sexta-feira, 31 de julho de 2020

O carvão e a economia circular

Por Filipe Duarte Santos
A motivação para a economia circular é de natureza ecológica mas também económica, dado que, sendo a procura de recursos naturais renováveis e não renováveis cada vez maior, o aumento do seu custo tende a dificultar o crescimento económico.

Os primeiros registos do uso do carvão encontram-se na China e datam de 4000 anos a.C. O filósofo grego Teofrasto, sucessor de Aristóteles, refere no seu livro Sobre as Pedras o carvão mineral como pedra que arde tal como o carvão vegetal. Mais tarde, o carvão acabou por desempenhar um papel central na civilização emergente da Revolução Industrial. A Grã-Bretanha, sendo muito rica em carvão, usava-o desde a Idade do Bronze, e especialmente durante a colonização romana, como combustível e para a fundição de metais. A partir do século XIII, os depósitos superficiais esgotaram-se e foi necessário explorá-lo em minas. Porém, as minas de carvão e estanho tinham o problema de acumularem água, impossibilitando a extracção dos minérios. Em 1712, Thomas Newcomen, um ferreiro inglês, inspirado na máquina a vapor rudimentar de Thomas Savery e na máquina a vapor com pistão muito mais evoluída do físico francês Denis Papin, construiu uma para ser utilizada nas minas. Finalmente, em 1776, James Watt, um técnico de laboratório da Universidade de Glasgow, em colaboração com Matthew Boulton, conseguiu melhorar muito o modelo de Newcomen e comercializar a nova máquina, contribuindo de forma decisiva para o avanço da Revolução Industrial.

A partir dessa época, o carvão teve uma história de grande sucesso. Em 1800, as duas únicas fontes primárias de energia à escala global (para além da muito pequena contribuição da força motriz da água nos moinhos de água e dos moinhos de vento e barcos à vela) eram o carvão, com 1,7% do total, e a biomassa, com 98,3%, principalmente sob a forma de lenha. Em 1900, o carvão representava 47% do total das fontes primárias globais de energia, e surgia o petróleo com 1,5%, o gás natural com 0,53%, a hidroelectricidade com 0,14%, sendo o restante a biomassa tradicional (Smil, 2017). No princípio da década de 1960, o petróleo ultrapassou o carvão, e de 1971 a 2015 os combustíveis fósseis asseguraram entre 78,7% e 84,8% do consumo global de energia (World Bank, 2020). Para além destes sucessos notáveis, importa recordar que as centrais térmicas a carvão têm externalidades negativas sobre a saúde humana e o ambiente ao emitirem material particulado, dióxido de enxofre, óxidos de azoto, crómio, arsénio e gases com efeito de estufa, especialmente o dióxido de carbono (CO2). Em 2008, a Organização Mundial da Saúde advertiu que as emissões provenientes das centrais a carvão provocam um excesso global de mortalidade estimado em cerca de um milhão de pessoas por ano.

Desde as publicações do químico sueco Svante Arrhenius, nos finais do século XIX, sabe-se de forma quantificada que o CO2 emitido na combustão dos combustíveis fósseis, por ser um gás com efeito de estufa, causa uma alteração do clima global que se traduz por um aumento da temperatura média da atmosfera à superfície, para além de outros efeitos. As emissões de CO2 variam com o tipo de combustível fóssil e as condições em que se faz a sua combustão. O carvão é o que mais emite com um valor médio próximo de 1000 g de CO2 equivalente por cada kWh gerado, podendo atingir valores superiores a 1500 g. Segue-se o petróleo, com um valor médio próximo de 760 g de CO2 equivalente por cada kWh gerado, e, por fim, o gás natural com um valor médio mais baixo próximo de 490 g. Será necessário diminuir drasticamente o uso mundial do carvão para haver alguma esperança de cumprir o Acordo de Paris.

Surge a pandemia de covid-19 e há tendências que se intensificam. Com a gravíssima crise de saúde, social e económica, que está a afectar sobretudo os países mais pobres e frágeis, o consumo de energia eléctrica baixou e nas economias avançadas o uso do carvão deixou de ser competitivo face às energias renováveis e ao gás natural. As importações de carvão para a UE diminuíram nos últimos meses cerca de dois terços. Nos EUA, a percentagem de uso de carvão na geração de energia eléctrica poderá chegar a um mínimo de 10%. Em 2017, o Governo português, com o objectivo de atingir a neutralidade carbónica em 2050, decidiu encerrar as centrais termoeléctricas a carvão, em Sines e no Pego, até 2030. Porém, a quebra no uso do carvão começou a dar-se muito mais cedo quando o consumo passou de 4,5 milhões de toneladas em 2018 para 2,09 milhões em 2019. Devido à queda de rentabilidade, a EDP adiantou a data de fecho de Sines para 2023. Com a crise da covid-19, a EDP surpreendeu o Governo ao anunciar em 14 de Julho o encerramento da central de Sines em Janeiro de 2021 quando espera ter consumido o carvão que tem armazenado. É provável que o pico do consumo global do carvão tenha sido ultrapassado, o que são boas notícias para a saúde humana e para o clima. Será que a tendência de fuga ao carvão se vai manter? É provável, mas longe de estar garantido porque as economias emergentes, especialmente a China e a Índia, registam um enorme aumento da procura de energia e o carvão é ainda abundante e economicamente acessível.

O que tem o carvão que ver com o conceito de economia circular, com origem nas ideias desenvolvidas em 1976 pelo arquitecto suíço Walter Stahel? A ideia fundamental é adoptar uma economia baseada em processos cíclicos “do berço ao berço” em lugar de processos lineares de extracção, produção e descarte, ou seja, “do berço ao túmulo”. A motivação para a economia circular é de natureza ecológica mas também económica, dado que, sendo a procura de recursos naturais renováveis e não renováveis cada vez maior, o aumento do seu custo tende a dificultar o crescimento económico. É pois necessário reduzir, reciclar e reutilizar. Afinal é aquilo que faz a biosfera com grande mestria ao desconhecer os conceitos de descarte e lixo. O seu metabolismo recicla todos os dejectos e todos os organismos que morrem. Ao beneficiar de cerca de 4000 milhões de anos de evolução, os processos de reciclagem da biosfera tornaram-se extremamente eficientes. Mas como em tudo na vida, houve falhas que originaram impasses.

Uma delas deu-se no Carbonífero, que ocorreu no período de há 358,9 a 298,9 milhões de anos, quando as plantas, cuja origem se encontra nas algas marinhas, desenvolveram a capacidade de colonizar e dominar a terra firme. Para tal foi necessário protegerem-se das radiações ultravioletas solares e adquirirem uma rigidez estrutural robusta para contrariar a gravidade e assim conquistar a dimensão vertical. Foi assim que a evolução das plantas sintetizou alguns polímeros, tais como, lignina (do latim lignum para madeira), suberina (associada ao sobreiro através do seu nome científico de Quercus suber) e cutina (componente da cutícula das plantas). As condições climáticas do Carbonífero nos trópicos permitiram a formação de extensas florestas em zonas húmidas, lacustres e lagunares. Muitas das árvores mortas ficaram submersas, dificultando a sua decomposição. Quando a lignina surgiu, não havia organismos capazes de a decompor, pelo que os troncos não sofreram decomposição e acabaram por ser cobertos por sedimentos, transformando-se em turfa, lenhite e carvões minerais mais ricos em carbono. Para sair do impasse, a evolução da biosfera levou dezenas de milhões de anos até produzir fungos lignolíticos capazes de digerir a madeira, processo também designado por podridão branca, castanha ou mole da madeira.

