segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Estudo revela que carros híbridos são "desastre ambiental" e Zero pede fim dos apoios do Estado

Zero revela as conclusões de um estudo da Federação Europeia de Transportes e Ambiente, segundo o qual este tipo de veículos regista emissões reais que podem ser quase o dobro daquilo que é anunciado.


Fonte: aqui


Um estudo europeu denuncia o "desastre ambiental" dos carros híbridos 'plug-in' com emissões de dióxido de carbono acima do legalmente declarado e a associação ambientalista Zero pede o fim dos benefícios fiscais para estes veículos.

Num comunicado divulgado este domingo, a Zero revela as conclusões de um estudo da Federação Europeia de Transportes e Ambiente, à qual pertence, e segundo o qual este tipo de veículos (PHEV, na sigla em inglês) regista emissões reais que podem ser quase o dobro daquilo que é anunciado, tendo por base testes "em condições reais" de utilização realizados aos três modelos mais vendidos na Europa em 2019: um BMW X5 (o PHEV disponível no mercado com maior autonomia), um Volvo XC60 e um Mitsubishi Outlander.

"O estudo concluiu que, mesmo em condições de teste ótimas, em que os veículos são utilizados da forma mais moderada possível e com as baterias completamente carregadas, as suas emissões são 28%-89% superiores às contabilizadas nos testes. Se forem utilizados em modo convencional, ou seja, usando exclusivamente o motor a combustão, estes carros emitem três a oito vezes mais CO2 [dióxido de carbono] do que aquilo que os testes indicam", refere o comunicado da Zero.

A associação ambientalista acrescenta que "se adicionalmente o motor a combustão for utilizado para carregar as baterias - algo frequente antes de os condutores entrarem em zonas urbanas de emissões reduzidas - as emissões, de CO2 e em geral de poluentes com efeitos nocivos diretos na saúde, vão até 12 vezes acima das anunciadas oficialmente".

Os testes constataram níveis de autonomia em modo elétrico inferiores aos publicitados, com o caso mais baixo a corresponder "a uns meros 11 quilómetros", além de concluírem que em condições reais de utilização "o recurso ao motor a combustão é constante", o que significa que "estes automóveis só cumprem o anunciado nos catálogos em viagens muito curtas; por exemplo, numa viagem de 100 quilómetros, emitem até cerca de duas vezes mais do que o valor oficial".

Para a Zero, os testes que regulamentam oficialmente o nível de emissões destes veículos têm o problema de assentar "na suposição excessivamente otimista da parcela de utilização em modo elétrico, ou seja, o fator de utilização elétrica, resultando em valores de CO2 irrealisticamente baixos".

Por isso, previsões mais de acordo com a utilização elétrica real colocariam os níveis de emissões em "valores oficiais 50%-230% superiores aos atualmente em vigor".

A associação ambientalista refere o aumento de vendas de carros PHEV na Europa, com meio milhão de unidades vendidas em 2020, sendo que em Portugal foram vendidos até outubro 8.300 automóveis, "praticamente o dobro do que se vendeu no mesmo período de 2019". Os novos limites em vigor na União Europeia obrigam os fabricantes a vender automóveis com baixas emissões.

A premissa do estudo hoje divulgado era precisamente perceber se as emissões publicitadas correspondiam à redução para um terço das dos automóveis convencionais equivalentes, como os fabricantes anunciam, ou se "são um truque para cumprir os requisitos legais".

Com base nos resultados, a Zero pede o fim dos benefícios fiscais e subsídios para a compra destes veículos, referindo que estes estão estimados em mais de 43 milhões de euros para 2020 em Portugal.

"Trata-se de um valor que está a ser desbaratado no apoio a uma tecnologia poluente e que por isso, recomenda a Zero, deve ser canalizado sem demora para tecnologias verdadeiramente verdes", defende a associação.

A Zero entende que estes apoios devem ser reservados para carros 100% elétricos, recomendando que numa fase transitória os apoios e acesso a subsídios sejam concedidos para veículos com uma autonomia mínima de 60 quilómetros e "acesso comprovado" a pontos de carregamento.

Já a redução do Imposto sobre Veículos deve baixar dos 75% para os 25% e as empresas só devem poder reaver metade do Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) e não a totalidade, como atualmente.

