sábado, 21 de janeiro de 2017

É preciso mudar a escola e isso é tarefa de todos

por Maria do Carmo Cruz
Dizer coisas que não agradam a todos é bom sinal, sei-o bem. E quando nos expomos a fazê-lo sabendo, de antemão, que não vamos mesmo agradar a muitos, temos que estar preparados para o que daí pode vir. Tenho quase 75 anos, já fiz, não fiz, disse e omiti muita coisa mas não quero ser cúmplice por omissão num assunto tão importante: é preciso mudar a Escola.

Sim, é preciso, mas, e perdoem-me os que já mudaram, a começar pelos professores. Mesmo os mais jovens aprenderam pela “antiga cartilha” e há uma tendência natural a manter as coisas. Depois, as editoras escolares, agora muito concentradas, encarregam-se de, através dos materiais que acompanham os manuais, tentar uniformizar estratégias e técnicas. E aquilo que só deveria servir como sugestão torna-se o modelo. Como se todas as turmas fossem um rebanho de iguais. E isto apesar de encontrar cada vez mais erros e estratégias pouco pedagógicas em manuais que por aí andam.

Muitos professores precisam de mudar e eu sei que o querem fazer, mas o seu tempo é curto para tantas tarefas. Mas por que se acomodam? Por que se sujeitam à exaustão, que não é só fruto do muito trabalho mas também da insatisfação que sentem relativamente a si próprios? Por que não tentam, pelo menos, chamar os pais para a sua luta, colocá-los a seu lado para exigir melhores condições para exercerem dignamente a sua importantíssima actividade? Porque, se foi possível conseguir tanta mobilização aquando do assunto escola pública versus escola privada, deverá ser possível mobilizar o país para o seu assunto mais importante, que é a Educação, isto é, o Futuro.

Termino com dois testemunhos que considero muito importantes. O primeiro, retirado da obra “Gramática escolar e (in)sucesso", da Doutora Ilídia Cabral e que é, como verão se lerem, “um dois em um”:
“O modelo escolar vigente, com a sua específica gramática, é um produto que se mantém inalterado desde a sua moderna origem, contemporâneo da revolução industrial e da consolidação da generalidade dos Estados europeus. Sucedendo a um modelo artesanal de ensino, a escola, tal como a concebemos, serve os propósitos da escolarização acelerada da mão-de-obra reclamada pela fábrica e exigida pela identidade dos estados-nação.
Escolarizar os camponeses segundo um padrão fabril de estandardização de tempos, espaços, sequências de trabalho, cumprimento de horários e valores próprios das cadeias de montagem e socializar os cidadãos numa ordem alfabetizada que permitisse a progressiva instauração de uma democracia representativa, foram os dois grandes desígnios da invenção da escola moderna. (…)
“O acesso massificado à educação foi acompanhado de uma correspondente subida dos níveis de reprovação e abandono escolar, precisamente porque a Escola não mudou estruturalmente e “continuou a servir o mesmo menu curricular, utilizando os mesmos utensílios metodológicos e a mesma linguagem de acção pedagógica que a tinham estruturado como uma instituição destinada a uma classe de público tendencialmente homogéneo e socialmente pré-selecionado” (M. C. Roldão, in Inovação, Currículo e Formação, pág.125).”

Retirei o segundo texto de uma carta da Dra. Maria João Peres, publicada no Facebook pela Católica Educação do Porto, a quem desde já peço desculpa pelo abuso:
“Gente, o que vai ser preciso acontecer para os professores perceberem que este modelo de escola não dá mais?! Que não são os miúdos que têm de se moldar a nós, mas nós a eles? Que o tempo não volta para trás - e acelera mais e mais e mais? Que estes miúdos nasceram e vivem num futuro que nós nunca sonhámos e para o qual temos de os preparar? Quando vamos parar de nos queixar deles nos acharem obsoletos quando efetivamente o somos e pouco ou nada fazemos para deixar de o ser?!”

O que não devemos, na minha opinião, é continuarmos a agir como se não tivéssemos culpas nenhumas porque “apenas fazemos aquilo que nos mandam”. Porque, e voltando à minha velha mania dos aforismos, “tão criminoso é o mandante como quem comete o crime”.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Pedido de desculpas aos animais

Pedido de desculpas aos animais, Rita Silva, 6 Janeiro 2017

Encontros Improváveis: Bernardo Santareno- Sparklehorse and Radiohead - Wish You Were Here


"Um escritor deve acreditar que o que está a fazer é o mais importante do mundo. E deve apegar-se a esta ilusão, ainda que saiba que não é verdade. "

Por mais que mostre textos que elogiam as virtudes da paz, citações sobre Paz e Amor à minha volta no meu mural, o feed-back crescente e cada vez mais frequentes são de gritos, silêncios, prepotência, cinismo, hipocrisia, divisão e egocentrismos. Excepto o abrigo da família e alguns amigos. Já é bom, mas muito insuficiente. Aos meus amigos distantes apelo que sejam diplomatas da paz, apontem soluções aos derrotistas e transmitam exemplos de esperança aos pessimistas, os conservadores e os reacionários que não acreditam no sucesso de Portugal e que não aprofundam a consciência ecocêntrica.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Sim o glifosato é potencialmente cancerígeno

A Organização Mundial de Saúde (OMS) mantém a sua posição de que o herbicida glifosato causa cancro em animais de laboratório, por muito que isso tenha desencadeado a ira da indústria. Na entrevista abaixo é apresentada resumidamente a forma como o processo foi conduzido e reforçada a validade da sua conclusão. Afinal, o glifosato é ou não perigoso?

