segunda-feira, 23 de março de 2026

IKON - The Garden of the Lost


A música "The Garden of the Lost" faz parte do EP The Garden of the Lost, lançado originalmente em 1998. Melhor som aqui

Innocence, never in you
 Decay, through and through
The garden of the lost
The garden of the faceless
When I look into your eyes
I see the hate that will arise
And take you under in the end


Disease, is all of you
 You're fake, and psycho too
The garden of the lost
The garden of the faceless
When I look into your eyes
I see the hate that will arise
And take you under in the end

As imagens utilizadas para ilustrar a música desta banda australiana pertencem ao filme O Amante (L'Amant), de 1992, dirigido por Jean-Jacques Annaud. O filme é baseado no romance autobiográfico de Marguerite Duras e passa-se na Indochina Francesa (atual Vietname).

Musicalmente, a faixa assenta numa linha de baixo pulsante e hipnótica, complementada por guitarras carregadas de reverb e chorus que criam uma sensação de espaço vazio e frio, evocando a influência direta de bandas como Joy Division e New Order. A voz barítona de Chris McCarter entrega a letra com um distanciamento emocional que reforça o sentimento de desolação e introspeção típico do género.

No que toca ao seu significado, a letra funciona como uma metáfora poética sobre o isolamento e a decadência emocional. O "jardim dos perdidos" representa um estado mental ou um refúgio metafórico onde são depositadas as memórias esquecidas, as oportunidades perdidas e os sentimentos de abandono. Há uma celebração da tristeza e da solidão, transformando a dor num lugar de beleza estática, onde o tempo parece não passar. A canção explora a ideia de que certas experiências e amores deixam marcas que nos confinam a um espaço interior do qual nunca conseguimos sair totalmente, restando apenas o silêncio e a contemplação do que foi perdido.

Dia Mundial do Urso - Pardo

Ver com mais detalhe aqui
O seu regresso reflete a capacidade da natureza para recuperar e mostra a necessidade de trabalhar ativamente na forma como as pessoas e a vida selvagem partilham o espaço.

Os ursos pardos ajudam a moldar as paisagens, dispersando sementes, reciclando nutrientes e sustentando uma vasta gama de espécies. A sua presença destaca a importância de paisagens conectadas e funcionais.

Nas nossas paisagens de rewilding, as equipas estão a trabalhar com as comunidades para apoiar o regresso dos ursos de formas que tornem a partilha do espaço mais possível. Estas incluem medidas práticas para reduzir os danos, melhorar a sensibilização, ligar habitats e apoiar economias baseadas na natureza e ligadas à presença da vida selvagem. Saiba mais aqui

Pierre Reverdy - A ética é a estética de dentro


Esta máxima sugere que o comportamento ético - a conduta moral e correta - é uma forma de beleza interior, uma harmonia da alma que se reflete no caráter, comparando a beleza moral à beleza estética.

O Significado da Frase (inserida no seu Livro Le Livre de mon bord (1948)
  1. Beleza interior e ação: Reverdy sugere que a verdadeira beleza (estética) não está apenas na aparência externa, mas sim na correção moral, no caráter e nas atitudes (ética).
  2. Integridade: a ética representa a harmonia, a "beleza" interior de um indivíduo, traduzida em suas ações.
  3. Conexão: a ideia é que o comportamento virtuoso tem uma qualidade estética, tornando a bondade e a retidão algo belo de se ver e viver.
Pierre Reverdy (1889-1960) foi um poeta francês notável, associado ao movimento surrealista e conhecido por sua influência na poesia moderna. Sua obra é caracterizada pela experimentação com a linguagem e pela exploração de temas como a solidão, a busca espiritual e a condição humana. Reverdy deixou um legado significativo na literatura francesa, sendo reconhecido por sua originalidade e profundidade poética. 
Reverdy teve uma biografia muito interessante. Viveu intensamente Paris e o nascimento das correntes cubistas e surrealistas, conviveu com os maiores nomes dessa época : Guillaume Apollinaire, Max Jacob, Louis Aragon, André Breton, Philippe Soupault, Henri Matisse, Max Jacob, Pablo Picasso, Juan Gris, and Georges Braque Tristan Tzara e um romance intenso por Coco-Chanel. Aos 37 anos retirou-se da "movida parisiense" e foi com sua esposa, viver para Solesmes, numa vida ascética e espiritual, numa casa muito simples, próxima da Abadia de Solesmes (ver foto).
Muitos poetas prestaram homenagem a Pierre Reverdy, dedicando-lhe artigos ou poemas, entre os quais André du Bouchet, Jacques Dupin, Edmond Jabès, Ricardo Paseyro, Pablo Neruda, Kateb Yacine. René Char disse dele que era "um poeta sem chicote nem espelho".

O Legado de Pierre Reverdy: Entre Sablé-sur-Sarthe e a Fundação Maeght

Embora não exista uma instituição isolada com o nome do poeta, o património de Pierre Reverdy está preservado de forma exemplar em França, dividindo-se entre a conservação institucional e a gestão de direitos artísticos. O epicentro deste espólio encontra-se na cidade de Sablé-sur-Sarthe, onde o autor viveu as suas últimas três décadas em retiro espiritual e literário.

O principal ponto de referência para qualquer investigador é o Espace Pierre Reverdy, integrado na Mediateca Intermunicipal L’Apostrophe. Este fundo documental é de uma riqueza extraordinária, guardando manuscritos originais, correspondência e, sobretudo, os famosos livros de artista — edições raras onde a poesia de Reverdy se cruza com gravuras de mestres como Picasso, Braque ou Matisse. Para consultar estes documentos, é necessário um contacto prévio através do portal oficial da Médiathèque de Sablé-sur-Sarthe.