As consequências deste impasse na economia circular da biosfera foram muito significativas. As emissões de CO2 para a atmosfera diminuíram devido à menor decomposição da biomassa das árvores e, consequentemente, no Carbonífero a concentração de CO2 atingiu valores de cerca de 100 ppmv (partes por milhão em volume) (Feulner, 2017), quatro vezes inferior aos valores actuais (417,1 ppmv em Maio de 2020). Este decréscimo da concentração do CO2 provocou uma intensa época glacial no princípio do Pérmico. Outra consequência do impasse foi que as “florestas do carvão” do Carbónico eram de tal modo extensas e exuberantes que aumentaram a concentração do oxigénio molecular na atmosfera para cerca de 30% (50% mais do que o valor actual de 20,946%), gerando um impulso evolutivo, que conduziu ao surgimento de insectos e anfíbios gigantes, e a um provável aumento da biodiversidade global.

O carvão mineral que moldou a nossa civilização e mudou o clima global é afinal a história de uma falha no metabolismo da biosfera. Agora, a era do carvão dá sinais de terminar. A mesma história revela a incomensurável distância que separa o engenhoso e eficiente metabolismo da biosfera da rudimentar economia circular da tecnosfera.


Professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa


quinta-feira, 30 de julho de 2020

Conservação da natureza, biodiversidade, desenvolvimento sustentável e saúde

Por José Manuel Calheiros

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Medicamento da Idade Média pode ser a chave para travar infeções bacterianas

Fonte: aqui


Uma investigação de uma universidade britânicos a antibióticos ancestrais revelou que um medicamento da era medieval pode ser a solução para tratar infeções modernas.

Em questão está um milenar remédio caseiro, chamado de ‘colírio de Bald’, à base de uma mistura entre cebolas, alho, vinho e sais biliares.

Durante o estudo dos efeitos deste medicamento no organismo, os investigadores da Universidade de Warwick descobriram que tem a capacidade de produzir atividade antibacterial. Ademais, a combinação de ingredientes mostrou causar danos reduzidos às células humanas.

A mescla funciona apenas, explicam os investigadores, porque “há um trabalho de equipa” entre os componentes. O alho, que contém alicina, é responsável por travar grupos bacteriais unicelulares, mas, sem os outros ingredientes, não é capaz de bloquear biofilmes - comunidades de bactérias resistentes a antibióticos.


A maioria dos antibióticos que usamos hoje são derivados de compostos naturais, mas esta descoberta destaca a necessidade de explorar não apenas compostos únicos, mas misturas de produtos naturais para o tratamento de infecções por biofilme”, afirma a Dra. Freya Harrison, da escola de medicina natural da Universidade de Warwick, sublinhando que este medicamento medieval poderá sugerir novos tratamentos para feridas infectadas, como úlceras diabéticas nos pés e pernas. 

O próprio ‘colírio de Bald’ já havia sido estudado pela Dra. Christina Lee em 2015 durante uma extensa investigação ao Medicinale Anglicum, um antigo manuscrito inglês que contém instruções sobre diversos tratamentos médicos.


O colírio de Bald sublinha a importância do tratamento médico ao longo dos tempos. Mostra como as pessoas no início da Inglaterra medieval tinham pelo menos alguns remédios eficazes”, afirma Lee, investigadora da Universidade de Nottingham.

O estudo, publicado esta terça-feira na revista Science, adianta ainda que é necessária mais investigação no âmbito da medicina europeia pré-moderna para determinar se estes resultados vão ser utilizados na criação de um cocktail de produtos naturais “candidatos a serem integrados em pomadas ou outro tipo de curativos”.

terça-feira, 28 de julho de 2020

Infográfico: The World’s Most Powerful Reserve Currencies


Fonte: aqui

The World’s Most Powerful Reserve Currencies

When we think of network effects, we’re usually thinking of them in the context of technology and Metcalfe’s Law.

Metcalfe’s Law states that the more users that a network has, the more valuable it is to those users. It’s a powerful idea that is exploited by companies like LinkedIn, Airbnb, or Uber — all companies that provide a more beneficial service as their networks gain more nodes.

But network effects don’t apply just to technology and related fields.

In the financial sector, for example, stock exchanges grow in utility when they have more buyers, sellers, and volume. Likewise, in international finance, a currency can become increasingly entrenched when it’s accepted, used, and trusted all over the world.
What’s a Reserve Currency?

Today’s visualization comes to us from HowMuch.net, and it breaks down foreign reserves held by countries — but what is a reserve currency, anyways?

In essence, reserve currencies (i.e. U.S. dollar, pound sterling, euro, etc.) are held on to by central banks for the following major reasons:
To maintain a stable exchange rate for the domestic currency
To ensure liquidity in the case of an economic or political crisis
To provide confidence to international buyers and foreign investors
To fulfill international obligations, such as paying down debt
To diversify central bank portfolios, reducing overall risk

Not surprisingly, central banks benefit the most from stockpiling widely-held reserve currencies such as the U.S. dollar or the euro.

Because these currencies are accepted almost everywhere, they provide third-parties with extra confidence and perceived liquidity. This is a network effect that snowballs from the growing use of a particular reserve currency over others.
Reserve Currencies Over Time


Over this timeframe, there have been small ups and downs in most reserve currencies.

Today, the U.S. dollar is the world’s most powerful reserve currency, making up over 61% of foreign reserves. The dollar gets an extensive network effect from its use abroad, and this translates into several advantages for the multi-trillion dollar U.S. economy.

The euro, yen, and pound sterling are the other mainstay reserve currencies, adding up to roughly 30% of foreign reserves.

Finally, the most peculiar data series above is “Other”, which grew from 2.0% to 8.4% of worldwide foreign reserves over the last 15 years. This bucket includes the Canadian dollar, the Australian dollar, the Swiss franc, and the Chinese renminbi.
Accepted Everywhere?

There have been rumblings in the media for decades now about the rise of the Chinese renminbi as a potential new challenger on the reserve currency front.

While there are still big structural problems that will prevent this from happening as fast as some may expect, the currency is still on the rise internationally.

What will the composition of global foreign reserves look like in another 15 years?

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Reportagem: Invasor e superpredador do Tejo está a dizimar espécies nativas





O siluro (Silurus glanis) é uma espécie originária da Europa Central e pode atingir mais de 2,5 metros de comprimento e mais de 100 quilos de peso. Foi detectado pela primeira vez na Península Ibérica no Rio Ebro, em Espanha, em 1974. Na parte espanhola do Tejo, a primeira identificação data de 1998 e na parte portuguesa apenas foi observado em 2014, embora se julgue que tenha chegado em 2006. Os investigadores estimam que a espécie tenha sido introduzida no Tejo espanhol por pescadores alemães que os queriam pescar nas águas do rio ibérico, escreve Luciano Alvarez.

Na zona de Santarém, em 2017, foi capturado o maior espécime conhecido no Tejo português. Tinha 58 quilos e quase dois metros. Já o maior predador apanhado na Europa foi encontrado em 2015, no rio Ródano, em França: tinha 2,73 metros e pesava 130 quilos.

Em 2017, os investigadores do Mare – Centro de Ciência do Mar e Ambiente da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que estudam as espécies não naturais nos rios portugueses, iniciaram uma investigação sobre a presença do siluro no Tejo. Nessa altura, a população era calculada em centenas e as capturas às dezenas. Hoje não têm dúvidas em falar em “dezenas de milhares” de espécimes. Há três anos, os biólogos diziam que podia vir a ser uma ameaça para as espécies nativas. Hoje já não têm dúvidas: “Estão a dar cabo de todas espécies autóctones”, garante Filipe Ribeiro, um dos investigadores do Mare que coordena parte da investigação às espécies não naturais dos rios portugueses.

“Calculamos que, entre margens, exista um siluro por metro de rio. Se se tiver em conta que o Tejo português tem cerca de 120 quilómetros e, em alguns casos, distâncias entre margens com centenas de metros em alguns casos, têm-se uma ideia do número de espécimes no rio. São dezenas de milhares e estão a devorar tudo”, acrescenta este biólogo de 45 anos, especialista em peixes de água doce e espécies invasoras e que continua a acompanhar a evolução dos siluros no Tejo.
Milhares de novas crias todos os anos

Filipe Ribeiro acentua que “o mais preocupante são espécies nativas do Tejo que estão a ser dizimadas”. “Daqui a muito pouco tempo corremos o risco de ter o Tejo sem nenhuma das suas espécies autóctones e que, hoje, já têm uma fraca expressão no rio”, alerta.

