domingo, 15 de agosto de 2021

José Gomes Ferreira diz que não há degelo e que o mundo é mais verde. Ciência prova que está errado

O diretor-adjunto de Informação da SIC sugere que o aquecimento global talvez não seja assim tão grave como se pensa, argumentando que o gelo "enquanto derrete de um lado, acumula do outro". A ciência diz que está errado.


Esta quarta-feira, 11 de agosto, José Gomes Ferreira, diretor-adjunto de Informação da SIC, fez uso da sua rubrica semanal no programa "Negócios da Semana", da SIC Notícias, para argumentar que a problemática das alterações climáticas não é assim tão grave depois de o mais recente relatório do Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas (IPCC) ter concluído que o planeta deverá aquecer 1.5.ºC até 2040, evidenciando a ação humana como principal responsável.

As previsões mantêm-se: o aumento da temperatura global e dos fenómenos que lhe estão associados, como as secas, o derretimento das camadas de gelo, a ocorrência de chuvas intensas em algumas regiões e a diminuição noutras ou o aumento do nível do mar.

As conclusões são claras, evidenciando que está tudo a acontecer a uma velocidade e intensidade alarmantes. José Gomes Ferreira, no entanto, desvaloriza este contexto, numa posição que provocou incómodo à comunidade científica.

Esta a segunda vez que o diretor-adjunto da SIC assume posições controversas depois de, em junho, ter argumento que Marte não era vermelho — com a ciência a provar que estava errado.

O movimento dos polos magnéticos para as alterações climáticas

No programa, que contou com a participação de João Joanaz de Melo, professor de Engenharia do Ambiente na Universidade NOVA de Lisboa e dirigente do Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (GEOTA), Gomes Ferreira questionou o especialista sobre se este admitiria que "o deslocamento dos polos magnéticos, nomeadamente o polo magnético situado mais a norte, que neste momento já está sobre a Sibéria e bastante afastado do polo geográfico, também ser uma das razões ou estar por detrás de um conjunto de razões" para explicar as alterações climáticas.

O especialista foi assertivo na resposta, garantindo não ter qualquer informações que ateste à veracidade da teoria proposta por José Gomes Ferreira.

Francisco Ferreira, presidente da Zero — Associação Sistema Terrestre Sustentável, diz que o mais recente relatório do IPCC não afirma que o movimento dos polos possa contribuir para o aumento da temperatura global. Mas embora conceda que haja fatores naturais que possam contribuir para o acentuar das alterações climáticas, "não são os fatores verdadeiramente responsáveis por este cenário", explica em declarações à "Sábado".

Uma investigação publicada em agosto pela NASA concluiu isso mesmo, garantindo que as variações do polo magnético da Terra não eram diretamente responsáveis pelas alterações climáticas.

O gelo derrete de um lado e acumula no outro?

Outra das declarações polémicas de José Gomes Ferreira tem que ver com o facto de o próprio concluir que a Antártida não está a derreter já que, nas suas palavras, "enquanto derrete de um lado, acumula do outro".

Para justificar a sua posição, o diretor-adjunto de Informação da SIC apresentou um gráfico que mostra a área do oceano com pelo menos 15% de gelo na Antártida entre maio e setembro, denotando um aumento da extensão do gelo em setembro. Isto significa que não está a haver degelo? Errado.

Ainda que o gráfico demonstre, de facto, essa dinâmica, o especialista Francisco Ferreira diz que é errado tecer conclusões desta forma descontextualizada quando os dados apresentados dizem respeito apenas a um período específico, continua à mesma publicação.

O que importa, refere, é olhar para a evolução das médias face ao nível de degelo. E o que elas concluem é que a situação é, de facto, preocupante por estar a evoluir a um ritmo alarmante já que a "idade média" do gelo continua a decrescer de ano para ano.

Afinal, o mundo está mais verde?

Noutro argumento, José Gomes Ferreira garante, apoiando-se num estudo da NASA, que houve um aumento das áreas verdes no planeta entre o período compreendido entre 2000 e 2017 devido à agricultura intensiva.

"Estão a ser regados desertos no norte e no leste da China, a Índia apostou na agricultura intensiva que está a levar a mais verde e isso aparece também no norte de África e nas zonas da América do Norte. A ação humana está a levar a que haja mais verde", argumentou o diretor-adjunto de Informação da SIC.

Ao questionar João Joanaz de Melo, presente no programa da SIC Notícias, sobre se este era um bom sinal, o especialista explicou que "pode não ser", já que "esse indicador, só por si, não significa nada". Joanaz de Melo concretiza, enumerando os "indicadores verdadeiramente importantes". "Uma floresta que é abatida e que é substituída por uma área agrícola pode ter uma aparência mais verde, mas a quantidade de biomassa será muitíssimo menor."

Quando interrompido por Gomes Ferreira, que argumentou que "era melhor ter lá verde do que não ter nada", Joanaz de Melo acrescenta que, do ponto de vista ambiente, é melhor ter "verde natural do que agricultura intensiva".

"Um olival tradicional tem uma biomassa maior do que um olival intensivo. Outro indicador fundamental é perceber qual a biodensidade que foi destruída, já que é um indicador crítico para a saúde ecológica do planeta", explica Joanaz de Melo. E continua: "Quando temos uma agricultura intensiva, o que temos é a perda de solo, de espessura de solo. Isso compensa-se com fertilizantes químicos e técnicas agrícolas mais intensivas que, dependendo de como são aplicadas, podem provocar, em alguns casos, a destruição do solo."

É isto que leva o especialista a reforçar que, o facto de, agora haver mais terrenos ocupados por agricultura intensiva não se traduzir na melhoria da qualidade do solo nem, por exemplo, na capacidade de reter mais carbono no solo ou na biomassa.

"A única coisa que acumula dióxido de carbono é uma mata, uma floresta ou um matagal que esteja a crescer. Quando tipo de ocupação [agrícola] que esteja estacionária, pode funcionar como armazém de carbono se tiver uma biomassa significativa, mas não está a acumular mais. Há uma diferença muito importante entre a captura e o armazenamento de carbono", conclui.

2 comentários:

Carlos Faria disse...

Mas é bom haver jornalistas a questionarem técnicos e a apresentarem elementos que são usados por negacionistas, isto pide primeiro parecer incómodo, mas obriga à comunidade científica a trabalhar estes aspetos de modo a fornecer respostas que possam também esclarecer o grande público e a esvaziar a contrainformação descontextualizada lançada pelos negacionistas das alterações climáticas sem ninguém credível estar em paralelo a desdizê-los

João Soares disse...

É uma perspetiva interessante.
Abraço
Até breve