segunda-feira, 1 de junho de 2020

A Covid-19 e a estreita intimidade entre Passado, Presente e Futuro

Maria do Carmo Vieira

Nunca como nesta situação de confinamento, incluída num grupo de risco, me mantive tão atenta a pormenores, constatando, com uma nitidez que até aí não sentira, a abissal diferença entre um jornalismo profissionalmente honesto, sério na informação e respeitador do leitor e um que tenta conscientemente desinformar, confundir e desnortear até ao pânico. Pensar nesta dualidade, tão intensamente em antítese, e nas funestas consequências para quem, incauto, se deixa conduzir, levou-me de forma espontânea ao passado, forçosamente aos mais velhos. Lembrei-me, nesse momento, sentindo renovada e profunda gratidão, de todos aqueles que, pela sua postura, na Vida e na Escola, me haviam ensinado desde sempre a pensar, alertando-me para que nunca permitisse que outros o fizessem por mim. Sei que a sua interferência na formação e desenvolvimento da minha personalidade foi crucial e daí a impossibilidade de os esquecer, e a gratidão, a imensa gratidão! que o Tempo não cessa de intensificar.


Na minha memória passam, em grande saudade, inúmeros rostos, alguns já desaparecidos e, inúmeros rostos, alguns já desaparecidos, com destaque superlativo para os meus pais, seguindo-se a minha professora de Português e de Grego, no Liceu Rainha D. Amélia, Georgette Costa, a minha Professora de Latim, no mesmo liceu, Manuela da Palma Carlos, o meu Professor de Linguística, na Faculdade de Letras de Lisboa, Lindley Cintra, e outros, felizmente ainda entre nós, como a minha professora de Francês, também no liceu anteriormente referido, Maria Alzira Seixo, que depois reencontrei na Faculdade de Letras, e o meu Professor de Literatura Francesa, na mesma Faculdade, o poeta Manuel Gusmão. Seja em matéria relacionada com o Outro, ou qualquer aspecto da Condição Humana, seja sobre a imperiosa necessidade de um Ensino de qualidade e de uma Cultura não transformada em espectáculo e mero entretenimento, seja ainda em relação a um Acordo Ortográfico decretado em nome de uma pseudo-vantagem económica, ao arrepio da vontade dos portugueses e colidindo com toda a argumentação científica, sei que em todas estas matérias, e muitas outras, em que intervenho criticamente, a minha voz não é só, porquanto reflexo de inúmeras influências, passadas e presentes, que a fortaleceram e fortalecem, sendo seguro que continuarão a acompanhar-me. Tal como as vozes que pelo canto ligaram toda uma geração e às quais, a tantos anos de distância, permanecemos fiéis. Arrepia-se-nos a pele no reencontro com essas velhas canções cujas letras profundamente influenciaram a nossa forma de olhar o mundo de então e que, em grande saudade, ouvimos insistentemente, servindo-nos da internet da qual nunca esperámos vir a depender tanto, confinados que estamos em casa. E eles são, entre muitos, Jacques Brel, Jean Ferrat, Bob Dylan, Joan Baez, Simon & Garfunkel ou Peter, Paul and Mary, desejando partilhar convosco uma canção destes últimos, Where have all the flowers gone. Ainda para os avós que, como eu, deixaram de poder abraçar e beijar com ternura os seus netos, Mary Travers (do grupo Peter, Paul and Mary), numa música de John Denver, For Baby. Todos pertencendo à “geração grisalha” e alguns já não entre nós, como é o caso de Mary Travers.

Uma longa introdução para lembrar aos que proclamam uma melhoria da situação, com o desaparecimento dos velhos (seja em prol de um Ensino, dito “inovador”, ou do êxito de uma economia liberal e desumana, ou ainda no cumprimento acrítico do novo Acordo Ortográfico), que todos nós, ao nascer, somos, como naturalmente constatou Hannah Arendt, recebidos pelos mais velhos que nos protegem e educam. É esta a única harmonia possível, na vida de todo o ser humano – uma estreita intimidade entre Passado, Presente e Futuro.

São vários os artigos de opinião, nacionais e estrangeiros, que lucidamente ousam indicar a imperiosa mudança que deverá acontecer, fruto desta experiência tão inesperada, com a Covid-19, mas não é certo que muitos políticos, nacionais e estrangeiros, afogados em pretenso “progresso” e crescimento desenfreado, no uso de um vocabulário que evoca a nova Economia e que poderemos exemplificar pelo verbo “elencar” e o substantivo “competitividade”, venham a aperceber-se dessa óbvia necessidade de transformação, de recuo da loucura em que estamos envolvidos, e daí a urgente necessidade de sermos nós, cidadãos, contínua e criticamente, a lembrá-lo.

