quinta-feira, 30 de abril de 2020

Daniel Christian Wahl, biólogo: "O ‘normal’ a que ansiamos voltar não é 'normal'"Fonte

Perante a crise atual provocada pela pandemia de Covid-19 e a pensar na crise climática, "os governos deviam investir sabiamente para construir uma economia regenerativa local ou regional mais resiliente", defende o biólogo e ativista Daniel Christian Wahl em entrevista ao Expresso
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quarta-feira, 29 de abril de 2020

Covid-19: o isolamento está a mudar até a maneira como a Terra se move

Uma redução no ruído sísmico devido a mudanças na atividade humana é um benefício, asseguram geocientistas.

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É verdade que a pandemia trouxe caos às nossas vidas – e à economia – um pouco por todo o mundo, mas os esforços para conter a propagação do vírus podem estar a ter outros efeitos. Por exemplo, que o próprio planeta se está a mover um pouco menos.  
Os investigadores que estudam o movimento da Terra estão a relatar uma quebra no ruído sísmico, que é o nome dado àquele zumbido das vibrações na crosta do planeta – e estão convencidos de que julgam que é resultado da baixa considerável das atividades humanas. O grande benefício? Poderá ser possível detetar terramotos menores e intensificar a atividade vulcânia e outros eventos similares.  
“Uma redução de ruído desta magnitude ocorre geralmente, por um período muito breve, na época do Natal”, nota Thomas Lecocq, um sismólogo do Observatório Real da Bélgica em Bruxelas, onde a queda dos valores foi observada.  
A explicação, lê-se na revista Nature, é relativamente simples: assim como eventos naturais (por exemplo, terremotos) fazem com que a crosta terrestre se mexa, o mesmo ocorre com as vibrações causadas por veículos em movimento e máquinas industriais. E embora os efeitos de fontes individuais possam ser pequenos, o ruído de fundo que produzem em conjunto reduz parte da capacidade dos sismólogos de detetar outros sinais que possam ocorrer na mesma frequência. 

“A queda é enorme”

Os dados que a equipa de Lecocq recolheu, no Observatório Real da Bélgica, revelam que o ruído sísmico induzido pelo homem caiu mesmo cerca de um terço e a informação está a despertar a atenção de outros cientistas.  
“Se o estado de confinamento se prolongar nos próximos meses é expetável que haja um afinamento tanto na deteção de tremores secundários como de eventos maiores”, avança Andy Frasseto, sismólogo do IRIS, um consórcio de pesquisa universitário dedicado a explorar o interior da Terra, situado em Washington, nos EUA.   
Um tweet de Celeste Labedz, estudante de geofísica no Instituto de Tecnologia da Califórnia, do outro lado dos Estados Unidos, dava também sinal do mesmo: “A queda é enorme”, comentou, em resposta a um sismólogo do Imperial College de Londres.
No entanto, nem todas as estações de monitorização do movimento sísmico terão um efeito tão pronunciado quanto o observado em Bruxelas, observa Emily Wolin, geóloga do Serviço Geológico dos EUA em Albuquerque, Novo México. E porquê? Muitas estão propositadamente localizadas em áreas remotas, para evitar o ruído humano. Aí, nota a cientista, será certamente menor.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Coronavirus Is Our Future | Alanna Shaikh | TEDxSMU (legendado)


Global health expert Alanna Shaikh talks about the current status of the Covid-19 coronavirus outbreak and what this can teach us about the epidemics yet to come. Alanna Shaikh is a global health consultant and executive coach who specializes in individual, organizational and systemic resilience. She holds a bachelor’s degree from Georgetown University and a master’s degree in public health from Boston University. She has lived in seven countries and it the author of What’s Killing Us: A Practical Guide to Understanding Our Biggest Global Health Problems. Recent article publications include an article on global health security in Britain’s Daily Telegraph newspaper and an essay in the Annual Review of Comparative and International Education. She blogs on coaching and personal resilience at www.thisworldneedsbrave.com.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

O coronavírus e a batalha da espécie humana

Nestes tempos sombrios gostava de falar de esperança mas baseada no conhecimento. E também de esperança na espécie humana, na nossa criatividade, na nossa capacidade de dar a volta às situações mais difíceis.
António Costa Silva*


Não vamos ter ilusões. A tragédia global provocada pela pandemia do coronavírus é séria e é um dos maiores desafios já colocados à sobrevivência da espécie humana. Parece uma ironia do destino. Há alguns meses atrás estávamos preocupados, e bem, porque a espécie humana, no seu afã de dominar e subjugar a natureza, estava a destruí-la e a caminhar para o apocalipse climático. De repente é a própria espécie humana que é ameaçada pela natureza, na forma de um vírus microscópico, invisível e letal.

A realidade é mais complexa do que todas as nossas frágeis teorias e fundamentalismos. A situação é muito difícil mas é preciso termos esperança. Antes de falar de esperança é bom termos a noção do desafio. Nesta altura, os países confrontam-se com um dilema e há duas estratégias em curso. O modelo epidemiológico do Imperial College, da Universidade de Londres, é crucial para fazermos esta análise. É apenas um modelo e sabemos que os modelos, mesmo os mais avançados do ponto de vista científico, são apenas pálidas imagens da realidade.

O modelo testa as duas estratégias: a primeira, que é a da contenção, seguida na China, Coreia do Sul, Singapura e UE, incluindo Portugal. Significa actuar o mais cedo possível, confinar as pessoas à sua residência, evitar os contactos e tentar achatar a curva que mede o ritmo de propagação do vírus. Esta estratégia funcionou nos países asiáticos. Qual é o inconveniente? Sustém o contágio mas não erradica o vírus. O número de mortes é mais baixo mas quando a quarentena termina o vírus pode voltar e novas quarentenas podem ser necessárias. Isto pode ser insustentável do ponto de vista social e económico.

