sexta-feira, 22 de maio de 2015

O que não queremos ver nos nossos índios

[Fonte: Envolverde, 27/4/15] Notícia de poucos dias atrás (Diário Digital, 19/4/15) dá conta de pesquisa (relatada pela revista Science) de um grupo de cientistas que, trabalhando na fronteira Brasil-Venezuela com índios ianomâmis, conclui que eles têm anticorpos resistentes a agentes externos – “um microbioma com o nível mais alto de diversidade bacteriana” jamais registrado em qualquer outro grupo. Por isso mesmo, “seu sistema imunológico apresenta mais microrganismos e de todas as bactérias que o dos demais grupos humanos conhecidos” – como demonstrou o sequenciamento de DNA e de bactérias encontradas na pele, na boca e nos intestinos.
Essas análises foram confirmadas por pesquisas em universidades norte-americanas, que recentemente devolveram aos ianomâmis 2.693 amostras de sangue levadas para os Estados Unidos em 1962 – e que agora foram sepultadas pelos índios em cerimoniais respeitosos. Segundo os pesquisadores, na relação com outros grupos humanos esses índios perdem a diversidade de microrganismos e se tornam vulneráveis a doenças que antes não conheciam.
A memória dá um salto e retorna a 1979, quando o autor destas linhas, então chefe da redação do programa Globo Repórter, da Rede Globo, foi pela primeira vez ao Parque Indígena do Xingu documentar um trabalho que ali vinha sendo feito por uma equipe de médicos da Escola Paulista de Medicina (hoje Universidade Federal de São Paulo), liderada pelo professor Roberto Baruzzi. Os pesquisadores acompanhavam a saúde de cada índio de várias etnias do sul do Xingu, mantinham fichas específicas de todos e as comparavam com a visita anterior. A conclusão era espantosa: não havia ali um só caso de doenças cardiovasculares – exatamente porque, vivendo isolados, os índios não tinham nenhum dos chamados fatores de risco dessas doenças: não fumavam, não bebiam álcool, não tinham vida sedentária nem obesidade, não apresentavam hipertensão, não consumiam sal (só sal vegetal, feito com aguapé) nem açúcar de cana. Saindo do Xingu, fomos documentar grupos de índios caingangues e guaranis aculturados que viviam nas proximidades de Bauru (SP). Os que trabalhavam eram boias-frias e os demais, mendigos, alcoólatras, com perturbações mentais. Praticamente todos eram hipertensos, obesos, com taxas de mortalidade altas e precoces. A comparação foi ao ar num documentário, As Razões do Coração, que teve índices altíssimos de audiência.
São informações que deveriam fazer parte de nossas discussões de hoje, quando estamos às voltas com várias crises na área de saúde – epidemias de dengue (mais de 220 casos novos por hora, 257.809, ou 55% do total, em São Paulo), índices altíssimos de obesidade, inclusive entre jovens e crianças, doenças cardiovasculares entre as mais frequentes causas de morte. Mas em lugar de prestar atenção aos modos de viver de indígenas, enquanto ainda na força de sua cultura, continuamos a tratá-los como seres estranhos, que vivem pelados, não falam nossas línguas, não trabalham segundo nossos padrões. A ponto de eles terem agora de se rebelar para que não se aprove no Congresso Nacional, sob pressão principalmente da “bancada ruralista”, uma proposta de emenda constitucional que lhes retira parte de seus direitos assegurados pela constituição de 1988 e transfere da Funai para o Congresso o poder de demarcar ou não terras indígenas.
Com esses rumos acentuaremos o esquecimento de que eles foram os “donos” de todo o território nacional, do qual foram gradativamente expulsos. Mas ainda são quase 1 milhão de pessoas de 220 povos, que falam 180 línguas, em 27 Estados. Agora avança, inclusive no Judiciário, a tese de que só pode ser reconhecido para demarcação território já ocupado efetivamente por eles antes de 1988. E assim cerca de 300 áreas correm riscos.
Só que nos esquecemos também dos relatórios da ONU, do Banco Mundial e de outras instituições segundo os quais as áreas indígenas são os lugares mais eficazes em conservação da biodiversidade – mais que as reservas legais e outras áreas protegidas. Que seus modos de viver são os que mais impedem desmatamentos – esse problema tão angustiante por sua influência na área do clima e dos regimes de chuvas.
Isso não tem importância apenas para o Brasil. A própria ONU, por meio de sua Agência para a Alimentação e Agricultura (FAO), afirma (Eco-Finanças, 17/4) que a “crise da água” afetará dois terços da população mundial em 2050 (hoje já há algum nível de escassez para 40% da população). E que o fator principal será o maior uso da água para produzir 60% mais alimentos que hoje.
Mas há diferenças de um lugar para outro. Os países ditos desenvolvidos, com menos de 20% da população mundial, consomem quase 80% dos recursos físicos; os Estados Unidos, com 5% da população, respondem por 40% do consumo. Segundo a sua própria Agência de Proteção Ambiental, os EUA jogam no lixo 34 milhões de toneladas anuais de alimentos. No mundo, um terço dos alimentos é desperdiçado (FAO, 5/2), enquanto mais de 800 milhões de pessoas passam fome e mais de 2 bilhões vivem abaixo da linha de pobreza. No Brasil mesmo, 3,4 milhões de pessoas passam fome (Folha de S.Paulo, 22/9/2014). A elas podemos somar mais de 40 milhões de pessoas que vivem do Bolsa Família.
Diante de tudo isso, vale a pena lembrar o depoimento do saudoso psicanalista Hélio Pellegrino, no livro Noel Nutels – Memórias e Depoimentos, sobre o médico que dedicou sua vida a grupos indígenas. “Se estamos destruindo os índios”, escreveu Hélio Pellegrino, “é porque nossa brutalidade chegou a um nível perigoso para nós próprios. Os índios representam a possibilidade humana mais radical e íntima de transar com a natureza (…). Homem e natureza são casados
(…). Dissolvido esse casamento, o homem tomba num exílio feito de poeira amarga e estéril”.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Encontros Improváveis - Boards of Canada e Florbela Espanca


