segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Sobre a Terra, havia sobreiros…




Todos os meses, o projecto “Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental”, ligado à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, dá-lhe a conhecer as paisagens e a biodiversidade que povoam as obras literárias de escritores portugueses.


“Sentados em fardos de palha, faziam o caminho até ao campo em silêncio. O mesmo vento que passava pelos rostos, como árvores, dos homens era o vento que passava pelo rosto do rapaz. Quando desciam sobre a terra, havia sobreiros. O pai tinha o machado na mão e começava a subir a um sobreiro que conhecia de outros verões da sua vida. Josué procurava uma saca e, por baixo das copas agitadas dos sobreiros, ia enchendo-a de pedações de cortiça. Quando os homens arrancavam uma prancha de cortiça, tinham cuidado para que não caísse em cima de Josué. O pai afastava as pernadas do sobreiro para conseguir segui-lo com o olhar.

[…] Os homens acertavam com os machados nos sobreiros e arrancavam-lhes pranchas de cortiça como se lhes arrancasse a pele. O tronco das árvores ficava mais claro, ficava liso e tinha pequenas gotas de água.“

José Luís Peixoto, “O último dia de todos os verões”, Cal

Sobre a terra, o sobro. 
Sobre o silêncio, o sobreiro. 
Sob o vento, o sovereiro. 
Sob o chaparro, uma criança.

Quercus suber, dizem os cientistas. “Sobe-me”, dizem os sobreiros à criança que foi — que ainda é — José Luís Peixoto. A sua escrita, como a sua vida, é pontuada de sobreiros: “Costumava passar muito tempo a brincar no campo e, durante essas aventuras, os sobreiros eram convites a trepar.” No Alto Alentejo, o vento que passava pelo rosto do rapaz é o mesmo vento que agora varre a palavra suber e nos cicia “subam”…

Subir a um sobreiro — é este o convite do excerto acima. Podemos subi-lo com o machado dos tiradores de cortiça, trepá-lo com os (a)braços de uma criança, escalá-lo com a lupa do biólogo. E lá do cimo “das copas agitadas dos sobreiros”, haveremos de saber o sabor do suber.

Os pés, às vezes descalços, dos tiradores de cortiça sabem que o sobreiro é uma árvore forte e robusta, habitualmente com 10 a 15 m de altura, e que os sobros que conhecem “de outros verões da sua vida” podem atingir os 25 metros e os 300 anos. De machucos e chaparros, tornam-se “sobreiros solenes como patriarcas” (José Cardoso Pires). As mãos encortiçadas dos corticeiros aprenderam que a extracção das pranchas se faz através do manejo certeiro de um único instrumento, a machada corticeira, usada apenas nesta função, com cortes cuidados no tecido morto da casca, sem ferir os tecidos vivos do interior. A arte sóbria do descortiçamento permanece tradicional — quase táctil, quase intacta — desde tempos ancestrais. A transmissão deste conhecimento é feita de forma oral, atravessando montados e gerações: o machado na mão do pai, já a saca na mão do filho a enchê-la de pedações de cortiça.

Aos olhos de uma criança, o sobreiro é uma imagem poderosa de resistência e força. Marinhar por ele acima, engolfar-se nos seus ramos, saborear-lhes as bolotas, é uma aventura sobre as ondas da planície. Aos olhos dos poetas, “o fuste vermelho de um sobreiro” (Urbano Tavares Rodrigues) é uma imagem dolorosa de fragilidade e força. Quando os homens acertam com os seus machados para lhes arrancar as “pranchas de cortiça como se lhes arrancasse a pele”, é também a nossa pele que se comove. Quase ouvimos, como Saramago, os gritos do sobreiro: “e o que fica à mostra é a carne eriçada e sofrida, mas isto são fraquezas do narrador, imaginar que as árvores se arrepelam e gritam”. Gritos mudos, talvez, pois o sobro é ser do silêncio. Ou, a avivar a paisagem, gritos feitos só de cor… e de “pequenas gotas de água”.

Os biólogos dizem-nos que, de entre todas as nossas espécies arbóreas, o Quercus suber, endémico da região mediterrânica, é a que se encontra mais largamente disseminada no território português, razão bastante para ter sido declarada, em 2011, a Árvore Nacional de Portugal. Os botânicos ensinam-nos que foi através da observação da cortiça (súber) – com as primeiríssimas lentes de microscópio – que, em 1667, o naturalista Robert Hooke descobriu a estrutura celular das plantas. De tão leve, a cortiça flutua hoje nas pranchas de surf, voga no deck das embarcações, voa até Marte nos foguetões da NASA. Leve, linda, limpa: as estimativas apontam para cerca de 10 milhões de toneladas de CO2 absorvidos anualmente pelos sobreiros em Portugal. Como pernadas de sobreiro, os diversos ramos das Ciências da Natureza sustentam que o montado de sobro e o sobreiral são dos ecossistemas mais ricos de toda a Europa e um dos 35 hotspots mundiais da biodiversidade. A sustentável leveza do ser, do súber, do sobro!



Joana Portela pertence ao grupo de investigadores ligados ao “Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental”. Esta é a primeira crónica da série “Escrita com Raízes”.

Sem comentários: