terça-feira, 11 de agosto de 2020

A economista que defende uma mudança radical do capitalismo para o mundo pós-pandemia

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Mariana Mazzucato é considerada uma das economistas mais influentes dos últimos anos. E existe algo que ela quer ajudar a consertar: a economia global.

"Admirada por Bill Gates, consultada por governos, Mariana Mazzucato é a especialista com quem outras pessoas discutem por sua conta e risco", escreveu a jornalista Helen Rumbelow no jornal britânico The Times, em um artigo de 2017 intitulado "Não mexa com Mariana Mazzucato, a mais assustadora economista do mundo".

Para Eshe Nelson, da publicação especializada Quartz, a economista ítalo-americana não é assustadora, mas "franca e direta, a serviço de uma missão que poderia salvar o capitalismo de si mesmo".

O jornal The New York Times a definiu como "a economista de esquerda com uma nova história sobre o capitalismo", em 2019. Em maio deste ano, a revista Forbes a incluiu no relatório: "5 economistas que estão redefinindo tudo. Ah, sim, e elas são mulheres".

"Ela quer fazer com que a economia sirva às pessoas, em vez de focar em sua servidão", escreveu o colunista Avivah Wittenberg-Cox.

O valor e o preço

Mariana Mazzucato é professora de Economia da Inovação na University College London, na Inglaterra, onde também é diretora-fundadora de um instituto de inovação na mesma universidade. Também é autora do livro O Estado empreendedor: Desmascarando o mito do setor público vs. setor privado.

O Papa Francisco, com as vestimentas papais, senta em uma cadeira e sorriDireito de imagemGETTY IMAGES
Image caption'A visão da economista Mariana Mazzucato é interessante para o futuro econômico', escreveu o papa Francisco em março

O trabalho de Mazzucato teve inclusive um impacto fora dos círculos dos economistas. "No futuro econômico, a visão da economista Mariana Mazzucato, professora da University College London, é interessante. Acho que ela ajuda para pensar no futuro", escreveu o papa Francisco, em março, em uma carta dirigida a Roberto Andrés Gallardo, presidente do Comitê Pan-Americano de Juízes para os Direitos Humanos.

Mazzucato acredita que o capitalismo pode ser orientado para um "futuro inovador e sustentável que funcione para todos nós", diz a organização Ted, que promoveu três palestras com ela.

De fato, Mazzucato considera que a crise desencadeada pela pandemia de covid-19 é uma oportunidade de "fazer um capitalismo diferente". Ela fala há anos sobre a importância dos investimentos do Estado nos processos de inovação.

Um de seus objetivos é acabar com o mito de que o Estado é uma entidade burocrática que simplesmente promove a lentidão. Outro é demonstrar que na economia "o valor não é apenas o preço".

A BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, entrevistou Mariana Mazzucato. Confira a seguir os principais trechos.

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BBC News Mundo - Você já chegou a declarar: 'Não podemos voltar à normalidade. O normal é o que nos levou não apenas a este caos, mas também à crise financeira e à crise climática'. Essas palavras têm um significado especial para a América Latina, uma região com alto nível de desigualdade e pobreza, que luta contra as mudanças climáticas e com muitas de suas comunidades atingidas pela pandemia de coronavírus. Como podemos evitar voltar à normalidade pré-pandemia? Por que as pessoas não deveriam querer voltar a isso?

Mariana Mazzucato - A crise nos mostrou as deficiências na capacidade dos Estados e também que a maneira como vemos o papel do Estado no último meio século foi completamente inadequada.

Desde a década de 1980, os governos foram instruídos a se sentarem no banco traseiro para permitir que as empresas administrem (a economia) e criem riqueza. O Estado só poderia intervir para resolver problemas eventuais. O resultado é que os governos nem sempre estão adequadamente preparados e equipados para lidar com crises como a pandemia de covid-19 ou a emergência climática. Ao se presumir que os governos precisam esperar até que ocorra um grande choque sistêmico para agir, são tomadas medidas insuficientes.

Nesse processo, as instituições essenciais que fornecem bens e serviços públicos de maneira mais ampla (como o Serviço Nacional de Saúde no Reino Unido, que teve cortes de verbas de US$ 1 bilhão desde 2015) ficam enfraquecidas. As medidas de austeridade impostas após a crise financeira de 2008 foram o oposto do investimento necessário para aumentar a capacidade do setor público e, assim, prepará-lo para o próximo choque do sistema.

Na América Latina, é fundamental que a agenda se concentre na criação e na redistribuição de valor.

Homem com as mãos na cabeça, com números e gráficos econômicos de fundoDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionPara Mazzucato, é essencial aprender com os erros cometidos após a crise financeira de 2008

Altos níveis de desigualdade e pobreza significam que existem populações vulneráveis ​​com potencial para enfrentar enormes dificuldades econômicas no contexto de uma crise como a que estamos enfrentando agora. E, para agravar ainda mais as coisas, as economias latino-americanas são caracterizadas por enormes setores informais. Em todo o mundo, incluindo a América Latina, Estados despreparados gastam menos recursos para financiar serviços públicos. Além disso, eles também têm menos opções para ajudar o setor informal, o que é desastroso para as populações vulneráveis.

Portanto, os Estados devem criar valor investindo e inovando para encontrar novas maneiras de fornecer serviços públicos a populações vulneráveis ​​na economia informal. Quando os Estados ficam em segundo plano e não se preparam para crises (o que aconteceu em muitos países, não apenas na América Latina), sua capacidade de oferecer serviços públicos é severamente prejudicada.