No que toca à gestão dos direitos de autor e à promoção da sua obra no contexto das artes visuais, o nome de Reverdy está intrinsecamente ligado à Fondation Maeght, localizada em Saint-Paul-de-Vence. Foi a esta fundação que a viúva do poeta confiou o seu legado material e intelectual, resultando numa simbiose constante entre a literatura e a arte moderna. Além disso, para uma pesquisa técnica sobre a localização de manuscritos específicos em bibliotecas francesas, o Catalogue Collectif de France (CCFr) da Biblioteca Nacional de França é a ferramenta digital mais completa disponível.

Este ecossistema cultural garante que a voz de Reverdy, uma das mais influentes do cubismo literário e do surrealismo, continue acessível tanto a académicos como ao público em geral.


Esta frase é frequentemente citada para destacar que a beleza real é aquela que provém do caráter e da integridade de uma pessoa. Aqui, uma crónica interessante sobre Ética, porém tem um certo viés conservador.

domingo, 22 de março de 2026

X-Marks the Pedwalk - The Side of the Wrong


Ouve-se melhor aqui

«Manipulação climática»: gigantes dos combustíveis fósseis abandonam metas de neutralidade carbónica


Nova análise alerta que algumas das maiores petrolíferas mundiais entraram numa fase de manipulação para aumentarem os lucros

As grandes petrolíferas são acusadas de estarem a “abandonar discretamente” as suas promessas climáticas para justificarem a continuação do uso de combustíveis fósseis poluentes.

Uma nova investigação da Clean Creatives, um projeto para profissionais de relações públicas e publicidade conscientes do clima, acompanhou como as Big Oil têm vindo a mudar “de forma sistemática” a sua narrativa nos últimos quatro anos, apesar dos repetidos alertas sobre o aquecimento do planeta.

Intitulado Toxic Accounts: From Greenwashing to Gaslighting , o relatório analisa mais de 1.800 peças de campanha das gigantes dos combustíveis fósseis BP, Shell, ExxonMobil e Chevron entre 2020 e 2024.

Inclui anúncios pagos em redes sociais como o Facebook, YouTube, TikTok e Instagram, bem como spots de televisão, arquivos de bibliotecas, comunicados de imprensa, informação para investidores e discursos de executivos.

Grandes petrolíferas fazem “gaslighting” climático
No início do período analisado, as campanhas enfatizavam metas climáticas e compromissos com a transição para energia limpa, apresentando frequentemente as empresas como parceiras de transição.

No entanto, em 2023, a mensagem passou a apresentar cada vez mais o petróleo e o gás como “permanentes, indispensáveis e essenciais para a estabilidade económica e a segurança nacional”.

Em 2020, a BP passou da promessa de neutralidade carbónica e da retórica de “tornar as empresas mais verdes” para campanhas que, segundo a Clean Creatives, defendem a continuação da expansão do gás e do petróleo, ao mesmo tempo que recua nas suas ambições em matéria de energias renováveis.

A Chevron também abandonou o posicionamento “Human Energy” e passou para uma “mensagem nacionalista” que associa a produção interna de combustíveis fósseis à segurança económica e nacional, revela o relatório.

Investigadores alertam que, apesar das diferenças de tom, todas as grandes petrolíferas analisadas seguiram mudanças narrativas semelhantes, passando de se apresentarem como “parte da solução” para uma mensagem de “não podem viver sem nós”.

As campanhas passaram também a promover cada vez mais o gás natural liquefeito (GNL), a captura e armazenamento de carbono (CCS), o hidrogénio azul, os biocombustíveis e o gasóleo renovável como soluções climáticas, apesar de existirem provas de que estas tecnologias continuam a ser derivadas de combustíveis fósseis ou não estão comprovadas em larga escala.

“A velocidade com que as empresas passaram para mensagens centradas na segurança energética correlacionou-se com o seu desempenho financeiro”, lê-se no relatório.

“A Chevron e a ExxonMobil foram rápidas a orientar a sua mensagem para a predominância dos combustíveis fósseis e, como resultado, lideraram o mercado.”

O estudo concluiu também que a Shell, acusada no ano passado de minimizar o impacto climático dos combustíveis fósseis, deixou de se apresentar como líder da neutralidade carbónica para passar a destacar o GNL como mercado de crescimento a mais longo prazo.

Combustíveis fósseis mantêm-se “lucrativos” apesar da mudança de atitudes
“O ‘greenwashing’ assume agora uma nova forma”, afirma Nayantara Dutta, responsável pela investigação na Clean Creatives e autora principal do relatório.

“Em vez de fazerem afirmações falsas, as grandes petrolíferas promovem falsas soluções como a CCS e o gás natural, apesar de serem derivadas de combustíveis fósseis e de criarem uma dependência de longo prazo desses combustíveis.”

Dutta defende que as petrolíferas constroem uma narrativa que as mantém “lucrativas e no poder” perante uma oposição crescente.

A transição para longe dos combustíveis fósseis tornou-se um dos pontos de maior tensão na cimeira COP30 das Nações Unidas em Belém, no ano passado, apesar de não constar oficialmente da agenda.

Mais de 90 países, incluindo a Alemanha e os Países Baixos, apoiaram a ideia de um roteiro que permita a cada nação definir as suas próprias metas para avançar para a energia verde.

Apesar do apoio crescente a esta ideia, todas as referências aos combustíveis fósseis foram retiradas do acordo final nas últimas horas da cimeira. Isto significa que a esperança de um futuro sem combustíveis fósseis fica agora fora do âmbito das Nações Unidas.

Um relatório da Carbon Majors concluiu recentemente que 17 dos 20 maiores emissores em 2024 eram empresas controladas por países que vieram a bloquear o roteiro da COP30. Entre eles contam-se a Arábia Saudita, o Irão, o Qatar, a Índia, a Rússia e a China.

Irão: grandes petrolíferas e a guerra
“A transição do ‘greenwashing’ para a defesa da predominância da energia de origem fóssil é a mais recente reviravolta retórica na manipulação da opinião pública para aceitar as emissões de gases com efeito de estufa como apenas parte da atividade económica”, afirma Robert Brulle, sociólogo ambiental da Universidade Brown.

