sábado, 12 de dezembro de 2020

Era uma vez o dia em que os mentores do Holocausto caíram em si e tiveram preocupações humanitárias...

Por Helena Araújo

Será que me podem fazer um favor? Vejam este vídeo e digam-me se também vos provoca ataques de riso incontroláveis. Que me perdoem os judeus, e todas as pessoas que abordam o horror do Holocausto com seriedade e sentido de responsabilidade, mas não consigo parar de rir - e é por causa do tom assertivo e do ar cândido (oh, aquela cara de menino da primeira classe muito orgulhoso por já saber contar até vinte e dois) com que José Rodrigues dos Santos diz isto:

"A certa altura, há alguém que diz: - Eh, pá, estão nos guetos, estão a morrer de fome, não podemos alimentá-los. Se é para morrer, mais vale morrer de uma forma mais humana. E porque não com gás?"

A minha primeira pergunta é factual: quem é que disse isso, caro José Rodrigues dos Santos? Em que acta de que reunião, em que carta é que isso está documentado? Encontrou esse momento na biografia de quem? Ou será que essa frase faz parte do seu próximo livro de ficção? Adivinho possíveis títulos: "O Comandante Compassivo do Gueto de Varsóvia", "H de Hitler, e Também de Humanismo", "Kommandatur de Auschwitz: Afinal o Padre Américo Tinha Razão!"

A minha segunda pergunta é ética: como é possível falar da máquina de exterminação de um povo com a leveza de um "oh, se é para morrer..."? Esta frase, até numa peça de humor seria uma ousadia - quanto mais numa entrevista para promover um livro que explora o filão de Auschwitz! Mas fiquemos apenas pela História. Em nada do que tenho lido sobre o Holocausto consta a ideia de "motivos humanitários". Pelo contrário: o primeiro passo para a catástrofe foi negar aos judeus a sua condição de seres humanos, e reclassificá-los, designando-os como sub-humanos nocivos, uma praga animal que exigia uma desinfestação, um tumor maligno que era preciso arrancar. Não me consta que de repente em 1941 algum nazi do topo da hierarquia se tenha dado conta de que afinal estavam a tratar com seres humanos. Mas posso estar enganada - nesse caso, agradeço que me informem dizendo quem foi, e quando, e em que termos.

Em 1919 Hitler já falava em "afastar os judeus do espaço alemão". Em 1923 deu uma entrevista a um jornal catalão na qual falava em exterminar os judeus, sendo que "o ideal seria matá-los todos numa noite só". O Mein Kampf, escrito dois anos depois, não deixa qualquer dúvida sobre as intenções de eliminar o povo judeu. As perseguições a esse povo começaram logo em 1933 após a tomada do poder pelos nazis. Seis anos mais tarde, a invasão da Polónia serviu ao regime nazi para experimentar diversos métodos para a máquina de extermínio: execuções em massa, gaseamentos, internamento em guetos com racionamento dos alimentos destinado a - literal e deliberadamente - matar de fome os seus habitantes. A passagem para o gaseamento em larga escala foi a maneira que os nazis encontraram de levar a cabo os seus planos de extermínio daquele povo da forma mais barata possível, e evitarem também o surgimento de revoltas entre os soldados, muitos dos quais tinham obviamente dificuldade em cumprir as ordens de matar a tiro bebés, crianças, mulheres e velhos.

Nazis com preocupações de tratar os judeus de forma humana? Só mesmo na imaginação do José Rodrigues dos Santos. Esta peça de "humor junto ao calabouço", que os judeus contavam nessa época trágica, mostra uma realidade completamente diferente:

Membros da Gestapo preparam-se para executar um grupo aleatório de judeus, mas nesse dia o comandante da SS está bem-disposto e diz a um deles: - Você tem um ar muito ariano. Por isso, vou-lhe dar uma oportunidade. Tenho um olho de vidro que é impossível de reconhecer. Se conseguir adivinhar qual é, deixo-o ir embora. Sem hesitar, o judeu responde: - O de vidro é o olho direito! - Como é que adivinhou? - É porque esse tem uma expressão mais humana.

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Não que a actual Alemanha seja a medida de todas as coisas, mas este espalhanço estrondoso do José Rodrigues dos Santos dava direito a despedimento imediato em qualquer canal da televisão alemã, mesmo que, muito provavelmente, não fosse objecto de um processo jurídico (ao contrário da negação do Holocausto, adoçar a imagem do regime nazi não é considerado crime na Alemanha).

Em 2007, Eva Herman perdeu o seu emprego numa televisão pública por não ter sabido exprimir-se bem sobre uma questão que envolvia o regime nazi e os valores da família e da maternidade. A televisão entendeu que Eva Herman lhe estava a criar graves problemas de imagem. Herman recorreu contra o despedimento e contra o modo como certos órgãos de informação noticiaram o caso, os processos foram fazendo a sua carreira pelos tribunais, e o despedimento foi considerado como justificado. O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos recusou ocupar-se do assunto. Num talkshow que um colega organizou para lhe dar a oportunidade de se explicar, e após um longo debate no qual não conseguiu apresentar as suas razões de forma sólida, desabafou "o que aprendi com isto é que é arriscado falar da História alemã" (aqui, em alemão). O moderador pediu-lhe que saísse da sala imediatamente. Mas o aviso pode ser útil a José Rodrigues dos Santos, de colega para colega: é arriscado falar da História alemã. Sobretudo quando não se percebe muito desse assunto, acrescentaria eu.


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