Mas esses serviços públicos devem fazer parte de um sistema de inovação: cidades verdes e crescimento inclusivo exigem inovação social e tecnológica. As tendências de desindustrialização na região criam dificuldades adicionais. Os Estados não têm capacidade para exigir que os produtores locais aumentem a criação de bens necessários para enfrentar a crise (por exemplo: suprimentos hospitalares), o que os obriga a depender do mercado internacional em colapso para acessar esses bens.

dois homens de máscaras carregando sacos de alimentos na ruaDireito de imagemGUILLERMO LEGARIA/GETTY IMAGES
Image captionVários setores econômicos da América Latina sofreram as consequências de medidas de confinamento para impedir a disseminação do coronavírus

BBC News Mundo - Você disse que 'a crise da covid-19 é uma oportunidade de criar um capitalismo diferente'. O que isso quer dizer? O que esta crise está nos dizendo sobre o sistema atual que outras crises não nos disseram?

Mazzucato - Há uma "tripla crise do capitalismo" acontecendo. Uma crise de saúde: a pandemia global confinou a maioria da população mundial, e está claro que somos tão vulneráveis ​​quanto nossos vizinhos, local, nacional e internacionalmente.

Uma crise econômica: a desigualdade é uma causa e uma consequência da pandemia. A crise da covid-19 está expondo ainda mais falhas em nossas estruturas econômicas. A crescente precariedade do trabalho é uma delas. Pior ainda, os governos estão agora emprestando para empresas em um momento em que a dívida privada é historicamente alta, enquanto a dívida pública tem sido vista como um problema na última década de austeridade. Além disso, um setor de negócios excessivamente 'financeirizado' tem desviado o valor da economia.

A terceira crise é climática: não podemos voltar aos 'negócios de sempre'. No início deste ano, antes da pandemia, a mídia estava cheia de imagens aterrorizantes de bombeiros sobrecarregados (tentando apagar incêndios), e não de profissionais de saúde.

Agente de saúde medindo temperatura de uma mulherDireito de imagemEPA
Image captionSegundo Mazzucato, o atual modelo de capitalismo apresenta problemas que precisam ser resolvidos diante da crise de saúde dos coronavírus

BBC News Mundo - O capitalismo como o conhecemos pode sobreviver? Ele deve ser salvo?

Mazzucato - Essa crise e a recuperação de que precisamos nos dão a oportunidade de entender e explorar como fazer o capitalismo de maneira diferente. Isso justifica repensar para que servem os governos: em vez de simplesmente corrigir as falhas de mercado quando elas surgirem, elas devem avançar ativamente para moldar e criar mercados para enfrentar os desafios mais prementes da sociedade.

Eles também devem garantir que as parcerias estabelecidas com empresas, envolvendo fundos governamentais, sejam motivadas pelo interesse público, e não pelo lucro. Quando empresas privadas pedem resgates para os governos, devemos pensar no mundo que queremos construir para o futuro e na direção da inovação que precisamos alcançá-lo, e, com base nisso, adicionar condições que beneficiem o interesse público, não apenas o privado. Isso garantirá a direção da viagem que queremos: verde, sustentável e equitativa.

Quando as condicionalidades são bem-sucedidas, elas alinham o comportamento corporativo às necessidades da sociedade. No curto prazo, isso se concentra na preservação das relações de trabalho durante a crise e na manutenção da capacidade produtiva da economia, evitando a extração de fundos para os mercados financeiros e a remuneração de executivos. A longo prazo, trata-se de garantir que os modelos de negócios levem a um crescimento mais inclusivo e sustentável.

bombeiros da Austrália tentando apagar incêndio florestalDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionNo final de 2019 e no início deste ano, a Austrália passou por uma onda de calor extrema que causou milhares de incêndios florestais
Línea

Papa

Em 31 de março, em sua conta no Twitter, Mazzucato reagiu às palavras do papa Francisco sobre seu livro: "Estou profundamente honrada pelo papa ter lido meu livro O valor de tudo: criar e absorver a economia global e por concordar que o futuro — especialmente pós-covid-19 — tem a ver com uma repriorização de 'valor 'acima' preço'".

A especialista disse à BBC News Mundo que ela foi convidada a participar de uma comissão do Vaticano focada na economia no âmbito da pandemia da covid-19 e nos contou sobre essa experiência: "Fornecemos relatórios semanais ao papa e à Diretoria do Vaticano, antes dos discursos semanais do papa, sobre aspectos-chave da resposta econômica à covid-19. É uma grande honra".

pessoas trabalhando em plantaçãoDireito de imagemREUTERS
Image captionEconomista acredita que os modelos de negócios que levam a "crescimento mais inclusivo e sustentável" devem ser priorizados

"Nosso instituto de pesquisa e inovação se junta ao grupo de trabalho de outras universidades, incluindo a Georgetown, nos Estados Unidos, e do World Resources Institute. Esses relatórios variam da economia política do alívio da dívida à reestruturação das relações econômicas público-privadas", prossegue.

Bem comum

"Nosso principal interesse é trabalhar com o Vaticano sobre como seu conceito de 'bem comum', do qual falamos em termos de 'valor público', pode ser usado para estruturar a forma de investimento e colaboração públicos e privados. Sem isso, corremos o risco de fazer o mesmo que aconteceu com a crise financeira de 2008: bilhões foram injetados sem afetar a economia real. A maior parte disso voltou ao setor financeiro e a crise seguinte começou a crescer", diz ela.

"Para construir um crescimento inclusivo e sustentável, precisamos de investimento público impulsionado pelo conceito de bem comum e novos tipos de relações público-privadas que são estruturadas sob condições que criam um ecossistema mais simbiótico e não-parasitário. E temos que trazer grupos de cidadãos e sindicatos para a mesa de discussão, para garantir que não apenas tenhamos uma transição mais justa, mas que também haja vozes diferentes para definir que tipo de sociedade queremos. Acredito que a energia renovada por trás dos movimentos sociais, como o Black Lives Matter, é um bom sinal de que haverá uma forte pressão para que nossas sociedades evoluam progressivamente. Se não o fizermos, perderemos."

