quinta-feira, 9 de abril de 2020

Constantino Sakellarides. “A primeira regra é não embirrarmos uns com os outros”

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O especialista em saúde pública deixa uma recomendação: para travar esta guerra será preciso disciplina, mas também solidariedade. E diz que seria um erro voltar à falta de racionalidade nas decisões políticas dos últimos anos.
A pandemia está a ser comparada a tempos de guerra, metáfora que não deve fazer esquecer que o sucesso vai depender também de como cuidarmos uns dos outros. O apelo é de Constantino Sakellarides, professor catedrático jubilado da Escola Nacional de Saúde Pública e antigo diretor-geral da Saúde. Está, como muitos portugueses, e os mais velhos em particular, a adaptar-se a dias de maior isolamento: espera continuar a sair de casa para um passeio diário a pé, agora sem paragens pelo caminho para conversar, e para algumas compras. E no prédio onde mora os vizinhos já se reuniram por telefone para traçar algumas regras e falar sobre o novo modo de vida, conta. Num momento em que fazer previsões dá mais ansiedade do que certezas, sublinha a importância de o país se adaptar às orientações com criatividade e solidariedade e alerta que o rescaldo não deve repetir erros da crise de 2008. Para o epidemiologista e especialista em políticas de saúde, são esses os antecedentes que ajudam a compreender o momento atual.
Vivemos o primeiro estado de emergência depois de 75. Era previsível que uma ameaça destas chegaria um dia?
Era previsível que acontecesse, não sabíamos quando. E a forma como estamos hoje perante esta crise tem a ver com o mundo em que estamos, é preciso ir aos antecedentes. Não podemos extrair o vírus do mundo em que vivemos, nem antes da crise, nem durante e principalmente depois. O mundo que temos hoje é um produto direto da forma como foi gerida a crise financeira de 2008, uma crise gerida de forma imediatista, ignorando aquilo que eram conhecimentos essenciais sobre economia, sociedade e o nosso bem-estar. Ficaram raízes profundas que vieram alienar vastas camadas da nossa população das suas lideranças políticas e sociais e essas lideranças da realidade objetiva dos seus países.
Estávamos mais preparados antes para responder a uma crise destas?
Tínhamos um mundo melhor nesse sentido. Foi uma crise que, alienando a população das suas lideranças e do conhecimento real da sociedade, afastou a política da racionalidade e do conhecimento. O mundo que esta crise vem encontrar é um mundo frágil. Vastas camadas da população acabaram por aderir a um mundo ficcional, que deu origem a lideranças políticas como Trump, Bolsonaro, e que levam uma política menos racional e mais impulsiva. E vemos isso em dois aspetos centrais do mundo em que vivemos e que pesam na saúde pública. Temos por um lado a ameaça das alterações climáticas e dos seus efeitos: cataclismos climáticos, acontecimentos extremos e a deslocação do habitat de vetores de doenças, por exemplo mosquitos, de uns sítios para os outros.
Estamos perante um coronavírus mas podíamos estar perante uma crise de dengue no sul da Europa.
Por exemplo, e a forma como a ameaça das alterações climáticas tem sido gerida é uma expressão deste afastamento da racionalidade que a política pós-crise criou. Seja qual for a crise, este ambiente de afastamento da política do conhecimento e da realidade torna-nos mais frágeis na hora de responder a essa crise. O segundo aspeto que reflete o afastamento de um conhecimento mais profundo e racional do planeta e do seu ecossistema é a pouca atenção que temos dado à fronteira entre a espécie humana e outras espécies animais que convivem connosco. É aqui que surge este vírus. Estamos perante um problema que começou nos mercados da China onde são vendidos animais selvagens mas que existe também nas selvas de África, com outro tipo de relação. Sabemos que esta fronteira, este interface entre as várias espécies, mamíferos, aves, répteis, que são reservatórios de vírus, é crucial ser preservado e que saltando as barreiras das espécies estes vírus podem ser extremamente agressivos. Todos os dias se continua a pôr isso em causa mas nós temos passado por várias crises sem termos capacidade de aprofundar e tirar lições que assegurem o equilíbrio e o nosso bem-estar.
É a história das pandemias, até do VIH.
Temos as pandemias de gripe, a última foi em 2009, que acabou por ser uma pandemia de trazer por casa e que não foi propriamente uma pandemia porque o vírus não era totalmente novo.
E que veio dos porcos.
Sim. Tivemos antes, no princípio da década, a ameaça da gripe das aves, e essa era uma ameaça grande: quando o vírus vem das aves é mais agressivo ainda porque é menos adaptado à espécie humana. Tivemos as ameaças dos ébolas, que habitualmente vêm dos símios. E os coronavírus SARS, MERS e agora este.      
Que no início viveria com morcegos, não é?
O morcego parece ser o reservatório, mas provavelmente não é o elo de ligação, terão sido outros animais à venda em mercados. Mas como se vê, nada disto é novo e coisas tão importantes como alterações climáticas e um tratamento adequado desta enorme interface entre espécies não tem acontecido e acontece menos ainda numa sociedade imediatista, pouco racional e em que a política se afasta do conhecimento. Portanto não só não temos feito o suficiente como ficamos depois particularmente vulneráveis. E perante a ameaça pode haver duas direções, que é o ponto em que temos estado e que é importante pensar nelas pelo que podem significar no futuro. Uma é sermos mais autoritários, que tem de haver uma máxima autoridade que diz o que fazemos ou não fazemos; outra é tentarmos ser mais inteligentes.
Perante esta crise vemos que a resposta chinesa, mais autoritária, é a que parece ter resultado. Não devíamos ter seguido esses passos mais cedo?
A resposta chinesa tem uma componente autoritária mas tem agora componentes altamente inteligentes, de mudanças de comportamento da sociedade. Mas estamos a falar de uma sociedade de natureza autoritária em termos políticos e temos de falar da nossa. É isto que temos pela frente: perceber se a forma como vamos enfrentar isto deve acentuar impulsos autoritários e, se sim, se conseguimos sair bem deles ou se a forma como enfrentamos isto consegue acentuar formas de sermos mais inteligentes. Disso vai resultar também a preparação para futuras pandemias.
Esse foi o apelo que fez Bill Gates: esta é uma ameaça ímpar a que é preciso reagir mas também aprender com ela.
O apelo à inteligência é esse, não desistir de entender e influenciar o mundo em que vivemos, não nos limitarmos a colher os frutos mais à mão e acreditar em ficções que andam por aí e nada têm a ver com a realidade.
Por exemplo?
As redes sociais têm estado cheias delas. Mas sobretudo a ficção de que a autoridade pode resolver este problema sem que usemos todos a nossa inteligência.
Neste caso, temos ouvido muitos apelos para que fosse seguido o modelo chinês  de restrição de contactos sociais porque aparentemente foi o único que funcionou para conter o vírus. Aconteceu em Macau. E que demorar a implementar uma resposta mais restritiva pode levar uma tragédia maior.
