quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Última avaliação mostra que a natureza da Europa se encontra em declínio acentuado e continuado

Práticas agrícolas e silvícolas insustentáveis, expansão urbana e poluição são as principais pressões responsáveis pelo drástico declínio da biodiversidade na Europa, que ameaça a sobrevivência de milhares de espécies animais e de habitats. Além disso, as diretivas da União Europeia (UE) de proteção da natureza e outras leis ambientais continuam a não ser aplicadas pelos Estados-Membros. A maioria das espécies e habitats protegidos não se encontram em bom estado de conservação e é preciso fazer muito mais para reverter a situação, segundo o relatório da Agência Europeia do Ambiente (AEA), intitulado «Estado da Natureza na UE», hoje publicado.


A nossa avaliação mostra que a salvaguarda da saúde e resiliência da natureza da Europa e do bem-estar das populações requer alterações profundas à forma como produzimos e consumimos os alimentos, gerimos e utilizamos as florestas e construímos cidades. Estes esforços devem ser acompanhados por uma melhor implementação e aplicação das políticas de conservação e um enfoque na recuperação da natureza, bem como numa ação climática cada vez mais ambiciosa, em especial nos setores dos transportes e da energia.

Hans Bruyninckx, diretor executivo da AEA


De acordo com o relatório da AEA “State of nature in the EU — Results from reporting under the nature directives 2013-2018 ”, uma maioria das espécies protegidas na UE como o falcão-sacre ou o salmão do Danúbio, e dos habitats, desde os prados às dunas, em toda a Europa enfrentam um futuro incerto a menos que se faça urgentemente mais para reverter a situação. O relatório da AEA é publicado em simultâneo com o relatório da Comissão Europeia sobre o estado da natureza, e neles se dá conta dos progressos realizados na consecução dos objetivos da legislação da UE para a conservação da natureza. 

O relatório da AEA mostra uma evolução positiva dos esforços de conservação. Tanto o número como a superfície das zonas protegidas no âmbito da rede Natura 2020 aumentaram ao longo dos últimos 6 anos e a UE atingiu as metas globais, com cerca de 18 % da sua superfície terrestre e quase 10 % da superfície marítima protegidas.

Contudo, os progressos gerais realizados não são suficientes para atingir os objetivos da Estratégia da UE para a Biodiversidade até 2020. De acordo com a avaliação da AEA, a maioria das espécies e habitats protegidos estão em estado de conservação deficiente ou mau e muitos deles continuam a deteriorar-se. Dos três principais grupos estudados, os habitats e as aves encontram-se muito longe do objetivo, enquanto o grupo das espécies não-avícolas atingiu praticamente a meta definida.

O Comissário do Ambiente, Oceanos e Pescas, Virginijus Sinkevičius, declarou: «Esta avaliação do estado da natureza é o mais completo «exame de saúde» da natureza alguma vez feito na UE. Mostra claramente que continuamos a perder o nosso sistema de suporte de vida essencial. Cerca de 81 % dos habitats ao nível da UE encontram-se em mau estado, com as turfeiras, os prados e os habitats de dunas a apresentar o nível mais elevado de deterioração. Precisamos urgentemente de cumprir os compromissos da nova Estratégia de Biodiversidade da UE para reverter este declínio para o benefício da natureza, das populações, do clima e da economia.»

«A nossa avaliação mostra que a salvaguarda da saúde e resiliência da natureza da Europa e do bem-estar das populações requer alterações profundas à forma como produzimos e consumimos os alimentos, gerimos e utilizamos as florestas e construímos cidades. Estes esforços devem ser acompanhados por uma melhor implementação e aplicação das políticas de conservação e um enfoque na recuperação da natureza, bem como numa ação climática cada vez mais ambiciosa, em especial nos setores dos transportes e da energia», declarou Hans Bruyninckx, diretor executivo da AEA.

Principais ameaças à natureza

O relatório da AEA refere que a agricultura intensiva, a expansão urbana e as atividades silvícolas insustentáveis constituem as principais pressões sobre os habitats e as espécies. A poluição do ar, da água e do solo tem igualmente um impacto nos habitats, assim como a exploração excessiva dos animais resultante da captura ilegal e das práticas de caça e pesca não sustentáveis.

Estas ameaças são agravadas por alterações aos rios e lagos, tais como as barragens e a captação de água, as espécies exóticas invasoras e as alterações climáticas. O abandono dos terrenos agrícolas contribui para o declínio continuado dos habitats seminaturais, tais como os prados, e das suas espécies, tais como as borboletas e as aves das zonas agrícolas.
Perspetivas

O relatório aponta para algumas evoluções positivas, na sua maioria à escala nacional ou regional. Várias espécies e habitats mostraram melhorias, como a rã ágil na Suécia, as lagoas costeiras de França e o abutre barbudo, ao nível da UE. A rede Natura 2000 mostra resultados positivos para muitas espécies e habitats. Por exemplo, os habitats costeiros e as dunas, que estão bem cobertos pela rede Natura 2000, apresentam melhor estado de conservação do que os habitats menos cobertos ou cobertos de forma marginal.

Em termos de políticas, também há esperanças graças à nova Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030 e à estratégia «do prado ao prato», ambas elementos centrais do Pacto Ecológico Europeu. A estratégia de biodiversidade tem por objetivo reforçar e ampliar a rede de zonas protegidas, implementar um plano de restauração, assegurar ecossistemas saudáveis, resilientes às alterações climáticas, ricos em biodiversidade e que proporcionem a gama de serviços essenciais à prosperidade e ao bem-estar dos cidadãos.