A outra estratégia é a do Reino Unido, Suécia, EUA e Israel. É uma estratégia que visa criar a imunidade de grupo, isto é, deixar o vírus propagar-se até grande parte da população estar infectada. Isto deve ser feito isolando e protegendo os grupos de risco como os idosos e os doentes. Qual é o inconveniente? O número de mortos pode ser brutal até se criar a imunidade de grupo. O modelo do Imperial College estima que, com esta estratégia, nos EUA podem morrer dois milhões de pessoas e no Reino Unido 500 mil. O preço a pagar é demasiado alto. E isto confronta os governos com grandes dilemas nas decisões que têm de tomar. Por isso, este não é o tempo de atirar pedras. Este é o tempo de nos unirmos à volta das autoridades e das instituições, seguirmos as directivas e as regras terapêuticas, ter em conta que as estratégias de combate não são estanques e podem ser híbridas, que todos estão a aprender com todos e que, no fim, as melhores decisões vão prevalecer para salvar o maior número de vidas.

Nestes tempos sombrios gostava de falar de esperança mas baseada no conhecimento. É a esperança na ciência que muitos desvalorizaram e atacaram ao longo dos últimos anos. O que nos vai salvar não é o obscurantismo, não é a feitiçaria, não é a sorte, não são as seitas que pregam contra as vacinas. O que nos vai salvar é o trabalho denodado dos profissionais de saúde e é o trabalho dos cientistas e dos investigadores para criarem uma vacina. A ciência, a investigação e o conhecimento vão sair mais reforçados desta crise. Vai demorar tempo mas os sinais da investigação que vêm do Japão, da China, da Alemanha e dos EUA são encorajadores. É também a esperança na espécie humana, na nossa criatividade, na nossa capacidade de dar a volta às situações mais difíceis. Quando as catástrofes aparecem elas fazem emergir o melhor de nós. Isso aconteceu muitas vezes na história. Nós temos muitos defeitos. Somos capazes do melhor e do pior. Mas quando toca a lutar pela sobrevivência mobilizamos tudo o que nos distingue, como a inteligência, e é assim que passamos as maiores tribulações. 

Nós surgimos há cerca de 200.000 anos atrás neste planeta extraordinário que é a nossa casa. O planeta já tinha 4500 milhões de anos de história quando nós aparecemos. O nosso percurso é uma fracção ínfima da vida do planeta. Nós somos os acidentes gloriosos de um processo imprevisível, como disse um dia o biólogo Stephen Jay Gould. Quando os nossos antepassados emergiram nas savanas africanas, e pronunciaram pela primeira vez a primeira palavra, começaram a comunicar uns com os outros e a cooperarem entre si. Essa cooperação foi decisiva para se defenderem com sucesso dos perigos imensos que os rodeavam. E eles sobreviveram porque, sem o saberem, transportavam consigo aquela que é a mais poderosa máquina da criação: o cérebro humano. Ele ajudou-os a ler o mundo, a decifrar os sinais, a detectar o perigo, a construir a cooperação que é a base da vida das comunidades. A descoberta da palavra mudou tudo e com ela veio também a capacidade de efabulação da nossa espécie, que é extraordinária.
Esta crise vai obrigar-nos a lutar pela sobrevivência, a reinventar a vontade e a atenção, a redescobrir a cooperação por objectivos comuns. Vai obrigar-nos a ler, a estudar e a pensar. Como dizia Swift: “Ser é ser tudo.” Esta crise vai reensinar-nos a ser tudo outra vez

Os nossos antepassados resistiram a tudo: aos ataques das feras, aos sustos da natureza, aos ciclos climáticos, à devastação das colheitas, às epidemias mortíferas, às erupções vulcânicas, aos terramotos, às quedas de meteoritos e asteróides. Nessa admirável luta milenar, em cada dia que chegava ao fim, eles reuniam-se à volta da fogueira e contavam as histórias que ainda hoje são o património matricial da nossa espécie. Eles inventaram o fogo, as ferramentas, a vida nas primeiras cavernas e nas primeiras comunidades. Eles inventaram as redes sociais de cooperação. Eles inventaram os primeiros poemas, as primeiras pinturas e transformaram a arte em mais uma ferramenta para a sobrevivência. E há 75.000 anos atrás a espécie humana passou por uma das maiores ameaças à sua existência: a erupção brutal do vulcão Toba, na Indonésia. Esta foi a maior explosão vulcânica até hoje registada na Terra. Biliões de metros cúbicos de cinzas vulcânicas foram expelidas para a atmosfera. O Sol deixou de se ver durante dias a fio. O planeta entrou numa espécie de Inverno vulcânico. As cadeias alimentares foram destruídas. Muitas espécies foram extintas. Os nossos antepassados sobreviveram a esta catástrofe indizível. No fim, os sobreviventes, estima-se hoje, foram cerca de 2000. Cabiam num hotel moderno. E nós somos todos filhos dos 2000.

É por isso que o ADN de dois seres humanos, sejam eles quais forem, é praticamente idêntico. Nenhuma outra espécie tem este grau de similaridade no seu ADN e isto torna ainda mais ridículas as teorias racistas, a xenofobia, a exclusão do outro. Só há uma raça: a raça humana. Estes sobreviventes resistiram a tudo, incluindo às glaciações que fizeram baixar a temperatura do planeta de forma terrível. Esta é uma grande lição. E quando, há cerca de 10.000 anos atrás, a temperatura subiu e as condições ficaram mais favoráveis, eles foram capazes de erguer grandes civilizações, da Mesopotâmia à Pérsia, da Índia à China, da Europa à África e às Américas. Neste caminho a espécie humana foi movida pela curiosidade, pelo espanto, que, como disse Platão, é o motor do conhecimento. Ontem como hoje ele vai contribuir para a nossa sobrevivência.

Na terceira parte do Gulliver, o escritor Jonathan Swift descreve uma estirpe de homens decrépitos e envelhecidos, acomodados e entregues a débeis apetites, falhos de vontade, incapazes de comunicar e incapazes de ler. Este parece um retrato premonitório das nossas sociedades antes do coronavírus: frívolas, superficiais, egoístas, monossilábicas, mutiladas, zombies em perpétuo zapping. Mas esta crise vai obrigar-nos a lutar pela sobrevivência, a reinventar a vontade e a atenção, a redescobrir a cooperação por objectivos comuns. Vai obrigar-nos a ler, a estudar e a pensar. Vai, porventura, criar novos paradigmas políticos, económicos e sociais. Como dizia Swift: “Ser é ser tudo.” Esta crise vai reensinar-nos a ser tudo outra vez.