(..) gosto das belas coisas claras e sim­ples, das grandes ternuras perfeitas, das doces compreensões silenciosas (...) ~Florbela Espanca

terça-feira, 19 de maio de 2015

Thich Nhat Hanh - No Mud, No Lotus, The Art of Transforming Suffering (2014)

Awakening the Heart ~ by Thich Nhat Hanh ~ The Practice of Inner Transformation


"A forma mais eficaz de mostrar compaixão para com outro é ouvir, mais do que falar. Tens a oportunidade de praticar uma escuta profunda e compassiva. Se conseguires escutar a outra pessoa com compaixão, a tua escuta será como um curativo para a sua ferida. Na prática de escuta compassiva, ouves com apenas um propósito, que é o de dar à outra pessoa uma possibilidade de ser ouvida e de sofrer menos.

Esta prática requer concentração estável e atenção à respiração, para te absteres de interromper ou tentar corrigir o que estás a ouvir. Enquanto a outra pessoa fala, podes ouvir muita amargura, percepções erradas, e acusações no seu discurso. Se deixares que estas coisas toquem na tua própria raiva, perderás a capacidade de ouvir profundamente.
Em vez disso, mantém-te fiel ao teu verdadeiro propósito e lembra-te: "Escutando assim, o meu único objectivo é ajudar a outra pessoa a sofrer menos. Ela poderá estar cheia de percepções erradas, mas eu não interromperei. Se eu entrar com a minha perspectiva das coisas ou corrigi-la, isto tornar-se-á um debate, não uma prática de escuta profunda. Noutra altura, poderá haver a possibilidade de lhe oferecer informação para que ela possa mudar a sua percepção errada. Mas não agora."[...]

Quando tiveres compreendido o seu sofrimento e estiveres pronto para falar, a tua voz conterá compaixão. Podes usar um discurso amoroso, sem julgamento ou culpa. Podes dizer algo como, "Não é minha intenção fazer-te sofrer. Eu não compreendia o teu sofrimento. Peço desculpa. Por favor ajuda-me ao contar-me as tuas lutas e dificuldades. Preciso de ajuda para te compreender." Ou poderás dizer, 

"Sei que sofreste muito estes últimos anos. Não fui capaz de te ajudar a sofrer menos. Em vez disso, piorei a situação. Reagi com fúria e teimosia, e em vez de te ajudar, fiz-te sofrer mais. Peço-te muita desculpa." Muitos de nós já não conseguem utilizar este tipo de linguagem com a outra pessoa, porque sofremos tanto. Mas quando praticamos conscientemente a escuta profunda e o discurso amoroso, tanta cura e felicidade são possíveis."