A questão não é tanto que medidas mas quando. No fundo, esse argumento ao limite leva-nos a dizer que quando temos uma ameaça no horizonte fechamos o mundo, fechamos o país, fechamos as fronteiras, fechamos a economia. Há um momento para tudo. A tendência para dizer ‘porque é que não fechámos isto tudo há dois meses?’ é fácil. Se fechamos à primeira ameaça, o mundo torna-se inviável, não temos economia, a destruição é tremenda e portanto há momentos - e a dificuldade é definir esses momentos - em que servem umas medidas e momentos em que servem outras. Não quer dizer com isto que todas as medidas não venham a ser necessárias, a questão é a necessidade de as justificar racionalmente para se poderem ponderar consequências. Dizer que devia ser no princípio, sempre, é altamente demagógico, porque isso na prática nunca acontece e ninguém experimenta as consequências reais dessa posição extrema.
Prudentemente, conhecendo as vulnerabilidades do SNS e perante a rapidez desta epidemia, o momento de tomar medidas mais drásticas não era agora?
Tem de ser uma discussão baseada no conhecimento ou não é discussão. E o conhecimento que temos é limitado. A Inglaterra fechou as escolas aos 2000 casos, a Dinamarca aos 500 e Portugal aos 80.
Esta segunda-feira já tínhamos mais de 100 casos.
Mas foi quando a decisão foi tomada. Isto quer que uns estão certos e outros errados? Não, tem a ver com a situação e condições do país, a cultura e instrumentos que existem, com a evolução tremenda do conhecimento sobre este vírus e com aquilo que vamos aprendendo uns com os outros. E são estes três fatores que pesam. Fazer crer que esta é uma decisão simples é um engano. A evolução do conhecimento sobre esta epidemia tem sido tremenda. Dou-lhe exemplos só dos últimos dias: na segunda-feira académicos do Imperial College em Londres publicaram um trabalho muito influente sobre a estratégia de combate à pandemia que introduz a ideia de que temos aqui dois cenários e que para além da fase de mitigação, que é a que conhecemos da epidemia de gripe, pode haver uma nova abordagem de supressão que se aproxima do que temos por exemplo com o ébola. Em mitigação é o que temos ouvido: queremos tentar aplanar a curva de casos para não sofrermos os piores efeitos de uma curva maior, é o que fazemos com a pandemia de gripe com uma vacina. Estes académicos propõem que em cima da mitigação possa haver uma abordagem da supressão: tentar suprimir a transmissão, não é domá-la, mas tentar que seja já o menor possível, tentar que a taxa reprodutiva do vírus seja inferior a 1, ou seja que um caso não dar origem a nenhum ou isso acontecer residualmente.
A OMS tem falado em conter o vírus.
A OMS começou a falar disso na semana passada mas a proposta só surgiu de forma mais concretizada esta semana e vem de facto justificar medidas mais agressivas. Mas, num cenário de supressão, é preciso manter medidas enquanto o vírus circule na população ou até haver vacina. E eles acabam o artigo a dizer uma coisa importante: como funcionará a supressão? Não sabemos porque nunca um coronavírus foi pandémico e não sabemos qual será o efeito real sobre a sociedade, socialmente, psicologicamente e economicamente, das fortíssimas medidas de supressão que estão a ser implementadas.
Mas porque é que fazem essa proposta perante este vírus?
Porque entendem que se não avançamos para supressão dificilmente o controlamos dentro de certos limites.
Ficaria endémico, a circular para sempre como os vírus da gripe sazonal?
Penso que ainda é cedo para responder, a questão é mais imediata, o que aconteceria esta primavera. Nos últimos dias vemos novos casos na China e Coreia que foram importados. Sem um controlo forte e agressivo dos países arriscamos que os casos fossem exportados de umas regiões para outras e isto nunca mais acaba. A supressão parece indicada face à etiologia do vírus mas levanta problemas porque não sabemos as consequências económicas, políticas e sociais de medidas que enfraquecem tanto a economia e fortalecem tanto a autoridade.
Consequências também para a saúde: na última crise tivemos um aumento de depressões e de suicídios.
As pessoas às vezes esquecem-se que a pobreza mata, não são só as bactérias e vírus. A pobreza mata e de forma bastante persistente. Ainda sobre a evolução do conhecimentos, também na segunda-feira tivemos uma publicação na Science que nos diz uma coisa impressionante, mas para a qual só agora temos dados: estimam através de modelos matemáticos que até ao dia 23 de janeiro, quando a China impôs barreiras às viagens e quarentena total em Wuhan, 86% das infeções totais não tinham sido detetadas, não foram documentadas, eram pessoas que estavam bem ou com sintomas ligeiros, e que foi esse enorme número de infeções que serviu de mola para a expansão da epidemia. E foi isso que nos disse de uma forma muito mais documentada do que antes que temos de testar o máximo que for possível, como apelou esta semana a OMS, para conseguir chegar ao maior número de casos possíveis e limitá-los. Havia esta intuição, mas este é um dado objetivo que nos mostra a importância de testar e alargar os testes.
Quer dizer que a nossa epidemia pode estar bastante subestimada?
Não é só a nossa - todas -, mas mesmo assim temos números extraordinários, o número de pessoas que estão em isolamento e estão a ser acompanhados pelas autoridades de saúde passa os 6000. Na terça-feira, Ursula von der Leyen anunciou que possivelmente vamos ter uma vacina no mercado no outono. Isto também muda tudo. Há dez dias, as autoridades mundiais na matéria diziam que iam demorar pelo menos 18 meses e temos a presidente da Comissão Europeia a dar esta garantia.
Mas há certezas? Na China estão a começar ensaios clínicos.
Penso que ela não o diria se não tivesse informações sólidas, não assumiria este risco, não estamos a falar de principiantes.
No cargo é.
Mas na política não. Isto para dizer que falar no futuro na segunda-feira é diferente de falar de futuro na quarta-feira. Haver uma alteração do calendário da vacina muda-nos o conhecimento sobre a situação. O conhecimento evolui e as relações entre ciência e política têm de ter em conta isto, às vezes não têm. Mais um exemplo: esta semana saiu um trabalho no New England Journal of Medicine que diz que este vírus, sendo um coronavírus, provavelmente transmite-se em maior proximidade do que o vírus da gripe e é importante perceber melhor por exemplo a transmissão através do uso de aerossóis em meio hospitalar. Mais uma informação que muda a perspetiva. A dificuldade é articular este conhecimento que está sempre mudar com as decisões políticas. Claro que se as decisões políticas forem maximalistas, não há nada que articular. Mas é preciso pesar todos os impactos. Como disse, as medidas são todas importantes mas quando aplicá-las face às consequências é que é a questão crítica.
Temos no entanto diferentes leituras: a DGS desmentiu que a toma de Brufen seja prejudicial e a Organização Mundial de Saúde acabou por desaconselhar o medicamento. Em que ficamos?
O Infarmed disse aos portugueses que não há evidência neste momento que implique que o Brufen favoreça a doença. A OMS diz que enquanto não soubermos é melhor não tomarmos.
Não é bom senso?
