quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Microfósseis com 570 milhões de anos podem ajudar a entender origem dos animais

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Uma equipa de investigadores encontrou, na Gronelândia, microfósseis semelhantes a embriões com até 570 milhões de anos. Esta descoberta revela que organismos deste tipo estavam dispersos pelo mundo inteiro.

“Acreditamos que esta nossa descoberta melhora o nosso alcance para compreender o período da história da Terra quando os animais apareceram pela primeira vez – e é provável que suscite muitas discussões interessantes”, disse Sebastian Willman, o autor principal do estudo publicado, na semana passada, na revista científica Communications Biology.

A existência de animais na Terra há 540 milhões de anos é bem fundamentada, já que foi a altura em se sucedeu um evento da evolução conhecido como explosão cambriana. No entanto, a comunidade científica parece não conseguir concordar sobre se os fósseis que datavam da era Pré-Cambriana são genuinamente classificáveis como animais.

De acordo com o Phys, os cientistas encontraram microfósseis que podem ser ovos e embriões de animais. Estes podem ajudar a conseguir uma melhor compreensão da origem dos animais. A imensa variabilidade dos microfósseis convenceu os investigadores de que a complexidade da vida naquele período deve ter sido maior do que a que se conhecia até agora.

Os cientistas podem ainda concluir que estes organismos estavam espalhados pelo mundo. Isto porque microfósseis bastante idênticos já tinham sido encontrados no sul da China, há mais de 30 anos. Quando eles eram vivos, a maioria dos continentes ficava ao sul do Equador. A Gronelândia fica onde a extensão do Oceano Antártico, em torno da Antártida, está agora. A China, por sua vez, ficava aproximadamente na mesma latitude daquilo que é agora a Flórida, nos Estados Unidos.

“O vasto leito rochoso, essencialmente inexplorado até agora, do norte da Gronelândia oferece oportunidades para entender a evolução dos primeiros organismos multicelulares, que se desenvolveram nos primeiros animais que, por sua vez, levaram até nós”, diz Sebastian Willman.

Vida como uma "Mulher de Conforto": História de Kim Bok-Dong | ASIAN BOSS


*Atualização* Madame Kim faleceu em 28 de janeiro de 2019, fazendo dessa entrevista possivelmente a última entrevista dos seus 92 anos na Terra. Apesar de ter dedicado sua vida à causa de ajudar vítimas de estupro na guerra, ela nunca recebeu um pedido de desculpas oficial do governo japonês. Sua história continuará vivendo através de seu espírito de luta. Por favor, assista e compartilhe esse vídeo com quantas pessoas forem possíveis para aumentar o conhecimento do caso. Nós acreditamos que qualquer pessoa pode divulgar notícias e documentários verdadeiros. Através de nossas entrevistas originais e profundas de pessoas reais, nós desafiamos vocês - a juventude global - a pensar criticamente e desafiar vários problemas socioculturais. Um obrigado especial a Madame Kim por dividir sua história. Nós acreditamos que qualquer pessoa pode nos dar notícias e comentários verdadeiros. Por nossas originais e profundas entrevistas com pessoas reais, nós desafiamos vocês - a juventude global- a pensar de forma crítica e desafiar várias culturas e problemas sociais. 

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

E se o Interior explodir?

Os Centros de Inativação de Explosivos e Segurança em Subsolo podem, até ao final do ano, sair de Mirandela, Viseu, Castelo Branco, Leiria e Beja para Lisboa, Porto e Faro. Falamos também de mais um serviço que abandona o Interior e a proximidade com as suas necessidades.




Os Centros de Inativação de Explosivos e Segurança em Subsolo podem, até ao final do ano, sair de Mirandela, Viseu, Castelo Branco, Leiria e Beja para Lisboa, Porto e Faro. Passados meses desde que esta intenção foi anunciada, permanecem as incertezas quanto ao real futuro dos agentes policiais destacados para estes Centros.

Esta é uma subunidade da Unidade Especial de Polícia criada em 2000 que tem como função a deteção e inativação de engenhos explosivos e de segurança no subsolo, estando treinada e capacitada para atuar em ambientes perigosos e insalubres, nomeadamente contaminados com agentes biológicos, químicos, nucleares ou radioativos, de que são exemplo áreas infectadas com Covid-19.

Outra das funções desta especialidade é a formação de todos os agentes policiais para que estejam preparados para o manuseamento de explosivos e outras matérias perigosas, assim como a prevenção em escolas dos perigos dos explosivos e formação de de quem trabalha em locais de grande afluência como centros comerciais e hipermercados.

Os agentes destes Centros têm ainda um importante papel relacionado com o setor da pirotecnia e com as pedreiras (onde são utilizados explosivos), atividades muito presentes na nossa região. A área de intervenção do grupo de Viseu, por exemplo, é, a nível nacional, a que mais fábricas de pirotecnia abrange.

Estas são especificidades locais do serviço desempenhado por estes polícias que poderão ser colocadas em causa com a concentração dos serviços em Lisboa, Porto e Faro e que não estão, claramente, a ser tidas em conta nessa decisão.

Como não pode estar a ser tida em conta a segurança das pessoas. Como pode um serviço prestado por policiais com formação altamente específica e com uma área de intervenção tão sensível, ser deslocado e centralizado em apenas três pontos do país, mantendo-se as mesmas exigências locais para segurança das populações?

Há ainda o carácter da litoralização de um serviço que vai interferir com a vida de cerca de trinta famílias, que possivelmente se vão ter que deslocar para Lisboa, Porto ou Faro. Falamos também de mais um serviço que abandona o Interior e a proximidade com as suas necessidades.

Tudo isto parece contraditório à existência de um Ministério da Coesão Territorial, que deveria existir, precisamente, para garantir que fenómenos deste género não acontecem, ou à existência dos apoios do programa Programa Trabalhar no Interior.

Por todos estes motivos, o Governo foi questionado em julho sobre o assunto, mas continua sem dar resposta, apesar dos trinta dias de que dispunha para o fazer. Porque a situação não pode ser esquecida nem está resolvida, o Bloco de Esquerda voltará a insistir na obtenção de esclarecimentos por parte do Governo.

No Interior, ao longo dos anos, já encerraram escolas, tribunais, serviços de saúde, balcões de bancos, estações dos correios e até juntas de freguesias entretanto extintas. Encerramentos, extinções e “reorganizações” que apenas foram contribuindo para o despovoamento das nossas aldeias, vilas e cidades e colocando cada vez mais em causa a qualidade de vida das pessoas que as habitam. E agora: e se o interior explodir?

