quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Teilhard de Chardin: a espiritualidade e a natureza



Texto muito bonito de Pierre Teilhard de Chardin (nascido em Orcines, 1 de maio de 1881 — falecido em Nova Iorque, 10 de abril de1955), que foi um padre jesuíta, teólogo, filósofo e paleontólogo francês que tentou construir uma visão integradora entre ciência e teologia:
*"A religião não é apenas uma, são centenas.*
*A espiritualidade é apenas uma.*
*A religião é para os que dormem.*
*A espiritualidade é para os que estão despertos.*
*A religião é para aqueles que necessitam que alguém lhes diga o que fazer e querem ser guiados.*
*A espiritualidade é para os que prestam atenção à sua Voz Interior.*
*A religião tem um conjunto de regras dogmáticas.*
*A espiritualidade te convida a raciocinar sobre tudo, a questionar tudo.*
*A religião ameaça e amedronta.*
*A espiritualidade lhe dá Paz Interior.*
*A religião fala de pecado e de culpa.*
*A espiritualidade lhe diz: "aprenda com o erro"..*
*A religião reprime tudo, te faz falso.*
*A espiritualidade transcende tudo, te faz verdadeiro!*
*A religião não é Deus.*
*A espiritualidade é Tudo e, portanto é Deus.*
*A religião inventa.*
*A espiritualidade descobre.*
*A religião não indaga nem questiona.*
*A espiritualidade questiona tudo.*
*A religião é humana, é uma organização com regras.*
*A espiritualidade é Divina, sem regras.*
*A religião é causa de divisões.*
*A espiritualidade é causa de União.*
*A religião lhe busca para que acredite.*
*A espiritualidade você tem que buscá-la.*
*A religião segue os preceitos de um livro sagrado.*
*A espiritualidade busca o sagrado em todos os livros.*
*A religião se alimenta do medo.*
*A espiritualidade se alimenta na Confiança e na Fé.*
*A religião faz viver no pensamento.*
*A espiritualidade faz Viver na Consciência..*
*A religião se ocupa com fazer.*
*A espiritualidade se ocupa com Ser.*
*A religião alimenta o ego.*
*A espiritualidade nos faz Transcender.*
*A religião nos faz renunciar ao mundo.*
*A espiritualidade nos faz viver em Deus, não renunciar a Ele.*
*A religião é adoração.*
*A espiritualidade é Meditação.*
*A religião sonha com a glória e com o paraíso.*
*A espiritualidade nos faz viver a glória e o paraíso aqui e agora.*
*A religião vive no passado e no futuro.*
*A espiritualidade vive no presente.*
*A religião enclausura nossa memória.*
*A espiritualidade liberta nossa Consciência.*
*A religião crê na vida eterna.*
*A espiritualidade nos faz consciente da vida eterna.*
*A religião promete para depois da morte.*
*A espiritualidade é encontrar Deus em Nosso Interior durante a vida.*
*"Não somos seres humanos passando por uma experiência espiritual...*
*Somos seres espirituais passando por uma experiência humana..."*

Após anos de pesquisas em paleontologia humana, Teilhard tentou publicar sua obra prima, “O Fenómeno Humano” em 1948, em Roma. Na época, a cúpula da Igreja Católica não aceitava os conceitos evolucionistas de Charles Darwin, expostos em 1859 com o livro “A Origem das Espécies”, e a grande obra de Teilhard de Chardin só foi publicada em 1959, por uma editora americana, 4 anos após a morte do autor.

Para ele, a natureza é um grande templo, onde se realiza a grande evolução que se iniciou há cerca de 13 bilhões de anos atrás, com o Big Bang que deu início ao universo, e que se processa ininterruptamente através dos seguintes grandes estágios; a matéria inanimada evolui para a vida, há cerca de 3 bilhões de anos, e ela se propaga de forma explosiva sobre a terra, e hoje os cientistas já admitem a existência de mais de 30 milhões de espécies diferentes de seres vivos sobre o planeta.

O surgimento e evolução humana

Algo surpreendente então ocorre; o aparecimento dos primeiros hominídeos, há cerca de 4 milhões de anos, que evoluem aos ancestrais da nossa espécie, o Homo sapiens, há uns 200.000 anos, já com um cérebro quase igual aos nossos, e com 100 bilhões de neurônios nele, contra 6 bilhões dos gorilas. Pela primeira vez na história, surge a consciência, o poder de reflexão; não apenas o saber, mas saber que se sabe. Com isto, surge uma nova biologia cósmica; a emergência decisiva, na vida individual, de fatores de arranjos internos, como a invenção, a ciência, a vontade, acima de fatores de arranjos externos, como o instinto, o acaso, a possibilidade. O homem se descobre como dono de uma vontade de viver universal que nele converge, e cuja dinâmica é o progresso contínuo, a procura do pleno desenvolvimento de suas faculdades, a procura incessante do saber. 

Este salto colossal, do inanimado ao espírito, à reflexão, à arte, era visto por Chardin como uma linha de enorme progresso, uma inegável evolução da humanidade num mundo onde a tecnologia se propaga e possibilita a um esquimó, por exemplo, conhecer em poucos dias toda a obra de Mozart, a alunos da escola conhecerem as teorias de Einstein, a indianos se deleitarem com Shakespeare.

O homem, pouco a pouco toma seu destino em suas mãos, e não se deixa mais levar pelo arbitrário. A liberdade passa a ser a capacidade de ser causa própria, e a vida, elevada a seu grau de reflexão e liberdade, não pode continuar sem o progresso contínuo, e o homem passa a ser a evolução que se tornou consciente de si mesma.

Qual seria o apogeu deste processo? Como será o homem daqui a centenas de anos? Uma mescla da inteligência de Einstein com a santidade de S. Francisco, com a coragem de Sócrates e a sabedoria de Espinosa? Seria certamente um ser mais próximo do universo que o cerca, mais em sintonia com os seus irmãos de aventura, mais aberto a mensagens que o cosmos mostra a cada instante, aquilo que Teilhard de Chardin chamava de felicidade do movimento e do crescimento.

Como disse Espinosa, a felicidade não é a consequência da virtude, ela é a própria virtude. Adorar a Deus, então, seria voltar-se de corpo e alma ao ato criador e sua evolução, associando-se a ele para concluir o mundo por meio do esforço, da coragem da pesquisa e da vontade. Deus, assim, se revela pela vontade (desejo autoconsciente) de cada um de nós de saber mais, de encontrar a verdade (a harmonia com o universo), e a beleza (a verdade percebida).

Que sentimento é melhor do que o expresso pela grande síntese de Chardin, de que, pelo esforço humano, o mais verdadeiro será encontrado, e o melhor sempre acaba acontecendo?

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