É discutível. A ciência é conservadora, no sentido em que o que não está demonstrado, não está demonstrado. Não podemos em ciência aconselhar os políticos a desconfiarem se a desconfiança não estiver demonstrada, se não entrávamos num mundo delirante. E temos de conseguir aproveitar este momento para acentuarmos a importância da inteligência. Se reforçarmos métodos autoritários e desconfiança, como é que saímos desta crise? Isso vai ser vital: não podemos sair desta crise sem aprendermos nada e começar como se nada fosse. Vamos sair desta crise numa situação económica dificílima. Se for feito o mesmo que foi feito em 2008, perder-se-á a oportunidade de fazer predominar a inteligência sobre o resto. E temos acima de tudo de sair desta crise com uma União Europeia capaz de adotar políticas solidárias em relação ao crescimento económico e não políticas egoístas como fez no passado. Políticas solidárias não só em relação à economia mas também ao clima e a este interface entre reino animal e reino humano. Não podemos sair desta crise com os mesmos instintos do passado.
Antes de falar do futuro depois da crise, e dentro do que é possível prever, será possível termos uma epidemia menor do que a italiana ou espanhola e quanto tempo estaremos nesta fase crítica?
Pelos exemplos que dei percebe-se que o que eu disser hoje pode já não ser verdade amanhã. Temos de deixar ao conhecimento a orientação dia a dia sem fazer previsões descabidas.
Mas há previsões: a ministra da Saúde diz que o pico pode chegar no final de abril e o primeiro-ministro disse que, no melhor cenário, teremos de lidar com a epidemia até ao final do maio.
Isso é a modulação da curva e quanto mais avança a epidemia mais fácil é calcular a inflexão da curva e o pico, mas isso está por exemplo condicionado pela evolução geográfica. Se tivermos um foco é uma coisa, como aconteceu na Lombardia, se tivermos quatro ou cinco é outra.
Mas em teoria as medidas que começaram a ser tomadas nas última semana e nesta, as pessoas que ficaram em casa, as escolas fechadas, já se poderão repercutir no número de casos da próxima semana. Podemos continuar a ter mais casos e travar o aumento.
Exatamente. Os doentes que vemos hoje correspondem ao que acontecia na comunidade há oito ou dez dias, o que sabemos hoje reflete a transmissão de há dez dias, que é o tempo de incubação mais o tempo de diagnóstico. Portanto o que vemos é sempre um reflexo de há uma semana. É difícil fazer previsões. Há uma coisa que é certa: como nunca experimentámos uma pandemia de um coronavírus e nunca aplicámos, na nossa memória coletiva, medidas destas, não somos capazes de prever as suas implicações económicas, sociais e políticas. E portanto, evolua a situação como evoluir, não podemos abrir mão de que a inteligência deve informar as lideranças nacionais e europeias imediatamente depois da crise no sentido de evitar que as decisões sejam tão egoístas e tão desprovidas de conhecimento dos impactos reais sobre a sociedade como na crise passada.
Uma Europa mais solidária do que foi com os países da periferia, numa altura em que todos os países estarão em grande dificuldade económica.
Voltamos ao início. Foi esse tipo de irracionalidades, de egoísmos, de falta de solidariedade, que deu origem ao clima político com que enfrentamos esta crise. O fundamental é que quando esta crise amainar, em termos de curva epidémica, não voltemos ao mundo que tínhamos antes da crise, um mundo de uma relação débil entre racionalidade, conhecimento e política. Precisamos de sair desta crise não reforçando este afastamento, autoridade para um lado e conhecimento para outro, mas aproximando racionalidade, conhecimento e política.
Quais foram os principais erros na última crise?
As relações e regras europeias levaram-nos a um mundo mais desigual e mais tenso, propício a surtos autoritários. Vamos ter todos uma situação mais débil e vamos precisar de uma política económica e financeira comum, que nunca tivemos. Com decisões políticas mais transparentes e alavancadas pelo conhecimento e menos obscurecidas pelos interesses dos mais fortes. Uma Europa mais inteligente é necessariamente uma Europa mais solidária. Esta é a ocasião para aprendermos que mais tarde ou mais cedo - no clima, na vida do planeta, no sistema financeiro, na beligerância desnecessária ou na saúde pública - sofreremos todos juntos.
Há uma análise política que é inevitável fazer. O perigo foi subestimado, pelos responsáveis em Portugal e também na Europa?
Penso que essa discussão tem de ser para depois, neste momento temos de estar ao lado das decisões tomadas e não começar a avaliar durante a epidemia. Mas há uma coisa que posso dizer. Nos anos 50, quando tivemos a pandemia de gripe asiática, a pessoa que liderou a resposta norte-americana, o equivalente ao nosso diretor-geral da Saúde, escreveu o seguinte: independentemente daquilo que fizermos, no fim o julgamento vai ser que ou fizemos de mais ou fizemos de menos. Ambos os casos serão injustos mas não é por causa dessa injustiça previsível que devemos deixar de fazer aquilo que temos de fazer. Depois do jogo eu podia ter passado em vez de ter rematado, mas as pessoas tomam decisões de acordo com a informação que têm naquele momento.
Mas continuam relatos de falta de equipamento de proteção, só foi feito um levantamento exaustivo de ventiladores na última semana, as linhas entupiram. Estas questões não deviam sido acauteladas mais cedo?
Sabemos que temos um país imperfeito, com organizações que não são sempre as melhores, dificuldade em seguir normas. Este é o país real.
E com um baixo investimento em saúde.
De anos e que continua. Há um conjunto de circunstâncias das quais temos de evoluir, com certeza, mas não vale agora tocar num interruptor e perguntar “não fomos capazes de fazer isto?” Há 500 anos que não somos capazes de fazer isto.
Para um SNS que já tinha tempos de espera elevados para consultas e cirurgias, e uma necessidade de se transformar, esta crise pode ser um desastre.
É evidente. Todos nós pensamos que nos últimos dez anos podíamos ter feito muito melhor para transformar o Serviço Nacional de Saúde num Serviço Nacional de Saúde do nosso tempo. Mas a verdade é que não o fizemos. Porquê? Por todas as razões de que já falei. Podemos apontar duas ou três coisas que podíamos ter feito nas últimas semanas e eu acrescento 100. Agora essas coisas são mais óbvias porque aconteceu isto mas se acontecesse outra coisa não eram essas que eram óbvias. Olhar para o passado como se de repente o país que conhecemos não existisse, não fosse um país com insuficiências, imperfeições, comportamentos indesejáveis, gestões incompletas, e dizer “se isto fosse um país como deve ser devíamos ter feito isto”, não serve para nada, serve para ser injusto. Se fizermos uma avaliação séria podemos melhorar e aprender. E a diferença será essa: se estamos a aprender ou a aproveitar uma oportunidade para agredir este ou aquele em relação ao passado.
No imediato vai ser mais duro para os profissionais de saúde e para os doentes, Covid e os outros.
Isso não há dúvida. Vai ser duro para todos, principalmente para os que estão na primeira linha. O Pacheco Pereira escreveu um artigo há uns dias que terminava dizendo uma coisa que é uma boa síntese: os da linha da frente vão sofrer muito e vão sofrer no corpo, mas a retaguarda vai sofrer na cabeça. É um mundo difícil de gerir, transformado por completo. O SNS que tem uma atividade normal e de repente tem de dar uma volta de 180 graus e fazer coisas completamente diferentes, de um momento para o outro. A única forma de não perdermos a cabeça é aumentarmos a nossa confiança no conhecimento.