Afinal, o glifosato é ou não perigoso? O Insiders convidou o investigador Kurt Straif, da Agência Internacional para a Investigação do Cancro em Lyon, que começou por nos falar das conclusões do estudo que conduziu recentemente.
Kurt Straif: A nossa avaliação consiste numa revisão de toda a literatura científica em torno do glifosato e foi levada a cabo pelos melhores especialistas nesse domínio. Nenhum deles tem um conflito de interesses que possa manchar a opinião dada. E a conclusão é, sim, o glifosato é potencialmente cancerígeno para os humanos. Há provas concretas nos testes efetuados em animais; no que diz respeito aos humanos, há evidências relativamente a uma população de agricultores, embora os resultados sejam mais limitados; e também existem provas sólidas nos estudos toxicológicos que revelam nocividade para os genes.
Sophie Claudet, euronews: Tendo em conta essas conclusões, porque é que não se interdita o glifosato?
KS: Esta revisão da literatura científica é completamente independente e conduz-nos a uma classificação que assenta nos elementos que conhecemos da substância e, sobretudo, os riscos em termos de cancro. Mas depois cabe às outras agências, sejam nacionais ou internacionais, como a Organização para a Alimentação e Agricultura da ONU, a avaliação dos riscos, a tomada de decisões quanto ao grau de exposição ao produto – no domínio agrícola, alimentar ou cosmético – e a apresentação de conclusões.
euronews: No passado mês de maio, a FAO e a Organização Mundial de Saúde vieram atestar a ausência de riscos no uso do glifosato. O que é que mudou?
KS: O nosso parecer em termos de risco de cancro mantém-se. Nós somos o organismo que classifica as substâncias cancerígenas para a Organização para a Alimentação e Agricultura. Outro painel de peritos avaliou os limites diários de exposição na comida e definiu quais são as margens de segurança.
euronews: Mas em quem é que os agricultores, os consumidores em geral, as pessoas que frequentam os jardins públicos tratados com glifosato, devem acreditar?
KS: É importante realçar uma vez mais que o nosso parecer sobre o risco de cancro nos humanos provocado pelo glifosato mantém-se. Mas depois há outros pareceres baseados noutros contextos específicos. E sobre eles não me posso pronunciar.
euronews: Em maio, surgiram suspeitas de que alguns dos investigadores envolvidos nestes pareceres científicos teriam recebido subornos do grupo Monsanto, o principal produtor mundial de glifosato. Enquanto cientista, como é que olha para esta situação?
KS: É uma questão importante que necessita de ser escrutinada.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

21 de Janeiro, Manifestação- Dia Europeu de Acção pelo comércio justo e contra o CETA



Está em curso um processo político que ameaça os valores da democracia, dos direitos humanos e de uma economia próspera e sustentável.

Trata-se do processo de votação de um acordo de comércio internacional baseado num modelo jurídico da década de 70 do século XX, que coloca em causa a existência de empresas com impacto económico e social positivo junto das suas comunidades.

Aproxima-se o momento da votação no Parlamento Europeu do Acordo Económico Comercial Global, vulgo CETA, entre o Canadá e a União Europeia, agendado para o próximo mês de Fevereiro.
Negociado desde 2009 entre dois dos maiores blocos económicos mundiais, o CETA visa ser um modelo para o comércio internacional.

Um modelo que, pelas suas contradições internas e incompatibilidades claras com normas internacionais de Direitos Humanos e compromissos ambientais, já mereceu a clara oposição de vários actores sociais como por exemplo:
  1. Organismos das Nações Unidas
Os protestos da sociedade civil tiveram já um claro impacto na negociação do CETA, bem como de outros acordos baseados nas mesmas premissas ilegais.

Este é o momento do processo de votação do CETA mais sensível à mobilização civil.

Assim, no seguimento do sucesso da concretização da discussão, no passado dia 12 de Janeiro, da petição nº124/XIII, que demanda um debate profundo sobre o CETA, urge continuar com a mobilização e informação.

Com o já anunciado em Dezembro, o  próximo dia 21 de Janeiro será o Dia Europeu de Acção pelo comércio justo e contra o CETA.

Aliando-se a outras cidades europeias que se irão manifestar, várias cidades de Portugal demonstrarão a sua preocupação em relação ao impacto negativo do CETA para a economia local, saúde pública e emprego.