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Bilionários se preparam para o fim da civilização

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—Alô?

—Até que enfim, senhor DeMarest. Escute-me bem. O senhor precisa estar no aeródromo de Saint-Rémy em 16 minutos.

—Como? O quê? E que horas são?

—8h34. Estamos tentando entrar em contato com o senhor e sua esposa há três horas para evacuá-los.

No terceiro episódio da festejadíssima série francesa L’Effondrement (”O colapso”), um bilionário protagoniza uma corrida contra o relógio para pegar um avião exclusivo para fugir da falência da civilização tal como a conhecemos. O capítulo mostra o instinto de sobrevivência e a falta de escrúpulos desse membro do afortunado 1% da humanidade, uma reflexão que a ficção amplia no sétimo capítulo narrando a angustiante odisseia de uma mulher, ministra neste caso, tentando chegar a uma ilha onde pode encontrar refúgio. Apesar de ser uma série distópica, sua abordagem do comportamento das elites em um potencial colapso da civilização está longe da pura ficção científica. A crise do coronavírus, juntamente com a ameaça do terrorismo e da mudança climática, aumentou o medo das classes privilegiadas e cada vez mais pessoas apostam em estar preparadas para um possível apocalipse, disparando rapidamente a demanda por bunkers e refúgios. De Vale do Silício a Wall Street, passando por Marbella, é assim que os ricos estão se preparando para o fim do mundo.

“Isto é como um seguro de vida ou um seguro de carro, você espera nunca ter de usá-los, mas se tiver de fazê-lo, são muito valiosos”. Com estas palavras tenta racionalizar sua rede de refúgios subterrâneos Dance Vicino, diretor-executivo da The Vivos Group, uma das empresas líderes do setor e que ele prefere qualificar de “projeto humanitário épico de sobrevivência”. Por e-mail, Vicino confirma ao EL PAÍS o boom por desse tipo de serviço, aumentando as vendas em até 400% ao ano. Veículos de comunicação como o Los Angeles Times confirmam que as pesquisas e as vendas de refúgios nos Estados Unidos dispararam desde o início da crise sanitária: “Desinfetante para as mãos? Certamente. Máscaras? Está bem. Mas, à medida que o coronavírus se propaga, os ricos estão investindo de uma maneira muito mais extrema para evitar a doença: bunkers”.

Chamada de survivalismo, esta corrente deixou para trás os arquétipos de fanáticos religiosos ou eremitas excêntricos para se deslocar para os escritórios mais poderosos de Vale do Silício ou de Wall Street. CEOs de empresas de tecnologia e investidores decidiram se preparar ativamente para uma hecatombe do sistema, talvez alentados pelas recentes imagens de brigas em supermercados por rolos de papel higiênico antes da quarentena. O cofundador do LinkedIn, Reid Hoffman, disse à The New Yorker que estima que 50% dos bilionários de Vale do Silício já tenham um bunker ou esconderijo preparado ao redor do mundo para o caso de o apocalipse acontecer e afirmou que “comprar uma casa na Nova Zelândia é algo como ‘piscar os olhos’, não é preciso dizer mais nada”.

Vicino confirma que o público interessado na Vivos tem cada vez mais capacidade econômica e nos últimos meses avaliou a construção de um resort com apartamentos subterrâneos de luxo em Marbella. Esse complexo será composto por residências de cerca de 200 metros quadrados e terá um sistema de filtragem de ar, piscina, academia e até um cinema para assistir Mad Max ou Filhos da esperança enquanto o mundo cai em pedaços. Atualmente têm centenas de refúgios em lugares como a Alemanha ou Dakota do Sul, Estado em que construíram uma comunidade do tamanho de Manhattan. “Muitos Governos do mundo têm enormes bunkers militarizados para seus oficiais e suas elites, mas não para o resto de nós. Eles não têm nenhum plano para salvá-lo se a extinção começar. A Vivos tem!”, clama. O preço de cada unidade, sem equipar nem mobiliar, ronda os 30.000 euros (cerca de 184.000 reais), mais outros mil por ano a título de aluguel.
Imagem do episódio ‘O aeródromo’ da série ‘O colapso’. FOTO: FILMINTHE VIVOS GROUP

O influente investidor em tecnologia e o cofundador do PayPal, Peter Thiel, é um dos principais instigadores dessa corrente profilática nascida em Vale do Silício. O alemão, que apoiou publicamente Donald Trump e que destruiu um veículo de comunicação (o site Gawker) como vingança por um artigo que afirmava que era homossexual, comprou um terreno de 200 hectares para seu refúgio apocalíptico na Nova Zelândia, país que considera “uma utopia”:”O que que se alinha melhor ou com a minha visão do futuro”, disse. Thiel conseguiu a cidadania neozelandesa em apenas duas semanas e muitos outros tentaram seguir seus passos. Nos dois dias seguintes à eleição presidencial de 2016 que deu a vitória ao imprevisível Donald Trump, as pesquisas dos norte-americanos sobre como conseguir a nacionalidade kiwi aumentaram 14% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Mais de 13.000 solicitações foram registradas.