Artigo publicado em Interior do Avesso(link is external) a 16 de outubro de 2020

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Incêndios causam 200 milhões de euros de prejuízos anuais

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Portugal estava ainda assarapantado com a tragédia que matara, em junho, 66 pessoas em Pedrógão Grande, quando, a 15 de outubro de 2017, o fogo levou mais 50 vidas. Na zona Centro, as labaredas consumiram sete manchas de mato com mais de 10.000 hectares (ha) e causaram o maior incêndio de que há memória no País: na Lousã, arderam 45.500 ha de terreno. Entre as 10h do dia 15 e as 4h do dia 16 ocorreu ali a maior tempestade de fogo da Europa e maior do Mundo, em 2017.

A Comissão Técnica Independente haveria de concluir que, apesar da conjungação terrível e nada usual de fatores metereológicos, falhara a capacidade de "previsão e programação" para "minimizar a extensão" do fogo. Estavam reunidas as condições para mais uma discussão sobre as causas e consequências dos incêndios, sobre o modo como fazemos a prevenção dos fogos, enfim, sobre a capacidade do "sistema" para combater tamanhas tragédias. Uma coisa parece certa: uma vez que os fogo consomem, em média e desde 2010, mais de 136.000 ha de terreno por ano, causando prejuízos anuais a rondar os 200 milhões de euros, toda a prevenção é necessária.

Redes que ajudam

Como prevenir melhor os fogos para termos uma floresta mais sutentável é o tema do debate que o JN, DN e TSF promovem esta quarta-feira, numa parceria com a Tabaqueira. No centro da discussão estará o poder das redes sociais como instrumento de sensibilização para alcançar tal objetivo.

Paulo Fernandes, professor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), não tem dúvidas. "As redes sociais são um instrumento poderoso. Há muitos grupos, com interesses poderosos, que criam páginas nas redes para atirar todas as culpara aos incêndios. Combatê-los nesse mesmo campo, explicando devidamente as causas e consequências dos fogos, é serviço público".

Abílio Pacheco, docente na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), concorda. "Vejo duas ´áreas em que o recurso às redes sociais é decisivo: alteração de comportamentos e capacidade para subsidiar projetos interessantes, como os desenvolvidos pela associação Montis .

Alterar comportamentos

A prevenção, acrescenta o docente da FEUP, "tem duas componentes fundamentais: a gestão do material combustível e a quantidade de ignições. É possível pensar em sistemas de crowdfunding para ajudar as pessoas a gerir melhor o combustível. Mas, sobretudo, as redes podem ser determinantes na alteração de comportamentos. Não podemos esquecer que 98% dos fogos resultam da ação humana".

O Relatório de Atividades de 2019 da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF) elenca os meios usados na campanha "Portugal Chama": os meios digitais conseguiram pouco mais de 35 mil visualizações, o que, de acordo com os especialistas ouvidos pelo DN, é "manifestamente pouco". "É fundamental refazer e reforçar as mensagens nos meios digitais", indicam os especialistas

Holanda, o pequeno país que alimenta o mundo

Um batatal perto da fronteira da Holanda com a Bélgica, o agricultor Jacob van den Borne está sentado na cabina de uma ceifeira-debulhadora, diante de um painel de instrumentos digno de uma nave espacial.

Há quase duas décadas, os holandeses assumiram um compromisso nacional, escolhendo como divisa: “Duas vezes mais alimentos, utilizando metade dos recursos”.

A três metros acima do solo, ele controla dois veículos não tripulados que fornecem dados pormenorizados sobre a composição química do solo, o teor de água, nutrientes e crescimento, medindo a evolução de cada planta. Os valores de produção de Jacob van den Borne atestam a capacidade desta “agricultura de precisão”. O rendimento médio das batatas por hectare, a nível mundial, é de cerca de vinte toneladas. Os campos de Van den Borne produzem fiavelmente mais de 47. 
Este rendimento abundante ainda se torna mais admirável quando se leva em conta o outro lado da folha de balanço: os recursos aplicados. Há quase duas décadas, os holandeses assumiram um compromisso nacional, escolhendo como divisa: “Duas vezes mais alimentos, utilizando metade dos recursos”. Desde 2000 que Jacob van den Borne e muitos colegas agricultores têm vindo a reduzir a dependência das culturas principais em relação à água até 90%. Eliminaram quase por completo a utilização de pesticidas químicos nas plantas cultivadas em estufas e, desde 2009, os empresários holandeses da avicultura e da pecuária introduziram cortes na utilização de antibióticos até 60%. 

Com a procura crescente de carne de frango, as empresas holandesas desenvolvem tecnologia para maximizar a produção, garantindo condições decentes. Este aviário pode alojar até 150 mil aves, desde o choco à colheita.

Outro motivo para admiração: a Holanda é um país pequeno e densamente povoado, com mais de 500 habitantes por quilómetro quadrado. Carece de quase todos os recursos há muito considerados necessários a uma agricultura de grande escala. E contudo é o segundo exportador mundial de géneros alimentares, superado apenas pelos Estados Unidos, cuja massa terrestre é 270 vezes maior. Como é então possível que os holandeses tenham conseguido este feito?
Vista a partir de um avião, a Holanda não se parece com mais nenhum dos grandes produtores mundiais de géneros alimentares. Forma um mosaico fragmentado de campos de cultura intensiva, a maioria dos quais minúsculos à luz dos padrões da indústria agro-alimentar, entremeados com cidades e subúrbios. Nas principais regiões agrícolas do país, quase não existe batatal, nem estufa, nem suinicultura de onde não se aviste um arranha-céus, uma unidade industrial ou uma urbanização. Mais de metade da superfície terrestre nacional é utilizada para a agricultura e a horticultura.

Westland, capital das estufas holandesas, ganha uma aura extraterrestre com estes canais de luz artificial. Nas explorações agrícolas com controlo climático, as culturas crescem 24 horas por dia em qualquer tipo de condições.

Extensões a perder de vista daquilo que parecem ser espelhos mastodônticos revestem os campos. São os extraordinários complexos de estufas da Holanda, alguns dos quais com 70 hectares. 
Os holandeses são igualmente o maior exportador mundial de batatas e cebolas e o segundo maior exportador mundial de legumes, globalmente e em termos de valor. Mais de um terço da totalidade do comércio mundial de sementes de legumes tem origem na Holanda. 
O cérebro responsável por estes números impressionantes está sediado em Wageningen University & Research (WUR), 80 quilómetros a sudeste de Amsterdão. Geralmente considerada a mais importante instituição de investigação agrária a nível mundial, a WUR é o ponto-chave do Vale dos Alimentos (ou Food Valley), um robusto conjunto formado por empresas tecnológicas inovadoras e explorações agrícolas experimentais. Este nome é uma referência propositada ao Silicon Valley da Califórnia, já que a Universidade de Wageningen reproduz o papel desempenhado pela Universidade de Stanford na fusão entre mundo académico e espírito empresarial. 