Para demonstrar os estragos que este superpredador está a causar no Tejo Filipe Ribeiro explica que, de acordo com estudos científicos europeus, para sobreviver cada siluro necessita de comer 2% do seu peso. Se calcular este peso médio em dez quilos, cada peixe necessita de comer 200 gramas por dia. Se se multiplicar estas 200 gramas por 10 mil espécimes chagamos ao impressionante número de duas toneladas por dia.

Igualmente impressionante é a sua capacidade de reprodução. Uma fêmea jovem de um metro faz uma desova de cerca de 80 mil ovos uma vez por ano. Calcula-se que apenas 1% das crias, cerca de 800, chega à idade adulta. Se se multiplicar por 10 mil são cerca de 8 mil novos espécimes por desova a invadir o rio.

“Estamos a falar de ter uma espécie de leão dentro de água, que tudo come e que a ele ninguém o come em Portugal [em alguns países do centro da Europa o siluro é consumido], porque não há tradição e é um peixe muito feio. Estamos a falar de uma praga, de um predador de topo”, afirma o biólogo do Mare.

O pesadelo dos pescadores

Carlos Serras, 57 anos, deixou o Tejo na madrugada de quinta-feira, já passava da 1h. A norte do cais de Vila Velha de Rodão, no distrito de Castelo Branco, largou no rio 14 redes de pesca.

Não esperam uma grande pescaria. Durante a noite, a barragem espanhola de Cedilho, a norte de Vila Velha de Rodão, libertou uma grande massa de água para o Tejo português. Com ela vieram, lamas, algas, troncos de árvores e outro lixo, que sujaram as redes e fiz com que os peixes delas não se aproximem.

Ao fim de cerca de duas horas apanhou apenas dois lúcios percas, outra espécie invasora do Tejo, mas com valor comercial, já que é consumida na região.

Da água não tiraram nenhuma espécie nativa, nem nenhum siluro, que se transformou num pesadelo para os pescadores.

O mestre Serras pesca no Tejo há mais de 30 anos e, de forma profissional, há cerca de 20. O siluro é um pesadelo para ele. Apanhou o primeiro há dez anos, junto à barragem de Cedilho.

“Os primeiros eram peixes pequenos, para aí com cinco quilos. Algum tempo depois, os que ia apanhando já pesavam dez quilos e não paravam de crescer. O maior que apanhei tinha 44 quilos e 1 metro e 80 de comprimento”, conta.

Aumentou o tamanho e a quantidade. Há duas semanas, em apenas dois dias, apanhou 75 destes superpredadores. “Tenho dias, muitos dias, que tiro mais de 200 quilos desta praga do rio. Já tive dias em que tinha o fundo de um barco de oito metros cheio de siluros”, revela, mostrado que fotografias que ilustram estas situações, não fosse alguém pensar que era mais uma conversa de pescador um bocadinho exagerada.

“A praga” usa-a para colocar como isco nas gaiolas de pesca ao lagostim do rio. Ainda assim, é “um isco ruim”, já que, por deixar pouco sabor na água, não atrai o lagostim.

Em relação aos estragos que os siluros estão a fazer no Tejo e em especial às espécies nativas é ainda mais pessimista que os investigadores:

Diminuir a população “já”

“Há uns anos apanhavam-se barbos e bogas aos milhões. Hoje não se apanha um. E agora está também a dar cabo dos lagostins que, hoje, representam cerca de 70% da facturação de um pescador profissional. É uma coisa monstruosa.”

Carlos Serras que está a ver “a praga a crescer de dia para dia” e diz mesmo que, “se não fizer nada, qualquer dia só há siluros no Tejo”.

E aqui, investigadores e pescadores concordam – é “preciso agir já” e começar a reduzir as populações de siluros no Tejo. Ambos dizem que uma primeira solução poderia passar pelo Governo pagar aos pescadores uma verba por cada quilo de siluro capturado. Carlos Serras diz mesmo que o pagamento de um euro por quilo de siluros capturado “já seria um incentivo motivador”.

Os biólogos que estudam a espécie já aprenderam algumas coisas sobre o seu comportamento, que podem que podem contribuir para reduzir as populações.

Graças a telemetria que fazem há três anos – neste momento há 25 espécimes que têm transmissores acústicos colocados no corpo – já perceberam que, no final da Primavera, reúnem-se grupos em determinados locais das albufeiras das barragens.

“Ainda não percebemos porquê, mas o conhecimento deste facto seria uma possibilidade para, com pouco esforço, fazer grandes capturas e reduzir a população”, explicou ao PÚBLICO Bernardo Quintela, também biólogo do Mare e especialista emigrações e movimentações de peixes.

Todos concordam que estes superpredadores são hoje um problema muito grave no Tejo e que precisa de ser combatido já, até porque o problema pode expandir-se a outros rios. Os siluros já foram confirmados no Douro espanhol e já chegaram aos investigadores portugueses relatos de avistamentos no lado do rio português, embora ainda sem confirmação cientifica.

Créditos da Reportagem: jornal “Público”

Repórteres: Luciano Alvarez ( texto) e Daniel Rocha (fotos)

Nota: as fotografias que ilustram a Reportagem não são do repórter fotográfico Daniel Rocha.

terça-feira, 21 de julho de 2020

5 notas sobre o dinheiro que (não) vem

Fonte: aqui


Após uma maratona negocial que não deixará marcas nas relações entre Estados-membros, o Conselho Europeu chegou a um acordo que representa uma vitória em toda a linha dos países que se auto-intitulam, incorretamente, como frugais. A agenda desses países, escondida através de expressões grandiloquentes como “competitividade” ou “reformas” e referências às “regras europeias” tornou-se absolutamente transparente no acordo final. Vejamos então algumas das primeiras conclusões que podemos tirar:

1. Portugal irá sofrer cortes de 7,5% na Coesão e de 9% na Agricultura. É pura e simplesmente falso que esses cortes sejam compensados pelo Fundo de Recuperação por duas razões: 1) o Fundo de Recuperação é, até ver, dívida (na ausência de novas receitas, limita-se a ser um adiantamento de orçamentos futuros), enquanto o orçamento é financiamento a fundo perdido, e 2) o Fundo de Recuperação é um instrumento extraordinário, enquanto o Orçamento é um instrumento permanente. O Governo aceita os cortes na coesão e agricultura em nome da “compensação” do fundo de recuperação, ou seja, condena o futuro da coesão para salvar o seu presente. É uma boa estratégia para o Governo, mas má para o país.

2. A condicionalidade macroeconómica entra em força e sem ambiguidades nas regras do Fundo de Recuperação e é introduzido um mecanismo de controlo no acesso ao financiamento. Esse mecanismo, com o nome exótico de travão de segurança, significa que a distribuição dos montantes aos Estados-membros pode ser bloqueado pela Comissão ou até por grupos de outros Estados-membros. A forma como isto irá funcionar ficou camuflada por um parágrafo do mais ininteligível europês mas, em conjunto com a regra da condicionalidade macroeconómica, significa que estamos oficialmente em modo resgate. Por enquanto, ninguém fala de austeridade ou dos seus eufemismos, para não afugentar a caça, mas os mecanismos já estão todos montados.

3. Depois de tanta conversa sobre o pacto verde e a Europa digital, o montante do Fundo para a Transição Justa é reduzido a um terço e o reforço do programa Horizon (investigação científica e inovação) é reduzido a pouco mais de um terço. Os 4 forretas, depois de meses a falar de competitividade e reformas, nem pestanejaram, e é fácil perceber porquê.