Que o conhecimento vai evoluir e dar novas orientações?
Sim e que podemos mudar. Todas as decisões tomadas no passado recente que agravam a nossa crise foram decisões em larga medida destituídas de racionalidade. Foram decisões de interesse de uns ou outros. Não podemos evitar na sociedade esses fenómenos mas não podemos aceitar tão baixo nível de racionalidade e tão baixa relação entre racionalidade, conhecimento e decisões políticas, quer nacionais, quer europeias.
Esta pandemia tem sido comparada a um tempo de guerra. Pertence a uma geração que tem memórias de guerra. Até que ponto o que estamos a viver pode ser traumático?
Não posso dizer que tenha memória de guerra. Acho que a invocação da metáfora da guerra, quer cá quer fora, tem mais a ver com a disciplina necessária na guerra do que com o sofrimento na guerra. Penso que é uma metáfora útil no sentido em que apela à disciplina, estamos a combater também com comportamentos e guerras deste tipo precisam de disciplina, precisam de orientações mas também da nossa capacidade de nos adaptarmos. Não podemos viver como autómatos que seguem um código pré-estabelecido. Todos os dias tomamos decisões da nossa vida que são criativas, que procuram explorar oportunidades, que nos permitem aprender. Aceito a metáfora da guerra desde que não esconda que um dos principais fatores para isto correr bem é as pessoas compreenderem o que se passa e tomarem decisões em relação à forma como vivem. Ajudarem-se umas às outras, identificarem aqueles que são mais vulneráveis, encontrarem formas de lhes fazer chegar o que precisam.
Começamos já a ver essas redes de solidariedade a criarem-se, entre vizinhos, associações, freguesias. Os italianos fizeram concertos nas varandas. São formas de aumentar a resiliência?
Sim e isso vai para além das instruções e da disciplina, é sabermos compreender o mundo em que estamos e que dependemos uns dos outros e essa é a outra face da moeda que temo que às vezes a metáfora da guerra possa esconder. Não pode ser só seguir instruções, não vás ali, não vás aqui, não saias. Isso é necessário naturalmente devido à precisão com que é necessário combater este inimigo externo, mas por baixo disto há um espaço para fazermos mais e que nos permitirá sair disto melhor.
Mas com cicatrizes.
Serão menos se formos capazes deste mecanismo adaptativo. E este é um apelo ao que temos de melhor, à nossa criatividade, à generosidade, à inteligência, à capacidade de adaptação, ao estreitar da relação que temos com os outros. Temos de reinventar os nossos comportamentos para adaptar as orientações das autoridades às nossas circunstâncias. Reorganizar, ativamente, criativamente a forma com vivemos o nosso dia a dia. Com prudência, ativos física e mentalmente, inteligentes e combativos face a ameaça. E isso já se vê. As pessoas telefonam mais às famílias, mandam mensagens a amigos esquecidos.
Tem-lhe acontecido?
Claro, como passo mais tempo em casa do que antes tenho muito mais tempo para pensar, para ler, telefono mais aos meus amigos.
Não tem saído?
Vou uma vez ou outra ao supermercado mas tenho três filhas e quando vão elas ao supermercado em vez de trazerem só para elas trazem para nós. Até aqui tenho saído para fazer o meu exercício diário, costumo andar 40 minutos por dia, não ando em aglomerações, não me cruzo a menos de dois metros de ninguém, não fico a conversar com ninguém. Com as novas medidas, devem ser passeios mais resguardados, mas para mim o exercício físico é tão importante como a saúde mental. Temos de nos adaptar. Noutro dia fizemos uma sessão telefónica no condomínio e discutimos como podíamos ajudar-nos, as pessoas ofereceram-se para ajudar os mais velhos e os que estão sós. Tomámos a decisão de que no elevador ninguém entra se estiver uma pessoa dentro, é uma coisa simples. Discutimos como se vão limpar as coisas e falámos de como se vive neste novo registo, em casa. E a primeira regra é não embirramos uns com os outros. Sabemos que pessoas que nunca viveram com esta intensidade juntas vão ter momentos de menos paciência.
Há uma cidade chinesa onde dispararam os divórcios mal acabou a quarentena.
Pois. E portanto é preciso contar com isso e tentar mudar. Se me dizem uma coisa três vezes, em vez de dizer é demais, diz “olha, conta uma história diferente”. E faz-nos bem conversarmos sobre isto com os outros. Não é preciso ir muito às raízes da psicologia para saber que quando contamos a nossa história estamos a revê-la, quando digo o que penso em voz alta para outros, quando adopto esta narrativa, estou a repensar-me. Conversar, escrever e receber comentários é fundamental para a saúde mental.
Vai mudar muito a forma como vivemos depois desta crise?
Vamos sair daqui peritos em comunicação à distância, novos, velhos, escolas, universidades, todos vão comunicar melhor.
Já andávamos sempre ligados.
Mas se calhar vamos reaprender que comunicar não é só twittar, nem mandar emails, nem só ver notícias, é conversar, é trocar conhecimento, partilhar valores, é sermos amigos uns dos outros. Acho que vamos sair disto com uma enorme fome de conversar. Temos de conseguir ver oportunidades nas coisas. Novas capacidades de comunicação tecnológica, certamente, mas uma grande valorização do que é o contacto humano, do que é uma boa conversa, do que são os afetos, tocarmo-nos uns aos outros, dar abraços e beijinhos, há uma saudade enorme disso. Não o podemos perder.
E esperar que seja o mais leve possível?
Não vale a pena antecipar o que não é antecipável. Vamos confiar que a produção de conhecimento vai-nos aliviar muito esses males, eventualmente antes do que esperaríamos, mas em vez de fazer projeções e ficar ansiosos na sua verificação, é melhor fixar na realidade de que estamos a aprender muito todos os dias e que temos de proteger os mais vulneráveis.
Para um epidemiologista, é o vírus que se espera que nunca apareça, uma ameaça que aparece uma vez no século, como escreveu Bill Gates?
É algo para que temos de nos preparar melhor no futuro porque são ocorrências que possivelmente se vão repetir. Temos de pensar de novo as nossas cidades, os nossos transportes.
Há menos de um ano estávamos a discutir que uma forma de aumentar a capacidade dos transportes públicos era tirar bancos para caberem mais pessoas.
Pois. E além disso teremos de pensar que serviço de saúde temos de ter para conseguir rapidamente responder e transformar-se. Como está a transformar-se agora. Ontem disseram-me que 50% dos doentes já estavam em casa, os hospitais estão a transformar-se para dar resposta aos doentes graves e os cuidados de saúde primários estão a preparar-se para fazer o que nunca conseguiram fazer, que é acompanhar um número efetivamente grande de doentes que estão em casa, os doentes crónicos, tudo aquilo que há muito tentamos fazer. Mas lá está, precisamos de conseguir sair disto não uma sociedade mais autoritária em que isso se sobrepõe ao papel que temos uns sobre os outros mas uma sociedade mais inteligente e capaz de tomar melhores decisões para todos.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

