terça-feira, 13 de novembro de 2018

Poema da Semana- António Aleixo

Bengt Lindström, 1925 - 2008

Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia.

P'ra mentira ser segura
e atingir profundidade,
tem que trazer à mistura
qualquer coisa de verdade.

Que importa perder a vida
em luta contra a traição,
se a Razão mesmo vencida,
não deixa de ser Razão?

Não sou esperto nem bruto,
nem bem nem mal educado:
sou simplesmente o produto
do meio em que fui criado.

António Aleixo

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Para Marta, as árvores nativas são “tecnologia biológica” para conservar o planeta



Reflorestar, conservar e envolver são palavras de ordem no dicionário de Marta Pinto. Licenciada em Biologia, mestre em Ciências do Mar e defensora da conservação do meio ambiente, através da plantação de árvores nativas, é coordenadora do Grupo de Estudos Ambientais na Universidade Católica Portuguesa (UCP), no Porto. Foi das suas mãos que nasceu, há oito anos, o FUTURO: projecto das 100 mil árvores, cujos resultados foram reunidos num livro, apresentado esta quarta-feira, 7 de Novembro.

Antes de chegar ao FUTURO, Marta passou por várias fases profissionais que sempre criaram pontes entre a biologia e as ciências sociais e que também estavam ligadas àquilo que faz hoje: desenvolvimento de projectos de articulação entre a academia e a comunidade, principalmente na área do ambiente e da sustentabilidade. Com 45 anos, nascida e criada no Porto, foi nesta cidade que estudou e onde, agora, trabalha.

A casa de Marta, que chegou a trabalhar nos Estados Unidos, num departamento de Geografia Humana, é a UCP: já lá vão 15 anos desde que ali entrou pela primeira vez para trabalhar. De uma coordenação entre a instituição e as entidades externas — como é o caso dos municípios e proprietários florestais — nasceu o desafio (e a necessidade) de plantar 100 mil árvores na Área Metropolitana do Porto (AMP).

Em oito anos, a cidade está diferente e isso nota-se nos mais de 170 hectares de árvores nativas plantadas. Antes disso, a paisagem era a de um solo subaproveitado. “Eram áreas que tinham espécies invasoras, como o eucalipto, que tinham ardido e, por isso, estavam degradadas.” “Nós fomos recuperar estas áreas”, acrescentou. Optimista por natureza, como se descreve, acredita que a reflorestação e a plantação de árvores é um pequeno passo no caminho que conduz à manutenção de um planeta mais verde.

No entanto, e apesar do optimismo, diz não ser ingénua ao ponto de pensar que os desafios relativos à sustentabilidade – como é o caso de questões relacionadas com a biodiversidade e das alterações climáticas – que estão, neste momento, em cima da mesa, não constituem, por si só, uma “grande luta que todos temos pela frente”.

“Nós estamos, de facto, num momento-chave da nossa sobrevivência e não creio que o planeta vá ter problemas, o planeta é impecável e vai adaptar-se.” “Acho, isso sim, que o que estamos a fazer é colocar em causa a nossa sobrevivência e o nosso estilo de vida”, rematou. Com isto, Marta Pinto confere grande importância às acções locais, que vê como “determinantes para se conseguir dar um contributo de uma forma positiva”.

Os desafios a nível global são imensos, diz, e difíceis de resolver no imediato. No entanto, iniciativas como a das 100 mil árvores tornam-se decisivas a nível local, já que servem de inspiração a replicações e provocam impacto concreto a nível territorial. Além de, a longo prazo, contribuírem para reduzir em muito a quantidade de gases poluentes na atmosfera.

Apesar de tudo, essa mesma redução não pode, para já, ser traduzida em números nem reflecte os resultados que virá a reflectir daqui a 15 ou 20 anos, explica a especialista. “Estas árvores que plantámos têm a capacidade de armazenar 10 mil toneladas de carbono por ano e esse é um ponto muito importante mas, neste momento, ainda estão a crescer", reforçou. Marta lembra, porém, que essa meta só será atingida "daqui a 15 ou 20 anos".

Toda a reportagem aqui

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Poema da Semana - Ruy Belo

Lin Shun-Shiung
O Portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro


Ruy Belo, in 'Homem de Palavra[s]'

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Milho transgénico e glifosato - há alternativas eficazes?