Embora donos de uma riqueza tão imensa que qualquer investimento —por mais louco que possa parecer— seja insignificante na demonstração de resultados, talvez os motivos por trás dessa crescente paranoia não respondam unicamente a uma questão meramente preventiva ou recreativa. John W. Hoopes, professor de Antropologia da Universidade do Kansas, diz no The New York Times que o sucesso da corrente responde à “fantasia hipermasculina” de que apenas alguns poucos escolhidos e suas famílias se salvarão do perigo iminente. “O medo vende melhor que o sexo. Se você pode fazer com que as pessoas tenham medo, pode vendê-las todo tipo de coisa e isso inclui os bunkers”, conclui. Vicino parece estar inscrito nessa estratégia de marketing. “As pessoas sentem que o inferno está chegando, da Coreia do Norte e do Oriente Médio até uma potencial Terceira Guerra Mundial com a Rússia e a China”, afirma, adiantando também futuras “pragas, asteroides ou o colapso econômico total”.
THE VIVOS GROUP

A bíblia do radicalismo libertário, que o próprio Thiel qualificou como o livro que mais o influenciou em sua carreira, chama-se O indivíduo soberano: Como sobreviver e prosperar durante o colapso do Estado de Bem-Estar. Publicada em 1997 e escrito por James Dale Davidson e William Rees-Mogg, a obra já aponta a Nova Zelândia como refúgio perfeito para observar o fim da civilização como a conhecemos. Segundo os autores, a Internet e a consolidação das criptomoedas porão fim neste milênio nos “criminosos Estados-nação” e uma “elite cognitiva” se elevará acima da “fraude democrática”. Sem Governos nem impostos, é claro. Em declarações à Vanity Fair, um amigo próximo do guru reconhece o desejo deste de “comprar seu próprio país” e afirma ter oferecido até cem bilhões de dólares para torná-lo realidade. Sam Altman, outro bilionário de Vale do Silício, confirmou que ele e Thiel “tinham preparado um plano para fugir ao país” em caso de um colapso mundial.THE VIVOS GROUP

E por que criar a nova humanidade na terráquea Nova Zelândia podendo fazê-lo a partir do planeta vermelho? Precisamente, um dos sócios fundadores do PayPal ao lado de Thiel se erigiu como outro dos super-ricos mais obcecados em estar pronto diante do juízo final. Elon Musk, CEO da Tesla, não apenas vaticinou em várias ocasiões o fim do mundo, como pode se vangloriar de ter criado todo um império empresarial para tentar buscar uma saída ao possível apocalipse. “É inegável que desde a mudança climática (com a ênfase de Tesla em reduzir o uso de combustíveis fósseis) até a maligna inteligência artificial (com a Neuralink) e a ameaça de uma guerra global que desencadeie o caos (o plano de fuga para Marte da Space X), Musk está preparando uma parte da humanidade para o cataclismo vindouro e tentando evitá-lo”, disse o jornalista Jonathan Sieber depois de assistir a uma conferência do guru da tecnologia no festival South by Southwest em 2018. O fundador do Facebook, Mark Zuckeberg, tampouco foge desse utópico investimento financeiro e já em 2016 vários meios de comunicação publicaram que tinha construído um bunker perto de sua mansão em Palo Alto, Califórnia.
Piscina comunitária da rede de 'bunkers' da Vivos.THE VIVOS GROUP

Segundo o site Finder, até 20% dos norte-americanos fizeram alguma forma de provisão pensando no fim do mundo. Vicino nega que a maioria de seus clientes pertença à elite. “São pessoas bem-educadas e informadas, de classe baixa, média ou alta, que têm a responsabilidade de proteger suas famílias durante estes tempos potencialmente catastróficos”, deixando claro que seu objetivo é oferecer esconderijos acessíveis a todos. O tempo de construção desses majestosos planos B pode variar de três a doze meses, dependendo da localização e do tamanho, e contam com pelo menos um ano de autonomia energética sem precisar sair à superfície. Esperemos que jamais se tornem o plano A.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Explicador: o aeroporto do Montijo é uma solução coxa?

Governo e ANA mantêm o aeroporto do Montijo na agenda, mas a medida está longe de agradar e promete luta
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O aeroporto do Montijo sempre é para fazer?

Apesar de a covid-19 ter retirado a urgência à construção do aeroporto do Montijo, o ministro das Infraestruturas já veio defender que o projeto é para avançar, ainda que admita que as obras já não arrancam este ano. O ministro do Ambiente também se tem mostrado defensor do projeto. E a ANA, que é quem vai financiar a construção, mantém-se firme na convicção de que é a melhor opção — um posicionamento que não espanta, já que o Montijo permite à francesa Vinci prolongar a vida do Humberto Delgado e evita a construção de um aeroporto internacional. A ANA e o Estado, recorde-se, assinaram o acordo para a expansão da capacidade aeroportuária de Lisboa (Portela + Montijo), num investimento de €1,15 mil milhões até 2028.

Há consenso à volta da decisão?

Não, as Câmaras da Moita e do Seixal, ambas com presidentes eleitos pelo PCP, são grandes opositoras da construção do aeroporto do Montijo, e o seu parecer é decisivo. As associações ambientalistas também são contra: apontam graves problemas ambientes e dizem ser uma solução a prazo. A associação ambientalista Zero veio defender esta semana que a pandemia é uma “oportunidade para fazer a avaliação estratégica de uma solução de longo prazo” para as infraestruturas aeroportuárias de Lisboa, defendendo que o Montijo é uma opção “impossível” do ponto de vista ambiental. Por isso, apela a que se estudem outras localizações possíveis, nomeadamente o Campo de Tiro de Alcochete, com uma declaração de impacte ambiental ainda válida até ao final deste ano, mas que é necessário rever e atualizar.

Para que o Montijo se faça é preciso alterar a lei?