Para além destas novas políticas, são necessários esforços adicionais para melhorar as capacidades de controlo nos Estados-Membros para cumprimento das metas. Atualmente, continuam a existir muitas lacunas nos dados, em especial no que se refere às espécies e habitats marinhos. São também precisos mais dados para avaliar plenamente o papel da rede Natura 2000. Por último, a implementação da legislação da UE deve ser significativamente melhorada.

Estado e tendências
Cerca de metade (47 %) das 463 espécies avícolas da UE apresentam um bom estado de conservação, o que represente cerca de 5 % menos do que no último período de referência em 2008-2012. A proporção de aves com estatuto de conservação deficiente ou mau aumentou 7 % nos últimos seis anos, atingindo um total de 39 %.
A nível nacional, cerca de 50 % das tendências populacionais com melhoria envolvem principalmente as aves das zonas húmidas e marinhas, para as quais foram designadas áreas no âmbito da rede Natura 2000, como o pato-ferrugíneo ou o airo-de-asa-branca. As aves nidificantes, como o grou e o milhafre-real, tem o maior número de relatos indicadores de melhoria das tendências populacionais. Isto deve-se à implementação da proteção ou restauração dos habitats e a melhorias no conhecimento, na monitorização e na sensibilização.
Apenas 15 % das avaliações de habitat apresentaram um estado de conservação bom, com 81 % com estados de conservação deficientes ou maus ao nível da UE. Os prados, as dunas e os habitats de pântanos e turfeiras mostram fortes tendências de deterioração, enquanto as florestas apresentam as tendências com mais melhorias. Comparativamente ao período coberto pelo relatório anterior, a fração de habitats em mau estado de conservação aumentou 6 %.
As regiões marinhas obtiveram muitas avaliações com estado de conservação desconhecido, refletindo a falta generalizada de dados sobre as espécies.
Cerca de um quarto das espécies apresenta um bom estado de conservação ao nível da UE, o que constitui um aumento de 4 % comparativamente ao período de referência anterior. Os répteis e as plantas vasculares, como a lagartixa italiana, a cobra-ferradura, a agrimónia ou a genciana amarela apresentam a percentagem mais elevada de bom estado de conservação (35 %).

Contexto

As diretivas da UE de proteção da natureza — Diretiva Habitats e Diretiva Aves — exigem esforços de conservação para mais de 2000 espécies e habitats em toda a UE.

A avaliação da AEA, que tem por base os dados comunicados pelos Estados-Membros da UE, é o maior e mais completo exercício de recolha e comunicação de dados levado a cabo na Europa relativamente ao estado da natureza. Mais de 220 000 pessoas (60 % delas, voluntários) contribuíram para este processo em toda a Europa.

Os dados analisados visam identificar êxitos e aspetos a melhorar em matéria de conservação da natureza, as principais pressões e ameaças e os indicadores do estado de conservação atual.

RedHawk - Seeker Of Visions



“Before our white brothers came to civilize us we had no jails. Therefore we had no criminals. You can’t have criminals without a jail. We had no locks or keys, and so we had no thieves. If a man was so poor that he had no horse, tipi or blanket, someone gave him these things. We were to uncivilized to set much value on personal belongings. We wanted to have things only in order to give them away. We had no money, and therefore a man’s worth couldn’t be measured by it. We had no written law, no attorneys or politicians, therefore we couldn’t cheat. We really were in a bad way before the white men came, and I don’t know how we managed to get along without these basic things which, we are told, are absolutely necessary to make a civilized society.”

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Ricardo Gusmão: “A dimensão do suicídio em Portugal é maior do que os números podem fazer crer. Há ocultação e suicídios mascarados”

Ricardo Gusmão: “A dimensão do suicídio em Portugal é maior do que os números podem fazer crer. Há ocultação e suicídios mascarados”



Os números do suicídio em Portugal não estão escondidos, como pode haver quem pense, mas também não correspondem à realidade, diz, em entrevista ao Expresso, Ricardo Gusmão, psiquiatra no Hospital de Magalhães Lemos e responsável pela implementação, a nível nacional, de diversos programas de prevenção do suicídio. “Calcula-se que sejam ‘ocultados’ nos registos até mais 30, 50 ou 60% de suicídios, como mortes violentas indeterminadas, como acidentes e como morte de causa natural não especificada”. Há outra coisa importante. É que “as vezes até parece que é normal, ou um direito humano ou de cidadania, podermos querer matar-nos. Não é verdade. É um mito”. “É quase sempre um sinal grosseiro de disfunção, tal como qualquer homicídio é”

Numa troca de mensagens anterior à entrevista que se segue, Ricardo Gusmão, psiquiatra no Hospital de Magalhães Lemos, no Porto, e presidente da EUTIMIA – Aliança Portuguesa Contra a Depressão em Portugal afirmou, num esforço de contextualização do assunto, que Portugal é o país da Europa Ocidental que pior regista os suicídios. Também disse que muitas das mortes por suicídio são registadas indevidamente e que por isso o suicídio é “largamente sub-representado em Portugal”.

“Chama-se a isso ‘ocultação’ e ‘suicídios mascarados’”, fenómeno que, “apesar de reconhecido” no país, continua a ser “um problema gravíssimo”, disse o também docente e investigador do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, já durante a entrevista ao Expresso, realizada na véspera do Dia Mundial da Saúde Mental (sábado, 10 de outubro). “Calcula-se que sejam ‘ocultados’ nos registos até mais 30, 50 ou 60% de suicídios, como mortes violentas indeterminadas, como acidentes e como morte de causa natural não especificada”. Isso leva, afirmou também, a que se continue a “insistir na ideia de que Portugal é um país de baixas taxas de suicídio”, uma “ideia errada e perigosa que impede a resolução do problema”.