O coronavírus não está vivo. É por isso que é tão difícil de matar

“Os vírus passaram milhares de milhões de anos a aperfeiçoar a arte de sobreviver sem viver — uma estratégia assustadoramente eficaz que os torna uma ameaça potente no mundo de hoje.”

Fonte: aqui

Os vírus passaram milhares de milhões de anos a aperfeiçoar a arte de sobreviver sem viver — uma estratégia assustadoramente eficaz que os torna uma ameaça potente no mundo de hoje.

Isso é especialmente verdade em relação ao novo e mortífero coronavírus que paralisou a sociedade global. É pouco mais do que um pacote de material genético envolvido por uma casca de proteína, com um milésimo da largura de uma pestana, e leva uma existência semelhante à de um morto-vivo, tanto que mal é considerado um organismo vivo.

Mas assim que entra nas vias aéreas humanas, o vírus sequestra as nossas células para criar milhões de versões de si mesmo.

Há algo de génio maléfico na forma como este coronavírus funciona: encontra terreno fértil em humanos sem que eles percebam. Antes de o seu primeiro hospedeiro desenvolver sintomas, já está a espalhar as suas réplicas por toda parte, passando para a próxima vítima. É poderoso e mortal em alguns, mas leve o suficiente noutros para escapar à contenção. E, por enquanto, não temos como detê-lo.

À medida que os investigadores se apressam para desenvolver medicamentos e vacinas para a doença que já afectou 400.000 e matou mais de 18.000 pessoas*, numa contagem que não pára, este é um retrato científico do que eles enfrentam.

"Entre a química e a biologia"

Os vírus respiratórios tendem a infectar e replicar-se em dois lugares: no nariz e garganta, onde são altamente contagiosos, ou mais abaixo nos pulmões, onde se espalham menos facilmente mas são muito mais mortais.

Este novo coronavírus, chamado SARS-CoV-2, divide-se com habilidade. Instala-se no tracto respiratório superior, onde é facilmente espirrado ou tossido para cima da sua próxima vítima. Mas em alguns doentes, consegue alojar-se nos pulmões, onde a doença pode matar. Esta combinação dá-lhe a contagiosidade de algumas constipações e a letalidade da sua prima direita molecular SARS, que causou o surto de 2002-2003 na Ásia.

Outra característica insidiosa deste vírus: ao perder um pouco dessa letalidade, os seus sintomas aparecem mais lentamente do que os da SARS, o que significa que muitas vezes as pessoas o transmitem a outros antes mesmo de saberem que o têm.

Por outras palavras, é apenas sorrateiro o suficiente para causar o caos.

Vírus muito parecidos com este têm sido responsáveis por muitos dos surtos mais destrutivos dos últimos 100 anos: a gripe de 1918, 1957 e 1968; e a SARS, MERS e Ébola. Como o coronavírus, todas estas doenças são zoonóticas — saltaram de uma população animal para os humanos. E todas são causadas por vírus que codificam o seu material genético no ARN.

Isto não é coincidência, dizem os cientistas. A existência quase zombie dos vírus ARN torna-os fáceis de apanhar e difíceis de matar.

Fora de um hospedeiro, os vírus estão adormecidos. Não têm nenhuma das características tradicionais da vida: metabolismo, movimento, capacidade de reprodução.

E podem aguentar muito tempo assim. Estudos laboratoriais recentes mostraram que, embora o SARS-CoV-2 se degrade tipicamente em minutos ou em algumas horas fora do hospedeiro, algumas partículas podem permanecer viáveis — potencialmente infecciosas — até 24 horas em cartão e até três dias em plástico e aço inoxidável. Em 2014, um vírus congelado em permafrost durante 30.000 anos que os cientistas recuperaram foi capaz de infectar uma amiba após ter sido “ressuscitado” no laboratório.

Quando os vírus encontram um hospedeiro, usam proteínas das suas superfícies para desbloquear e invadir as células. Depois assumem o controlo dos próprios mecanismos moleculares dessas células para produzir e montar os materiais necessários para produzir mais vírus.

“É oscilar entre estar vivo e não estar vivo”, explica Gary Whittaker, professor de virologia da Universidade de Cornell. Ele descreve o vírus como estando “entre a química e a biologia”. 

Entre os vírus ARN, os coronavírus — nomeados pelas espículas que os enfeitam como pontos de uma coroa — são únicos pelo seu tamanho e relativa sofisticação. São três vezes maiores que os agentes patógenos que causam dengue, febre do Nilo Ocidental e zika, e são capazes de produzir mais proteínas que reforçam o seu sucesso.

“Digamos que a dengue tem um cinto de ferramentas com apenas um martelo”, explica Vineet Menachery, virologista da Faculdade de Medicina da Universidade do Texas. Estes coronavírus tem três martelos diferentes, cada um para uma situação diferente.

Entre essas ferramentas está uma proteína de “revisão”, que permite aos coronavírus corrigir alguns erros que acontecem durante o processo de replicação. São capazes de se mutar mais rapidamente do que as bactérias, mas são menos propensos a produzir descendência tão repleta de mutações prejudiciais que não consegue sobreviver.

Entretanto, a capacidade de mudar ajuda o microorganismo a adaptar-se a novos ambientes, seja o intestino de um camelo ou as vias respiratórias de um humano, que lhe concede a entrada sem saber, bastando para isso coçar o nariz.

Os cientistas acreditam que o vírus da SARS teve origem num vírus de morcego que chegou aos humanos através de gatos civeta vendidos nos mercados de animais. O coronavírus actual, cujas origens também podem estar nos morcegos, terá tido um hospedeiro intermediário, possivelmente o pangolim.

“Acho que a natureza nos tem vindo a dizer ao longo de 20 anos que, ‘Ei, os coronavírus que vêm dos morcegos podem causar pandemias em humanos e temos de pensar neles como sendo como a gripe, como ameaças a longo prazo'”, diz Jeffery Taubenberger, virologista do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas.

O financiamento para a investigação sobre os coronavírus aumentou após o surto da SARS, mas nos últimos anos esse financiamento secou, diz Taubenberger. Estes vírus normalmente causam simplesmente constipações e não eram considerados tão importantes como outros patógenos virais, conclui.

À procura de armas

Uma vez dentro de uma célula, um vírus pode fazer 10.000 cópias de si mesmo numa questão de horas. Em poucos dias, a pessoa infectada carregará centenas de milhões de partículas virais em cada colher de chá do seu sangue.

A ofensiva desencadeia uma resposta intensa do sistema imunitário do hospedeiro: químicos defensivos são libertados. A temperatura do corpo sobe, causando febre. Exércitos de glóbulos brancos juntam-se num enxame na região infectada. Muitas vezes, esta resposta é o que faz uma pessoa sentir-se doente.

Andrew Pekosz, um virologista da Universidade Johns Hopkins, compara os vírus a assaltantes particularmente destrutivos: invadem a sua casa, comem a comida e usam os móveis, e têm 10.000 bebés. “E só então abandonam o lugar destruído”, diz.

Infelizmente, os humanos têm poucas defesas contra estes assaltantes.

A maioria dos antimicrobianos trabalha interferindo com as funções dos germes que atacam. Por exemplo, a penicilina bloqueia uma molécula usada pelas bactérias para construir as paredes das suas células. Funciona contra milhares de tipos de bactérias, mas como as células humanas não usam essa proteína, podemos ingeri-la sem efeitos secundários.

Mas os vírus funcionam através de nós. Sem maquinaria celular própria, eles ficam entrelaçados com a nossa. As proteínas deles são as nossas proteínas. As fraquezas deles são as nossas fraquezas. A maioria das drogas que os pode magoar também nos magoaria a nós.

Por esta razão, os medicamentos antivirais devem ser extremamente específicos, explica a viróloga de Stanford Karla Kirkegaard. Tendem a usar como alvo as proteínas produzidas pelo vírus (usando nossa maquinaria celular) como parte do seu processo de replicação. Estas proteínas são exclusivas dos vírus. Isto significa que os medicamentos que combatem uma doença geralmente não funcionam noutras doenças.