Considerando o impacto negativo do CETA no que toca à protecção ambiental e a decorrente facilitação da exploração de hidrocarbonetos, do cultivo e da venda de OGM, bem como o seu impacto económico negativo em Portugal (vide vídeo de Programa Biosfera sobre o CETA de 7 Janeiro 2017), vimos por este meio apelar à sociedade civil de Portugal que se mobilize.
Para Lisboa está já agendada uma concentração no Rossio, pelas 14h.

Em conjunto, a sociedade civil irá declarar o Rossio como Zona Livre de CETA, TTIP e TISA - a décima Zona Livre em Portugal!
Vamos fazer uma caçarolada contra o CETA, o irmão gémeo do TTIP (acordo comercial a ser negociado entre a União Europeia e os Estados Unidos da América) e em defesa da Democracia e do Comércio Justo em Portugal.

Traga o seu tacho e colher de pau e junte-se a milhões de cidadãos que acreditam que é possível um outro modelo de comércio internacional, que coloque os Direitos Humanos, a Democracia e a Economia Sustentável acima de um hipotético lucro do CETA, já desmentido por muitos estudos de análise económica do CETA que se baseiam em modelos realistas das Nações Unidas.

Através de uma acção concertada conseguiremos rejeitar o CETA e o TTIP, tal como ocorreu no passado com a rejeição de iniciativas semelhantes como o Acordo Multilateral de Investimento da OCDE e o Acordo Comercial de Combate à Contrafacção(ACTA) , demonstrando neste percurso a possibilidade da obtenção de prosperidade económica e social através de modelos de comércio internacional mais justos.

A sociedade civil de Portugal não pode ficar de braços cruzados!

Saudações activistas,
Voluntários da Plataforma Não ao Tratado Transatlântico

                           

Juntos, por um comércio internacional mais justo!

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Fritjof Capra - A Teia da Vida



"Em última análise, a percepção da ecologia profunda é uma percepção espiritual ou religiosa. Quando a concepção do espírito humano é entendida como o modo de consciência na qual o indivíduo tem uma sensação de pertinência, de conectividade com o cosmos como um todo, torna-se claro que a percepção ecológica é espiritual na sua essência mais profunda. Não é, pois, de se surpreender o fato de que a nova visão emergente da realidade baseada na percepção ecológica profunda é consistente com a chamada filosofia perene das tradições espirituais, quer falemos a respeito da espiritualidade dos místicos cristãos, da dos budistas, ou da filosofia e cosmologia subjacentes às tradições nativas norte-americanas."



Saber mais sobre Fritjof Capra no BioTerra

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Gabriela Mistral- A Alegria de Servir

«Tal como "A Origem das Espécies" de Darwin e "O Gene Egoísta"
de Richard Dawkins, "Para lá das Palavras" tem a capacidade
de alterar a nossa relação com o mundo natural.»
[The New York Review of Books]
Toda a Natureza é um desejo de serviço....
Serve a nuvem, serve o vento, servem os vales.

Onde haja uma árvore que plantar, planta-a tu;
Onde haja um erro que emendar, emenda-o tu;
Onde haja um esforço que todos evitam, aceita-o tu.

Sê aquele que afasta a pedra do caminho,
O ódio dos corações e as dificuldades de um problema
Existe a alegria de ser são, e a alegria de ser justo,
Mas existe sobretudo, a formosa a imensa alegria de servir.
Como seria triste o mundo se tudo já estivesse feito,
Se não houvesse um roseiral que plantar, uma empresa que iniciar!
Que não te atraiam somente os trabalhos fáceis.

É tão belo fazer a tarefa a que outros se esquivam!
Mas não caias no erro de que só se conquistam méritos
Com os grandes trabalhos;
Há pequenos serviços que são imensos serviços:
Adornar a mesa, arrumar os bancos, espanar o pó.
Aquele é o que critica, este é o que destrói;
Sê tu o que serve.

O serviço não é tarefa só de seres inferiores.
Deus, que dá o fruto e a luz, serve.
Poder-se-ia chamá-lo assim: Aquele que serve
E Ele, que tem os olhos em nossas mãos, nos pergunta todo dia
“Serviste hoje? A quem? À árvore, a teu amigo, à tua mãe?”

sábado, 14 de janeiro de 2017

Declamações, Crónicas e polémicas de Feral Faun


"Nós estamos cientes que cada pedra, cada árvore, cada rio, cada animal, cada ser no universo não está apenas vivo, mas que estão mais vivos do que nós seres civilizados. Esta consciência não é apenas intelectual... Nós sentimos isso. Nós ouvimos as canções de amor dos rios e das montanhas e enxergamos as danças das árvores...
Sem a necessidade de consumir, temos tempo para aprender a dança da vida; temos tempo para nos tornarmos amantes das árvores, pedras e rios. Ou, mais ...precisamente, o tempo, para nós, passa a não existir e a dança torna-se as nossas vidas, nós aprenderemos a amar tudo o que vive..."

Do panfleto "Rants, Essays and Polemics of Feral Faun (Declamações, Crônicas e polêmicas de Feral Faun)" - Chaotic Endeavors, 1987.