Não basta elogiar de forma intensa o Serviço Nacional de Saúde (SNS), seja qual for o país, ou aplaudir, com emoção, médicos, enfermeiros e pessoal afim, ou dizer que à sua actuação devemos a vida; exige-se, mais do que nunca, que se responda favoravelmente a quem in loco sente, no dia-a-dia, os problemas, para os quais, e muito antes do surto epidémico, o SNS chamara a atenção, infelizmente em vão. Não significa que não se tivesse investido, sobretudo depois de uma austeridade imperdoável e brutal, mas constatou-se não ter sido o suficiente e conhecemos a origem desse travão que não pode mais ser tolerado, sob condição de se tornarem uma hipocrisia insuportável os sucessivos agradecimentos e aplausos, ostensivamente dirigidos a todos os profissionais do SNS que, não discriminando pessoa alguma, e superando-se humanamente, têm sido determinantes no atenuar do pesadelo que todos vivemos. Por alguma razão, em todo o Mundo, acontecem, amiúde, os aplausos sentidos e genuínos da população ao SNS.

Foram os portugueses aconselhados, há já bastantes anos, a viver, em grande parte, de uma economia de turismo a qual se tornou selvagem pelo que representa de destruição do ambiente e da vida das pessoas, com um aumento desmedido de rendas e despejos, a que se juntou o desconcerto de filas intermináveis para visitar alguns monumentos, nomeadamente os claustros do Mosteiro dos Jerónimos ou a Torre de Belém, vedados, por completo, e desde há anos, aos residentes. Também o terreno agrícola fértil tem sido alvo da ganância turística e imobiliária, sob o olhar complacente do poder político, esquecido que em momentos de crise não podemos depender exclusivamente de alimentos importados. A serra de Carnaxide, de “grande importância ecológica e ambiental”, é um flagrante exemplo de um espaço desprotegido porque não classificado, fazendo “os seus solos parte dos 5% de solos muito férteis que Portugal possui”. Entretanto, aproveitando-se do confinamento das pessoas, os trabalhos de loteamento e urbanização avançaram na sua gritante destruição, sobrepondo-se o gesto vil às vozes dos que não traem o Conhecimento, a sua consciência e a sua solidariedade com os que persistem nas causas em que se empenham. Destacamos, neste caso, os investigadores da área do Ambiente e Alterações Climáticas, Filipe Duarte Santos, Eugénio Sequeira e Jorge Fernandes (este último, Professor destacado na Liga para a Protecção da Natureza). Há uma petição, “Preservar a Serra de Carnaxide”, sendo o seu primeiro subscritor Daniel Martins, que acentua o facto de “isto não ser uma questão local”, mas “uma questão nacional.” Concordando com o seu conteúdo, ajude a divulgá-la e, para um melhor conhecimento da situação, aconselha-se a leitura do artigo de João Pedro Pincha, no jornal Público de 1 de Abril.

Quando se abdica de estudos de impacto ambiental ou se solicitam os mesmos a equipas “voz-do-dono”, numa atitude inqualificável, quando se tenta entreter indeterminadamente movimentos ecológicos que persistem na defesa da Natureza, casa de todos nós, negando-se o diálogo e fazendo-se simultaneamente tábua rasa dos pareceres críticos apresentados, ou quando se tenta “convencer pedagogicamente” presidentes de Câmara, que se opõem à construção do aeroporto, no Montijo, mediante alguns favores a conceder, em troca do almejado sim, estamos perante uma democracia doente, que a realidade pós-Covid deverá sanar e em cujo processo de transformação deveremos igualmente participar.

Os desafios são inúmeros e incontornável será a questão relativa à perda de importância da Dignidade Humana, na sociedade globalizante, fortemente determinada por um novo modelo de Economia que tem aviltado, ao longo de demasiados anos, a vida das pessoas, ofendendo de forma ostensiva o seu significado etimológico: do grego oikonomy (oikós - casa - + némein - distribuir). A Economia focada no ser humano não pode pugnar por baixos salários, nem por excesso de trabalho e de cansaço, nem pelo isolamento da família; não pode aceitar toda uma luta pela sobrevivência diária ou a concentração da riqueza numa minoria, já de si enriquecida. Deve contrariar o excesso de taxas bancárias cuja justificação assenta no absurdo ou o mau funcionamento dos Serviços Públicos por manifesta falta de pessoal ou a ganância que não olha a meios para atingir lucros rápidos, espezinhando a Ética, ou ainda a obsessão pelo crescimento, seja a que custo for.