Portugal é, segundo afirmou, “o país da Europa Ocidental que pior regista os suicídios”. Porque é que isto acontece?
Um dos indicadores de desenvolvimento global sustentável que a comunidade internacional acordou é a necessidade de reduzir expressivamente o número de suicídios durante a próxima década. Há cerca de um milhão, talvez mais, mortes por suicídio todos os anos no mundo. As mortes por suicídio são evitáveis e, desta forma, a sua redução é um desígnio importantíssimo de saúde publica. É preciso ter isto em atenção: o suicídio não é nenhum mistério insondável — sabemos quais são os seus determinantes e, principalmente, sabemos que acontecem quando as pessoas estão doentes, com doenças psiquiátricas, ou eventualmente quando estão num estado psíquico de grande fragilidade, o qual seria transitório se o tempo não se esgotasse tragicamente. O que frequentemente ocorre é falta de comunicação.

Como assim?
Quem sofre não comunica e os que lhe são próximos não percebem. A pessoa suicida está, muitas vezes, terrivelmente sozinha. É por isso que mais de metade dos suicídios sucedem na primeira tentativa. Os outros ficam a sentir-se terrivelmente culpados por não terem conseguido evitar a morte e sentem-se abandonados por quem parte, insuficientes e irrelevantes face à partida do familiar ou amigo. As pessoas que sobrevivem a um suicídio ficam em risco de depressão e suicídio. Sabemos isto inequivocamente. Mas não se fala sobre o assunto. E às vezes fala-se adensando o tabu, o estigma, descrevendo o suicídio como algo misterioso, insondável e imprevisível. O conhecimento de todos e da consciência da dimensão do problema pode mitigá-lo.

E os números disponíveis não correspondem à realidade, é isso?
A dimensão do problema do suicídio é maior do que os números podem fazer crer. Chama-se a isso ‘ocultação’ e ‘suicídios mascarados’. Em Portugal, apesar de ser um fenómeno reconhecido, é um problema gravíssimo. Somos um dos países da Europa, aliás, que pior regista os suicídios, juntamente com a Lituânia e a Polónia. Calcula-se que sejam ‘ocultados’ nos registos até mais 30, 50 ou 60% de suicídios, como mortes violentas indeterminadas, como acidentes e como morte de causa natural não especificada.

Mas por que razão isso acontece?
Os motivos da ocultação são muito heterogéneos, determinados por múltiplos agentes e funcionam de forma cumulativa. Podemos sugerir que são, de alguma forma, do foro cultural, tem a ver com a questão do estigma. A sua expressão é diferente consoante as zonas do país: no sul regista-se melhor os suicídios do que no norte — daí que os número no Alentejo sejam mais elevados — assim como se regista melhor nos centros urbanos, nos homens e nos jovens. Ainda há uma hierarquia entre as várias regiões no que diz respeito ao número de suicídios, mas estão todas muito mais próximas do que estavam há 20 anos. O que é certo, e voltando à questão da ocultação, é que nem todas as mortes violentas são autopsiadas, e só apenas cerca de 60% dos suicídios.

Porquê?
Parte importante do volume do problema parece consistir nos certificados de óbito emitidos nos hospitais e clínicas, nos quais são registados cerca de 90% das mortes violentas indeterminadas. Em Portugal, para cada três mortes por suicídio existem duas mortes violentas indeterminadas. Podemos morrer de morte natural ou morte violenta. As mortes violentas são as intencionais, suicídio e homicídio, e as não intencionais, os acidentes. As indeterminadas são aquelas para as quais não se reconhece a intenção. Na Europa, em média e no pior dos cenários, para cada 20 mortes por suicídio registado, ocorre uma morte indeterminada. Em Portugal, para cada 20 mortes por suicídio registado, ocorrem 12 mortes indeterminadas. Para cada 1000 suicídios anuais registados no nosso país, ocorrem mais 600 ocultos, invisíveis, desconhecidos.

Quais as consequências desse sub-registo?
Por causa disso, a dimensão do problema fica diminuída. Há anos que se insiste na ideia de que Portugal é um país de baixas taxas de suicídio. É uma ideia errada e perigosa que impede a resolução do problema por parte dos decisores políticos, das organizações de saúde e clínicos.

O Governo lançou recentemente uma campanha nacional de prevenção do suicídio. Como vê essa iniciativa?
Desde 2006 que ocorrem projetos e iniciativas de amplitude local e nacional e seria muitíssimo desejável que essas iniciativas pudessem ter a desejada visibilidade e impacto. Se não melhorarmos o registo da morte por suicídio, corremos o risco de chegar a atingir a redução de 20% de suicídio prevista nos SDG [Objetivos de Desenvolvimento Sustentável] até 2030 à custa da ocultação de suicídios. Será muito importante que essa redução possa acontecer por um nexo de causalidade real e efetivo: ação de saúde publica resultando na prevenção de mortes por suicídio. Seria muito desejável que fossem criados mecanismos para estimular a correta codificação dos óbitos violentos — homicídio, suicídio e acidentes — nos hospitais. Além disso, seria igualmente útil que os responsáveis locais pela saúde mental pudessem receber informação precoce e confidencial sobre as mortes por suicídio, numa perspetiva de vigilância e para poderem desencadear ações de prevenção junto dos familiares e amigos.

Porque é que, na sua opinião, não se investe nem dinheiro nem tempo no suicídio?
O suicídio está carregado de estigma e ainda se promove a ideia de que encerra um mistério ou uma questão filosófica. Às vezes até parece que é normal, ou um direito humano ou de cidadania, podermos querer matar-nos. Não é verdade. É um mito. É quase sempre um sinal grosseiro de disfunção, tal como qualquer homicídio é. Que Camus me perdoe, mas o suicídio é tão somente uma questão de saúde, impactada por fenómenos socioculturais é certo, tal como todas as outras questões de saúde.