*Professor do Instituto Superior Técnico

domingo, 26 de abril de 2020

Vivienne Westwood is right: we need a law against ecocide

The economic and legal system rewards corporations that bulldoze, stripmine and burn. A new law against ecocide could halt this destruction.

Fonte: aqui
Designer Vivienne Westwood expressed anguish and alarm at the worsening state of the planet, at a press conference yesterday. "The acceleration of death and destruction is unimaginable," she said, "and it's happening quicker and quicker."
Speaking in support of the European Citizens' Initiative to End Ecocide, her words echo a growing sentiment that we have to do something. One thing we can do is to enshrine the sanctity of the biosphere in law.
That ecocide – the destruction of ecosystems – is even a concept bespeaks a momentous change in industrial civilisation's relationship to the planet. To kill something, like Earth, presupposes that it is even alive in the first place. Today we are beginning to see the planet and all its subsystems as beings deserving of life, and no longer mere resource piles and waste dumps. As the realisation grows that we are part of an interdependent, living planet, concepts such as "rights of nature" and "law of ecocide" will become common sense.
Unfortunately, we live in an economic and legal system that contradicts that realisation. With legal impunity and at great profit, corporations bulldoze and cut, frack and drill, stripmine and burn, wreaking ecocide at every turn. It is tempting to blame corporate greed for these horrors, but what do we expect in a legal and economic system that condones and rewards them? Besides, all of us (in industrial society at least) are complicit. That's why we need a law of ecocide: a concrete emblem of the growing consensus that this must stop.
In moral terms the matter is clear, but what about economic terms? Is ending ecocide practical? Is it affordable? The economic objection implies, "Yes, we should stop killing the planet – but not now. We have to wait till the economy improves and we can afford it." Is this to say that we must accelerate our headlong depletion of natural capital in order that, in some mythical future, we will be rich enough to restore it? Does anyone really believe that we should preserve a living planet only if it doesn't disrupt business-as-usual?
The unvarnished truth that environmentalists might not like to admit is that a law of ecocide would hurt the economy as we know it, which depends on an ever-growing volume of goods and services, increased consumption so demand can keep pace with rising productivity at full employment. Today, that requires stripping more and more minerals, timber, fish, oil, gas, and so on from the Earth, with the inevitable loss of habitats, species, and ultimately the health and viability of the entire biosphere.
Changing that is no trivial matter. What about the estimated 500,000 jobs to be created by the ecologically devastating Albertan tar sands exploitation? We need to change our economic system so that employment needn't depend on participating in the conversion of nature into product. We will have to pay people to do things that do not generate goods and services as we know them today – to replant forests, for example, instead of clearcutting them; to restore wetlands instead of developing them. Every facet of modern life contributes to ecocide; we should expect, then, that every aspect of life will change in the post-ecocidal era.
It is more accurate to say that, instead of hurting the economy, a law of ecocide would transform the economy. It is part of a transition to an economy with less throwaway stuff, and more things made with great care, more bikes and fewer cars, more gardens and fewer supermarkets, more leisure and less production, more recycling and fewer landfills, more sharing and less owning.
What about the argument that if Europe criminalised ecocide, it would be put at a competitive disadvantage with countries that allow it? It is often the case that the rapid stripping of natural capital brings high short-term profits.
How can sustainably harvested lumber from one place compete with cheap, clearcut lumber from another? It can't – unless the principle of ending ecocide is also written into international trade agreements and tariff policies. Sadly, international trade agreements under negotiation today, such as the Transpacific Trade Partnership (TPP) and Transatlantic Trade and Investment Partnership (TPIP), threaten to do the opposite: corporations could have ecocide laws invalidated as barriers to trade.
We need to reverse that trend. A European anti-ecocide law would establish a new moral and legal basis for a global consensus to end ecocide and preserve the planet for future generations. Even if the law isn't enacted immediately, the initiative puts the idea on the radar screen. Sooner or later, such a law is coming, and far-sighted businesses that anticipate the changes it will bring will thrive in the long run, even if that requires difficult short-term transitions.
The European ecocide initiative has so far been signed by about 100,000 people – far short of the one million threshold required to compel the European Commission to consider it formally. Will future generations look back from a ruined planet and wonder why only 0.02% of Europeans exercised their democratic rights to stop ecocide? We can do better than that.
Charles Eisenstein is a speaker and writer focusing on themes of civilisation and human cultural evolution.
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Mais informações no site:

sábado, 25 de abril de 2020

Poema da Semana: Ricardo Reis . "Não tenhas nada nas mãos"

Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último,
Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá.
Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?
Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?
Que horas que te não tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores
Na noite e ao fim da estrada.
Colhe as flores mas larga-as,
Das mãos mal as olhaste.
Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

COVID-19- A NOVA "PESTE " Por uma nova 'habitação da Terra' por VIRIATO SOROMENHO-MARQUES

"O ainda incalculável preço físico, moral e económico da crise global causada pela expansão da pandemia do Covid-19 terá sido em vão se aceitarmos as duas teses que muitos governos começam a enunciar na sua gestão da resposta:
1) esta crise é externa, como se fosse uma calamidade natural sem relação com a ação humana;
2) a vitória sobre esta crise será conseguida quando retomarmos a "normalidade", fazendo o mesmo que antes e da mesma maneira. Se nos deixarmos embarcar nesta visão cega e febril perderemos o potencial de conhecimento e de regeneração que uma crise enfrentada com os olhos abertos sempre permite. Há muitas décadas que repetimos ser a crise global do ambiente e do clima o maior desafio existencial que a humanidade criou para si própria, com repercussões estruturais, ontológicas até, para o futuro do Sistema-Terra, que desde há séculos está a ser objeto de um processo de entropia, em função da agenda da Modernidade, fundada no princípio da "dominação". Desde que o Adão de Pico delia Mirandola (1486) foi entregue, por um Deus cada vez mais distante e meramente contemplativo, à tarefa de se completar a si próprio, pelo uso do seu livre-arbítrio, e que Tommaso Campanella (1623) identificou na aceleração tecnológica a força motriz dos Modernos, que a história da Europa, e hoje de todo o mundo, se transformou numa marcha cada vez mais intensa para a realização da utopia de uma dominação incondicional da humanidade sobre a Natureza. Em 1822, o jovem A. Comte dividia a história em duas idades. Depois da "idade da conquista", entrávamos na "idade da produção". A submissão tecnológica e industrial da Natureza (reduzida à homogénea e dócil "substância extensa" de Descartes) seria capaz de dela extrair todas as recompensas que não tínhamos conseguido obter através de milénios de guerra entre os povos para disputar os parcos e incertos excedentes das frugais economias agrícolas.