“Ao mesmo tempo, a guerra no Médio Oriente evidencia o erro da ideia de que os combustíveis fósseis proporcionam ‘segurança energética’.”

Vários especialistas têm usado a guerra contra o Irão para sublinhar a necessidade urgente de uma transição para a energia limpa, numa altura em que os preços do petróleo e do gás continuam a disparar.

A organização sem fins lucrativos 350.org apelou recentemente aos países do G7 para que apliquem um imposto sobre lucros extraordinários às grandes petrolíferas que, segundo a organização, estão a “lucrar” com a escalada do conflito no Médio Oriente.

Embora a guerra no Irão também tenha reforçado os apelos para que o Reino Unido abra novas licenças de perfuração no mar do Norte, uma análise da Universidade de Oxford concluiu que apostar nas energias renováveis é muito mais provável que faça baixar as faturas de energia das famílias.

“O que estamos a ver é a desinformação climática a evoluir em tempo real”, afirma Dana Schran, da coligação Climate Action Against Disinformation (CAAD).

“Em vez de negarem a crise, grandes petrolíferas como a BP e a Shell estão a reescrever a narrativa para que a expansão dos combustíveis fósseis pareça necessária e responsável. É um esforço sofisticado para proteger a influência política e os lucros, mesmo à medida que os impactos climáticos se agravam.”

Saber mais: 


Pobreza de mobilidade: o que significa e como Portugal a quer eliminar. Não é aceitável uma pessoa ter cinco apps para andar de transportes públicos, é desmotivador


Com apenas 14% dos portugueses a usar transporte público e 66% dependentes do automóvel, Cristina Pinto Dias, Secretária de Estado da Mobilidade, alerta para desigualdades profundas entre litoral e interior, onde há crianças que “não podem ficar à tarde para jogar futebol ou aprender piano porque depois não têm transporte para voltar para casa”.

A resposta passa por reforçar a ferrovia, expandir metros, renovar material circulante e avançar com a alta velocidade, mas também por soluções flexíveis como transporte a pedido e tarifários sociais.

“O transporte público está a perder cota modal e o transporte individual a aumentar. Ou seja, 14% das nossas pessoas anda de transporte público, mas 66% das nossas pessoas anda em transporte individual. O ideal seria o contrário. 88% das nossas pessoas estão concentradas em 40% do nosso território e 12% das nossas pessoas dispersas em 60% do nosso território, o que significa que a política pública de mobilidade não é uma receita única que se aplica a todo o país”, explica a governante.

Cristina Pinto Dias sublinha que o país vive uma “revolução” no investimento público, mas que o grande salto depende da integração tecnológica: “Não é aceitável que uma pessoa tenha cinco apps, uma para andar de comboio, outra de metro, outra de Transtejo.” E acrescenta: “Se eu quero trazer pessoas para o transporte público, tenho que convidar de tapete vermelho: ‘Venha para o transporte público, vai ser bem servido.’

A secretária de estado sublinha mesmo a existência de uma revolução dentro do transporte público, “com metas muito concretas”. E detalha: “Estamos a fazer uma expansão das redes de metro, estamos a comprar comboios novos para o próprio metro. Já aqui foi dito neste podcast também pelo presidente da Transtejo, fizemos uma aquisição de 10 navios 100% elétricos para nos fazer a travessia do Tejo. E sim, nós estamos a fazer um investimento, como não há memória, na ferrovia, resultado de longos e prolongados anos de desinvestimento. Estamos a fazer um investimento só para material circulante, incluindo já a alta velocidade de 1,8 mil milhões de euros.”

A integração da bilhética e da informação em tempo real é, para a Secretária de Estado, o passo decisivo para atrair mais pessoas para o transporte público e garantir equidade territorial. Só depois disso será possível pensar num tarifário verdadeiramente nacional.

The Slow Readers Club - ao vivo no The Met


Com músicas de 91 Days in Isolation, o seu segundo álbum lançado em 2020 e composto durante o período de confinamento, bem como canções do estrondoso sucesso The Joy Of The Return e alguns dos seus clássicos.

The Met

sábado, 21 de março de 2026

IKON - Black Roses


Letra
She doesn't know me
She doesn't care
Behind her darkness
Behind her stare

She sees it all

And in my dying hour
She gives me black roses
And as my time shall pass
I'm falling for her

My time is ending
My time draws near
My time is ending
My time draws near
Behind her darkness
Behind her eyes
Behind her darkness
There she lies

And in my dying hour
She gives me black roses
And as my time shall pass
I'm falling for her
You might also like
I’ve Been

And now my time has passed
I've fallen for her
Sobre a música "Black Roses" (1994)
Esta faixa faz parte do álbum de estreia, No Day Shall Erase You From The Memory Of Time, e é considerada um clássico absoluto do género Gothic-Rock

Ouve-se melhor aqui e este remix (em 2024)

Os Ikon foram fundamentais para manter o movimento gótico vivo nos anos 90, em que as camisas de flanela do Grunge e a ascensão meteórica do Rap e Hip-hop dominavam por completo as rádios e a MTV. Eles conseguiram criar uma sonoridade que era, ao mesmo tempo, nostálgica e autêntica. Eles não se limitaram a copiar o passado; eles reinvigoraram-no.
Apesar de serem australianos, tiveram um impacto enorme em países como a Alemanha e o Reino Unido, onde o movimento Darkwave continuava a ter bases sólidas em clubes underground.

A canção "Black Roses" dos Ikon é uma peça fundamental do Darkwave australiano que encapsula a essência da melancolia romântica e do isolamento existencial típicos dos anos 80. No contexto lírico e sonoro desta banda de Melbourne, a "rosa preta" surge como uma metáfora central para um amor que é, simultaneamente, eterno e fúnebre. A letra explora a beleza que reside na decadência e na dor, sugerindo que certas perdas são tão profundas que se tornam parte da identidade de quem sobrevive.