A epidemia de Covid-19, na sua intensa estranheza e nas consequências nefastas que, incrédulos, presenciamos, forçará uma inevitável e bem-vinda alteração substancial da Vida. Houve demasiados erros para não se aprender com eles. Sobretudo, não desejamos continuar a adaptarmo-nos a uma sociedade doente, em que a Ética escasseia, precisamente porque indiferente à Dignidade Humana.

domingo, 31 de maio de 2020

Microbiome rewilding: Biodiverse urban green spaces strengthen human immune systems

Fonte: aqui

A research team led by the University of Adelaide has found that revegetation of green spaces within cities can improve soil microbiota diversity towards a more natural, biodiverse state, which has been linked to human health benefits.

In the study, published in the journal Restoration Ecology, researchers compared the composition of a variety of urban green space vegetation types of varying levels of vegetation diversity, including lawns, vacant lots, parklands, revegetated woodlands and remnant woodlands within the City of Playford Council area in South Australia.

The purpose of the research was to understand whether it is possible to restore the microbiome of urban green spaces, a process known as microbiome rewilding. It is believed this process could expose us to a greater variety and number of microbiota (organisms living within a specific environment) and provide a form of immune system training and regulation.

Lead author of the journal paper, Ph.D. Candidate Jacob Mills from the University of Adelaide's School of Biological Sciences and Environment Institute, says historically humans lived in more rural and wild landscapes, and children spent more of their childhood outdoors, allowing exposure to more microbes.

"Urbanisation has radically changed our childhoods. More time spent indoors, poor quality diets and less exposure to wild environments has led to significant increases in non-communicable diseases such as poorer respiratory health," says Jacob.

"Exposure to biodiverse natural environments carries ecological benefits—green spaces with higher eco-system function give children better exposure to pick things up from soil, for example, there are microbial compounds in soil that reduce stress and anxiety.

"Put simply, the more diversity in microbiota that children are exposed to the healthier they will grow up," he said.

The research found that the revegetated and remnant woodlands examined comprised more native plant species than other green spaces such as lawns and vacant lots, and had greater diversity of microbiota.

Furthermore the soil microbiotas in revegetated urban green spaces were similar to those found in remnant woodlands, and differed greatly from lawns and vacant lots, which had lower microbiota diversity.

"This indicates that the revegetated woodlands soil microbiome had somewhat recovered to its previous more natural biodiverse state," says Jacob.

"Plant species richness, soil pH and electrical conductivity were the main variables for microbial communities in our study, the more diverse the soil biodiversity the better the eco-system function. Urban spaces low in microbial diversity tend to be more conducive to pathogens and pests, also known as microbial 'weeds.'"

"Increasing plant species diversity is important for the structure of microbial communities and increases eco-system function," he says.

Jacob says the findings of the study has implications for urban design, landscape architecture and councils.

"Our study provides a footing for urban planners and designers to place the environmental microbiome and access to diverse green spaces in their design principles when developing and rejuvenating urban areas.

"Greater biodiversity comes with the potential to reduce non-communicable disease rates through improved training of our immune systems to fight illness and disease.

"It could be implemented as a potential preventative health measure, particularly beneficial for lower socio-economic areas and could lessen the burden on our health systems."

The study is believed to provide the first evidence that revegetation can improve urban soil microbiota diversity towards a more natural, biodiverse state by creating more wild habitat conditions. This evidence supports initiating further studies within the growing field of microbiome rewilding.

"We hope that this work will inspire further research to understand and measure the impact of microbiome rewilding on human health," Jacob says.

A limpeza da "floresta" é um mito.


"A limpeza da floresta é um mito.
O que se limpa na floresta, a matéria orgânica?
E o que se faz à matéria orgânica, deita-se fora, queima-se?
Dantes era com essa matéria que se ia mantendo a agricultura em boas condições e melhorando a qualidade dos solos. E, ao mesmo tempo, era mantida a quantidade suficiente na mata para que houvesse uma maior capacidade de retenção da água.
Com a limpeza exaustiva transformámos a mata num espelho e a água corre mais velozmente e menos se retém na mata, portanto mais seco fica o ambiente. A limpeza tem que ser entendida como uma operação agrícola. Mas esta floresta monocultural de resinosas e eucaliptos, limpa ou não limpa, não serve para mais nada senão para arder. Aquela floresta vive para não ter gente."

Arquiteto Paisagista Gonçalo Ribeiro Telles

Não tenhamos ilusões quanto ao capitalismo verde: precisamos de uma visão de decrescimento

Parece que não há coragem para pensar ou liderar a necessária luta ecológica pela transição da sociedade. Será que uma análise verdadeiramente ecológica, sóbria, corajosa e profunda do problema “não vende”?