4. A última proposta da Presidência do Conselho não só mantém, como aumenta significativamente os rebates, um privilégio orçamental dos 4 forretas e da Alemanha. O que é um rebate? Um rebate é um desconto (não previsto nos tratados) à contribuição de um Estado-membro que decorreria da aplicação da fórmula que determina as contribuições. Os rebates a estas 4 economias aumentam de 2908 para 3877 milhões: uma prenda orçamental que corresponde a uma violação arbitrária das regras de financiamento do orçamento comunitário feita à medida destas economias e da Alemanha, que também mantém o seu rebate de 3670 milhões. Portanto, para os 4 forretas, as regras são para cumprir... mas só pelos outros.

5. Finalmente, os recursos próprios. O que tem permitido às instituições europeias vender a ideia de que uma parte do fundo de recuperação é “financiamento a fundo perdido” é a promessa de que a dívida agora emitida será amortizada através do recurso a impostos europeus. O problema é que essa promessa tem barbas. Alguns dos impostos europeus que estão em cima da mesa já foram rejeitados pelo Conselho no passado. Outros, como o Imposto sobre Transações Financeiras, estão em discussão há anos e têm sido desvirtuados pela pressão dos lobbys. Se não for possível aprová-los, o Fundo de Recuperação manter-se-á um instrumento de dívida nacional, embora mutualizada. Podemos receber mais agora, mas também vamos perder mais no futuro.

O Governo aceitou um acordo que vai trazer muito dinheiro de empréstimo, num momento em que esse dinheiro é muito necessário. Mas foi exatamente isso que aconteceu com a Troika, com as consequências que conhecemos. E as concessões que foram necessárias para conseguir este acordo projetam ainda mais sombras sobre o nosso futuro próximo na Europa. Mesmo que o Governo não as queira ver.

Sobre o autor
Eurodeputado e economista.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Carta aos amigos e amigas do exterior, por Frei Betto


No Brasil ocorre um genocídio! No momento em que escrevo, 16/7, a Covid-19, surgida aqui em fevereiro deste ano, já matou 76 mil pessoas. Já são quase 2 milhões de infectados. Até domingo, 19/7, chegaremos a 80 mil vítimas fatais. É possível que agora, ao você ler este apelo dramático, já cheguem a 100 mil.

Quando lembro que na guerra do Vietnã, ao longo de 20 anos, 58 mil vidas de militares usamericanos foram sacrificadas, tenho o alcance da gravidade do que ocorre em meu país. Esse horror causa indignação e revolta. E todos sabemos que medidas de precaução e restrição, adotadas em tantos outros países, poderiam ter evitado tamanha mortandade.

Esse genocídio não resulta da indiferença do governo Bolsonaro. É intencional. Bolsonaro se compraz da morte alheia. Quando deputado federal, em entrevista à TV, em 1999, ele declarou: “Através do voto você não vai mudar nada nesse país, nada, absolutamente nada! Só vai mudar, infelizmente, se um dia partirmos para uma guerra civil aqui dentro, e fazendo o trabalho que o regime militar não fez: matando uns 30 mil”.

Ao votar a favor do impeachment da presidente Dilma, ofertou seu voto à memória do mais notório torturador do Exército, o coronel Brilhante Ustra.

Por ser tão obcecado pela morte, uma de suas principais políticas de governo é a liberação do comércio de armas e munições. Questionado à porta do palácio presidencial se não se importava com as vítimas da pandemia, respondeu: "Não estou acreditando nesses números" (27/3, 92 mortes); "Todos nós iremos morrer um dia" (29/3, 136 mortes); "E daí? Quer que eu faça o quê?" (28/4, 5.017 mortes).

Por que essa política necrófila? Desde o início ele declarou que o importante não era salvar vidas, e sim a economia. Daí sua recusa em decretar lockdown, acatar as orientações da OMS e importar respiradores e equipamentos de proteção individual. Foi preciso a Suprema Corte delegar essa responsabilidade a governadores e prefeitos.

Bolsonaro sequer respeitou a autoridade de seus próprios ministros da Saúde. Desde fevereiro o Brasil teve dois, ambos demitidos por se recusarem a adotar a mesma atitude do presidente. Agora, à frente do ministério, está o general Pazuello, que nada entende de questão sanitária; tentou ocultar os dados sobre a evolução dos números de vítimas do coronavírus; empregou 38 militares em funções importantes do ministério, sem a requerida qualificação; e cancelou as entrevistas diárias pelas quais a população recebia orientação.

Seria exaustivo enumerar aqui quantas medidas de liberação de recursos para socorro das vítimas e das famílias de baixa renda (mais de 100 milhões de brasileiros) jamais foram efetivadas.

As razões da intencionalidade criminosa do governo Bolsonaro são evidentes. Deixar morrer os idosos, para economizar recursos da Previdência Social. Deixar morrer os portadores de doenças preexistentes, para economizar recursos do SUS, o sistema nacional de saúde. Deixar morrer os pobres, para economizar recursos do Bolsa Família e de outros programas sociais destinados aos 52,5 milhões de brasileiros que vivem na pobreza e aos 13,5 milhões que se encontram na extrema pobreza. (Dados do governo federal).

Não satisfeito com tais medidas letais, agora o presidente vetou, no projeto de lei sancionado a 3/7, o trecho que obrigava o uso de máscaras em estabelecimentos comerciais, templos religiosos e instituições de ensino. Vetou também a imposição de multas para quem descumprir as regras e a obrigação do governo de distribuir máscaras para os mais pobres, principais vítimas da Covid-19, e aos presos (750 mil). Esses vetos, no entanto, não anulam legislações locais que já estabelecem a obrigatoriedade do uso de máscara.

Em 8/7, Bolsonaro derrubou trechos da lei, aprovada pelo Senado, que obrigavam o governo a fornecer água potável e materiais de higiene e limpeza, instalação de internet e distribuição de cestas básicas, sementes e ferramentas agrícolas, para aldeias indígenas. Vetou também verba emergencial destinada à saúde indígena, bem como facilitar o acesso de indígenas e quilombolas ao auxílio emergencial de 600 reais (100 euros ou 120 dólares) por três meses. Vetou ainda a obrigação de o governo oferecer mais leitos hospitalares, ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea a povos indígenas e quilombolas.

Indígenas e quilombolas têm sido dizimados pela crescente devastação socioambiental, em especial na Amazônia.

Por favor, divulguem ao máximo esse crime de lesa-humanidade. É preciso que as denúncias do que ocorre no Brasil cheguem à mídia de seu país, às redes digitais, ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, e ao Tribunal Internacional de Haia, bem como aos bancos e empresas que abrigam investidores tão cobiçados pelo governo Bolsonaro.

Muito antes de o jornal The Economist fazê-lo, nas redes digitais trato o presidente por BolsoNero – enquanto Roma arde em chamas, ele toca lira e faz propaganda da cloroquina, remédio sem nenhuma eficácia científica contra o novo coronavírus. Porém, seus fabricantes são aliados políticos do presidente...

Agradeço seu solidário interesse em divulgar esta carta. Só a pressão vinda do exterior será capaz de deter o genocídio que assola o nosso querido e maravilhoso Brasil.

Fraternalmente,

Frei Betto

Frei Betto é frade dominicano e escritor, assessor da FAO e de movimentos sociais

domingo, 19 de julho de 2020

What the United States can learn from Portuguese politics

Fonte: aqui


Donald Trump’s Independence Day attack on the culture of inclusion and equality highlights a problem long with us. Far from being united by principles enshrined in the country’s origins, America has long suffered deep discord over what lessons to draw from the nation’s history and how to tell the story of our past. Conflict over the treatment of minorities – and the bounds of inclusion in the country’s imagined community – has punctuated American history since independence. Even after the end of the Trump presidency, the pursuit of equality and inclusion – and restoring some sense of national community – will require finding better ways to build on what we do with the country’s political past and the way we talk about it.