É possível identificar tendências na evolução do número de suicídios em Portugal?
Houve um decréscimo significativo médio entre 1932 e 1999. Entre 1992 e 1999 esse decréscimo é exagerado, por causa da tal ocultação. Foi nessa altura que se alterou a forma de registar toda a mortalidade, tendo sido introduzida a classificação de mortalidade indeterminada. Nessa década, chegou a haver seis mortes indeterminadas para um suicídio. Em termos gerais, a tendência é decrescente, mas a um ritmo mais lento do que a diminuição da mortalidade em geral. O suicídio tem, além disso, aumentado mais acima dos 55 anos e decrescido nos mais jovens, mas ambas as tendências são ténues.

Com a pandemia espera um aumento do número de suicídios?
Em 1918, durante a gripe espanhola, não se observou um aumento do suicídio em Portugal. Durante a crise pandémica de 1957, houve um ligeiro aumento, mas provavelmente inexpressivo. E durante a crise global financeira, entre 2012 e 2014, houve um aumento nos homens com idades entre os 50 e os 60 anos, mas pouco significativo, entre 2% a 3%. De facto, qualquer crise tem o potencial de aumentar o risco de suicídio. Todavia, as crises que se assemelham a ‘estados de guerra’ aumentam a coesividade e o capital social, bem como a resiliência dos indivíduos. Todos nos tornamos mais solidários.

Qual é a pior pobreza?



Qual é a pior pobreza?
Perguntar pela pior pobreza supõe o reconhecimento de que o profundo e extenso universo da pobreza não é uniforme, tem diferentes nexos causais, expressões sociais diversas e impactos multiformes nas sociedades.
É de destacar a afirmação recente do Papa Francisco, na encíclica Fratelli Tutti: «Não há pobreza pior do que a que priva do trabalho e da dignidade do trabalho» (nº162). Esta declaração nasce do reconhecimento de como o trabalho é uma dimensão essencial da vida social, não só pelo que deveria garantir às pessoas os recursos para o seu desenvolvimento, porque o trabalho com direitos é uma das condições fundamentais para a superação das desigualdades sociais, mas também porque um povo não vive como povo quando é menosprezado o trabalho como aspecto fundamental da realidade social.
«A grande questão é o trabalho.» Por esta razão, e por consequência, a pior das formas de pobreza é, como diz o Papa, a que priva alguém do trabalho e da dignidade do trabalho.
A centralidade do factor trabalho como chave da questão social assume maior significado quando ganha espaço político e social um determinado discurso perverso face ao agravamento da situação económica e social, que consiste em derramar subsídios para responder à crescente pobreza. Pelo contrário, importará afirmar que o combate à pobreza não se faz através de subsídios que, como afirma o Papa Francisco na sua última encíclica, devem ser sempre provisórios para enfrentar emergências, porque o que é decisivo é o conseguir uma vida digna através do trabalho.
Quero, deste modo, publicamente sublinhar estas palavras do Papa Francisco na encíclica Fratelli Tutti onde o direito ao trabalho com direitos se coloca como a questão chave da questão social nos nossos dias. E raros são os responsáveis políticos capazes de consequentemente reconhecer a importância da afirmação do Papa Francisco sobre a questão essencial do factor trabalho.
É, pois, muito relevante que o Papa proclame que «o trabalho é uma dimensão essencial da vida social, porque não é só um modo de ganhar o pão, mas também um meio para o crescimento pessoal, para estabelecer relações sadias, expressar-se a si próprio, partilhar dons, sentir-se corresponsável do mundo e, finalmente, viver como povo».
Tanto mais é de um vasto alcance significativo esta centralidade do trabalho e dos direitos laborais quando se regista o alastramento de uma "cultura do descarte", em especial, nas suas incidências em tempo de crise económica e social. Quando alastra uma prática de desvalorização do trabalho e dos trabalhadores e, em relação ao mundo do trabalho, quando se vulgariza a ideia de que existem sectores da sociedade que podem ser descartados, como está a acontecer com os milhares de desempregados, então colocam-se enormes desafios éticos e políticos para os quais a recente encíclica nos traz profundos vetores para a reflexão e para um novo agir transformador.
Para responder à problemática da pobreza, «a melhor ajuda para um pobre, o melhor caminho para uma existência digna», como é proclamado na Fratelli Tutti, «deve ser sempre consentir-lhes uma vida digna através do trabalho». E é este o rumo incontornável para uma Humanidade diferente.
Como anuncia o Papa Francisco nesta encíclica, naquela base «é possível desejar um planeta que garanta terra, tecto e trabalho para todos». É possível erradicar a pobreza!
Texto publicado no blogue "Gnose - Cidadania Activa".

Petição: Áreas Protegidas sem FALSAS MARIOLAS!


Exmo. Senhor Presidente da Assembleia da República
Exmas/os. Senhoras/es Deputadas/os da Assembleia da República

No passado, as mariolas dispersas pelas serras portuguesas tinham a função de orientar os pastores em situações atmosféricas extremas como neve e nevoeiro! Atualmente, esses montes de pedras sobrepostas que perduram no tempo, continuam a exercer a mesma função, orientando os caminhantes que se aventuram pelos seus trilhos e, por essa mesma razão devem continuar a ser preservadas!

Em pleno séc. XXI, a invasão da réplica desmesurada de vários milhares de MARIOLAS em áreas protegidas feitas por visitantes esporádicos que desconhecem o seu verdadeiro significado e função como, por exemplo, as existentes no Parque Natural da Serra da Estrela (Torre, Foz de Égua,...) e no Parque Natural da Costa Vicentina (Milfontes, Sagres,...) é algo que não faz sentido e deverá ser PROIBIDO, uma vez que desvirtua o próprio conceito de NATURAL, ou seja, sem intervenção humana!