Musicalmente, o significado da faixa é amplificado por uma produção fria e minimalista, onde a linha de baixo persistente e os sintetizadores gélidos criam uma atmosfera de desespero contido. Não se trata apenas de uma música sobre a morte física, mas sim sobre a morte emocional e o conforto encontrado na sombra. Há uma aceitação do destino e uma entrega à tristeza, elevando o luto a uma forma de arte. Para os Ikon, "Black Roses" funciona como um manifesto de resistência cultural: num mundo que exigia felicidade e cores vibrantes, eles escolheram cultivar a elegância do abismo, transformando a angústia post-punk numa oferenda de devoção eterna aos sentimentos mais sombrios da alma humana.

O bom exemplo do bilionário Tim Sweeney, que trocou os iates pela Floresta


Tim Sweeney - O exemplo raro de Capitalismo de Conservação  

Enquanto a maioria dos bilionários gasta fortunas em iates de luxo, ilhas privadas ou na corrida ao espaço, Tim Sweeney, o CEO da Epic Games (criador do Fortnite e do Unreal Engine), está a trilhar um caminho solitário e admirável: a proteção permanente da biodiversidade.

Sweeney tem investido silenciosamente centenas de milhões de dólares na compra de vastas áreas de floresta na Carolina do Norte. O seu objetivo? Impedir o betão. Ao contrário de outros investidores, Sweeney utiliza mecanismos legais conhecidos como conservation easements (servidões de conservação) para garantir que estas terras nunca sejam alvo de construção ou exploração madeireira, protegendo-as para as gerações vindouras.

O que torna esta estratégia única?
Proteção contra infraestruturas: em 2016, Sweeney comprou a área de Box Creek Wilderness (cerca de 2.800 hectares) apenas para impedir que uma empresa de energia passasse uma linha de alta tensão através de um ecossistema sensível.

Doação histórica: em 2021, realizou uma das maiores doações de terra privada na história dos EUA, transferindo cerca de 3.000 hectares em Roan Highlands para uma organização de conservação, garantindo que o público possa usufruir da natureza intocada.

Filantropia de legado: com mais de 20.000 hectares já protegidos sob a sua influência direta, Sweeney é hoje um dos maiores conservacionistas privados do mundo.

Numa era em que o impacto ambiental é tantas vezes ignorado pelo lucro imediato, Sweeney demonstra que o verdadeiro poder da tecnologia pode — e deve — ser usado para salvar o mundo biológico. Como ele próprio afirmou, a terra protegida durará muito mais do que qualquer código de programação.

Fontes e leitura adicional (em inglês):

Dia Mundial dos Glaciares: Por que o Destino dos Glaciares é o Nosso Próprio Destino


No calendário global, o dia 21 de março costuma ser associado ao início da primavera no hemisfério norte, um símbolo de renovação. No entanto, desde que a Assembleia Geral da ONU proclamou esta data como o Dia Mundial da Preservação dos Glaciares, o foco mudou para a conservação crítica do que já temos — e do que estamos prestes a perder. Os glaciares não são apenas blocos estáticos de gelo; são "sentinelas" que moldam a geologia, regulam a temperatura e sustentam a vida humana.

A ciência por trás da sua importância é fascinante e, ao mesmo tempo, alarmante. Estas massas de gelo funcionam como o sistema de refrigeração da Terra através do efeito albedo. Quando a radiação solar atinge a superfície branca e brilhante de um glaciar, a maior parte dessa energia é refletida de volta para o espaço. À medida que o gelo derrete e expõe a rocha escura ou o oceano abaixo, a taxa de absorção de calor aumenta. É um equilíbrio delicado que pode ser resumido pela relação física onde a variação da temperatura  é inversamente proporcional à capacidade de reflexão da superfície (efeito albedo). Pode imaginar o efeito albedo como o sistema de 'espelhos' da Terra. Os glaciares brancos refletem até 90% da luz solar de volta para o espaço, mantendo o planeta fresco. No entanto, quando o gelo derrete e expõe a rocha escura ou o oceano, a superfície passa a absorver a energia solar. Em termos físicos, a redução da refletividade (albedo) resulta num aumento catastrófico da absorção de calor. O infográfico abaixo ilustra claramente este ciclo de aquecimento.




O Ponto de Inflexão
De acordo com o Relatório AR6 do IPCC, a influência humana é 'inequívoca' no recuo global dos glaciares desde a década de 199. Os dados revelam que estamos a perder cerca de 220 mil milhões de toneladas de gelo anualmente, um ritmo que coloca ecossistemas inteiros num ponto de inflexão. Isto significa que certas perdas glaciares tornaram-se irreversíveis, independentemente dos nossos esforços imediatos. O recuo nestas áreas aumenta o risco de inundações catastróficas e, a longo prazo, de secas severas. O impacto não é apenas visual; é uma ameaça direta à segurança hídrica de mil milhões de pessoas que dependem destas fontes de água doce. 

No entanto, o Dia Mundial dos Glaciares não serve apenas para lamentar perdas. É um convite à ação. Do majestoso Perito Moreno na Argentina às cavernas de gelo azul do Vatnajökull na Islândia, estas estruturas guardam a história do nosso clima. Cada bolha de ar presa no gelo profundo é um registo atmosférico de milhares de anos — uma biblioteca congelada que projetos como o Ice Memory tentam salvaguardar em "santuários de gelo" na Antártida.

Porém a rapidez com que o restante gelo desaparece ainda depende das nossas ações hoje. Estima-se que mais de mil milhões de pessoas dependam do degelo sazonal para obter água potável, irrigação e energia. Regiões como os Andes e os Himalaias (o "Terceiro Polo") estão na linha da frente.  