A good place to start is by taking seriously the best examples of how other countries have managed to build in useful ways on their past. As the COVID-19 pandemic tragically reminds us, at times the United States has handled shared challenges less successfully than other countries.

Useful, even inspiring, lessons are to be found in a small country at the western end of Europe, Portugal. Like the United States and France, Portugal looks to a revolution that enunciated principles of equality as the origin of its democracy. But more than those larger and more powerful countries, Portugal has dedicated great cultural and political efforts to constructing a shared political culture rooted in its founding moment – the Carnation Revolution of 25 April 1974 – when an uprising led by army captains brought an end to decades of dictatorship. It was the Portuguese who inaugurated democracy’s worldwide third wave of expansion beginning on that day.

After the ravages of the 2008 Great Recession, Portugal became the only country in hard-hit southern Europe where satisfaction in democracy, and trust in political institutions, ranked above the average for Europe as a whole. The Portuguese actually diminished inequality somewhat during that crisis. They have the lowest unemployment and poverty of southern Europe and have largely escaped the growth of far-right populism that bedevils much of the world. These triumphs are directly related to the country’s ability to draw culturally on the revolutionary origins of its democracy and to foster a deeply inclusionary understanding of politics.

Every year the Portuguese celebrate their 1974 Carnation Revolution in many ways – inside parliament and in the streets, schools and many other locations. Crucially, an annual session of parliament devoted to remembering the 1974 events is broadcast live on television and is followed by a large public demonstration. Numerous other commemorative acts, many focused on telling the story of the revolution to children, bolster the creative breadth of the annual event.

In the annual session of parliament, televised live every 25 April, political leaders exchange views on the lasting significance of the country’s liberation by revolution in 1974 and on the current meaning of those origins. Predictably, the parties differ somewhat in the points they emphasize, but perhaps due to the interactive and public character of their reflections, core principles have come to shape their speeches.

This annual interactive event has helped build wide cultural consensus that eluded the Portuguese before 1974. The revolution’s promotion of inclusionary participation, welcoming all voices into the public arena, is celebrated not only on the left but also by those to the right of Portugal’s center. The poetry of the revolution, a term often used by the Portuguese, is repeatedly noted by speakers of left and right who tell the story of their revolution and its enduring meaning. Over time the degree of consensus has grown. Songs and symbols once linked to the left are now applauded also by many on the right. The annual public exchange has helped to produce a political culture that welcomes the voices of the dissatisfied into the democratic arena, treating them as important.

Portugal’s political culture of inclusion shows its marks in many arenas. In the news media – where journalists share in setting policy of media organizations – coverage incorporates voices of the poor and other outsiders. In the school system, students and teachers have helped to shape policies friendly to diversity and creativity. Crucially, the country has incorporated large numbers of immigrants from former colonies in Africa and Asia. Prime Minister António Costa is the son of an Indian-origin immigrant, but his skin color is an undiscussed non-issue. Political life is built on the assumption of inclusion.

During the economic crisis that began in 2008, parties remained at least somewhat attentive to demonstrators and other dissatisfied citizens. In September 2012, the most aggressive austerity measure of that period was rolled back by a right-wing government after a nationwide campaign of protest. Government authorities cited their commitment to listening to voices of popular opposition. Earlier, in responding to the beginnings of economic crisis, a Socialist government combined egalitarian ideals and pragmatic moderation. Although external pressures pushed governments to impose cutbacks, they managed to reduce inequality somewhat – a record remarkably different from that of neighboring Spain in the same years.

Portugal emerged from the Great Recession with a political system that remains more socially responsive and less polarized than in many other countries. Existing political parties limited the populist far-right to just one parliamentary deputy in elections last fall. Their approach to politics, celebrating political inclusion, participation and their democracy’s revolutionary origins has greatly helped the country weather difficult times. Policy-making triumphs including successes of the educational system and the region’s lowest unemployment rate have attracted international attention. The interactive cultural work annually telling the story of their democracy’s origins and celebrating political inclusion has bolstered these successes. In contrast, the United States – and France – have not attempted such a robust annual program of public exchange on the revolutionary origins of their political systems.

Efforts to draw meaning and inspiration from the past cannot eliminate economic conflict or political challenges, but creative public exchanges such as Portugal’s annual commemorations can help to build and sustain a better political playing field than the one that currently bedevils the United States. Portugal’s lively annual celebration of democracy’s revolutionary beginnings offers potentially useful example to a deeply troubled America nearly two and a half centuries after the 1776 proclamation that all men are created equal.

Featured Image Credit: fdecomite via Flickr


Robert M. Fishman is CONEX-Marie Curie Professor of Political Science and Sociology at Madrid's Carlos III University. He works on democracy and democratization, social protest movements and political inclusion, culture and politics, and historical approaches to social science. His previous faculty positions were at the University of Notre Dame and at Harvard University.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

BIOENERGIA = BIOFARSA


Por Paulo Pimenta e Castro

Depois de ligarem o candeeiro (eléctrico), vejam este vídeo!

Tenham em conta que, quase metade da energia de fontes "renováveis", produzida na União Europeia, resulta da queima de madeira. Na sua maioria importada de países terceiros: Estados Unidos, Canadá, Rússia, ... Não há milagres sobre o argumento do "balanço de carbono zero". Mas, pior! Não há argumento que justifique a perda de biodiversidade, a extinção em massa, o maior risco de zoonoses, a delapidação dos solos e dos recursos hídricos, que não seja a aposta no suicídio colectivo.

Depois do vídeo, leiam a proposta de António Costa Silva sobre "transição energética", ou a notícia sobre a duplicação da capacidade de produção de energia eléctrica na central termoeléctrica a biomassa florestal primária de Mortágua (para lá do que já por aí queima troncos).

Mas, há ainda piores "novidades", a concretizar dentro das nossas fronteiras.

domingo, 12 de julho de 2020

Perda de habitat pode aumentar doenças que passam de animais para humanos, prevê ONU

Fonte: aqui


Um novo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) alertou que podem surgir mais doenças que passam de animais para humanos, como a covid-19, à medida que os habitats são devastados pela exploração da vida selvagem, práticas agrícolas insustentáveis ​​e mudanças climáticas.

Esses agentes patogénicos, conhecidos como doenças zoonóticas – como o ébola, o MERS, o VIH e o vírus do Nilo Ocidental -, têm aumentado devido à ação dos humanos sob os habitats naturais, de acordo com o relatório do Programa Ambiental da ONU (PNUMA), divulgado na segunda-feira e citado pela NPR.

“Intensificamos a agricultura, expandimos a infraestrutura e extraímos recursos às custas dos nossos espaços selvagens”, indicou o diretor executivo do PNUMA, Inger Andersen. A ciência mostra “que, se continuarmos a explorar a vida selvagem e a destruir os nossos ecossistemas, podemos esperar um fluxo constante dessas doenças que passam de animais para humanos nos próximos anos”.

Investir na pesquisa de doenças zoonóticas, continuou Inger Andersen, permitiria ao mundo “avançar no jogo, impedindo o tipo de paralisação global que vimos”.

O novo relatório recomenda que os governos adotem uma abordagem coordenada de “Saúde Única”, reunindo especialistas em saúde pública, veterinária e ambiental para combater os surtos de doenças zoonóticas.

“As pessoas olham para a pandemia de gripe de 1918 e pensam que esses surtos de doenças ocorrem apenas uma vez num século”, disse Maarten Kappelle, chefe de avaliações científicas do PNUMA. “Mas não é verdade. Se não restabelecermos o equilíbrio entre o mundo natural e o humano, os surtos se tornarão cada vez mais predominantes”.

A demanda global por carne aumentou 260% no último meio século, exacerbando o problema, referiu Andersen.