Este evento realizou-se no dia 29 de Setembro 2018 na Herdade Tapada da Tojeira, Vila Velha de Ródão. A sessão foi dinamizada por Margarida Silva, bióloga e especialista em desenvolvimento sustentável e foi organizada pela Plataforma Transgénicos Fora! e Herdade Tapada da Tojeira (com apoio da Confederacão agricultores Portugal - CAP de Castelo Branco).

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Poema da Semana - Walt Whitman


"Não permitas que alguém retire o direito de te expressares,
que é quase um dever.
Não abandones as ânsias de fazer da tua vida algo extraordinário.
Não deixes de acreditar que as palavras e a poesia podem mudar o mundo.
Aconteça o que acontecer a nossa essência ficará intacta.
Somos seres cheios de paixão.
A vida é deserto e oásis.
Derruba-nos, ensina-nos, converte-nos em protagonistas de nossa própria história.
Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua:
tu podes tocar uma estrofe.
Não deixes nunca de sonhar, porque os sonhos tornam o homem livre." - Walt Whitman

domingo, 28 de outubro de 2018

Agostinho da Silva - Sobre As Escolhas


"Ora, se estamos todos muito bem preparados para reclamar liberdade para nós próprios, menos dispostos parecemos para reclamar sobretudo liberdade para os outros ou para lhes conceder a liberdade que está em nosso próprio poder; se conhecêssemos melhor a máquina do mundo, talvez descobríssemos que muita tirania se estabelece fora de nós como se fosse a projecção ou como sendo realmente a projecção das linhas autocráticas que temos dentro de nós; primeiro oprimimos, depois nos oprimem; no fundo, quase sempre nos queixamos dos ditadores que nós mesmos somos para os outros; e até para nós próprios, reprimindo todas as tendências que nos parecem pouco sociais ou pouco lucrativas, desejando muito que os outros nos vejam como simples, bem ajustados, facilmente etiquetáveis. Mas nenhum mundo realmente novo, e está o velho a cair aos pedaços, poderá realmente surgir sem que tenhamos por ideal exactamente o contrário: que a complexidade, que provavelmente é o natural do homem, como espelho, semelhança e imagem da totalidade que Deus é, se afirme sobre a simplicidade e deixemos finalmente de crucificar, para depois lhes levantarmos templos, todos aqueles que ousaram ser completos e complexos, e se não limitaram, para sua comodidade, ou nossa, a arrastar-se na vida, como lavras de gente."

- Agostinho da Silva, SOBRE AS ESCOLHAS (1970), TEXTOS E ENSAIOS FILOSÓFICOS II, Âncora Editora, 1999, p. 226.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Philippe Starck: “A reciclagem só foi inventada para continuarmos a consumir enquanto mantemos a nossa consciência tranquila”.



Philippe Starck, inventor, arquiteto e designer, deu uma entrevista à ONU Ambiente sobre o futuro da sustentabilidade. E o famoso designer acredita que o capitalismo não fará parte desse futuro.

Starck acredita que no futuro o conceito de propriedade deverá desaparecer e ser substituído pela economia do aluguer. “Quem pede emprestado tem a responsabilidade de devolver o produto. Um vendedor não tem esta responsabilidade – e pode ou não importar-se com o facto de o produto ser reciclado ou não”, diz Starck. “A nossa economia precisa de ser completamente transformada, dado que o nosso planeta esta a degradar-se a um ritmo muito superior ao previsto”.

Starck também acredita que podemos livrar-nos de cerca de 70% da mobília que usamos atualmente em casa. Um exemplo dado é o das cortinas, que podem ser substituídas por vidro com cristais líquidos. “Não estaremos a vender produtos, mas sim serviços integrados nos produtos,” diz o designer.

Mas o mesmo tempo que advoga uma cultura de menor consumo, o designer prefere os materiais sintéticos aos naturais, argumentando que são quase sempre superiores ao que encontramos na natureza.

Starck também não acredita que a reciclagem seja uma solução para os produtos em fim de vida. “A reciclagem só foi inventada para continuarmos a consumir enquanto mantemos a nossa consciência tranquila. A verdade é que menos de 20% dos materiais usados nos produtos de consumo podem ser reciclados”. Starck acrescenta ainda que “o capitalismo não é adequado ao futuro. Depende do crescimento e produção, e não podemos continuar a produzir.”