Em 2026, a mensagem da ONU é clara: os glaciares são os "Guardiões do Futuro da Terra". Preservá-los é indissociável das metas de emissões zero. Reduzir a nossa pegada de carbono não é apenas um conceito abstrato; é o esforço direto para manter estes gigantes vivos. Ao celebrarmos este dia, devemos olhar para o gelo não como algo distante, mas como o espelho do nosso próprio destino. Se o gelo respira, nós respiramos.

Para saber mais:
World Glacier Monitoring Service (WGMS) - Global Glacier Change Bulletin

No dia 21 de março, quando se assinala o Dia Mundial da Floresta, o retrato da agricultura nos territórios vulneráveis em Portugal está longe de ser verdejante


Falta de incentivos públicos compromete mosaico agroflorestal que previna fogos rurais. Apesar do aumento de apoios públicos à agricultura entre 2020 e 2023, a gestão ativa do território em Portugal diminuiu drasticamente. Desapareceram cerca de 800 mil hectares de áreas agrícolas declaradas (quase metade), enquanto o número de agricultores se manteve estável, indicando que há mais dinheiro, mas menos território gerido. 
A nova portaria que apoia o pastoreio extensivo (fundamental para reduzir combustível vegetal) vê-se limitada porque faltam pastores. O rácio de agricultores com mais de 65 anos por jovem (menos de 35) subiu de 14 para 1 em 2020, para 19 para 1 em 2023. 
Sem gestão ativa (pastoreio) e sem renovação geracional, o território torna-se acumulador de vegetação, comprometendo o mosaico agroflorestal, que é uma das principais defesas contra os incêndios rurais. 
A Zero crítica a natureza temporária dos apoios (limitados a 2026), defendendo que a prevenção de incêndios exige estratégias de longo prazo, não soluções avulsas dependentes de ciclos políticos. Propõe-se a criação de um rendimento equivalente a um Indexante dos Apoios Sociais para jovens agricultores em territórios vulneráveis. Fonte

Trentemøller: Miss You


"Miss You" é talvez a faixa mais emblemática do dinamarquês Trentemøller. É uma peça consegue ser incrivelmente emocional usando muito poucos elementos.

"A tune I’m still very proud of. Written and recored in two hours! That was it. I didn’t change a single note afterwards because I was so happy with the result. I captured that longing vibe I had late that night and it still is a song I love to play live in different versions." - Anders Trentemøller

Anders Trentemøller é dinamarquês. Nasceu em Vordingborg, na Dinamarca, e a sua base criativa é em Copenhaga.

Embora Trentemøller tenha começado muito ligado à música de dança (Techno e Minimal House), "Miss You" afasta-se das pistas de dança e mergulha noutros géneros:
  1. Ambient / Electronica: a faixa é construída sobre uma melodia de glockenspiel (ou sons de sinos sintetizados) que flutua num espaço sonoro vazio, sem batida de percussão (o que é raro no trabalho dele).
  2. Minimalismo: a música foca-se na repetição e na variação subtil de uma única melodia melancólica.
  3. Indie Electronic: pelo tom introspectivo e pela estética "faça-você-mesmo" refinada.
  4. Folktronica (subtil): Devido à textura quase orgânica e delicada dos sons utilizados, que parecem caixas de música antigas.
Uma curiosidade sobre a faixa
"Miss You" faz parte do álbum de estreia de 2006, The Last Resort. Este disco foi um marco porque provou que um produtor de música eletrónica podia criar um álbum narrativo, quase cinematográfico, que funciona tão bem numa sala de estar como num filme.

Conselho de audição: se gostas do lado mais melancólico desta faixa, recomendo que ouças o álbum inteiro. Ele começa calmo e vai-se tornando mais denso e "negro", quase como uma transição do dia para a noite.

Para saber mais sobre o álbum aqui

sexta-feira, 20 de março de 2026

Cat Power - Cherokee


"Cherokee" é uma das músicas mais conhecidas de Cat Power, lançada como single do álbum Sun (2012). Embora seja norte-americana, ela possui ascendência Cherokee (por parte do seu avô materno), o que explica o título da canção e sua forte conexão com a cultura e a história dos povos nativos dos EUA.

Cherokee
Cat Power

It's my way
It's my way down...

I never knew love like this
The wind, the moon, the earth, the sky (sky so high)
I never knew pain like this
When everything dies (...thing dies)
I never knew love like this
The sun, sea you and I (you and I)
I never knew pain, I never knew shame
And now I know why

Bury me, marry me to the sky (x4)

If I die before my time
Bury me upside down
Cherokee kissing me
When I’m on my way down (x2)

I never knew love like this
The wind, the moon, the earth, the sky (sky so high)
I never knew pain like this
When everything dies
I never knew love like this
The sun, sea you and I (you and I)
I never knew pain, I never knew shame
And now I know why

Bury me, marry me to the sky (x4)

If I die before my time
Bury me upside down
Cherokee kissing me
When I’m on my way down(x3)

It's my way down...

Em "Cherokee", Cat Power explora temas de transcendência e libertação face à mortalidade. O verso repetido “Bury me, marry me to the sky” (“Enterre-me, case-me com o céu”) expressa o desejo de ir além da morte física, procurando uma ligação espiritual com o universo. Elementos naturais como “the wind, the moon, the earth, the sky” (“o vento, a lua, a terra, o céu”) reforçam esta procura por algo maior, sugerindo que as emoções vividas são tão intensas como as forças da natureza.

O videoclipe, que mostra Cat Power como uma caçadora de zombies num cenário pós-apocalíptico, intensifica o sentimento de luta pela sobrevivência e o confronto com a morte. Isto transforma a música numa reflexão sobre a resiliência e a possibilidade de renascimento mesmo no meio da destruição. A frase “Cherokee kissing me when I’m on my way down” (“Cherokee beijando-me quando estou a cair”) pode ser vista como uma referência à cultura indígena norte-americana, evocando rituais de passagem e respeito pela terra, ou como um gesto de conforto em momentos de queda emocional. O pedido para ser enterrada de cabeça para baixo sugere uma inversão das tradições sobre a morte, talvez como protesto ou procura de uma nova perspectiva. A sonoridade eletrónica e atmosférica da faixa, marcada por uma mudança de estilo da artista, reforça o tom introspetivo e amplia o impacto emocional da canção.

