu considero as mais poderosas são as tiradas quando a câmara está a apontar diretamente para baixo, olhando para as fronteiras entre os ricos e os pobres”, explicou.


“Às vezes, [esta fronteira] é uma vedação, por vezes é uma estrada ou até um pântano, sendo que de um lado há pequenas barracas ou habitações pobres e do outro casas maiores ou mansões. Há qualquer coisa na composição destas fotografias que as torna extremamente intensas para as pessoas. Acho que tornam a desigualdade relevante – as pessoas podem ver-se refletidas nas imagens e é profundamente inquietante.” 

A escolha das cenas envolve a investigação e identificação dos potenciais locais com base em dados de censos, mapas, reportagens e até conversas, conta Miller. O fotógrafo espera que o seu projeto desperte reações e promova debates sobre a desigualdade. 

“Vi este trabalho dar início a diálogos entre todo o tipo de pessoas – com ou sem estudos, ricos ou pobres, de todas as cores e géneros. Era isto mesmo que eu queria e desejava que acontecesse – que as fotos fossem discutidas e que através dessas conversas pudéssemos começar a compreender a dimensão do problema, e que através desse entendimento pudéssemos desenvolver soluções.”

sábado, 3 de agosto de 2019

Crise hídrica em Portugal já é um cenário real

O World Resources Institute estima que, em 2040, Portugal ocupe a 44º posição na lista de países que enfrentará níveis elevados de ‘stress hídrico’
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Um verão com precipitação muito escassa poderá conduzir facilmente Portugal, de uma situação confortável, para situações de escassez de água “alguma severidade”, alertam os especialistas consultados pelo Jornal Económico.

De acordo com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), no final de maio, 98 % do território estavam situação de seca meteorológica, sendo que cerca de 37,5 % estava nas classes de seca severa e extrema. Em fevereiro, os números eram apenas de 4,8%.

Em maio deste ano, a Associação Natureza de Portugal, representante do Fundo Mundial para a Natureza (ANP/WWF), alertou que Portugal “está a viver além da água que tem”. De acordo com o World Resources Institute, em 2040, estima-se que 161 países entrem num estado de stress hídrico.

A Cidade do Cabo, foi a primeira metrópole mundial em risco de ficar sem água. No dia 19 de março, 2018, os habitantes da capital sul-africana viram as torneiras secas. Nesse dia, o nível das seis principais barragens da região fixava-se em 22,7%. Se chegar aos 13,5%, é o chamado Dia Zero, já que aos 10% torna-se impossível tirar águas das barragens. Desde então, os habitantes da Cidade do Cabo só podem gastar por dia 50 litros de água. Em Portugal, o consumo médio diário doméstico ronda os 200 litros por pessoa.

Sobre se este cenário algum dia pode ser vivido em Portugal, o climatologista e investigador da UTAD, João Santos não nega e vinca que “é muito provável”, relembrando as dificuldades sentidas no ano passado no abastecimento de àgua em Viseu. “O défice híbrido vai-se manter. Não estamos livres de situações como essas”, alerta.

“Analisando a situação que estamos a presenciar, podemos dizer que a escassez de água em Portugal é relativa,” afirmam os professores departamento de Geociências da Universidade do Porto (UP), António Guerner Dias e Joaquim Esteves da Silva, “uma vez que as reservas de água até agora acumulada poderão suprir cerca de 80% das nossas necessidades em água durante o verão”.

No entanto, as alterações climáticas (AC) continuam a ser o principal vilão da história.Tanto a poluição nos oceanos como a emissão crescente dos gases efeitos estufa, resultam num aumento da temperatura do globo que por sua vez conduzem a uma escassez de água, causada também pela falta de percipitação durante longos períodos de tempo. Este ano, o período da chuva durante a primavera ficou muito abaixo da média, o que prolongará o período de seca durante o verão. Mas as AC não são o único fator.

Entre os especialistas ouvidos pelo JE, verificou-se um consenso sobre o agravamento desta problemática em Portugal através da agricultura.