O ambientalismo caduco ainda perdura em Portugal. No apogeu do presente momento histórico, o melhor que sonantes nomes e organizações conseguem propor no “Manifesto por uma Recuperação Económica Justa e Sustentável em Portugal” acaba por não ser mais do aquilo que já foi dito pela Comissão Europeia e que corresponde ao chamado “capitalismo verde”. Esta visão de “sustentabilidade” está refém das contradições profundas do Pacto Verde Europeu, da insustentabilidade da “transição energética”, da ineficácia repetitiva das COP, e da hipocrisia da promessa de neutralidade carbónica. Se queremos ser realistas, teremos que aceitar que é impossível continuarmos a ter crescimento económico, e que a solução terá de ser encontrada fora dele.

Mas parece que não há coragem para pensar ou liderar a necessária luta ecológica pela transição da sociedade. Será que uma análise verdadeiramente ecológica, sóbria, corajosa e profunda do problema – e das mudanças radicais a que vai obrigar – “não vende”? Será por isso que se tenta evitar a todo o custo “sentimentos de perda e pânico”, em vez de avançarem abordagens e soluções que nos permitam viver esses sentimentos de forma saudável, enfrentá-los coletivamente e lidar com eles da melhor maneira que encontremos, junt@s.
A situação atual é assustadora. É urgentemente necessário ter a coragem e a humildade de questionar posicionamentos que se defenderam durante vidas inteira. É preciso ter a coragem de aceitar que não devíamos, nem “relançar a economia”, nem andar como loucos à procura de soluções tecnológicas que resolveriam magicamente os nossos problemas.

A situação atual é assustadora. É urgentemente necessário ter a coragem e a humildade de questionar posicionamentos que se defenderam durante vidas inteira, em torno dos quais se construíram identidades e carreiras. É preciso ter a coragem de aceitar que não devíamos, nem “relançar a economia”, nem andar como loucos à procura de soluções tecnológicas que resolveriam magicamente os nossos problemas.

Parece que se acabaram as ideias arrojadas e inovadoras, as narrativas alternativas capazes de galvanizar pessoas e a sociedade. O ambientalismo de hoje (em Portugal, mas não só) parece apenas conseguir dizer umas palavras bonitas e inócuas sobre solidariedade e sustentabilidade, sem ser capaz de avançar corajosamente em direção ao futuro. Repete indefinidamente a narrativa de um capitalismo tão “climático” como incongruente, repetidamente resgatado aos trilhões por planos de crescimento verde, agora geridos por fundos de investimentos que tanto têm a ganhar em manter o sistema como está: acelerado e destrutivo – mas altamente lucrativo para uma elite cada vez pequena. Queremos mesmo salvar este sistema e trazê-lo de volta ao “normal”, relançar a economia, apostar no crescimento verde, manter tudo como estava – mas agora “melhor”?
Talvez gostássemos, egoistamente, que fosse possível voltar ao antigo “normal”, mas agora “verde”. Vivemos nesta sociedade, fazemos parte desta cultura, estamos no lado privilegiado do planeta. Gostávamos que fosse realmente possível criar este admirável novo mundo verde que se preconiza. Mas isto não é possível.
A ilusão verde

Talvez gostássemos, egoistamente, que fosse possível voltar ao antigo “normal”, mas agora “verde”. Vivemos nesta sociedade, fazemos parte desta cultura, estamos no lado privilegiado do planeta. Gostávamos que fosse realmente possível criar este admirável novo mundo verde que se preconiza. Mas isto não é possível. Não só a energia dita “verde” depende totalmente de uma economia e de uma indústria baseadas em combustíveis fósseis e de extração. O objetivo desta economia não deixa de ser a manutenção de um sistema extrativista, apostando em lógicas de crescimento infinito, com impactos ambientais muito para além da emissão de CO2. Mesmo se avançássemos a fundo no sentido dessa “transição verde”, a destruição ambiental resultante de construir toda a infra-estrutura de renováveis (milhares e milhares de eólicas e painéis solares, centrais de biomassa, cabos, robots e outras máquinas, etc.), as baterias (necessárias para armazenar toda a eletricidade gerada), e toda uma nova frota (agora positivamente elétrica) de carros, camiões, aviões, barcos, máquinas agrícolas, maquinaria pesada para a extração de minérios (muitos deles raros) resultaria num crime ecológico imensurável. Seria mais um passo irreversível em direção ao desequilíbrio total do sistema, para não falar da continuação de violências indizíveis sobre povos inteiros e classes economicamente desfavorecidas, no nosso país ou longe dele.