Os espaços interiores proporcionam excelentes condições de produção para a alface e outras culturas em Siberia B.V. Cada um dos 9 hectares de cultura em espaço fechado rende tanta alface como 4 hectares em espaço aberto e reduz em 97% o tratamento com produtos químicos.

Ernst van den Ende, director-geral do Grupo de Ciências Botânicas da WUR, simboliza esta abordagem conjunta no Vale dos Alimentos. 
Ernst é uma autoridade mundial em patologia vegetal, mas, como nos explica, “não sou só o director de um departamento na universidade. Metade de mim dirige as Ciências Botânicas, mas a outra metade ocupa-se da supervisão de nove unidades de negócio empenhadas na pesquisa de contratos comerciais”. Só esse esforço combinado, “o enfoque na ciência e o enfoque no mercado poderá enfrentar os desafios do futuro”, resume.
O planeta precisa de produzir “mais géneros alimentares nas próximas quatro décadas do que todos os agricultores do mundo colheram nos últimos oito mil anos”. Em 2050, a Terra terá 9 a 10 mil milhões de habitantes, ao passo que hoje alberga sete mil e quinhentos milhões de habitantes. Se não se concretizarem aumentos do rendimento agrícola, acompanhados de reduções do consumo de água e de combustíveis fósseis, mil milhões (ou mais) de pessoas poderão morrer de fome.

Será que o tomate cresce melhor quando banhado com iluminação LED vinda de cima, de lado, ou uma combinação entre ambas? O especialista Henk Kalkman procura respostas no Centro de Melhoramento de Delphy, em Bleiswijk. A colaboração entre universitários e empresários é um factor essencial para a inovação holandesa.

A fome será o problema mais urgente do século XXI e os visionários que trabalham no Vale dos Alimentos acham que descobriram soluções inovadoras. Os meios para impedir uma crise de carência alimentar catastrófica estão ao nosso alcance, insiste Van den Ende. O seu optimismo baseia-se na informação fornecida por mais de mil projectos desenvolvidos pela WUR em mais de 140 países e nos acordos formais celebrados pela instituição com Estados e universidades em seis continentes para partilha dos progressos realizados e sua implementação.
Uma conversa com Ernst van den Ende é como dar uma volta numa montanha-russa de debate de ideias, estatísticas e previsões. A seca em África? “A água não é o problema essencial. É a pobreza dos solos”, afirma. “A inexistência de nutrientes pode ser compensada pelo cultivo de plantas que funcionem em simbiose com certas bactérias, de maneira a produzirem o seu próprio adubo.” E o custo galopante dos cereais para alimentação animal? “Alimentem os animais com gafanhotos em vez de cereal”, responde. 

Acima das expectativas

A Holanda tornou-se o segundo maior exportador mundial de alimentos (em valor monetário), superado apenas pelos EUA. Possui uma fracção de solo arável ínfimo. Como alcançou este sucesso? Utilizando as tecnologias agrícolas mais eficientes disponíveis a nível mundial. Gráfico Jason Treat; Kelsey Nowakowski. Fontes: Faostat; Arjen Hoekstra, Universidade de Twente; Gabinete de Estatística da Holanda (CBS).

 



À esquerda: Rendimentos impressionantes - Nos últimos trinta anos, a indústria holandesa do tomate tornou-se líder mundial em termos de rendimento, produzindo mais frutos por quilómetro quadrado do que qualquer outra região do mundo. À direita: Cultivo sob vidro - A horticultura holandesa depende das estufas que permitem aos agricultores controlar de perto as condições de cultivo e utilizar menos recursos como água e adubo.

A Holanda obtém rendimentos mais elevados em diversas culturas essenciais, além do tomate.

A conversa precipita-se na direcção do uso de iluminação LED para viabilizar o cultivo em estufas com controlo climático rigoroso 24 horas por dia. De seguida, desvia-se para a percepção errónea de que a agricultura sustentável significa intervenção humana mínima na natureza. 
“Basta olhar para a ilha de Bali!” exclama. Há pelo menos mil anos que os agricultores da ilha criam patos e peixe nas mesmas lagoas inundadas onde cultivam o arroz. É um sistema alimentar totalmente auto-suficiente, irrigado por complexos sistemas de canais que percorrem socalcos de montanha esculpidos por mãos humanas. 

Os EUA ocupam o terceiro lugar em termos de produção e de rendimento; a China utiliza mais solo para cultivar o tomate, detendo a liderança mundial em volume de produção, apesar do rendimento médio por quilómetro quadrado; a Nigéria possui a terceira maior área de plantação de tomate, mas obtém um rendimento baixo.

Mais com menos - O recurso a inovações em larga escala, como a agricultura hidropónica (o cultivo de plantas sem solo graças a soluções ricas em nutrientes), reduz o escorrimento, poupando água e dinheiro.

O futuro da agricultura sustentável está a ganhar forma em todos os cantos da Holanda – não nas salas dos conselhos de administração de empresas gigantes, mas em milhares de explorações agrícolas familiares de pequena dimensão. É possível vê-la, vibrante, no paraíso terrestre de Ted Duijvestijn e dos irmãos Peter, Ronald e Remco. À semelhança dos balineses, os irmãos Duijvestijn construíram um sistema alimentar auto-suficiente.
No complexo de estufas de 14,5 hectares da família Duijvestijn, perto da histórica cidade de Delft, os visitantes passeiam entre tomateiros profundos com seis metros de altura. Deitando raízes não no solo mas em fibras tecidas a partir de basalto e gesso, as plantas apresentam-se carregadas de tomate (num total de 15 variedades) para satisfazerem os palatos mais exigentes. Em 2015, um júri internacional de peritos em horticultura atribuiu aos Duijvestijn o título de cultivadores de tomate mais inovadores do mundo. 

Jan e Gijs van den Borne brincam sobre batatas cultivadas na quinta da família, cujo rendimento é duas vezes superior à média global. Veículos não tripulados e outros instrumentos permitem avaliar as condições sanitárias de cada planta e determinam as quantidades de água e nutrientes necessárias para cada uma.

Em 2004, após setenta anos de funcionamento, os produtores mudaram a localização da sua velha exploração agrícola e reestruturaram-na. Anunciaram então a sua independência de recursos em todas as frentes. A quinta produz quase toda a energia e adubo necessários e até parte dos materiais de embalagem destinados à distribuição e venda do tomate. O ambiente de cultivo é mantido a temperaturas ideais durante todo o ano através do calor gerado por aquíferos geotérmicos que fervilham no subsolo em pelo menos metade da Holanda.

Cada quilograma de tomate requer menos de 14 litros de água, comparado com os 60 litros exigidos por plantas em campo aberto.