Sim, é preciso mudar a lei, uma vez que a certificação do novo aeroporto no Montijo pela Autoridade Nacional da Aviação Civil (ANAC) carece, segundo a lei vigente, de um parecer positivo de todos os municípios afetados pela construção, e as Câmaras da Moita e do Seixal mantêm-se intransigentes na sua oposição. Porém, o Governo está disponível para mudar a lei. O ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, defendeu recentemente que, tendo em conta a importância para o país da construção de um novo aeroporto no Montijo, o Governo poderá não ter outro caminho senão o de alterar a lei. O Bloco, os Verdes e o PCP já afirmaram que isso seria intolerável. E os Verdes alertaram que irão mobilizar o Parlamento para impedir que tal diploma seja aprovado.

Há algum processo em tribunal para travar o Montijo?

Há. Em fevereiro de 2019 houve uma ação judicial interposta pela Zero devido à ausência de uma avaliação ambiental estratégica, considerada obrigatória para este tipo de infraestruturas. E, no início de junho, oito organizações de defesa do ambiente, com a Sociedade Portuguesa para o Estudo de Aves (SPEA) à cabeça, avançaram com uma ação administrativa no Tribunal Administrativo de Lisboa contra a Agência Portuguesa do Ambiente. Pedem a anulação da Declaração de Impacte Ambiental favorável condicionada, alegando que esta tem falhas e omissões graves na avaliação dos riscos ambientais, nomeadamente para as aves.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

O carvão e a economia circular

Por Filipe Duarte Santos
A motivação para a economia circular é de natureza ecológica mas também económica, dado que, sendo a procura de recursos naturais renováveis e não renováveis cada vez maior, o aumento do seu custo tende a dificultar o crescimento económico.

Os primeiros registos do uso do carvão encontram-se na China e datam de 4000 anos a.C. O filósofo grego Teofrasto, sucessor de Aristóteles, refere no seu livro Sobre as Pedras o carvão mineral como pedra que arde tal como o carvão vegetal. Mais tarde, o carvão acabou por desempenhar um papel central na civilização emergente da Revolução Industrial. A Grã-Bretanha, sendo muito rica em carvão, usava-o desde a Idade do Bronze, e especialmente durante a colonização romana, como combustível e para a fundição de metais. A partir do século XIII, os depósitos superficiais esgotaram-se e foi necessário explorá-lo em minas. Porém, as minas de carvão e estanho tinham o problema de acumularem água, impossibilitando a extracção dos minérios. Em 1712, Thomas Newcomen, um ferreiro inglês, inspirado na máquina a vapor rudimentar de Thomas Savery e na máquina a vapor com pistão muito mais evoluída do físico francês Denis Papin, construiu uma para ser utilizada nas minas. Finalmente, em 1776, James Watt, um técnico de laboratório da Universidade de Glasgow, em colaboração com Matthew Boulton, conseguiu melhorar muito o modelo de Newcomen e comercializar a nova máquina, contribuindo de forma decisiva para o avanço da Revolução Industrial.

A partir dessa época, o carvão teve uma história de grande sucesso. Em 1800, as duas únicas fontes primárias de energia à escala global (para além da muito pequena contribuição da força motriz da água nos moinhos de água e dos moinhos de vento e barcos à vela) eram o carvão, com 1,7% do total, e a biomassa, com 98,3%, principalmente sob a forma de lenha. Em 1900, o carvão representava 47% do total das fontes primárias globais de energia, e surgia o petróleo com 1,5%, o gás natural com 0,53%, a hidroelectricidade com 0,14%, sendo o restante a biomassa tradicional (Smil, 2017). No princípio da década de 1960, o petróleo ultrapassou o carvão, e de 1971 a 2015 os combustíveis fósseis asseguraram entre 78,7% e 84,8% do consumo global de energia (World Bank, 2020). Para além destes sucessos notáveis, importa recordar que as centrais térmicas a carvão têm externalidades negativas sobre a saúde humana e o ambiente ao emitirem material particulado, dióxido de enxofre, óxidos de azoto, crómio, arsénio e gases com efeito de estufa, especialmente o dióxido de carbono (CO2). Em 2008, a Organização Mundial da Saúde advertiu que as emissões provenientes das centrais a carvão provocam um excesso global de mortalidade estimado em cerca de um milhão de pessoas por ano.

Desde as publicações do químico sueco Svante Arrhenius, nos finais do século XIX, sabe-se de forma quantificada que o CO2 emitido na combustão dos combustíveis fósseis, por ser um gás com efeito de estufa, causa uma alteração do clima global que se traduz por um aumento da temperatura média da atmosfera à superfície, para além de outros efeitos. As emissões de CO2 variam com o tipo de combustível fóssil e as condições em que se faz a sua combustão. O carvão é o que mais emite com um valor médio próximo de 1000 g de CO2 equivalente por cada kWh gerado, podendo atingir valores superiores a 1500 g. Segue-se o petróleo, com um valor médio próximo de 760 g de CO2 equivalente por cada kWh gerado, e, por fim, o gás natural com um valor médio mais baixo próximo de 490 g. Será necessário diminuir drasticamente o uso mundial do carvão para haver alguma esperança de cumprir o Acordo de Paris.