Recepção e críticas do álbum Sun (2012)

JJ72 - Snow


A canção é do álbum homónimo JJ72 (2020) e aqui

Snow - Letra (Lyrics)
As fast as you can
Run my way again
As fast as you can
I'm waiting

[Refrão]
As fast as you can
Run my way again
As fast as you can
I'm waiting

[Verse 2]
And it's a long way down
To the place where we'll be found
In the snow
In the snow

[Refrão]

And it's a long way down
To the place where we'll be found
In the snow
In the snow

[Verse 2]

As fast as you can
Run my way again

Os JJ72 foram uma das bandas mais marcantes do rock alternativo irlandês no início da década de 2000. Formados em Dublim, o trio destacou-se pela sua sonoridade melancólica e etérea. O tema "Snow" é, sem dúvida, o seu hino mais icónico, servindo de porta de entrada para um álbum de estreia que atingiu o galardão de platina. A canção é definida pela voz invulgar de Mark Greaney — capaz de atingir notas altíssimas — e por uma atmosfera de urgência emocional que capturou perfeitamente o espírito do indie daquela época.

A origem do nome JJ72 
A "Janela de juncos": a explicação mais aceite e citada pelo próprio Mark é que o nome surgiu de uma referência a uma janela específica na escola onde estudavam em Dublim. Segundo ele, havia uma janela (ou uma série delas) que tinha as iniciais "JJ" e o número "72" gravados ou marcados nela. Eles acharam que a combinação soava bem e decidiram adotá-la.

Significado da canção
A canção "Snow" é uma peça central do rock alternativo dos anos 2000, destacando-se pela sua estrutura minimalista que foca intensamente na carga emocional. A letra funciona como um apelo urgente e quase desesperado por conexão, onde a repetição constante de frases como "As fast as you can" (Tão depressa quanto possas) cria uma sensação de pressa e ansiedade juvenil. Esta urgência é contrastada com a imagem estática e silenciosa da neve, que serve como uma metáfora poderosa para o isolamento e para um refúgio emocional onde o ruído do mundo exterior é finalmente silenciado.

Para Mark Greaney, o mentor e vocalista dos JJ72, a neve não representa apenas o frio, mas sim um estado de pureza e uma forma de fuga à realidade. A descida mencionada no refrão ("And it's a long way down") sugere um mergulho profundo na introspeção ou numa relação tão íntima que se torna um esconderijo. É esta dualidade — a energia frenética da batida e da voz aguda contra o cenário gélido e imóvel da letra — que define o impacto da música. No fundo, "Snow" é um retrato da vulnerabilidade adolescente, capturando aquele desejo cru de encontrar um lugar (ou alguém) onde nos possamos perder para, finalmente, sermos encontrados.

Como os nossos sistemas de água passaram da crise ao colapso


O artigo de Tim Smedley, publicado no portal The New Climate, apresenta uma perspetiva alarmante sobre a transição de uma crise hídrica passível de gestão para um verdadeiro colapso sistémico. O autor argumenta que a humanidade ultrapassou o conceito de "escassez" — que implica uma falta temporária — para entrar num estado de "falência hídrica", onde consumimos o capital natural de água doce muito mais depressa do que a natureza o consegue repor. Smedley explica que o ciclo hidrológico global foi quebrado pela intervenção humana, através da desflorestação, da urbanização excessiva e da destruição de ecossistemas como as zonas húmidas, que funcionavam como "esponjas" naturais. Sem estes filtros e reservatórios biológicos, a água da chuva deixa de se infiltrar no solo para recarregar os aquíferos, resultando em cheias destrutivas seguidas de secas extremas, um fenómeno que ele apelida de "chicote climático".

O texto sublinha que as nossas infraestruturas de engenharia tradicionais, como barragens e canalizações de betão, foram concebidas para um clima estável que já não existe, tornando-as rígidas e incapazes de lidar com a nova volatilidade atmosférica. Para além do volume físico da água, o autor alerta para a "água virtual" — a enorme quantidade de recursos hídricos invisíveis que são exportados por regiões secas sob a forma de produtos agrícolas e industriais, como amêndoas, carne ou têxteis, acelerando o colapso local em benefício do mercado global. Smedley aponta também a poluição por químicos persistentes, como os PFAS, que degrada a qualidade da água restante, tornando a sua recuperação financeiramente inviável para muitas comunidades.

Para evitar o abismo total, o autor defende uma mudança radical de paradigma que ele detalha na sua obra "The Last Drop". Esta mudança envolve a adoção de Soluções Baseadas na Natureza (como as promovidas pela IUCN, o restauro de rios e a implementação de uma "transparência radical" no uso da água. O texto baseia-se em dados de organismos como a UN-Water e nos estudos de Johan Rockström sobre os Limites Planetários, concluindo que a solução não reside em dominar a natureza com mais cimento, mas sim em aprender a viver dentro dos limites biológicos do planeta, restaurando a capacidade da própria Terra de gerir e armazenar a água de forma cíclica e sustentável.

Saber mais:

The Common Root, The Open Field


The sun is a golden carpenter, planed and raw,
Not a thought of God, just the heat upon the stone.
I see with eyes that have forgotten how to name,
Stripping the silk from the corn, the myth from the bone.
I am the keeper of flocks that are only the passing wind,
Content to let the river be water, and the air be thinned.

And so the valley breathes a deep, fern-scented sigh,
Where ancient hemlocks haunt the mist-drenched floor.
There is a poetry in the granite’s edge, the eagle’s cry,
The rhythmic pulse of the river’s wild and hidden roar.
I see the silver birch’s bark, a lily in the gloom,
And the vast, tangled geometry of the mountain’s room.

Yet, look closer—there is a circuit made of sun, 
Where silent cells weave the carbon from the air. 
The plant is not a thing, but a process, a run
A thinking heart that finds the cosmic everywhere.
The earth is a living being, dreaming in the dark,
Waiting for the human soul to strike the inner spark.

I walk the lanes where a poet lost his mind to find his soul,
Naming every nested bird and the trembling of the rye.
The fences steal the common, but they cannot take the whole
Of the vast, unlettered music of the open summer sky.
The badger in the brake, the lady-smock in the dew—
Simple things are the only things that are ever truly true.

And when the world begins to fray, when the shadows grow too long,
A steady hand reaches out and leads me through the grief.
To love the world is to mourn it, a fierce and ancient song,
Finding the "Great Turning" in the falling of a leaf.
We are the web itself, the pulse of the ancient deep,
Awakening from the long, industrial, lonely sleep.

Finally, there is the white silence of a master’s hand,
Where the word is a body, bare and salt-washed by the sea.
A solar clarity that understands the shifting sand,
And the brief, bright miracle of what it means to be.
Just the earth. Just the light. Just this breath we share—
The common root of everything, blossoming in the air.

EUA e Irão estiveram à beira de um acordo nuclear, diz Omã


O Ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã, que mediou as negociações entre EUA e Irão, revelou que Teerão e Washington estiveram, por duas vezes, “à beira de um acordo” nuclear nos últimos nove meses. Por isso, Badr Albusaidi sublinha que o ataque conjunto de Israel e EUA contra o Irão foi recebido com “choque”. Para o chefe da diplomacia de Omã, o ataque norte-americano ao Irão foi o “maior erro de cálculo” da administração Trump.

“Por duas vezes em nove meses, os Estados Unidos e o Irão estiveram à beira de um acordo concreto sobre a questão mais complexa que os divide: o programa nuclear iraniano e os temores americanos de que ele se possa transformar num programa militar. Portanto, foi um choque, mas não uma surpresa, quando a 28 de fevereiro — apenas algumas horas após as últimas e mais substanciais negociações — Israel e os Estados Unidos lançaram novamente um ataque militar ilegal contra a paz que, por um breve período, parecera realmente possível”, sublinhou Badr Albusaidi, num artigo publicado no Guardian

Also - Cold Room



"Cold Room" é uma das faixas mais emblemáticas dele. Na verdade, em 2014, ele lançou uma coletânea remasterizada intitulada Locked In A Cold Room 1990-2001, que serve como uma antologia do trabalho da banda ALSO 

Cold Room
(Alexander Dust)

[Verso 1]
Inside the cold room
Nothing to feel
The walls are moving
Nothing is real
I’m waiting for something
That I’ve never seen
Lost in the shadows
Of where I have been

[Refrão]
Locked in a cold room
Frozen in time
Watching the rhythm
Of a life that's not mine
Locked in a cold room
Nowhere to go
Waiting for secrets
I already know

[Verso 2]
The silence is screaming
Inside of my head
Counting the words
That I never said
The light is fading
Outside the door
I don’t want to feel
This way anymore

[Ponte / Final]
Just a cold room...
Just a grey room...
Where the shadows dance
And the memories bloom.

A canção "Cold Room", de Alexander Dust, é uma exploração profunda da estagnação emocional e do isolamento melancólico, servindo como uma metáfora perfeita para um estado de depressão ou de desorientação psicológica. Ao descrever um "quarto frio" onde as paredes se movem e nada parece real, o autor transporta-nos para um espaço mental onde o indivíduo se sente desconectado da realidade. O ponto fulcral da letra reside na sensação de despersonalização, visível quando o eu lírico afirma estar a observar o ritmo de uma vida que já não sente como sua, como se fosse um mero espectador da própria existência, paralisado e "congelado no tempo".

O segundo verso introduz uma angústia mais ativa, onde o silêncio se torna ensurdecedor e as palavras que ficaram por dizer pesam na consciência. Há um desejo de fuga — um cansaço de sentir este vazio — mas a música termina com uma aceitação sombria: o quarto cinzento é o lugar onde as sombras dançam e as memórias, embora dolorosas, são as únicas coisas que ainda "florescem". 

quinta-feira, 19 de março de 2026

Anna Calvi - I See A Darkness (feat. Perfume Genius)


Letra
[Verse 1]
Well, you're my friend
That's what you told me
And can you see?
What's inside of me
Many times we've been out drinking
Many times we've shared our thoughts
Did you ever, ever notice
The kind of thoughts I got?

[Verse 2]
Well, you know I have a love
For everyone I know
And you know I have a drive
To live I won't let go
But can you see this opposition
Rising up sometimes
And it's dreadful imposition
Come blacking in my mind

[Chorus]
And then I see a darkness
And then I see a darkness
And then  I see a darkness
And then I see a darkness
Do you know how much I love you?
It's a hope that somehow you
Could save me from this darkness

[Verse 3]
Well I hope that someday, buddy
We'll  have peace in our lives
Together or apart
Alone or with our wives
And we can stop our whoring
And pull the smiles inside
And light it up forever
And never go to sleep
My best unbeaten brother
This isn't all I see

[Chorus]

É importante notar que "I See A Darkness" é um cover. A música foi escrita originalmente por Will Oldham (sob o nome Bonnie 'Prince' Billy) em 1999. Diferente da versão original (que é mais contida, quase leve e melancólica), a interpretação de Calvi e Perfume Genius é carregada de drama. Ela mistura o virtuosismo da guitarra de Anna com harmonias vocais etéreas, criando um som que pode ser descrito como Noir Rock ou Dark Pop.

O significado central dessa composição percorre temas densos e introspectivos, funcionando como um mergulho profundo na psique humana. O ponto central é a luta contra a depressão, onde a "escuridão" mencionada não deve ser interpretada como algo externo, mas sim como um estado mental persistente. O narrador reconhece que, mesmo cercado por amigos e momentos de paz, existe uma sombra interna que ameaça constantemente sua estabilidade emocional e sua percepção de felicidade.