A alta concentração das supostas MARIOLAS, para além de escamotear o aspeto natural da paisagem, contribui para a destruição do habitat de inúmeras espécies de plantas e animais autóctones.

Imitar a construção de Mariolas em áreas protegidas não é arte, nem algo místico, mas apenas um mero ato inconsciente de pessoas que precisam de ser educadas para a preservação e conservação da natureza, por isso, apelo ao fim deste CRIME AMBIENTAL!

Acreditando que Vossas Excelências não ficarão indiferente a esta petição em nome de todas as cidadãs e cidadãos, abaixo assinados, despeço-me respeitosamente.

Microplásticos: 1 milhão de vezes mais abundantes nos oceanos do que se pensava



De acordo com um novo estudo da Instituição Scripps de Oceanografia, poderá haver um milhão de vezes mais pedaços de plástico nos oceanos do que se estimava.

Utilizando um método diferente do habitual, a oceanógrafa Jennifer Brandon descobriu microplásticos – pedaços de plástico com menos de 5 mm – na água do mar a concentrações muito mais elevadas do que as registadas anteriormente.

A investigadora acredita que a técnica habitual deixa escapar as partículas mais pequenas. Segundo as suas estimativas, os oceanos poderão estar contaminados por 8,3 milhões de “mini-microplásticos” por metro cúbico de água.

“Durante anos, temos estudado os microplásticos da mesma forma, utilizando uma rede para recolher amostras”, disse a oceanógrafa. “Mas tudo o que for mais pequeno que a malhagem da rede tem escapado.”

O método de Brandon e da sua equipa implicou a utilização de salpas, animais marinhos de corpo gelatinoso que filtram a água do mar para capturar o fitoplâncton de que se alimentam. Durante este processo, os animais também ingerem microplásticos.

Todas as 100 salpas analisadas – provenientes de amostras de água recolhidas em 2009, 2013, 2014, 2015 e 2017 – tinham “mini-microplásticos” nos aparelhos digestivos.

“Apesar do grande interesse nos microplásticos, só agora começamos a compreender a dimensão e os efeitos destes contaminantes oceânicos”, disse Dan Thornhill, diretor de programas da Divisão de Ciências Oceânicas da National Science Foundation, que financiou o trabalho de investigação.

“Este estudo demonstra que os plásticos marinhos são muito mais abundantes do que nos tínhamos dado conta e que se encontram por todo o oceano. É preocupante, especialmente porque as consequências para o ambiente e para a saúde humana continuam amplamente desconhecidas.”

O estudo foi publicado na revista científica Limnology and Oceanography Letters.
Foto: Scripps Institution of Oceanography

The Vatican Removed 14 Books From the Bible In 1684 With No Real Explanation

Fonte: aqui
However, when this book was originally published it contained 80 books and current editions only have 66, and we have to wonder what exact purpose the removal of 14 books would serve?

The Vatican Church or Roman catholic church has been associated with deception for ages. Their atrocities have ranged from genocide many centuries ago against the Cathars to child molestation is more recent years.

The Bible was originally translated from Latin into English in 1611. This “original” Bible contained 80 books, including the Apocrypha, which means hidden.

These Apocrypha booksmade up the end of the Old Testament, and included the following books:

• 1 Esdras

• 2 Esdras

• Tobit

• Judith

• The rest of Esther

• The Wisdom of Solomon

• Ecclesiasticus

• Baruch with the epistle Jeremiah

• The Songs of the 3 Holy children

• The history of Susana

• bel and the dragon

• The prayer for Manasses

• 1 Maccabees

• 2 Maccabees

Later in 1684, all of these books were removed from the Bible and all of its various versions. The only one left intact was the 1611 edition.

In this first edition, Bible Jesus’ name was spelled Iesus, pronounced Yahushua. You have to wonder why it was changed to Jesus, contrary to the original pronunciation and spelling.

One of the most interesting books of the removed was the “Wisdom of Solomon”. Solomon is one of the most legendary biblical figures from the Bible, as he was the son of David and the wisest man that ever lived.

Typically, he is portrayed as a benevolent figure, however, this book will change everything that you ever learned about him.

For example, read this excerpt:

Wisdom of Solomon 2:1-24

1 For the ungodly said reasoning with themselves, but not aright, our life is short and tedious and in the death of a man there is no remedy: neither was there any man known to have returned from the grave.

2 For we are born at all adventure: and we shall be hereafter as though we had never been: for the breath in our nostrils is as smoke, and the little spark in the moving of our heart

3 Which being extinguished, our body shall be turned into ashes, and our spirit shall vanish as the soft air,

4 And our name shall be forgotten in time, and no man shall have our works in remembrance, and our life shall pass away as the trace of a cloud, and shall be dispersed as a mist, that is driven away, with the beams of the sun, and overcome with the heat thereof.

5 For our time is very shadow that passeth away; and after our end there is no returning: for it is fast sealed, so that no man cometh again.

6 Come on there for let us enjoy the good things that are present: and let us speedily use the creatures like as in youth.

7 Let us fill ourselves with costly wine and ointments: and let no flower of the Spring pass by us.

8 Let us crown ourselves with rosebuds, before they be withered:

9 Let none of us go without his part of our voluptuousness: let us leave tokens of our joyfulness in every place: for this is our portion and our lot is this.

10 Let us oppress the poor righteous man, let us not spare the widow, nor reverence the ancient gray hairs of the aged.

11 Let our strength be the law of justice: for that which is feeble is found to be nothing worth.

12 Therefore let us lie in wait for the righteous; because HE is not of our turn, and HE is clean contrary to our doings. He upbraideth us with our offending of the law, and ojecteth to our infamy the transgression of our education.