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Encontros Improváveis - António Gamoneda - "Oração Fria" e Heikki Kaski

Heikki Kaski

"Vi
montes sem uma flor, lápides vermelhas,
povoações
vazias
e a sombra que desce. Porém ferve
a luz nos pinheiros. Não compreendo. Só
vejo beleza.
Desconfio."
António Gamoneda - "Oração Fria"

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Vamos salvar o planeta? A solução passa por comer 90% menos porco e 75% menos vaca


Só uma redução drástica, especialmente nos países desenvolvidos, poderá conter essa evolução perigosa

O consumo de carne está a destruir o planeta a a solução é comer menos carne. Muito menos: 90% menos porco e 75% menos vaca. O consumo de leite e ovos também precisa de ser reduzido drasticamente, e em troca devemos aumentar o consumo de vegetais e frutos secos. São as recomendações-chave de um estudo agora publicado na revista Nature, que se segue ao grande relatório sobre a iminência de alterações climáticas irreversíveis, tornado público na segunda-feira.

Além dos efeitos da carne na saúde humana (como tem sido notado, existe uma larga coincidência entre aquilo que convém às pessoas e o que protege o planeta, e vice-versa), a produção de carne representa um enorme desgaste ecológico. O relatório sintetiza muita da informação disponível. Para acrescentar para um quilo de vaca são precisos dez quilos de ração - cujo fabrico produz dióxido de carbono.

As vacas também produzem enormes quantidades de metano, um gás altamente poluente. Além disso, a utilização de fertilizante nas pastagens constitui um risco adicional para a saúde, dado que muitos químicos acabam por escorrer para os cursos de água e por essa via entrar na alimentação humana.

PRÓXIMO DOS LIMITES

O relatório recomenda mudanças tanto na alimentação como no modo como se faz agricultura. O responsável principal do estudo, Marco Springman (investigador do programa Martin sobre o Futuro da Alimentação, em Oxford), explica: "Tudo junto, concluímos que melhorias nas práticas e tecnologias agrícolas podem levar a grandes reduções nos impactos ambientais do sistema alimentar, juntamente com mudanças alimentares para dietas mais baseadas em plantas e reduções na perda e desperdício de comida".

O estudo estima que um terço de toda a comida produzida nunca chegue a ser consumida. Em certos países desenvolvidos a percentagem é superior. Para esses países, aliás, as recomendações do estudo aplicam-se de forma especialmente intensa. Os Estados Unidos, por exemplo, deviam consumir 90% menos vaca do que a que consomem atualmente.

Infelizmente, com o advento de novas classes médias em países como a China, a tendência internacional vai em sentido contrário. É verdade que muitos países pobres ainda têm necessidade de aumentar o seu consumo de carne e leite, por motivos nutricionais, mas essas evoluções precisam de ser compensadas noutros países.

"Se as mudanças sócio-económicas no sentido de padrões ocidentais de consumo continuarem, as pressões ambientais do sistema alimentar intensificar-se-ão", conclui o estudo, "e a humanidade em breve aproximar-se-á dos limites planetários no uso global de água doce, utilização dos solos e acidificação oceânica".

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Os direitos da Mãe Terra e sua dignidade

Philip Greenwood
Anteriormente escrevemos sobre os direitos dos animais. Agora cabe discorrer sobre os direitos da Mãe Terra e de sua alta dignidade. O tema é relativamente novo, pois dignidade e direitos eram reservados somente aos seres humanos, portadores de consciência e de inteligência como o fez Kant em sua ética. Predominava ainda a visão antropocêntrica como se nós exclusivamente fôssemos portadores de dignidade. Esquecemos que somos parte de um todo maior. Como dizem renomados cosmólogos, se o espírito está em nós é sinal que ele estava antes no universo do qual somos fruto e parte.

Há uma tradição da mais alta ancestralidade que sempre entendeu a Terra com a Grande Mãe que gerou todos os seres que nela existem. As ciências da Terra e da vida, por via científica, nos confirmaram esta visão. A Terra é um superorganismo vivo, Gaia (Lovelock), que se autoregula para ser sempre apta para manter a vida no planeta.