E como os vírus evoluem tão rapidamente, os poucos tratamentos que os cientistas conseguem desenvolver nem sempre funcionam por muito tempo. É por isso que os cientistas estão constantemente a desenvolver novos medicamentos para tratar o VIH, e é por isso que os doentes tomam um “cocktail” de antivirais que exige aos vírus várias mutações para conseguirem criar resistências.

“A medicina moderna está constantemente um passo atrás dos novos vírus emergentes”, afirma Kirkegaard.
FotoREUTERS

O SARS-CoV-2 é particularmente enigmático. Embora o seu comportamento seja diferente do do seu primo SARS, não existem diferenças óbvias nas “chaves” da proteína da espícula (spike) do vírus que lhe permite invadir as células hospedeiras.

A compreensão destas proteínas pode ser a chave para desenvolver uma vacina, diz Alessandro Sette, chefe do Centro de Doenças Infecciosas do Instituto La Jolla de Imunologia. Estudos anteriores mostraram que as proteínas da espícula da SARS são o que desencadeia a resposta protectora do sistema imunitário. Num artigo publicado esta semana, Sette descobriu que o mesmo é verdade para o SARS-COV2.

Isto dá aos cientistas razões para serem optimistas, de acordo com Sette. Confirma o palpite dos investigadores de que a proteína da espícula é um bom alvo para as vacinas. Se as pessoas forem inoculadas com uma versão da proteína da espícula, isso pode ensinar o seu sistema imunitário a reconhecer o vírus e permitir-lhes responder mais rapidamente ao invasor.

“Também nos diz que o novo coronavírus não é assim tão novo”, diz Sette.

E se o SARS-CoV-2 não é assim tão diferente do seu primo mais velho SARS, isso significa que o vírus provavelmente não está a evoluir muito rapidamente, dando aos cientistas que estão a desenvolver vacinas tempo para recuperar o atraso.

Entretanto, diz Kirkegaard, as melhores armas que temos contra o coronavírus são medidas de saúde pública como testes e distanciamento social e os nossos próprios sistemas imunitários.

Alguns virologistas acreditam que temos uma outra coisa a nosso favor: o próprio vírus.

Apesar de toda a sua genialidade maléfica e design eficiente e letal, “o vírus não quer realmente matar-nos”, diz Kirkegaard. É bom para os vírus, bom para a sua população, se andarmos por aí perfeitamente saudáveis.” 

Falando evolutivamente, acreditam os especialistas, o objectivo final dos vírus é serem contagiosos e ao mesmo tempo gentis com seu hospedeiro — menos ladrão destrutivo e mais um hóspede atencioso.

Isso porque vírus altamente letais como o SARS e o ébola tendem a extinguir-se, ao não deixar ninguém vivo para os espalhar.

Mas um microorganismo que é meramente irritante pode perpetuar-se indefinidamente. Um estudo de 2014 descobriu que o vírus que causa herpes oral está com os humanos há 6 milhões de anos. “É um vírus muito bem-sucedido”, diz Kirkegaard.

Visto através desta lente, o novo coronavírus, que agora mata milhares em todo o mundo, ainda está no início da sua vida. Reproduz-se destrutivamente, sem saber que há uma maneira melhor de sobreviver.

Mas pouco a pouco, com o tempo, o seu ARN irá mudar. Até que um dia, não tão distante, será apenas mais um dos coronavírus das constipações comuns que circulam todos os anos, causando tosse ou um nariz entupido, e nada mais.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Já Reparou que os Pirilampos Estão a Desaparecer?

Existem ameaças que podem extinguir algumas das 2 mil espécies de pirilampos do planeta. Torna-se urgente travar o declínio mundial destas espécies.

Fonte: aqui

Os pirilampos, de seu nome científico “Lampyris” ou lanterna em latim, são corriqueiramente conhecidos como vaga-lumes. Existem duas mil espécies de pirilampos em todo o mundo, sendo que 65 se encontram na Europa e 11 vivem entre Portugal e Espanha.

Da larva ao pirilampo
Com semelhança ao desenvolvimento da borboleta, na sua fase de larva, o pirilampo acumula reservas energéticas para se desenvolver. Esta fase dura entre um e três anos, representando a grande parte da vida do animal.

O pirilampo adulto possui o corpo segmentado em cabeça, tórax e abdómen, tem três pares de patas e um par de antenas. Tal como as joaninhas, os escaravelhos, os besouros e os gorgulhos, ostentam dois pares de asas. Um par exterior, rígido, que serve de proteção e, outro, interior e muito mais frágil, que lhes permite efetivamente voar. 

As fêmeas pirilampos são geralmente maiores do que os machos, mas possuem olhos mais pequenos e apenas um segmento iluminado. Quer uns como outros, chamam pouco a atenção pelo seu corpo preto ou castanho escuro e, pelos seus anéis esverdeados ao longo do abdómen. Até que se dá a bioluminescência, isto é, até que começam a piscar.

Alimentam-se de presas de tamanho bastante superior ao seu, que imobilizam através de um veneno, tal como fazem as aranhas.

O piscar dos pirilampos
A bioluminescência é um fenómeno que se traduz pela emissão de luz visível aos nossos olhos, por parte de um organismo vivo. Esta característica deve-se a um processo biológico complexo em que participam várias substâncias. A química explica que resulta energia sob a forma de luz em 90% e, calor, em 10%.

A luz dos pirilampos é fria e altamente eficiente. Serve de defesa em relação a predadores, ou como sinal de perturbação, associando-se também a rituais de acasalamento.

As fêmeas piscam com um padrão próprio da sua espécie para atrair os machos corretos. Os machos piscam como mensagem de aproximação. Após o acasalamento, as fêmeas deixam de piscar. Existem espécies que comunicam ao crepúsculo, outras durante a escuridão da noite. Nem todos os pirilampos emitem luz, porque acasalam durante o dia.

A luz emitida pelo pirilampo-ibérico (Lampyris iberica), descrito em 2008, e pelo pirilampo-lusitânico (Luciola lusitanica), descrito em 1825, é esverdeada, intermitente nos machos e fixa nas fêmeas.

Os pirilampos estão a desaparecer
Uma equipa de biólogos da Universidade de Tufts, em Massachusetts (Estados Unidos), contou com a participação da União Internacional para a Conservação da Natureza, publicando um estudo na revista Bioscience, cujos resultados refletem as ameaças à existência de pirilampos.

São várias as causas que estão a levar ao desaparecimento das espécies de pirilampos. A poluição luminosa, química e a perda de habitat são algumas delas. É necessário e urgente parar e observar as causas da interferência humana que conduziram ao risco de extinção.

Poluição luminosa
O excesso de luz artificial dificulta a comunicação entre os pirilampos e a sua reprodução. A lanterna dos insetos bioluminescentes não consegue competir com a luz emitida pelas lâmpadas criadas pelo ser humano. O excesso de luz artificial vai inibir a produção da luz entre si.

Poluição química
Os pesticidas matam caracóis e lesmas, as presas das quais os pirilampos se alimentam. Podemos, inclusive, utilizar os pirilampos como bioindicadores, ou seja, a sua presença num determinado ambiente dá-nos informação sobre o estado desse mesmo habitat, no que respeita à sua qualidade quanto aos níveis de poluição química.