O TRIÂNGULO DA DISTOPIA DA DOMINAÇÃO
Depois das fantasias do final de século XX, em que tentámos escapar dos riscos da Modernidade através da poção mágica dos vários profetas da "pós-modernidade", sabemos hoje, em 2020, que continuamos na mesma estrada de Gama, de Copérnico, de Pascal, de Adam Smith, de Condorcet. Para se sair da Modernidade, para se evitar o colapso mortal contra o muro das pandemias (como o Covid-19), Que ocorrem pela intrusão humana nos últimos redutos da biodiversidade, para impedir a desordem social e a disrupção política que um processo descontrolado de alterações climáticas acarretará - envolvendo migrações de milhões de refugiados ambientais, com o risco de guerras brutais pela água e pelo solo arável - então teremos de enfrentar uma dura verdade: o meio milénio de esperança utópica na autonomia e na emancipação humanas, degenerou na distopia da dominação. A nossa época é a da utopia realizada por excesso, como pesadelo. A distopia da dominação, com a sua imensa inércia, transformou a economia numa força de niilismo material que ameaça devorar tudo e todos no seu caminho. Contudo, jamais poderemos sair do niilismo distópico sem percebermos como funcionou o software das promessas utópicas da Modernidade. Ele pode ser descrito pela dinâmica triangular que a seguir se enuncia:
1. Substituição da ética pela fusão da técnica e ciência, como ficou, especialmente, patente nas obras de Descartes e Bacon. A chave do futuro, desse lugar por realizar, desse u-topos, não se encontra na mudança da natureza humana (como seria o caso da conversão ética patente de modo central nas utopias clássicas, de matriz platónica), mas sim na intensificação da dominação da cultura humana sobre a Natureza.
2. Crença na transferência do infinito teológico e/ou metafísico para o poder humano sobre o mundo físico (cuja possível extensão ao campo da "biologia" está desde o inicio presente): progresso, crescimento exponencial (a religião do neoliberalismo!), mobilização, aceleração. Essa mutação radical da utopia moderna funda-se no aprofundamento do conhecimento sistemático dos processos causais inerentes às forças e fenómenos naturais, e na sua replicação técnica para fins humanamente úteis. É o horizonte e as promessas da sociedade tecnocientífica, em que nos encontramos longamente mergulhados, que se encontram enunciados na linguagem dos grandes pensadores de Seiscentos.
3. Recusa da existência de limites intransponíveis pela tecnociência em aliança com o Estado, o Mercado, ou com ambos. As grandes utopias modernas procuraram ajudar a criar uma espécie de nova humanidade, através da criação de inusitados meios tecnológicos (ao serviço da nova ideologia do cientismo), suscitados pela explosão do potencial científico
das sociedades, e pelo dinamismo de mercados económicos totalmente libertos de qualquer espécie de constrangimentos ou mecanismos de moderação. O tema do poderio humano, centrado durante séculos no controle e domesticação da natureza biofísica, conhece hoje uma espécie de recuo em direção à própria condição humana. Nas suas manifestações mais recentes, o cientismo afirma-se numa radicalidade demencial, como é o caso dos autores transhumanistas, segundo os quais a arquitetura atual da condição humana, fruto da evolução natural, é um obstáculo à continuação ilimitada das aplicações tecnológicas, sendo por isso urgente uma nova engenharia do fenómeno humano! É caso para recordar o lema da Liga Hanseática: navigare necesse,
vfvere non est necesse. . .

AO LONGO DOS ÚLTIMOS CINCO SÉCULOS
temos assistido ao intenso desfilar desta aposta ideológica na abertura indeterminada do mundo às modulações e modelações da novel tecnociência. Os entes físicos surgem como mera matéria-prima, amorfa e ilimitadamente robusta, pronta a ser transformada, pela livre decisão de um Demiurgo humano. O infinito deixou de ser um predicado atribuível apenas ao Deus criador do Cristianismo, ou às ideias puras da metafísica antiga, para se transferir para a indefinida e inesgotável capacidade plástica da criatividade humana, armada pelo braço da técnica. Apenas num século, entre 1901 e 2001, a força propulsora da tecnociência fez multiplicar a população humana quatro vezes e a riqueza económica por 40 vezes. A crise de saúde pública que está a paralisar o mundo, e a tirar a vida a milhares de pessoas, é apenas uma parte menor do preço que a continuação dessa "normalidade" distópica implicaria.