A nível europeu a Zero pede que deixem de ser atribuídos "supercréditos" à venda de carros PHEV e que os testes passem a ter por base condições reais de utilização. Sugere ainda que a Comissão Europeia legisle para que sejam contabilizadas as emissões reais, apuradas com base no uso registado no computador de bordo do veículo.

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A chocante monotonia das prateleiras de supermercados

A indústria alimentar vende a ilusão de variedade. Mas há sete mil plantas comestíveis na Terra e 90% do que consumimos vem de apenas 15 espécies. Sabores e aromas artificiais imperam. Contudo, há como reinventar a cozinha da biodiversidade. Por Ricardo Abramovay em Outras Palavras.



Quando vai ao supermercado, a quantidade de cores, formatos, marcas, desenhos, fotos e alternativas é desconcertante. À primeira vista, as suas possibilidades de escolha, para as refeições que tem pela frente, são cada vez maiores.

Mas, na verdade, a palavra mais marcante do padrão alimentar contemporâneo é monotonia. E isso representa uma tripla ameaça: à saúde, à segurança alimentar e aos serviços ecossistémicos dos quais todos dependemos.

Como assim? Como evocar monotonia, diante da estonteante variação das prateleiras?

O Estado Mundial das Plantas e dos Fungos(link is external), relatório recém-publicado pelo britânico Kew Royal Botanic Gardens, instituição prestigiada, dirigida pelo investigador brasileiro Alexandre Antonelli, ajuda a responder a esta pergunta.

O estudo mostra que as plantas comestíveis catalogadas globalmente pela ciência chegam ao impressionante número de 7.039. Destas, 417 são consideradas cultiváveis. As descobertas de novas plantas não cessam. Só em 2019, os botânicos registaram 1.942 novas plantas e 1.866 fungos que ainda não conheciam. No Brasil, duas novas espécies de mandioca selvagem foram catalogadas.

As plantas catalogadas em 2019 concentram-se na Ásia (36%) e na América Latina (34%), confirmando a liderança em biodiversidade dos territórios situados no Hemisfério Sul. Mas, diante desta diversidade, por que então falar em monotonia?

É que esta espetacular variedade quase nunca chega ao seu prato. Cerca de 90% do que a humanidade ingere vem de apenas 15 produtos plantados, dos quais dependem a alimentação humana e a alimentação animal contemporâneas. Quatro mil milhões de pessoas têm a sua alimentação baseada quase exclusivamente em arroz, milho e trigo.

Os processos de transformação industrial ampliam a variedade da oferta de produtos, mas não a biodiversidade daquilo de que são feitos. Pelo contrário, esta é sistematicamente reduzida em benefício de componentes industriais que permitem fabricar o gosto, o aroma, a consistência e a aparência do que é vendido, sobre a base da escassa variedade do que vem das plantas.

O problema não é o alimento industrializado — como o macarrão, o queijo ou o azeite, por exemplo. O busílis da questão é a ampliação do ultraprocessamento alimentar, que se apoia em matérias-primas básicas e pouco variadas e, ao mesmo tempo, numa engenharia de alimentos cada vez mais poderosa, como vêm mostrando diversos trabalhos do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP(link is external).

É aí que se encontra o vínculo fundamental entre a organização da agropecuária, a saúde humana e o estado atual da biodiversidade. A monotonia e a escassez em géneros naturais dos produtos ultraprocessados (aliadas a técnicas que neles introduzem componentes artificiais e, frequentemente, viciantes) são um dos mais importantes vetores da pandemia global de obesidade(link is external). Ao mesmo tempo, a homogeneidade e a baixa diversificação dos ambientes agropecuários são determinantes fundamentais da erosão global da diversidade genética, como mostra a Avaliação Global da Biodiversidade e dos Serviços Ecossistêmicos(link is external).

Um dos elementos mais preocupantes da erosão genética contemporânea está nas gigantescas concentrações animais(link is external), sobre a base das quais o mundo tem, hoje, proteínas mais baratas do que nunca. Estas concentrações representam riscos crescentes à saúde pública e ao meio ambiente.

Tim Spector(link is external), epidemiologista genético britânico, acaba de publicar um livro em que recomenda não tal ou qual regime alimentar, não quantas vezes por dia cada um deve comer, ou quanto exercício fazer, mas, antes de tudo, uma dieta com ao menos trinta plantas diferentes por semana. Para Spector, os alimentos ultraprocessados deveriam ser taxados e o produto desta imposição deveria subsidiar e baratear a diversificação do consumo comida de verdade — sobretudo, frutas e vegetais. Para ele, estimular a arte da cozinha doméstica é parte importante da necessária transição. Aprendemos a ler e escrever, mas precisamos também aprender mais sobre comida e cozinha.