A dependência suicida do crescimento económico

Ser contra ESTA transição energética não é ser contra uma transição energética nem contra uma – muito necessária – transição societal. Ser contra a massificação das energias verdes e do crescimento económico que pretendem sustentar, não é negacionismo climático, nem é querer “voltar à idade da pedra”. Ser contra a narrativa “feel-good” e do “fácil de digerir” do mainstream ecológico em Portugal não é “contra-produtivo” para os esforços da transição. Ao contrário, é saber observar, sentir, analisar e relacionar informação que deixa clara a muita falta de coragem que continua a existir, e que impede a busca de verdadeiras soluções.

A única coisa que vai acontecer, ao tentar aguentar artificialmente um sistema que não pode nem deve estar de pé, é fazer ruir dos pilares que o sustentam. Já vemos os direitos humanos esquecidos nos tiros aos refugiados nos mares gregos, os fascismos emergentes, as desigualdades crescentes, atropelos à ecologia – quando entendida como equilíbrio de biodiversidade num planeta finito – e as vozes de um movimento ecologista cada vez menos pertinente. Manter este mesmo sistema económico, mas agora movido a motores elétricos ou de hidrogénio, significaria continuar a pescar 90% dos oceanos, perpetuar a agricultura industrial atual, continuar a fazer desaparecer milhões de espécies e florestas inteiras, etc.
Um modo de vida baseado em gigantescas cadeias de produção, transporte global constante e cada vez mais veloz, dependente de petróleo para tudo – inclusive para produzir comida – e apoiado na exploração constante de pessoas e da Natureza é obviamente insustentável.
Entender onde estamos

A economia nacional não precisa – como afirma o tal manifesto e todos os players políticos – “ser relançada”. Não pode ser relançada porque não podemos continuar a crescer economicamente, e é isso que “relançar da economia” quer dizer. Um modo de vida baseado em gigantescas cadeias de produção, transporte global constante e cada vez mais veloz, dependente de petróleo para tudo – inclusive para produzir comida – e apoiado na exploração constante de pessoas e da Natureza é obviamente insustentável. E “insustentável” significa: a dada altura não se consegue aguentar, deixa haver sustento. O que precisamos é de uma economia radicalmente transformada. E para que isso possa acontecer, vai ser necessária muita coragem, muita imaginação coletiva, muita experimentação, e muita adaptação a realidades locais. A nova organização económica terá de gerir o decrescimento sustentado do PIB e focar-se na transição, na capacitação de comunidades, e na construção de resiliência, para assim aumentar a capacidade de fazer face aos choques sistémicos que já sentimos e que aí vêm, cada vez mais.

Portugal devia começar imediatamente o (moroso) processo de transição que já deveria estar em curso. Temos pouco, muito pouco tempo. Precisamos de comunidades empoderadas, economias locais e de circuitos curtos, com descentralização política, muita experimentação social, capacitação humana, novos padrões de produção e de consumo, (re)construindo infraestruturas públicas resilientes e inovadoras, criando empregos decentes, valorizando os recursos locais e contribuindo para um território habitado inclusivo, seguro, resiliente e verdadeiramente sustentável. E estas são apenas algumas sugestões, onde há TANTO para sonhar, inventar e fazer!

Mas primeiro é preciso ter coragem e aceitar a realidade. Não precisamos de mais ilusões: precisamos de coragem, sobriedade e vontade de construir algo novo. Precisamos imaginação, de uma nova abordagem ecológica, e de começar AGORA! Temos de nos preparar em conjunto para o novo mundo que nos alcança.

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sábado, 30 de maio de 2020

A Finlândia se tornará o primeiro país do mundo a abolir todas as disciplinas escolares

Fonte: aqui

Em uma era de tecnologia e informações de fácil acesso, nossas escolas ainda esperam que saibamos tudo dos livros, sem considerar se isso será o que realmente precisamos no nosso desenvolvimento profissional.

Quantas vezes você se perguntou se precisaria de matérias para aprender porque o currículo dizia isso? A Finlândia decidiu mudar isso em seu sistema educacional e introduzir algo adequado para o século XXI.

Em 2020, em vez de aulas de física, matemática, literatura, história ou geografia, a Finlândia introduzirá uma abordagem diferente da vida através da educação. Bem-vindo ao aprendizado baseado em fenômenos!

Como a Phenomenal Education (Educação Fenomenal em tradução livre) declara em seu site, “Na Aprendizagem Baseada em Fenómenos (PhenoBL) e no ensino, os fenómenos holísticos do mundo real fornecem o ponto de partida para a aprendizagem. Os fenómenos são estudados como entidades completas, em seu contexto real, e as informações e habilidades relacionadas a eles são estudadas através do cruzamento das fronteiras entre os sujeitos. ”

Isso significa que, em vez de aprender física (ou qualquer outro assunto) para aprendê-la, os alunos terão a oportunidade de escolher entre fenómenos de seu ambiente real e do mundo, como Mídia e Tecnologia ou a União Europeia.