Perda de habitat
A extinção deve-se, também, à destruição dos campos e ribeiras onde vivem. A diminuição de pântanos, mangais, parques, florestas, campos agrícolas ou pastagens é um dos fatores. A degradação do seu habitat, que pela urbanização dos terrenos, a industrialização e a intensificação da agricultura, é o principal fator para o seu desaparecimento.

Estratégias de conservação
As estratégias são escassas devido às lacunas de informação sobre a distribuição dos pirilampos, a ecologia e os fatores de ameaça, para além do próprio inventário não concluído. Contudo, é importante cuidar da conservação dos pirilampos, quer pela preservação dos seus habitats, quer pela retenção da poluição luminosa e um maior controlo no recurso a pesticidas.

Em 2018 foi criado o Grupo de Peritos em Pirilampos da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) para avaliar o estatuto de conservação e o risco de extinção destes insetos a nível mundial. O grupo tem como responsáveis Sara Lewis e Sonny Won, da Sociedade Malaia da Natureza. O mesmo prevê publicar a revisão mundial das ameaças à extinção dos pirilampos.

Assista a um espetáculo de pirilampos
Das 11 espécies de pirilampos que existem em Portugal, duas delas, o pirilampo-lusitânico (Luciola lusitânica) e o pirilampo-mediterrânico (Nyctophila reichii) podiam, até ao ano de 2017, ser observadas na Quinta de Alcube, situada no Parque Natural da Arrábida, no evento 'As Noites de Estrelas e Pirilampos' que era organizado a cada mês de junho, pela Ocean Alive.

No Norte também era possível assistir à 'Noite dos Pirilampos', normalmente em junho, organizada pelo Parque Biológico de Gaia. Aqui encontram-se as espécies pirilampo-grande-de-lunetas (Lamprohiza paulionoi) e o pirilampo-lusitânico (Luciola lusitanica). Para este ano está previsto o Simpósio Internacional sobre Pirilampos, a decorrer de 17 a 19 de junho de 2020 em Gaia, cujo foco de interesse está dedicado a este grupo de insetos no âmbito da biologia, de estudos do comportamento, da sistemática e da conservação da natureza.

Se tiver a oportunidade de assistir a um espetáculo de pirilampos, pedimos-lhe que observe os seus padrões de cintilação sem qualquer tipo de interferência. Os locais mais adequados para observar pirilampos são as zonas húmidas, longe de pesticidas e luzes intensas.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

A nossa saúde depende da saúde do planeta, por Helena Freitas

Fonte: aqui
Em Portugal e no mundo vivem-se tempos de intensa angústia na sequência da disseminação e impacto na saúde pública de um novo vírus para a espécie humana – o SARS-CoV-2. Enfrentamos uma situação que se agrava todos os dias, e que impõe uma mudança radical das nossas rotinas, enquanto apela a uma atitude generosa em benefício da comunidade. Este é também um tempo de medo, de insegurança, de incerteza, que desencadeará um abalo sem precedentes nos alicerces de um mundo que negligenciou a relação prudente e cúmplice com a natureza, e passou a viver na ilusão de uma soberania absoluta. Uma sobranceria que nos levou mesmo a esquecer que dependemos da natureza e da biodiversidade para o nosso bem-estar e sobrevivência. O ar que respiramos, a água que bebemos, os alimentos que consumimos, os medicamentos que tomamos e a paisagem que nos inspira, são proveitos de um planeta saudável.

É importante refletir sobre o que esta pandemia nos revela da desarmonia que criámos entre a natureza e as sociedades humanas. Não sendo adequado invocar uma correlação absoluta para o caso concreto que vivemos, e reconhecendo o evidente papel de uma maior circulação global, é possível estabelecer uma relação entre a crescente frequência de surtos de doenças, as alterações climáticas e a perda de biodiversidade. O recente relatório global da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços dos Ecossistemas (IPBES) reconhecia que as zoonoses são importantes ameaças à saúde humana, e que as doenças transmitidas por vetores representam aproximadamente 17% de todas as doenças infeciosas, causando cerca de 700.000 mortes por ano.

A comunidade científica vem alertando há muito tempo para os efeitos dramáticos da perda de biodiversidade, enfatizando a decorrente oportunidade para o aparecimento de novos vírus e doenças como a covid-19. A destruição das florestas tropicais e outros ambientes naturais, que abrigam tantas espécies de animais e de plantas (e dentro delas muitos vírus desconhecidos), promovem disrupções profundas nos ecossistemas e libertam os vírus de seus hospedeiros naturais, que precisam de um novo hospedeiro. Muitas vezes, somos nós.

O nosso mundo e os sistemas que suportam a vida no planeta estão ameaçados. A desflorestação, a poluição, a emissão de gases com efeito de estufa, as alterações climáticas, a drenagem de zonas húmidas, entre outros fatores associados às nossas práticas, estão a eliminar espécies e a destruir ecossistemas a uma escala sem precedentes. Muitos dos desafios globais de saúde que enfrentamos hoje, incluindo as doenças infeciosas e a desnutrição, estão associadas ao declínio da biodiversidade e à brutal degradação dos ecossistemas. A destruição do planeta é a nossa própria destruição – não estamos acima de nenhuma espécie.

As últimas duas décadas de surtos controlados terão levado a uma certa complacência; e se é verdade que a ciência nos permite ter confiança no engenho humano e manter a esperança no desenvolvimento de soluções, também é vital reconhecermos que o mundo natural pode desempenhar um importante papel preventivo e mitigador. Conseguiremos sair desta pandemia, mas teremos que nos preparar para outras epidemias, não necessariamente com as mesmas características.

domingo, 5 de abril de 2020

O coronavirus como valor de mercado em Inglaterra e na América, por Carlos Matos Gomes

Fonte: aqui

A estratégia inicial do governo do Reino Unido para lidar com a pandemia de coronavírus foi radicalmente diferente da de outros países. Pelo menos nos primeiros tempos, enquanto os países europeus e a China adotaram medidas de isolamento, de quarentena, de limitação de movimentos, medidas de contenção mais ou menos radicais, a atitude do governo de Boris Johnson foi a de desvalorizar o impacto deste vírus.

Esta reação inglesa não é mais uma bizarria de um excêntrico como podemos julgar ao ver Boris Johnson nas televisões a vender as maravilhas do Brexit. É fruto de uma ideologia, apresentada como tendo uma base científica. A utilização da ciência como justificativo ideológico para medidas de controlo da sociedade tem antecedentes que se perdem nos tempos — é o que ainda fazem os feiticeiros dos povos ditos primitivos com unguentos e fumos de ervas — e o mais conhecido e próximo terá sido o programa de eliminação de doentes mentais do nazismo.

É evidente que Boris Johnson não é Hitler, nem a sociedade inglesa atual é a alemã do nazismo (nunca foi), mas o sistema de produção de riqueza das duas sociedades assenta em princípios comuns e por isso quer a Inglaterra quer a Alemanha estiveram juntas na “fundação” do colonialismo (Conferência de Berlim), que é a “madre de todas las cosas” que acontecem e aconteceram no “nosso mundo” de combustão capitalista. Divergiram nos anos 70, quando a Alemanha reassumiu o seu papel de locomotiva industrial e a Inglaterra se especializou como centro comercial e financeiro, com um complemento de atividade turística. A partir desta opção, a Inglaterra pós-industrial e pós-colonial deixou de ter necessidade de mão-de-obra fabril e passou a depender dos negócios e serviços, com a correspondente exigência da mobilidade e de manter abertas as portas dos estabelecimentos.