O QUE PROPÕE O PRINCÍPIO DA FRAGILIDADE?
A crítica ecologista ou ambientalista da modernidade tem sido mais hábil na análise parcelar do que na proposta de uma cosmovisão capaz de se opor à distopia da dominação. Por exemplo, o próprio conceito de "desenvolvimento sustentável" - que visa sobretudo descrever e caracterizar um processo político, económico e social de transformação e mudança - constitui uma fórmula algo contraditória. Por um lado, através do conceito de "desenvolvimento", partilha do impulso dinâmico, de progresso ilimitado, dessa matriz de desmesura tecnológica que pretende criticar e superar. Contudo, através da "sustentabilidade", este conceito abre -se para aquilo que me parece essencial: para sobreviver, em condições de dignidade, a humanidade deve reassumir com humildade o seu lugar no interior do "Sistema-Terra", o nome que as novas Ciências da Terra dão ao clássico conceito de Natureza. Isso implica uma verdadeira "conversão ecológica", no sentido franciscano (de S. Francisco e daquele que se encontra patente na Laudato si do Papa Francisco). É isso que designo por "princípio da fragilidade": a consciência positiva da vulnerabilidade da condição humana, não como algo a ultrapassar, mas como aceitação da nossa pertença a um todo maior, a uma solidariedade ontológica com o mundo e todas as suas criaturas, humanas e não-humanas, constituindo uma "comunidade de vida", na expressão de Aldo Leopold (1949). Comunidade que é o derradeiro baluarte protegendo o futuro contra o abismo de destruição para onde o princípio da dominação nos empurra. Nessa medida, o princípio da fragilidade oferece-nos uma "inversão de todos os valores", que nos conduz à coragem da reinvenção da política, da ética e da economia - usando a religação à Terra como estrela polar - lançando-nos na tarefa de resgatar o futuro da desintegração em marcha. Esses novos valores, contêm, em simultâneo, a crítica e a proposta:
A) Pluralismo de fins, recusa de hierarquia vertical. O pluralismo do mundo humano, como diz Hannah Arendt, deriva do facto de apenas existirem homens e não "Homem". Isso é válido para as narrativas e projetos de vida. A horizontalidade do respeito deve substituir a verticalidade da arrogância. O desenho do futuro é entendido como tendo condições para abrigar múltiplas finalidades em coexistência pacifica, desde que os mínimos requisitos fundamentais da sustentabilidade ambiental sejam devidamente levados em conta.
B) Crítica à desmesura da tecnociência. O que está em causa não é uma atitude ludista de absoluta alergia à técnica, mas a recusa de uma visão acritica e acéfala dos riscos da sociedade tecnológica, bem como o mal fundado de uma visão, totalmente febril, da capacidade da Natureza suportar as nossas investidas plásticas, sem perigo nem vacilação.
C) Suspeita face ao desempenho dos irmãos gémeos do Estado e do Mercado. Assim como não há fins que mereçam um destaque privilegiado ao ponto de ser legítimo vislumbrar a possibilidade de eliminação de todos os outros, também não há veículos escatológicos de eleição exclusiva. Dito de outro modo: o pluralismo de fins coabita com o pluralismo de sujeitos históricos, modeladores de futuro.
D) Perceção do futuro como abertura a uma pluralidade de possíveis. O tempo é considerado como tal, numa diferença radical em relação à previsibilidade do espaço. O futuro pode apenas ser aberto, e não vislumbrado na previsibilidade de um horizonte cujos contornos se oferecem como disponíveis. A razão calculadora deve reconhecer os seus limites face às incertezas do tempo como indomável objeto de conhecimento e delicada matéria-prima para a ação. A Política deverá ser entendida como cooperação, mesmo e até como cooperação compulsória. É a resposta inevitável a uma conceção "moderna" de política que esteve prestes a sacrificar a espécie humana num holocausto nuclear (que ainda não foi definitivamente excluído como possibilidade histórica). Mais necessária e obrigatória se torna essa cooperação quando estamos confrontados, como humanidade inteira, com as tarefas gigantescas de uma nova forma de habitar o planeta, devastado pela crise ambiental e climática antropogénica, e ameaçados pelos riscos de guerra e violência decorrentes das desigualdades e injustiças crescentes.
A crise pandémica do Covid-19 abre-nos a janela de tarefas tão urgentes como titânicas. Durante décadas tolerámos que o sonambulismo se substituísse à exigência de escutarmos os sinais de perigo e as ameaças que a euforia da dominação colocou entre nós e o futuro. A margem de erro é agora nula. A escolha é entre as dores de um novo parto da civilização ou a imperdoável aceitação do suicídio da própria humanidade."

- Viriato Soromenho-Marques, Jornal de Letras, 25 de março de 2020, pag. 1, 6, 7, 8, 9.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Carlos Fiolhais: "Só há três competidores no planeta: o homem, os vírus e as bactérias"

Está fechado em casa há duas semanas como muitos portugueses e olha com esperança a situação do mundo sob uma pandemia que não se adivinhava poder regressar ao planeta de uma forma tão violenta. Não perdeu a confiança na ciência mas também não acredita que a humanidade sairá deste susto tão diferente assim. Nem ao nível da economia, um dos piores receios para o passo seguinte nas sociedades, mesmo que acredite em algumas alterações políticas em países com governantes como Trump ou Bolsonaro. Quando se lhe pergunta se as pessoas poderão "perder" a cabeça nestas próximas semanas de isolamento social, responde com cautela: "Não direi perder, mas sei que nem todos estão com a cabeça segura. O que é preciso agora? Responder racionalmente ao problema. Ele existe e é preciso usar o melhor do nosso conhecimento e ter muito em conta a atitude de cada um para resolver a questão."

Fonte: aqui
Como vai ficar o mundo depois desta quarentena?
Não sabemos como é que isto vai acabar, de facto há uma grande incerteza em tudo e essa é a maior das nossas maiores preocupações. Não sabemos lidar com a incerteza, até pode acontecer que não seja apenas um pico agora e que volte mais tarde, no inverno, mas estou confiante de que vai passar. Irá haver um mundo depois deste surto epidémico e tudo irá continuar - não lamento desiludir os que anunciam o fim. É claro que teremos de fazer por isso e esta crise poderá revelar tanto o melhor de nós como o pior. Aliás, esta situação já se verifica. No melhor, por exemplo, o podermos rapidamente espalhar conhecimento com base na ciência que temos. Não sabemos tudo, mas sabemos muita coisa. No pior, é o espalhar da desinformação através das redes que temos montadas e que resultam também do conhecimento científico.

Como se pode exibir essa forma de pior?
Não sei o que passa pela cabeça de pessoas que inventam falsidades e as espalham, com o medo que daí resulta e nos tolhe os movimentos. O medo nem sempre é um fator de racionalidade.