A integração entre saúde, produção agropecuária e fortalecimento dos serviços ecossistémicos indispensáveis à vida social será um dos maiores desafios da Conferência Global sobre Biodiversidade(link is external), que deveria ter acontecido na China e foi transferida para o ano que vem, em função da pandemia. O que está em jogo são, em primeiro lugar, as florestas tropicais e a urgente necessidade de interromper sua devastação. Mas, no programa da conferência, estará também não só a maneira como se usa a floresta, mas o vínculo entre agropecuária, saúde e erosão da biodiversidade.

A Organização Mundial da Saúde, a Organização Mundial da Saúde Animal e a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação estão a trabalhar juntas em torno da noção de One Health (algo como “a saúde é uma só”). Mas, como mostra um trabalho recente de investigadores da Fondation Nationale des Sciences Politiques(link is external), multiplicam-se as iniciativas que procuram compreender e elaborar políticas juntando padrões de consumo alimentar, produção agropecuária, saúde humana e meio ambiente.

Para o Brasil, esta unidade é um trunfo e um imenso desafio. O trunfo está no facto de sermos o país mais mega-diverso do planeta, apesar do abalo na nossa reputação global — derivado do avanço da destruição na Amazónia, no Pantanal, no Cerrado e do descaso das atuais políticas governamentais em preservar estes patrimónios universais pelos quais os brasileiros deveriam ser responsáveis.

O desafio é que de nada adianta alardearmos a condição de maiores exportadores mundiais de alimentos, se um dos mais importantes resultados deste desempenho for a erosão da diversidade genética da agropecuária e produtos cuja transformação — e cujo uso — fazem parte de um problema que a humanidade quer combater: a pandemia de obesidade.

A eficiência no mundo contemporâneo exige uma abordagem que vá além da capacidade de produzir a baixo custo. O maior desafio está em articular organicamente produção agropecuária, o fortalecimento da biodiversidade e melhoria na saúde humana. Nisso, o Brasil teria tudo para assumir a liderança global.

Ricardo Abramovay é sociólogo, professor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo, autor de vários livros. É especialista em sociologia rural e desenvolvimento sustentável.

domingo, 22 de novembro de 2020

Mata de Albergaria
Por Jorge Araujo
As florestas
Sob a designação genérica de floresta encobre-se um equívoco de consequências gravosas: no mesmo saco, incluímos o que resta da floresta autóctone (bosque, mata), o que foi domesticado pelo Homem (montado) e os povoamentos arbóreos para produção (pinhais, eucaliptais, castinçais).
O neolítico trouxe a reconversão progressiva do modo de vida de caçador-recolector para o agro-pastoril e, consequentemente, uma pressão sobre a floresta para libertação de terrenos destinados à pastorícia e à agricultura. Se até então, a floresta tinha evoluído ao sabor dos movimentos tectónicos e das alterações climáticas, na escala dos milhões de anos, a partir do neolítico, a intervenção humana acelerou drasticamente a sua mutação, na escala dos milhares ou mesmo das centenas de anos.
A chegada dos romanos à Ibéria por volta de 218 aC veio acentuar essa pressão pois, não só pretendiam substituir os cartagineses e fenícios na exploração das riquezas minerais, mas também produzir trigo, de que necessitavam para alimentar o Império. Aliás, todo o Norte de África, integrado no Império Romano, formatou-se como um imenso celeiro de Roma. Durante os 600 anos que permaneceram na Península, os romanos substituíram a economia de subsistência das primitivas tribos por grandes unidades de exploração agrícola, produtoras de azeite, vinho, cereais e pecuária. Em suma, com os romanos, assistiu-se à primeira grande transferência de solo florestal para a agricultura e a pastorícia.
Não esqueçamos ainda que a madeira foi, até ao advento dos combustíveis fósseis, e mesmo depois em muitas regiões, a principal fonte de energia para aquecimento e indústrias; as energias do vento e da água eram supletivas e aproveitadas para moagem e pouco mais. Portanto, a floresta autóctone teve de ser ela a suprir a “parte de leão” das necessidades energéticas, ao mesmo tempo que se via progressivamente amputada do seu solo em proveito da agricultura e da pastorícia; e isto... durante séculos!
Uma solução airosa foi encontrada no Sul onde dominavam as quercíneas perenifólias, a azinheira e o sobreiro. A astúcia consistiu em desadensar o bosque, abrindo espaço para o pastoreio, nomeadamente do porco preto, mas poupando as árvores, as quais foram sujeitas à poda, que favorece a produção de bolota, de que se alimentavam os suínos. A esta solução atribui-se a designação de “montado”. A cortiça, adquirindo um estatuto económico relevante, contribuiu para a sustentação económica dos montados, na perspetiva de sua exploração em uso múltiplo. 

