quarta-feira, 27 de maio de 2026

Viver de créditos de biodiversidade ou aprender a viver com o capital natural?


Fala-se cada vez mais de créditos de biodiversidade.

E ainda bem que se fala de biodiversidade, de financiamento da natureza e de novos instrumentos para valorizar aquilo que durante décadas foi tratado como gratuito, invisível ou inesgotável.

Mas há uma palavra que me inquieta: 𝗰𝗿𝗲́𝗱𝗶𝘁𝗼

Na economia, viver a crédito significa muitas vezes usar hoje valor que ainda não temos, empurrando para amanhã uma responsabilidade que não desaparece.

Na biodiversidade, o risco é parecido: convencermo-nos de que podemos degradar aqui, compensar ali, comprar mais tarde, certificar depois. Mas a natureza não é uma folha de cálculo tão obediente.

Um carvalhal maduro, uma linha de água funcional, um solo vivo, uma comunidade de polinizadores, um sapal, uma sebe antiga ou uma árvore urbana adulta não se recriam por transferência bancária. Não são apenas “unidades” substituíveis. 𝗦𝗮̃𝗼 𝘁𝗲𝗺𝗽𝗼 𝗮𝗰𝘂𝗺𝘂𝗹𝗮𝗱𝗼, 𝗿𝗲𝗹𝗮𝗰̧𝗼̃𝗲𝘀 𝗲𝗰𝗼𝗹𝗼́𝗴𝗶𝗰𝗮𝘀, 𝗺𝗲𝗺𝗼́𝗿𝗶𝗮 𝗱𝗼 𝘁𝗲𝗿𝗿𝗶𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗼, 𝗰𝗮𝗽𝗶𝘁𝗮𝗹 𝘃𝗶𝘃𝗼.

Talvez por isso eu goste mais de outra metáfora financeira: não o crédito, mas a conta-poupança.

Gerir biodiversidade devia começar por aquilo que já temos. Conhecer o nosso património natural, medir o seu estado, evitar perdas, restaurar funções ecológicas, aumentar resiliência, reinvestir nos sistemas vivos que sustentam água, solo, alimento, conforto térmico, paisagem e bem-estar.

Ou seja: antes de perguntar “quantos créditos posso comprar?”, talvez devêssemos perguntar, que capital natural tenho, como o estou a gerir, que juros ecológicos me está a devolver e que dívida estou a deixar ao território?

Os créditos de biodiversidade podem vir a ter um papel, se forem rigorosos, transparentes, adicionais, auditáveis e não servirem para legitimar destruição. A própria Comissão Europeia tem vindo a enquadrá-los como instrumentos para mobilizar investimento privado em acções positivas para a natureza, e não como licença para degradar. 

Mas talvez a grande mudança cultural não esteja em criar mais um mercado.
Talvez esteja em perceber que a biodiversidade não é uma despesa ambiental: é património produtivo, infraestrutura natural e capital territorial.

E que, antes de viver a crédito, é melhor aprender a viver com o que temos.
Porque na natureza, ao contrário da banca, quando o capital se perde… nem sempre há refinanciamento possível.

Referências bibliográficas:
  1. Não é só biomassa: preservar a biodiversidade das florestas é urgente e essencial para sua manutenção e também para a resiliência climática
  2. O potencial dos créditos de biodiversidade
  3. Contributos para o estudo do Direito da protecção da biodiversidade
  4. Designing a biodiversity credit accounting framework for environmental investment and financing
  5. Relatório OCDE (2025) - Scaling Up Biodiversity‑ Positive Incentives
  6. Biodiversity credits: Concepts, principles, transactions and challenges
Livros
  1. Cristina Chaves et al (2023)- Economia do Ambiente - conceitos e desenvolvimentos
  2. Field, Barry C.; Field, Martha K (2002)- Environmental Economics – An Introduction , McGraw-Hill(3rd ed.)
  3. Georgescu-Roegen, N. (1971) - The Entropy Law e the Economic Process, Harvard Universidade Press.
  4. Georgescu-Roegen, N. (1977) - Matter matters too‘, in: Wilson, K. D. (ed.), Prospect for Growth: changing expectações for the future, Praeger, New York.
  5. Joan Martínez Alier (1999) - Introduccio A L'Economia Ecologica
  6. Karl Polanyi (1944) A Grande Transformação 
  7. Pearce, David W.; Turner, R. Kerry (1990)- Economics of Natural Resources and the Environment, Harvester Wheatsheaf

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