A própria biosfera é um produto biológico pois se origina da sinergia dos organismos vivos com todos os demais elementos da Terra e do cosmos. Criaram o habitat adequado para a vida, a biosfera. Ela como tal não pre-existia. Foi criada pelo próprio sistema-vida para poder sobreviver e se reproduzir. Portanto, não há apenas vida sobre a Terra. A Terra mesma é viva e como tal possui um valor intrínseco e deve ser respeitada e cuidada como todo ser vivo. Este é um dos títulos de sua dignidade e a base real de seu direito de existir e de ser respeitada.

Os astronautas nos deixaram este legado: vista de fora, Terra e Humanidade fundam uma única entidade; não podem ser separadas. A Terra é um momento da evolução do cosmos; a vida é um momento da evolução da Terra; e a vida humana, um momento da evolução da vida. Por isso podemos, com razão dizer, o ser humano é aquela porção da Terra em que ela começou a tomar consciência, a sentir, a pensar e a amar. Somos sua porção consciente e inteligente.

Se os seres humanos possuem dignidade e direitos, como é consenso dos povos, e se Terra e seres humanos constituem uma unidade indivisível, então podemos dizer que a Terra participa da dignidade e dos direitos dos seres humanos e vice-versa.

Por isso, não pode sofrer sistemática agressão, exploração e depredação por um projeto de civilização que apenas a vê como algo sem inteligência e por isso a trata sem qualquer respeito, negando-lhe valor intrínseco em função da acumulação de bens materiais.

É uma ofensa à sua dignidade e uma violação de seus direitos de poder continuar íntegra, limpa e com capacidade de reprodução e de regeneração. Por isso, está em discussão um projeto na ONU de um Tribunal da Terra que pune quem viola sua dignidade, desfloresta e contamina seus oceanos e destrói seus ecossistemas, vitais para a manutenção dos climas e do ciclo da vida.

Por fim, há um último argumento que se deriva de uma visão quântica da realidade. Esta constata, seguindo Einstein, Bohr e Heisenberg, que tudo, no fundo, é energia em distintos graus de densidade. A própria matéria é energia altamente interativa. A matéria, desde os hádrions e os topquarks, não possui apenas massa e energia. Todos os seres são portadores também de informação, fruto da interação entre eles,

Cada ser se relaciona com os outros do seu jeito de tal forma que se pode falar que surge níveis de subjetividade e de história. A Terra na sua longa história de 4,5 bilhões de anos guarda esta memória ancestral de sua trajetória evolucionária. Ela tem sujetividade e história. Logicamente ela é diferente da subjetividade e da história humana. Mas a diferença não é de princípio (todos estão conectados entre si) mas de grau (cada um à sua maneira).

Uma razão a mais para entender, com os dados da ciência cosmológica mais avançada, que a Terra possui dignidade e por isso é portadora de direitos, o que corresponde de nossa parte, deveres de cuidá-la, amá-la e mantê-la saudável para continuar a nos gerar e nos oferecer os bens e serviços que nos presta.

Essa é uma das mensagens centrais da encíclica do Papa Francisco “sobre o cuidado da Casa Comum”(2015). Na mesma linha vai a Carta da Terra, um dos documentos axiais da nova visão da realidade (2000) e dos valores que importa assumir para garantir sua vitalidade. O sonho coletivo que propõe não é o “desenvolvimento sustentável”, fruto da economia política dominante, anti-ecológica. Mas “um modo de vida sustentável” que resulta do cuidado para com a vida e com a Terra. Este sonho supõe entender “a humanidade como parte de um vasto universo em evolução” e a “Terra como nosso lar e viva”; implica também “viver o espírito de parentesco com toda a vida”, “com reverência o mistério da existência, com gratidão, o dom da vida e com humildade, nosso lugar na natureza”(Preâmbulo).

A Carta da Terra propõe uma ética do cuidado que utiliza racionalmente os bens escassos para não prejudicar o capital natural nem as gerações futuras; elas também têm direito a um Planeta sustentável e com boa qualidade de vida. Isso somente ocorrerá se respeitarmos a dignidade da Terra e os direitos que ela tem de ser cuidada e guardada para todos os seres, também os futuros.

Agora pode começar o tempo de uma biocivilização, na qual Terra e Humanidade, dignas e com direitos, reconhecem a recíproca pertença, de origem e de destino comum.