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Arq. Gonçalo Ribeiro Telles - "A Estrutura Ecológica da Cidade-Região"


Texto por Luís Sérgio Reis Fernandes


Em Portugal, uma das figuras que mais tem insistido na importância da Hortas Urbanas é o arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles (1922). Segundo Ribeiro Telles, em 1987, só em Lisboa existiam 3000 famílias que dependiam exclusivamente das suas hortas para não passarem fome. Para além dos alimentos, estas famílias ainda retiravam dois outros rendimentos das hortas, designadamente o dos crisântemos, que vendiam no dia de finados, e o dos manjericos que eram vendidos no mês dos santos populares.

Ribeiro Telles defende a integração da ruralidade no interior da cidade sobretudo por razões históricas e culturais, referindo que foi a partir da agricultura que a cidade nasceu. O espaço urbano permaneceu ao longo da sua história ligado ao espaço rural. A ruralidade faz parte da memória da cidade e da cultura das pessoas que nela vivem. Para Ribeiro Telles, a base da portugalidade encontra-se no mundo rural. E por isso a ruralidade deve continuar presente no espaço urbano. A identidade de cidades como Lisboa assenta, em grande parte, nas suas características rurais.

Para João Gomes da Silva (1962), a arquitectura paisagista não se deve reduzir à elaboração de uma imagem visualmente apelativa, destacando para além da dimensão estética, as componentes funcionais, ecológicas e culturais. Este arquitecto paisagista, que inclui frequentemente nos seus projectos de espaços urbanos e jardins privados pré-existências rurais e populares, defende que as tipologias rurais e as construções populares mudam assim de contexto e significado. Ao serem apropriadas e transformadas por uma cultura urbana, através de um olhar erudito, configuram-se como entidades histórica e culturalmente significativas, adquirindo valor estético e artístico. Passam, assim, a estar associadas ao lazer mesmo quando mantêm a sua função produtiva. Gomes da Silva recorre a Duchamp para descrever e interpretar a sua própria metodologia, apelando à noção de ready-made: objectos do quotidiano que, ao mudarem de contexto, sendo expostos numa galeria ou museu, se constituem como arte.

Actualmente, vão surgindo cada vez mais situações, onde certas franjas da sociedade, praticam o cultivo de produtos hortícolas ocupando vazios deixados pelo atravessamento de grandes infra-estruturas rodo e ferroviárias, terrenos expectantes, taludes sem vocação urbanística, espaços de ninguém e sem valor aparente, originando o fenómeno das Hortas de Lata. Este fenómeno é o principal sintoma de um certo vazio doutrinário do planeamento urbano que tem vindo a menosprezar o elevado potencial da horta como elemento estruturante do espaço urbano.

domingo, 17 de maio de 2015

Brian Eno- First Light

A short walk through the forest, at the end there was a lone mushroom. On the way back the setting sun was peering through the foliage. It was a simple and uncomplicated November (Spring 2012)

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Campanus Guitar Trio plays Manuel De Falla - Dance n°1 from "La Vida Breve"



Tocar um instrumento musical tem muitos benefícios, incluindo a ajuda ao desenvolvimento do motor, desenvolver habilidades, paciência e criatividade. Tente tocar um instrumento musical em uma idade precoce dá às crianças a oportunidade de descobrir um interesse que é provável que goste muito. A guitarra é, provavelmente, um dos instrumentos mais populares, o que o torna muito atraente para as crianças. Pode gerar múltiplos benefícios para o aluno, incluindo:

1. Capacidade e Agilidade Mental: 
Quando as crianças começam a aprender a tocar acordes de guitarra e memorizar as pautas e/ou canções e até mesmo aspectos da teoria da música, que são aspectos ou características que ajudam a manter o cérebro ágil. 

2. Ele também ajuda a desenvolver a capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo: 
Isso lhe dá a segurança de poder para realizar um bom trabalho ao jogar a guitarra. 

3. Auto estima: 
Tocar guitarra melhora a auto-estima e confiança em ninguém. Se você sabe como tocar guitarra ou executar em qualquer nível, você terá um monte de satisfação pessoal. 