13 HE professeth to have the knowledge of the MOST HIGH, and calleth HIS self the child of the LORD.

14 HE was made to reprove our thoughts

15 HE is grievous unto us even to behold, for HIS life is not like other men’s, HIS ways are of another fashion.

16 We are esteemed of HIM as counterfeits: HE abstaineth from our ways as from filthiness: HE pronounceth the end of the just to be blessed, and maketh HIS boast that GOD is HIS father.

17 Let us see if HIS words be true: and let us prove what shall happen in the end of HIM.

18 For if the just man be the Son of THE MOST HIGH, HE will help HIM and deliver HIM from the hands of HIS enemies.

19 Let us examine HIM with despitefulness and torture, that we may know HIS meekness and prove HIS patience.

20 Let us condemn HIM with a shameful death: for by HIS own mouth HE shall be respected…..

These verses bring to mind a few different important questions, such as:

• Who is Solomon speaking of killing with a “shameful death”?

• Why did the Vatican vote to have these 14 books removed from the Bible?

• Why did Solomon sound so crazy and evil in this book?

It seems that Solomon was speaking of Jesus. But Jesus was born roughly 900 years after his death. Could he have prophesied Jesus’ coming? Let’s consider why this could be, who Solomon was talking about?

• They killed the SON with a shameful death

• The SON’s actions or fashions were different from everyone else’s

• HE claims to be and IS the child of The MOST HIGH

• He was a righteous poor man who would look at Solomon and others like him as “counterfeits”.

• HE professeth to have knowledge of The MOST HIGH

Then listen to what Solomon has to say:

• HE was made to reprove (criticize) our thoughts

• We are esteemed of HIM as counterfeits: HE abstaineth from our ways as from filthiness: HE pronounceth the end of the just to be blessed, and maketh HIS boast that GOD is HIS father

• For if the just man be the Son of THE MOST HIGH, HE will help HIM and deliver HIM from the hands of HIS enemies.

And one last thing I would like to point out is when Solomon says;

• Let us oppress the poor righteous man, let us not spare the widow, nor reverence the ancient gray hairs of the aged.

In contradiction to everything most of us know and believe about Solomon, in these verses he sounds completely evil. According to most Biblical teachings in modern times, we are told to believe that he is the wisest man in the history of the world.

It should be noted that Solomon was largely involved in the Occult. Much of the knowledge and teachings that Aleister Crowley preached about were based on the Lesser Keys of Solomon. Solomon worshiped multiple gods and had a weakness for women.

It is also worth mentioning that the Temple of Solomon is considered the spiritual birthplace of Freemasonry, which is a secret society of sorts that has been responsible for much of the corruption taking place in our world today.

It has never been stated for sure as to why these books were removed from the Bible, although various speculations have been made. We have to wonder if something darker isn’t behind their removal, and what exactly they are hiding away with these books.

Typically, when something is removed from our direct site by those in power, they don’t expect for us to look any deeper than the surface, but when we do, there is almost always more to uncover than we would have ever imagined.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Mobilidade marítima entre a Madeira e o Continente


Não existe mobilidade marítima entre a Madeira e o Continente, porque falta a Portaria de regulamentação do subsídio de mobilidade marítimo, aprovado em 2015 na Assembleia da República.
Por tal motivo, foi criada esta petição no sentido do Governo da República cumprir na íntegra, o referido subsídio, que certamente, potenciará o interesse de um possível armador de navios ferry, realizar viagens regulares, entre a Madeira e o Continente.
Nós, abaixo assinados, consideramos que não é aceitável, estarmos só dependentes do transporte aéreo que é devidamente subsidiado pelo Estado, mas, limita pessoas com determinadas doenças ou fobias, liberdade de transportar bens pessoais e comerciais, transporte de animais domésticos, etc.. A grande vantagem de um ferry robusto, rápido, e confortável, transportar passageiros, inclusive com as suas viaturas, e carga rodada, inclusive perecível.
O transporte marítimo, desejavelmente por via de navio ferry, é fundamental para o desenvolvimento socioeconómico da Madeira, perante tal, o subsídio de mobilidade marítimo devidamente regulamentado será importante, a exemplo do que acontece nas outras ilhas europeias, por exemplo, as vizinhas ilhas das Canárias.
Assim, e atendendo a que o Estado tem por obrigação beneficiar a mobilidade de transporte dos residentes das suas regiões ultraperiféricas para o exterior, propomos que a Assembleia da República recomende ao Governo da República a emissão da Portaria em falta, do subsídio de mobilidade marítimo aprovado em 2015.
O site “Petição pública”, encontra-se devidamente certificado, e protegido no que respeita aos regulamentos, pela Comissão Nacional de Proteção de Dados.
Recorda-se que, o Presidente da República vetou em julho de 2020, o direito de petição por “Imperativo de Consciência Cívica” o diploma do Parlamento, que aumentava de quatro mil para dez mil, o nº de assinaturas necessárias para uma Petição Pública ser debatida em plenário.
Mais um motivo para os residentes na Madeira, assinarem esta petição, que exige as quatro mil assinaturas em conformidade da população da Madeira.
Os emigrantes, nacionais, e estrangeiros, que não sejam residentes na Madeira, não serão abrangidos pelo referido subsídio, mas, terão a vantagem de alternativa ao transporte aéreo, perante tal, são convidados a assinar a petição.
Esta petição converge para a coesão nacional e territorial exterior, conectividade, sustentabilidade, e competitividade, da RAM e da parte continental portuguesa.
Petição publcada no dia 7 Out. do ano 2020, pelas 13:00h

Climate Change Is the Internet's Worst Enemy

O impacto da Internet nas Alterações Climáticas
"Um relatório de 2019 descobriu que a produção e o uso de tecnologia digital corresponde a 4% de todas as emissões de carbono do mundo, mais do que as emissões globais da aviação. A demanda de energia está a aumentar 9% ao ano, colocando a internet na vanguarda da crise climática."
Use a net com responsabilidade!