A única fonte de irrigação é a água da chuva, segundo Ted, responsável pelo programa de cultivo. Cada quilograma de tomate requer menos de 14 litros de água, comparado com os 60 litros exigidos por plantas em campo aberto. As poucas pragas que conseguem penetrar nas estufas dos Duijvestijn são recebidas por um exército esfomeado de defensores, entre os quais o feroz Phytoseiulus persimilis, um ácaro predador que não mostra qualquer interesse pelo tomate mas devora sozinho centenas de invasores.
Alguns dias antes, Ted participou numa reunião de agricultores e investigadores em Wageningen. “É desta maneira que encontramos formas inovadoras de progredir”, explicou. “Gente de toda a Holanda reúne-se para discutir perspectivas diferentes e objectivos comuns. Ninguém conhece todas as respostas sozinho.”

Uma máquina rotativa permite que um operador ordenhe um máximo de 150 vacas por hora, na Unidade de Lacticínios da Universidade de Wageningen, onde os investigadores procuram superar os desafios criados pela produção leiteira na densamente povoada Holanda.
A busca de respostas para uma pergunta decisiva deu origem a uma das empresas mais inovadoras da Holanda. Há meio século, Jan Koppert cultivava pepinos usando pulverizadores com substâncias químicas tóxicas para eliminar as pragas. Quando um médico o informou que era alérgico aos pesticidas, Jan decidiu aprender tudo o que podia sobre os inimigos naturais dos insectos e dos aracnídeos.

A Koppert Biological Systems é actualmente a empresa que marca o ritmo no mercado mundial de controlo de pragas biológicas e doenças, com 1.330 funcionários e 26 subsidiárias internacionais que comercializam os seus produtos em 96 países.

A Koppert Biological Systems é actualmente a empresa que marca o ritmo no mercado mundial de controlo de pragas biológicas e doenças, com 1.330 funcionários e 26 subsidiárias internacionais que comercializam os seus produtos em 96 países. A empresa tem capacidade para fornecer sacas de algodão com larvas de joaninhas que, ao atingirem a maturidade, se transformam em consumidores vorazes de afídeos. Também vende os ácaros predadores que caçam insectos invasores nas plantas e sugam-nos até os dessecarem por completo. Outra solução imaginativa é um frasco com 500 milhões de nemátodos que organizam ataques mortíferos contra as larvas de mosca que devoram os cogumelos de produção comercial.
As legiões de Koppert fazem o amor e a guerra, sob o disfarce de abelhões entusiásticos, fertilizando os ovários das plantas. Cada colmeia de Koppert contribui com visitas diárias a meio milhão de flores. Os agricultores que utilizam abelhas costumam normalmente registar aumentos de 20 a 30% nos rendimentos e peso da fruta, com um custo de menos de metade da polinização artificial. 
Não há nenhum país do globo que domine tão bem a tecnologia das sementes. E em nenhum outro domínio são mais acesas as polémicas que rodeiam o futuro da agricultura. A maior delas é o desenvolvimento de organismos geneticamente modificados (OGM) para gerar colheitas maiores e mais resistentes às pragas. Para os seus críticos, os OGM representam um cenário carregado de incertezas quanto às consequências da experimentação radical com entidades vivas. 

O produtor de tomate Jasper Oussoren inspecciona um gerador que transforma gás natural em electricidade para efeitos de iluminação. Os subprodutos (calor e CO2) são capturados para aquecer as estufas e acelerar o crescimento das plantas.

As empresas holandesas encontram-se entre os líderes mundiais do negócio das sementes e o valor das exportações de 2016 rondou os 1.450 milhões de euros. No entanto, não comercializam produtos geneticamente modificados. Uma nova variedade de sementes no altamente regulado sector europeu dos OGM pode custar 86 milhões de euros e exigir 12 a 14 anos de investigação, diz Arjen van Tunen, da KeyGene. Em contrapartida, os mais recentes avanços na ciência da reprodução molecular (sem introdução de genes exógenos) podem proporcionar ganhos consideráveis em 5 a 10 anos, com custos de desenvolvimento habitualmente situados abaixo de 80 mil euros e raramente superiores a 850 mil euros. 
A reprodução molecular é descendente directa dos métodos utilizados pelos agricultores do Crescente Fértil há dez mil anos. 
O catálogo de vendas de Rijk Zwaan, outro agricultor holandês, inclui sementes de rendimento elevado em mais de 25 grupos de legumes, muitos dos quais capazes de defender-se contra as pragas mais graves. Heleen Bos é responsável pelas secções de sementes biológicas e pelos projectos de desenvolvimento internacionais da empresa. Uma única semente de tomate tecnologicamente avançada, de preço inferior a 40 cêntimos, é capaz de produzir 70 quilogramas de tomate. Heleen Bos, porém, prefere falar sobre as centenas de milhões de pessoas que não dispõem de alimentos em quantidade suficiente no planeta.

A reprodução molecular é descendente directa dos métodos utilizados pelos agricultores do Crescente Fértil há dez mil anos. 

 À semelhança de muitos empresários do Vale dos Alimentos, Heleen trabalhou nos campos e cidades dos países mais pobres do mundo. Com missões demoradas em Moçambique, Nicarágua e Bangladesh nos últimos 30 anos, ela sabe que a fome e as crises de carência alimentar devastadoras não são ameaças abstractas. 
“Não seremos capazes de pôr imediatamente em prática nesses países o tipo de agricultura tecnologicamente avançada que praticamos na Holanda”, diz. “Mas já estamos bastante avançados na introdução de soluções de tecnologia média que podem fazer grande diferença.” Faz referência à proliferação de estufas de plástico relativamente baratas que triplicaram o rendimento de algumas culturas em comparação com os cultivos em campo aberto, onde as culturas se encontram mais vulneráveis a pragas e à seca.
Desde 2008 que Rijk Zwaan dá apoio a um programa de reprodução de sementes na Tanzânia, num campo experimental de 20 hectares à sombra do monte Kilimanjaro. Há projectos de colaboração em curso no Quénia, Peru e Guatemala. “Mantemos um diálogo constante, de enorme importância, com os pequenos agricultores sobre as suas necessidades, as condições climáticas e do solo e os custos”, esclarece.

Espalhar a palavra, alimentar o planeta
A Wageningen University & Research, instalada no Vale dos Alimentos, é um elemento decisivo para o sucesso agrícola da Holanda. A universidade exporta também os seus métodos inovadores para todo o mundo. Gráfico Jason Treat; Kelsey Nowakowski. Fonte: Wageningen University & Research.