Surge a pandemia de covid-19 e há tendências que se intensificam. Com a gravíssima crise de saúde, social e económica, que está a afectar sobretudo os países mais pobres e frágeis, o consumo de energia eléctrica baixou e nas economias avançadas o uso do carvão deixou de ser competitivo face às energias renováveis e ao gás natural. As importações de carvão para a UE diminuíram nos últimos meses cerca de dois terços. Nos EUA, a percentagem de uso de carvão na geração de energia eléctrica poderá chegar a um mínimo de 10%. Em 2017, o Governo português, com o objectivo de atingir a neutralidade carbónica em 2050, decidiu encerrar as centrais termoeléctricas a carvão, em Sines e no Pego, até 2030. Porém, a quebra no uso do carvão começou a dar-se muito mais cedo quando o consumo passou de 4,5 milhões de toneladas em 2018 para 2,09 milhões em 2019. Devido à queda de rentabilidade, a EDP adiantou a data de fecho de Sines para 2023. Com a crise da covid-19, a EDP surpreendeu o Governo ao anunciar em 14 de Julho o encerramento da central de Sines em Janeiro de 2021 quando espera ter consumido o carvão que tem armazenado. É provável que o pico do consumo global do carvão tenha sido ultrapassado, o que são boas notícias para a saúde humana e para o clima. Será que a tendência de fuga ao carvão se vai manter? É provável, mas longe de estar garantido porque as economias emergentes, especialmente a China e a Índia, registam um enorme aumento da procura de energia e o carvão é ainda abundante e economicamente acessível.

O que tem o carvão que ver com o conceito de economia circular, com origem nas ideias desenvolvidas em 1976 pelo arquitecto suíço Walter Stahel? A ideia fundamental é adoptar uma economia baseada em processos cíclicos “do berço ao berço” em lugar de processos lineares de extracção, produção e descarte, ou seja, “do berço ao túmulo”. A motivação para a economia circular é de natureza ecológica mas também económica, dado que, sendo a procura de recursos naturais renováveis e não renováveis cada vez maior, o aumento do seu custo tende a dificultar o crescimento económico. É pois necessário reduzir, reciclar e reutilizar. Afinal é aquilo que faz a biosfera com grande mestria ao desconhecer os conceitos de descarte e lixo. O seu metabolismo recicla todos os dejectos e todos os organismos que morrem. Ao beneficiar de cerca de 4000 milhões de anos de evolução, os processos de reciclagem da biosfera tornaram-se extremamente eficientes. Mas como em tudo na vida, houve falhas que originaram impasses.

Uma delas deu-se no Carbonífero, que ocorreu no período de há 358,9 a 298,9 milhões de anos, quando as plantas, cuja origem se encontra nas algas marinhas, desenvolveram a capacidade de colonizar e dominar a terra firme. Para tal foi necessário protegerem-se das radiações ultravioletas solares e adquirirem uma rigidez estrutural robusta para contrariar a gravidade e assim conquistar a dimensão vertical. Foi assim que a evolução das plantas sintetizou alguns polímeros, tais como, lignina (do latim lignum para madeira), suberina (associada ao sobreiro através do seu nome científico de Quercus suber) e cutina (componente da cutícula das plantas). As condições climáticas do Carbonífero nos trópicos permitiram a formação de extensas florestas em zonas húmidas, lacustres e lagunares. Muitas das árvores mortas ficaram submersas, dificultando a sua decomposição. Quando a lignina surgiu, não havia organismos capazes de a decompor, pelo que os troncos não sofreram decomposição e acabaram por ser cobertos por sedimentos, transformando-se em turfa, lenhite e carvões minerais mais ricos em carbono. Para sair do impasse, a evolução da biosfera levou dezenas de milhões de anos até produzir fungos lignolíticos capazes de digerir a madeira, processo também designado por podridão branca, castanha ou mole da madeira.

As consequências deste impasse na economia circular da biosfera foram muito significativas. As emissões de CO2 para a atmosfera diminuíram devido à menor decomposição da biomassa das árvores e, consequentemente, no Carbonífero a concentração de CO2 atingiu valores de cerca de 100 ppmv (partes por milhão em volume) (Feulner, 2017), quatro vezes inferior aos valores actuais (417,1 ppmv em Maio de 2020). Este decréscimo da concentração do CO2 provocou uma intensa época glacial no princípio do Pérmico. Outra consequência do impasse foi que as “florestas do carvão” do Carbónico eram de tal modo extensas e exuberantes que aumentaram a concentração do oxigénio molecular na atmosfera para cerca de 30% (50% mais do que o valor actual de 20,946%), gerando um impulso evolutivo, que conduziu ao surgimento de insectos e anfíbios gigantes, e a um provável aumento da biodiversidade global.

O carvão mineral que moldou a nossa civilização e mudou o clima global é afinal a história de uma falha no metabolismo da biosfera. Agora, a era do carvão dá sinais de terminar. A mesma história revela a incomensurável distância que separa o engenhoso e eficiente metabolismo da biosfera da rudimentar economia circular da tecnosfera.


Professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa


quinta-feira, 30 de julho de 2020

Conservação da natureza, biodiversidade, desenvolvimento sustentável e saúde

Por José Manuel Calheiros

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Medicamento da Idade Média pode ser a chave para travar infeções bacterianas

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Uma investigação de uma universidade britânicos a antibióticos ancestrais revelou que um medicamento da era medieval pode ser a solução para tratar infeções modernas.

Em questão está um milenar remédio caseiro, chamado de ‘colírio de Bald’, à base de uma mistura entre cebolas, alho, vinho e sais biliares.

Durante o estudo dos efeitos deste medicamento no organismo, os investigadores da Universidade de Warwick descobriram que tem a capacidade de produzir atividade antibacterial. Ademais, a combinação de ingredientes mostrou causar danos reduzidos às células humanas.

A mescla funciona apenas, explicam os investigadores, porque “há um trabalho de equipa” entre os componentes. O alho, que contém alicina, é responsável por travar grupos bacteriais unicelulares, mas, sem os outros ingredientes, não é capaz de bloquear biofilmes - comunidades de bactérias resistentes a antibióticos.


A maioria dos antibióticos que usamos hoje são derivados de compostos naturais, mas esta descoberta destaca a necessidade de explorar não apenas compostos únicos, mas misturas de produtos naturais para o tratamento de infecções por biofilme”, afirma a Dra. Freya Harrison, da escola de medicina natural da Universidade de Warwick, sublinhando que este medicamento medieval poderá sugerir novos tratamentos para feridas infectadas, como úlceras diabéticas nos pés e pernas. 

O próprio ‘colírio de Bald’ já havia sido estudado pela Dra. Christina Lee em 2015 durante uma extensa investigação ao Medicinale Anglicum, um antigo manuscrito inglês que contém instruções sobre diversos tratamentos médicos.


O colírio de Bald sublinha a importância do tratamento médico ao longo dos tempos. Mostra como as pessoas no início da Inglaterra medieval tinham pelo menos alguns remédios eficazes”, afirma Lee, investigadora da Universidade de Nottingham.

O estudo, publicado esta terça-feira na revista Science, adianta ainda que é necessária mais investigação no âmbito da medicina europeia pré-moderna para determinar se estes resultados vão ser utilizados na criação de um cocktail de produtos naturais “candidatos a serem integrados em pomadas ou outro tipo de curativos”.

terça-feira, 28 de julho de 2020

Infográfico: The World’s Most Powerful Reserve Currencies


Fonte: aqui

The World’s Most Powerful Reserve Currencies

When we think of network effects, we’re usually thinking of them in the context of technology and Metcalfe’s Law.

Metcalfe’s Law states that the more users that a network has, the more valuable it is to those users. It’s a powerful idea that is exploited by companies like LinkedIn, Airbnb, or Uber — all companies that provide a more beneficial service as their networks gain more nodes.

But network effects don’t apply just to technology and related fields.

In the financial sector, for example, stock exchanges grow in utility when they have more buyers, sellers, and volume. Likewise, in international finance, a currency can become increasingly entrenched when it’s accepted, used, and trusted all over the world.
What’s a Reserve Currency?

Today’s visualization comes to us from HowMuch.net, and it breaks down foreign reserves held by countries — but what is a reserve currency, anyways?

In essence, reserve currencies (i.e. U.S. dollar, pound sterling, euro, etc.) are held on to by central banks for the following major reasons:
To maintain a stable exchange rate for the domestic currency
To ensure liquidity in the case of an economic or political crisis
To provide confidence to international buyers and foreign investors
To fulfill international obligations, such as paying down debt
To diversify central bank portfolios, reducing overall risk

Not surprisingly, central banks benefit the most from stockpiling widely-held reserve currencies such as the U.S. dollar or the euro.

Because these currencies are accepted almost everywhere, they provide third-parties with extra confidence and perceived liquidity. This is a network effect that snowballs from the growing use of a particular reserve currency over others.
Reserve Currencies Over Time


Over this timeframe, there have been small ups and downs in most reserve currencies.

Today, the U.S. dollar is the world’s most powerful reserve currency, making up over 61% of foreign reserves. The dollar gets an extensive network effect from its use abroad, and this translates into several advantages for the multi-trillion dollar U.S. economy.

The euro, yen, and pound sterling are the other mainstay reserve currencies, adding up to roughly 30% of foreign reserves.

Finally, the most peculiar data series above is “Other”, which grew from 2.0% to 8.4% of worldwide foreign reserves over the last 15 years. This bucket includes the Canadian dollar, the Australian dollar, the Swiss franc, and the Chinese renminbi.
Accepted Everywhere?

There have been rumblings in the media for decades now about the rise of the Chinese renminbi as a potential new challenger on the reserve currency front.

While there are still big structural problems that will prevent this from happening as fast as some may expect, the currency is still on the rise internationally.

What will the composition of global foreign reserves look like in another 15 years?

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Reportagem: Invasor e superpredador do Tejo está a dizimar espécies nativas





O siluro (Silurus glanis) é uma espécie originária da Europa Central e pode atingir mais de 2,5 metros de comprimento e mais de 100 quilos de peso. Foi detectado pela primeira vez na Península Ibérica no Rio Ebro, em Espanha, em 1974. Na parte espanhola do Tejo, a primeira identificação data de 1998 e na parte portuguesa apenas foi observado em 2014, embora se julgue que tenha chegado em 2006. Os investigadores estimam que a espécie tenha sido introduzida no Tejo espanhol por pescadores alemães que os queriam pescar nas águas do rio ibérico, escreve Luciano Alvarez.

Na zona de Santarém, em 2017, foi capturado o maior espécime conhecido no Tejo português. Tinha 58 quilos e quase dois metros. Já o maior predador apanhado na Europa foi encontrado em 2015, no rio Ródano, em França: tinha 2,73 metros e pesava 130 quilos.

Em 2017, os investigadores do Mare – Centro de Ciência do Mar e Ambiente da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que estudam as espécies não naturais nos rios portugueses, iniciaram uma investigação sobre a presença do siluro no Tejo. Nessa altura, a população era calculada em centenas e as capturas às dezenas. Hoje não têm dúvidas em falar em “dezenas de milhares” de espécimes. Há três anos, os biólogos diziam que podia vir a ser uma ameaça para as espécies nativas. Hoje já não têm dúvidas: “Estão a dar cabo de todas espécies autóctones”, garante Filipe Ribeiro, um dos investigadores do Mare que coordena parte da investigação às espécies não naturais dos rios portugueses.