4. Habilidades Sociais: 
Tocar um instrumento gera interesse nos outros, de modo que aumenta de uma forma ou de outra, as interacções sociais.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Judith Malina: Ela sonhava com um teatro revolução e fez esse teatro até ao fim



Com aproximadamente uma centena de peças no seu historial, o Living Theatre revolucionou a prática teatral ao apresentar-se fora das salas e procurando uma constante acção política e social. A sua fundadora, Judith Malina, morreu sexta-feira (dia 10 de Abril), aos 88 anos.


Em Fevereiro de 2013, pondo fim à mais longa permanência do Living Theatre num mesmo espaço nova-iorquino, o grupo era “despejado” de Clinton Street. Mais de seis décadas depois de Judith Malina e Julian Beck terem fundado a sua companhia de teatro, a essência continuava tão marginal quanto sempre havia sido. Aos 88 anos, Malina era ainda movida pelo mesmo “sonho de uma bela revolução anarquista não-violenta”, apresentando na noite de despedida desse espaço Here We Are, uma peça que afirmava a ineficácia de um sistema político montado sobre a ideia da democracia representativa. Judith Malina morreu aos 88 anos na passada sexta-feira. O seu sonho não – continua vivo, depositado nas mãos do seu filho Garrick Beck e dos restantes sucessores na direcção do Living Theatre.

Mesmo com um estado de saúde tão fragilizado quanto as finanças do grupo, Malina encontraria ainda forças para estrear, em 2014, a sua derradeira criação, Nowhere to Hide. Prova de uma vontade férrea em fazer vingar a sua visão utópica de um teatro implicado política e socialmente, Malina carregaria a missão do Living Theatre depois de perder os seus dois companheiros – Beck morreu em 1985, Hanon Reznikov, seu segundo marido, desapareceu em 2008.

A notícia da morte de Malina na Lillian Booth Actor Home, devido a uma doença pulmonar, foi avançada pelo jornal The New York Times. Embora seja naturalmente tentador recordar a marca de actriz de Malina na série Os Sopranos ou nos filmes Os Dias da Rádio, de Woody Allen, ou Um Dia de Cão, de Sidney Lumet, a grande obra da sua vida seria o trabalho constante com o Living Theatre, fundado em 1947.

A experiência de Ouro Preto

Animado por uma postura de contra-cultura e de revolução da linguagem teatral, propondo-se libertá-la do palco, levando-a para as ruas, o Living Theatre pautou-se desde o início por uma relação de confrontação com todo o tipo de convenções, nomeadamente quebrar o mais possível a fronteira entre actores e público, entre ficção e realidade, entre arte e política. Exemplo máximo dessa visão teatral terá sido Paradise Now, espectáculo que causou um sério impacto em Sérgio Godinho quando o viu em Genebra em 1969, onde então estudava. “Fiquei impressionado com aquela experiência de teatro bastante inovadora, feita de fragmentos, porque não era uma peça no sentido convencional”, lembra o músico ao PÚBLICO.

Pouco depois, na sequência de vários encontros em Paris quando Godinho integrava o elenco do musical Hair, o Living Theatre convidá-lo-ia a juntar-se-lhe em Ouro Preto, no Brasil, onde se iriam apresentar num festival de teatro. “Nessa altura já tinham feito uma ruptura com o teatro de salas, queriam fazer um teatro de rua e assumidamente anarquista e de agitação”, diz o músico português, justificando o porquê de não ter hesitado em embarcar com a sua companheira, Sheila Charlesworth, a caminho do Brasil. A companhia preparava nesses dias de 1971, em pleno período de ditadura militar no país, um espectáculo em apoio aos trabalhadores da multinacional canadiana de alumínios Alcan. O teatro fazia-se, afinal, onde eles estivessem. Era vivo nesse sentido – não se desligava depois da saída do palco. Aliás, o palco tinha sido eliminado para que o teatro existisse sempre.

No entanto, acabariam todos presos em Belo Horizonte devido a uma acção de extrema-direita no primeiro dia do festival. “Primeiro, fomos acusados de subversão e de posse de maconha. Estivemos presos dois meses e acabámos por ser expulsos do Brasil depois de uma grande contestação internacional [liderada por nomes como Susan Sontag e Jean-Paul Sartre], embora tenhamos sido absolvidos”, recorda Godinho.

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