A teoria da “imunidade de grupo” é normalmente defendida por epidemiologistas para falar dos benefícios da aplicação de vacinas recebidos por pessoas que não as tomaram. Mas ainda não havia vacina para o coronavírus! A sua invocação foi mais uma mistificação para justificar a supremacia do mercado sobre as pessoas.

As estimativas previam que a “imunidade de grupo” contra a covid-19 no Reino Unido seria alcançada quando aproximadamente 60% da população fosse infetada pela doença, o que quer dizer cerca de 36 milhões de pessoas. O professor Willem van Schaik, da Universidade de Birmingham, citado pela BBC, estimou que ocorreriam possivelmente centenas de milhares de mortes.

Como justificar que o governo de “Sua Majestade” tivesse sido o único na Europa que seguiu a política de “deixar o vírus circular” em nome do mercado e que quem sobreviver verá (aproveitará)os resultados?

A teoria da imunidade de grupo para resolver uma epidemia adotada por Boris Johnson e a classe dominante inglesa radica no pressuposto ideológico de que a tecnologia moderna e a aplicação da ciência aos negócios aumentaram a tal ponto a produtividade que a “questão económica fundamental hoje é organizar compradores, e não estimular produtores”. É este o papel de croupier e de centro de seleção e calibragem de compradores que a Inglaterra assumiu. A bíblia neoliberal da Escola de Chicago foi declarada religião oficial no Reino Unido e nos EUA desde Margareth Tatcher e Donald Reagan e promove, em termos simples, um programa de limpeza de produtos “descontinuados”, no caso seres humanos fora dos circuitos de consumo. Quem não compra é um excedente, um mono.

Para os neoliberais, adeptos da imunidade de grupo em termos sanitários, a questão é preservar os grupos sociais com poder de compra — porque a produção está garantida à partida com a automação e com a reposição rápida de trabalhadores descartáveis por estrangeiros ou jovens suburbanos, os “nim-nim”, disponíveis para atividades de baixa tecnologia, como parte da atividade ligada ao turismo, por exemplo, ou caixas de supermercado.

Os neoliberais no poder em Washington e em Londres, assumem que perder 40% da população até pode ser estimulante para o mercado, desde que esses sejam os que não compram, que sobrecarregam os serviços sociais e de saúde (a tal peste grisalha de que falava um deputado português desta escola). Para Margareth Tatcher e Reagan, como para Boris Johnson e Trump, o mercado (neste caso o mercado do vírus) agirá para regular os custos do produto, neste caso da vida. Mas esse é um pormenor. O importante é o mercado funcionar e é ele quem escolherá os sobreviventes, os que melhor se vendem e compram.

Esta atitude tem suportes ideológicos antigos. Entre 1932 e 1935 Bernard London, um rico corretor da bolsa de Nova Iorque, judeu, originário do Leste europeu, publicou nos Estados Unidos três ensaios onde defendia políticas que facilitassem a obsolescência planeada (Ending the Depression Through Planned Obsolescence (1932), The New Prosperity Through Planned Obsolescence: Permanent Employment, Wise Taxation and Equitable Distribution of Wealth (1934), and Rebuilding Prosperous Nations Through Planned Obsolescence (1935)).

Ficou conhecido como o autor do conceito de “obsolescência programada” (muito utilizado na indústria aeronáutica até ser substituído pela análise das condições — manutenção on condition).

London que era, curiosamente, considerado um progressista, viveu numa época em que os progressistas acreditavam serem infinitos os recursos do planeta e que estes se mantinham intactos e disponíveis para serem transformados em quantidades ilimitadas de produtos. Acreditava no mito do crescimento eterno. Deitar fora o que atingira o prazo de duração programado resolvia os problemas sociais do desemprego. Para London, a solução seria planear a obsolescência dos produtos, para induzir a necessidade de serem substituídos e assim acelerar a produção de novos equipamentos e bens, estimulando a economia. Uma versão da antiga “lei de Say”, de que tudo o que pode ser produzido pode ser consumido. Produza-se então muito, que muito será consumido e todos terão trabalho!

De acordo com London, o principal problema seria o reacionarismo “ultrarretencionista” (de adiamento de compra e de poupança) dos consumidores nos períodos de crise, durante os quais “as pessoas tendem a manter os seus carros, equipamentos, roupas por muito mais tempo do que apontariam as curvas estatísticas”. A solução de London seria “não só planear o que produzir, mas também planear a destruição (a saída do mercado) dos objetos obsoletos”. (O que podia incluir pessoas). Ele propunha tabelar a obsolescência dos bens de consumo no momento do seu fabrico, porque assim haveria sempre trabalho, uma vez que a procura contínua de produtos novos manteria a produção constante. Apostava na destruição dos artefactos materiais como motor do mundo. Um mundo sempre novo em folha.

O neoliberalismo assente nestes princípios e a resposta instintiva de Trump e de Boris Johnson à epidemia foi a de a considerar uma oportunidade para uma lucrativa operação de obsolescência (se programada, se fortuita é outra questão). Só quando se aperceberam do clamor da opinião pública e viram a popularidade ameaçada surgiram a manifestar a sua preocupação e a atribuir a responsabilidade a um hipotético inimigo — Trump refere sempre o “vírus chinês”. Política da mais demagógica, mas só os irredutíveis crentes esperam princípios destas personagens!

Tal como os grandes investidores exigem das empresas que controlam um prazo de vida pré-estabelecido a todos os produtos, que depois de vendidos e usados dentro do prazo de validade económica estariam comercialmente ‘mortos’ e seriam destruídos, assim também aconteceria com os seres humanos da “força de trabalho”, meras máquinas com data de abate.

Deixar a natureza realizar a sua função de eliminar os mais fracos é uma escolha ideológica, a que a teoria da imunidade de grupo apenas dá cobertura científica. A moral está fora destas análises. As classes dirigentes são natural e historicamente apoiantes de um cocktail de eugenismo (métodos para aperfeiçoamento da “raça” humana) e de malthusianismo (limitação da população para evitar problemas como a fome e a miséria).

A questão que se coloca agora é a de como construir aquilo que alguns designam como uma “sociedade convivial” nos escombros políticos, sociais e ideológicos deixados por esta epidemia de coronavírus e de neoliberalismo. A questão é, ainda, a de os cidadãos das sociedades de economias avançadas perceberem que ao colocarem no poder dirigentes como Johnson, Trump, para já não falar de Bolsonaro (Putin e Jinping surgem de outras circunstâncias) estão a colocar as raposas a tratar do galinheiro.

Até conseguirmos ganhar essa consciência e tirar conclusões, temos de viver reconhecendo que o pânico não contribui para aumentar as nossas possibilidades de sobrevivência. Devemos aproveitar este tempo começando a pensar como enfrentar o futuro com novas pandemias, com escassez de recursos, com catástrofes ambientais e com dirigentes políticos cada vez mais primários, interessados antes de tudo na sua sobrevivência e na do grupo, cada vez mais restrito dos que com eles sobreviverão.

A imagem que poderia acompanhar este texto seria dos anos 70, no telhado da embaixada dos EUA em Saigão, com os vietnamitas amigos dos americanos a tentarem desesperadamente agarrar-se ao último helicóptero que vai descolar e deixar para trás os desgraçados abandonados à sua sorte.