CAZAQUISTÃO, Dente-de-leão russo - Um projecto procura desenvolver a borracha natural obtida a partir das raízes de uma espécie de dente-de-leão, travando uma causa da desflorestação; ÍNDIA, Orizicultura inovadora - O cultivo do arroz com mão-de-obra intensiva aumentou os rendimentos nas últimas décadas. Um novo projecto visa fomentar a inovação; BANGLADESH, Qualidade da água - Cheias mais frequentes e intensas disseminam agentes patogénicos transmitidos por via hídrica, contaminando culturas agrícolas; CHINA, Transporte seguro - Uma linha férrea entre Roterdão e Chongqing suporta variações extremas de temperatura na travessia para garantir a segurança alimentar no percurso; AMÉRICA LATINA, Zonas de transição - As florestas tropicais estão ameaçadas pela agricultura e por outros usos do solo: este projecto estabelece estratégias para gerir as zonas de transição entre as explorações agrícolas e a floresta; GANA, Produção de legumes - O projecto GhanaVeg visa um mercado competitivo de legumes para satisfazer a procura crescente de uma classe média cada vez maior; QUÉNIA, Inseminação artificial - Este projecto estuda maneiras de melhorar a segurança alimentar das operações dos pequenos produtores de lacticínios; ETIÓPIA, Melhores batatas - Este projecto melhora a qualidade dos tubérculos-semente e analisa as consequências económicas de uma mudança nas culturas de tubérculos; INDONÉSIA, Recuperar a paisagem - Este projecto promove a colaboração entre interesses públicos e privados para optimizar modelos de negócio na floresta.

A Holanda foi o último país ocidental a sofrer uma crise grave de carência alimentar, quando 10 a 20 mil pessoas morreram durante a ocupação alemã nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial.
Décadas mais tarde, Rudy Rabbinge, professor jubilado de Desenvolvimento Sustentável e Segurança Alimentar na WUR, abraçou esta causa ao contribuir para a introdução de alterações profundas no corpo docente, no corpo discente e no currículo da WUR que transformaram a instituição naquilo a que ele chama “uma universidade para o mundo e não apenas para os holandeses”. Actualmente, uma parcela significativa das actividades académicas e científicas da WUR foca-se nos problemas dos países pobres. 

Cerca de 45% dos estudantes de pós-graduação, incluindo quase dois terços dos candidatos a doutoramento, são recrutados no estrangeiro e vêm de mais de cem países.

Cerca de 45% dos estudantes de pós-graduação, incluindo quase dois terços dos candidatos a doutoramento, são recrutados no estrangeiro e vêm de mais de cem países. Os alunos asiáticos, encabeçados pelos chineses e pelos indonésios, ultrapassam em número quase todos os europeus não-holandeses somados. Antigos alunos da WUR encontram-se em posições de topo em ministérios da Agricultura africanos, asiáticos e latino-americanos. 
Numa cafetaria da cidade universitária, sento-me na companhia de três dos mais promissores alunos da WUR. São três mulheres, originárias do Uganda, do Nepal e da Indonésia. 
“Travei conhecimento com uma antiga aluna de Wageningen quando frequentava a licenciatura, no Uganda”, conta Leah Nandudu, quando lhe pergunto como veio aqui parar. “Ela era especialista na definição de fenótipos”, a área de estudos avançados que traça o retrato pormenorizado das características e potencial de uma planta. “Foi inspirador descobrir que uma africana poderia fazer este tipo de coisas. Ela era o futuro: era o rumo que eu precisava de tomar.”
O encontro acabou por conduzir Leah até uma bolsa da WUR. O seu pai cultiva um hectare de terra, dividido entre café e bananas.“Enfrentamos os mesmos problemas dos agricultores de hoje em todo o mundo, só que muito piores, sobretudo devido às consequências das alterações climáticas.”

O conhecimento é a exportação mais valiosa da Holanda. Na Wageningen University & Research (WUR), metade dos alunos de pós-graduação são oriundos de outros países, alguns dos quais ameaçados por crises de carência alimentar.

Pragya Shrestha cresceu no meio rural nepalês, parte do qual foi devastado por longos anos de utilização de pesticidas e adubos. Até agora, o recurso a métodos mais fiáveis e sustentáveis fez poucos progressos.

O número de pessoas ameaçadas pela fome em apenas três países africanos e na outra margem do mar Vermelho, no Iémen, é hoje superior a 20 milhões.

“O problema é político”, afirma. Não é possível desenvolver métodos novos de cultivo por falta de financiamento público. “É também um problema populacional, devido à fragmentação da terra em parcelas cada vez mais pequenas, situação que só serve para o uso de trabalho humano ineficiente e gera um rendimento muito baixo.”
Renna Eliana Warjoto viajou de Bandung, a terceira maior cidade da Indonésia. “As pessoas  [no meu país] desconfiam das ideias vindas do estrangeiro”, afirma, enquanto Pragya e Leah acenam com a cabeça. “Os agricultores estão tão habituados a vidas e rendimentos marginais que lhes custa acreditar que as coisas podem ser diferentes”, acrescenta.
O número de pessoas ameaçadas pela fome em apenas três países africanos e na outra margem do mar Vermelho, no Iémen, é hoje superior a 20 milhões segundo a ONU e está a aumentar de forma implacável. “Enfrentamos hoje a maior crise humanitária desde a fundação da ONU,” avisou em Março Stephen O’Brien, coordenador para a ajuda de emergência da organização. 
“A nossa tarefa mais difícil é mudar as percepções da nossa gente sobre a crise com que nos confrontamos e o que precisamos de fazer para resolvê-la”, afirma Leah Nandudu. “Esse vai ser o meu trabalho quando regressar ao meu país. Não podemos virar as costas à realidade.”

Uma exploração agrícola nos terrenos de uma antiga fábrica, em Haia, produz legumes e peixe num ciclo auto-sustentado: os resíduos dos peixes adubam as plantas, que filtram a água para os peixes. Os restaurantes locais servem orgulhosamente as hortaliças e “nadadores da cidade”.

Cerca de 6.600 quilómetros a sul de Wageningen, num feijoal familiar no vale do Rifte Oriental, em África, uma equipa da SoilCares, uma empresa holandesa do sector tecnológico agrícola, explica as funções de um pequeno dispositivo portátil. Juntamente com uma aplicação de telemóvel, o dispositivo analisa o PH, a matéria orgânica e outras propriedades do solo, carregando de seguida os resultados numa base de dados holandesa e enviando de volta um relatório pormenorizado sobre a utilização optimizada de adubos e as necessidades de nutrientes – tudo em menos de dez minutos. Custando poucos euros, o relatório fornece informações que podem ajudar a reduzir perdas nas colheitas em margens enormes a agricultores que nunca tiveram acesso a qualquer tipo de amostragem do solo.

