sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Ter emprego não chega, habitação pesa: estudos mostram que a pobreza persiste em Portugal, principalmente entre os jovens e idosos


Metade dos jovens portugueses vive na incerteza dos recibos verdes. Ocupamos o vergonhoso 4.º lugar no ranking da precariedade da União Europeia.
Ter casa, estabilidade e dignidade não devia ser uma utopia para quem está a começar a vida.

Vamos novamente a factos e não basearmo-nos nas questões triviais como o que os jovens vestem  ou se estão a ser manipulados pela esquerda ou pela direita. 
𝐐𝐮𝐚𝐧𝐭𝐨𝐬 𝐣𝐨𝐯𝐞𝐧𝐬 𝐞𝐬𝐭𝐚̃𝐨 𝐚 𝐫𝐞𝐜𝐢𝐛𝐨𝐬 𝐯𝐞𝐫𝐝𝐞𝐬 𝐞𝐦 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥?
Segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE):   em termos absolutos estima-se que existam cerca de 60.000 a 80.000 jovens (até aos 29/30 anos) a trabalhar de forma independente ou a prestação de serviços (recibos verdes).

𝐅𝐚𝐥𝐬𝐨𝐬 𝐫𝐞𝐜𝐢𝐛𝐨𝐬 𝐯𝐞𝐫𝐝𝐞𝐬 𝐞 𝐝𝐞𝐩𝐞𝐧𝐝𝐞̂𝐧𝐜𝐢𝐚: entre a população jovem que trabalha a recibos verdes (faixa dos 16 aos 34 anos), regista-se a maior taxa de dependência económica e organizacional. Cerca de 20% destes jovens dependem de um único cliente (ou seja, cumprem funções de trabalhadores por conta de outrem, com horário estipulado e chefia, mas sem direito a contrato, subsídios ou proteção no desemprego).   

𝐂𝐨𝐧𝐭𝐫𝐚𝐭𝐨𝐬 𝐩𝐫𝐞𝐜𝐚́𝐫𝐢𝐨𝐬 𝐧𝐨 𝐠𝐞𝐫𝐚𝐥: se alargarmos a análise à precariedade laboral jovem (que inclui contratos a termo, temporários e recibos verdes), o panorama é ainda mais expressivo: 𝐜𝐞𝐫𝐜𝐚 𝐝𝐞 𝟓𝟎% 𝐝𝐨𝐬 𝐣𝐨𝐯𝐞𝐧𝐬 𝐞𝐦𝐩𝐫𝐞𝐠𝐚𝐝𝐨𝐬 𝐞𝐦 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥 𝐭𝐞̂𝐦 𝐥𝐚𝐜̧𝐨𝐬 𝐥𝐚𝐛𝐨𝐫𝐚𝐢𝐬 𝐩𝐫𝐞𝐜𝐚́𝐫𝐢𝐨𝐬, 𝐬𝐞𝐧𝐝𝐨 𝐚 𝐭𝐚𝐱𝐚 𝐝𝐞 𝐩𝐫𝐞𝐜𝐚𝐫𝐢𝐞𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐞𝐧𝐭𝐫𝐞 𝐨𝐬 𝐣𝐨𝐯𝐞𝐧𝐬 𝐩𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐮𝐞𝐬𝐞𝐬 𝐮𝐦𝐚 𝐝𝐚𝐬 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐞𝐥𝐞𝐯𝐚𝐝𝐚𝐬 𝐝𝐞 𝐭𝐨𝐝𝐚 𝐚 𝐔𝐧𝐢𝐚̃𝐨 𝐄𝐮𝐫𝐨𝐩𝐞𝐢𝐚.

Falta de apoios: quase metade das pessoas em situação de pobreza (cerca de 45,4% em idade ativa) não recebe qualquer prestação social do Estado

Das grandes cidades até às aldeias, o cenário que nos rodeia é exatamente o mesmo: hotéis a multiplicar-se e uma lei de arrendamento cada vez mais penalizadora. Isto não é uma discussão de esquerda nem de direita. O que vivemos ultrapassou há muito a gentrificação ou a 'disneylandização' do país - é a ausência absoluta de políticas e decisões que protejam quem está a tentar construir o seu futuro.

A manifestação que eclodiu no Porto é profundamente justa e urgente. Há anos que programas como o Porta 65 se revelam insuficientes e desfasados da realidade, enquanto o "jovem trabalhador" foi diluído sob o eufemismo do "colaborador". Falamos de uma geração que cumpre horários das 7h às 19h ou enfrenta turnos da noite, mas cujo esforço é sistematicamente ignorado quando chega a hora da efetivação. Ao menor sinal de incerteza, as empresas descartam-nos, remetendo-os de novo para a precariedade, sem rede de proteção social nem perspetiva de estabilidade.

Tendas montadas na via pública, durante a noite e com o mesmo propósito: alertar para a crise da habitação. A "Acampada pela Habitação", que está a levar milhares de pessoas às ruas do Porto, desde sábado, não é o primeiro protesto do género em Portugal. Em 2020, a Juventude Social-democrata (JSD), do PSD, organizou uma manifestação com tendas em frente ao Ministério do Ensino Superior, em Lisboa, em plena pandemia. Nessa altura, não houve ordem da PSP para os jovens dispersarem, para a retirada de tendas ou carga policial.

Longe de ser um episódio isolado, a força e o grito de revolta que nasceu esta semana no Porto deviam alastrar-se de forma inexorável a todo o país. É errado pensar que este é apenas um problema da Invicta ou da capital; é um drama nacional. Hoje, o protesto legítimo de quem exige simplesmente o direito a viver onde trabalha acaba por ser duplamente neutralizado: pela partidocracia, que tenta colar rótulos e partidarizar a indignação para alimentar guerras de poder, e pela pós-democracia, que rebaixou a habitação de direito constitucional fundamental a mera mercadoria financeira. 

A frustração que sentimos vai muito além da questão dos rendimentos - é a perceção amarga e profunda de que as regras do jogo foram desenhadas sem ter em conta quem está, hoje, a tentar começar a sua vida. 

Resta-lhes o quê? O aeroporto? Emigrar outra vez? Sair da zona de conforto? Separar novamente as famílias? Repetir a receita de Passos Coelho? E pior, ouvirem o Primeiro-Ministro chamar-lhes "egoístas"?

Os nossos jovens não querem fugir. Querem erguer a sua vida na terra onde nasceram. Garanti-lo é a causa mais nobre de qualquer sociedade. E hoje, perante a falta de respostas, a juventude une-se numa só voz e diz-nos: "Não!

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