Essa batalha interna reflete-se na dualidade da amizade, uma vez que a letra é estruturada como uma conversa íntima com um companheiro próximo. Nela, o eu lírico expressa o desejo genuíno de ser um "melhor amigo" e de retribuir o afeto recebido, mas confessa, com uma honestidade brutal, que a escuridão interior muitas vezes o impede de estar totalmente presente ou de ser a pessoa que ele gostaria de ser.

Por fim, a obra se manifesta como uma súplica por esperança. Existe um contraste latente entre o pavor paralisante dessa "escuridão" e a crença — ainda que frágil — de que o amor, a vulnerabilidade e a conexão humana verdadeira possam, eventualmente, servir como um antídoto para vencer esse abismo emocional.


A Convergência e Divergência entre Bioeconomia e Economia Ecológica


A transição global para um modelo de desenvolvimento sustentável exige uma reavaliação fundamental da forma como produzimos, consumimos e interagimos com o meio ambiente. Neste cenário, emergem duas abordagens distintas, embora interligadas, que procuram reformular a relação entre a economia e a natureza: a Bioeconomia e a Economia Ecológica. Embora partilhem o objetivo comum de reduzir o impacto ambiental, as suas premissas filosóficas, focos de intervenção e visões sobre o crescimento divergem significativamente, oferecendo caminhos que podem ser complementares, mas também conflituosos.

A Visão da Bioeconomia: Substituição e Eficiência Tecnológica
A Bioeconomia centra-se na substituição de recursos de origem fóssil e de processos industriais intensivos em carbono por alternativas de base biológica. O conceito evoluiu de um foco inicial na biotecnologia para uma visão mais abrangente, que inclui a produção sustentável de biomassa e a sua conversão em produtos de valor acrescentado (alimentos, bioprodutos e bioenergia).

A premissa fundamental da Bioeconomia é que a inovação tecnológica pode promover o "desacoplamento" (decoupling) entre o crescimento económico e a degradação ambiental. Procura-se a eficiência através da utilização da biomassa em cascata, onde cada componente do recurso é aproveitado, aproximando-se dos princípios da economia circular. Nesta ótica, a natureza é frequentemente vista como uma fornecedora de serviços e matérias-primas, enfatizando-se a criação de novos mercados.

A Perspetiva da Economia Ecológica: Limites e Escala Biofísica
Por outro lado, a Economia Ecológica parte do princípio de que a economia é um subsistema de uma biosfera finita e ecologicamente restrita. Esta disciplina não se foca apenas na eficiência, mas sobretudo na escala da atividade económica e na justiça distributiva. Fundamentada nas leis da termodinâmica, a Economia Ecológica argumenta que o crescimento económico perpétuo é impossível num planeta com recursos finitos e capacidade limitada de absorção de resíduos.

O foco não reside apenas em substituir o petróleo, mas em reduzir o "metabolismo social" — o fluxo total de energia e materiais que atravessa a economia. Esta abordagem reconhece o valor intrínseco da natureza e a necessidade de manter a resiliência dos ecossistemas. Para os economistas ecológicos, a sustentabilidade exige limitar o consumo e garantir que as atividades humanas não ultrapassam as fronteiras planetárias.

Pontos de Tensão e Síntese Necessária
As tensões surgem principalmente em torno do crescimento económico. Enquanto a Bioeconomia se alinha com o "Crescimento Verde", a Economia Ecológica é mais cética, defendendo frequentemente o "Decréscimo" (degrowth) ou uma "Economia de Estado Estacionário". Outro ponto de atrito é a visão da natureza: a Bioeconomia pode tender a instrumentalizá-la, enquanto a Economia Ecológica defende a sua preservação para além da utilidade económica.

Concluindo, estas duas correntes não devem ser vistas como mutuamente exclusivas. A Bioeconomia oferece as ferramentas tecnológicas para uma produção mais limpa, enquanto a Economia Ecológica fornece a estrutura macroeconómica e ética necessária para garantir que tais tecnologias sejam aplicadas dentro de limites seguros. A convergência para uma "Bioeconomia Ecologicamente Orientada" poderá ser o caminho mais robusto para uma verdadeira sustentabilidade.

CaracterísticaBioeconomiaEconomia Ecológica
Foco PrincipalSubstituição de recursos fósseis por biológicos (biomassa).Sustentabilidade biofísica e justiça social.
Visão da NaturezaFonte de matéria-prima e motor de inovação tecnológica.Ecossistema complexo que limita e sustenta a economia.
Solução PropostaBiotecnologia, biorrefinarias e novos mercados verdes.Redução da escala económica e respeito pelos limites planetários.
Relação com o PIBProcura o "Crescimento Verde".Defende frequentemente o "Decréscimo" ou o "Pós-crescimento".
Métrica de SucessoEficiência na conversão de recursos e lucro sustentável.Manutenção do capital natural e equidade distributiva.
Referências Bibliográficas 
  1. Bugge, M. M., Hansen, T., & Klitkou, A. (2016). What is the bioeconomy? A review of the literature. Sustainability, 8(7), 691.
  2. Daly, H. E., & Farley, J. (2011). Ecological Economics: Principles and Applications. Island Press.
  3. Georgescu-Roegen, N. (1971). The Entropy Law and the Economic Process. Harvard University Press.
  4. Kenneth Boulding (1966) - The Economics of the Coming Spaceship Earth
  5. Martinez-Alier, J. (2002). The Environmentalism of the Poor: A Study of Ecological Conflicts and Valuation. Edward Elgar Publishing.
  6. OECD (2009). The Bioeconomy to 2030: Designing a Policy Agenda. OECD Publishing.
  7. Vivien, F. D., Nieddu, M., Befort, N., Debref, R., & Giampietro, M. (2019). The hijacking of the bioeconomy predictions by the biotechnology narrative. Ecological Economics, 159, 189-197.