Mas mesmo o montado, apesar do compromisso que representava com a pastorícia, não resistiu, já no séc. XX, à agricultura impulsionada pela política que visava a auto-suficiência da produção do trigo. Em 1929, inspirado na “Bataglia del grano” promovida por Mussolini, na Itália, o Estado Novo, ignorando as advertências de quem sabia, designadamente do Prof. Azevedo Gomes, lançou a “campanha do trigo” que teve a sua maior expressão no Alentejo e, por via da qual, foi subsidiado o arroteamento de vastas áreas de montado e matos para expansão da cultura do trigo. A erosão e o esgotamento da pouca fertilidade dos solos, maioritariamente delgados, conduziram rapidamente ao insucesso: a partir de 1934, a produção não cessou de decair.

Chegados ao séc. XXI, Portugal tem pela frente um desígnio maior: reconstituir grande parte do seu património florestal, inspirando-se na composição das florestas autóctones. 

Em boa verdade, a maior parte do coberto vegetal que tem ardido, é composto por uns miseráveis povoamentos de pinheiros e de eucaliptos com que foi substituída a floresta autóctone ou ocupados os campos abandonados pelas culturas tradicionais, pouco resilientes no contexto da economia aberta. Quem atravessar as nossas Beiras (e não só), encontrará extensas manchas verdes, enganosamente florestais, candidatas a mudarem para cinzento, e extensas manchas cinzentas à espera de reverdecerem para de novo voltarem a arder.

Impõe-se quebrar este ciclo verde-cinza. Não vale a pena culpabilizar a economia; do mesmo modo que só se eliminarão os plásticos abandonados quando estes forem generalizadamente reconhecidos como matéria-prima valiosa para indústrias transformadoras, também a floresta só será protegida quando o seu repovoamento, manutenção e proteção assentarem numa equação económica robusta. Mas, para tal, importa atribuir valor ao que tem valor: isto é, aos serviços que a floresta nos presta.

• As florestas são sumidouros de carbono, e produtores de oxigénio que nós consumimos em cada segundo das nossas vidas. Quanto vale este serviço?

• As florestas são a única barreira eficaz contra a desertificação: cortam o vento, retêm a água, enriquecem o solo, regulam o regime das chuvas, refrescam o ambiente. Estamos dispostos a prescindir delas? Quanto vale este serviço?

• As florestas pintam paisagens que nos encantam, e nos repousam fazendo esfumar-se o stress; oferecem-nos também ambientes propícios a atividades de lazer e desporto. Quanto vale este serviço?

• As florestas e a sua biodiversidade são um dos ativos do território mais importantes para a promoção do turismo. Quanto vale este serviço?

• As florestas fornecem-nos diversos materiais como madeira, cortiça e resina, que o Homem explora desde sempre; mas também frutos, cogumelos, mel e muito mais.
  
Enquanto não estivermos dispostos a reconhecer e contabilizar os inúmeros e insubstituíveis serviços que a floresta nos presta, se for genuína e acarinhada, encararemos sempre a reflorestação como um pesado encargo e não como um investimento. E é aí que está o busílis! 
A par da floresta autóctone, pode e deve haver, em terrenos apropriados e de forma regulada, agricultura florestal (silvicultura) para produção de madeiras e de pasta de celulose, que se enquadram, é bom de ver, na fileira do sequestro de carbono desde que, depois de usados, esses materiais não sejam queimados, mas sim reciclados.
Daí a importância, também, da economia circular!