Esses fenómenos serão estudados por meio de uma abordagem interdisciplinar, o que significa que os sujeitos serão incluídos, mas apenas aqueles (e apenas partes deles) que contribuem para se destacar no tópico.

Por exemplo, um aluno que deseja estudar um curso profissional pode fazer “serviços de cafeteria” e o fenómeno será estudado através de elementos de matemática, idiomas, habilidades de escrita e comunicação. Outro exemplo é a União Européia, que incluiria economia, idiomas, geografia e a história dos países envolvidos.

Agora tome sua profissão como exemplo e pense em todas as informações que você precisa saber conectadas a ela – agora você está pensando da maneira PhenoBL!

Esse tipo de aprendizado incluirá sessões presenciais e online, com forte ênfase no uso benéfico da tecnologia e da Internet através do processo de eLearning. Você pode ler mais sobre isso aqui .

No processo de aprendizagem, os alunos poderão colaborar com seus colegas e professores, compartilhando informações e explorando e implementando coletivamente novas informações como uma ferramenta de construção.

O estilo de ensino também vai mudar!

Em vez do estilo tradicional de aprendizado centrado no professor, com os alunos sentados atrás de suas mesas e gravando todas as instruções dadas pelo professor, a abordagem mudará para um nível holístico. Isso significa que todo fenômeno será abordado da maneira mais adequada e natural possível.

No entanto, como afirma o Phenomenal Learning, “o ponto de partida do ensino fenomenal é o construtivismo, no qual os alunos são vistos como construtores ativos de conhecimento e as informações são vistas como sendo construídas como resultado da solução de problemas, construída com ‘pedacinhos’ em um todo que se adapte à situação em que é usado no momento. ”

Esse sistema educacional tende a incluir a inclinação em um ambiente colaborativo (por exemplo, trabalho em equipe), onde eles gostariam de ver as informações sendo formadas em um contexto social, em vez de serem vistas apenas como um elemento interno de um indivíduo.

Essa abordagem apoiará o aprendizado baseado em perguntas, a solução de problemas e o aprendizado de projetos e portfólio. O último passo será a implementação prática, sendo vista como o resultado de todo o processo.

Essa reforma exigirá muita cooperação entre professores de diferentes disciplinas e é por isso que os professores já estão passando por um treinamento intenso.

De fato, 70% dos professores em Helsinque já estão envolvidos nos trabalhos preparatórios, de acordo com o novo sistema.

O co-ensino está na base da criação do currículo, com a participação de mais de um especialista em disciplinas e os professores que adotarem esse novo estilo de ensino receberão um pequeno aumento em seu salário como sinal de reconhecimento.

Do ponto de vista do ensino, esse estilo também é muito gratificante e vale a pena para os professores. Alguns professores, que já implementaram esse estilo em seu trabalho, dizem que não podem voltar ao estilo antigo.

Isso de fato não surpreende, pois a interação nesse estilo de ensino é algo com que todos os professores sempre sonharam.

Atualmente, as escolas são obrigadas a introduzir um período de aprendizado fenomenal pelo menos uma vez por ano. O plano é implementar completamente a abordagem PhenoBL até 2020.

Uma abordagem semelhante chamada Centro de Aprendizagem Lúdica está sendo usada no setor pré-escolar e servirá como ponto de partida para a aprendizagem fenomenal.

Fonte: Phenomenal Education

Crédito da foto de capa: Gabby Orcutt

Olhar em frente

Fonte: aqui

«Um dos principais indicadores do caminho que a recuperação económica vai seguir, tanto em Portugal como na Europa, encontra-se no futuro da aviação civil. O título deste artigo recicla a infeliz gafe da diretora-geral da Saúde, numa recente conferência de imprensa, tentando justificar a orientação europeia que vai permitir que os aviões voltem a voar lotados, a partir de 1 de junho (anulando o limite de dois terços estipulado pelo Governo português numa portaria de 2 de maio). Não se começa bem. Na verdade, mesmo que os passageiros "olhassem em frente" durante toda a viagem, é difícil explicar esta exceção sanitária em relação a outros espaços fechados e outros meios de transporte, sem recorrer ao antigo estatuto de privilégio da aviação civil.

A aviação civil é um daqueles setores que mostram como também na economia de mercado há uns atores que são mais iguais do que outros. Na maioria dos países europeus (ao contrário do que ocorre nos EUA, na Austrália, no Japão e no Canadá), o combustível aéreo (querosene ou jet fuel) e os bilhetes são isentos de impostos (o nosso ISP e o IVA). A competição desleal é conseguida através da penalização de outros modos de transporte (por exemplo, a ferrovia como alternativa aos voos Lisboa-Porto), mas sobretudo através de uma imperdoável externalização do impacto ambiental e climático da aviação.

