Enquanto Arendt nos ensina a reconhecer o perigo do adormecimento da consciência e da aceitação passiva, a poesia de Rimbaud funciona como um chocalho de emergência - ela devolve ao horror da guerra a sua cor real (o vermelho, o sangue, a dor física) e expõe o cinismo daqueles que a alimentam.
Num momento de iminência ou escalada de um conflito, Arendt explica como as pessoas deixam a tragédia acontecer, mas Rimbaud dá o grito necessário para nos arrancar da indiferença antes que seja tarde demais.
A poesia não substitui a filosofia; ela dá-lhe a urgência humana que os relatórios e a burocracia tentam apagar.
O Mal
"Enquanto os jatos vermelhos das balas
Assobiam o dia inteiro pelo infinito do céu azul;
Enquanto, escarlates ou verdes, junto ao Rei que deles zomba,
Os batalhões desmoronam em massa no fogo;
Enquanto uma loucura terrível esmaga
E transforma centenas de milhares de homens num monte fumegante;
— Pobres mortos! No verão, na relva, na tua alegria,
Natureza! Ó tu que criaste estes homens com santidade!…
— Há um Deus que ri perante as toalhas damascadas
Dos altares, perante o incenso, perante os grandes cálices de ouro;
Que adormece ao som dos hosanas,
E acorda quando as mães, encolhidas
Na angústia, e chorando sob o seu velho gorro preto,
Lhe dão uma moeda grande embrulhada no seu lenço!"
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