Menos de 5% do total estimado de 570 milhões de explorações agrícolas no planeta têm acesso a um laboratório de solos. É este tipo de números que os holandeses consideram um desafio. “Que impacte terá o nosso trabalho nos países em desenvolvimento? Eis uma pergunta que estamos sempre a colocar”, defende Martin Scholten, responsável pelo Grupo de Ciências Animais da WUR. “Na verdade, faz parte de todas as conversas.” 

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Estudo revela que carros híbridos são "desastre ambiental" e Zero pede fim dos apoios do Estado

Zero revela as conclusões de um estudo da Federação Europeia de Transportes e Ambiente, segundo o qual este tipo de veículos regista emissões reais que podem ser quase o dobro daquilo que é anunciado.


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Um estudo europeu denuncia o "desastre ambiental" dos carros híbridos 'plug-in' com emissões de dióxido de carbono acima do legalmente declarado e a associação ambientalista Zero pede o fim dos benefícios fiscais para estes veículos.

Num comunicado divulgado este domingo, a Zero revela as conclusões de um estudo da Federação Europeia de Transportes e Ambiente, à qual pertence, e segundo o qual este tipo de veículos (PHEV, na sigla em inglês) regista emissões reais que podem ser quase o dobro daquilo que é anunciado, tendo por base testes "em condições reais" de utilização realizados aos três modelos mais vendidos na Europa em 2019: um BMW X5 (o PHEV disponível no mercado com maior autonomia), um Volvo XC60 e um Mitsubishi Outlander.

"O estudo concluiu que, mesmo em condições de teste ótimas, em que os veículos são utilizados da forma mais moderada possível e com as baterias completamente carregadas, as suas emissões são 28%-89% superiores às contabilizadas nos testes. Se forem utilizados em modo convencional, ou seja, usando exclusivamente o motor a combustão, estes carros emitem três a oito vezes mais CO2 [dióxido de carbono] do que aquilo que os testes indicam", refere o comunicado da Zero.

A associação ambientalista acrescenta que "se adicionalmente o motor a combustão for utilizado para carregar as baterias - algo frequente antes de os condutores entrarem em zonas urbanas de emissões reduzidas - as emissões, de CO2 e em geral de poluentes com efeitos nocivos diretos na saúde, vão até 12 vezes acima das anunciadas oficialmente".

Os testes constataram níveis de autonomia em modo elétrico inferiores aos publicitados, com o caso mais baixo a corresponder "a uns meros 11 quilómetros", além de concluírem que em condições reais de utilização "o recurso ao motor a combustão é constante", o que significa que "estes automóveis só cumprem o anunciado nos catálogos em viagens muito curtas; por exemplo, numa viagem de 100 quilómetros, emitem até cerca de duas vezes mais do que o valor oficial".

Para a Zero, os testes que regulamentam oficialmente o nível de emissões destes veículos têm o problema de assentar "na suposição excessivamente otimista da parcela de utilização em modo elétrico, ou seja, o fator de utilização elétrica, resultando em valores de CO2 irrealisticamente baixos".

Por isso, previsões mais de acordo com a utilização elétrica real colocariam os níveis de emissões em "valores oficiais 50%-230% superiores aos atualmente em vigor".

A associação ambientalista refere o aumento de vendas de carros PHEV na Europa, com meio milhão de unidades vendidas em 2020, sendo que em Portugal foram vendidos até outubro 8.300 automóveis, "praticamente o dobro do que se vendeu no mesmo período de 2019". Os novos limites em vigor na União Europeia obrigam os fabricantes a vender automóveis com baixas emissões.

A premissa do estudo hoje divulgado era precisamente perceber se as emissões publicitadas correspondiam à redução para um terço das dos automóveis convencionais equivalentes, como os fabricantes anunciam, ou se "são um truque para cumprir os requisitos legais".

Com base nos resultados, a Zero pede o fim dos benefícios fiscais e subsídios para a compra destes veículos, referindo que estes estão estimados em mais de 43 milhões de euros para 2020 em Portugal.

"Trata-se de um valor que está a ser desbaratado no apoio a uma tecnologia poluente e que por isso, recomenda a Zero, deve ser canalizado sem demora para tecnologias verdadeiramente verdes", defende a associação.

A Zero entende que estes apoios devem ser reservados para carros 100% elétricos, recomendando que numa fase transitória os apoios e acesso a subsídios sejam concedidos para veículos com uma autonomia mínima de 60 quilómetros e "acesso comprovado" a pontos de carregamento.

Já a redução do Imposto sobre Veículos deve baixar dos 75% para os 25% e as empresas só devem poder reaver metade do Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) e não a totalidade, como atualmente.

A nível europeu a Zero pede que deixem de ser atribuídos "supercréditos" à venda de carros PHEV e que os testes passem a ter por base condições reais de utilização. Sugere ainda que a Comissão Europeia legisle para que sejam contabilizadas as emissões reais, apuradas com base no uso registado no computador de bordo do veículo.

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A chocante monotonia das prateleiras de supermercados

A indústria alimentar vende a ilusão de variedade. Mas há sete mil plantas comestíveis na Terra e 90% do que consumimos vem de apenas 15 espécies. Sabores e aromas artificiais imperam. Contudo, há como reinventar a cozinha da biodiversidade. Por Ricardo Abramovay em Outras Palavras.



Quando vai ao supermercado, a quantidade de cores, formatos, marcas, desenhos, fotos e alternativas é desconcertante. À primeira vista, as suas possibilidades de escolha, para as refeições que tem pela frente, são cada vez maiores.

Mas, na verdade, a palavra mais marcante do padrão alimentar contemporâneo é monotonia. E isso representa uma tripla ameaça: à saúde, à segurança alimentar e aos serviços ecossistémicos dos quais todos dependemos.

Como assim? Como evocar monotonia, diante da estonteante variação das prateleiras?

O Estado Mundial das Plantas e dos Fungos(link is external), relatório recém-publicado pelo britânico Kew Royal Botanic Gardens, instituição prestigiada, dirigida pelo investigador brasileiro Alexandre Antonelli, ajuda a responder a esta pergunta.

O estudo mostra que as plantas comestíveis catalogadas globalmente pela ciência chegam ao impressionante número de 7.039. Destas, 417 são consideradas cultiváveis. As descobertas de novas plantas não cessam. Só em 2019, os botânicos registaram 1.942 novas plantas e 1.866 fungos que ainda não conheciam. No Brasil, duas novas espécies de mandioca selvagem foram catalogadas.

As plantas catalogadas em 2019 concentram-se na Ásia (36%) e na América Latina (34%), confirmando a liderança em biodiversidade dos territórios situados no Hemisfério Sul. Mas, diante desta diversidade, por que então falar em monotonia?