“Calculamos que, entre margens, exista um siluro por metro de rio. Se se tiver em conta que o Tejo português tem cerca de 120 quilómetros e, em alguns casos, distâncias entre margens com centenas de metros em alguns casos, têm-se uma ideia do número de espécimes no rio. São dezenas de milhares e estão a devorar tudo”, acrescenta este biólogo de 45 anos, especialista em peixes de água doce e espécies invasoras e que continua a acompanhar a evolução dos siluros no Tejo.
Milhares de novas crias todos os anos

Filipe Ribeiro acentua que “o mais preocupante são espécies nativas do Tejo que estão a ser dizimadas”. “Daqui a muito pouco tempo corremos o risco de ter o Tejo sem nenhuma das suas espécies autóctones e que, hoje, já têm uma fraca expressão no rio”, alerta.

Para demonstrar os estragos que este superpredador está a causar no Tejo Filipe Ribeiro explica que, de acordo com estudos científicos europeus, para sobreviver cada siluro necessita de comer 2% do seu peso. Se calcular este peso médio em dez quilos, cada peixe necessita de comer 200 gramas por dia. Se se multiplicar estas 200 gramas por 10 mil espécimes chagamos ao impressionante número de duas toneladas por dia.

Igualmente impressionante é a sua capacidade de reprodução. Uma fêmea jovem de um metro faz uma desova de cerca de 80 mil ovos uma vez por ano. Calcula-se que apenas 1% das crias, cerca de 800, chega à idade adulta. Se se multiplicar por 10 mil são cerca de 8 mil novos espécimes por desova a invadir o rio.

“Estamos a falar de ter uma espécie de leão dentro de água, que tudo come e que a ele ninguém o come em Portugal [em alguns países do centro da Europa o siluro é consumido], porque não há tradição e é um peixe muito feio. Estamos a falar de uma praga, de um predador de topo”, afirma o biólogo do Mare.

O pesadelo dos pescadores

Carlos Serras, 57 anos, deixou o Tejo na madrugada de quinta-feira, já passava da 1h. A norte do cais de Vila Velha de Rodão, no distrito de Castelo Branco, largou no rio 14 redes de pesca.

Não esperam uma grande pescaria. Durante a noite, a barragem espanhola de Cedilho, a norte de Vila Velha de Rodão, libertou uma grande massa de água para o Tejo português. Com ela vieram, lamas, algas, troncos de árvores e outro lixo, que sujaram as redes e fiz com que os peixes delas não se aproximem.

Ao fim de cerca de duas horas apanhou apenas dois lúcios percas, outra espécie invasora do Tejo, mas com valor comercial, já que é consumida na região.

Da água não tiraram nenhuma espécie nativa, nem nenhum siluro, que se transformou num pesadelo para os pescadores.

O mestre Serras pesca no Tejo há mais de 30 anos e, de forma profissional, há cerca de 20. O siluro é um pesadelo para ele. Apanhou o primeiro há dez anos, junto à barragem de Cedilho.

“Os primeiros eram peixes pequenos, para aí com cinco quilos. Algum tempo depois, os que ia apanhando já pesavam dez quilos e não paravam de crescer. O maior que apanhei tinha 44 quilos e 1 metro e 80 de comprimento”, conta.

Aumentou o tamanho e a quantidade. Há duas semanas, em apenas dois dias, apanhou 75 destes superpredadores. “Tenho dias, muitos dias, que tiro mais de 200 quilos desta praga do rio. Já tive dias em que tinha o fundo de um barco de oito metros cheio de siluros”, revela, mostrado que fotografias que ilustram estas situações, não fosse alguém pensar que era mais uma conversa de pescador um bocadinho exagerada.

“A praga” usa-a para colocar como isco nas gaiolas de pesca ao lagostim do rio. Ainda assim, é “um isco ruim”, já que, por deixar pouco sabor na água, não atrai o lagostim.

Em relação aos estragos que os siluros estão a fazer no Tejo e em especial às espécies nativas é ainda mais pessimista que os investigadores:

Diminuir a população “já”

“Há uns anos apanhavam-se barbos e bogas aos milhões. Hoje não se apanha um. E agora está também a dar cabo dos lagostins que, hoje, representam cerca de 70% da facturação de um pescador profissional. É uma coisa monstruosa.”

Carlos Serras que está a ver “a praga a crescer de dia para dia” e diz mesmo que, “se não fizer nada, qualquer dia só há siluros no Tejo”.

E aqui, investigadores e pescadores concordam – é “preciso agir já” e começar a reduzir as populações de siluros no Tejo. Ambos dizem que uma primeira solução poderia passar pelo Governo pagar aos pescadores uma verba por cada quilo de siluro capturado. Carlos Serras diz mesmo que o pagamento de um euro por quilo de siluros capturado “já seria um incentivo motivador”.

Os biólogos que estudam a espécie já aprenderam algumas coisas sobre o seu comportamento, que podem que podem contribuir para reduzir as populações.

Graças a telemetria que fazem há três anos – neste momento há 25 espécimes que têm transmissores acústicos colocados no corpo – já perceberam que, no final da Primavera, reúnem-se grupos em determinados locais das albufeiras das barragens.

“Ainda não percebemos porquê, mas o conhecimento deste facto seria uma possibilidade para, com pouco esforço, fazer grandes capturas e reduzir a população”, explicou ao PÚBLICO Bernardo Quintela, também biólogo do Mare e especialista emigrações e movimentações de peixes.

Todos concordam que estes superpredadores são hoje um problema muito grave no Tejo e que precisa de ser combatido já, até porque o problema pode expandir-se a outros rios. Os siluros já foram confirmados no Douro espanhol e já chegaram aos investigadores portugueses relatos de avistamentos no lado do rio português, embora ainda sem confirmação cientifica.

Créditos da Reportagem: jornal “Público”

Repórteres: Luciano Alvarez ( texto) e Daniel Rocha (fotos)

Nota: as fotografias que ilustram a Reportagem não são do repórter fotográfico Daniel Rocha.