Fuga anual ao fisco em Portugal chega a 900 milhões e dava para contratar 50 mil enfermeiros

Maior parte do dinheiro drenado abusivamente dos impostos portugueses foi apropriado por "milionários" a título individual, por particulares, diz o novo estudo da Tax Justice Network

Fonte: aqui


A fuga, a evasão e o abuso fiscal cometidos contra o Estado e os contribuintes portugueses por empresas, fundos e particulares ascenderá atualmente, em Portugal, a mais de mil milhões de dólares, cerca de 900 milhões de euros, calcula a organização Tax Justice Network na primeira edição do The State of Tax Justice (O Estado Atual da Justiça Fiscal), divulgada esta sexta-feira.

Num ano de pandemia e de morte como este 2020, a perda infligida aos cofres portugueses daria para pagar salários a 49.651 enfermeiras e enfermeiros durante um ano, exemplificam os autores.

O relatório é publicado pela Tax Justice Network em colaboração com mais duas organizações pela transparência fiscal: Public Services International e Global Alliance for Tax Justice.

Este estudo, que foi avançado esta tarde pelo Jornal de Negócios, mostra que a situação da fuga ao fisco e do abuso fiscal é algo degradante, tendo em conta os valores astronómicos envolvidos.

Todos os países do mundo somados "perdem anualmente mais de 427 mil milhões de dólares em impostos por causa do abuso fiscal internacional".

Desses 427 mil milhões de dólares desviados a nível global, mais 57% (245 mil milhões de USD) "são perdidos para empresas multinacionais que transferem lucros para paraísos fiscais com o objetivo de subdeclarar rendimentos obtidos em países onde fazem negócios e, consequentemente, pagar menos impostos do que deveriam", dizem os autores do estudo.

"Os restantes 182 mil milhões de dólares são perdidos para milionários que escondem ativos e rendimentos não declarados no exterior, fora do alcance da lei".

Em Portugal é ao contrário

Curiosamente, em Portugal é ao contrário. Os mais ativos e os que maior rombo cometem nos cofres públicos são particulares, "milionários", que conseguem com a ajuda de consultores e advogados drenar, por ano, qualquer coisa como 552 milhões de dólares (466 milhões de euros a preços atuais).

Ou seja, esses indivíduos são responsáveis por 53% do prejuízo fiscal cometido em Portugal durante um ano.

O resto do abuso é perpetrado por "corporações multinacionais", que conduzem à "perda" de 494 milhões de dólares em impostos, em Portugal.

Em ano de pandemia, o estudo sobre o "Estado Atual da Justiça Fiscal" faz contas ao "impacto social da perda fiscal".

A fuga ao Fisco em Portugal daria para financiar quase 8% do orçamento anual da Saúde pública e mais de 9% da despesa com educação, por exemplo.




O Papel da Escola e dos Educadores


Numa época em que a Escola se adapta a novas realidades e em que o processo de ensino-aprendizagem se reinventa, temos o prazer de convidar a assistir ao webinar da Escola Amiga - O Papel da Escola e dos Educadores.
Um webinar no qual se refletirá sobre o novo papel da Escola e dos agentes educativos, abordando questões como: a missão da escola; o papel do professor; o currículo, sua adequação e extensão; a autonomia dos alunos e o acesso ao ensino superior.
Nesta sessão serão apresentadas as conclusões do estudo realizado junto de mais de 23 000 encarregados de educação O webinar está organizado em duas partes:
• Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo, Teresa Damásio

Um primeiro momento, de debate, moderado pelo professor Eduardo Sá, com a participação especial de: • Secretário de Estado Adjunto e da Educação, João Costa • Conselho das Escolas, Jorge Nascimento • Associação Nacional de Escolas Profissionais, Luís Presa
No segundo momento será efetuada a apresentação dos principais resultados do estudo por parte da professora e investigadora Maria da Conceição Silva, da Católica Porto Business School.
• Confederação Nacional das Associações de Pais, Jorge Ascenção

sábado, 21 de novembro de 2020

Raiz - Uma viagem pelas origens do surfe, canoa polinésia, stand up paddle e prone paddleboard




Há cerca de 3.500 anos, os polinésios deram início a uma das mais extraordinárias sagas da humanidade.

Povo do mar, navegaram uma área de área oceânica gigantesca povoando, ao longo de séculos, diversas ilhas do Pacífico, como o Havaí e o Taiti.
Os polinésios aprenderam a direcionar suas canoas seguindo sinais da natureza e provavelmente, foram os primeiros a utilizar as estrelas para se localizar no oceano.