É que esta espetacular variedade quase nunca chega ao seu prato. Cerca de 90% do que a humanidade ingere vem de apenas 15 produtos plantados, dos quais dependem a alimentação humana e a alimentação animal contemporâneas. Quatro mil milhões de pessoas têm a sua alimentação baseada quase exclusivamente em arroz, milho e trigo.

Os processos de transformação industrial ampliam a variedade da oferta de produtos, mas não a biodiversidade daquilo de que são feitos. Pelo contrário, esta é sistematicamente reduzida em benefício de componentes industriais que permitem fabricar o gosto, o aroma, a consistência e a aparência do que é vendido, sobre a base da escassa variedade do que vem das plantas.

O problema não é o alimento industrializado — como o macarrão, o queijo ou o azeite, por exemplo. O busílis da questão é a ampliação do ultraprocessamento alimentar, que se apoia em matérias-primas básicas e pouco variadas e, ao mesmo tempo, numa engenharia de alimentos cada vez mais poderosa, como vêm mostrando diversos trabalhos do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP(link is external).

É aí que se encontra o vínculo fundamental entre a organização da agropecuária, a saúde humana e o estado atual da biodiversidade. A monotonia e a escassez em géneros naturais dos produtos ultraprocessados (aliadas a técnicas que neles introduzem componentes artificiais e, frequentemente, viciantes) são um dos mais importantes vetores da pandemia global de obesidade(link is external). Ao mesmo tempo, a homogeneidade e a baixa diversificação dos ambientes agropecuários são determinantes fundamentais da erosão global da diversidade genética, como mostra a Avaliação Global da Biodiversidade e dos Serviços Ecossistêmicos(link is external).

Um dos elementos mais preocupantes da erosão genética contemporânea está nas gigantescas concentrações animais(link is external), sobre a base das quais o mundo tem, hoje, proteínas mais baratas do que nunca. Estas concentrações representam riscos crescentes à saúde pública e ao meio ambiente.

Tim Spector(link is external), epidemiologista genético britânico, acaba de publicar um livro em que recomenda não tal ou qual regime alimentar, não quantas vezes por dia cada um deve comer, ou quanto exercício fazer, mas, antes de tudo, uma dieta com ao menos trinta plantas diferentes por semana. Para Spector, os alimentos ultraprocessados deveriam ser taxados e o produto desta imposição deveria subsidiar e baratear a diversificação do consumo comida de verdade — sobretudo, frutas e vegetais. Para ele, estimular a arte da cozinha doméstica é parte importante da necessária transição. Aprendemos a ler e escrever, mas precisamos também aprender mais sobre comida e cozinha.

A integração entre saúde, produção agropecuária e fortalecimento dos serviços ecossistémicos indispensáveis à vida social será um dos maiores desafios da Conferência Global sobre Biodiversidade(link is external), que deveria ter acontecido na China e foi transferida para o ano que vem, em função da pandemia. O que está em jogo são, em primeiro lugar, as florestas tropicais e a urgente necessidade de interromper sua devastação. Mas, no programa da conferência, estará também não só a maneira como se usa a floresta, mas o vínculo entre agropecuária, saúde e erosão da biodiversidade.

A Organização Mundial da Saúde, a Organização Mundial da Saúde Animal e a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação estão a trabalhar juntas em torno da noção de One Health (algo como “a saúde é uma só”). Mas, como mostra um trabalho recente de investigadores da Fondation Nationale des Sciences Politiques(link is external), multiplicam-se as iniciativas que procuram compreender e elaborar políticas juntando padrões de consumo alimentar, produção agropecuária, saúde humana e meio ambiente.

Para o Brasil, esta unidade é um trunfo e um imenso desafio. O trunfo está no facto de sermos o país mais mega-diverso do planeta, apesar do abalo na nossa reputação global — derivado do avanço da destruição na Amazónia, no Pantanal, no Cerrado e do descaso das atuais políticas governamentais em preservar estes patrimónios universais pelos quais os brasileiros deveriam ser responsáveis.

O desafio é que de nada adianta alardearmos a condição de maiores exportadores mundiais de alimentos, se um dos mais importantes resultados deste desempenho for a erosão da diversidade genética da agropecuária e produtos cuja transformação — e cujo uso — fazem parte de um problema que a humanidade quer combater: a pandemia de obesidade.

A eficiência no mundo contemporâneo exige uma abordagem que vá além da capacidade de produzir a baixo custo. O maior desafio está em articular organicamente produção agropecuária, o fortalecimento da biodiversidade e melhoria na saúde humana. Nisso, o Brasil teria tudo para assumir a liderança global.

Ricardo Abramovay é sociólogo, professor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo, autor de vários livros. É especialista em sociologia rural e desenvolvimento sustentável.

domingo, 22 de novembro de 2020

Mata de Albergaria
Por Jorge Araujo
As florestas
Sob a designação genérica de floresta encobre-se um equívoco de consequências gravosas: no mesmo saco, incluímos o que resta da floresta autóctone (bosque, mata), o que foi domesticado pelo Homem (montado) e os povoamentos arbóreos para produção (pinhais, eucaliptais, castinçais).
O neolítico trouxe a reconversão progressiva do modo de vida de caçador-recolector para o agro-pastoril e, consequentemente, uma pressão sobre a floresta para libertação de terrenos destinados à pastorícia e à agricultura. Se até então, a floresta tinha evoluído ao sabor dos movimentos tectónicos e das alterações climáticas, na escala dos milhões de anos, a partir do neolítico, a intervenção humana acelerou drasticamente a sua mutação, na escala dos milhares ou mesmo das centenas de anos.
A chegada dos romanos à Ibéria por volta de 218 aC veio acentuar essa pressão pois, não só pretendiam substituir os cartagineses e fenícios na exploração das riquezas minerais, mas também produzir trigo, de que necessitavam para alimentar o Império. Aliás, todo o Norte de África, integrado no Império Romano, formatou-se como um imenso celeiro de Roma. Durante os 600 anos que permaneceram na Península, os romanos substituíram a economia de subsistência das primitivas tribos por grandes unidades de exploração agrícola, produtoras de azeite, vinho, cereais e pecuária. Em suma, com os romanos, assistiu-se à primeira grande transferência de solo florestal para a agricultura e a pastorícia.
Não esqueçamos ainda que a madeira foi, até ao advento dos combustíveis fósseis, e mesmo depois em muitas regiões, a principal fonte de energia para aquecimento e indústrias; as energias do vento e da água eram supletivas e aproveitadas para moagem e pouco mais. Portanto, a floresta autóctone teve de ser ela a suprir a “parte de leão” das necessidades energéticas, ao mesmo tempo que se via progressivamente amputada do seu solo em proveito da agricultura e da pastorícia; e isto... durante séculos!
Uma solução airosa foi encontrada no Sul onde dominavam as quercíneas perenifólias, a azinheira e o sobreiro. A astúcia consistiu em desadensar o bosque, abrindo espaço para o pastoreio, nomeadamente do porco preto, mas poupando as árvores, as quais foram sujeitas à poda, que favorece a produção de bolota, de que se alimentavam os suínos. A esta solução atribui-se a designação de “montado”. A cortiça, adquirindo um estatuto económico relevante, contribuiu para a sustentação económica dos montados, na perspetiva de sua exploração em uso múltiplo. 