Alguns animais, como roedores, morcegos, carnívoros e primatas não humanos, são mais propensos a abrigar doenças zoonóticas, com o gado a agir como uma ponte para a transmissão entre os hospedeiros e os humanos, apontou o relatório.

Enquanto isso, em algumas das regiões mais pobres do mundo, as doenças zoonóticas endémicas associadas ao gado causam mais de dois milhões de mortes por ano. No entanto, África – que respondeu com sucesso a uma série de epidemias zoonóticas, como o ébola -, pode ser um local para encontrar soluções de controle de surtos de doenças homem-animal no futuro, acrescentou o documento.

“Para evitar surtos futuros, os países precisam conservar os habitats selvagens, promover a agricultura sustentável, fortalecer os padrões de segurança alimentar, monitorizar e regular os mercados de alimentos, investir em tecnologia para identificar riscos e conter o comércio ilegal de animais selvagens”, frisou o secretário-geral da ONU, António Guterres.

sábado, 11 de julho de 2020

Descoberta nova espécie de dinossauro carnívoro em Torres Vedras e Lourinhã

Fonte: Greensavers

A descoberta do ‘Lusovenator santosi‘, com 145 milhões de anos, pertencente ao Jurássico Superior de Portugal, mostra que estes animais estavam presentes no hemisfério norte, 20 milhões de anos antes do que indicava o registo conhecido, concluíram Elisabete Malafaia, Pedro Mocho (Universidade de Lisboa), Fernando Escasso e Francisco Ortega, todos investigadores ligados à Sociedade de História Natural de Torres Vedras e à Universidade Nacional de Educação à Distância de Madrid (Espanha).

O dinossauro que pertence ao grupo dos carcharodontossauros, vem reforçar a tese de que a Península Ibérica é uma “região fundamental para compreender o processo de dispersão deste grupo de animais no hemisfério norte durante o final do Jurássico, vários milhões de anos antes destes dinossáurios se tornarem os maiores predadores terrestres no hemisfério sul, no final do Cretácico”, explicou Elisabete Malafaia à agência Lusa.

A nova espécie foi identificada a partir de restos recolhidos nas duas últimas décadas nas jazidas das praias de Valmitão (Lourinhã) e de Cambelas (Torres Vedras).

De início, os fósseis foram atribuídos ao dinossauro carnívoro terópode ‘Allosaurus’, mas uma análise mais detalhada do material permitiu aos paleontólogos identificar um conjunto de características exclusivas que permitiu estabelecer este novo género e espécie.

Os carcharodontossauros, de que havia registos do Cretáceo Inferior (130 milhões de anos) e no final do Cretáceo (100 milhões de anos), são um grupo de dinossauros carnívoros que inclui alguns dos maiores predadores que habitaram o planeta.

Na Península Ibérica o grupo estava representado apenas pela espécie ‘Concavenator corcovatus’, identificada na jazida de Las Hoyas (Cuenca, Espanha) por alguns dos mesmos investigadores.

O carcharodontossauro mais antigo conhecido foi encontrado na Tanzânia, em África, sendo da mesma altura da nova espécie agora identificada em Portugal, o que, segundo os paleontólogos, “constitui a primeira evidência e a mais antiga deste grupo no hemisfério norte”.

A identificação desta nova espécie amplia a diversidade de dinossauros terópodes conhecidos no Jurássico Superior português, um dos melhores registos fósseis deste período. O ‘Lusovenator santosi’ foi apelidado em homenagem a José Joaquim dos Santos, um curioso da paleontologia, que, durante mais de 30 anos, descobriu fosseis de dinossauro, guardando-os em casa. Mais tarde, vendeu à Câmara Municipal de Torres Vedras a coleção, que tem vindo a ser estudada por investigadores da Sociedade de História Natural de Torres Vedras.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Proteger 30% do planeta pode reforçar economia global em mais de 450 mil milhões

Fonte: aqui

Quase um terço dos oceanos e áreas terrestres do mundo poderiam estar sob protecção ambiental sem que isso prejudicasse a economia global, produzindo, pelo contrário, benefícios económicos se fossem aplicadas as políticas corretas, de acordo com uma avaliação citada pelo ‘The Guardian’.

Os ecossistemas de todo o mundo estão a entrar em colapso, ou quase à beira da ruptura, com um milhão de espécies em vias de extinção. Contudo, se pelo menos 30% das terras e oceanos do planeta estivessem sujeitos a esforços de conservação, essa extinção em massa poderia ser evitada e os habitats vitais restabelecidos, estimam os cientistas.

O relatório, da organização de cariz social ‘Campaign for Nature’, concluiu que seriam necessários cerca de 140 mil milhões de dólares por ano até 2030 para colocar 30% da terra e do mar sob protecção ambiental.

Sobre estes resultados, Anthony Waldron, principal autor do estudo, afirmou que «mostram que a protecção ambiental gera uma maior receita na economia actual, juntando-a à agricultura e à silvicultura, para além de ajudar a evitar alterações climáticas, crises hídricas, perda de biodiversidade e doenças».

«Reforçar a protecção da natureza é uma política sólida para os governos que lidam com múltiplos interesses. Não é possível estabelecer um preço para a natureza, mas os números económicos apontam para a necessidade da sua protecção», acrescentou Waldron, citado pelo ‘The Guardian’.

Para cumprir a meta proposta, seria necessário duplicar a protecção ambiental, que é aproximadamente de 15% em todo o mundo, e mais do que quadruplicar as áreas marinhas protegidas, que correspondem a apenas 7% dos oceanos, actualmente.

Todos os anos são gastos cerca de 24 mil milhões de dólares a nível global, na protecção da natureza, segundo o relatório. Com a terra e os oceanos sob forte pressão comercial por parte da agricultura, pesca e indústrias extractivas, a protecção da natureza tem sido vista como um custo económico acrescido.

Contudo, esta nova avaliação vem assim inverter a análise convencional, ao mostrar que a conservação da natureza é de facto um benefício líquido para a economia global e não um obstáculo.

Atingir a meta de 30% de protecção, impulsionaria um aumento da produção económica entre 64 mil milhões de dólares e 454 mil milhões de dólares por ano, segundo o relatório, dependendo das áreas que estariam sujeitas a esforços de conservação.

«Existe um grande retorno financeiro se protegermos 30% da natureza terrestre e marinha», referiu Thomas Lovejoy, professor de ciências ambientais da Universidade George Mason, nos EUA, citado pelo ‘The Guardian’.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Lixo electrónico atinge novo recorde: 53,6 milhões de toneladas em todo o Mundo

Fonte: aqui

Televisões, consolas, computadores, smartphones ou frigoríficos. Estes são alguns dos equipamentos que compõem o chamado lixo electrónico, que tem vindo a crescer de ano para ano. Só em 2019, a população mundial gerou 53,6 milhões toneladas de lixo deste tipo. Segundo o relatório “Global E-Waste Monitor 2020”, trata-se de um novo recorde e de um aumento de mais de 20% face aos cinco anos anteriores.

Segundo a análise, elaborada pela International Telecommunication Union em parceria com a International Solid Waste Association, a tendência será para este número continuar a crescer. Não existem as infra-estruturas necessárias para reciclar estes equipamentos e a reparação nem sempre é opção – especialmente quando comprar um novo modelo é mais barato ou cómodo. Do total de e-waste gerado em 2019, apenas 17,4% foi recolhido e reciclado.

O “Global E-Waste Monitor 2020” indica ainda que esta é a fonte de lixo doméstico que mais rápido cresce no planeta. Os 53,6 milhões de toneladas verificados no ano passado são equivalentes a 350 navios de cruzeiro do tamanho do Queen Mary 2.

Vanessa Forti, uma das autoras do relatório, sublinha que o mais preocupante não é somente a quantidade de e-waste que está a surgir. É também «o facto de que as tecnologias de reciclagem não estão a acompanhar o ritmo de crescimento do e-waste». Citada pela Fast Company, a especialista sublinha que essa é a mensagem chave deste estudo: «A reciclagem tem de melhorar.»