A aviação civil triplicou os passageiros entre 2004 e 2019, correspondendo a sua pegada a 12% das emissões globais de gases de efeito estufa do setor dos transportes. Mesmo aqui, estes números beneficiam da conveniente exclusão "política" dos óxidos de azoto (NOx) libertados a elevada altitude, que se fossem contabilizados fariam saltar o impacto real da aviação civil na emergência climática de 2% para 4% a 8% (4.º Relatório do IPCC).

A aviação civil está numa dupla rota de colisão com a possibilidade de um futuro humano viável na Terra. Não só contribui crescentemente para o caos climático do planeta, como também foi e será o principal veículo de transmissão das próximas pandemias, como a covid-19 tragicamente já o ilustrou. Por todo o mundo, os cidadãos estão a endividar-se, através dos Estados, para salvar as companhias aéreas. Se a União Europeia quiser provar que é séria a sua aposta num pacto ecológico, que inclui retirar os privilégios à aviação civil, então é inevitável que as ajudas de Estado impliquem nacionalizações, ou entradas substanciais no capital das companhias, com uma ativa determinação de estratégias que reduzam as frotas e internalizem os danos ambientais nos preços, também em harmonia com a política europeia de descarbonização da economia.

Se a salvação da humanidade fosse uma área de negócio rentável, então os últimos 40 anos de febre neoliberal já teriam resolvido o problema, em vez de nos terem conduzido ao abismo de um planeta que poderá tornar-se inabitável nas próximas décadas. Ajudar a TAP só fará sentido se o Estado - como proprietário único ou sócio dominante - despertar da inaceitável letargia dos últimos anos, olhando de frente o futuro, colocando o interesse público no coração da viabilização da empresa.»

Mundo perdeu 178 milhões de hectares de floresta em 30 anos mas ritmo de destruição abrandou

O mundo perdeu 178 milhões de hectares de floresta nos últimos 30 anos, apesar de o ritmo da desflorestação ter abrandado na última década, segundo um relatório divulgado hoje pelas Nações Unidas.

O mundo perdeu 178 milhões de hectares de floresta nos últimos 30 anos, apesar de o ritmo da desflorestação ter abrandado na última década, segundo um relatório divulgado hoje pelas Nações Unidas.

A agência da ONU para a Alimentação e Agricultura (FAO) estima que o ritmo de destruição das florestas tenha descido de 7,8 milhões de hectares anuais na década de 1990 para 4,7 milhões de hectares entre 2010 e 2020 por causa da redução da desflorestação em alguns países e o aumento da cobertura florestal em outros.

Desde 2010, as maiores perdas aconteceram em África e na América do Sul.

Entre 2015 e 2020, o ritmo de desflorestação situou-se nos 10 milhões de hectares por ano, menos dois milhões do que nos cinco anos anteriores.

No ano de 2015, perderam-se 98 milhões de hectares devido a incêndios, sobretudo nas zonas tropicais, onde arderam 04% da floresta, sobretudo em África e na América do Sul.

Globalmente, existem 4.050 milhões de hectares de floresta, cobrindo um terço da superfície do planeta.

Mais de 90% das florestas regeneraram-se naturalmente, estima a FAO, que analisou dados de 236 países.

Desde 1990 que cada vez mais florestas saíram do domínio público, passando a ser geridas por empresas privadas, comunidades indígenas e outras instituições.

Mais de 180 milhões de hectares são usados para turismo, recreação, investigação e conservação de património cultural.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

A “outra emergência”: jovens ambientalistas exigem “recuperação sustentável pós covid-19”

Numa carta aberta, centenas de jovens portugueses tentam chamar a atenção para a outra crise a “acontecer em paralelo” com a pandemia provocada pelo novo coronavírus. As alterações climáticas não desapareceram e eles exigem uma “recuperação sustentável pós covid-19”.
 
                        

Passada a primeira vaga da crise da covid-19, centenas de jovens portugueses tentam chamar a atenção para uma outra crise a “acontecer em paralelo” — e ainda longe de estar sob controlo. Numa carta aberta, o movimento Lidera aponta uma possível direcção “para uma recuperação sustentável pós covid-19”, desde a criação de empregos verdes à preservação de ecossistemas e ao fim dos subsídios aos combustíveis fósseis. “Não podemos esperar mais”, escreve o grupo formado por jovens cientistas, empreendedores, activistas, dirigentes educativos, deputados. 