O que sabemos agora e podemos fazer?
Sabemos que é um vírus, situação que há cem anos, na gripe espanhola de 1918, se desconhecia. As pessoas morriam sem saber porquê. Agora, com base na sequenciação do genoma do covid-19, já feito de uma forma muito rápida, avançou-se muito. A pandemia foi declarada em março, o primeiro caso conheceu-se em novembro, mesmo que só no final de dezembro se soubesse o que era, porque existiam pneumonias a mais na China.

Até há dias acreditava-se no poder infinito da ciência. A falta de uma resposta científica não fará descrer nesse conhecimento?
A ciência está a fazer o que pode. Os testes que foram criados são fruto de uma tecnologia extremamente rápida - nunca vi a ciência ser posta tão rapidamente em ação - e já sabemos quais os meios que temos para nos prevenirmos. A questão do distanciamento social é uma das respostas, que vai mudar a nossa sociedade. E atenção, porque não iremos precisar dele apenas por dois meses.

Até há dias falava-se em ir a Marte, mas nem se é capaz de resolver o problema na Terra!
Vamos conseguir resolver com certeza, só que dentro das limitações que temos. Não somos super-homens nem deus e devemos evitar certas expectativas por parte de algumas pessoas.

Esta quarentena poderá ser uma lição?
Sim, será uma lição, mas apenas para as pessoas que depositavam demasiadas expectativas na ciência. O que é a ciência? É apenas o melhor método que temos de conhecimento válido sobre o mundo. Que sairá reforçado - nunca diminuído -, pois até as pessoas que estão surpreendidas com o que está a acontecer devem lembrar-se de que o mundo está cheio de epidemias. Neste século já tivemos muitas epidemias, basta que se chame a este vírus o SARS-CoV-2, no entanto o que pensávamos é que era uma coisa pequena e lá longe; não foi o que aconteceu, é gigante e está por todo o mundo. Mas era bem conhecido dos cientistas, existiam previsões, tanto que há um relatório da Organização Mundial da Saúde de outubro que chamava a atenção para os perigos de uma epidemia.

Não se podia evitar esta pandemia?
As pessoas estão habituadas a carregar num botão ou a tomar um medicamento, mas esquecem-se de que essas situações pressupõem muitos anos de trabalho e décadas de investigação. Talvez a ciência devesse transmitir melhor a nossa relação com o planeta, que somos parte dela e que sempre dividimos a Terra com o resto da vida. Há um prémio Nobel especialista em biologia molecular, Lederberger, que diz que só há dois competidores no planeta: o homem e os vírus. Eu acrescentaria as bactérias, que são mais antigas do que os homens e que continuarão mesmo que aconteça algum cataclismo que ameace a espécie humana. Como somos parte da natureza e a evolução nos trouxe até aqui apesar de todos os ataques de vírus e de bactérias - a humanidade está aqui e mais forte do que nunca -, não sou pessimista. Aliás, temos um sistema de saúde e de higiene pública em Portugal que foi desenvolvido à custa de epidemias.

Não é uma novidade para os nossos antepassados estes combates epidémicos?
Não, no final do século XIX, Ricardo Jorge tomou medidas contra a peste bubónica no Porto, que era um surto da peste negra do século XIV, vinda da China também, e foi com isso que aprendemos. Contudo, não devemos demonizar os micro-organismos, até porque fazemos insulina com uma bactéria. Podemos dizer que temos uma enorme vantagem sobre os vírus e as bactérias, e há um historiador, Yuval Harari, que chamou recentemente a atenção para isso: os vírus e as bactérias não comunicam uns com os outros nem dizem da China para aqui "faz isto ou aquilo", enquanto nós estamos a falar entre os vários países do mundo. Partilhamos o mundo com vírus e bactérias, mas estou convencido de que somos mais poderosos. Basta ver que criamos ciência, cultura e meios de comunicação. Creio que há soluções e que sem a ciência não nos salvaríamos, mas não é apenas a ciência que nos salva, existem outras coisas - como a solidariedade e a cooperação - e também devemos estar atentos à economia, à política e à ética.

Está de quarentena? Já começou a questionar algumas das suas certezas ou mantém-se firme nas crenças sobre a ciência?
Sim, estou em casa há duas semanas e só saí uma única vez, evitando todos os contactos. Quanto a interrogações, não há pessoa que não as faça. Contudo, até agora nada descobri que não soubesse. Se tenho questionamentos filosóficos e metafísicos que não tinha antes, não. Esta situação vem consolidar algumas das questões de que eu estava convencido, por exemplo, que o conhecimento é um valor e que a sua partilha é importante. Mesmo fechados em casa, temos de perceber o valor enorme que é a possibilidade de comunicação. Estamos sozinhos, mas não estamos sozinhos; o mundo parece estar aparentemente fechado mas continua aberto na verdade, e esse é um conseguimento nosso. Quero crer que esta é uma oportunidade para a sociedade e para os governos acreditarem e valorizarem o conhecimento. Iremos sair desta situação de uma forma mais sustentável e, se eu já tinha esta certeza, sei que iremos continuar no mundo, só que com outros problemas para resolver.

Não faltam problemas ao planeta?
Será o caso das alterações climáticas globais, que, com este problema premente que nos afeta, será possível ver melhor que daqui a 30 ou 40 anos será tarde de mais. Não vemos as mortes a acumular-se com as alterações climáticas, mas perceberemos melhor que as décadas em falta para solucionar essa questão passarão num instante. Daí que espere que esta epidemia leve a uma consciencialização maior da que têm certas figuras inimigas da ciência, como Trump e Bolsonaro. Creio que acabarão também vítimas disto porque o que vai acontecer com a quebra da economia é que as pessoas perceberão melhor o que eles andaram a prometer que iria acontecer, negando a ciência. Portanto, há coisas que lhes vão correr mal.