“Tanto a produção agrícola como o consumo doméstico vão agravar a situação de seca em Portugal”, esclarece o docente da UTAD. “Vamos ter menos precipitação e mais evapotranspiração, nas plantas e nos solos. Vamos ter uma maior necessidade de rega, o que pode levar a uma prática pouco sustentável”, conclui João Santos.

De acordo com os professores da UP, as necessidades de água ocorridas na agricultura, podem ser superiores a 60% do total necessário, enquanto as necessidades de água para consumo humano poderão não chegar aos 10% do total.

Desta forma, o especialista de Trás-os-Montes defende ser necessário tomar medidas urgentes no caso da viticultura e na produção de arroz e milho, que não são feitas em ambientes naturais. “Estas práticas devem ser repensadas”, realça.

Já a profesora Maria do Rosário Carvalho da Universidade de Lisboa, argumenta que também a população deve ser sensibilizada.

A falta de água conduzirá a uma maior competição nos setor de abastecimento público e consumo doméstico. A docente do departamento de Geologia, refere que o agravamento populacional e o o crescimento de centros urbanos vai tornar a àgua mais cara e transformar o ecossistema aquático e a quantidade de àgua disponível.

“ O grande desafio está em compatibilizar as necessidades de água com as disponibilidades hídricas existentes”, vinca.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Como era o Saara há 100 milhões de anos? Um mar com criaturas marítimas gigantes, conclui estudo

Peixes com 1,6 metros e cobras com mais de 12 metros de comprimento: assim era o "deserto" do Saara. Cientistas estudaram fósseis ao longo de 20 anos e reconstruíram o mar com 100 milhões de anos.
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Dificilmente imaginamos água no deserto do Saara. Muito menos criaturas marítimas gigantes. Mas aconteceu mesmo: o areal do maior deserto do mundo foi em tempos coberto por um mar de 3.000 quilómetros quadrados, com a água a atingir mais de 50 metros de profundidade. E aí habitaram seres como cobras e peixes-gato gigantes.

Um novo estudo reconstruiu as espécies aquáticas — hoje extintas — que há 50 e 100 milhões de anos atrás preencheram o mar do Saara. O estudo, divulgado pelo The Guardian, revela que em tempos habitaram no que é hoje um deserto inóspito peixes-gato de 1.6 metros e cobras marítimas que ultrapassavam os 12 metros. Maureen O’Leary, autora da investigação, explica que nos períodos Cretáceo e Paleolítico os animais experienciaram mesmo o “gigantismo”.

A cientista conta ainda que moluscos, plantas e árvores preenchiam o leito marítimo daquele território. “As nossas novas reconstruções paleontológicas de fauna mostram uma rica e verde floresta. O antigo ecossistema do Mali tinha ainda inúmeros predadores e algumas das maiores espécies” aquáticas do mundo, revela o estudo. E a água era, claro, quente.

O estudo foi realizado ao longo dos últimos 20 anos, com base na análise dos fósseis deixados para trás nos sedimentos marítimos.

Mas porquê e como atingiram estes animais vários metros de comprimento? O mar do Saara ficava entre as atuais Argélia e Nigéria. Ou seja, durante toda a sua existência ficou isolado de outros canais de água. Assim — explica o estudo — não existiam predadores e abundavam recursos para os animais: a “receita perfeita” para o crescimento das espécies.

E como é que um vasto e profundo mar deu origem a um vasto e árido deserto? Explica a CNN que o Saara que hoje conhecemos foi formado há cerca de sete milhões de anos, quando uma falha nas placas tectónicas “fechou” a região dos mares que a envolvia.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

“O que mais valor tem para as próximas gerações vale zero para a economia”

O jurista e ambientalista Paulo Magalhães, defensor de um condomínio para o sistema terrestre, diz que as políticas devem compensar os países que contribuem para o bem comum. Numa abordagem ao capitalismo ecológico, o investigador percebe que “ninguém quer ser o otário”. Por isso, há que mudar as regras do jogo.