E quais as consequências de não reciclar o lixo electrónico? Este tipo de equipamentos contém componentes tóxicos que, se não forem geridas da forma correcta, podem representar um perigo para o ambiente. Olhando apenas para os frigoríficos e para aparelhos de ar condicionado, o relatório estima que, no último ano, o tratamento incorrecto destes equipamentos em fim de vida tenha resultado em 98 milhões de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera. Este número corresponde a 0,3% de todas as emissões de gases de efeito de estufa a nível global, em 2019.

Actualmente, apenas 78 países têm leis ou medidas de combate ao lixo electrónico. Se a preocupação com estes equipamentos não se estender a todo o Mundo, dando origem a um movimento global, os especialistas antecipam 74 milhões de toneladas de e-waste para 2030.

domingo, 5 de julho de 2020

UN highlights urgent need to tackle impact of likely electric car battery production boom

Fonte: aqui


Demand for raw materials used in the production of electric car batteries is set to soar, prompting the UN trade body, UNCTAD, to call for the social and environmental impacts of the extraction of raw materials, which include human rights abuses, to be urgently addressed.

Electric cars are rapidly becoming more popular amongst consumers, and UNCTAD predicts that some 23 million will be sold over the coming decade: the market for rechargeable car batteries, currently estimated at $7 billion, is forecast to rise to $58 billion by 2024 .

The shift to electric mobility is in line with ongoing efforts to reduce the world’s dependence on fossil fuels, and reduce harmful greenhouse gas emissions responsible for climate change, but a new report from UNCTAD, warns that the raw materials used in electric car batteries, are highly concentrated in a small number of countries, which raises a number of concerns.
Drilling down in DRC, Chile

For example, two-thirds of all cobalt production happens in the Democratic Republic of the Congo (DRC). According the UN Children’s Fund (UNICEF), about 20 per cent of cobalt supplied from the DRC comes from artisanal mines, where human rights abuses have been reported, and up to 40,000 children work in extremely dangerous conditions in the mines for meagre income.

And in Chile, lithium mining uses nearly 65% of the water in the country's Salar de Atamaca region, one of the driest desert areas in the world, to pump out brines from drilled wells. This has forced local quinoa farmers and llama herders to migrate and abandon ancestral settlements. It has also contributed to environment degradation, landscape damage and soil contamination, groundwater depletion and pollution.
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Electric cars at UN Headquarters, New York (file)

Climb the value chain

Noting that "the rise in demand for the strategic raw materials used to manufacture electric car batteries will open more trade opportunities for the countries that supply these materials”, UNCTAD's director of international trade, Pamela Coke-Hamilton, emphasised the importance, for these countries, to “develop their capacity to move up the value chain".

In the DRC, this would mean building processing plants and refineries that would add value and, potentially, jobs within the country. However, for various reasons (including limited infrastructure, financing and a lack of appropriate policies), refining takes place in other countries, mainly Belgium, China, Finland, Norway and Zambia, which reap the economic benefit.

The report recommends that countries such as DRC provide “conducive environment to attract investment to establish new mines or expand existing ones”.

Diversify and thrive

UNCTAD also recommends that the industry find ways to reduce its dependence on critical raw materials. For example, scientists are researching the possibility of using widely-available silicon, instead of graphite (80% of natural graphite reserves are in China, Brazil and Turkey).

If the industry manages to become less reliant on materials concentrated in a small number of countries, says UNCTAD, there is more chance that prices of batteries will drop, leading to greater take-up of electric cars, and a shift away from fossil-fuel powered transport.

As for the environmental consequences of the batteries themselves, the report recommends the development of improved, more sustainable mining techniques, and the recycling of the raw materials used in spent Lithium-Ion batteries, a measure that would help deal with the expected increase in demand, and also create new business opportunities.

sábado, 4 de julho de 2020

São Serafim de Sarov


“Beba água da nascente onde os cavalos bebem. O cavalo nunca vai beber água ruim.
Coloque sua cama onde o gato dorme.
Coma a fruta que foi tocada por um verme.
Escolha corajosamente o cogumelo onde os insectos pousam.
Plante a árvore onde a toupeira escava.
Construa a sua casa onde a cobra se senta para se aquecer.
Cave a sua fonte onde os pássaros se escondem do calor.
Vá dormir e acorde ao mesmo tempo que os pássaros -
com isso, você colherá todos os dias grãos de ouro...
Coma mais verde - você terá pernas fortes e um coração resistente, como os seres da floresta.
Nade com frequência e você se sentirá na terra como o peixe na água.
Olhe para o céu o mais rápido possível e seus pensamentos se tornarão cada vez mais claros.
Fique quieto, muito, fale pouco - e o silêncio entrará em seu coração, e seu espírito estará calmo e cheio de paz. ”
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de São Serafim de Sarov (Anacoreta, padre do deserto).

sexta-feira, 3 de julho de 2020

“A pergunta mais difícil”, arrepiante mensagem de Daniel Oliveira acerca da pandemia


O jornalista Daniel Oliveira lançou esta terça-feira, dia 30 de junho, uma mensagem que terminou em tom de pergunta, que na sua opinião, todos nós devemos colocar a nós próprios, acerca da pandemia que se abateu sobre o mundo.

Uma pergunta difícil, que ninguém parece querer fazer, mas que na opinião de Daniel Oliveira, vamos ter mesmo de fazer…

Pode optar por ouvir, ou ler o que disse o jornalista, mais abaixo:

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“A semana passada António Guterres disse que num cenário otimista, em que os países desenvolvidos coordenassem as suas respostas, talvez fosse possível conter o vírus, e impedir uma segunda onda. Isso salvaria os países mais pobres, e garantiria um regresso à normalidade daqui a 2 ou 3 anos.

Num cenário pessimista, o vírus chegaria em força ao hemisfério sul, e teríamos uma importante segunda onda. As consequências económicas e para a saúde pública poderiam durar 5 a 7 anos.

Olhando para a descoordenação internacional, até dentro da União Europeia, parece-me o cenário mais provável.

Mas não vale a pena pormo-nos a adivinhar, não sabemos se haverá vacina, se a infeção garante uma forte imunidade. Não sabemos quanto tempo isto vai durar. Pode durar muitos anos, e a pergunta difícil é ninguém pode ainda responder, mas parece-me é que muito poucos querem fazer, é ‘até onde estamos dispostos a ir?’.

Falemos apenas de alguns efeitos, do prolongar daquilo a que chamamos – como quem deseja ser engenheiro das almas – de ‘novo normal’.
Imaginem a evolução das outras doenças, perante uma sociedade mais sedentária, isolada e com medo, e como responderá o SNS, obcessivamente focado num único vírus, e cada vez mais fragilizado pela falta de recursos, que a crise económica provocará.
  • Imaginem o crescimento exponencial de problemas mentais, em pessoas saudáveis ou já com patologias, em muitos casos com desfechos trágicos.
  • Imaginem a qualidade de vida dos mais velhos, ainda mais isolados do mundo e das suas famílias.
  • Imaginem os efeitos emocionais, sociais e políticos, do prolongamento do clima de medo, alimentado durante os próximos anos pelas autoridades da comunicação social.
  • Imaginem os efeitos de uma crise económica que se pode tornar interminável e destrutiva de todo o nosso modo de vida.
  • Imaginem os efeitos políticos do prolongamento da limitação das liberdades cívicas, da sua aceitação acrítica e da arbitrariedade como modo normal de funcionamento do estado.
  • Imaginem como a vigilância, que a tecnologia já facilitava, pode passar a ser a forma normal do poder político e económico de lidar com os cidadãos.
  • Imaginem os efeitos que terá o teletrabalho como forma definitiva de funcionamento das empresas, com os trabalhadores sem redes de solidariedade entre eles, ainda mais indefesos perante os abusos do seu patrão.
  • Imaginem o que fará o isolamento social às pessoas mais pobres e vulneráveis.
  • Imaginem as vítimas de vi0lência doméstica, os a1co0licos, os toxic0dependentes, todos abandonados.
  • Imaginem milhões de adolescentes e crianças, a crescerem com níveis de socialização muitíssimo baixos, que efeitos irreparáveis isto pode ter no seu desenvolvimento psíquico-social.