É o preço da democracia?
Seria um dano lateral positivo se alguns desses personagens que não ajudam ao futuro do mundo pudessem cair. Estamos num estado de exceção, mas gostaria muito que as democracias resistissem a isto. A China respondeu, mesmo sendo uma autocracia muito forte e que lidou de uma maneira muito dura com esta situação, mas agora está a ajudar a Europa. Seria irónico que também tivesse de ajudar os Estados Unidos! Não acredito que a democracia esteja em risco nem quero, mesmo que não tenha sabido resolver o problema das desigualdades; o que precisamos é de mais democracia e o que estamos a fazer fechados em casa é sacrificar alguns dos nossos direitos na atualidade para os poder ter de forma plena depois. Vamos voltar à rua, fazer manifestações e greves, mas de momento fazemos uma interrupção voluntária.

Confirma-se que tem fé na ciência...
Fé não é a palavra, prefiro confiança na ciência...

Deixe-me usar a palavra fé, porque neste momento há milhões de católicos que não observam por parte da Igreja grandes respostas. Como será a reação à inoperância da Igreja perante esta crise?
Não é uma pergunta fácil, mas vou tentar responder. Entre os séculos XIV a XVI, por exemplo, quando não se sabia a origem dos males do mundo, estes eram atribuídos ao castigo divino. Num mundo dominado pelo cristianismo, era a fúria de Deus! Aliás, vimos isso em Portugal no século XVIII, quando o padre Malagrida é queimado pela Inquisição porque não queria reconstruir a cidade de Lisboa pois não valia a pena voltar ao mundo que existia por ser um mundo de pecado e, decerto, voltaríamos a ser castigados - reedificar a cidade era voltar a pecar. Agora, as cidades secularizaram-se e não estamos mais num tempo em que a questão seja entre ciência e religião - como já foi noutras épocas -, e sabemos o que é responsabilidade de cada uma. O problema do vírus não pertence à religião, embora esta possa ajudar e servir de consolo às pessoas. Com certeza que os religiosos encontram consolo na oração e soluções pessoais e, de algum modo, coletivas. A religião poderá ser uma força para a solidariedade numa situação de crise como é a atual, mas isso não quer dizer que a solução efetiva não tenha de ser da ciência. E a religião hoje sabe isso.

Os fiéis têm consciência de que a religião nada poderá fazer neste caso?
Não pode fazer nada do ponto de vista científico, mas pode o que sempre fez: criar coesão. Estou muito admirado pelo facto de terem acabado as missas em Portugal, uma coisa nunca vista nos últimos séculos, até diria que é inédito na história de Portugal porque mesmo no tempo em que as pessoas morriam por contágio, e houve epidemias terríveis - como a da gripe espanhola, que matou mais gente em todo o mundo do que a I Guerra Mundial, 50 milhões de pessoas -, e até nesse tempo a missa e os serviços religiosos continuavam. Agora estamos numa situação inédita, que é a de não termos serviços religiosos e tudo passar pelos meios de comunicação à distância que a ciência inventou. É muito complexo não haver funerais, uma realidade culturalmente muito entranhada entre nós e que neste momento está limitada a serviços mínimos. Conseguiremos lidar com isto temporariamente, mas tenho dúvidas de que consigamos por muito tempo.

Assistência aos doentes da gripe espanhola em 1918.


Como vê certas profecias sobre o fim da pandemia?
As pessoas que vêm anunciar que isto está resolvido no dia xis estão enganadas. Nestas alturas aparece sempre muita gente a dizer coisas como, por exemplo, os modelos matemáticos; modelos não são mais do que isso. Um epidemiologista e um médico olham de outra maneira porque a questão é complexa e depende de muitos fatores. É que não é só a ciência a atuar, há a economia, dos valores da ética - que transcendem largamente a ciência. Sei que as religiões têm uma palavra sobre a ética, que é um assunto civil e laico, e neste momento há sobressaltos éticos enormes. Por exemplo: se tivermos um ventilador e dois doentes terminais, a qual deles vamos dar o aparelho? Este assunto que, felizmente, em Portugal ainda não se põe, acontece já em Itália e em Espanha. A quem serve o ventilador é uma questão da ética, é um problema de todos; de um momento para o outro estamos confrontados com questões em que a ciência não entra, ou só de forma muito limitada.

O que tem a ciência a dizer sobre a ética?
É preciso ter consciência de que a ciência tem limitações e não fornece respostas a algumas questões. Não dá resposta a questões do tipo religioso, filosófico ou metafísico. Diz coisas sobre o homem e a vida que são importantes para continuarmos a viver, mas não sobre os sentidos que alguns continuam a procurar e encontram. Percebo bem que a religião tenha um papel, mas situações como esta ajudam também a perceber que cada um tem o seu lugar e que não é o de conflito. O pior de tudo seria se as várias dimensões humanas entrassem em choque.

Nas últimas semanas, a sociedade portuguesa discutia a eutanásia. De um momento para o outro esse debate foi ultrapassado com situações de ter de deixar morrer pessoas, questionamento que até há alguns dias não se colocava aos médicos!
É isso mesmo, estamos perante problemas sobre os quais não pensámos o suficiente e espero que não estejamos a pensar mal agora. Vou crer que sim. Ao contrário da gripe de 1918, que atacava sobretudo os mais novos e levou pessoas na flor da idade, como Amadeo de Souza-Cardoso, Egon Schiele e Apollinaire, agora, por razões que só em parte percebemos, está a ter taxas de mortalidade que são notórias nas pessoas com mais de 70 anos e com outras fragilidades. É importante interrogarmo-nos se estamos a tratar bem essas pessoas, nomeadamente quando a sociedade estava a colocá-las em armazéns chamados lares. A questão é se depois iremos tratar os mais idosos da mesma forma.

Como vê o facto de filhos e pais não se poderem ver por agora para evitarem o contágio?
Neste momento a política de afetos tem de funcionar à distância, mesmo que haja esta questão: o afeto consegue anular a distância? A ciência não diz nada sobre isso, mas consegue dar meios para que uma questão humana, a do afeto, seja transmitida de outra forma que não com abraços e beijinhos. É até uma situação de reinvenção social, e não vai ser uma coisa por dois meses, iremos ter cuidado a cumprimentar durante muito tempo.