Essa ligação umbilical com os elementos da natureza também se refletiu em expressões genuínas, como o surfe, a canoagem polinésia, a dança e a tatuagem.

Esse legado, contudo, quase desapareceu da face da terra após a chegada dos colonizadores ocidentais, introduzindo novos costumes e hábitos.

No entanto, a cultura polinésia encontrou a resistência necessária por meio de personagens centrais, que deram vida a atividades esportivas e culturais capazes de impactar a organização de várias sociedades pelo mundo.

Com efeito, esta é a história de “Raiz: uma viagem pelas origens do surfe, canoa polinésia, stand up paddle e prone padlleboard”, primeira obra de Luciano Meneghello, jornalista especializado em esportes de água:

“Praticados em todo o mundo, esportes como o surfe e a canoa havaiana possuem uma aura moderna, mas muita gente não se dá conta de que são atividades que têm uma origem ancestral“, conta o autor.

  Livro encontra em fase de pré-venda com valor promocional. Foto: Reprodução


Através de 96 páginas, Raiz revela como esses esportes sugiram e de que maneira ajudaram a manter viva uma das culturas mais fascinantes do mundo.

Lançado no mês de agosto em formato digital (e-book), Raiz agora também está disponível em edição impressa.

O livro está em pré-venda no site da editora Ipêamarelo e pode ser comprado por um valor promocional de R$ 30,00 até 23 de novembro.

Para mais informações, acesse editoraipeamarelo.com.br.

Roubo ao copo

Em Espanha, o sistema de vinho a copo serve para, a preços sensatos, dar a conhecer marcas desconhecidas. Por cá serve para os donos dos restaurantes financiarem os seus negócios. Sem vergonha, cobram por um copo mais do que o valor comercial da garrafa. Isto não é especulação - é roubo.


Edgardo Pacheco 07 de Outubro de 2017 às 13:00


Por razões relacionadas com o fantástico universo queijeiro espanhol, passei uns dias em Santander a provar coisas feitas nas Astúrias, na Cantabria, em Castela La Mancha e noutros territórios. Pelos queijos portugueses dou o peito, mas não escondo certa paixão pelos Cabrales, Manchegos de cura prolongada ou queijos de leite de vaca como o Quesoba. Nós temos denominações de origem protegida que me encantam, mas os espanhóis têm uma criatividade, a partir de leite de ovelha, cabra e vaca, que me deixa em silêncio prolongado quando sinto os aromas e sabores inusitados dos seus queijos - sempre intensos e sempre marcantes pelo terroir. Por mais anos que viva nunca conseguirei descrever um poderoso Cabrales. É muito aroma e sabor para um só homem.

Sucede que um queijo pede sempre um vinho (regra geral um vinho branco ou vinho doce). E sucede ainda que nos restaurantes, bares ou tabernas de Santander o vinho é algo muito sério. Tão sério que os empresários lá da terra entendem que o vinho é um elemento que atrai e não assusta os consumidores.

Em quatro dias, o vinho a copo mais caro que provei em Santander foi, curiosamente, feito na Borgonha, e pelo estrondoso valor de €3. De resto, tive a oportunidade de provar Albarinos extraordinários por €2,5 e Ruedas e Riojas a €2.

Na Bodega Cigalena - uma instituição de Espanha fundada em 1949, com 5.000 referências à disposição dos clientes e que apresenta como garrafa mais antiga um vinho português (Malvasia Cândida de 1811) - há todos os dias 18 vinhos a copo à venda (espanhóis e internacionais), sendo que o valor máximo cobrado é €2,70. Só não apanhei uma tempestade etílica porque, com a idade, um tipo percebe quando um copo a mais deixa de ser prazer para ser exercício ridiculamente atoleimado.

Resultado, toda a gente bebe vinho, toda a gente prova vinhos que desconhecia (tomando depois decisões sobre compras futuras), sendo que os fulanos do restaurante não têm mãos a medir na abertura de garrafas. E isto porque, no entender dos responsáveis da Bodega Cigalena, faz sentido pedir €22 por um prato de presunto de lei que demorou sete ou oito anos a chegar ao consumidor, mas é ridículo pedir por um copo de vinho com um ano de vida o preço do valor comercial da garrafa. E este raciocínio funciona na Bodega Cigalena como funciona em qualquer outro restaurante da cidade.