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Há anos que Paulo Magalhães, jurista e investigador na Faculdade de Direito da Universidade do Porto, anda a desenvolver a única forma que acredita que pode fazer frente a um problema tão global como o das alterações climáticas: tal como o seu prédio não funcionaria sem condomínio, sem um governo comum a todo o sistema terrestre a economia e a natureza vão sempre andar desencontradas. Hoje a ideia faz caminho na Casa Comum da Humanidade, fundada em 2016 com o objectivo, a longo prazo, de criar condições para que haja um órgão de governo ambiental com sede nas Nações Unidas.

Paulo Magalhães preside a este organismo internacional com sede no Porto que reúne, em permanência, cerca de 20 investigadores das ciências da Terra. O também membro do conselho geral da Zero é um dos oradores do evento Cidade +, que decorre este fim-de-semana nos jardins do Palácio de Cristal, no Porto (7 de Julho de 2018).

Na origem da Casa Comum da Humanidade está a ideia de que o planeta tem que ter um condomínio, que cuide do comum. Como é que isto se aplica ao sistema terrestre?
Nos seus 4,5 mil milhões de anos, a Terra já teve estados do sistema terrestre muito diferentes – com composições da atmosfera, acumulações de energia e termodinâmicas diferentes –, mas só nos últimos 11,5 mil anos é que se criou esta estabilidade climática que permite a vida. Ora, este sistema terrestre é também fruto da própria evolução da vida, porque há determinados gases que só depois de serem transformados quimicamente por seres vivos é que se produzem. Se destruímos a vida – as florestas, os ecossistemas – vamos criar inevitavelmente atmosferas diferentes.

O que propomos é que se reconheça este estado favorável do sistema terrestre, este trabalho da natureza que é intangível e que nenhum conceito jurídico actualmente existente consegue representar.

A moldura jurídica actual não é suficiente?
As ciências jurídicas ficaram presas num conceito que parou no tempo, que é a soberania ao território. Eu posso dizer “tu não entras nas minhas águas” ou “até aqui não podes pescar”, mas não posso dizer que não adiro às alterações climáticas nem que a composição bioquímica da água do meu oceano é diferente da do teu.

A nossa casa não é o planeta em si, não são os 510 milhões de quilómetros quadrados, mas as condições favoráveis à vida que aconteceram no holoceno nos últimos 11,5 mil anos. A ciência já definiu os limites dessa estrutura bioquímica [investigadores do Stockholm Resilience Centre definiram nove limites para a concentração de CO2 e de aerossóis na atmosfera, fluxos de nitrogénio e fósforo na biosfera e oceanos, perdas de azoto estratosférico e de biodiversidade, poluição química, acidificação dos oceanos e ciclo hídrico]. Nada disto se mede em hectares.

E nesta questão o direito não precisa de fazer nada que já não tenha feito antes. Para o trabalho intelectual ser reconhecido teve que se criar um objecto jurídico novo, a ideia. Separar a posse do livro da ideia. Agora, tal como trabalho intangível intelectual, o trabalho da natureza tem que ser reconhecido.

Isso é também uma questão económica.
Sim. Toda a gente sabe que a floresta vale muito, mas na economia só vale o valor da madeira ou do papel. Um ecossistema tem o valor da infra-estrutura mais o valor dos serviços que presta. A economia actual só olha para o valor da infra-estrutura. O que mais valor tem para as próximas gerações vale zero para a economia.

Basta dar o exemplo da Noruega: eles têm a maior frota de carros eléctricos do mundo, mas são dos maiores exportadores de petróleo. A regra do jogo é esta, os países têm obrigações com o PIB e se não a seguirmos nós é que somos os otários.

Por isso ou fazemos este upgrade do sistema económico e jurídico tendo em conta a informação que temos da ciência ou não vamos a lado nenhum – como os últimos 30 anos de negociações para mitigação das emissões nos mostraram.