A ciência não terá a obrigação de se humanizar em face do que se assiste?
Calma... a ciência não é algo desumano, pelo contrário, é do mais humano que conheço. Este impulso que a espécie humana tem e que lhe garantiu a sobrevivência para chegar aos sete mil milhões de humanos no planeta não existiria sem ciência, nem estaríamos aqui nesta quantidade e nesta longevidade. A ciência assegura a continuação e a duração do humano, portanto não se pode dizer que é um conhecimento desumano. Não somos entes deslocados do mundo, somos feitos de células, estas de moléculas que obedecem às leis da física e da química. E não deixamos de poder amar ao saber como somos feitos, portanto a imagem de desumanidade que se cola à ciência é equívoca. Os cientistas que conheço são humanos e, espero voltar ao tempo em que os abraçava - eles eram feitos de carne e osso - apesar de neste momento não lhes poder tocar. Não conheço nenhum cientista extraterrestre. A ciência é um processo que não nos dá verdades absolutas, mas chegámos até aqui com este saber e iremos chegar mais além e com mais saber. É um caminho que conta também com a capacidade humana de compreender onde estamos e quem somos. Estas questões humanas estão escritas desde há muito no Templo de Apolo, em Delfos.

O que irá acontecer à cultura do individualismo que as sociedades vinham a valorizar perante a vivência deste isolamento social?
Não podemos fechar-nos em nós próprios porque desse modo não existe ciência e sociedade - não há coisa nenhuma. O homem é um animal social desde o neandertal e é essa ligação entre humanos que tem garantido a construção das sociedades e a nossa civilização. Assistimos a processos de maior ou menor agregação, maior ou menor individualização ou coletivização, mas uma coisa é certa, se não estivermos juntos não saberemos enfrentar dificuldades como até agora. A frase do Evangelho "Ama o teu próximo" é verdadeira, pois não temos mais ninguém para amar senão aqueles com quem partilhamos este planeta. Espero que esta crise nos leve a tomar consciência dessa proximidade com os outros e que o facto de estarmos isolados fisicamente neste momento temporário não poderá significar que não iremos precisar de voltar a estar juntos. E a nossa cultura tem aí um grande papel a desempenhar logo que possa voltar a acontecer, pois por agora não podemos estar juntos numa sala de espetáculos.

Não acredita no futuro dessa cultura do individualismo?
Talvez mais do que o individualismo é a do egoísmo, que sempre existiu, e pior do que isso é a do egoísmo de grupo. A questão dos nacionalismos era muito patente que estava em crescendo, como a da exclusão do outro, a da diferença com base na cor da pele ou da religião. Não garanto que não continue a acontecer, pois se não temos ainda vacina para esta epidemia, também será difícil encontrar aquela para os problemas da sociedade. Não tenho a ilusão de pensar que o mundo vai mudar subitamente. Não, está a ser bastante sacudido neste momento, mas este mundo como conhecemos vem assim desde o tempo dos gregos.

O mundo não mudará assim tanto com este pesadelo?
Não vai ser totalmente diferente, mas vai haver diferenças. Espero que certos comportamentos mudem, que a ciência seja mais percebida como um bem comum, que as nações saibam enfrentar as alterações climáticas, mas não tenho a certeza se o mundo vai ser melhor depois do que estamos a viver. Não se pode adivinhar o futuro nem, por exemplo, se irão acontecer grandes alterações na economia como tanto se fala. Ninguém o pode afirmar, para mim estão a confundir a realidade com os seus próprios desejos. Eu também posso estar a fazer isso, afinal projetamos sempre no futuro os nossos desejos. Mas de uma coisa estou certo, este tempo por que estamos a passar não será o fim da diferença entre as visões do mundo.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu um cessar-fogo dos conflitos em todo o mundo. O que acha desta proposta?
Eu percebo a intenção dele - de esperança e de paz -, mas é um bocadinho ingénua. Vimos em toda a história que nunca houve um período de paz. O conflito não vai acabar na espécie humana, vamos, sim, continuar a ser humanos noutras circunstâncias. O importante é saber como serão distribuídos os recursos acumulados.

Vai pôr-se a velha e grande questão sobre a diferença entre ricos e pobres?
Essa é uma questão permanente e não existe resposta fácil para ela. Seria bom dizer que vai haver mais equidade, no entanto, basta ver os EUA, que estão a ter esta epidemia em força agora e em que os pobres são os mais afetados. Isso é muito visível nesse país porque não têm um serviço nacional de saúde como os países da Europa. Os pobres irão sofrer mais nos EUA, o que nos leva até ao resultado das próximas eleições em novembro: esta epidemia pode mudar as intenções de voto nas próximas eleições? Não o sei, mas gostava que o atual presidente não pudesse continuar mais quatro anos.

Einstein passou por Lisboa em 1925.

Escreveu sobre a visita de Einstein a Lisboa em 1925 e de como foi ignorado...
Ele passou em Lisboa quando viajava de navio da Alemanha para o Brasil, onde foi recebido com todas as honras. Ele já era prémio Nobel, mas cá não foi reconhecido. Passeou na Baixa, foi aos Jerónimos e ao Castelo de São Jorge, reparou que as nossas varinas eram muito bonitas... foi pena que não tivesse encontrado o Fernando Pessoa, que andava pela Baixa nessa altura. Seria o encontro de dois génios, mas se passaram um pelo outro não se reconheceram. Até porque o Pessoa era desconhecido à época entre nós. Portanto, houve duas pessoas a quem não prestámos atenção, o que mostra que não é só para com os estrangeiros que temos dívidas. Estávamos na República e a educação, a ciência e a cultura científica eram muito embrionárias. Houve uma guerra mundial, a gripe espanhola, o assassínio do presidente Sidónio, golpes de estado sucessivos e uma crise económica grave. Depois a ciência não melhorou, veja-se a história de perseguições e censura aos cientistas. A nossa história do século XX não foi muito amiga da ciência e só mudou em 1974, mais em 1986 com a adesão à União Europeia e ainda mais em 1995, quando Mariano Gago foi ministro da Ciência e Tecnologia e colocou a questão da ciência no Conselho de Ministros e da cultura científica na sociedade. Neste momento, quando vem um cientista prémio Nobel a Lisboa toda a gente sabe.