Agora, vejamos o que se passa em Portugal. Há 20 anos, ninguém acreditava no conceito de vinho a copo na restauração. Que não fazia parte dos nossos hábitos; que era interpretado como vinho menor e que - claro - seria um prejuízo para os restaurantes porque ficariam com garrafas meio vazias sem venda.

Instituições como a Revista de Vinhos ou a Viniportugal começaram, há cerca de 15 anos, a promover a venda de vinho a copo. Conservador por natureza, o sector começou por recusar o sistema para, com a chegada do turismo - e bem assim a abertura de dezenas de restaurantes por dia -, ceder à selecção de um conjunto de vinhos a copo.

Em tese, a venda de vinho a copo serviria para, em primeiro lugar, dar a oportunidade aos consumidores de provarem um ou dois copos de vinho numa refeição (sem terem de comprar uma ou meia garrafa), trocarem de marca e, claro, reduzirem o esforço financeiro.

Mas, na prática, o que acontece é que a estratégia de vinho a copo é um assalto ao bolso dos consumidores e uma falta de respeito pelo trabalho dos produtores. É preciso dizer isto desta forma: o vinho, vendido a garrafa ou a copo, continua a ser uma estratégia de financiamento do negócio da restauração.

E se já estávamos habituados aos preços exorbitantes de uma garrafa na restauração, ainda havia esperança de que a venda a copo mudasse as coisas. Qual quê? Piorou tudo. Sei muito bem o que significa especular, mas quando alguém me cobra - é só um exemplo que me ocorre por proximidade geográfica - €4 por um copo de Planalto, sendo que a garrafa para o empresário lhe custou três euros e qualquer coisa - não estamos perante especulação: estamos perante um roubo descarado ao produtor e um insulto aos consumidores.

Os meus amigos da restauração falam os seus custos e das tradições em tudo isto. Mas eu costumo retorquir-lhes com o seguinte exemplo. "Se, por hipótese, eu contratasse uma refeição vossa para um casal de estrangeiros que não conhece o país por, digamos assim, €100 euros e, depois, fosse divulgado publicamente que eu teria cobrado ao referido casal €500 pelo mesmo serviço, que rol de nomes vocês não me chamariam?" A resposta varia sempre entre o silêncio e o "depende das circunstâncias". E, pelos vistos, não se vislumbram tempos mais civilizados.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Rio sabe bem falar chegano


Na entrevista desta semana à TVI, Rui Rio esclareceu o seu acordo com a extrema-direita: o líder do PSD concorda mesmo com as quatro propostas feitas pelo Chega para apoiar o Governo da direita. Ao mesmo tempo que declarava que um Governo liderado por si “nunca dependerá da extrema-direita”, Rio adotava já as categorias do Chega na descrição e classificação da realidade. Reagindo com nervosismo às perguntas dos jornalistas, o momento não deixa de ser impressionante pela prova de fraqueza: Rio não apenas depende do apoio do Chega nos Açores, como reproduz os termos de debate escolhidos pela extrema-direita sobre a pobreza e a sociedade.

Os pontos negociais de Ventura, já se sabe, são atoardas retóricas sem qualquer credibilidade nem concretização: “diminuir a subsidiodependência”; um “gabinete contra a corrupção”; “diminuir deputados” (decisão que nem depende do Parlamento açoriano); “aprofundar a autonomia”. Confirmam, no fundo, o quanto aquele se move por propaganda e não por propostas, por oportunismo e não por qualquer coerência programática, permitindo-se dar o dito por não dito em troca da inscrição de alguns slogans no programa do governo açoriano. Mas o facto de o PSD, através do seu líder, reproduzir nas suas intervenções esses termos revela uma desorientação que é também uma reorientação do posicionamento do partido.