Ponho a pergunta de forma brutal às pessoas da minha geração: ‘temos o direito de destruir assim, a vida dos nossos filhos? E temos o direito de deixar os pobres ainda mais pobres, os excluídos ainda mais excluídos, os doentes ainda mais doentes, em nome da nossa vida?’

Não tenho respostas para estas perguntas. Elas são dolorosas, e podem levar a conclusões cruéis, mas temos mesmo de começar a fazê-las. Somos mortais, e temos de saber viver com isso. Muitas pessoas morreram para conquistar o que temos hoje, a democracia, a liberdade e a prosperidade.

‘Estamos dispostos a atirar tudo para o lixo, para sobrevivermos? Isso seria generosidade, ou egoísmo?’. Não sei responder a nada disto, apenas me assusta ver tanta gente demasiado concentrada no seu próprio medo para fazer a pergunta mais difícil:

‘E se isto durar muito tempo?'”

quinta-feira, 2 de julho de 2020

The Neoliberal Looting of America

Não foi só a América que foi saqueada pelo neoliberalismo: o artigo pode ser generalizado a quase todo o mundo desenvolvido. Poucos ideólogos terão feito tanto mal ao mundo como Hayek.


“It’s hard to separate what’s good for the United States and what’s good for Bank of America,” said its former chief executive, Ken Lewis, in 2009. That was hardly true at the time, but the current crisis has revealed that the health of the finance industry and stock market are completely disconnected from the actual financial health of the American people. As inequality, unemployment and evictions climb, the Dow Jones surges right alongside them — one line compounding suffering, the other compounding returns for investors.

One reason is that an ideological coup quietly transformed our society over the last 50 years, raising the fortunes of the financial economy — and its agents like private equity firms — at the expense of the real economy experienced by most Americans.

The roots of this intellectual takeover can be traced to a backlash against socialism in Cold War Europe. Austrian School economist Friedrich A. Hayek was perhaps the most influential leader of that movement, decrying governments who chased “the mirage of social justice.” Only free markets can allocate resources fairly and reward individuals based on what they deserve, reasoned Hayek. The ideology — known as neoliberalism — was especially potent because it disguised itself as a neutral statement of economics rather than just another theory. Only unfettered markets, the theory argued, could ensure justice and freedom because only the profit motive could dispassionately pick winners and losers based on their contribution to the economy.

Neoliberalism leapt from economics departments into American politics in the 1960s, where it fused with conservative anti-communist ideas and then quickly spread throughout universities, law schools, legislatures and courts. By the 1980s, neoliberalism was triumphant in policy, leading to tax cuts, deregulation and privatization of public functions including schools, pensions and infrastructure. The governing logic held that corporations could do just about everything better than the government could. The result, as President Ronald Reagan said, was to unleash “the magic of the marketplace.”


The magic of the market did in fact turn everything into gold — for wealthy investors. Neoliberalism led to deregulation in every sector, a winner-take-all, debt-fueled market and a growing cultural acceptance of purely profit-driven corporate managers. These conditions were a perfect breeding ground for the private equity industry, then known as “leveraged buyout” firms. Such firms took advantage of the new market for high-yield debt (better known as junk bonds) to buy and break up American conglomerates, capturing unprecedented wealth in fewer hands. The private equity industry embodies the neoliberal movement’s values, while exposing its inherent logic.

Private equity firms use money provided by institutional investors like pension funds and university endowments to take over and restructure companies or industries. Private equity touches practically every sector, from housing to health care to retail. In pursuit of maximum returns, such firms have squeezed businesses for every last drop of profit, cutting jobs, pensions and salaries where possible. The debt-laden buyouts privatize gains when they work, and socialize losses when they don’t, driving previously healthy firms to bankruptcy and leaving many others permanently hobbled. The list of private equity’s victims has grown even longer in the past year, adding J.Crew, Toys ‘R’ Us, Hertz and more.

In the last decade, private equity management has led to approximately 1.3 million job losses due to retail bankruptcies and liquidation. Beyond the companies directly controlled by private equity, the threat of being the next takeover target has most likely led other companies to pre-emptively cut wages and jobs to avoid being the weakest prey. Amid the outbreak of street protests in June, a satirical headline in The Onion put it best: “Protesters Criticized For Looting Businesses Without Forming Private Equity Firm First.” Yet the private equity takeover is not technically looting because it has been made perfectly legal, and even encouraged, by policymakers.


According to industry experts, 2019 was one of the most successful years for private equity to date, with $919 billion in funds raised. The private equity executives themselves can also garner tremendous riches. Their standard fee structure involves collecting around 2 percent of the investor money they manage annually, and then 20 percent of any profits above an agreed-upon level. This lucrative arrangement also lets them tap into the very favorable “carried interest” tax loophole, allowing them to pay much lower capital gains tax rates on their earnings, rather than normal income taxes like most people.



An examination of the recent history of private equity disproves the neoliberal myth that profit incentives produce the best outcomes for society. The passage of time has debunked another such myth: that deregulating industries would generate more vibrant competition and benefit consumers. Unregulated market competition actually led to market consolidation instead. Would-be monopolies squeezed competitors, accrued political power, lobbied for even more deregulation and ultimately drove out any rivals, leading inexorably to entrenched political power. Instead of a thriving market of small-firm competition, free market ideology led to a few big winners dominating the rest.



The current crisis has revealed that the health of the finance industry and stock market are disconnected from the actual financial health of the American people.
Credit...George Etheredge for The New York Times


Take the banking sector. For most of American history, banks were considered a public privilege with duties to promote the “best interest of the community.” If a bank wanted to merge or grow or offer new services, the regulators often denied the request either because a community could lose a bank branch or because the new product was too risky. During the neoliberal revolution of the 1980s and ’90s, Congress and bank regulators loosened the rules, allowing a handful of megabanks to swallow up thousands of small banks.

Today, five banks control nearly half of all bank assets. Fees paid by low-income Americans have increased, services have been curtailed and many low-income communities have lost their only bank. When federally subsidized banks left low-income communities, vulture-like fringe lenders — payday, title, tax-refund lenders — filled the void. As it turns out, private equity firms are invested in some of the largest payday lenders in the country.

Faith in market magic was so entrenched that even the 2008 financial crisis did not fully expose the myth: We witnessed the federal government pick up all the risks that markets could not manage and Congress and the Federal Reserve save the banking sector ostensibly on behalf of the people. Neoliberal deregulation was premised on the theory that the invisible hand of the market would discipline risky banks without the need for government oversight. Even a former Fed chairman, Alan Greenspan, the most committed free market fundamentalist of the era, admitted in the understatement of the century, that “I made a mistake.”

We can start fixing the big flaws propagated over the last half century by taxing the largest fortunes, breaking up large banks and imposing market rules that prohibit the predatory behaviors of private equity firms.

Public markets can take over the places that private markets have failed to adequately serve. Federal or state agencies can provide essential services like banking, health care, internet access, transportation and housing at cost through a public option. Historically, road maintenance, mail delivery, police and other services are not left to the market, but provided directly by the government. Private markets can still compete, but basic services are guaranteed to everyone.

And we can move beyond the myths of neoliberalism that have led us here. We can have competitive and prosperous markets, but our focus should be on ensuring human dignity, thriving families and healthy communities. When those are in conflict, we should choose flourishing communities over profits.

Mehrsa Baradaran (@MehrsaBaradaran) is a professor of law at the University of California, Irvine, and author of “The Color of Money: Black Banks and the Racial Wealth Gap.”