The internet is causing its own demise. Every line of code requires electricity to run, and much of that electricity comes from dirty fossil fuels. And every belch of carbon dioxide from fossil fuel power plants brings the internet one step closer to ruin.

The rise of smartphones puts more information at our fingertips than ever, while the increasing complexity of websites means it requires more energy to deliver that information. Whether it’s Fortnite or YouTube, the internet’s growing carbon footprint is a huge issue. A 2019 report found that digital technology production and use accounts for 4% of all the world’s carbon emissions, more than global aviation emissions. Energy demand is rising 9% per year, putting the internet at the forefront of the climate crisis.

That sucks, because it turns out a lot of internet infrastructure is on the frontlines of it. Many of the fiber optic cables and nodes that make the internet happen are located at sea level. Research published in 2018 shows that the sea level rise over just the next 15 years could inundate 4,067 miles of fiber permanently, while 1,101 hubs could also be flooded out in the U.S. alone. We’re not experts, but we had a gut feeling saltwater and the internet don’t necessarily mix.

To find out if it’s true and figure out how to make the internet pollute less and get shored up in the face of climate change, we talked with Maddie Stone in this week’s episode of System Reboot. Maddie was Earther’s founding managing editor and now does freelance work covering a wide variety of topics, including the intersection of technology and the climate. She wrote a killer feature for Earther on this very topic last year and published a piece just last week on how the record-setting California wildfire season is destroying cell towers and affecting first responders. It wasn’t on Earther, but we’ll forgive her.

Take a listen to our chat with Maddie on your favorite podcast app via one of the links below. And consider smashing that like and subscribe button, even if it does emit the tiniest puff of carbon. Then, let’s go fix the internet together.

Algarve liofilizado: (não) juntar água e mexer

Apenas a sociedade, como um todo, poderá, se assim o entender, dar-se ao trabalho de pensar responsavelmente a fundo sobre o tema, agir em conformidade e exigir, actuando também, que as coisas mudem profundamente
Fonte: aqui

A liofilização é um processo comummente aplicado a alimentos e que, basicamente, consiste em congelá-los e depois sujeitá-los a um processo que lhes retira a água. Desta forma, obtém-se um estado de conservação que pode durar por décadas.

Pois bem, o Algarve está mais ou menos assim, a puxar para o liofilizado. Só que em mau. Fruto de uma sucessão de anos hidrológicos que deixaram a região em claro défice e stress hídrico, não está conservado, mas antes ressequido que nem uma passa.

Vai daí, a fim de nos hidratar, o Governo rumou ao Sul, através do ministro do Ambiente e da Ministra da Agricultura, trazendo-nos o Plano Regional de Eficiência Hídrica do Algarve (PREHA), qual Moisés descendo a ladeira do Monte Sinai com as Tábuas da Lei. E esta dupla ministerial, revelou-se de uma eficácia quase profética e milagrosa, pois imediatamente após a sua apresentação… choveu!

Quem sabe, sabe, e o resto é conversa.

Mas, pingas à parte, o problema da água no Algarve até já pôs o próprio Presidente da República a dizer que talvez seja o mais importante da região. Curiosamente, disse-o a poucos quilómetros da implantação de mais uns bons e fresquinhos hectares de regadio no sopé do Cerro de S. Miguel…

O plano apresentado parece mais reactivo do que propriamente proactivo. Ou seja, parece desenhar ferramentas para correr melhor atrás do prejuízo, mas não tanto servir para evitar sufocos.

No Algarve, mais do que haver pouca água, existem muitas e justificadas dúvidas quanto ao seu (re)abastecimento. Porque a incerteza na quantidade e distribuição da precipitação – que é o que nos abastece – é o padrão no contexto climático mediterrânico. Junte-se a isso o efeito ampliador do actual ciclo de alterações climáticas, e o problema é mesmo como gerir interrogações.

Quem chega de fora e olha o Algarve, não adivinha tal coisa, pois só vê certezas, com a água que não há, a ser gerida como se tivesse avonde, com uma displicência transversal. Seja em contexto urbano ou na agricultura, o uso que dela fazemos claramente não é pensado para um recurso limitado.

E o PREHA – em justiça, os elementos disponibilizados na apresentação do PREHA – não parece questionar grandemente tal atitude, ao longo dos seus prometidos 228 milhões de euros de investimento.

Cada vez que se nos seca um pouco a boca, os mesmos de sempre lá nos dizem: isto só lá vai com mais uma barragem. O PREHA não deixa de subscrever essa ideia, admitindo novas barragens nas ribeiras da Foupana e de Alportel – nesta última, curiosamente, até já se projecta um empreendimento turístico que, bruxo, antecipa uma localização marginal a um plano de água.

É certo que o plano também propõe uma abordagem às vertentes da eficiência, das perdas, da fiscalização (quem, com que recursos?) e das fontes alternativas de água. Neste último capítulo, diz que se vai dessalinizar água do mar, pescar água ao Guadiana e reaproveitar águas residuais.

Na primeira experiência tardamos em avançar, a segunda é um somatório interminável de “ses” (incluindo um acordo com Espanha para uma “solidariedade hídrica”, algo que temos tido em abundância…) e na terceira, sortudos os que as encontrem disponíveis, e audazes os que assumam o ónus de assegurar a qualidade das águas residuais que o Estado entrega, à luz do labiríntico Decreto-Lei n.º 119/2019!