O caso do RSI é um clássico dessa retórica, que contrasta com a realidade que os números traduzem. Num arquipélago em que deveria ser central o combate à pobreza (articulando apoios sociais com investimento em emprego, educação, habitação…), o PSD aceitou substituí-lo retoricamente pelo combate aos pobres. Como se a redução administrativa de um apoio social que tem o valor de 86 euros por mês nos Açores (sim, é este o valor médio do RSI no arquipélago, por beneficiário, o mais baixo de todo o país, já agora) resolvesse alguma coisa além de aumentar o sofrimento e a privação absoluta dos mais miseráveis. Com várias agravantes. Cerca de um terço dos beneficiários do RSI nos Açores são crianças menores de idade, que não poderiam em nenhuma circunstância trabalhar. Uma boa parte dos beneficiários adultos são mulheres, muitas delas cuidadoras informais, que só por insulto se pode dizer que “não trabalham”, mesmo que não tenham emprego nem remuneração pelos cuidados que prestam a crianças, idosos e pessoas dependentes. E quase 10% dos beneficiários do RSI tem rendimentos do trabalho, mas recebe tão pouco nos biscates precários, nos empregos sazonais ou nas tarefas pontuais que encontra que continua a precisar do RSI – sobretudo, para que os seus filhos não passem fome.

Ouvimos a Rui Rio alguma palavra sobre investimento em educação, reconhecimento das cuidadoras ou mudança de paradigma da economia local? Nada. Zero. Só o preconceito, a desinformação e a culpabilização dos pobres. Como a extrema-direita, nenhum beliscão nos poderes e nas elites económicas que vivem, essas sim, de uma cultura de dependência em relação ao Estado, numa economia em que, até pela insularidade e pela condição ultraperiférica da região, não há praticamente nenhum setor (da agricultura ao turismo ou à indústria) que não receba apoios públicos.

Para quem é do Porto, talvez a entrevista de Rio tenha sido menos surpreendente. A retórica sobre os “subsidiodependentes” foi uma constante nos seus mandatos à frente da Câmara, usada contra os pobres e contra os trabalhadores das artes. Rio mandou expulsar moradores do São João de Deus, do Cerco, do Bacelo e demoliu bairros pobres com o argumento da “luta contra a droga”, mas o negócio da droga ficou intocado e redução de riscos nem vê-la (ainda hoje se vivem as consequências dramáticas da irresponsável demolição do Aleixo e da ausência de políticas públicas nesta área, que fez migrar o tráfico, descontroladamente, para a Pasteleira). Nas artes, procurou silenciar os coletivos artísticos, acabou com os apoios aos criadores e com a agenda cultural, concessionou a La Féria o teatro municipal – ao mesmo tempo que canalizava milhares de euros do orçamento municipal para financiar corridas de carros e de aviões. Abriu guerra aos jornais – Público e Jornal de Notícias – pedindo a demissão de jornalistas e utilizando o site da Câmara para intimidá-los. Alienou património público como nunca fora feito. Tudo isto foi acompanhado com pormenores de cinismo, como a célebre viagem de barco pelo rio Douro para abrir uma garrafa de champanhe com os convivas enquanto as torres do Aleixo eram demolidas e, em terra, mulheres gritavam de raiva ao ver a sua casa demolida, homens choravam com o espetáculo e as crianças assistiam atónitas ao que acontecia.

Rio conta, até agora, com um quase silêncio nas estruturas do PSD (com honrosas exceções como a de Moreira da Silva), com o apoio excitado de liberais como João Miguel Tavares (para quem os princípios democráticos devem ser interrompidos face ao objetivo de chegar ao poder) e com o entusiasmo da ala radical dos apoiantes de Passos Coelho (sempre de olhos no pote). Resta saber se, aceitando as categorias de pensamento do Chega sobre a perseguição aos pobres, não se demarcando das tiradas racistas de Ventura (como a desta semana), alienando os votantes do centro político e legitimando a extrema-direita como parte de uma solução comum, Rio não estará mesmo a ditar a sua própria sentença. É que tudo isto não faz um projeto. Faz um buraco.

Barbárie ou o quê?


Fonte: aqui

Hoje ficámos a saber que 1% da população mundial, a mais rica, causa metade das emissões de CO2 da aviação. Razão tinha Chico Mendes, sindicalista-ambientalista brasileiro, assassinado em 1988, quando disse que “ambientalismo sem luta de classes é jardinagem”.

Entretanto, o Financial Times informa-nos que, para lá de andarem cada vez mais em aviões próprios ou alugados, os super-ricos estão a pagar cada vez mais por protecção privada, incluindo bunkers e toda uma gama de serviços, face às catástrofes ambientais e de saúde presentes e futuras causadas pelo sistema que controlam. Na Comporta, por exemplo, seguem certamente esta tendência internacional.


Se depender deles, a barbárie ganha sempre.