Os últimos relatórios para a saúde a nível global da Organização Mundial de Saúde (OMS) e sobre os maiores riscos económicos globais (Fórum Económico Mundial), lançados antes da pandemia, têm duas coisas em comum: alterações climáticas e doenças infecciosas. E nunca iremos ter uma vacina para as alterações climáticas”, diz Catarina Alves, porta-voz da iniciativa. “Ou esta vai ser a altura certa para tomar as medidas capazes de trazer a mudança que necessitamos, ou então a covid-19 será a desculpa perfeita para desistir de objectivos que tínhamos delineados.”

Eles estão decididos a exigir a primeira opção. E se antes dos estados de emergência a palavra de ordem nos cartazes era “revolução verde”, agora os activistas pelo clima e pela sustentabilidade ambiental querem falar de “recuperação verde”. “Se nada mudarmos, para além do risco de crises epidémicas ser cada vez maior, o número de fenómenos meteorológicos extremos continuará a aumentar e os solos tornar-se-ão cada vez menos férteis, num mundo que espera vir a receber mais 26% de pessoas até 2050”, escrevem na carta que conta com mais de 500 assinantes, dando um exemplo da realidade portuguesa: “Fogos como os de 2017 serão mais comuns e o nível das águas do mar continuará a aumentar, algo especialmente relevante para Portugal, onde a maioria da população vive no litoral. E tudo isto abalará milhares de milhões de vidas, a nossa saúde e a economia global. Tal como o novo coronavírus.”

A associação Zero, a eurodeputada Maria Manuel Leitão Marques e Viriato Soromenho-Marques, catedrático de Filosofia da Universidade de Lisboa e uma das vozes que há mais tempo vem alertando para as alterações climáticas, são alguns dos apoiantes da proposta. Questionado pela agência de notícias LUSA, maioritariamente sobre o regresso aos materiais descartáveis, quer nas embalagens take away quer nas toalhas e máscaras descartáveis nos cabeleireiros, fonte oficial do Ministério do Ambiente disse “que com o regresso progressivo da actividade socioeconómica, as políticas ambientais revestem-se ainda de maior importância, dadas as implicações claras entre ambiente e saúde pública”. 

O movimento Lidera, que se descreve como “uma comunidade de jovens que querem efectivar a transição de Portugal para uma sociedade sustentável do ponto de vista social e climático”, trabalha de forma a “informar, preparar e conectar líderes” no combate às alterações climáticas. Arrancaram em Janeiro de 2020, um início simbólico de uma “década pelo clima” que tinha a crise climática como maior ameaça. Pelo menos, até a OMS decretar uma pandemia global. Com milhões de pessoas fechadas em casa, muitas das notícias sobre alterações climáticas começaram a focar-se no regresso dos animais selvagens às cidades, na quebra de emissões de dióxido de carbono e na diminuição da poluição atmosférica. 

“Tínhamos receio que isso transmitisse à população que o problema já estava resolvido e que tinha de deixar de ser um foco”, diz Catarina Alves, justificando a escolha do momento para a publicação da carta. “Não quer dizer que, para resolvermos as questões do ambiente, temos de nos fechar em casa, tem de haver desemprego, tem de haver mortes e mais desigualdade social, quando o combate às alterações climáticas é exactamente o contrário. O combate às alterações climáticas é uma questão social porque afecta a vida de todos nós.”

Na carta divulgada durante o fim-de-semana, propõem um regresso a uma “nova normalidade” assente em quatro pilares. “Numa altura em que o Estado terá de injectar dinheiro de todos no sector privado, deveremos exigir dessas empresas contrapartidas que garantam a sua transição energética e uma maior eficiência no uso de recursos”, escrevem, acrescentando que o “Estado deve eliminar subsídios aos combustíveis fósseis” e aplicar o princípio de poluidor-pagador. 

Investir em mais e melhores transportes colectivos electrificados; considerar os impactos sociais e ambientais nas decisões de investimento; criar empregos verdes; favorecer a economia circular, preservar os ecossistemas que sequestram e armazenam carbono natural e ensinar o desenvolvimento sustentável “de forma transversal em todas as áreas do ensino superior” são outras das propostas “para garantir uma transição justa, que não deixe ninguém para trás”.

Fé nos Burros


Projecto de Fotografia e Vídeo realizado em parceria com a Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino (AEPGA) e o Município de Alfândega da Fé no Nordeste de Portugal, o projeto Fé nos Burros procura enaltecer a cumplicidade da relação homem-animal, com particular relevância para os burros, burras, mulas e machos, apoiando-se na realidade presente, e o seu legado cultural e social. Produção MediUtopia João Pedro Marnoto 
Alfândega da Fé Municipality Ana Margarida Duque 
AEPGA Miguel Nóvoa 
Fotografia [Livro e Exposição] Realização, Guião, Fotografia & Edição [Filme] João Pedro Marnoto Pesquisa de campo Miguel Nóvoa 
Música C. Filipe Alves José Travieso