Há uma empresa suíça, por exemplo, que tem tecnologia para absorver CO2 através de turbinas. Cada hélice retira uma tonelada de CO2 por dia. E o custo de cada tonelada é 100 dólares. Com isto uma empresa pode anular as suas emissões e criar produtos neutros em carbono. Mas o sistema como hoje existe não compensa o investimento nestas turbinas. Este trabalho é fundamental porque suporta a vida, mas vale zero na economia.

A proposta é que o governo deste condomínio seja feito com sede na ONU. Como se faz uma governação global que não passe por cima dos Estados?
Há um desfasamento total entre o funcionamento do sistema terrestre e os fluxos da economia. Para isto ser harmonizado o direito tem que intervir no sentido organizador, não sancionatório. Precisamos de algo que permita esta sobreposição de soberania e de património comum que existe dentro e fora dos espaços soberanos. Isto é o condomínio.

Claro que também tenho conflitos no meu condomínio, mas imaginem que ele não existia. Estaria tudo a cair e tudo à pancada. É essa a situação na natureza. É preciso um conceito novo, que permita novas soluções.

Se reconhecermos que o sistema terrestre existe, tudo o que cada um faz – positivo ou negativo – tem que ser contabilizado para o manter dentro dos limites de segurança.

Seguindo um princípio de poluidor-pagador?
Poluidor-pagador e prestador-recebedor, à escala global.

Na prática, tem que haver um administrador do condomínio que faz a avaliação e gestão permanente de cada um dos limites do sistema – o que já gastamos este ano, o que podemos gastar mais, onde é urgente compensar – e que define o seu valor.

Esta entidade vai ter em conta os resultados de cada país e estabelecer metas todos os anos. E se se quer alterar o comportamento de um grupo tem que haver compensações.

Isto pode fazer com que, por exemplo, o Brasil e o Peru não tenham que gerir praticamente sozinhos uma floresta que presta bens comuns?
Sim, a infra-estrutura da Amazónia é deles, mas os serviços que ela presta são comuns. Tem que existir um sistema de compensação – e não de mercado –, em que todos têm acesso ao bem, independentemente de conseguirem pagar, mas, porque o bem é escasso, tem que representar uma retribuição a quem o mantém.

Sem estas condições ninguém vai mudar a sua atitude. Se eu perceber que os outros têm as florestas e vão receber porque todos dependemos delas, vou olhar para os meus recursos e ver o que posso fazer para beneficiar o comum: onde posso ser mais eficiente, reabilitar as minhas reservas naturais, por exemplo.

Neste contexto, Portugal estaria a receber ou pagar?
A pegada [ecológica portuguesa] não é a melhor, mas também não é a pior. O país tem uma área relativamente pequena, teria que investir muito em eficiência energética e na redução das emissões de carbono. Mas tem uma área de oceanos bastante grande, que ia contar como um amortecedor da nossa pegada. Mas é preciso fazer cálculos. Isso é o que está por definir: o peso que, por exemplo, a área do oceano tem neste cálculo.

Então já estão definidos os limites, mas falta uma métrica e uma forma de valoração daquilo que a natureza nos dá.
Sim, aí há trabalho a fazer. A valoração há-de surgir de uma convenção internacional. A grande questão é que não pode valer zero, tem que valer o suficiente para mudar a economia. Pelo menos os verdadeiros custos de produção – os custos das externalidades negativas – têm que ser incorporados na economia.

Numa altura em que os Estados Unidos abandonaram o Acordo de Paris e, como noutros momentos, há uma retórica proteccionista, como se faz para vingar esta ideia?
É difícil. Mas o estado actual é também resultado do insucesso das políticas anteriores.

[O acordo de] Paris é muito importante e para se chegar a uma gestão global é preciso dar estes pequenos passos. Mas tem que se perceber que se tem que mudar a regra do jogo. Sem isso, ainda que algo mitigados, temos sempre os mesmos resultados.

A pressão dos factos é que vai ditar a possibilidade de mudar. Os processos humanos de mudança demoram sempre 50, 100 anos. Este processo tem 30 anos sem resultados dignos de serem mencionados como um sucesso.