Mas mesmo o montado, apesar do compromisso que representava com a pastorícia, não resistiu, já no séc. XX, à agricultura impulsionada pela política que visava a auto-suficiência da produção do trigo. Em 1929, inspirado na “Bataglia del grano” promovida por Mussolini, na Itália, o Estado Novo, ignorando as advertências de quem sabia, designadamente do Prof. Azevedo Gomes, lançou a “campanha do trigo” que teve a sua maior expressão no Alentejo e, por via da qual, foi subsidiado o arroteamento de vastas áreas de montado e matos para expansão da cultura do trigo. A erosão e o esgotamento da pouca fertilidade dos solos, maioritariamente delgados, conduziram rapidamente ao insucesso: a partir de 1934, a produção não cessou de decair.

Chegados ao séc. XXI, Portugal tem pela frente um desígnio maior: reconstituir grande parte do seu património florestal, inspirando-se na composição das florestas autóctones. 

Em boa verdade, a maior parte do coberto vegetal que tem ardido, é composto por uns miseráveis povoamentos de pinheiros e de eucaliptos com que foi substituída a floresta autóctone ou ocupados os campos abandonados pelas culturas tradicionais, pouco resilientes no contexto da economia aberta. Quem atravessar as nossas Beiras (e não só), encontrará extensas manchas verdes, enganosamente florestais, candidatas a mudarem para cinzento, e extensas manchas cinzentas à espera de reverdecerem para de novo voltarem a arder.

Impõe-se quebrar este ciclo verde-cinza. Não vale a pena culpabilizar a economia; do mesmo modo que só se eliminarão os plásticos abandonados quando estes forem generalizadamente reconhecidos como matéria-prima valiosa para indústrias transformadoras, também a floresta só será protegida quando o seu repovoamento, manutenção e proteção assentarem numa equação económica robusta. Mas, para tal, importa atribuir valor ao que tem valor: isto é, aos serviços que a floresta nos presta.

• As florestas são sumidouros de carbono, e produtores de oxigénio que nós consumimos em cada segundo das nossas vidas. Quanto vale este serviço?

• As florestas são a única barreira eficaz contra a desertificação: cortam o vento, retêm a água, enriquecem o solo, regulam o regime das chuvas, refrescam o ambiente. Estamos dispostos a prescindir delas? Quanto vale este serviço?

• As florestas pintam paisagens que nos encantam, e nos repousam fazendo esfumar-se o stress; oferecem-nos também ambientes propícios a atividades de lazer e desporto. Quanto vale este serviço?

• As florestas e a sua biodiversidade são um dos ativos do território mais importantes para a promoção do turismo. Quanto vale este serviço?

• As florestas fornecem-nos diversos materiais como madeira, cortiça e resina, que o Homem explora desde sempre; mas também frutos, cogumelos, mel e muito mais.
  
Enquanto não estivermos dispostos a reconhecer e contabilizar os inúmeros e insubstituíveis serviços que a floresta nos presta, se for genuína e acarinhada, encararemos sempre a reflorestação como um pesado encargo e não como um investimento. E é aí que está o busílis! 
A par da floresta autóctone, pode e deve haver, em terrenos apropriados e de forma regulada, agricultura florestal (silvicultura) para produção de madeiras e de pasta de celulose, que se enquadram, é bom de ver, na fileira do sequestro de carbono desde que, depois de usados, esses materiais não sejam queimados, mas sim reciclados.
Daí a importância, também, da economia circular!

Fuga anual ao fisco em Portugal chega a 900 milhões e dava para contratar 50 mil enfermeiros

Maior parte do dinheiro drenado abusivamente dos impostos portugueses foi apropriado por "milionários" a título individual, por particulares, diz o novo estudo da Tax Justice Network

Fonte: aqui

A fuga, a evasão e o abuso fiscal cometidos contra o Estado e os contribuintes portugueses por empresas, fundos e particulares ascenderá atualmente, em Portugal, a mais de mil milhões de dólares, cerca de 900 milhões de euros, calcula a organização Tax Justice Network na primeira edição do The State of Tax Justice (O Estado Atual da Justiça Fiscal), divulgada esta sexta-feira.

Num ano de pandemia e de morte como este 2020, a perda infligida aos cofres portugueses daria para pagar salários a 49.651 enfermeiras e enfermeiros durante um ano, exemplificam os autores.

O relatório é publicado pela Tax Justice Network em colaboração com mais duas organizações pela transparência fiscal: Public Services International e Global Alliance for Tax Justice.

Este estudo, que foi avançado esta tarde pelo Jornal de Negócios, mostra que a situação da fuga ao fisco e do abuso fiscal é algo degradante, tendo em conta os valores astronómicos envolvidos.

Todos os países do mundo somados "perdem anualmente mais de 427 mil milhões de dólares em impostos por causa do abuso fiscal internacional".

Desses 427 mil milhões de dólares desviados a nível global, mais 57% (245 mil milhões de USD) "são perdidos para empresas multinacionais que transferem lucros para paraísos fiscais com o objetivo de subdeclarar rendimentos obtidos em países onde fazem negócios e, consequentemente, pagar menos impostos do que deveriam", dizem os autores do estudo.

"Os restantes 182 mil milhões de dólares são perdidos para milionários que escondem ativos e rendimentos não declarados no exterior, fora do alcance da lei".

Em Portugal é ao contrário

Curiosamente, em Portugal é ao contrário. Os mais ativos e os que maior rombo cometem nos cofres públicos são particulares, "milionários", que conseguem com a ajuda de consultores e advogados drenar, por ano, qualquer coisa como 552 milhões de dólares (466 milhões de euros a preços atuais).

Ou seja, esses indivíduos são responsáveis por 53% do prejuízo fiscal cometido em Portugal durante um ano.

O resto do abuso é perpetrado por "corporações multinacionais", que conduzem à "perda" de 494 milhões de dólares em impostos, em Portugal.

Em ano de pandemia, o estudo sobre o "Estado Atual da Justiça Fiscal" faz contas ao "impacto social da perda fiscal".

A fuga ao Fisco em Portugal daria para financiar quase 8% do orçamento anual da Saúde pública e mais de 9% da despesa com educação, por exemplo.