Mas e porque soa a aposta nas barragens tão desadequada? Se ninguém nega a sua importância enquanto reservas, será então “apenas” pelo facto das barragens serem infra-estruturas pesadíssimas, com elevados custos económicos e ambientais? Ou será porque estão a ser pensadas fora da sua natureza obrigatoriamente estratégica?

Esta dúvida é legítima, principalmente no Algarve, onde apenas uma década após a conclusão da última – e maior – barragem regional, não se resolveu o que se prometia resolver.

O que correu mal, afinal? Talvez a realidade, com o seu impertinente hábito de se impor.

Mas esta pergunta sacrílega está para o pensamento “estratégico” português como a cruz para o Diabo: é de fugir. É por isso que, a cada nova apresentação de estudos, planos e estratégias, nunca se reflecte aprofundadamente sobre o que falhou nos anteriores estudos, planos e estratégias, o que leva a que se repitam erros. Sem que ninguém preste contas. E se há caso em que vale a pena pensar nisso, é este.

O PREHA reconhece, em maiúsculas, negrito e letras garrafais, que o “problema da SECA na região do Algarve não é circunstancial, é ESTRUTURAL”.

As primeiras barragens algarvias – Arade e Bravura – foram construídas na década de 1950. Em 1986, é concluída a barragem de Beliche. Nos anos 90, num curto intervalo, entram em operação as barragens do Funcho e de Odeleite. Há 10 anos, iniciava-se o enchimento da albufeira da barragem de Odelouca, a tal que tem a particularidade de ser a maior na região, e que, alegadamente, resolveria em permanência os problemas hídricos do Algarve.

Em igual período, a precipitação média para o Algarve desceu dos cerca de 650 mm, no período entre os anos 40 e 70 do Séc. XX, para os 570 mm, entre 1986 e 2018 (mesmo com uma média empolada por anos excepcionais como 1989, 1996 e 2010, cada um com valores na casa dos 1000 mm).

Ou seja, tudo indica estarmos numa tendência decrescente no que à chuva diz respeito.

Se chove cada vez menos, é nesse cavalo que apostamos? Ou seria melhor pensar num camelo?

Também em simultâneo, entre a década de 1950 e, grosso modo, os dias de hoje, o consumo de água no Algarve, no mínimo decuplicou. Tal explica-se por um aumento de cerca de 37% da população nesse período, pelo aumento da cobertura dos sistemas de abastecimento e saneamento na região, pelo aumento da pressão turística – incidindo principalmente nos meses de menor precipitação – e pelo forte incremento do regadio, principalmente na agricultura, graças a barragens e também às captações subterrâneas mais profundas, com recurso a bombagem.

Isto vem provar que a região, no que toca à água, como de resto noutras matérias, é pouco dada a fazer mealheiro. Porque a cada novo reforço de armazenamento, a cada nova folga, a região responde com mais e mais consumo.

Vai daí, sempre que aumenta as suas reservas de água (concretamente as superficiais) não é tanto porque queira criar alguma margem de segurança para os apertos que inescapavelmente sabe que vai passar algures no futuro, mas para poder continuar a estoirar água, empurrando com a barriga as preocupações.

No fundo, em vez de ajustar as suas necessidades às disponibilidades, o Algarve tem trilhado um rumo de procura de disponibilidades que cubram as crescentes necessidades que vai criando num contexto de cada vez menos chuva, ou seja, aposta numa jogada a crédito ambiental que tem tudo para correr mal, e cada vez pior.

A propósito, o Plano Intermunicipal de Adaptação às Alterações Climáticas do Algarve, que versa também sobre esse tema, foi considerado na elaboração do PREHA?

Portanto, não é que ter mais reservas seja mau. Fazer investimentos – que poderiam ser dirigidos para medidas mais eficazes – para ter mais reservas que provavelmente vão ser sempre deficitárias, e que irão servir um modelo de má utilização e desperdício, é que é mau.

E é por isso que este Plano que agora se apresenta, não obstante a generosidade de algumas das suas propostas e a bondade de todas as pessoas que para ele contribuíram, corre o risco de apenas chapinhar na superfície do problema. Enquanto não se atacar a estrutura, não se resolvem os problemas reconhecidamente estruturais.

Mexer na estrutura passa por repensar a fundo muita coisa. Não apenas no consumo humano directo, mas também na perspectiva ecológica da água.

O facto dos aquíferos regionais se encontrarem, em média, com níveis abaixo dos 20%, originando não só escassez, mas degradação qualitativa da água e riscos de intrusão salina em algumas massas de água subterrâneas, é um problema de primeira ordem, pois a salinização de aquíferos e do solo é uma vanguarda da desertificação (e temos exemplos bem próximos).

Talvez fosse tempo de, por exemplo, aplicar o princípio do utilizador/pagador às águas subterrâneas, pelo menos para consumidores de larga escala. Talvez assim o regadio numa zona de escassez/incerteza hídrica deixe de ser tão irresponsável, só para dar um exemplo no sector responsável pela maior parte dos consumos.

Muitos outros poderiam ser dados, naturalmente, em todos os sectores de consumo.

Mas antes disso, e para não se gastar mais latim em vão, há que perceber que a resolução deste problema não virá de um plano. Infelizmente, também já percebemos que não virá dos decisores.

Apenas a sociedade, como um todo, poderá, se assim o entender, dar-se ao trabalho de pensar responsavelmente a fundo sobre o tema, agir em conformidade e exigir, actuando também, que as coisas mudem profundamente.

Ou não. Está nas nossas mãos.

Até lá, é escolher entre as sugestões de uma casta ex-ministra ou de uma optimista deputada, e rezar ou esperar que chova.

 

Autor: Gonçalo Gomes é arquiteto paisagista, presidente da Secção Regional do Algarve da Associação Portuguesa dos Arquitetos Paisagistas (APAP).
(e escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico)